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História

No meio do mar surge um mundo de ferro

História de: Leila de Brito Tavares
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Leila de Brito Tavares fez concurso e começou a trabalhar na Petrobras em 1985. Foi o início da contratação de mulheres na empresa o que motivou muitos avanços e conquistas junto com outras colegas.Com seu trabalho passou a conhecer gente de todos os lugares do Brasil, de todos os níveis culturais e de escolaridade. Inclusive conheceu o então candidato Lula em 2001.

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História completa

Projeto Memória dos trabalhadores da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Leila de Brito Tavares Entrevistado por Morgana (Mazeli?) Macaé, 04 de junho de 2008 Entrevista MBAC_CB032 Transcrito por Luísa Lima Revisado por Fabíola Lugão C. Viggiano P/1 – Bom, então vamos começar, Leila, você dizendo pra mim o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Leila de Brito Tavares. Nasci em Campos, Estado do Rio e nasci em 3 de dezembro de 1962. P/1 – E qual que é a sua formação? R – Eu tenho formação em nível superior em Pedagogia e eu tenho uma especialização em economia do trabalho. P/1 – E é com isso que você trabalha aqui na Petrobras? R – É, hoje eu uso grande parte desse conhecimento, na verdade. Eu trabalhei muitos anos na área de RH e agora eu trabalho na área do planejamento e marketing. Trabalho com mapeamento de processos, de negócio. Então, um tanto dessa experiência... e você trabalha com gente, com entrevistas, então, acaba sendo uma grande... aproveitamento de tudo o que eu aprendi nesses 22 anos de empresa. E a minha escolaridade ajuda também, né? P/1 – Ah, 22 anos de empresa. Então você entrou aqui em... R – 1985, dezembro de 1985. P/1 – Dezembro de 1985. E foi através de um concurso? R - Fiz um concurso público pra auxiliar de escritório. Era uma área, assim, era difícil passar. Na época não é como hoje, você... a divulgação era difícil. Um amigo que trabalhava aqui, por acaso, chegou na empresa: "Olha, vá fazer a inscrição." Era um dia só, você tinha que ir correndo. Vim correndo de Campos pra cá pra fazer a inscrição, uma fila enorme ali na frente. Consegui fazer a inscrição, depois voltei, fiz a prova, fui aprovada. Eu trabalhava lá em Campos, num escritório. Vim para cá e eu lembro que a primeira vez que eu cheguei aqui, olhei assim, eu imaginava a Petrobras, uma empresa... A Petrobras já era uma empresa importante, mas ainda não era uma empresa, assim, tão marcante na região, embora muita gente de Campos viesse trabalhar aqui. O corpo técnico dessa empresa é muito formado por gente que estudava na escola técnica de Campos, né? Então, era uma empresa já presente, mas ainda era uma coisa não tão assim... essa pujança toda que hoje se apresenta, né? Que você vai fazer um concurso público, taí 300 mil pessoas se inscrevendo. Então, era um edital que abria e fechava e a inscrição era um dia só. Aí vim, fiz e passei, aí vim trabalhar. Lembro do primeiro dia, que eu entrei, olhando aquele monte de gente...e era muito menor isso aqui do que hoje, com muito menos gente também, mas eu olhei assim e falei "Gente, eu tô entrando numa fábrica." Fiquei meio decepcionada, assim, com aquele negócio assim. Aí, cheguei e fui trabalhar no setor de pessoal. Todo mundo que chegava era admitido no setor de pessoal. Tinha um balcão, assim. Aí, cheguei lá, olhei a menina que foi me atender: "Ei, olha, você vai trabalhar aqui mesmo." Porque na época era um castigo [risos], ninguém queria ir pro setor de pessoal, porque era muito trabalho. Era muito trabalho braçal mesmo, muita informação, nada era informatizado como é hoje, né? Mas já era, assim, um grande... um espaço e eu acho que tive muita sorte, na verdade, de ter começado