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História

No laboratório da própria vida

História de: Roberto Pellegrini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/08/2018

Sinopse

Roberto Pellegrini nasceu no dia 17 de julho de 1936. Filho de Augusto e Araci, nos conta sobre a sua infância nos bairros do Brás, Penha e Aclimação, do seu bom desempenho na escola, das lembranças de estar no laboratório farmacêutico em que seu pai trabalhava e das tradições italianas presentes em sua família. Em 1963, Roberto sofre um acidente de carro, seria o ano de seu vestibular e, mesmo em recuperação, decide prestar e acaba passando no curso de Farmácia da USP, área com a qual se engajaria para sempre. Fala sobre como foi estudar na Cidade Universitária quando ainda estava em construção, sobre os conflitos da ditadura e como era trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Roberto tem em seu currículo muitas experiências, passando por laboratórios da Ford, Johnson & Johnson, UpJohn e Sankyo. Em sua entrevista para o Museu, em 3 de junho de 1997, nos conta sobre a sua história e um pouco da história dessas empresas.

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História completa

P/2 - Bom, queria começar a entrevista pedindo para o senhor repetir para nós o nome completo do senhor, o local e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é Roberto Pellegrini. Eu nasci em 17 de julho de 1936.

 

P/2 - Os nomes dos pais do senhor?

 

R - É Augusto Pellegrini e Araci Melo Pellegrini.

 

P/2 - Desculpe, que cidade que o senhor nasceu?

 

R - Eu nasci em São Paulo, capital, no bairro do Brás.

 

P/2 - No Brás? E que é que o seus pais faziam?

 

R - O meu pai, ele trabalhava em laboratório farmacêutico. Ele iniciou como propagandista e devido ao problema de se ausentar da família depois do meu nascimento e tudo mais, ele resolveu ficar interno na indústria e aí ele começou a trabalhar no setor de produção, é como chefe de embalagens.

 

P/2 - Que indústria que ele trabalhava?

 

R - Ele trabalhou no Laboratório Xavier, já não existe mais também, o Laboratório Xavier o que produzia o Epacolan, o regulador Xavier, que hoje existe em laboratório. O laboratório Epacolan que produz esses produtos, eles foram vendidos pra esse laboratório, mas como a entidade assim como o Laboratório Xavier já não existe mais.

 

P/2 - Certo. E a mãe do senhor fazia o quê?

 

R - A minha mãe, ela sempre foi do lar.

 

P/2 - E o nome dos avôs do senhor?

 

R - Os avôs paternos eram Antônio Pellegrini e Maria Teresa Pellegrini.

 

P/2 - E eles nasceram aqui em São Paulo?

 

R - O meu avô era Italiano, né? Ele nasceu em Nápoles na Itália e a minha vó ela era brasileira, nasceu aqui no interior de São Paulo que exatamente eu não sei a cidade.

 

P/2 - E o senhor sabe por que o seu avô veio da Itália para o Brasil?

 

R - O meu avô veio da Itália para o Brasil, naquela época de fazer América, então ele veio para cá, ele era casado na Itália e tinha três filhos na Itália. Inclusive ele veio aqui para o Brasil e acabou casando aqui no Brasil e não voltou mais para a Itália, ficou aqui. Depois a esposa dele ficou lá, eu não sei bem a história, eu sei que ele acabou ficando aqui no Brasil.

 

P/2 - E os avós maternos do senhor?

 

R - Os avós maternos eram João Melo Castro e Maria Nunes Melo Castro. Eles eram de São Paulo, o meu avô era de São Paulo capital e a minha vó ela nasceu próximo a Jacareí, era Santa Branca.

 

P/2 - E que é que o avô, seu João fazia?

 

R - Ele trabalhava na época com comércio, também ele faleceu cedo, minha vó que ficou até o final, né?

 

P/2 - E o senhor passou a infância no Brás?

 

R - Eu passei uma parte no Brás. Logo no início eu passei no Brás, mas eu mudei para Aclimação quando eu tinha mais ou menos uns cinco anos, tanto que com sete anos eu iniciei o primário num colégio, numa escola particular na Aclimação, mas nessa época eu passei muito, a minha infância eu passei muito no bairro da Penha porque os meus avós maternos mudaram pra Penha. E naquela época, a Penha era como se fosse um mini interior, então era uma casa grande, arborizada, com árvores frutíferas, tinha um morro em frente e eu passava muito lá, praticamente todos os finais de semana eu passava lá, nas férias eu passava uma boa parte porque eu tinha parentes, primos. Eu tinha uma tia inclusive que a diferença de idade não era muito grande então a gente... como se fosse irmãos. Então a gente passeava muito por lá eu passei muito naquela região.

 

P/2 - Vocês brincavam do quê?

 

R - Aí depende, como tinha o morro a gente empinava papagaio, que chamava na época. Hoje em dia é pipa. A gente brincava de empinar papagaio com os meninos, a gente jogava futebol, praticamente isso, essas brincadeiras normais de todas as crianças.

 

P/2 - O senhor tinha irmãos?

 

R - Só um irmão.

 

P/2 - Como é que era a convivência de vocês, o dia a dia da casa?

 

R - Eu com meu irmão sempre fomos muitos bem harmoniosos, apesar de nós termos o gênio bem diferente um do outro, nós sempre nos demos muito bem. Nunca houve problemas assim de brigas. Aquelas discussõezinhas normais sim, a diferença de idade apesar de ser de três anos e meio, nós tivemos praticamente o mesmo ciclo de amizades, frequentamos os mesmos colégios, então a diferença que existia era diferença de turma de colégio, que eu estava dois anos na frente dele só, porque o restante nós passamos o tempo bastante juntos até a... praticamente a fase de casamento.

 

P/2 - O senhor mudou para a Aclimação, né? O senhor sentiu essa mudança do Brás para a Aclimação? O senhor se recorda?

 

R - Não senti porque eu tinha na época uns cinco anos e como eu vivia mais na Penha do que no Brás, então foi apenas mudar de casa, eu não senti a mudança de bairro.

 

P/2 - E como é que era o bairro da Aclimação naquela época?

 

R - Naquela época o bairro da Aclimação era um bairro assim bem residencial, não existia quase que empresas nenhuma. Hoje, o atual Parque da Aclimação chamavam de Jardim da Aclimação, ele tinha um Zoológico, esse Zoológico eu lembro muito bem a primeira vez que eu vi um leão velho, até era uma leoa, eu lembro que meus pais levavam porque não era tão pertinho de casa. A gente ia a pé e tinha alguns animais, a jaula do leão que era a favorita de todo mundo, tinha também o macaco, aves, tinha bastante... tinha um lago pequeno lá onde tinha os patos também, eu me lembro muito disso.

 

P/2 - E o senhor estudou aonde?

 

R - Eu estudei, iniciei o primário no colégio Santo Antônio que ficava ali na Aclimação na Rua Conselheiro Furtado, hoje em dia não existe mais, o local da escola que era uma casa, hoje está o supermercado Pão de Açúcar na Conselheiro Furtado. Depois, quando eu terminei os quatro anos primários, eu fiz exame de admissão no colégio Santo Agostinho e no colégio estadual Presidente Roosevelt, que na época era tido como um dos melhores colégios da região. E o resultado do exame de admissão saiu primeiro o Santo Agostinho e eu consegui uma bolsa através da irmã do dono do laboratório que meu pai trabalhava. Eu consegui uma bolsa porque era colégio de padre e era colégio, inclusive na época, até caro. E quando saiu o resultado do Roosevelt, como eu já estava matriculado no Colégio Santo Agostinho eu continuei e fiquei no Santo Agostinho com os padres Agostinianos. Fiz o ginásio todo, o curso ginasial, depois fiz o curso colegial e terminei o colegial no colégio Santo Agostinho.

 

P/2 - E lá no Santo Agostinho como é que era? Tinha a educação religiosa? Tinha hábitos?

 

R - Tinha. Os padres naquela época eles usavam batina, era uma ordem espanhola. Eles falavam portunhol o dia inteiro e os padres, eles eram, assim, bastante severos e o que eu percebi depois que na época eu não percebia e que realmente existia... vamos supor, os alunos que se sobressaíam em alguma matéria e tudo mais, os próprios padres já procuravam dar até um tratamento melhor. Eu fui um desses alunos, que eu me saía muito bem em matemática, todas a partes de ciências e exatas e então eu ganhava muitas medalhas no final do ano assim, e outros alunos, por exemplo, aqueles alunos que eram... os que mais complicavam as aulas e os padres já eram mais severos chegaram até a bater na época, porque era uma época diferente, mas eles tinham aquele rigor deles. Mas eles inclusive eram bons e uma coisa que eu notei, como eu era bolsista eu não pagava escola, nunca houve uma diferença entre um bolsista e os alunos que normalmente pagavam, muito pelo contrário, às vezes eu tinha até.. eu era uma aluno relativamente bom, eu tinha um tratamento até bom em relação a outros que pagavam pra bagunçar as aulas.

 

P/2 - Como é que o senhor conseguiu essa bolsa?

