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História

No meu reino tem folia.

História de: Conceição Eugênia Pereira Silva
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 22/07/2021

Sinopse

Conceição Eugênia Pereira Silva, nascida e crescida no mesmo lugar, a Rua José Mineiro, 148, na Quinta do Sumidouro. Permaneceu até os 20 anos nesse lugar, mudando-se para Belo Horizonte e Betim para trabalhar. Teve 2 filhos, e depois mais dois com seu falecido marido, o qual conheceu nas congadas. Está presente nas festas religiosas e ajuda na organização. Ensina e ressalta a importância de cada um conhecer e amar a sua raça.

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História completa

Quinta do Sumidouro na memória e vida de seus moradores Realização Museu da Pessoa Entrevista de Conceição Eugênia Pereira Silva Entrevistada por Danilo Eiji e Mônica Machado Quinta do Sumidouro, 9 de setembro de 2013 Entrevista QSHV006_Conceição Eugênia Pereira Silva Transcrito por Claudia Lucena Revisado por Sâmmya Dias P/1 – Inicialmente, Dona Conceição, eu gostaria muito de agradecer a senhora por esse momento, por dar essa entrevista pra gente, muito obrigado. Para efeito de identificação do nosso documento, eu gostaria que você me falasse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Conceição Eugênia Pereira Silva, Rua José Mineiro, 148, Quinta do Sumidouro, Pedro Leopoldo, né, nascida 2 de junho de 1953. P/1 – Você deu o endereço da sua casa, quer dizer que a senhora nasceu aqui, neste exato lugar onde estamos. R – É, exatamente aqui. P/1 – Me fala um pouco, antes de começar, enfim, a falar sobre a senhora, a contar sua própria história de vida, eu queria que você falasse um pouco da sua família, você conheceu seus avós, você sabe a história dos bisavós, conheceu? R – Não sei não, meus bisavós, eu sei a história que eu conheço deles, que eles vieram para aqui, a minha bisavó eu tenho certeza que ela veio como escrava, agora, já o meu bisavô eu não sei se ele chegou aqui como escravo, mas ele trabalhava também com os fazendeiros, que provavelmente ela veio da região de Ouro Preto, né. Que eles, que foi, que eles falam uma descendência de Chico Rei. A história que eu consegui levantar, uma descendente de Chico Rei, talvez uma parente de Chico Rei, na qual foi levantado o congado aqui nessa região, agora, porque ela era negra mesmo, agora, o meu bisavô não, ele era caboclo, ele não era o negro legítimo. P/2 – Quem era o Chico Rei? R – O Chico Rei eu sei que foi o homem que veio da África, foi o que fundou os congados no Brasil, da história que eu conheço, na região de Ouro Preto. Contam que ele passou por aqui, mas isto é até mais ligado na história de Mocambeiro, que eles têm mais bem escrito isso lá, mas essa história eu não tem acesso, que ele passou por aqui. Mas provavelmente, só pela data, né, pelas datas da chegada dos meus bisavós aqui e a data dele, que ele passou aqui no Brasil, não coincide, né, então, assim, a gente olhando, vai mais a fundo, afundando um pouquinho, não coincide, do que eu sei, essa minha bisavó que era uma parente, talvez uma prima ou sobrinha de alguém, fazia parte dessa família e ela trouxe o congado pra cá. P/1 – A senhora quer ficar com o caderno mesmo ou...? R – Por quê? P/1 – Não, não, que a gente tá fazendo, se quiser deixar com a gente também, não se preocupe. R – Não, não tem problema, não, é bom que segura. P/1 – Dá uma segurada. P/2 – Qual que era o nome da sua avó? R – Ifigênia dos Reis. P/1 – Da sua avó ou bisavó? R – Não, da minha bisavó, né, aí no caso a minha bisavó. P/1 – Tem contato, você tem toda essa linhagem, então, a sua família veio pra cá já há muito tempo, quando essa cidade...? R – Ah, século XIX, ainda aqui mais ou menos, aqui era um arraial, talvez sediado por fazendas, né, porque as coisas vão se perdendo com o tempo, nem tem sinais, mas teria muitas fazendas aqui nessa região, vinha era fazendeiro pra cá, muitas pessoas, porque dava para explorar ouro, igual tinha o Rio das Velha, que eu sei que foi muito explorado. Então, na realidade, não sabe com muita certeza o que é, agora, eu acredito que eles mexiam também com engenho, com rapadura, com essas coisas, entendeu, eu tenho um tio que era artista, né, fazia rapadura, então eu acho que isso tudo era coisa que veio já de família. Mas é a história que se conta, né, não que a gente viveu, é claro, graças a Deus, que senão não teria nem osso meu mais [risos]. Só conta mesmo porque do contrário não teria nem osso meu mais, né, mas então acredito que sim, porque a gente vê, assim, a tradição que vem na família, que hoje também está se perdendo aos poucos, né, vai se perdendo, as pessoas vão mudando de vida, vão pra cidade grande e conhecem coisas mais modernas. Hoje não se senta mais minha família, no caso aí já é mais da asa, já a minha avó, ela fazia muito, ela mexia muito com rapadura, fazer biscoito, muita coisa caseira, era bolo, fazer garapa, rapadura, mexia com tudo, né, assim, fazia geléia de mocotó em casa pra dar pros filhos comerem, então assim, eu acho que é uma vida, e essas coisas todas se perderam. Hoje é mais fácil ir no supermercado e comprar do que fazer, né? P/1 – Dona Conceição, tudo aqui, os seus bisavós chegaram pra essa, onde nós estamos aqui, nesse terreno, seus avós ficaram aqui? R – Não, não, não, aí no caso eles vieram positivamente, aí é as coisas que a gente não tem muita certeza. Eles moraram aqui, mas provavelmente era em alguma fazenda que tinha aí do outro lado, em algum lugar. Depois, então quando a minha avó casou, foi que ela quis comprar, que eles fizeram aquela casa lá na praça, né, aquilo era da minha avó, então, quer dizer, o meu pai, não sei como que eles enfiaram acho que uns 12 filhos, 11, esqueci, dentro daquela casa, mas enfiaram, conseguiram, não sei como que eles viveram lá, mas viveram.Aí, depois cada um casou, um bocado foi pra Belo Horizonte, foi espalhando, né. P/1 – Vamos voltar então aos seus avós, os personagens da sua família, vamos lá. Seus avós, avôs, tios que você conheceu, conta um pouco do pessoal mais antigo, assim, da sua família, os nomes, o que eles faziam. R – Da família do meu pai ou da minha mãe? Que a família da minha mãe é de Mocambeiro, né, e a família do meu pai que era daqui, toda daqui, então aqui nasceu, a convivência minha, meus tios, assim, conviveram uma hora, tio pra lá, tio pra cá, né, tinha um tio que era o que fazia brevidade, tio Duarte, né, que hoje a família dele mora em Sete Lagoas, já faleceu também. Aliás, tio não tem mais nenhum, ah, não, tem um sim, só um irmão da minha mãe que é vivo, o resto tudo já morreu, não tem mais nenhum. Então, assim, a gente lembra dos tios, a às vezes com um agradozinho, né, era uma bala, era um doce, era uma coisa assim, esses são os tios que a gente lembra, né. Mas assim, de uma convivência grande, com eles, né, que até porque era, essa pessoal mais antigo, eles sempre separavam muito a criança do adulto, então o assunto, aliás, nunca tinha muito tempo pras crianças, né, porque não tinham tempo talvez de brincar com criança, não tinha porque a vida era muito sacrificada. Então a convivência com tio, com pai, com mãe, com essa coisa, era só aquele negócio, é benção de manhã, benção de tarde, na hora do almoço via, que nem falava almoço, na hora da comida tava todo mundo junto, comia ali, depois espalhava o menino pra lá, o adulto para o outro lado e cada um ia cuidar da sua vida, então infelizmente você acha que é convivência. Mas mesmo apesar disso tudo eu acho que a gente tinha muito mais, os poucos minutos que tinha, talvez a gente saboreava mais o carinho do tio, o carinho do avô, mais era por causa disso, acho que eram tão poucos os minutos que a gente tinha pra aproveitar eles. Então eu brinco muito e sempre falo que meu tio Luís, que é o único irmão da minha mãe que é vivo, porque a gente gostava, é o tio que eu mais convivi com ele, mas por quê? Ele era o tio diferente, porque logo que ele ficou rapazinho foi embora pra Brasília, e ele adora criança, os sobrinho tudo. Então ele era o tio que a gente tava sujo, subia nele debaixo pra cima, despenteava o cabelo e fazia o que queria com ele. Então é um tio que eu tenho assim, como uma referência é o tio que mora em Mocambeiro. Então, assim, é aquela referência da realidade dos outros tios. Eu não tenho assim essa referência de conviver, tenho uma referência assim, eu lembro de tio Duarte dando a gente brevidade, lembro de tio Fábio, que todas as vezes que a gente encontrava com ele, ele tinha sempre uma balinha no bolso pra dar pra gente. Lembro de tia Isaura, essa já lembro mais porque ela morreu há bem pouco tempo, lembro de tia Maria, que é uma das irmãs mais velhas, né, que tinha, que morreu com 90 e tantos, se ela estivesse viva, estaria com cento e algumas coisas, né, lembro muito dessa pelo