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História

No ramo da sacaria

História de: Miguel Perez Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Infância em fazenda no interior de São Paulo. Descrição dos pais, imigrantes espanhóis que trabalhavam na lavoura de café. Migração para Jundiaí e São Paulo. Escola e brincadeiras na fazenda. Início do trabalho no ramo de sacaria. Importância do estoque do produto e perfil do consumidor. O trabalho de recuperação da sacaria. Importação da matéria-prima e industrialização do produto. O atacado na zona cerealista. Casamento. Formas de pagamento e modernização do trabalho de recuperação da sacaria. Aquisição de fazenda no Paraná e produção de café, feijão e milho. Queda nas vendas de sacaria.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome completo é Miguel Perez Filho. Nasci no dia 17 de fevereiro de 1916, em Campinas, estado de São Paulo, numa fazenda cujo proprietário era Presidente da República, Campos Salles. Meu pai se chamava Miguel Perez Gonzalez e minha mãe, Antônia Perez Caparroz. Eles nasceram na Espanha, na província de Almería.

TRABALHO DO PAI NA ESPANHA

Na Espanha a família trabalhava com hortaliça, que lá significa legumes. O meu avô ficava numa cidade maior e todos os dias ele recebia os legumes pra vender lá. Eles embarcavam num trem que demorava duas horas. Meu pai contava que, com 15 anos, levava essa mercadoria até a estação em lombo de burro.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Meu avô veio pro Brasil porque naquele tempo a Espanha tinha muitas concessões. Quem ia pra Marrocos não voltava mais e meu avô tinha quatro filhos que estavam na hora de entrar para o Serviço Militar. Então, por causa disso, em 1913 ele liquidou tudo e vieram embora pro Brasil: meu avô, meus tios e meu pai. O meu pai já veio casado e trazia a Maria, minha irmã mais velha. Vieram como imigrantes e foram diretamente pra fazenda. E eu me lembro dela como se fosse hoje. Taquaral sai da estrada de ferro. Aquela avenida, que é Campos Sales, passa por baixo e vai pro Bairro do Castelo, entra pro Taquaral e depois tem uma subida e uma descida. Antes de chegar no Rio Jaguari, à direita, tem a entrada da fazenda: Santa Odília.

INFÂNCIA NA FAZENDA

Na minha infância, na fazenda, não tinha escola. Então a brincadeira lá era com a criação de cabritos. Com nove anos eu já montava a cavalo. Eu tinha um irmão que nasceu nessa fazenda, mas morreu de sarampo. Naquele tempo não havia quase recurso. Eu também peguei o sarampo, mas escapei porque eu comi uma lata de sardinha. O meu pai foi fazer compra em Campinas e então, a gente tinha um regime do médico lá que nós só podíamos comer canja de franguinho novinho. E era uma fome desgraçada! Eu vi meu pai abrir uma lata de sardinha e colocar lá no quarto dele. Então, de noite, quando eles estavam dormindo, eu comi a lata inteira. Ele foi correndo lá no vizinho italiano, que era o maquinista da máquina de café e entendia de muita coisa. Falou: "Olha, eu vou perder também o Miguelzinho" e contou o que tinha acontecido. E ele: "Não, não vai perder." Aí me deram um óleo de rícino e soltei tudo aquilo, foi a minha salvação. A gente brincava de pular e, de vez em quando, a gente ia pescar num lago muito grande que tinha em frente.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO PAI