 

R – É como eu estava falando, essa bolsa, como eu fiz vestibular... meu pai conversando na época, era dona Cecília que era a irmã do dono do laboratório, ele falou: “Olha, ele fez vestibular, inclusive eu gostaria que ele ficasse aí, mas realmente o colégio é caro e a gente não sabe.” Ela era educadora na época ela falou: “Olha, esses colégios, eles são obrigados a fornecer bolsa, então eles têm um número de bolsistas, é que normalmente eles também não falam nunca, mas eles têm. Então eu vou conversar com os padres.” Aí ela foi, conversou com os padres e na época ela tinha dado opção também se eu quisesse poderia fazer um vestibular no colégio Santo Alberto, mas como eu já tinha feito admissão no Santo Agostinho mesmo, então eu falei: “Não vou nem tentar outro. Vou ficar aqui mesmo”. Era mais próximo de casa.

 

P/2 - E como é que o senhor fazia? O senhor ia a pé para a escola, voltava que horas? Qual é que era o seu cotidiano?

 

R - Eu ia a pé que era inclusive, era uma boa subida, mas depois tinha uma turminha que morava no final da Rua Pires da Mota e estudava lá. E tinha um senhor italiano que tinha um filho e dois sobrinhos lá, ele tinha não sei se era Ford 29, era um calhambeque assim, aí eu passei depois de conhecer o pessoal da turma, aí eu passei praticamente a ir diariamente com esse senhor. Ele chamava Policano. Era um senhor italiano... eu até hoje eu tenho amizade com... não minha, do meu irmão que estava um pouco atrás, mas até hoje eu tenho amizade com esse pessoal e eu ia com ele. A gente ia no carro e todo dia ele nos levava e pra voltar aí a gente voltava a pé, aí era descida, era mais fácil.

 

P/2 - E, Sr. Roberto, meio pelo lado dos avós paternos do senhor, tem hábitos Italianos na família?

 

R - Tem bastante. Foram bem conservados os hábitos italianos porque a minha vó ela adaptou o estilo de comida, praticamente ao estilo de vida do meu avô, então ela apesar de que eu não tenho nem cara nem pele de italiano, eu tenho nome, é italiano e realmente o meu avô ele nasceu em Napoli, como minha vó era brasileira, era mulata, então houve uma mistura na família - um é mais claro, outro é mais escuro. O meu irmão mesmo ele é bem mais claro, então fica uma miscigenação, assim, mas os hábito eles até hoje basicamente permanecem nos hábitos mais Italianos em comida e tudo mais.

 

P/2 - Quais são? Quais seriam esses?

 

R - É a base de macarronada duas vezes por semana, pizza, comida tendendo muito ao italiano, que aliás, São Paulo tem o hábito italiano mesmo - cantinas, tudo mais o que prolifera e todo mundo gosta mais.

 

P/2 – Sr. Roberto, por quê que vocês saíram do Brás e foram morar na Aclimação?

 

R - Justamente porque o meu pai mudou de emprego, foi trabalhar no laboratório Xavier. Esse laboratório ele era na Rua Conde do Pinhal onde está o fórum hoje e depois de mais ou menos um ano que ele estava lá, o laboratório mudou para a Rua Tamandaré na Aclimação. Então, o meu pai achava longe ir do Brás até a Aclimação, aí foi a ocasião que ele falou: “Ah! Muda pra cá!.” Aí nós mudamos pra Aclimação.

 

P/2 - E assim o senhor teve que receber alguma educação política? O senhor se lembra de algum fato político quando o senhor era criança?

 

R - Bom, olha, o que eu me lembro quando eu era criança assim eu ouvir falar mais era no Ademar de Barros. Falavam muito no Ademar de Barros. Na época eu acho que na família assim o que se falava mais era no Ademar de Barros que eu lembro mais, porque naquela época eu não era muito envolvido com essa parte. Hoje, por exemplo, é diferente, hoje nós temos a mídia, é completamente diferente. Então, as crianças, elas já entram em contato com televisão logo cedo e ficam sabendo o que acontece, mas na época não. As crianças eram mais alienadas mesmo. Não tinha uma preocupação, realmente não tinham. Então, em casa a gente ouvia falar às vezes, quando estava próximo às eleições, eu lembro muito do Ademar de Barros e outros que nem lembro quase, mas tinham alguns assim... o que marcou mais assim foi acho que a era do Ademar de Barros mesmo.

 

P/2 - Ele fazia alguma coisa assim pela cidade?

 

R - Mesmo na Aclimação próximo ali de casa, ele montou... próximo das eleições, ele montou assim um palanque. Então, tinha assim uma pracinha no final da rua então ele falava. Aí, logo depois, também nessa época, agora eu estou lembrando, uma casa foi alugada pelo Jânio Quadros, também então outro que marcou porque eu cheguei a ver pessoalmente e nós éramos... a gente voltava do colégio... e passava lá, eles às vezes dava bala para criançada, então mais ou menos a gente ia, porque o Ademar de Barros era num palanque no final da rua e o Jânio já era bem antes. Então eles estavam ali. Eu cheguei a vê-los pessoalmente. Eles iam lá.

 

P/2 - E, assim, o senhor já mais adolescente saía, passeava, onde o senhor ia?

 

R - Quando eu era adolescente eu já não morava na Rua Pires da Mota. Eu já tinha mudado pra Rua Zeferino da Costa onde moro até hoje. Eu fui pra Zeferino da Costa, então... e no colégio, então a gente já ia muito a cinemas, eu ia muito a cinemas, esses bailinhos de final de semana, tinha muito aniversário, muito bailinho. Na época tinha muito bailinho pró-formatura, então a gente ia, gostava muito de ir nesses bailes. Também com a família, os meus parente lá da Penha, entre Penha e Carrão, também como eu ia pra lá muito em finais de semana, meu hábito também mudou muito. Então, quando tinha festa pra lá, também a gente ia, era mais assim, na festa na base assim de baile, fora a festa de casamento, mas aí já era mais pessoal da família. Sair com o pessoal era mais assim que a gente ia - clube, eu era sócio do clube ali perto, às vezes eles faziam jogos, faziam excursões na época era os famosos convescotes.

 

P/1 – Convescotes?

 

R - Piquenique.

 

P/2 - Onde é que eram esses piqueniques, convescotes?

 

R - Eu falo convescotes também por isso, né, porque é uma palavra que hoje em dia quase não se usa. Falei em casa uma vez e meus filhos morreram de dar risadas. Eu usava muito esse termo convescote. Normalmente se usava mais piquenique. Então saíam os ônibus de manhã, iam pra Santos, pra Fonte Sônia na época, alguns lugares que na época que eram meio tradicionais assim pra se passar o dia. Então se levava normalmente os pais, os avós, quem fosse. Levava sanduíches e a gente passava o dia brincando, jogando, quando ia pra praia, às vezes ficava na praia, nadava, existia naquela época cabines pra alugar, então a gente alugava cabines pra se trocar, tomar banho. Toda a Orla, em Santos, São Vicente era mais ou menos assim. Hoje, por exemplo, são ocupados por aqueles prédios, apartamentos, aliás, eu até tenho apartamento lá. Na época eram cabines, chamavam de cabines. Tinha um restaurante do lado, as pessoas podiam utilizar o restaurante ou não, mas de qualquer maneira alugavam. Eram tipos de quartinhos, então o pessoal se trocava ali, tinha banheiro pra se banhar antes e quando voltava da praia.

 

P/2 - E quando não era pra praia ia para onde?

 

R - Aí eu ia nessa Fonte Sônia que eu falei. Era um tipo de um parque que ficava mais ou menos, sei lá, uns sessenta, cem quilômetros de São Paulo, ainda existe hoje isso. Ali próximo a Santana também tinha, tem um bairro famoso hoje, eu não lembro agora o nome, então a gente também fazia... Eram parques que existiam mais na periferia da cidade e que pra o pessoal sair do centro ia pra passar fim de semana. Então eu sempre gostei de sair. Eu não parava muito em casa, saía muito.

 

P/1 - Certo. E como é que o senhor resolveu fazer Química?