carinho que ela tinha, era calma, aquela calma, aquela paciência de conversar, de dar conselho, de sentar. Tia Isaura já era mais arredia um pouco, era mais brava, agora tia Maria não, tia Maria era aquela tia de paciência, que a gente sentava, que conversava com ela, que dava conselhos, né, então é assim que a gente caminhou. Os que eu convivi mais, tinha a tia Julieta também que era muito boa pra gente sentar pra conversar, tia Muriça, foram os que eu mais convivi um pouco com eles, né. P/1 – Eles trabalhavam com o que, quais eram os causos deles, tudo agricultor? R – A tia Isaura morava aqui mesmo, era aquela vidinha mesmo, de dona de casa, de fazer sabão em casa. Tia Maria, por sua vez era a mesma coisa, era criando os filhos, trabalhando na roça de vez em quando, não alterava muito essa vida da dona de casa e de roça, nunca alterou. Era ela que, às vezes ralava mandioca pra fazer a farinha em casa mesmo, né, então sempre tinha um lugar onde elas tiravam a garapa, algumas batiam um pouquinho de rapadura em casa. Então essa era a vida da dona de casa normal da roça, era buscando coco pra fazer sabão, outra hora tava com um saco de milho na cabeça, iam lá no moinho ou ali onde era a fazenda.”Hoje é a Fazenda Celeste”, que era mais longe, mas geralmente era aqui no Aribai, onde é o poço azul, né, trocar milho por fubá, que tinha aquela troca, de levar o milho e deixar o milho lá e trazia o fubá pra casa. Então essa era a vida, era plantando na roça, criando galinha, engordando porco, essa era a vida das minhas tias, que igual foi também da minha mãe pelo tempo que ela viveu aqui. P/1 – Você lembra, você acompanhava elas, por exemplo, fazendo as coisas? R – Não, isso era coisa que a gente via assim, esporadicamente, né, que até depois eu fui embora pra Pedro Leopoldo muito nova, apesar de que eu acho que eu lembro mais da minha infância, desse período da minha vida, ou talvez de coisa que aconteceu há dois anos atrás. Eu lembro muito mais da minha infância, né. Há poucos dias eu estive conversando com um moço em Pedro Leopoldo, ele conversando comigo, eu falei com ele a respeito da guarda de Congo, né, da Vila Magalhães. Peguei e falei pra ele: “Olha, essa guarda de Congo foi aberta com pessoas aqui da Quinta”, então é coisa que eu falo, ninguém acredita, eu tinha o quê? Eu tinha uns cinco, seis anos quando foi aberta essa guarda de congo lá, eu conto a história dela, assim, de como que ela foi aberta, reaberta, porque reaberta, né, no caso, com o Seu Benedito, que foi o primeiro, a primeira pessoa que fez essa coisa, eu conto a história dela todinha. Essa não é a história que os homens contam, é a que eu lembro, eu tinha uns cinco anos nessa ocasião, então, assim, eu lembro muito mais de coisas da minha infância do que talvez coisa que eu fiz há dois atrás [risos]. P/2 – O que mais a senhora lembra da infância? Fala mais da sua infância. R – Ah, muita coisa boa, muita coisa boa e muita coisa ruim também, né. Ruim assim, quer dizer, nós passamos uma vida muito difícil, minha mãe separou do meu pai, foi pra Mocambeiro, ficou lá uns dois anos, depois foi para Pedro Leopoldo. Então era aquela vida da mulher que saía de casa, que ficava eu e meu irmão, que mora em Pedro Leopoldo, nós dois ficávamos sempre em casa, ele com sete ou seis anos e eu com cinco anos, por aí, a gente já ficava sozinho em casa, né. E a minha irmã foi pra casa de uma família porque ela já tava na época de estudar e precisava estudar, foi criada praticamente com essa família, né, a troco de quê? Trabalhava para comer e estudar, então essa é, muita coisa boa, de brincadeira, de coisa errada, né, que menino nunca faz nada que aproveita mesmo, então [risos]. P/2 – Vocês moravam na casa velha lá? R – Não, não morava, não, morava em Pedro Leopoldo, aí fui, porque a minha infância mesmo eu passei em Pedro Leopoldo, aqui a gente vinha passear. P/2 – O que a senhora lembra daquele lugar lá, como é que era ali a praça, a casa Fernão Dias? R – Ah, de quando eu lembro, que eu saí daqui eu tava com um ano, né, aí eu até brinco que com um ano eu lembro da minha mãe chegando com a gente em Mocambeiro, que ela largou meu pai assim, num estouro. Largou, juntou meus irmãos todos e foi embora pra casa do meu avô, quer dizer, ainda foi a pé daqui a Mocambeiro, né, que não é brincadeira, passa aqui, que chama Serra D’Anta, que subindo a Serra D’Anta saí lá em Mocambeiro, não sei se vocês conhecem essa trilha, aqui saindo em Fidalgo, né, que faz a Serra D’Anta, passa por traz aqui, pros mato aqui, chega lá em Mocambeiro. Então, por incrível que pareça, eu lembro até hoje do meu avô me pegando do braço da minha mãe, coisa que eu tinha um ano de idade, quando eu saí daqui, eu lembro disso perfeitamente, então, assim, mas que mesmo que perguntou? Eu já esqueci. P/2 – Como é que era lá na praça? R – Aqui na Quinta? P/2 – É. R – Ah, não, depois quando eu voltei aqui não tinha nada, ali tinha uma, era só uma roça, não tinha nada ali, nada, nada, aqui tudo era estrada de chão, era chão mesmo, não tinha nada, era um lugar gostoso. Quando eu voltei aqui, eu tava com nove anos, aí meu pai falou comigo assim, que ele morava num ranchinho aqui, o ranchinho era mais ou menos ali, perto daquela mangueira, era um rancho mesmo, rancho de barro, né, de pau a pique, né, era aquelas varas enxertadas de barro e de capim. A primeira vez quando eu voltei aqui depois, vi eles, assim, em Pedro Leopoldo, às vezes via o tio Duarte, via o tio Fábio, via as pessoas assim, mas porque eles encontravam em Pedro Leopoldo, né, quando eu voltei, que eu tava com nove anos, ele, meu pai, me mostrou uma coisa que, assim, que eu nunca mais esqueço. Hoje talvez a gente não veja isso mais aqui, não consegue, né, não tinha luz, não tinha nada, então ele me levou na casa de uma prima minha, que era até filha dessa tia Maria, aí pra baixo aí, que eu nem sei mais direito, me falaram o lugar que ela morava, né, aí chegou lá eles tinham um radiozinho velho, ele falou assim: “Quantas horas?”, aí a mãe da minha prima falou: “Ah, Seu Ramiro, já são onze e”, era quase onze e meia, ele disse: “Daqui um tiquinho eu vou que eu quero te mostrar um negócio”. Aí ficou mais um bocado conversando, depois ele subiu comigo, então quando a gente passando assim, quer dizer, eu segurando o braço dele, porque eu não enxergava nada no chão, mas ele enxergava tudo, tudo escuro porque não tinha luz elétrica, não tinha nada, como diz, um breu [risos], então quando vinha subindo ele falou assim: “Vamos parar aqui”, ele falou assim: “Escuta”, aí a gente ouviu o barulho da água que corria por baixo, essa coisa a gente conseguia ouvir, né, o barulho da água que passa, que aqui é tudo loca mesmo, que eu acredito que seja talvez o boqueirão que passa aqui, que deixa as águas caindo lá no Rio das Velhas, eu acredito que seja. Aí ele parou comigo assim, perto de uma porteira ali e eu ouvi um barulho, chuá, aquele barulho, daí ele falou assim: “Você quer ver como é que para?”, aí deu um pouquinho deu aquela parada, aquele barulho da água, né, depois fez assim, chuá, soltou de uma vez, aí ele pegou, falou comigo assim: “Isso é as águas cantando pra chegar no Rio das Velhas”, isso assim é umas história que a gente nunca esquece, né? Então, assim,, as coisas que passaram, que a gente nunca mais esqueceu, lembro assim, uma coisa que eu tive muita saudade nessa ocasião, que essa rua de trás aqui, ela era muito bonita,por isso que ela ficou com o nome, chama, essa rua chama Altino Neves Tavares, tanto que o nome dela é Rua Floresta, Altino Neves Tavares, e ela tinha o nome de Rua Floresta. Mas poucas pessoas sabem, hoje não sabem porque que ela tinha o nome de Rua Floresta, porque ela tinha uma plantação de copaíba, copaíba, esse pau de óleo, tanto de um lado como de outro, até lá na frente, era de um lado e do outro, então ela era fechada, tanto que embaixo dela nunca havia sol, tinha muita essas samambaias nas beiradas assim, samambaia nas beiradas dos barranco assim, e ela era muito estreita, porque eu não sei, porque acho que uma, praticamente só passava carroça aí. Depois foram os donos de terreno foram alargando, derrubando as árvores todas, aí perdeu aquele encanto de Rua Floresta, ela realmente perdeu, essa rua aqui perdeu muito com isso, que ela era muito bonita, esse pedacinho de rua aqui até sair ali na frente na Gameleira era muito bonito, tinha era copaíba plantada, plantada ou nascida, não sei né, porque aí ficou, resta só uns três ou quatro, que tem um aqui em casa, acho que tem mais uns dois ou três aí pra frente, por isso que ela chamava Rua Floresta, que ela parecia uma floresta. P/1 – Na cidade, né, porque eu percebi que aquela casa colonial, né, do Fernão Dias ali, ela tá sozinha, né, antigamente as outras casas, também tinham outras como aquela nesse centro, como que eram essas casinhas? R – Tinha, nó, tinha uma casa ali, essa eu não cheguei a conhecer, que eles falavam que era a casa de Borba Gato, quando eu vim para cá, eu acho, não sei se ainda existia essa casa, essa eu não tenho muita lembrança, não, mas até pouco tempo existiam os esteios da casa lá, que ela seria ali na Igrejinha, né, ela seria naquele terreno do lado ali, tinha os esteios, tanto que lá, pode olhar, tem uma barra de pedra lá, o muro de pedra tá lá até hoje. Então ali que era a casa que eles falavam, né, que foi a casa de Borba Gato, que ele morou ali, ali pouco depois da casa de Fernão Dias também, do lado de baixo tinha a casa que era a casa de Tomasa, né, de uma dona que chamava Tomasa, tinha essa casa dela, que era uma maravilha, era um encanto, derrubaram a casa, derrubaram ou ela caiu, não sei, isso eu não posso justificar, se ela foi tirada de lá, que era os esteios de pau a pique, né. Até mesmo a própria casa de Maria, que há pouco tempo a filha deles fez a gentileza de vir aqui derrubar para construir outra, né, mas também era uma casinha muito pequenininha, era de dar gosto, chão batido, aquela casa que a gente olhava às vezes de dentro, enxergava quem tava lá fora, de tanta rachadura que tinha [risos]. Então, assim, muita coisa bonita aqui que eu acho que se perdeu mesmo, né, porque eu falo assim, pelo descontrole também, por não ter ninguém que orientasse, né, que procurasse ver, eu acho que talvez as próprias autoridades sejam um dos culpados de ter se perdido, que eu acho que o povo acordou muito tarde para resgatar a memória. Quer dizer, resolveram resgatar a memória quando ela já tava praticamente apagando totalmente, né, que muita coisa que foi perdida também foi por falta de apoio, falta de incentivo, por falta de orientação, por falta de alguém se interessar, muita coisa bonita que foi embora, coisa material que as pessoas aqui tinham foi embora também, foi embora, pelo ralo abaixo. É historiador que passava na sua casa, via uma coisa bonita e comprava aquilo a troco de nada, vendia as coisas por uma bagatela, né, também, então antes não teve quem procurasse preservar essa memória, quer dizer, não tenho nem que acusar as pessoas aqui, acusar as pessoas por ter perdido tanto patrimônio, primeiro que não teve quem ajudasse, mostrasse pra eles o valor que isso teria no futuro aqui, né, então eu acho que eles foram perdendo. P/1 – Dona Conceição, a senhora tá lembrando de quem quando você tá falando isso, que se perdeu essa memória, quais são essas pessoas que você tá lembrando, que você tá falando, quem que merecia aquela entrevista, que foi uma pena? R – Uma pena? P/1 - É, essas pessoas, seus amigos ou parentes ou pessoas que, né, o padre, enfim, quais são as pessoas que você tá lembrando e fala: “Poxa, perdemos a história”? R – Perdeu muita coisa, né, porque a gente não pode ficar falando o nome das pessoas que é muito difícil, igual eu tiro assim, igual a casa de Borba Gato, poderia estar em pé, casa de Tomasa poderia estar aí, se tivesse, a casa de Maria, que era uma gracinha, que ela era muito pequenininha, tia Maria era muito alta, a gente via quase a cabeça dela esbarrando no capim, né. Então, assim, eu acho que se talvez antes tivesse alguém que ajudasse as pessoas a preservar, até mesmo a minha própria família, mostrar: “Olha, isso tem que ser conservado”, talvez muita coisa não teria se perdido. P/1 – Aqui, assim, muito comum, né, são cidades pequenas etc. R – Tem assim, por exemplo, igual o poço azul, né, que lá tinha um alambique de cachaça, então uma série de coisas, né, que a gente era menino, na época de congado, que vinha a turma toda, Gilberto, essa turma aí, que a turma é enorme, não tem nem a metade deles aí, a turma era enorme, a gente descia lá no poço azul. Uma vez nós fomos lá, né, o povo tava fazendo cachaça, aí todo mundo bebeu cachaça, aquela cachaça que sai do alambique, voltou aquele monte de menino de fogo pra casa [risos]. Então isso é coisa que fica, né, então a gente chega hoje, e eu tenho tristeza de chegar no poço azul, ver que tudo que tinha lá foi destruído, né, assim, praticamente, as casas tão ainda em pé, não sei porque que eles ainda não destruíram, porque eu acho que se fosse noutro caso até aquelas casas tinham destruído, mas estão inteiras, mas dá uma tristeza, você chega lá, pensa assim: “Puxa vida”. A gente chegava aqui, tinha aquele engenho de cachaça, a gente ia lá comprar cachaça, né, tinha um moinho d’água também, então você chegava aqui, bebia aquela cachaça quente, todo mundo bebia, a turma de menino. P/1 – Você consegue me descrever como era antigamente esse poço azul, quem que tava ali, quem que trabalhava lá, como eram as casas? R – Ah, não, assim, as pessoas que trabalhavam lá, assim, a gente não lembra, não, lembra assim, que tinha alguém lá que trabalhava e a gente foi lá, ia lá comprar cachaça e aproveitava, bebia um pouquinho, né, mas, assim, mas as pessoas, assim, na realidade não sou muito lembrada de quem trabalhava, não, porque a gente não ligava nesse detalhe também, né. Mas era muito bom, chegava lá, tinha aquele, o barril, né, de oliveira, que conservava, acho que é barril de oliveira, conservava a cachaça, então a gente chega lá, vê assim, não tem mais nada daquilo. P/1 – Aqui tinha muito, por exemplo, lenda? R – Lenha? P/1 – Tinha muita lenda antiga, seus pais te contavam, seus avós, tinham lendas nessa região, tinha histórias? R – Ah, aqui eles contavam muita coisa, contavam de um cavalo que passava aí de noite, contavam uma série de coisas, assombração, né, que andava, lobisomem, então nem se fala, mula sem cabeça, falava isso tudo, as histórias contavam pra gente, né, então meu pai falava que lobisomem, que os lobisomem era pessoa amiga, que quando eles viravam lobisomem eles iam na casa visitar, que eles vinham muitas vezes aqui, né, vinham passear, que os lobisomem passavam aqui na porta da casa dele. Mas, assim, uma coisa que a gente não viu também, né, história que contavam pra gente, que existia mula sem cabeça e que criança volta, agora, isso até há pouco tempo algumas pessoas falavam, né, que nem aquele cruzeiro saindo aqui da Lapinha, ali já faz parte da Lapinha, né, mas era, que aquele cruzeiro é assombrado, que a gente passa ali meia noite e vê uma série de coisa, que eu nunca vi, né, eu nunca vi [risos], mas são as histórias aí, tem muita coisa de assombração, né. P/1 – Tinha muita parteira, tinha muito, ah, como que era essa questão da religiosidade, essa relação com a natureza, tinha mágicos, tinha essas, tinham esses personagens assim aqui? R – Ainda uso, existe até hoje, né, muita coisa, né, benzedores, as pessoas que benzem, né, isso ainda existe, pessoas que benzem de ramo verde, uma das que mais benzia aqui era tia Isaura, né, que faleceu há pouco tempo, mas até hoje ainda existem pessoas que benzem. P/1 – Quem é tia Isaura? R – Não, já faleceu, que era irmã do meu pai. P/1 – Conta um pouco como ela era, quem era ela. R – A tia Isaura era parteira, era benzedeira, a avó da Vanessa, era parteira, benzedeira. P/1 – As histórias se cruzam, né, a senhora se lembra dela? R – Não, lembro, nossa, meus meninos todos quando nasceram, só o João que ela não cuidou porque não nasceu aqui no caso, mas aí eu tive menino na maternidade, não tive aqui, mas ela que vinha pra curar o umbigo, né, porque a gente não podia, né, tava de resguardo, então ela que curou o umbigo tanto de Ana Melo, Ana Carolina, do Moisés, todos foi ela que curou, e ela só aceitava, quer dizer, chegava lá os médicos quase matava a gente, né, curava era com pó, com azeite, azeite de mamona, né. Que hoje se faz isso o médico fala: “Não pode”, mas eu falei, o médico falou pra mim: “Olha, eu não tinha condição de cuidar, minha tia cuidou, ela cuida, é aqueles povo antigo, né, cuida com isso, agora se isso matasse, se pó e azeite matasse não tinha ninguém vivo aqui na quinta, né”. P/2 – Pó, que pó? R – De rapé, que eles falam, né, que hoje chamam de rapé, fumo de, fumo preto, faz aquele pozinho fininho, né, e passa o azeite, o pó no umbigo do menino pra secar, pra cair, mas hoje existe o álcool, mas só que na ocasião, pensa bem há, digamos aí, eu to com 50 anos, né, há 80, cem anos atrás, 150 anos atrás, quem sabia o que era álcool? Ninguém, então a pessoa era criada realmente com coisa da natureza, os meninos nasciam e davam banho era com sabão preto, feito de coco mesmo, era isso que se tinha pra usar, então usava-se isso. Hoje tudo mata, mas se tudo que se usava na roça ou faz mal ou mata, então não faz bem pra pele, não faz isso, não faz aquilo, né. A gente sempre comenta, eu brigo muito, eu falo com as pessoas: “Ó, vai ferver a pele dos pinto” [risos], aí é diferente, né, às vezes eu brincava muito com tia Maria, tia Maria morreu com 90, que é a mãe do Zé Afonso, né, ela morreu com uns 96 anos ou mais, ela não tinha uma ruga no