Na fazenda meu pai carpia café. Depois ele foi melhorando e aí puseram ele de feitor. Depois uma parte da família veio pra São Paulo e começou a trabalhar no ramo de sacaria. Aí ele viu que o negócio aqui rendia mais e pediu a conta. Mas quando ele pediu a conta, arrebentou a Revolução de 1924. Os que estavam aqui fugiram pra lá. Nós tínhamos umas reservas para que, se não fosse bem aqui, era só voltar pra trás. Mas acabou tudo porque umas 10, 12 pessoas fugiram pra lá. Eu era menino ainda quando escutei meu avô falar com meu pai: "Olha, você por enquanto fica aqui e vê se fala aí com o administrador. Vê se você fica um mês ou mais pra ver se aquilo lá normaliza, e aí você vai pra São Paulo." Mas o meu pai disse: "Eu já acertei a conta com o homem, o que é que eu vou falar com ele?" Aí o meu pai e mais o filho de um italiano foram pra Jundiaí. Lá, ele foi trabalhar numa fábrica, fundição da companhia mecânica, era uma firma importante. O meu pai era franzino, então o feitor lá olhou pro italiano, que era fortão, e já falou: "Olha, pro senhor eu tenho serviço, mas pra esse senhor aí não, que ele não aguenta." O italiano falou pro homem: "O senhor está enganado, o serviço que eu fizer ele faz." Então ele deu o serviço pro dois. Mas coitado! O serviço deles era segurar uma peça de 15 quilos numa tenalha, sendo que naquele tempo não tinha máscara pra trabalhar na boca do forno. Então vinha fagulha e não podia largar o negócio. Depois de 15 dias, o italiano pediu a conta. O homem perguntou pro meu pai: "E o senhor, também vai embora?" "Não, eu vou ficar ainda". Ele ficou mais oito dias e então também pediu a conta. Ele falou: "Eu fiquei mais oito dias porque, quando nós viemos pedir emprego, o senhor disse que eu não aguentava o serviço." Saindo de lá ele arrumou um serviço por mais um mês numa firma importante, a Vianelo, que ficava numa chácara. O trabalho era fazer a limpeza da chácara que ficava na Rua Bom Jesus de Pirapora.

MUDANÇA PARA SÃO PAULO

Viemos pra São Paulo, mais ou menos em 1925. Viemos morar aí na Rua Carlos Garcia, no Brás, uma paralela ali da Avenida do Estado. Fica em frente ao mercadão, do lado de cá da Santa Rosa. Meu avô já estava aqui com os filhos solteiros e minha avó.

EDUCAÇÃO

Eu fui pro Grupo Escolar do Brás, que hoje é Romão Puiggari. O ministro Ricupero estudou lá também. Naquele tempo tinha aula de canto, de piano, e eu me lembro de uma professora baixinha que mandava a gente cantar aquela parte do hino: "Já raiou a liberdade, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil." Então, uma hora nós dizíamos certo, outra hora nós dizíamos: "Já raiou a liberdade no horizonte é do Brasil!". E ela dizia: "Não é do Brasil, toca outra vez!" e ficamos um ano nessa.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