 

R - Quando eu terminei o colegial eu fiquei indeciso: “O que é que eu vou fazer”? Então eu não sabia o que fazer. Então na época tinha uns amigos, umas amigas também que estavam na mesma situação, então nós começamos a procurar o que fazer. Aí eu entrei num cursinho, na época o cursinho Brigadeiro. Comecei a fazer o curso Brigadeiro pra fazer vestibular. Na época eu pensei em fazer medicina ou afins, então como esse cursinho ele era mais para biológicas, então eu comecei a fazer esse cursinho. Aí eu gostava muito de química, desde o colégio eu gostava de química e eu soube que o colégio Oswaldo Cruz estava fazendo um curso e eles davam créditos para as matérias que já tinham sido feitas no colegial e só nós fazíamos um curso intensivo de dois anos, eram dois anos mais ou menos, só da parte de química mesmo, o laboratório. Então eu entrei nesse curso, até nós entramos em cinco, eu não sei se foi por motivo de amizade, um acabou levando o outro, então nós entramos em cinco nesse curso e nesse meio tempo eu desisti do vestibular. Aí eu fiz o curso de química e comecei a trabalhar como químico industrial, mas eu não fiquei muito satisfeito, então eu comecei verificar, eu falei: “Medicina eu realmente...”, desisti da ideia porque não era aquilo que eu queria na realidade, então eu comecei a ver alguns currículos, até que eu vi o curriculum de farmácia. Então, quando eu vi o curriculum de farmácia falei: “É isso que eu quero”. Eu queria uma carreira que eu aplicasse química - que eu gostava muito e também a parte de biologia. Então eu falei: “Bom, é isso que eu quero”. Aí eu falei: “Bom, então eu vou prestar vestibular”. Aí eu voltei a fazer o cursinho e na época eu fiz o cursinho de Túlio. Prestei vestibular e quando estava logo no finalzinho do ano eu cheguei a prestar um vestibular e não entrei. Falei: “Bom, só no final do ano. Eu espero pra o ano que vem”. Aí eu fiz um ano inteirinho de cursinho. Quando foi pra prestar vestibular em 62, por aí, 63, foi em 63 eu prestei vestibular em 63 e antes do vestibular eu sofri um acidente automobilístico, aí eu sofri um acidente, eu estava inclusive em casa na cama aquela coisa toda, eu não cheguei a ficar internado, mas eu fiquei um bom tempo em casa na cama e eu tinha inclusive uma tia que ficou ajudando a minha mãe e aí eu falei: Bom, agora eu vou perder o vestibular não vou fazer mais”. Aí ela falou: “Não! Eu te levo. Acho que você pode fazer.” Porque a locomoção é que era pior, não dava pra eu andar direito. Aí eu fui com ela. Ela me levou para fazer os exames... que naquele tempo não existiam faculdades de farmácia, era só mesmo a USP, o curso noturno e diurno. Antes do acidente eu já tinha feito a minha matrícula, minha inscrição no vestibular para o curso noturno, inclusive, aí, eu estava bem desanimado e fui fazer o exame. Falei: Bom, eu vou fazer até o fim”. Então eu comecei a fazer o exame fiz, o primeiro, o segundo e passei nos escritos aí eu passei com o exame oral. Fiz exame oral de doze matérias. A única matéria que eu não estava indo bem foi botânica, uma matéria que eu nunca mesmo me dei muito bem foi com a botânica, apesar de gostar muito de planta, mas é diferente porque botânica era decorar nome, coisa de decorar muito nunca foi assim o meu forte e eu lembro que em botânica até o professor que depois me deu aula na faculdade falou assim: “Você foi bem em biologia geral, em zoologia?” Eu falei: “Fui otimamente bem”. “Então pra compensar, porque botânica você foi mal no oral, no escrito você foi até bem, mas no oral você foi mal”. Porque no oral tinha aqueles nomes todos que eu não lembrava. Aí, em resumo, depois que eu fiz o vestibular eu falei: “Bom agora vamos aguardar o resultado”. Aí saiu o resultado, eu passei em 32º lugar na USP. Aí comecei a fazer o curso.

 

P/2 - Era lá na Rua Três Rios?

 

R - Comecei na Rua Três Rios, exatamente. Era faculdade de Odontologia e Farmácia e no segundo ano já a faculdade começou a se transferir pra cidade universitária. Foi um período bastante penoso porque eu trabalhava nessa época na Lumínio do Brasil, depois que eu fui pra Ford... aí eu ia de trem porque era mais fácil pra mim, então eu pegava um trem lá em Utinga, descia ali no bairro da Luz e tomava um ônibus do Anhangabaú que ia lá pra Cidade Universitária. Tinha um ônibus que saía a cada 20 minutos, então se a gente perdesse um ônibus só ia no outro. Às vezes acontecia do material ir no primeiro ônibus, a gente no segundo porque como o ônibus ia muito cheio, às vezes a gente dava pra quem conseguia um lugar sentado o material e esse pessoal levava o material e a gente ficava pra ir no outro ônibus sem saber como, se não tivesse material já era melhor. Então foram os dois primeiros anos porque não existia nada na USP, tinha um bar na biologia e a gente ia lá, e depois eles fizeram um bar também nas químicas onde funcionava a farmácia, faculdade de farmácia e como a gente chegava tarde às vezes não dava tempo de jantar nem nada. Às vezes a gente ficava em aula e carro aquele tempo quase ninguém tinha. Então tinha um aluno que tinha carro e tinha um professor também. Às vezes a gente saía de lá e ia comprar sanduíche no Butantã e voltava, as meninas faziam já e a gente passava assim.

 

P/2 - Como é que era naquela época assim? O quê é que tinha de prédio na cidade universitária? Qual foi o impacto de chegar lá?

 

R - Bom, o impacto foi assim tremendo porque nós chegamos lá, nós víamos a cidade universitária em construção, então nós chegamos lá pra estudar dentro do canteiro de obras. Só existia a faculdade de biologia, que ficava na parte bem de cima e aquela parte das químicas ou queijo, eles falavam que é aquele prédio redondo, aquele prédio também estava em construção e existia só um setor de blocos que eram os blocos treze, catorze e quinze onde funcionava a faculdade de farmácia. Ali estava praticamente montado, agora o restante estava todo em construção. A parte de história também estava em construção. A reitoria já estava pronta, mas não totalmente. Então foi um período assim, nos dois primeiros anos foi muito difícil, depois melhorou um pouco.

 

P/2 - Transporte pra lá era...?

 

R - O transporte pra lá como eu falei era de ônibus e na volta também a gente tomava um ônibus ali na porta, ia até o Butantã e depois do Butantã então a gente tomava um ônibus pra ir pra casa. Às vezes a gente pegava uma carona pelo menos até o Butantã com algum aluno porque não era comum automóvel. Tinha uns dois que tinham. Às vezes, quando coincidia, porque as aulas... como nós tínhamos aula prática, às vezes ia até tarde, quando coincidia a gente pegava às vezes carona com o professor. Então é mais ou menos por aí.

 

P/2 - E o bairro do Butantã em si ele já tinha muitas casas, era um bairro residencial, como é que era?

 

R - O Butantã já era... não é muito diferente do que é hoje porque as casas do Butantã realmente elas são velhas. Já existia um instituto, tudo mais, então a parte de baixo da cidade universitária é praticamente como era hoje, logo que hoje fizeram avenidas novas, houve aquela modificação pra melhorar o trânsito e tudo mais, mas a parte de casa assim a diferença não era muito grande não.

 

P/2 - E senhor Roberto, o pai do senhor, a sua mãe, eles te incentivavam a seguir alguma profissão?

 

R - Não. O que eles sempre me falavam era pra eu estudar porque logicamente hoje em dia já mudou um pouco, mas na época pra se conseguir alguma coisa tinha que ter um estudo, um diploma e então eles incentivavam, mas eles não falavam: “Faz isso, faz aquilo”. A minha mãe já falava assim: “Ah! Por que você não faz medicina?” Mas aquela velha história - eu queria ter um filho médico, mas não era que propriamente que obrigando a fazer. Lógico que ela gostaria, mas eu mesmo achava que não gostava da profissão. Então, e o meu pai ele não falava muito. Ele falava: “Você tem que estudar. Faz um curso. O que a gente puder fazer pra ajudar a gente faz.” Tanto pra mim como para o meu irmão era a mesma coisa, mas eu não sei se foi influência também, pode ter até sido, eu estou lembrando agora, quando eu era pequeno às vezes a minha mãe ia em médico e tudo mais e eu tinha que fazer os meus trabalhos de casa. Então eu ia pra o laboratório, às vezes eu ficava com meu pai no laboratório e às vezes até sentava na escrivaninha, a dele, ficava fazendo a minha lição, meus trabalhos de casa e tudo mais. Então não sei se isso, pode até ser que tenha influenciado, não diretamente ele, mas o ambiente em que eu estava praticamente crescendo, vendo na época então pode até ter sido que tenha influenciado eu escolher farmácia.

 

P/2 - Quê é que o senhor lembra assim do local que seu pai trabalhava assim, descreve pra gente?

 

R - Ah! Eu lembro que tinha um salão grande, que antigamente era um pouco diferente. Salão grande, tinha a mesa em que ficava, depois tinha aquelas mesas que não eram esteiras como tem hoje na embalagens, eram mesas, assim, normais, compridas onde sentavam aquelas meninas com uniforme branco - era um avental e normalmente uma touca - e elas ficavam ali, embalando os produtos, tudo manual, montando os cartuchos, colocando os frascos ali dentro. E como eu ficava mais na embalagem, então eu não lembro muito bem na parte do setor de preparação propriamente dita porque quando eu ia pra lá eu ficava mais na embalagem e evidentemente como hoje no setor de preparação não pode entrar ninguém e ficar, principalmente, no caso, crianças. Hoje nem poderia, mas naquela época... Então eu ficava na embalagem, então eu via o pessoal trabalhando... Que eu lembro também nos setor de líquidos, eu lembro que era pegado, então eu lembro de ver eles fazendo o enchimento de líquidos. No início era manual, eles faziam manual e depois tinha uma máquina que também eu lembro dessa máquina que eles faziam o enchimento de líquidos.