pelo setor de pessoal, porque é muito o coração da empresa. É a porta de entrada, é a porta de saída, é o meio do caminho, é onde você conhece todo mundo, todo mundo te conhece. Até hoje um monte de gente, que eu não me lembro, não é... a pessoa, você tá num balcão, você atende uma pessoa, mas aquela pessoa, pra ela, você faz a diferença e te conhece a vida inteira. Conhece suas histórias, conhece... a gente se envolvia muito com a vida das pessoas, né? E era um ano, 1985... O setor de pessoal, até então, era um espaço muito masculino, tinha muitos homens. E naquele ano, 1985,1986, foi um ano que a Petrobras tava há muito tempo sem fazer admissão e aí admitiu muita gente. Porque tinha muita gente ou aposentando ou saindo da área mesmo. Então, de repente, se inverteu o quadro. Entraram muitas mulheres. Nesse concurso, as primeiras, os primeiros colocados foram mulheres. E havia uma tradição de que os primeiros colocados iam pro setor de pessoal. Então, aquilo era uma mulherada, mais ou menos da mesma idade, e a gente fez uma mudança, uma revolução naquele setor. P/1 – Foram pioneiras assim, né? R - Exatamente. Era uma área... e tem muitas, muitas delas estão por aqui ainda, muitas já saíram, vocês vão ouvir algumas delas. A gente tem histórias, assim, impressionantes. E essa história.. porque, na verdade, eu trabalhava no setor de pessoal, trabalhar com recursos humanos é você viver a história dos outros, né? A sua história é feita um pouquinho da história das pessoas, especialmente numa época em que a gente... a comunicação era muito complicada, comunicação com plataforma. Você tinha dificuldade de falar com eles, era quase que falar a linguagem de rádio, tinha que aprender, como é que se fala, né? "Ah, qual é a sua chave?" "Uniforme!" Tem que aprender, porque senão você não consegue, não conseguia comunicação, tinha que falar via rádio: "Câmbio, tal, não sei o que." E aí você vai conversando. E aquele... Era muito masculino o mundo da plataforma. Ainda é, né? Hoje ainda é bastante, mas já mudou muito. Eu tinha uma administrativa que trabalhava a bordo, que era a Marivete, que hoje tá lá no Espírito Santo. Tinha uma mulher que exercia a função que hoje existe oficialmente, que é gerente de plataforma, que é a Júlia que hoje tá lá na (UNRio?), mas que foi a primeira mulher, na verdade, a ser representante, na hierarquia como uma gerente. Embora não houvesse, formalmente, a designação dela. P/1 – E você já trabalhou embarcada? R - Não trabalhei embarcada, mas eu embarquei muito porque a gente ia pra aplicar provas, a gente ia pra fazer trabalhos de RH, a gente ia conversar. E conversava muito com as pessoas. Era impressionante essa... com a comunicação ruim, eles não conseguiam falar muito com família e a gente do setor de pessoal, eles ligavam pra gente pra saber o saldo da conta. Porque, na época, não tinha computador. Hoje, eles acessam de qualquer lugar, mas então tinham que ligar pra lá. Dia de pagamento, semana de pagamento era um inferno [risos], porque todo mundo ligava da plataforma pedindo o saldo da conta pra poder... e tinha que fazer as coisas, tinha que ligar pra casa. E aí ligavam pra gente pedindo... E aí você via que, na verdade, aquela ligação pedindo saldo, era muito mais do que um saldo do contracheque. Na verdade, eles queriam conversar com alguém, conversar com alguém que não fosse alguém que trabalhava com ele no dia-a-dia, ele não queria conversa técnica. Aí, perguntava sobre família, perguntava sobre o tempo: "Como é que tá o..." era sempre assim, né? Estranhos quando conversam sempre começam a perguntar pelo tempo, né? "Como é que tá o tempo aí?" Aí, depois, você virava... criando meio que uma família, as pessoas, você levava anos conversando com pessoas que você nunca viu. Aí, um belo dia, eles desciam no setor de pessoal, iam lá e conversavam