Meu avô começou nesse ramo de sacaria vazia. Ele comprava a sacaria assim avulsa. Quem tinha ia lá vender pra ele ou ele mesmo ia nos empórios e comprava. Foi assim que eu comecei a trabalhar, costurando sacos à mão. Eu saía do grupo escolar e tinha que fazer 50 sacos, senão não ia bater bola. A gente batia uma bola onde hoje é o mercadão. A matéria-prima era juta, que vinha da Índia e, por esta razão, os sacos novos eram caros. Só depois que começaram a ser plantados aqui no Amazonas, por uma colônia japonesa que veio só pra isso. A fábrica ainda existe, em Manaus. Mas os sacos eram fabricados aqui em São Paulo pela Companhia Paulista de Alinhagem, que era a tal dos Penteado. Ficava aqui na entrada da Avenida do Estado, onde hoje tem aquela igrejona. Tinha campo de futebol e tudo. Nós nunca pensamos em fabricar os sacos porque o material vinha de fora e precisava de muito capital para a importação. Todas as fábricas estavam amarradas ao Banco Comércio e Indústria, que financiavam a importação da juta. Então, não era qualquer um que podia fazer esse negócio, precisava ter muito lastro. O plástico só começou a ser utilizado como matéria-prima de uns 20 anos pra cá. Nesse nosso ramo, quem mandava era a portuguesada. E eu tinha muitos amigos portugueses. Então um tio meu, que era caçula, foi pro Rio de Janeiro fazer compras pras três firmas da nossa família aqui. Um dia ele me telefonou e disse: "Olha, tem um negócio que eu quero dar pra você. Você embarca hoje à noite e amanhã esteja aqui no Rio". Eu cheguei lá ele falou: "Olha, eu tenho um negócio pra você, mas é em Vitória. Você precisa ir pra lá hoje à noite porque a concorrência é depois de amanhã". Era 1940, 1942, e eu fui pra Vitória. No tempo da guerra só tinha trem. Demorei 24 horas de trem do Rio até Vitória. E eu ganhei essa concorrência. Foi onde a gente começou a ganhar um pouco de dinheiro pra subir na vida. Naquele ano, deu muito arroz no Triângulo Mineiro e o Banco Itaú, que estava começando naquela época, comprou arroz lá e tinha aberto uma agência na Rua Paula Souza. E então, ninguém tinha dessas sacarias. Só tinha essa sacaria na praça, a que eu tinha comprado. Quando eu cheguei de viagem carreguei um trem com vinte e poucos vagões, um trem inteiro. Eu tinha 25 anos, estava num lugar onde não conhecia ninguém e pensei : "Como é que eu vou carregar isso sozinho?" Aí eu me lembrei que havia uma agência de transporte, Pestana, que tinha aqui em São Paulo, no Rio, em Lindoia. Falei com o gerente: "Eu tenho essa carga para São Paulo e preciso requisitar vagão" "Pois não." Tratamos o preço pra ele fazer o carregamento e ele telefonou na minha frente pro chefe da estação. Então, ele falou: "Amanhã cedo vamos começar a carregar." No dia seguinte, começamos a carregar. Justamente o banco que estava comprando o arroz, não tinha sacaria. Ninguém tinha. O gerente soube da gente porque o concorrente disse: "O único que tem essa mercadoria é o Miguel Perez." E por acaso eu fui ao banco e ele me disse: "Você tem sacaria pra arroz em casca?" "Tenho, mas eu tenho que aprontar, demora." "Não tem problema. Quanto você tem?" Eu não falei a quantia certa, falei menos: "Mais ou menos 200 mil." "Que preço?" Eu pedi oito cruzeiros. "Oito cruzeiros? Muito bem, eu vou falar com a diretoria." Enquanto ele falava com a diretoria, eu avisei que estava indo pro armazém do Josias e que qualquer coisa ele podia me encontrar lá. "Tá bem, Miguel, você me espere lá, mas pode ter certeza que nós precisamos mesmo." Não demorou 15 minutos e ele chegou: "Olha, eu falei o preço e o negócio está fechado." Então eu entreguei a sacaria pra ele: "Eu preciso de mais, a firma precisa de mais outro tanto. Quanto é que você tem?" "Uns 200 mil". O que eu tinha passava um pouco, mas esse pouco eu deixei pra trás, uns 15 mil. Meu pai era um homem de bom coração e eu, quando cheguei, falei: "Se o senhor vender um saco desse pra um concorrente aqui, eu vou embora de casa! Aqui não fico, não." "Não, filho, não vou vender." Então eu comprei a propriedade da família de um velho que vinha descarregar a sacaria. Ele tinha uma filha que era casada com o filho de um homem muito rico em Cafelândia, um espanhol que trabalhava em café. O velho precisava de 20 mil sacos e foi lá falar com o meu pai, que respondeu: "Fala com o meu filho, esse negócio é com ele, eu não me meto." "Então o senhor não manda mais na tua casa, quem manda é teu filho?" "Eu já disse que esse negócio é com ele." Eu fiz pra ele o mesmo preço que eu tinha vendido a primeira remessa pro banco, que era pra ele ter um pouco mais de lucro. Ele não sabia que eu tinha vendido pro banco e não entendeu: "Você está louco!" E foi falar pro meu pai que precisava me internar no Juqueri, que eu estava louco. E meu pai: "Senhor Julian, ele fez pro senhor o mesmo preço que vendeu pro banco, tá dando chance pro senhor ganhar três, quatro cruzeiros em cada saco." Quando o velho entendeu, ele falou: "É, você tinha razão, você tem sorte no negócio". E eu: “Sorte não, senhor Julian, tenho visão." Porque ninguém tinha mercadoria. Então, se ninguém tem, eu vou jogar fora? Não, eu vou é segurar pra explorar o preço. Tinha outros estabelecimentos de sacaria, mas dominava quem tinha mais capital. Era uma mercadoria que se vendia uma ou duas vezes por ano somente. Então, o resto do tempo era aprontar, empilhar e esperar preço. E ganhava quem era sabido e especulava. Naquela época o Moinho Santista moía o caroço de algodão e sobrava aquele farelo de algodão, então já comprava sacaria pra farelo. Eu fui o primeiro a explorar vender nas indústrias pra farelo, para isso, para aquilo. E foi assim que o ramo começou a se alastrar mais. E nós ganhamos dinheiro aquele ano. Quando fomos fazer o balanço, meu pai disse: "Será que alguém tem dinheiro a receber de nós e esqueceu de receber?". Eu disse: "Não, pai, o senhor pode fazer a conta, a mercadoria não chegou a custar um cruzeiro e nós vendemos a mais barata a oito cruzeiros. Teve despesa de tanto, então, em média nós ganhamos uns sete cruzeiros por cada saco e daí pra cima." “É, tanto saco a tanto, você tem razão." Pra gente ver como às vezes é a inocência das coisas. Foi então que a gente começou a comprar as propriedades que temos no Paraná, começamos a comprar terras.