 

P/2 – Manual? Como é que seria o enchimento de líquidos?

 

(pausa)

 

P/2 - O senhor estava falando que lembrava alguma coisa dos líquidos, né?

 

R - O que eu lembro é que era tipo umas canecas dosadoras, então eles colocavam a medida do líquido, xarope, tudo mais e iam colocando, mas isso foi bem no início porque logo depois eles compraram máquina e aí já faziam o enchimento em máquina.

 

P/2 - Então mediam com a caneca e colocava no frasquinho?

 

R - Pelo menos eu lembro, se eles mediam pra uma outra finalidade até pode ser, mas eu lembro que eles mediam na caneca, era uma dosadora e colocavam nos frasquinhos, mas isso foi muito pouco, eu tenho uma vaga lembrança assim. E depois eles já compraram uma máquina de envase e aí já faziam envase em máquinas.

 

P/2 - E Sr. Roberto, o senhor se lembra assim de algumas doenças que o senhor teve quando criança, o senhor, o seu irmão?

 

R - Eu acho que todas as doenças infantis. Eu lembro que eu tive sarampo. Caxumba eu não tive, só o meu irmão que teve. Sarampo, catapora, tosse comprida, eu lembro que eu tive uma época em que eu tive bronquite também, até cheguei a fazer um tratamento.

 

P/2 - Como é que foi esse tratamento?

 

R - Esse tratamento eu ia em uma clínica... como nós éramos em dois, essa minha tia, ela sempre me levava. Eu tive muito relacionamento assim com minha tia, tudo que eu precisava que era pra levar no médico e tudo mais era minha tia que fazia ao invés de minha mãe porque minha mãe ficava sempre com meu irmão em casa. Então ela que me levava.

 

P/2 - Como é que se chamava sua tia?

 

R - Irene. Então ela me levava na clínica, eu fazia aplicações. Eu não lembro que tipos de aplicações eram. Deveria ser algum tipo de aplicação tipo alérgica, qualquer coisa assim. Então eu lembro o que mais foi penoso pra mim foi essa parte aí mesmo, que demorou um pouco mais, a bronquite que eu tinha algumas crises porque o restante era aquela fase da doença, aí passava, terminava, então eu também depois com uns dez anos operei as amídalas. É o que eu lembro assim praticamente...

 

P/2 - Sua mãe fazia chá, algumas coisas assim?

 

R - Ah! Fazia esses chás, era comum. Era chá qualquer coisa que tinha. O tratamento inicial era primeiro os chazinhos de casa, né?

 

P/2 - O senhor lembra de alguns desses chás? Para que é que era?

 

R - Ah! É difícil viu! Não estou muito lembrado. Eu sei o que se usava muito era aquele chá de camomila, se usava muito pra crianças era camomila, fazia chá de erva-doce também que até hoje é usado e eu lembro que eles faziam um chá de quebra-pedra, minha vó fazia muito para os meus tios, às vezes ela falava: “É dor nos rins”. Tudo mais. Ela fazia chá de quebra-pedra, era chá de boldo, era chá de louro, tudo isso era feito então pra cada um. Por exemplo, mais ou menos, era camomila, era mais pra criança dormir. Pra rins assim era quebra-pedra. Para estômago, problema assim estomacal era boldo, se usava boldo e mesmo louro também usava. Eu lembro que ela fazia muito para minhas tias nas fases menstrual ou pré-menstrual. Elas tomavam muito esses chás de louro também, fazia muito chá de hortelã, elas diziam que hortelã e poejo era bom para vermes. Então de vez em quando a gente tomava lá chazinhos de hortelã porque era bom pra vermes, ela fazia uma mistura de hortelã com poejo e açúcar queimado. Um outro chá que ela fazia também, não era chá, era xarope. Fazia xarope, agora eu não lembro, faziam xarope com açúcar caramelizado e depois colocava umas folhas e também diziam que era bom pra tosse o guaco.

 

P/2 – Guaco?

 

R – É, guaco. Fazia xarope de guaco. Em casa, xarope de limão também deles faziam pra tosse, então a gente tomava muito remédio assim, então, caseiro.

 

P/2 - Certo. Agora vamos voltar um pouco mais para a parte da faculdade, né? Tinha alguma matéria que atraía o senhor? Alguma parte do curso que o senhor gostava mais?

 

R - Ah! O que eu gostava mais realmente era a parte de química, sempre gostei da parte de química e da parte... eu gostei mais na faculdade foi toda a parte de química, a parte ligada a biologia também eu gostei muito dessas cadeiras. Já não gostei muito da parte de clínica, aquela parte de... nunca fui muito chegado a análise clínicas, apesar de gostar da biologia. Em si, o curso de determinação de análise clínica eu não gostava muito, tanto que eu não fiz especialização, mas a parte formatória pra esses cursos que era biologia, zoologia, essa parte toda eu gostava. A parte teórica praticamente foi que eu gostei mais na faculdade.

 

P/2 - Mas o senhor já trabalhava, né?

 

R – Já, trabalhava. Nessa época quando eu comecei a faculdade eu estava saindo da Lumínio do Brasil pra ir para a Ford. Aí eu trabalhei na Ford também por quatro anos e quando chegou no final, eu estava em final de curso e eu fui promovido na Ford a chefe do setor químico, mas eu sabia que apesar da minha promoção eu não ia ter muito progresso profissional porque lá só quem fizesse engenharia é que poderia ter algum progresso profissional. Então eu praticamente naquela promoção eu quase que não ia sair mais. Então eu lembro que eu tinha um colega de classe que eu me dava muito com ele, talvez ele tenha sido entrevistado aqui.

 

P/2 - Como é que ele chama?

 

R - Roberto Alvarenga do Lilly... Desde o vestibular, que eu conheci o Roberto no vestibular, sentamos juntos porque os dois, Roberto: “Ah! você foi bem, não foi”. Aí nós fizemos o curso juntos, todo o curso a gente sempre sentou junto, comenta tudo e o Roberto, ele estava trabalhando na Johnson, ele me falou: “Olha, vai ter uma vaga agora na Johnson. É uma pessoa que trabalha comigo pra adaptação de meta dos analíticos vai sair de lá, então se você quiser ir pra lá. Eu falei: “Eu vou”. Aí eu fui verificar, ele falou: “Você trabalha em outro lugar.” Eu fui verificar, ele estava com pressa para o cargo, pra não parar a parte de desenvolvimento de metas analíticas. Então eu conversei com o pessoal da Ford na época e com a minha promoção meu salário tinha subido há uns dois meses atrás, então para eu ir para a Johnson eu tinha que deixar o cargo que eu tinha sido promovido. O salário era praticamente dois terços do que eu estava recebendo e nessa época eu estava namorando e eu falei: “E agora? O quê é que eu vou fazer?”. Estava namorando já há alguns anos, né, então a gente estava esperando, falei: “Bom, depois que a gente terminar a faculdade e tudo mais”, pensando em casar, aquela coisa toda e aí eu fiquei numa dúvida: “Agora, o que é que eu faço? Aí pelo menos eu tenho condições de poder seguir a parte fora a profissão, mas se eu parar por aí, eu acho que eu vou encerrar a profissão farmacêutica porque aí vai ser muito difícil, porque aí não vou mudar mais”. Aí eu pensei... lógico o tipo de problema... conselho não adianta muito, poderiam até falar: “Não, se eu fosse você faria isso ou faria diferente”, mas de qualquer maneira eu pensei muito e acabei resolvendo. Eu falei: “Sabe de uma coisa! Primeiro eu vou querer me encaixar na profissão” porque não adianta nada eu fazer um sacrifício que eu fiz desde o vestibular com problema até de saúde, depois passar os pedaços que passei na cidade universitária, inclusive no tempo de 64, com a revolução também que foi um outro assunto bem... corria daqui, corria de lá.

 

P/2 - Dentro da cidade universitária teve muito problema?

 

R - Teve.

 

P/2 - Quais foram os problemas assim?

 

R - Problemas, por exemplo, de cavalaria até ir para lá porque ali estavam mais ou menos concentrados o pessoal da esquerda, então muitas vezes a gente saía de lá correndo de cavalaria e tudo mais. Porque foi em 64, esse ano eu estava no segundo ano da faculdade. Então, voltando à minha ida pra Johnson & Johnson. Aí o Roberto falou assim: “Ah! Se eu fosse você eu ia.” Eu falei: “Olha, eu também penso como você, agora tenho que ponderar as coisas”. Aí eu conversei com o pessoal da Ford e eu falei: “Bom, a única coisa que eu quero de vocês”. Então, eles falaram que não me demitiriam porque nem daria, eu tinha sido promovido com esse salário há dois meses, depois de dois meses eles iam falar: “Não serve mais. Vai embora? Não nós não vamos te demitir, se você quiser tem que pedir a conta”. Eu falei: “Bom, então eu vou pedir a conta só que eu quero ser liberado em uma semana, porque senão”. Aí eles falaram que daria certo, aí o meu chefe na época foi acidentado e eu fui conversar com ele. Ele falou também que não podia me demitir, aí eu pedi a conta e fui pra lá pra Johnson & Johnson. Só que a documentação da Ford não saiu, então eu trabalhei quinze dias nos dois lugares porque... Mas por lei isso podia ser feito porque o que podia acontecer é a Ford exigir a minha presença lá, mas isso aí eles abriram mão. Então eu fui registrado na Johnson & Johnson sem dar baixa ainda na Ford. Aí, depois de quinze dias arrumou tudo e eu comecei a trabalhar na Johnson. Não me arrependi nem um pouco porque depois eu fui, profissionalmente eu tive um certo progresso e até hoje eu não me arrependo de ter feito isso não.