com a gente. Aí traziam presente. Tinha um que trazia calcinha [risos]. Todo ano ele vinha e trazia calcinha para todas as meninas: "Olha, não me levem a mal, gente," mas é porque ele tinha uma... a esposa, sei lá quem da família, tinha uma fábrica de calcinha. Então ele trazia calcinha de presente pra gente. P/1 – Você que trabalhou no setor de pessoal e agora com marketing, você deve conviver com muitas pessoas, né? E aí como é o relacionamento com as pessoas de diferentes estados, as culturas diferentes aqui dentro? R - Isso é uma coisa maravilhosa na empresa, né? Você começa a conhecer gente de todo tipo e de todo canto do Brasil, de todo nível cultural, de todo nível de escolaridade. Então, isso, assim, é uma coisa muito rica. Você começa a conversar... Você conhece um engenheiro com PhD que morou quatro anos na França fazendo um doutorado; aí você tem lá o peão que tava na lá na plataforma ou em terra, que era o auxiliar de plataforma, que é quase um estivador carregando peso na plataforma, assim, com escolaridade incompleta. A gente tem um programa na empresa que é o Projeto Acesso. Então já tinha muita gente no início da história da empresa que entrou na empresa... As primeiras escolhas da Petrobras eram escolhas, assim, pelo tamanho do braço. O cara entrava... porque você tinha que fazer (picada?) na mata, você tinha que subir numa plataforma, carregar peso. Então, não tinha muito essa coisa de concurso público, não, escolhia mesmo pela força física. E eu entrei aqui na Bacia... quer dizer, a Bacia estava começando, né, 22 anos atrás. Mas, grande parte dessas pessoas estavam vindo de outras áreas. A Bahia, na época, a produção de petróleo estava caindo, então, você tinha muito baiano, muito nordestino, muita gente do Sul, que tinha fechado uma unidade. Então você tinha, assim, uma gauchada danada, aquele disco... você, ao mesmo tempo, você ouvia gente, o sotaque do Sul, o sotaque do Norte, o sotaque do Nordeste, gente de todas as áreas, histórias de todas as coisas. E eu trabalhava no setor de pessoal, trabalhei um tempo na parte de recolhimento de impostos e trabalhava com fundo de garantia. Fundo de garantia é a última coisa que a pessoa vai fazer na empresa, ela vai fazer a rescisão de contrato. Então, tinha que ir lá preencher um documento, um formulário lá pra poder receber o fundo de garantia. Então eu também tinha o outro lado. Eu tinha um lado, no setor de pessoal, de ver as pessoas que estavam chegando, com todo um futuro, todas animadíssimas e também aquelas pessoas que estavam saindo. E essa coisa é muito interessante, porque por muitos anos a gente conversava sobre a necessidade de se ter um projeto desse. Porque a gente ouvir histórias, assim, e você não tinha pra quem dizer, você não tinha como contar, você não tinha... essa história ia se perdendo pelo mundo, sabe? Eu ouvi história de gente que era um engenheiro que trouxe uma plataforma lá da Noruega. No meio do caminho teve um problema, bateu numa espécie de um iceberg, caiu um homem ao mar, ele pulou no mar, tirou aquela pessoa. E aí, quando chegou no Rio de Janeiro, todo mundo recebeu, aí o presidente da Petrobras, o ministro não sei o quê, todo mundo sendo homenageado e o capitão do navio, que era um norueguês, chamou ele, parte da tripulação e o pessoal da Petrobras que estava junto e eles fizeram um jantar em homenagem a ele. Ele quem reconheceu. Então, essas histórias, não é? O outro que era lá do Amazonas, começou a empresa lá em Manaus, lá, abrindo caminho lá em Urucu, que aí o cara chega e fala que teve um dia que ele estava no meio da mata, não tinha nada, deu uma dor de barriga nele! Aí falou: "Não teve tempo," teve que sair, quando ele tá, assim, quando vai começar o trabalho, ouve o rugido de uma onça! Ele falou "Passou a vontade, passou tudo!" Vestiu a calça e saiu