REGIÃO CEREALISTA

Na região cerealista, o pessoal recebia a mercadoria vinda do interior. Eles recebiam vagões com 200, 300 sacos de feijão ou de milho. Então, os que tinham empório iam lá e compravam dez, quinze, vinte sacos de feijão, por exemplo. Eles eram atacadistas mesmo. Mandavam aqui pra zona da Central do Brasil, pra Jacareí, São José dos Campos, Rio de Janeiro. Já a batata estava na mão da espanholada. Então, tinha um moinho de fubá que foi o meu fiador pra eu casar com a dona Lourdes. Meu sogro foi tirar informação de quem eu era e ele tinha um negócio o dono do moinho. E ele disse "É um bom rapaz".

CASAMENTO

Eu costumava ir ao cinema em todas as matinês, aos domingos, e foi lá que eu conheci a minha esposa, Lourdes. No cinema Brás Corintiano. O filme eu não lembro, só lembro que ela estava vestida com uma roupa de marinheiro e eu chamei ela de marinheiro de água doce. Ela não falou nada. A gente namorou durante três anos. Passeávamos à noite na chamada ‘marmelada’, que era um passeio que tinha à noite num trecho da Avenida Rangel Pestana. Os moços ficavam lá conversando e as moças também. Isso há 54, 57 anos. Nos casamos no dia 1º de junho de 1940. Lembro que tinha muita gente, muitos convidados. A gente era muito conhecido e a Igreja Santo Antônio do Pari lotou aquele dia. Não sei se ela lembra. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Eu fiquei uns tempos com o meu pai e aí entraram uns “intrusos” na família, meus oito irmãos, e eu tive que sair porque não dava mais. Meu pai queria proteger os genros também e, coitado, ele era de boa fé. Mas eu tinha um cunhado que falava mal de mim pro meu pai. Um dia nós recebemos uma fiscalização e o fiscal era meu conterrâneo, o Diogo. Então esse meu cunhado foi falar pro meu pai uma mentira, que eu tinha puxado o revólver pro fiscal. Eu falei: "Isso é mentira, quem falou isso pro senhor? Manda falar com o Diogo, aí o senhor vai ver se eu puxei o revólver mesmo." Então eu tive que sair. Porque eu deixei ele entrar pra a firma sem capital quase nenhum, pra ajudar, por um pedido do meu pai. Mas como se diz na gíria, ele fez a minha caveira. Mas eu me saí bem. Eu tive sorte. Eles quebraram e eu ganhei mais dinheiro. Eu saí de lá e fiquei sócio de um outro cunhado meu, Antônio, numa firma que eu abri na Rua Paula Souza mesmo, chamada Perez e Rodrigues. Uns quatro anos depois é que eu fundei a Comercial e Sacaria Perez. Sempre trabalhando no atacado. E nessa época, o meu filho já era mocinho.