 

P/2 - E Sr. Roberto, o que é que mudou do trabalho do senhor? O que é que o senhor fazia na Ford, para o que o senhor começou a fazer na Johnson?

 

R - O que mudou foi é o seguinte: na Ford eu trabalhava com metais ferrosos e não ferrosos, então eu trabalhava com ligas metálicas, então eu usava muito a química inorgânica e quando eu passei para a Johnson, então a maioria das substâncias que entram pra produção dos produtos farmacêuticos, dos medicamentos são substâncias orgânicas, então essa foi a diferença porque as análises de metalurgia, elas eram bem diferentes, apesar de tudo ser química eram bem diferentes. Então eu passei trabalhar com compostos orgânicos aonde inclusive até me aprimorei porque eu tinha uma prática muito grande na parte de metais, inclusive no desenvolvimento de métodos, deu uma boa chance, porque nesse desenvolvimento eu tinha que fazer uma adaptação às vezes de metas que vinham da Janssen, da Orton(?) e tudo mais, e às vezes nós tínhamos que procurar um método local, então a gente tinha que procurar literaturas, procurar uma série de informações e com isso eu tive assim um momento muito grande na parte de conhecimento, principalmente na parte orgânica que eu tinha mais conhecimento mais teórico, menos prático.

 

P/2 - Certo. Então descreve para a gente agora qual é que era o seu trabalho na Johnson? O que é que o senhor fazia exatamente?

 

R – Exatamente, eu chegava, ia pra minha bancada, via o método que tinha que desenvolver. Aí eu ficava desenvolvendo, como eu estava falando, métodos que eram pra adaptar. Eu pegava o método normalmente em inglês da Orton(?), da Janssen. Era mais da Janssen. E desenvolvia um método e aquele método eu desenvolvia pra depois colocar em rotina, e as fases em que deveria ser mudado, às vezes concentração, teor. Então eu fazia isso, a adaptação do método para o produto. E quando era um produto que não tinha um método, então a gente mais ou menos pela molécula, a gente falava: “Essa molécula ela tem esse radical que pode ser feito por esse processo”. Por exemplo: colorímetro, Então a gente desenvolvia a parte teórica e depois prática também. Fazia uma série de ensaios pra ver a repetibilidade do resultado analítico pra ver se dava certo, e depois desse método uma vez aprovado pelo chefe do setor, tudo mais, então ele era colocado em rotina. Os analistas que trabalhavam em rotina, então usavam esse método pra análise de rotina, e nesse meio tempo também a gente ajudava às vezes o pessoal a fazer análise de rotina. Eles aumentavam muito a análise, então a gente também dava uma ajudazinha, apesar que era desenvolvimento de método, mas no laboratório eu até gostava porque como eu desenvolvia métodos, eles tinham outros métodos que eu não utilizava, aí eu procurava até utilizar esses métodos. Aí a Johnson começou também nesse meio tempo a comprar equipamentos, então foi a primeira empresa que eu lembro que na época comprou um cromatógrafo gasoso, na época era CG, era um cromatógrafo nacional e eu sempre gostei muito de equipamentos, então eu fiquei também trabalhando, então eu fazia essa parte de desenvolvimento de métodos e também fazia parte de equipamentos. Eu trabalhava com equipamentos, então era Espectrofotômetro. Não trabalhar usando, desenvolvendo assim os métodos nos equipamentos e... por exemplo, quando chegou lá, o primeiro a começar a mexer com cromatógrafo fui eu. Tinha um outro rapaz também que fazia química que trabalhava à noite também ele mexia, mas o primeiro a começar a analisar com esse cromatógrafo gasoso fui eu, e na época o Vicente, que ele trabalhava lá também à noite ele fazia química, então também ele fazia. Era importante que a gente fazia cursos, fazer aqueles cursos que o próprio fornecedor de equipamento, ele dava aqueles cursos pra poder trabalhar mesmo como aquele equipamento, conhecer uma troca de coluna, uma fase como às vezes usar uma fase nova e tudo mais, um empacotamento de coluna, toda essa parte assim lidada com trabalho de equipamentos.

 

P/2 - Me explica uma coisa Dr. Roberto, o que é que é esse método assim... ele serve para quê? Que é que ele é exatamente?

 

R - Bom cromatografia hoje em dia é um dos métodos mais usados, hoje em dia a gente tem a cromatografia líquida, alta pressão, capilar. Aí seria a separação dos componentes de uma mistura, no caso desse medicamento através de um gás, seria o cromatógrafo gasoso. Então essa mistura ela era injetada em uma coluna em que ela tinha uma fase e que ela ia agir como se ela fosse uma seletora da velocidade de corrida dessa substância. Então, uma vez injetada, por exemplo, nós tínhamos três substâncias, então nessa base que ficava dentro da coluna, é uma, por exemplo,  tinha uma velocidade, a outra tinha uma outra velocidade, então cada uma delas,  dependendo do tipo de cromatógrafo, de coluna ou do detector, elas iam saindo cada uma de uma vez, então elas formavam picos, eram registrados nos cromatogramas, que seriam os picos, então cada pico ia saindo com determinado tempo e aí nós conseguimos separar e conseguia também analisar de acordo com o tamanho desse pico a gente conseguia depois determinar a quantidade desses picos até nessa mistura.

 

P/2 - E me fala uma coisa, o trabalho do senhor era num laboratório, né? Tinha alguma ligação com a produção em si? E qual era essa ligação?

 

R - Na Johnson era muito pouco a ligação que eu tinha com a produção, como era mais desenvolvimento, então eu tinha mais ligação com o pessoal que trabalhava com Farmacotécnica. Eles desenvolviam os produtos lá, então eles desenvolviam os produtos no setor piloto de Farmacotécnica e depois uma das partes do desenvolvimento do produto seria a análise. Então eu trabalhava mais nessa análise, então eu tinha mais contato com o pessoal que trabalhava na Farmacotécnica do que propriamente dito na produção porque a produção era mais o pessoal que fazia análise de rotina mesmo.

 

P/2 - E essa análise de rotina era para ver se...?

 

R - Pra analisar lote por lote de produto, pra verificar se esse produto ele realmente continha aquela quantidade do princípio ativo pra poder ser liberado pra consumo.

 

P/2 - O trabalho do senhor aliado mais a farmacotécnica, não sei se eu estou certa, era para pesquisa de novos medicamentos...?

 

R - Exato. Eles eram novos produtos que iam ser lançados e estavam sendo desenvolvidos aqui no Brasil.

 

P/2 - O senhor se lembra de quais? Alguns princípios ativos, alguma coisa?

 

R - Tinham alguns, deixa eu ver se eu lembro de algum produtos, é difícil lembrar. Tinha uma porção... é, tinha o Profitanil que hoje é um pré-anestésico da Johnson muito vendido, eu ainda peguei uma fase assim de desenvolvimento Fentanil, Inoval, mas esses daí já eram produtos que eram da Janssen, estavam só sendo adaptados, eles não estavam fazendo pesquisa do produto em si. Tinha uma Sulfa também que tinha, eu não estou bem lembrado dos nomes dos produtos.

 

P/2 - E assim em termos mais gerais em anestésicos e...?

 

R - É a Johnson tinha mais anestésicos, trabalhavam mais anestésicos. Tinha o Rarical que é polivitamínico, tinha uma Gentersal, se eu não me engano, era uma pomada, eu acho que até na base de Violeta Genciana, então tinha alguns produtos... Da parte de rotina, como eu não lidava com essa parte de rotina e a parte de rotina também eles faziam da linha popular que tinha talco, tinha toda essa parte aí, tinha talco, shampoo, tudo isso era feito também no próprio laboratório, mas como eu lidava mais com essa parte farmacêutica, mais ainda a parte de desenvolvimento, então apesar de trabalhar todos esses anos, a gente tinha contato com o nome do produto, mas não o contato de analisar, de fazer produto assim.

 

P/2 - E aí o senhor ficou lá até?