rosto, a gente fala que a gente tem segredo da senzala que nem conta, né, nem conta pra ninguém pra ninguém fazer, deixa só nós ficar aí com a pele esticadinha, tá bom demais [risos]. P/2 – Você falou que a sua bisavó era escrava, né? R – É, ela veio pra aqui como escrava, século XIX, não sei nem se já teve a abolição ou não, que eu acredito que provavelmente aqui, porque do que eu sei sediava mais de mil, que foi movimentado aqui escravo mesmo, a Fazenda Jaguara de Mocambeiro, né, mas no caso a Fazenda Jaguara, assim, do que eu sei, não, a maioria dos escravos de lá como registro foram pessoas de Moçambique. Assim, no que eu sei, não que eu tenha visto documento, mas eu conversando com algum historiador ele me contou: “Olha, não tem um registro de escravo do Congo que veio na Fazenda Jaguara, que lá, a maior coisa de escravo que teve nessa região foi lá”, mas então tem em mente, assim, do que eles contavam no caso, provavelmente os bisavós vieram para cá, mas como fazendeiros, deve ter vindo da região de Ouro Preto, mas como fazendeiros. P/2 – O que mais que você sabe da sua bisavó, dessa época que ela era escrava? R – Ah, muito pouco, o que a gente sabe, assim, histórias contadas, assim, apenas histórias contadas do qual a minha avó falou pro meu pai, o meu pai comentava até pouco, né, sobre ela, que a única coisa que eu sei, que ela foi casada com esse caboclo, o sobrenome dela não era Pereira, né, igual hoje, né, depois talvez da abolição foi adotado esse sobrenome Pereira, então era outro sobrenome que eles usavam, que era, aí, dá uma pausinha aí que eu vou ler um negócio, que eu to querendo lembrar o sobrenome. P/1 – Ah, o sobrenome dela? R – É, que ela tinha outro, era outro nome, não era o sobrenome de Pereira, hoje nós temos o sobrenome Pereira, mas antes não, não era Pereira. P/1 – Mas era um nome...? R – Eu acredito que seja um nome de senhor de escravo, porque os escravos, eles usavam o nome do senhor de escravo, comprava eles, tinham um registro com o nome do senhor de escravo, se chamava José, se o dono, se o fazendeiro que te comprou, se ele assinava pelo nome José, tal, tal, José Pereira tal, escravo de fulano, então eu acho que era assim que era feito os registros dos escravos. P/1 – E os seus pais, me conta um pouco sobre eles, como eles se conheceram, de onde eles vieram? R – Não, a família da minha mãe, o meu pai nasceu aqui também, né. P/1 – Seu pai nasceu aqui também? R – Naquela casa. P/1 – No ranchinho ali? R – Não, o meu pai nasceu naquela casa lá da praça. P/1 – Ah, ali mesmo. R – Que meus avós moravam lá, né, vó Luzia morava lá com o vô Muricino, e meu pai nasceu, a família toda nasceu ali, não sei como que cabiam onze filhos lá, mas coube, acho que são onze mesmo que ele tinha, entendeu, então, assim, meu pai nasceu ali naquela casa, eu sei que tinha, então, e depois então que ele casou que ele comprou esse terreno aqui, né, que isso aqui vai daqui, que seria do meu pai, até naquela esquina, aquele outro bambuzeiro, que tem lá na frente. Depois meu irmão quis vender a parte dele, aí ficou essa parte aqui é de um, da minha irmã é lá, o meu é lá, do outro irmão meu é lá, então depois que ele casou que ele veio pra cá, que ele casou com a minha mãe lá em Mocambeiro. Mas porque justamente com essa ligação que existia, essa convivência, né, que eu acho que Mocambeiro sempre conviveu muito com o povo daqui, tanto que o pessoal do tio Fábio, se eu não me engano, acho que eles quase todos nasceram em Mocambeiro, os filhos do tio Fábio, acho que eles são nascidos em Mocambeiro, não tenho muita certeza, não, mas acho que são, ou nasceram aqui e foram pra lá, ou alguma coisa assim, eu não to bem lembrada, não. Então a convivência assim, porque a família, no caso, a família de tia Alice também, da mulher do tio Fábio, era de Mocambeiro, então foi assim, Mocambeiro, o povo daqui, porque o congado lá foi aberto, depois da reabertura, né, a gente fala aberto, foi depois da reabertura, né, em 1945 acho que foi que veio a liberação. Que aqui já existia o congado antes, mas em 1923, 1923, quando houve a proibição das manifestações religiosas no Brasil aqui também parou, o único que sobreviveu foram os candombe, os candombe sobreviveram, mas os congados foram todos parados, mas mesmo assim entre os congadeiros tinha aquela negociação de como que ia continuar a coisa e tal, só não tinha a festa. Então Mocambeiro abriu bem primeiro, depois veio a Vila Magalhães, que foi até com os meus irmãos, e a daqui reabriu bem depois também, então como aqui não tinha essa festa o foco daqui o que que era? Vamos pra Mocambeiro, aí depois então quando eu morava em Mocambeiro começou, eles freqüentavam muito Mocambeiro, lá que conheceram assim e tinha aquela, a gente, já existia mesmo uma ligação, sempre existiu muito, entre Lapinha, Campinho, Quinta, Mocambeiro, mas era mais até uma relação de coisa religiosa, né, porque a única festa praticamente que existia era a festa religiosa. Então era assim, tal dia assim tem festa de Nossa Senhora da Conceição ou algum santo lá em Mocambeiro, aí o povo ia até a pé, né, pra Mocambeiro, aí tal dia assim tem a festa do Nossa Senhora da Conceição na Quinta, aí vinha o povo de Mocambeiro, passava aqui, às vezes tem festa na Lapinha, iam também a festa na Lapinha. Então acho que essa era a ligação maior que tinha entre as comunidades, da onde se conhecia, se cruzava, se casava, era nas festas, era nos casamentos, né, aqueles casamentos com sanfona, né, baile de sanfona, nossa. P/1 – Você lembra de uma boa, lembra de uma festa boa pra gente? R – Não, que na realidade aqui eu vinha muito, festa de mês de maio eu vinha muito aqui ver, né, eram as coroações que hoje não têm mais, que era uma coisa muito bonita aqui, que os anjos subia lá naquele altar pra coroar, hoje não tem, as meninas hoje não sabem mais nem abrir a boca pra cantar, não sei se não canta, se tem vergonha, o que que é. Então as coroação aqui era uma coisa maravilhosa, maravilhosa mesmo, hoje não tem mais, coisa que vai se perdendo com o tempo e vai acabando cada vez mais, essa é a minha opinião do que eu vejo aqui, né? P/1 – Você vivenciou isso também, de ficar indo a pé pra outros lugares, pegar a festa, voltar? R – Não, aí já era quando eu já era mocinha, né, a gente ia a pé no Vale do Matutu, no Santo Antônio da Barra, fala Matutu o povo mata a gente, em Santo Antônio da Barra, ou quando eu morei em Santo Antônio da Barra a gente vinha em Pedro Leopoldo, disposição, andava a pé, atravessava tudo a pé, então isso foi uma coisa assim, mas aqui mesmo assim eu não, vivenciava assim, às vezes quando tava aqui mês de maio tinha aquelas novena. P/1 – Descreve pra gente uma dessas festas que você achava bonita, como que era, que hoje já tá totalmente diferente, o que você lembra, assim, como era? R – Uma festa que eu fui, e era muito bonita, não uma festa, um casamento que eu fui que e eu nunca esqueci e não conheço a família também direito, foi lá em Inácio de Carvalho. Eu tinha o quê? Tinha uns 17 anos, casamento numa fazenda lá, uns vizinhos meus foram convidados, então me convidaram pra ir com elas, né. Eu tinha uns 17 anos, morava no Matutu, lá em Santo Antônio da Barra, que hoje é conhecido como Santo Antônio da Barra, mas todo mundo fala Matutu, então continua Matutu. Essa festa foi uma festa de sanfona, né, numa fazenda, nunca vi tanta comida na minha vida, que povo bom de roça pra comer, né, nunca vi tanta comida. Tinha doce, de manhã aquela mesa de café, todas as quitandas, então esse foi um casamento que eu fui e ficou marcado. Dancei na sanfona até dizer chega. De manhã você olhava pra cara de cada um, era poeira daqui [risos], era só poeira, que eles falavam muito, sanfona que o povo na roça chamava de cabeça de égua, né, aquela sanfona, e foi a noite inteira, tempo bom, né. P/2 – E o seu casamento? R – Ah, eu não tive casamento, eu não casei não. Casei no civil, mas não fiz festa, só casei mesmo, levei as testemunhas, casei, voltei pra casa, até mesmo porque eu já tinha minhas duas meninas, né, que ficavam aqui, mas não são filhas do homem que eu casei com ele, do qual eu sou viúva, mas também eu já tinha tido um menino, tava grávida de outro, então aí nós casamo, só casamo, simplesmente casamos. P/1 – Como conheceu ele? R – Eu conheci ele aqui numa festa de congado, que ele era amigo do marido da minha prima. Eu fiquei conhecendo ele aqui, mas eu já tinha as duas meninas, né, as que foram criadas no terreiro. Conheci ele, a gente casou, aí eu engravidei do Moisés, que é o que tá com 28 anos, e a gente ficou esperando uma oportunidade pra casar porque aí eu engravidei do outro, que era gozado, quando tem dinheiro pra gente casar, então casou [risos]. P/2 – Quantos filhos a senhora tem? R – Quatro, duas meninas que são as gêmeas, uma que mora em Belo Horizonte e essa que mora aqui