correndo. Então são essas histórias que a gente não tinha como contar, né? Você ir na plataforma pela primeira vez, que é uma coisa, assim, impressionante! Eu já dormi, já fiquei em plataforma, já cantei... P/1 – ... E aí, como é que foi pra você? R – Ah, é uma coisa... A primeira vez que eu fui... é uma experiência, assim, inacreditável. Eu me lembro até hoje, nunca esqueci aquela coisa assim, você pega aquele helicóptero, aí você vai e o mar vai alcançando uma tonalidade, um azul, mas um azul tão profundo que não dá nem pra descrever como é que é aquilo. E aí lá no meio do mar, no meio do nada, só tem água. De repente, surge aquele mundo de ferro, que é aquela plataforma, com não sei quantos andares, com um monte de gente lá dentro subindo e descendo escada, almoçando, jantando, assistindo televisão, como se fosse a coisa mais normal do mundo! Você tá no meio de um monte de ferro, no meio do mar, no meio do nada e a vida continuando tranquilamente, maravilhosamente bem. Então, aquilo,eu fiquei tão emocionada, eu fiquei tão encantada com aquilo, eu falei: "Como é que a gente consegue fazer isso, né?", tirando petróleo! E aquilo era 20 anos atrás, imagina hoje que a gente tá lá no pré-sal querendo tirar petróleo de seis mil metros abaixo do mar! Na época, você não tava, não tinha nem mil metros ainda, era a profundidade, né? Então, você vai vendo essas pessoas crescerem, essas pessoas que entram meninos, que viraram homens e que hoje os filhos dessas pessoas já estão entrando na empresa de novo. Isso é uma coisa maravilhosa. P/1 – E você que vem acompanhando já há 22 anos o crescimento da empresa, assim, você tem alguma coisa que você acha que foi um desafio grande ou alguma dificuldade? R - Eu acho que a gente teve todo o desafio do mundo, né? Quando eu entrei era uma geração nova chegando, também, na empresa. A empresa voltando a contratar, ela ficou um período sem admitir e voltou a admitir. Era um período de briga por ganhos de legislações trabalhistas. Era fim do governo militar, 1985? O Sarney entrando... quer dizer, término dum período militar. O Tancredo tinha morrido, entra o Sarney. Quer dizer, o Brasil se redemocratizando, as relações da empresa... A Petrobras é uma empresa com muitas histórias, por conta dessa força de segurança nacional, da história do “O petróleo é nosso", ela tem, sempre tem, como parte da sua cultura...é aquela empresa que é a proteção do Brasil, a segurança do Brasil. Ela sempre foi muito militarizada, teve uma hierarquia militar muito forte, muito grande; diversos generais foram presidentes da empresa. Então, isso, você imagina você tá naquele período de transição? Tem um grupo novo chegando na empresa, com outras cabeças. O Brasil entrando numa outra fase da História e a gente entrando na briga mesmo, na briga ... você tinha um sindicato que era um sindicato altamente pelego! Até teve uma coisa engraçada: se você for no sindicato e pegar a relação dos empregados sindicalizados aqui na Bacia, você vai ver que a imensa maioria dos sindicalizados... Que a gente tem um número de matrícula e as matrículas são por região. Então, aqui na região, as matrículas começam com 130, 130 alguma coisa. Se você pegar as matrículas entre 130 e 136, você vai ver que elas são a maioria das pessoas filiadas ao sindicato. Porque, na verdade, esse sindicato que era pelego lá... até porque não tinha muito espaço pra ser outra coisa diferente, não é, numa ditadura militar; eles botavam um cara no balcão de pessoal. Você chegava no balcão pra ser admitido, você tinha um monte de papel pra assinar, você assinava: papel de banco, papel de opção do fundo de garantia, papel de não sei que... O fundo de garantia era uma opção, né? Só que você tinha que querer, você não tinha outra opção: ou assina ou assina! Só é admitido se assina. Então, você tinha um monte de