 

R - Eu fiquei na Johnson até 72. De 68 que eu me transferi pra lá até 72. Aí, em 72 a Johnson estava mudando para São José dos Campos. Nesse tempo eu já havia casado, já tinha a Roberta, a mais velha já havia nascido e eu cheguei a comprar um terreno em São José dos Campos. Eu estava praticamente disposto para ir para lá, só que evidentemente se aparecesse uma coisa para ficar em São Paulo... porque eu tinha problema de ir pra lá porque meu pai havia falecido, minha mãe morava junto, então tinha o problema... também a menina era muito pequena e a minha esposa nessa época, ela trabalhava, mas ela já havia saído de onde ela trabalhava, justamente porque nós estávamos até pensando em ir para São José e pra cuidar também da menina que estava difícil conciliar o trabalho. Porque ela nasceu prematura, então ela tinha que ter um cuidado, assim, a mais. E logo depois, mais ou menos um ano, a menina não tinha nem feito um ano, ela engravidou de novo que foi do Renato, que os dois nasceram, pode ver que um nasceu em 71, e o outro 72, então a diferença foi muito pequena, e nessa época que eu estava lá a Roberta já havia nascido e o Roberto já estava a caminho, então me telefonaram um dia dizendo que estavam procurando um supervisor de laboratório químico para uma firma que estava se instalando no Brasil, e eu não sei por que a pessoa tinha, tinham dado o meu nome. Eles me chamaram pra ir lá, aí eu fui pra lá, fiz uma entrevista com eles e é um laboratório que estava também sendo construído aqui no Brasil, em Santo Amaro, era UpJohn, que no início eu nem sabia que laboratório que era, tinham escondido o nome, era UpJohn e eu conversei com eles e aí marcamos uma segunda entrevista. Aí quando foi mais ou menos um mês, até pensei: “Bom, agora não vão me chamar mais, então vamos continuar preparando tudo para ir para São José dos Campos, né”? Aí me chamaram, depois de um mês, aí toca a voltar novamente lá pra mais uma entrevista, aí eu fiz uma entrevista inclusive com... o que era na época já havia sido contratado como gerente de controle que eu ia me reportar a ele e mais, eu fui entrevistado também pelo pessoal de produção que ele era até um colombiano que ele estava aqui no Brasil, praticamente como coordenador da instalação da empresa aqui no Brasil. Então eu fui entrevistado pelos dois, aí eles falaram que eles depois me dariam uma resposta. Não sei quantos candidatos que tinha também, aí torno a voltar pra lá e aguardar. Aí falei: “Bom, vamos”. Eu não parei praticamente o que eu estava fazendo, continuei trabalhando normalmente, inclusive até com os preparativos para ir pra São José dos Campos. Aí quando foi depois de uns quinze dias mais ou menos, me ligou o gerente de produção. Na época ele falou assim: “Bom a vaga é sua, e queremos que você comece já.” Aí eu falei: “E agora? Aí tudo bem. Eu vou”... Ele falou: “É pegar ou largar.” Falei: “Bom, pelo menos dá licença de pensar até amanhã, tenho que pelo menos... pensar... em princípio eu aceito, mas eu queria pensar porque eu também dependo de família, uma série de coisas. Vamos ver, eu tenho que ver com eles também aqui a saída da Johnson. Como é que eu vou fazer?“ ”Não, a saída tudo bem, você dá um jeito”. Aí eu falei: “Bom, eu telefono amanhã”. Bom, aí fui pra casa, eu falei: “Que é que eu vou fazer agora? Tenho doze horas pra resolver”. Aí eu pensei... “Sabe de uma coisa”? . Foi até minha esposa que falou: “Olha a firma está mudando agora.” O laboratório estava sendo construído. A gente não conhecia, então teve gente que falou: “Ah! Vai ser a maior loucura largar uma firma como a Johnson & Johnson. Você vai pra São José, é uma pessoa que foi escolhida, se não eles nem tinham indicado nem nada.” Aí eu pensei, fiquei novamente naquela sinuca que eu fiquei pra sair da Ford. Pensei, falei: “Lá eu vou com um cargo já superior num laboratório novo”. Eu via que tinha muitas chances, inclusive de progresso profissional, de viajar... Eu sabia que depois de algum tempo... eles davam muito treinamento, poderia ser até fora e tudo mais. O salário era um pouco mais, aí eu pensei bem falei: “Sabe de uma coisa? Eu vou conversar com...” Na época conversei com o meu chefe e ele falou: “Olha eu não posso te falar nada. Não gostaria que você saísse, agora se você quiser sair, achar que é bom para você... o que é que eu vou fazer”? Aí eu falei: “Bom, eu vou aceitar. Liguei pra ele, aceitei e conversei com eles pra dar um prazo pra poder ir para lá. Ele falou: “Tudo bem, mas o prazo será o menor possível.” Aí eu pedi pra Johnson pra ver se eles me liberavam e tal, aquela história toda... No Brasil foi sempre assim. Até hoje, quando a pessoa sai de uma empresa eles procuram sempre levantar fundo, então ficou naquela história, libera, não libera, até que eles acabaram me liberando e eu saí em vinte dias eu acredito, tanto que pode ver que pelas datas, eu não fiquei dez dias. Eu saía de um lugar, já começava no outro, nunca fiquei quase que muito tempo, o que eu tirava mais era uma semana pra poder respirar um pouco, né, pra depois começar. Aí eu fui pra UpJohn que foi em 72, eu fui pra UpJohn e também peguei ali uma fase assim, quase em termos de obras também. A firma estava praticamente quase toda construída. Ela ficava lá em Santo Amaro e eu, numa coincidência muito grande, que no dia que eu saí tinha um farmacêutico que trabalhava na produção, ele entrou lá como estagiário, depois ele passou a ser funcionário... e no dia que eu sai de lá eu fui me despedir de todo o pessoal e tinha aqueles barzinhos em frente a Johnson, ali na Barão de Jaguara, então o pessoal ia comemorar e sempre tomava um copinho de cerveja, alguma coisa, um refrigerante. Então eu lembro que nós fomos ali pra comemorar e estava também esse rapaz da produção, também que estava saindo. Aí eu falei com ele, eu falei: “Estou saindo.” Ele falou: “Eu também estou saindo, coincidência! No mesmo dia! Pra onde você vai?” Eu falei: “Eu vou pra UpJohn. Ele falou: “Eu também”. (riso) Então nós dois acabamos indo, os dois pra UpJohn no mesmo dia, da mesma firma, sem saber que ele estava indo. Inclusive depois que eu fui pra lá, ele me perguntando: “Você não sabia que ele vinha pra cá?” Eu falei: “Realmente eu não sabia”. Porque eu levei as coisas muito bem em sigilo lá dentro, e ele também levou a coisa em sigilo e depois é o caso, se fosse, por exemplo, uma pessoa que estivesse trabalhando diretamente comigo, talvez até eu tivesse conversado, mas como ele era da produção e eu ia muito pouco na produção, eu quase não ia, então realmente era bem afastado até do controle. Então esse fato foi até interessante, e aí eu comecei. Lá, no início, existia o meu chefe - que era o gerente de controle - eu como supervisor de laboratório químico, eles tinham contratado já um químico antes de mim, quer dizer contratava primeiro um funcionário, depois o chefe, e ele já estava lá trabalhando, só que ele trabalhava num outro laboratório, porque eram os laboratórios que produziam os medicamentos da UpJohn na época. Então ele trabalhava no outro laboratório até que o novo ficasse pronto. Então quando eu entrei lá foi abrir caixa, desmontar, tirar equipamento pra acabar de montar o laboratório e nesse meio tempo nós estamos contratando o pessoal pra trabalhar comigo. Então era entrevista... Eu entrevistava, depois o meu chefe entrevistava até que nós praticamente em dois meses... praticamente deixamos o laboratório em condições de funcionamento com quatro pessoas no laboratório químico que era o maior volume de trabalho e uma pessoa no laboratório microbiológico, também já havia sido contratada e estava trabalhando num outro laboratório. Aí, depois começou a aumentar, mais isso foi com o tempo, então foi essa minha ida pra lá.

 

P/2 - E Sr. Roberto, na UpJohn o que é que o senhor começou a fazer exatamente?

 

R - Na UpJohn eu praticamente comecei a largar a parte de analista porque eu tinha mais a parte burocrática que fazer - uma parte que eu fazia menos na Johnson & Johnson. Então eles começaram a dar alguns cursos, eles proporcionaram para todo o pessoal em turma de chefia cursos de administração, gerenciamento, tudo mais, aí eu comecei mais a trabalhar na parte burocrática, análise praticamente eu fazia uma ou outra e mais em equipamentos, como eu sempre gostei de instrumental então eu fazia assim quando era em equipamentos, espectrofotômetro eu mexia, ia lá pra ver se desse algum probleminha: “Então vamos ver o que aconteceu”. Mas análise mesmo de rotina era muito difícil fazer. Aí nessa firma eu comecei a trabalhar também com a produção, na época de supervisor de laboratório químico. Então eu já ia pra produção, já ia verificar como é que está o andamento dos produtos pra ver, porque a análise de rotina não é só fazer uma análise, no final a gente tem que ter uma inspeção de produção, uma inspeção de processo para saber todo o acompanhamento, e aí eu já acompanhava mais a produção e tinha também junto o laboratório químico, era englobado na inspeção de processo, então me dedicava muito a inspeção de processo e menos no laboratório. Então ficava uma boa parte do tempo, principalmente nas manhãs indo na parte de produção, verificando a produção e depois, à tarde, tinha muito a parte burocrática. Eu via caderno de analista, fazia relatórios de análise, laudo de análise para a produção, via compras de agentes. Então comecei mesmo a fazer mais que uma função, mais quase que burocrática do que de análise mesmo e continuar mexendo nos equipamentos. Até quando deu, porque uma hora tive que largar do próprio instrumental e ficar mais na parte burocrática.