comigo, que ela é gêmea com a outra e o João e o Moisés. P/1 – Você quando tava jovem você chegou a sair daqui da região, foi morar em outros lugares, né, foi pra BH, se eu não me engano. R – Não, que eu fui criada mesmo em Pedro Leopoldo, né, já com 20 anos eu fui trabalhar em casa de família em Belo Horizonte. Trabalhei acho que foi três anos, nesse período eu tive minhas meninas, elas ficaram aqui com a minha mãe e depois então eu continuei trabalhando e elas foram criadas aqui, né, até os oito anos mais ou menos, foi quando eu casei e levei elas. Eu fui morar, morei em Betim uns tempos, depois morei em Belo Horizonte, aí meu marido já tava na hora de aposentar, aposentou, nós voltamos pra cá. P/2 – Tem quanto tempo? R – Ah, morei, mas pouco depois que nós chegamos aqui ele adoeceu, né, que ele teve problema, aí os menino tudo pequeno, morei uns dez anos, o rancho era mais comprido, ah devo ter morado uns dez anos dentro daquele rancho ali, é, morei quase uns dez anos dentro daquele rancho. Aí, só bem depois, antes dele morrer mesmo que a gente começou a construir, mas era difícil, porque os meninos eram muito novos e o único dinheiro que tinha era dele, né, era a pensão dele, a aposentadoria dele. Aí foi muito sacrifício pra construir essa casa, tive ajuda de muita gente, né, e aí cresce, aí vai complicando porque mesmo que os filhos trabalhem, mas eles precisam continuar estudando, eles precisam tocar a vida deles pra frente, eu não podia falar com eles: “Parem suas vidas para ajudar a construir”, né. Então aí passou, meu marido ficou praticamente uns quase cinco anos doente, doente assim, não muito, mas já debilitando, né, cada vez mais e cada vez vai ficando mais difícil. Os meninos eram muito novos e trabalhavam pra me ajudar, era tudo difícil porque remédio é caro, alimentação é caro, tudo é caro e pro pobre é mais caro ainda, né. Então aí a gente foi construindo aos pouquinhos, hoje já num ponto bom, só falta por vidro, rebocar, terminar o piso, por telhado [risos], não falta quase nada, aí até hoje nós demos conta rebocar os quartos, colocar piso nos quartos, falta fazer banheiro também lá dentro, [risos] então não falta quase nada na casa [risos]. P/1 – Me conta um pouco, quando você saiu, né, essa relação com as festas religiosas aqui, você continuava voltando ou foi um período que você saiu daqui e não voltou? R – Não, as festas religiosas sempre vinha, vinha sim porque minha mãe morava aqui, minhas meninas moravam aqui, e geralmente fim de semana eu tava aqui. Então, assim, perder o vínculo de não estar participando das coisas, mas de ver, né. O mês de maio a gente sempre tava na igreja, coroação, tinha barraquinha e a gente tava lá, né. Na época de congado a gente tava sempre aqui, então, assim, perder essa coisa eu não perdi, só não tinha, assim, aquela participação nas coisas, né. Aí depois que eu voltei mesmo pra cá, que eu vim morar aqui, que eu participei mais, da comissão de festeiro, fui coordenadora da Igreja, do congado a gente tá sempre ajudando. Fiz duas festas aqui, que foi uma quando minha menina foi rainha, depois eu fui também, no ano 2000 eu fui rainha, e agora, né, a gente tem uma participação mais, a gente, como é que fala? A gente adentra mais nas coisas é nessas horas, quando a gente tá a frente de alguma coisa, participando mesmo, mas participação esporádica de ver festa eu sempre tive ligada aqui. P/1 – Como que é essa participação mais dentro, como que é, tem um grupo pequeno, o que vocês fazem, como que vocês articulam todo esse? R – Não, geralmente, né, assim, quando eu fui da comissão festeira é um grupo pequeno, né, tão organizando a festa, o que vai ser feito, né, se vai ser feito, se vai fazer um almoço, arrecadação de coisa pro almoço, é trabalhar com leilão, trabalhar pedindo, né. No caso, aí que tem que realmente trabalhar dentro da comunidade, é uma arrecadação para fazer fazer as festas, né. Então, na realidade, toda festa de Igreja é feita desse jeito, quando tem o congado é sair pra pedir mesmo, é feito mais, quer dizer, eu acho que 80 por cento do que é feito, né, do almoço que se faz no congado é doado pela comunidade e muitas vezes gente que nem é da comunidade também quer ajudar, tá falando comunidade daqui, não, é muita gente de Pedro Leopoldo, de Belo Horizonte, que conhece, que ajuda pra se fazer a festa. Então assim que trabalha, que é trabalhado, é articulado essa festa. P/1 – Você conheceu muita gente envolvida nessa festa desde sempre, tem alguns personagens, assim, que hoje já não estão mais com a gente, né, que já faleceram, tal, que a senhora se lembra, que era capitão, que era músico? R – Eu lembro de muita gente, de Fábio, no caso que foi o primeiro capitão daqui, né, que o pai, no caso, o avô de Gilberto, né, depois teve o filho dele também, não era capitão, mas que dirigiu, foi presidente ou vice-presidente da guarda por muitos anos, tem a Gema, que foi a rainha conga por 20, praticamente 30 anos, né. Então, assim, são essas pessoas e mais várias. As pessoas que no congado sempre foram mais envolvidas na minha família, era a tia Isaura, que eu lembro, não tinha água aqui, né, nem água encanada, nem essa água horrorosa, salobra não tinha, né, quer dizer, fala horrorosa, mas graças a Deus que tem ela porque se ela não serve tanto, eu pelo menos não gosto dela de beber, aliás, eu não bebo essa água daqui, que é salobra e me faz mal. Então, mas eu lembro assim, quando não tinha água aqui, tia Isaura e Dadá subiam com lata d’água na cabeça, buscavam água lá onde é o campo, que tinha as cacimba, né, de água doce, lata d’água na cabeça, levando pra por lá na Igreja pro povo beber. Era festa de congado, dia de festa de Nossa Senhora da Conceição. Elas levavam lata d’água na cabeça pra por lá pras pessoas beberem, já não tinha água aqui, né. Muitos anos depois foi feito um poço artesiano e tem água, mas assim, que às vezes a gente tem que se valer dela mesmo, né. P/1 – E tem uns causos assim, que você acompanhou várias festas, né, você se lembra de histórias que aconteceram, que, enfim, desde que coisas que deram certo ou coisas que não deram, mas assim, por exemplo... P/2 – Qual foi a melhor festa do congado que você já presenciou aqui? P/1 – E como ela foi? R – Ó, pra eu te falar a verdade eu acho que de primeiro as festas de congado, no meu modo de ver, era melhor, falando a verdade, melhor assim, que eu acho que era o congado simples, era simplesmente o congado, hoje tem um brilho. Mas para mim, acredito que muita coisa hoje tá ofuscada, é muita mistura,né, muita mistura de coisa que no meu modo de ver, quem quiser faça, mas eu não faço. P/2 – O que, por exemplo? R – Eu gosto do congado simples, congado pra mim é uma celebração bonita que se faz, o congado, que a gente, eu sempre brinco, eu falo que quando você mexe com a festa religiosa você começa com ela pela Igreja, então no caso aí se pensa numa celebração bonita, né, porque eu pensei assim, por exemplo, estou citando, assim, apenas esse ano, né, que eu realmente tava a frente, podia fazer do meu jeito, do que eu penso. Eu ainda brinquei com o padre: “Não, padre, eu vou fazer a festa, vou começar ela pela Igreja, então o que que eu posso fazer, né”, mas, assim, determinadas coisas culturais são meio complicadas da gente trabalhar aqui, porque eu acho que quando a pessoa faz uma coisa, ela tem que saber o objetivo dela estar fazendo a coisa, né. Então, não adianta eu vestir uma pessoa de escravo, ou sei lá de que, de mocambo, botar ela ali se ela tá ali sem saber porque que ela tá, essa é a minha maneira de pensar, eu acho que isso tudo é coisa, uma questão de trabalhar essa cultura, a pessoa entender porque que eu estou aqui, que eu vejo lugar que as coisas mantém um padrão nessa área, então você não pode mudar, você pode fazer o que você quiser desde que não saia do padrão, não saia do padrão do congado, do que é o congado. Então eu pensei, “Bom, eu quero alguém que fale alguma coisa de congado, que venha aqui depois, no caso talvez da região, que fale alguma coisa de congado”, então eu procurei o pessoal de Mocambeiro e conversei com eles e tal, eles falaram alguma coisa sobre congado ontem depois da missa, eu quero uma missa, então a missa já foi. Aí eu procurei enfeitar as luzes, imagens, a luzes para enfeitar na linha de congo, mostrando alguma coisa de congado, fiz enfeite mais ou menos na linha de congo, aí todo mundo olhava pra cima, via aquele negócio, ninguém entendia, mas não entende por quê? Porque não procura ter o conhecimento, não procura saber o que que é. P/2 – Isso aonde, que é esse enfeite? R – Não, eu to falando assim, aqui na Quinta, ontem, né, a festa de ontem, aí eu fiz o enfeite lá e depois vieram me perguntar: “Mas o que que é aquilo ali? Por que que aquilo é assim?”, então a pessoa tem que ter um objetivo, acho que se a pessoa vai mexer