CLIENTES

Eu tinha clientes como Frederico Platzek, lá da Barra Funda. Ele foi a primeira firma a abrir no interior com essas filiais grandes de secos e molhados. Hoje ele se dedica aos filhos e à construção e venda de edifícios. Ele ainda mora no mesmo lugar onde morava naquela época, no fim da Rua Avanhandava, que não tem saída, num casarão assim em frente. Esse comprava e vendia muito. Fazia fechamentos grandes com o Moinho Santista, com o Minetti & Gamba e todos esses moinhos. A Sadia também chegava a comprar sacaria para trigo. Ela moía o trigo e fazia farinha. E era por isso que eu tinha negócio no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás. Aliás, em Goiás eu tentei um negócio com o cunhado do Governador, Íris Resende. Eu conheço muita gente ali.

FORNECEDORES

Tinha muito jutador, por exemplo, que tinha uma caminhonete, comprava na rua e jutava na casa dele. Depois vinha me vender: "Tenho tanto mil sacos, interessa? Quero tanto por eles.". E eu comprava. Como outros eu fazia negócio direto nas firmas que despejavam muito. Onde tivesse esse negócio de saco, a gente estava lá. FORMAS DE PAGAMENTO Pagamento era um ramo muito ingrato: você precisava comprar à vista, facilitar e ter outro estoque. Precisava ter três capitais pra girar bem. Você tinha que ter um dinheiro pra compra, outro pro estoque e outro que você precisava dar no mínimo 30 dias pro freguês. Às vezes era onde a gente tirava vantagem. O pagamento dos fornecedores tinha que ser sempre à vista. Comprava, tinha que pagar. Um ajuntador que vivia daquilo, se não tivesse dinheiro não saía no dia seguinte pra comprar.

FORNECEDORES

E sempre foi assim. A primeira vez que eu fui no Rio comprar sacaria, eu cheguei no homem mais forte do Rio de Janeiro e ele tinha três armazéns lotados de sacos. E aqui eu precisava. Eu não chegava nela pra ele não desconfiar. Eu só falava na outra. Moreira & Irmãos era a firma. “Tu não queres essa rede?" Eles chamavam de rede a sacaria pra guardar batata. "Então, tu não queres essa rede, seu Miguel?" "Não. Essa de arroz limpo, quanto vale?" "Essa tem pouca." Até que uma hora nós sentamos: "Bom, vamos combinar. Que preço o senhor faz naquela de arroz? Eu quero tanto de sacos." "Não dá pra fazer tanto. Fica com a batata e eu te faço tanto." "Mas isso aí não dá, eu só posso lhe pagar tanto." E ele: "Tá fechado." Perg untei quanto ele tinha e me respondeu: "Tenho 300 mil." Trezentos mil, ele começou a carregar e passou da conta, eu falei pra ele: "A cada cem mil que o senhor mandar eu lhe mando o dinheiro." "Está bem, ninguém está a falar nada". Ele falava muito bem o português. Então, no primeiro cem mil que me mandou, eu mandei o dinheiro. Carregou mais cem, eu mandei novamente. Aí ele carregou além daquilo que eu tinha comprado e eu falei: "Seu Antônio, o negócio já está meio estranho..." "Bota isso pra lá, alguém está te pedindo dinheiro?" Eu tinha uma amizade com eles no Rio de Janeiro. Então, às vezes, quando chegava o mês de setembro, agosto, eu fazia compras e eles diziam: "Olha, o dinheiro eu preciso só para o começo de dezembro porque eu vou pra terra. Vou dar um passeio cultural à terra." Era assim o negócio. Precisávamos ter nosso estoque sempre bem abastecido, sempre cheio. Eu tinha uma clientela grande por todo lado. Tínhamos viajantes também, que era um cara que viajava na linha Sorocabana e Paulista e fazia todas as praças. Eram quarenta e tantas máquinas de cerzir e dez mil sacos por dia de produção.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