papel. Tinha um contrato de trabalho pra assinar e o cara era um delegado do sindicato, ele ficava no balcão do setor de pessoal o dia inteiro. A empresa permitia isso. Só, essa era a relação, e ele, era mais um papel, ele te entregava o papel do sindicato e você assinava, você não sabia nem o que é que você tava... entendeu? Então, na verdade, eles ajudaram a criar um grande número de sindicalizados. Só que depois esse povo cresceu, aprendeu a brigar pelos seus direitos. Era um tempo muito difícil, cada conquista que a gente teve em termos de salários e benefícios, era muita luta. Era um período de greves, 1988 a gente saia pra fazer greve, isso era uma coisa absurda, não existia, ninguém podia fazer greve! Era uma coisa... O sindicato, né? Aí a categoria vai pra uma reunião no Clube Ipiranga, aqui em Macaé, aprova a greve. O presidente do sindicato, era o Xavier o nome dele, fala assim... eu nunca vi uma coisa daquela, depois eu vi coisa pior, mas assim, "Vocês têm certeza que vocês querem fazer greve? Vocês sabem o que é fazer uma greve?" Eu falei: "Gente, o presidente do sindicato não quer que a gente faça greve, não!" Eram umas coisas, assim, meio malucas. Depois se construiu uma oposição sindical que aconteceu... que passou a existir na época, dessa gente nova, com novas cabeças. P/1 – Você acha que esse foi então um momento marcante? R - Foi um momento marcante, porque a gente aprendeu a ser gente, a ser cidadão. Você aprendeu a ser o que é um empregado e o que é que é essa empresa, o que é que ela significa pro Brasil. Porque a grande questão da Petrobras é essa: é um trabalho diferente, não é um trabalho como outro qualquer. Não tô dizendo que é uma empresa melhor ou pior por causa disso, não. Mas, ela tem um significado diferente, ela tem uma responsabilidade diferente. E aí quando você tá trabalhando aqui na empresa, na verdade, você tá trabalhando pro Brasil. Quando ela cresce, não cresce só você como pessoa ou como profissional, você tá crescendo o Brasil, de alguma maneira, ela tá impactando esse Brasil. É a maior empresa do Brasil e da América Latina e tudo o mais. É, quer dizer, é em determinados tempos econômicos, ela tinha mais credibilidade lá fora do que os papéis da Petrobras tinham mais credibilidade do que os papéis do Brasil. Então é diferente trabalhar nessa empresa, não é só porque ela é uma empresa estatal, nã porque tem um monte de estatal. Mas, é uma forma diferente, porque a gente trabalha aqui como estatal, mas você não é funcionário público. Você é regido pela CLT, você pode ser demitido como qualquer outro empregado de qualquer empresa privada. A diferença é que você tem um acordo coletivo de que você tem um sindicato que é mais atuante. E acordo coletivo ele te dá algumas garantias, mas não te dá estabilidade. Então, você tá aqui brigando pelo seu dia-a-dia mesmo. P/1 – É, e você tá falando características muito especiais, específicas de quem trabalha aqui... R – Muito especiais... P/1 – ... então, como você define, assim, ou como você se sente, como é ser um petroleiro? R - Olha, eu acho que ser petroleiro é ter meio, assim... É...ah...alguém me disse um dia que: "Ah, alma petroleira, é?" Aí eu falei "É meio uma alma corsária." Assim, você vai entrando mar a fora, mar adentro, procurando as coisas, inovando, querendo crescer, querendo se transformar num cidadão, sabe? Eu aprendi a ser cidadã aqui dentro. A gente começou... A gente tem uma campanha da solidariedade que tá há 15 anos atuante aqui. A gente viu o Betinho lá fazendo aquele trabalho e um empregado teve uma ideia de fazer "Poxa, a gente podia doar uma parte do nosso salário, comprar uma cesta básica e distribuir." E a gente começou, assim, com comitê, com várias pessoas participando, e a gente, até hoje, 15 anos depois, contribui com um valor. A Petrobras, ela dá um apoio