dentro do congado ele tem que procurar descobrir primeiro o que que é um congado, o que que exija que possa falar: “Isso é um congado, isso pra mim é o congado”. Congado pra mim é procurar buscar toda a hierarquia do congado pra trabalhar, pra mostrar vários tipos de guarda, congado não é só congo, o congado, ele, a gente brinca, sempre comento muito porque são sete irmãos e dentro deles tem uma imensidão de hierarquia, são vários tipos de guarda que existe, a equipe conhece pouco, assim, o congo, Moçambique tem marujo, tem catopê, tem uma série e tudo é congado. P/2 – Quem que são os sete irmãos, são seis? R – Sete. P/2 – São seis esses sete irmãos? R – A gente fala sempre que são sete coroas do congo. P/1 – Eu queria voltar antes, eu queria entender mais o congado mesmo, porque, assim ó, eu sou lá de São Paulo, o que é, me explica o que é? R – No que eu entendo de congado, o que eu acho que é um congado é realmente um agrupamento de etnia pra fazer uma festa só, isso é o congado, congado pra mim é isso, congado pra mim não é aquela guarda separada, não é aquela etnia separada, congado pra mim é uma festa onde pode buscar, né, e vai, pode-se entrar que a guarda daqui é de congo, é congo, é diferente, aí vem, tem Moçambique, catopé, marujo e deixa eu ver se eu lembro. P/2 – Isso é o que, são as etnias? R – Etnias, isso é questão só de etnia, são etnias separadas, assim, não que eu vivi, que eu vejo como foi, mas eu acho que a África, ela é muito dividida, ela é muito dividida em aldeias, não digo nem em cidades, acho que é mais aldeias, né, e cada uma tem uma etnia, tem uma maneira de dançar, tem uma maneira de cantar, tem uma maneira de tocar, então eles nunca são iguais. Acho que se andar na região da África vê coisas, que eu vi uma vez só aqui em Belo Horizonte, foi no dia do centenário de Zumbi, que a Secretaria de Cultura trouxe umas guardas da África aqui e veio uns pessoal da África com as guardas deles, como eles dançam, e cada uma diferente da outra, né. Então, assim congado pra mim é a festa, uma festa do congado onde reúne todas as etnias, onde pode reunir todas, que geralmente a gente consegue duas ou três só, né, porque é meio complicado, aí você vê, vem o Moçambique, a guarda de congo, pode vir um caboclo, né, até que eu tentei, pode vir um marujo, isso pra mim é um congado. P/1 – Que celebra o quê? R – Nossa Senhora do Rosário. P/1 – Nossa Senhora do Rosário, e como funciona essa festa, porque não é qualquer dia, né, tem todo um, digamos, um procedimento da festa, né, como funciona? R – É, tem o período dela, geralmente, alguns lugares fazem até, por exemplo, uma festa no Serro, que lá ainda usa, é reizado, né, pra mim é reizado, que lá usa damas, é uma série de coisas que não usam aqui, então lá é, pra mim lá é reizado. No caso a caboclada, né, do Serro, lá acho que é das primeiras festas que tem, se não me engano é em julho, são nas primeiras semanas de julho. Mas aí chega esse período agora de julho, aí começa a haver, julho, agosto, setembro, outubro, né, que o mês de Nossa Senhora, e geralmente em outubro essas festas fecham, param, as reinadas param, mas então eu acho que para não é nem por causa do tempo, assim, não é nem por causa dos meses, não, eu acho que para porque entra o período de chuva, quem consegue mexer com festa de congado no período de chuva? Ninguém [risos]. É que é uma festa de rua, né, é uma festa de rua, um monte de coisa, então é um período que tem realmente que parar isso, então até que muita gente fala que o reino fecha e tal, mas acho que esse fechamento do reino, ele é justamente porque entra o período de chuva e não tem como nem marcar uma festa. Como é que eu vou marcar uma festa de rua dessa num período que pode estar chovendo, né? Então, é um período que eles falam, aí fecha, começa a abrir em maio, por aí, aí já começa os ensaios, né, começa os ensaios, no caso, que tem três ensaios por ano, né, aí começa, mas na realidade aí já passou o período de chuva, as pessoas já estão mais tranquilas, não tem esse problema. Eu acredito que seja por causa disso, essa data seja específica porque tem que ser o congado naquela época, que é uma época não chuvosa. P/1 – Mas aqui vocês seguem uma tradição, né, costuma ser, por exemplo, em setembro, é isso? R – É, aqui é todo segundo domingo de setembro, aqui é setembro. P/1 – Como que é o dia das comemorações, começa com a missa? Porque eu vi que tem várias coisas, né, tem o café, tem a recepção, como que é? R – Tem o café, né, aí geralmente na hora no café é que tão recebendo as guardas convidadas, as pessoas que vêm, né, isso é na hora do café, que já vão chegando, já vão caminhando pro café, aí depois sobe pra missa. P/2 – Quem que fornece o café? R – Rainha Santa Isabel, que cada lugar tem um lugar, cada lugar é uma coisa completamente diferente, né, então você vai num lugar que às vezes ou pessoa quer servir esse café só aquele ano, o ano que vem é outro, tal, isso acontece muito. Então cada lugar tem aquela tradição, aqui já tem que é a rainha Santa Isabel que serve, então todo ano o café é dela. Aí já o almoço é servido pelos reis de ano, né, os que são coroados naquele ano, que geralmente a maioria é por cumprir promessa, é promessa mesmo, e o rei, no caso, o rei dá almoço no domingo, né, coitado, é homem então tem que carregar a carga, né, e rainha, como ela é leve, sempre a mulher é mais fraquinha, aí dá na segunda-feira, porque segunda-feira é uma festa mais light [risos], aí sobra pra rainha a festa light [risos]. P/1 – E o doce, o que significa? R – O doce o rei de ano, o rei congo dá no domingo, né, e a rainha também, como tem que ser mais light, dá na segunda [risos], mas geralmente o doce de segunda-feira dá muita gente. P/1 –Mas tem um significado isso, o doce? R – O doce já vem como uma confraternização, né, eu acho, de, porque, ou talvez é coisa que eles trazem isso até da senzala, eu não sei, talvez o congadeiro traz isso da senzala, é aquela alegria de final da festa, né, então vamos comer um doce pra adoçar nossas vidas pro resto do ano [risos]. P/2 – Até o ano que vem. R – É, até o ano que vem. P/2 – Por que é a Nossa Senhora do Rosário a santa principal, né, homenageada no congado? R – Olha, isso é uma coisa que tem tanta história, tem tanta versão, tanta versão da Nossa Senhora do Rosário, que na realidade eu mesma não sei qual que é a verdadeira, eu conheço um monte, vou falar uma só, que é a tradicional, que todo mundo conta. Conta-se que ela apareceu na água e que na realidade quem tirou Nossa Senhora do Rosário foram os candombeiros, todo mundo tentou tirar ela da água e ela não acompanhou, quando os candombeiros foram, ela acompanhou. Então essa é a história que a gente conhece, agora, eu, por exemplo, tenho uma história que eu perdi sobre Nossa Senhora do Rosário, eu ainda acho isso ainda perdido aqui em casa. P/2 – Mas conta um pouco. R – Então não, dá uma versão, assim, um pouco diferente, mas eu não gosto muito de falar sobre isso porque eu acho que tem certas coisas às vezes que fere o que algumas pessoas tão construindo há muito tempo, uma história que eles tão construindo há muito tempo, então, assim, eu tenho uma história que vem já dos, fala muito sobre o jesuíta, né, mas, assim, já vem do jesuíta então é uma história completamente diferente. Então, é uma história que eu não gosto de contar, assim, talvez coisa que não fosse pra, coisa, os outros esparramar, né, a gente até contava, mas então a gente tem que, a história que eu ganhei há muito tempo de uma pessoa, então, mas essa a gente deixa ela mais guardada porque tem coisa que é melhor a gente não falar, então deixa construírem essa história. P/2 – Qual dessas histórias que a senhora realmente acredita? R – Ah, honestamente eu não sei, isso é uma coisa que eu... porque eu não quero ferir costume e nem quero ferir minha maneira de pensar, né, então às vezes determinadas coisas é melhor a gente guardar pra gente do que atingir a outras pessoas. P/1 – A senhora disse que tem vários sinais, né, que as pessoas não entendem, não conhecem mais e que a senhora fez uma decoração, o que, por exemplo? R – De como? P/1 – A senhora falou que na Igreja, por exemplo, você colocou alguns sinais que as pessoas nem reconhecem mais e que fazem parte da tradição. R – Não, eles não reconhecem. P/1 – Como o que, por exemplo? R – Não, realmente isso não é brincadeira, eu ainda falei com o padre assim: “Olha, padre, eu quero fazer uma, vou fazer alguma coisa, uma decoração afro”, ele com uma certa resistência, deixei passar. Voltei, conversei com ele de novo, então eu fiz, no caso aí, eu pus o capacete lá, aí todo mundo olha, fica assim: “Nó, como ele é esquisito, ele é diferente, né, ele é diferente”, eles viram que o capacete é diferente, algumas pessoas viram, mas ninguém teve aquela curiosidade de perguntar porque que ele é