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História

No morro tem cultura, e da melhor qualidade!

História de: Roberta Carvalho de Alencastro Guimarães
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Criação do evento Arte de Portas Abertas. Abertura do Casarão dos prazeres. Intercâmbio cultural entre Brasil e França. Engajamento da comunidade. Quebra de pré-conceitos. Arte e cultura brasileira em várias formas, com várias caras e cores.

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História completa

P/1 - Bom dia Roberta, eu gostaria de começar nosso depoimento pedindo que você nos dissesse seu nome completo, o local e data de nascimento. 

 

R - Eu sou Roberta Carvalho de Alencastro Guimarães, nasci no Rio de Janeiro em 16 de novembro de 1964.

 

P/1- Em termos de formação profissional?

 

R – Estudei Análise de Sistemas mais Administração, mas sou produtora cultural.

 

P/1 - Qual seu elo com o bairro de Santa Teresa?

 

R – Vim morar em Santa Teresa em 1992. Vim porque casei com uma pessoa que morava aqui e participei da criação do Arte de Portas Abertas, que é um evento que a gente está realizando nesse fim de semana aqui. Eu moro aqui, dirijo o Centro Cultural Parque das Meninas e passo minha vida por Santa Teresa.

 

P/1 -  Sobre esse evento Portas Abertas desse ano, alguma peculiaridade? Quer dizer, quais são as variações? O evento está grande? Tem muitas pessoas visitando o bairro? Como você avalia?

 

R – A gente cresce a cada ano. A gente, em toda edição, a gente acha que ele não tem mais para onde crescer, que ele chegou num ponto de maturidade. Mas a gente mesmo fica inventando novidade e ele vai crescendo. Esse ano, acho que agregar o Casarão dos Prazeres foi muito importante, a gente já tinha feito uma iniciativa que aqui no morro, no ano passado, o Casarão ainda estava fechado. Era um pouco uma frustração a gente estar pintando os  muros em volta e essa casa tão linda, fechada. A gente teve um confronto com a polícia, que entrou aqui dizendo que o morro não é espaço de cultura, que no morro não tem cultura, no morro só tem bandido e quem dá cultura para bandido, é bandido também.  Era o mote que eles gritavam. A gente estava fazendo uma festa de encerramento. E esse ano a gente está dando o troco, provando que no morro tem cultura sim, o pessoal vem ver e é da melhor qualidade. 

 

P/1 – E como é que é essa parceria do Casarão dos Prazeres com o evento Santa Teresa de Portas Abertas? 

 

R - O Casarão está nos cedendo espaço e está acolhendo a exposição Urbanos e Diferentes Rio-Paris, um intercâmbio que nós fizemos com um evento similar que acontece em Belleville, em Paris, exatamente igual ao Portas Abertas, que lá se chama Porte _____ . Nós não descobrimos antes da 12ª edição. Mandamos para lá 12 brasileiros que participaram do evento em Paris e estamos recebendo 12 franceses. Os trabalhos desses 24 artistas estão expostos aqui no Casarão dos Prazeres. Nós abrimos com uma festa para 500 pessoas que foi muito bonita. 

 

P/1- E o por que da escolha do Casarão para sediar essa exposição?

 

R – Nós temos quatro exposições para distribuir pelo bairro, mas nós entendemos que essa era a jóia da coroa dessa edição, esse Casarão, por ser a primeira vez que ele estava abrindo para Artes Plásticas, revelando. Porque a gente achava que era mais bonita e até para que os franceses tivessem um pouco de contato mesmo com o Brasil de todos os níveis, de todas as classes, de todas as caras, de todas as cores. 

 

P/1- Existe a parceria do Parque das Meninas e o Casarão?

 

R - Existe uma parceria dos administradores que trabalham para a mesma prefeitura, que tem afinidades de cabeça, de pensamento, que desejam a mesma coisa para o bairro. Mais um apoio moral e de projetos do que uma parceria institucional.

 

P/1- Em relação aos franceses, algum comentário que você tenha ouvido em relação à casa, ao evento? 

 

R – Eles ficaram muito encantados com a visitação do dia da abertura, do povo mesmo ter vindo, da juventude bonita do morro estar dentro da exposição, estar olhando os trabalhos, discutindo os trabalhos. Foi uma festa muito linda mesmo. 