A primeira máquina meu pai comprou de um homem que veio do Rio Grande do Sul, mais ou menos em 1944. Depois compramos mais na Singer, em 1945. Então, mais tarde, compramos mais meia dúzia de uma vez, novas, também na Singer. Precisava esperar vir dos Estados Unidos pra fazer o pedido e aguardar. Éramos eu e meu pai que fazíamos as vendas, mais eu do que ele. Depois eu tinha um primo que também tomava conta de todo o serviço e trabalhava no caminhão. Compramos um carro de um vizinho lá, um Ford 34, chassi comprido, carregava 80 sacos de 60 quilos. Nós tínhamos um motorista, mas às vezes o motorista fazia um serviço à noite, como embarcar cebola que o passageiro do Rio pegaria no vagão em Guaiaúna. Então, eu batia de dia com o caminhão porque às vezes ele precisava à noite. Nessa época eu trabalhava até a hora do almoço, da Barra Funda pra Santa Rosa. Transportávamos a sacaria e também alguns cereais, lá no começo, quando se abriu a zona Sorocabana. Eu conheci Presidente Prudente quando a cidade não tinha nem 60 casas de madeira. Naquela época, lá dava muita batata, milho e feijão, com os quais nós chegamos a trabalhar graças ao meu tio Martin, que morava em Pindorama, lá perto de Cataluma. Ele foi pra lá porque aqui era já era muito explorado. Então nós mandávamos sacaria e ele mandava os cereais. Depois, quando nós compramos as terras lá no Paraná, eu também abri uma firma de cereais (feijão e milho). As terras compradas tinham 110 alqueires de terra, onde plantamos 124 mil pés de café. Um dia, num domingo de manhã, eu e o meu pais fomos almoçar. Já produzíamos o café e então eu falei: "Eu tenho que falar uma coisa pro senhor" “Mas o que é?" "Agora eu vou falar aqui na frente do seu Garcia. O senhor lembra que eu falei que o senhor ia ser fazendeiro, que o senhor estava desesperado?" Aí o meu velho começou a chorar, coitado. Às vezes ele ia pra lá com a minha mãe e ficava duas, três semanas. E por onde eu viajei não vi terra igual pra produzir como no norte do Paraná. Naquela época era terra virgem. Então, nós desmatamos pra plantar o café. Quando não estávamos produzindo café, plantávamos feijão e milho. Um litro de feijão dava cinco, seis sacas de 60 quilos, depois de plantado. Eu vendia na Santa Rosa. Lá tinha a bolsa dos corretores. Quando chegava um vagão de milho o Caldeira, um corretor que era português, dizia: "Manda uma viagem pra fulano, outra viagem pra fulano." Às vezes o Caldeira também comprava uma viagem de milho. Eu trabalhei na sacaria até 1985. Foi quando comecei a ficar doente.

PROBLEMAS DE SAÚDE

Começou me doendo a barriga das pernas. Na ocasião eu estava vacinando o gado. E eu fui tomar banho e tinha aquele negócio no dedinho que começou a coçar, fez uma feridinha que não cicatrizava e começou a se alastrar. Foi quando fui ao médico e ele viu que não tinha circulação, então teve que amputar minha perna. Então, quando foram me colocaram na cama, machucaram meu outro calcanhar, e então, tive que amputar a outra perna também.

RUMOS DO NEGÓCIO

Hoje quem continua o trabalho são meu filho e meu neto. Esse é um ramo pelo qual precisa ter muito amor, precisa saber explorar, não é qualquer um que se mete e pensa que entende do negócio. Precisa conhecer mesmo a mercadoria. Antigamente o arroz, por exemplo, vinha em sacos de 60 quilos, numa estrada de ferro. E isso acabou. Hoje existem as máquinas do interior que beneficiam o arroz e já empacotam em pacotes de 1 ou 5 quilos que vêm em caminhões baú, fechados, e saem direito para os supermercados. Para mim, no futuro os sacos só vão existir para alguns tipos de cereais, como arroz, feijão, milho. Vem acontecendo uma queda na venda das sacarias porque surgiu a mercadoria a granel, que não precisa ser ensacada e vai direto pro porto. Por exemplo, a soja do Paraná era toda ensacada e ia pro porto, depois aquela sacaria era desfeita e colocada à venda. E eu comprava. Agora vai direto pro porto à granel e talvez por isso o ramo tenha fracassado. Uma fonte de muita sacaria é o Instituto do Álcool e do Açúcar. Eles chegavam a vender, na ocasião de concorrência em Santos em concorrência, 1,5 milhão de sacos. Santos e Maceió.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA

Acho importante as pessoas saberem como eram as coisas nos tempos passados. Por exemplo, no tempo que eu fui ver no Paraná se vendia um saco de feijão de 60 quilos por 10 mil réis. Hoje valem uma fortuna! É bom que saibam que havia vontade.

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