diferente, é onde as pessoas perde, às vezes é nisso, porque se me perguntassem: “Por que que ele é diferente?”, eu ia falar porque que ele é diferente. P/1 – Por quê? P/2 – O que é o capacete? P/1 – A gente tá atrás, né, o que é o capacete e por que é diferente? R – O capacete é, igual vocês viram ontem, a guarda de Mocambeiro toda usa um capacete branco de pena, todo feito de pena, né, muito bonito, agora, aqueles que eu pus na igreja, não sei se vocês chegaram a ver no lado da igreja dois capacetes que tem logo na entrada, com fita, espelho, na entrada não, antes de chegar no, naquele, bom, sei lá, eles tão lá e pediram pra não tirar, com fita, com espelho, feito diferente, eles são cobertos com palha, fiz eles com palha de bananeira, com flor de papel. Então, assim: “Ah, é diferente, tal, tal”, mas, assim, ninguém teve aquela curiosidade de perguntar: “Por que que ele é diferente?”, é onde a pessoa perde às vezes por conhecer, é nesse momento. P/1 – Por que é diferente? R – Quer saber mesmo porque que ele é diferente? Primeiro esse capacete foi um estudo que eu vi uma vez sobre congo real, e o congo real, no caso foi o primeiro capacete que eles falaram congo real, por quê? Porque na realidade eles assimilaram esse capacete na coroa dos reis, dos reis imperiais, né. Porque eles eram em pé, a coroa do rei era imperial, imperial é em pé, então, no caso, aí eu acredito que os primeiros que viram assimilaram, como eles não tinham nada, assim, então eles usavam o quê? Coisa natural, e, assim, o que eu assimilei de coisa natural pra forrar esse capacete foi a palha de bananeira, o brilho da coroa foi usado espelho, né, porque, é claro, eles não tinham pedra preciosa, né, que no caso antigamente os portugueses tinham demais, né [risos]. A coroa era pedra preciosa, dava o brilho, então foi usado espelho como brilho. Depois veio a história, aí depois, aí eu acredito que muito tempo depois surgiu a história mística do espelho, que o espelho corta todo mal que a pessoa tem pela frente, mas na realidade o espelho a princípio, ele foi visto como uma coisa que brilha, né, e por que que eles usavam fita? Devia ser algum pano colorido, que talvez nem fita eles teriam acesso, tudo que era colorido era bonito pro negro, a flor de papel porque eles não tinham acesso a material nenhum diferente, era papel mesmo, então as flores eram feitas de papel. Porque até muito, há pouco tempo, há poucos anos atrás ainda existia, eu lembro, os antigos capacetes, mais bonitos, que sempre teve nessa região por aqui, foi em Mocambeiro, toda vida, eu lembro da guarda lá, eu era menininha, era aqueles capacetes sempre brancos, bonitos e com flor de papel, usava só flor de papel, depois foi surgindo material mais conservado, porque o plástico, qualquer coisa, ficava bonito e eles podiam fazer, pode-se fazer um capacete esse ano, guardar pro ano que vem, né, se a pessoa tiver cuidado. Então aí talvez foi chegando material mais fácil, né, de ser usado, mas eu lembro, era uma beleza em Mocambeiro, aqui, na realidade, eu não lembro de capacete aqui, pode-se ter usado antes, né, no caso, assim, talvez na, usava-se então, usavam saiotes, né, era diferente, completamente diferente, aqui pode-se ter usado antes, antes da proibição, mas depois eu lembro mais da guarda com eles, com, a guarda daqui eu não lembro. P/1 – Foi proibido, mas antes, você não tava nem nascida, né? R – Ah, não, eu sou de 1953, fechou em 1923. P/1 – Mas na volta sim, né, que foi, na volta, enfim, a sua família participou, tal etc.. Essa tradição do que tava ali foi mudando, né, e hoje vocês estão aqui, o que vocês têm feito para manter essa tradição, que tradição vocês tão passando, vocês tão trazendo as crianças para, enfim, tem um movimento para manter? R – Pra falar a verdade eu vejo isso, assim, com, porque hoje na realidade vê que o jovem não quer acompanhar mais nós, isso não nem do meu filho, não é nem do meu neto, eu vejo que a humanidade tá perdendo isso tudo, são poucas, eu conheci guardas, assim, não quero nem citar, né, que era, assim, não quero citar a guarda que é, que tinha 60 membros, hoje ele tá resumida a dez, 15 pessoas. Então, quer dizer, as pessoas que levaram aquela guarda não conseguiram, não sei por, ou por falta de um trabalho mesmo, até em família, trazer, implantar dentro dos filhos, quando eu to falando isso, nós não conseguimos, a verdade é essa, nós não conseguimos implantar dentro dos nossos filhos essas grandezas, a verdade é essa, são poucas, ou às vezes, assim, eu fico muito triste, não é isso, não, porque o que eu falo é o de passar a sabedoria, é o de dar a sabedoria. Porque eu simplesmente... igual outro dia falei, eu não concordo que se faça uma procissão linda, maravilhosa, com pessoas vestidas de tudo quanto há, se vai chegar lá, vai tirar e nem sabe pra que que ele vestiu aquilo, então isso eu acho que é um trabalho cultural que tem ver, explicar o que que é isso, porque que você está com essa roupa, quem é você, aí você pergunta, ele fala: “Ah, to com essa roupa que mandaram eu sair com ela”, o que que tá acrescentando pra pessoa? Nada, e você vê os exemplos, é uma séria de coisas que eu acho que o povo tá perdendo, é por causa disso, então eu falo assim: “Olha, meu filho”, eu brinco muito, né, as filhas, as meninas da Carmem, que as duas tavam aí ontem, a consciência que elas têm de serem negras, de andar vestida como negra, de gostar de ser como elas são. Então hoje a gente infelizmente não consegue passar esse brilho pros filhos, de mostrar pra eles, pros filhos da gente, a beleza negra o que que é, aí já vou falar de mim, né, a beleza negra não é ela entrar num salão, esticar o cabelo, ela procurar tratar o cabelo dela como ele é, mostrar realmente, que na realidade a mulher negra, ela tem uma beleza incomparável, ela tem que valorizar o que ela tem. Uma das poucas pessoas, não, a gente vê muitas que se valorizam mesmo, né, as meninas da Carmem, que tavam aí ontem, nó, e elas têm um conhecimento muito grande dentro da área, conhecimento assim, mas a mãe dela conseguiu passar pra ela o que que é ser uma mulher negra, o que é ter a beleza da mulher negra, que ela não precisa esticar o cabelo, ela não precisa botar uma saia e mostrando os peitos, mostrando tudo pra mostrar a beleza, ela pode usar uma roupa bonita e ser a mesma mulher. Então são os valores que a gente realmente está deixando perder, então eu acho muito, muito triste, a gente tem que... mas isso é uma coisa que o trabalho de conscientização que tem que vir desde pequeno, né, aqui já falta trabalho de conscientização que poderia ter sido feito aqui mesmo há muitos anos, na realidade ninguém valorizou isso. Hoje você chega perto de uma pessoa e pergunta: “Qual é a cultura daqui?”, a cultura daqui teria que ser negra mesmo, poderia porque raramente... Não sei se hoje é assim, chega em Diamantina e pergunta a um menino de jardim: “Quem foi Chica da Silva?”, ele sabe, chega aqui e pergunta: “Quem foi Chico Rei?”, ninguém sabe. Então esses valores que tão se perdendo. P/1 – Uma pergunta que é importante, você organizou, né, o seu filho, né, ele foi o rei do ano. R – Meu sobrinho. P/1 – Seu sobrinho, rei do ano, e você participou de toda a organização desse espaço aqui, né, você podia contar um pouco como foi esse processo aqui, porque eu vi que trabalhou um monte de gente, como que foi esse processo? R – Umas mil e 500 pessoas. P/2 – Que trabalharam? R – Não, que comeram [risos], pra trabalhar [risos]. P/1 – Mas quem é o pessoal que tava te ajudando, que eu vi que tinha gente cortando, tinha gente lavando, tinha gente cozinhando? R – Na verdade eu trabalhei mais no processo de organização da festa, mas aqui, ontem mesmo eu nem aqui fiquei, né, e nessa organização aqui do espaço todo pra festa quem fez foi o pai do noivo, e as pessoas aí, a gente que veio, ajudou e tal... esse processo de organização aqui dentro não. Mas o processo que eu comecei mais foi da rua pra cá, né, foi da casa, convidar guarda, de organizar, né, organização da missa, no recebimento, no acolhimento, essa parte ficou mais pra mim, mas a parte da cozinha ficou realmente com eles, porque eu não dou conta, eu não sou de ferro, né, também não sou de ferro. P/1 – Conceição, deixa eu te perguntar, daí mudando um pouco de foco, né, de assunto, assim, mas em relação ao parque, né, porque o parque, ele foi criado, daí agora tem uma nova gestão, né, e vem com questões o parque, né, como você vê a criação do parque para região, a sua relação com o parque? R – Poderia ser bem melhor, com relação ao parque acho que as coisas poderiam ser bem melhor, bem melhor. Porque eu acho o seguinte, você chega num lugar desse tamanhozinho assim, com um monte de pessoas que foi criado, eu falo assim, é a mesma coisa que aconteceu com os índios, eu vejo isso dessa maneira, simplesmente chegamos e