 

P/1- Pra você, o que significa o Morro dos Prazeres?

 

R – Olha, particularmente, aqui com essa casa, eu tenho uma grande relação com o morro. Eu fiz esses projetos aqui, admiro muito o pessoal da Associação de Amigos dos Prazeres, a Cris, o Flávio, a Denise. São pessoas que trabalham muito, que conseguem muita coisa. Eu costumo brincar com o pessoal da Associação do Bairro, que eles tinham que vir aqui para aula de Associação de Amigos. E tem essa história dessa casa, que a gente acompanhou ela abandonada, ruindo. Depois ela foi incluída no projeto de favela-bairro do morro, foi incluída pra cultura, ficou todo mundo feliz. Depois ela ficou fechada oito meses, pronta. Eu participei dessa briga, fui no gabinete do secretário da cultura: “Não pode deixar parado. É uma falta de respeito! Na medida que você faz um investimento, gasta um monte de dinheiro, você faz uma homenagem à população e depois você não usa isso, é um grande desrespeito.” A gente estava com medo que a casa fosse destruída de novo, porque você pintar uma parede não ocupada, essa parede descasca e a casa cai de volta. 

 

P/1- Uma coisa que você falou interessante, é que no dia da inauguração da exposição, uma coisa que eu acho que todo mundo apreciou e valorizou, é essa interação entre a presença estrangeira, a presença carioca de uma forma geral e a comunidade, de pessoas de fora, de Santa Teresa, de fora do bairro de Santa Teresa. Como é que é Santa Teresa agora? Esse bairro que está meio recuperando essa autoestima, como você mesma disse hoje. 

 

R - A gente não tinha idéia do efeito que esse evento ia criar em Santa Teresa. Em 1996, quando surgiu o Portas Abertas, havia uma guerra entre duas gangues de tráfico aqui no Morro dos Prazeres, e o bairro era noticiado na mídia como uma praça de guerra. Aquela coisa de TV, com uma câmera fechada, pegou um cara com um colchão nas costas e diz que os moradores estão se mudando do bairro. Então, nós começamos a nos reunir para pensar numa forma de mostrar para o resto do Rio que não era assim que era Santa Teresa. Que aquilo era uma coisa não só localizada, em termos geográficos, mas localizada no tempo. Foi um conflito que houve, uma coisa que aconteceu e que estava sendo hiper valorizada pela mídia. Aí a gente teve essa idéia: uma artista tinha vindo do exterior, tinha visto um evento assim e a gente teve a idéia de criar o Portas Aberta. E o Portas instantaneamente mexeu muito fundo na autoestima do morador de Santa Teresa. O fato do público ter vindo, ter elogiado as casas, as ruas, ter curtido ver essa referência, nos deixou muito orgulhosos. E isso foi imediatamente revertido num investimento de restauro de fachadas. “Minha casa realmente é linda. Vou pintar, vou cuidar, vou mostrá-la mais bonita.” E a cada edição isso vai crescendo. Na semana do Portas você sente cheiro de tinta no bairro, está todo mundo consertando, deixando bonito para que tudo seja registrado no seu melhor aspecto.

 

P/1 – E você acha que as comunidades como o Morro dos Prazeres, do Escondidinho, elas participam efetivamente desse evento?

 

R – Olha, não só desse, como de outros que eu já realizei, é difícil conseguir atrair as comunidades. Eu fiz shows populares nas praças, abertos ao público, gratuitos. Farofa carioca. E você vê muito pouca participação do pessoal da comunidade. É como se eles não se sentissem no direito de freqüentar aquele espaço, de assistir aquele show, de se mostrar àquelas pessoas. Isso é uma coisa que a gente está mudando aos poucos. A gente acredita que os espaços públicos vão ser dados para o público todo, um dia. 

 

P/1- Então pra finalizar, o que você acha desse projeto de memória que o Museu da Pessoa está desenvolvendo, “este morro tem história”? 

 

R – Eu acho esse projeto importantíssimo, conheço outras versões, com outros motivos.  Acho que a gente está fazendo uma ação que se completa, de valorizar o cidadão, de valorizar a sua memória. Eu acho muito bacana que o Morro dos Prazeres seja foco disso. 

 

P/1- Muito obrigada, Roberta.

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