logístico, mas não é uma campanha institucional, é uma campanha dos empregados, voluntariado mesmo. E a gente hoje trabalha, 15 anos depois, além de doar cestas básicas, a gente tá fazendo, entre as entidades que trabalham com a gente, que hoje são 35, a gente tá fazendo uma espécie de seleção pública de projetos sociais. Pra transformá-los não só naquelas entidades que recebem cesta básica, mas que têm renda própria. Eles trouxeram diversos projetos e a gente tá trabalhando com eles a melhor maneira de fazer esses projetos tocarem. E aí a gente pega cada uma das pessoas aqui, cada um com a sua habilidade: um que trabalha com planejamento, outro trabalha com financeiro; e a gente começa a trabalhar com essas empresas. Então você vira cidadão do mundo, não é? Você vira cidadã, você vai entendendo que país é esse, onde é que você estava, você vai tendo conhecimento da cidade, do local, do impacto que essa empresa tem aqui nessa cidade, do quanto você pode atuar, né, politicamente pra que as coisas mudem. Internamente, nesses 22 anos, como essa empresa mudou, nos últimos anos. Como é hoje. Hoje você vai, você faz a reivindicação, o sindicato vai lá, senta na mesa de negociação com o gerente de RH, com o diretor de RH e as coisas acontecem, você nem precisa fazer uma greve pra que as coisas... Ou seja, hoje você tem um nível de negociação que há dez anos era impossível, inacreditável, né? Então, eu vejo um período de evolução muito grande, eu vejo um período pra mim, como pessoa, de um crescimento muito grande. Como Leila, como a pessoa Leila, como cidadã Leila de me colocar nesse mundo, de olhar essa empresa. Assim que ela vai crescendo, você fica, assim, de ir pela primeira vez a uma plataforma, de ir pela primeira vez ao Urucu. Que é a mesma coisa, a mesma sensação que eu tive quando eu fui pra plataforma, foi quando eu fui a Urucu pela primeira vez, que você vê, só que a diferença é que, ao invés de ser o mar, você tem um tapete, é um mar verde. Você sai de Manaus, dez minutos depois, você já tá cortando a Floresta Amazônica, e aquele tapete verde, com aquele rio marrom bordando, parece um tapete mesmo com um bordado do rio, marrom, enorme, largo. E aí, de repente, abre uma clareira, assim, você sai no meio da mata, mas você tem um mundo, igual, como se fosse uma plataforma, mas é um mundo também, com tudo acontecendo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Você tá no meio da Floresta Amazônica e você tá tirando petróleo e gás do meio da floresta. Então é uma coisa muito interessante. P/1 – Então, agora, pra concluir eu queria só que você falasse o que você achou de ter participado desse projeto aqui da memória dos trabalhadores. Você tinha falado um pouco, né? Só pra concluir. R – Ó, eu acho fundamental. Porque essa coisa é de gente. Essa empresa é formada por gente, né? Não tem todo o tempo de empresa, só existe a Petrobras, porque existe um monte de gente. Tem gente que começou pioneiro, que tá vivo até hoje, que foi passando o seu conhecimento de um pro outro, e foi fazendo crescer essa empresa. Gente é... como dizia Caetano lá, né: "Gente, espelho da vida, doce mistério." Então essa coisa de você ter muita gente, isso é que é o mais legal. E a gente agora está num momento de novamente retomar a admissão das pessoas. Passamos 12 anos sem admitir ninguém, isso é quase um crime numa empresa do nosso porte, com tudo o que ela pode fazer pelo país. E aí você volta a admitir, tem mais nove mil pessoas, tem um plano, um plano diretor, um plano estratégico, até 2020 vai contratar mais 15 mil pessoas. E a vida dessa empresa são as pessoas. E você ter um projeto que vai contar essa história, que não vai nada se perder nessa história... E pra mim, que tenho formação de Pedagogia, que trabalhei com recursos humanos, que tô hoje no planejamento, eu adoro lidar