pegamos, acabou, né. Então o parque, eu acho que pelo tempo que eu acho que foi 1978, se eu não me engano, que esse processo já é antigo, muito velho mesmo, não to falando a data certa, mas uma coisa te garanto, mais de 20 anos rodaram esse processo, ninguém foi preparado pra isso, então o problema é esse, chegamos e pegamos. Não sou contra o parque, não, não é questão de ser contra o parque, muito pelo contrário, sou até a favor demais, que tem que se preservar, mas quando se pensa em preservar um parque tem que ser preservado a vida humana também, a vida humana para ser preservada tem que ser com o mesmo trabalho. Porque hoje se fala assim, não que eu seja contra isso: “Ah, tem que preservar as árvores, tem que preservar a água, preservar a mata, preservar tudo”, agora eu pergunto o que foi feito na prevenção para o humano, o que foi feito pra chegar na sua casa e falar, o que foi feito para eu não poder botar o pé ali de dentro, descer na lagoa e pescar? Simplesmente fala: “A partir de hoje não pode mais”, então, alguém me preparou pra isso? Então esse, não que eu seja contra o parque, mas só acho que a comunidade poderia ser tratada diferente, acho que nós, como seres humanos, que tem uma raiz plantada aqui, que já veio aqui com muitos outros que chegaram, poderia ter sido tratado com um pouquinho, digamos com muita clareza, mais respeito. P/1 – A senhora tinha uma relação com o parque que hoje não tem mais? R – Eu tive uma esperança de que as coisas fossem diferentes, mas aí uma coisa, não é a questão de se caçar culpados, né, uma coisa de se caçar culpados, só que infelizmente eu acho que as pessoas que têm mais poder na mão, eles acham que é só chegar e vamos resolver, aí é onde dá muito problema, porque eu acredito que se há 20 anos atrás, quando eles decidiram que queria ser parque, que eles não decidiram isso da noite pro dia, é claro. A pessoa tem que ser muito cego pra imaginar que simplesmente eles chegaram aqui semana passada, vieram aqui: “Nessa semana nós estamos montando um parque”, não, isso é um processo que foi trabalhado há muitos anos, assim, mas por que que não foi preparada a comunidade? “Ó, gente, daqui a dez anos ou 20 anos vai acontecer isso e isso”, pra preparar as pessoas, pra eles saber que amanhã eles não poderiam entrar na lagoa, que amanhã eles não poderiam ter a liberdade que eles sempre tiveram, né, porque tem esses meninos, igual meu sobrinho, que morou pouco tempo, essa turma, fachada de menino que tem aqui 30, 40 anos, eles conhecem aqui de palmo, eles conhecem essa terra de palmo a palmo, ainda brinco até, falo assim: “Ó, se vocês cair no mato aí ninguém acha”, não acha mesmo, não. Quer dizer, sem a liberdade, muita coisa eu sei que é errada sim, concordo, por exemplo, matar animal, caçar tatu, essas coisas, então coisa que realmente tá destruindo a natureza, cortar uma árvore que não pode, é claro que eu sei que isso é errado, mas alguém preparou o povo pra isso? P/1 – Você se lembra como foi o processo, assim, de chegada do parque, como foi, você lembra, teve reuniões, assembleia? R – Não, teve reunião. P/1 – A senhora participou de alguma, chegou a ir? R – Participei, participei. P/1 – Lembra de um dia pra gente, como foi? R – Ah, não, teve tantas reuniões aí que eu participei, foram boas as reuniões, assim, eu falo assim, poucas pessoas tiraram proveito, que na realidade poucas pessoas participaram, né, então é onde eu falo, o processo de coisa que tinha que vir caminhando há muitos anos, preparando um pouco mais o povo pra isso. Porque uma vida que é construída, que as pessoas que já tá aqui com 60 anos, com a vida 60 anos construída aqui, não vai ser de hoje pra amanhã, que não é com dois anos que você vai destruir 60 anos da pessoa aqui de vivência, não é dois, três anos que você vai destruir aquilo, destruir assim, a maneira dele de pensar e de ver as coisas, né. Então eu acho que dois anos, dois ou três anos falando a respeito de uma certa coisa é muito pouco pra se tirar os 60, 70 anos que eles têm de vivência aqui, ou às vezes até os 20 anos que as pessoas têm de vivência aqui, que eu acho que se tivesse, na ocasião que foi tombado, então vamos começar a trabalhar aonde? Na escola, que daqui a 20 anos os meninos que tão na escola é que vão viver esse, vão ter que descascar esse abacaxi, né, só então que vai conseguir alguma coisa, porque, igual, o meu sobrinho, que na ocasião tava na escola, se tivesse já preparando eles pro que vinha no futuro não tinha dado, não daria em confusão, que quando chegasse a hora eles já sabiam o que ia acontecer. P/1 – Pensando hoje, o que seria interessante, o que você acha que poderia melhorar essa relação? R – É começar do zero, eles têm que começar do zero, não tem outra escolha, não. É preparar os meninos que tão chegando hoje pra amanhã não estar acontecendo o que tá acontecendo hoje, pra quando eles chegarem lá, pra quando eles crescerem eles saberem que tem que ser preservado, que a preservação é dessa, dessa maneira, que tem que recolher o lixo, isso é processo. Tudo que se fala hoje em fazer é coisa que vai dar fruto daqui a 20 anos, não é coisa que vai dar fruto agora, não, ou pega as crianças que tão na escola agora e muda a mentalidade deles ou o mundo vai continuar assim, nesse bolo, de melhora nenhuma, vai continuar assim, eu não falo não é aqui, não, acho que é o mundo todo que está precisando desse processo. É começar do zero mesmo, começar agora do zero pra daqui a 20 anos eles ta dando fruto, que do contrário não vão conseguir nada, não, se continuar aí falta de educação, falta de saúde, você liga a televisão o que você ouve se falar só em corrupção, o fulano era político, roubava, o médico que é médico hoje não quer atender porque ganha pouco, os advogados só quer defender ladrão, então fica difícil, fica difícil conseguir um futuro desse jeito. Quer dizer, amanhã o que que eu vou querer? Eu vou querer ser político que eu tenho bastante possibilidades pra tudo, vou querer ser isso ou aquilo porque eu vou ver o meu lado, eu não vou querer ser professora porque eu vou apanhar de aluno, então. P/1 – Essas questões aqui na cidade você acha que tão faltando, essas questões de escola, serviços, é uma cidade que tem essas demandas, a Quinta? R – Na cidade? Isso tá faltando no mundo, pra falar a verdade no Brasil inteiro. P/1 – Mas na Quinta é uma questão, isso a comunidade sente? R – É uma questão que a Quinta, ela tá incluída nisso tudo, acho que a Quinta está incluída nisso tudo, ou se trabalha para um futuro melhor, porque se cada lugar fizer a mesma coisa nós vamos conseguir chegar lá com as mesmas ideias, com os mesmos pensamentos, com tudo. Não adianta, por exemplo, que na realidade não é questão de, não adianta eu ensinar pro meu filho que não pode roubar, eu vou ensinar, ele não vai roubar, mas em compensação vai ter 20 pessoas que não tão preocupadas com o que o filho tá fazendo. Não adianta só eu trabalhar, eu acho que se as pessoas, se todo mundo, a humanidade, né, no caso aí, porque não é questão só daqui, eu to falando essa questão é uma questão global, geral, se todo mundo pensar dessa maneira, eu tenho que ensinar isso, ou se toda escola tomasse essa mesma providência, que a criança tá ali pra ela aprender. Mas na realidade a gente vê, igual fala na questão de cultura, é uma vergonha no Brasil, cultura no Brasil é uma vergonha, nós vivemos num país negro que ninguém sabe o que que é negro, ninguém sabe o que que é negro, que a pessoa vê, ele é amarelo, ele acha que ele é branco, ele não é negro. P/2 – Deixa uma mensagem pra juventude aqui da Quinta, pras pessoas que talvez podem dar uma sequência nessa cultura tão bacana, tão bonita que é o congado. R – Primeiro que tenha amor à sua raça e segundo que procure conhecer sua raça e terceiro que procure viver com mais amor à sua raça, à sua família, à sua comunidade, tudo o que tá em volta, que do contrário, enquanto não se descobrir quem eu sou realmente eu não vou poder lutar, tem que se descobrir primeiro, buscar aquilo que tá dentro pra por pra fora, ou buscar o que é de bom que tá aí fora, por pra dentro, que do contrário nós não vamos chegar a lugar nenhum, vai ser só perda de tempo, né. P/1 – Foi tudo bem, o que a senhora achou de contar sua história pra gente? R – Achei bom, não sei se eu falei alguma coisa útil, se vai ser, valer de alguma coisa, né, às vezes até teria muito mais coisa pra falar, mas, né, então. P/1 – Tem alguma história que você não contou que você gostaria de contar? R – Não, não, às vezes no que conversa a gente vai lembrando das coisas, vai falando, né, mas eu acho que tá bem. P/1 – Então tá bom, então em nome do Museu da Pessoa e do Instituto Camargo Corrêa muito obrigado pela entrevista. P/2 – Muito obrigada, Dona Conceição, a gente aprendeu muito.
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