 

P/2 - E o senhor se lembra da linha de produtos da UpJohn? Que é que era, quais as especialidades?

 

R - A linha de produtos da UpJohn... Tinha mais a linha de hormônios, mais na base da Hidrocortisona, Metilprednisolona, Medroxiprogesterona mais essa parte de hormônios. Tinha uma parte também de vitaminas que era Unicap T, tem também o pré-natal do Unicap T. Tinha uma parte também de antibióticos que eram inclusive o carro chefe dos injetáveis que era Frademicina.

 

P/2 - Para quê é que servia?

 

R - A Frademicina era um antibiótico mais pras vias áreas superiores. Então tinha uns outros antibióticos, tinha um antibiótico Trobicin que era usado na época era praticamente que usava mais pra Neisseria, que era Gonococos, pra gonorreia. Também essa aí é uma parte também, porque era um pó estéril então tinha que ser um envase tinha que ser com rigor muito grande porque podia ser contaminado. Era um pó que já vinha estéril, então era um trabalho bastante grande em relação a esses produtos. Tinha depois xaropes. A Lincomicina tinha na forma de cápsulas, forma injetável que... tinha também a forma de xarope, então depois começaram a surgir outros produtos oncológicos também. 

 

P/2 - A Cortisona e a Hidrocortisona para que é que ela serve? Como é que ela age sobre o organismo?

 

R - No caso da Hidrocortisona eles usavam mais pra choque assim, era um produto que era só vendido só por hospitais mesmos. No caso da Medroxiprogesterona era oncológico e... mais oncológico e também a Metilprednisolona é mais anti-inflamatório.

 

P/2 - Os dois eram para o tratamento do câncer?

 

R - No caso da Medroxi sim. A Metilprednisolona podia também ser usado como anti-inflamatório, tinha até pra anti-inflamatório, que era para infiltração em região assim no joelho quando tinha algum problema de inflamação, então tinha uma forma que era suspensão, que usava para infiltração.

 

P/2 - A suspensão quê é que ela é...?

 

R - A suspensão seria uma substância que ela não está dissolvida, então ela permanece como um pó, só que ela está dentro de um líquido. Então ela fica em suspensão, quer dizer, ela fica em suspensão, às vezes ela pode decantar, então ela tende a abaixar e ficar mais no fundo do frasco, mais depois, com a agitação, ela tem que voltar totalmente. Então são partículas que ficam no meio, no meio líquido, quer dizer, ela não se dissolve nem na água nem no veículo.

 

P/2 - E dentro das vitaminas que o senhor falou Unicap T, né, tinha uma linha de vitaminas...?

 

R - Não, tinha, o Unicap era praticamente... E tinha uma outra que era mais na linha pediátrica, que era eu acho o Adeflor. Nem sei se existe mais isso, parece que eles iam tirar, também era a linha de vitaminas, era Unicap pré-natal e esse Adeflor.

 

P/2 - E assim o senhor acompanhava um pouco a produção?

 

R - Acompanhava.

 

P/2 - Como que o senhor acompanhava? O senhor falou que tinha parte da produção do controle de qualidade?

 

R - Mas acompanhava praticamente tudo. A gente acompanhava desde a mistura das vitaminas com os recipientes e com... O Unicap tem a parte linha de vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis e também a parte de minerais. Então a gente acompanhava toda essa parte aí, analisava toda a matéria-prima e depois acompanhava também a mistura, a granulação, compressão e até chegar na parte final de drageamento. Então a gente ia acompanhando fase por fase do produto. Em algumas dessas fases a gente colhia amostra pra análise em laboratório, em outras fases se fazia teste físico, e físico-químico na própria produção ou no laboratório também.

 

P/2 - Certo. E o senhor lembra assim de algum desses produtos assim de histórias que pacientes que usaram que se salvaram, que tiveram uma cura?

 

R - São produtos que é difícil, por exemplo, a vitamina não é um produto que é... no caso, por exemplo, dos produtos que são usados também no hospital é muito difícil porque às vezes, por exemplo, tinha oncológico lá que o pessoal até brincava, que só quem usava aquele produto é praticamente quase no estado terminal, então, entendeu? Não tinha assim... Nunca houve um tipo de produto milagroso. São produtos mesmo pra ser usados quando já tinha sido diagnosticada uma doença ou no caso de vitamina que era só mesmo pra manter um nível de vitaminas no organismo.

 

P/2 - Esse produto oncológico no caso de um paciente terminal, ele age para que? Para que é que ele serve?

 

R - Ele serve pra manter, por exemplo, a pessoa nos últimos dias de vida tendo assim condições mais humanas de vida, entendeu? Ele pode até... a pessoa fica até mais corada entendeu? Dá uma condição de vida melhor para o paciente, mas realmente ter a fase terminal mesmo. É lógico que juntamente com outros medicamentos pra dor, tudo mais... pra dar melhores condições de vida naquela fase final.

 

P/2 - Ele serve para qualquer tipo de câncer?

 

R - Isso é mais receituário médico. Acho que... não posso dizer exatamente pra que tipo de câncer ele servia. Eu sei que se usava muito pra... tinha um que se usava muito pra leucemia... pra determinados câncer, mais de útero coisa assim, usava muito, mas  não posso dizer isso aí, não sei porque é oncológico, em geral, entendeu? Não sei dizer especifico ou determinado tipo.

 

P/2 - E aí o senhor ficou na UpJohn?

 

R - Eu fiquei na UpJohn. Depois na UpJohn eu fiz alguns estágios, inclusive nos Estados Unidos, na matriz lá em Michigan e depois eu fui promovido a gerente de controle e esse meu chefe que era gerente de controle ele foi promovido a diretor industrial. Aí, como gerente de controle eu já via também a parte microbiológica porque até então eu cuidava só da parte físico-química e química. Eu entrei na produção... a gente também procurava verificar também essa parte de controle microbiológico, mas tinha o laboratório microbiológico que cuidava mais dessa parte. Aí eu passei também a cuidar dessa parte, da parte de esterilidade dos produtos, parte de contaminação da própria produção, testes, tudo mais. Então... aí eu fiquei, foi eu acho que em 75 eu fui promovido. Eu fiz um estágio nos Estados Unidos e depois eu fui... Eu acho que mais ou menos nessa época 75, 76, foi por aí que eu fui promovido a gerente de controle. Aí fiquei lá até 86.

 

P/2 - E de 86 para cá?

 

R - Aí em 86 a UpJohn foi adquirida pela Rodhia e eu continuei trabalhando com eles lá. Aí fique mais um tempo no controle de qualidade e depois do controle de qualidade a Rodhia tem um sistema de fazer job rotation, que eles chamam, né, de fazer a rotação, eles acham, né? E todo o pessoal que trabalha em supervisão, gerência, tudo mais, deve passar por vários setores. Então aí eu fui transferido pra produção, fiquei um ano como gerente de produção e depois estava se criando um departamento de segurança farmacêutica que seria a parte que cuida de toda a parte de GMP praticamente. Seriam as boas práticas de fabricação.

 

P/2 - GNP?

 

R - GMP - Good Manufactoring Pratice, que é boas práticas de fabricação. Então eu comecei a trabalhar nessa área especificamente, aí que seria praticamente um elo entre produção e controle pra ver as melhores condições de fabricação, pra ter um controle praticamente menor e eficaz, entendeu? Seria mais ou menos isso. E esse departamento, eu iniciei nesse departamento e praticamente desenvolvi o departamento lá, sempre com a ajuda do pessoal, tudo mais até... de 88 até 91. Aí depois, quando chegou 91 eu já estava com dezenove anos de grupo, quer dizer quinze anos de UpJohn e mais quatro anos e meio da Rodhia e a Rodhia costumava fazer uns pacotes, quer dizer, de vez em quando fazia uns pacotes voluntários que... aí resolvi entrar em um desses pacotes voluntários e aí eu saí de lá e me transferi pra Luitpold, já direto como gerente de controle e eu estou lá até hoje.

 

P/2 - A Luitpold, é uma...?

 

R - A Luitpold é uma firma alemã, a matriz dela é na Alemanha em Munique e hoje ela é uma firma praticamente japonesa, porque há alguns anos atrás ela foi comprada - a matriz na Alemanha e todas as subsidiárias, a empresa em si foi comprada pela Sankyo, japonesa, mas a Luitpold, ela faz parte do grupo Sankyo, mas praticamente a parte de medicamentos continua com os alemães mesmo. Logicamente no top, nos postos mais altos deve ter os japoneses lá na Alemanha, mas na parte mesmo que está ligada a nós, a parte industrial, tudo mais são só os alemães mesmo que continuam.

 

P/2 - E ela fábrica o que?