com gente. Eu gosto de conversar, eu gosto de falar, eu gosto de ouvir história, eu gosto de contar história. Então pra mim, eu acho uma maravilha, lembro até... agora falando com você, lembrei de uma frase da Simone de Beauvoir que ela dizia... que é minha ídola, ela dizia: "Não há um caminho do eu. Não há uma ínfima parte do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”, não é? Então é isso. A gente é isso, a gente é um monte de gente que passa na vida da gente e a gente tem que contar essas histórias pra não acabar se perdendo e não ficando na cabeça de uma pessoa só. Então eu acho uma maravilha esse projeto, muito bom mesmo. P/1 – Ah, então tá. Obrigada, Leila. (Complemento do Depoimento de Leila de Brito Tavares) P/1 – Então Leila a gente voltou aqui pra você contar pra gente a história de quando o presidente Lula veio aqui na Bacia de Campos. R – Pois é, isso aconteceu em 2001, ele ainda não era presidente, aliás não era nem candidato ainda, né, era o pré-candidato do PT [Partido dos Trabalhadores], e pediu pra vir a Petrobras, conhecer a plataforma. Aí o gerente geral na época, o Belô, concordou, decidiu com a Petrobras lá e ele veio pra embarcar na P26. E eu sabia que eu queria ir pra assistir, mas ir pra plataforma não dava porque a comitiva já era grande, veio o pessoal da CUT [Central Única dos Trabalhadores], do sindicato mais o pessoal daqui da empresa, não dava pra ir. Mas ele ia fazer uma palestra lá na sala VIP do aeroporto aqui de Macaé, o gerente geral ia fazer uma apresentação da Bacia de Campos pra ele. Aí eu liguei pra um amigo lá da comunicação e falei: “Quando você for pra lá, me leva junto.” Aí eu fui, era uma van! Eu entrei aquela van, mas ele estava indo... Então: “Olha vamos parar aqui no Hotel Lagos Copa, porque ele tá dando uma entrevista, a gente assiste um pouquinho depois vai pra lá.” Eu fui, desci, fui lá, olhei a entrevista, tirei uma foto com o Lula! Voltei pra van e nada dele aparecer. Falei: “Gente que demora! Daqui a pouco a gente vai chegar lá e o Lula já foi.” A van que eu estava foi a van que o Lula mais a comitiva... eu estava na van da comitiva e não sabia! Eu entrei na van, fui conversando com ele no caminho do hotel até o aeroporto, conversando da candidatura, de como seria a candidatura, como é que seria a indicação, fomos conversando lá, teve apresentação do Belô e depois ele embarcou, né? E aí a ideia era que ele ia voltar para o aeroporto de Macaé e ir embora, mas houve um problema qualquer, não sei, me parece que uma turbulência no voo , não sei, ele teve que descer aqui na unidade. Eu fiquei sabendo lá pelo pessoal da plataforma que ele ia descer aqui, o helicóptero ia pousar aqui no heliponto, dentro daqui da base da Embitiba. Quando eu soube disso eu saí ligando pra todo mundo que eu sabia que gostava dele: “Gente vamos lá pro heliponto pra ver o Lula!” A ideia era que ele descesse do helicóptero, entrasse numa van e fosse embora, não dava pra deixar passar em branco. Juntou um monte de gente, a gente foi pra lá, quando ele desceu a gente começou a cercar, a tirar foto, juntou todo mundo. Resultado, aquilo virou uma passeata, uma caminhada por dentro da unidade, a gente veio com ele até o auditório, o auditório estava ocupado, tinha lá uma reunião da empresa de limpeza, com seus empregados. Aí ele subiu na escadinha na frente do auditório e acabou fazendo um discurso pra umas 50 pessoas que estavam por ali e veio chegando gente, parou o trânsito ali na unidade e foi um dia assim, inesquecível. Depois ele acabou entrando na van e indo embora, a gente ficou com as fotos, com os retratos, né, mas foi uma história, assim, mais uma dessas histórias da Bacia inesquecíveis: o dia que Lula visitou a P26. P/1 – Ah legal! Obrigada Leila. R – Ok? Fim da entrevista
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