 

R – A Luitpold, o forte dela é mais pomadas. Então o produto principal da Luitpold, é o Hirudoid que quase todo mundo conhece. Quem não bateu a perna uma vez? Quem não tem uma varizinha? Então o Hirudoid que é o produto o carro chefe da Luitpold, que é à base do Heparinóide e depois tem outras pomadas que junta Heparinóide com anti-inflamatório (quimobilate?), _______ composto. Então essa aí é a parte mais forte, tem o Claudemor que é um produto pra hemorroidas. Tem tanto pomada como supositório e depois tem também a linha de anti-inflamatórios, a linha do Piroxicam. Também tem todas as formas de comprimido, de cápsulas de suspensão e supositório são os três, cápsula, suspensão e supositório de Piroxiflam, com anti-inflamatório e tem a linha também que trabalha com o sistema nervoso central que é o Clozal. Esse produto é um produto novo, que é um benzodiazepínico, então é o Clozal.

 

P/2 - Para que tipo de doença ele...?

 

R - É um tranquilizante, né, é um tipo de tranquilizante, então ele age diretamente no sistema nervoso central.

 

P/2 - Me fala uma coisa Dr. Roberto, como é que se dá... a UpJohn foi comprada pela Rhodia, né? Como é que fica a estrutura das duas, assim? Como é que isso repercute no trabalho?

 

R - Normalmente quando acontece isso sempre... apesar que eles fazem tudo pra procurar não fazer diferenciação, mas sempre tem aquela história... às vezes nem pela chefia, mas até mais pelo pessoal que trabalha. O que comprou e o que foi comprado? Isso sempre existe em qualquer tipo de empresa. Então o que comprou, ele acha que ele é mais o dono, o outro que é o intruso que está entrando lá, então apesar de que não é política da própria empresa, a gente notava mais entre o próprio pessoal que trabalhava entendeu? “Ah! Porque eu sofro, eu sou da empresa, você está entrando agora!” Aquelas coisas todas assim. Então é uma fase, principalmente no início, é uma fase muito difícil porque eles têm que continuar o trabalho. Antes, no início, as fábricas eram separadas, então continua a fábrica de Santo André que é da Rhodia e continuou a fábrica aqui em Santo Amaro e a UpJohn, ela concedeu os produtos, ela passou todos os produtos pra Rhodia, quer dizer, ela não foi vendida, eles não venderam os produtos, apenas eles passaram a concessão. Então, a Rhodia fabricava os produtos, vendia... deve ter hall nesse meio e tudo mais. Tanto que hoje a Apjon já voltou pro Brasil. Ela está aí de novo, mas naquela época, foi pra lá, mas eles continuaram inclusive dando a mesma assistência que eles davam antes pra controle. Eles continuaram fazendo as reuniões que eles faziam. Então inclusive sempre existiu auditoria deles na fábrica, no controle e tudo mais. Como também existe auditoria da Rhodhia através da Rome Poulain(?). Então o que nós passamos a ter é mais auditoria, porque nós passávamos pela auditoria da UpJohn e passava pela auditoria da Rome Poulain(?) e praticamente quase todo o ano. E até que a fabrica de Santo André foi desativada. Então veio tudo pra cá. Aí, nessa fase, que foi uma fase pior, porque enquanto as fábricas eram separadas não havia problema, cada um ficou no seu canto, aí que começou, evidentemente se existia um cargo de gerente de controle, o gerente de controle de lá... o daqui não poderia continuar. Então o que a Rodhia, fez, inclusive... eles procuraram aproveitar o pessoal e como a fábrica estava mesmo aumentando, aí começaram a surgir esses departamentos como, segurança, farmacêutica, outros departamentos, inclusive que vinham pra melhorar o trabalho em si e com isso eles procuram aproveitar o pessoal. Então o pessoal passava pra um outro setor, evidentemente não podia tirar o cargo, não podia tirar salário, não podia tirar nada disso. Então continuava em outro setor, quer dizer com um cargo que seria praticamente equiparado em tudo, organograma, tudo, com cargo que já existia. Foi indo até que... e como existiam também esses pacotes, praticamente era uma vez por ano, então os que estavam interessados falavam: “Então eu quero ir nesse pacote.” E com isso eles iam enxugando como fala, né, alguns cargos, inclusive eles voltaram até, por exemplo, esses cargos que foram divididos em dois departamentos, às vezes na prática pode ser que não funcionasse tão bem, então às vezes uma desistência de um ou de outro, talvez até depois juntaram e com isso eles enxugaram o quadro, mas sem ter maiores problemas, assim, realmente foi um problema... pra ser franco mais assim, às vezes do próprio pessoal que trabalhava em si, do que das pessoas... “Eu sou daqui, você é de lá”. Esse tipo que... o pessoal mesmo da própria chefia, da própria administração... talvez até muito bem feito porque eles conseguiram enxugar sem grandes problemas, só por interesse próprio. “Não, eu quero ir nesse pacote”.

 

P/2 - Como é que é o dia a dia do senhor hoje?

 

R - Hoje meu dia a dia é sair de casa bem cedo, porque a Castelo Branco é terrível, né? Eu moro na Aclimação e trabalho em Alphaville, Então eu saio de casa cedo, começando pelo nosso horário de entrada, lá é sete e meia. Eu até prefiro porque é um horário que é melhor pra ir, eu saio de casa cedo, sete e quinze, sete e vinte o mais tardar eu estou chegando lá. A não ser quando tem algum acidente que é comum também na estrada. Aí chega lá, já começa aquela parte de rotina. A empresa é uma empresa menor do que a Rhodia evidentemente e também tem menos gente no laboratório. O laboratório é um laboratório bem equipado, tem também os equipamentos necessários pra que a gente faça análise, só não tem laboratório microbiológico. Nós trabalhamos com terceiros, mas também a linha... nós temos uma linha de injetável, tipo vacina também pra tratamento de infecções das vias aéreas assim, através de lisado de bactérias, então é como se fosse uma vacina. Então é o único injetável que a gente tem hoje lá.

 

P/2 - Como é que chama?

 

R - É Paspat. Então é o único injetável que nós temos lá. Então mesmo assim ainda tem que trabalhar com área, fazer todos os testes necessários porque é um só, mas é um injetável. Então a gente trabalha em todas as áreas. Tem a nossa área de pomadas. Então a gente trabalha muito em conjunto com o pessoal de produção, quer dizer, eu com o diretor de produção, nós estamos sempre trabalhando bem em conjunto, tanto que nas férias qualquer coisa assim, quando um sai, o outro fica, porque a estrutura lá é bem enxuta. Então nós temos um gerente geral, aí eles se reportam... hoje são oito, nós éramos sete, e esses oito praticamente tem quase que o mesmo nível, apesar que tem diretores e gerentes nesse meio, mas todos se reportam a ele, e os outros são pares, no caso da produção... Eu ando muito na fábrica. Tem muita parte burocrática e eu voltei um pouquinho às origens assim no que diz respeito às vezes não fazer análise, mas lidar com equipamento, porque às vezes o pessoal que trabalha como analista: “Ah! Hoje não está funcionando.” Então vai no laboratório ver o que está acontecendo, isso desenvolve muito, por exemplo, o setor de manutenção lá, também é um setor enxuto e está mais dedicado mesmo à parte produtiva de máquinas mais pesadas, então a gente tem que manter contato com terceiros, já iniciar com uma preventiva, né, de equipamentos, essa parte toda. Então eu saio, chego de manhã lá, inicio o meu trabalho, almoço lá mesmo porque lá também não tem muita coisa que fazer porque Alphaville é bem separado, então não dá pra... Num dia ou outro assim eu vou ao banco que é tudo ali também no próprio centro comercial. Tanto que eu trabalho quase há seis anos e posso contar as vezes que eu entrei no centro comercial. Então eu já volto para os meus afazeres. Uma temporada aí andei também trabalhando um pouco com registro de produtos, também aí já ocupa um tempo muito grande, mas agora já deixei também essa parte. Já tem um pessoal do setor fazendo isso. Eu sei que é bem corrido porque eu procuro inclusive correr bastante, porque... pra cinco horas em ponto poder sair, pra não deixar as coisas pra fazer depois, porque se eu sair de lá mais tarde, aí complica. O dia que tem um acidente qualquer, que também não é muito difícil, aí às vezes eu demoro até duas horas pra chegar em casa. Então é terrível.

 

P/2 - Deixa eu perguntar uma coisa para a gente ir caminhando pro final da entrevista. Se o senhor fosse mudar alguma coisa na vida do senhor, que é que o senhor mudaria?

 

R – Olha, eu não sei. Acho que tudo que eu fiz até agora, eu fiz com gosto, entendeu? Eu acredito que eu não mudaria nada, a não ser algum trauma que deu, que talvez, porque eu sempre corri muito, a minha vida foi muito corrida, eu sempre fui muito ansioso. Tanto que esse medicamento que eu estou falando, eu nunca tomei, mas o que nós fazemos lá que é o ansiolítico, né, eu estava falando, veio a calhar esse medicamento porque eu sempre fui muito ansioso, eu quero resolver as coisas muito rapidamente, por isso talvez tem acontecido isso - saio de um lugar já está no outro - e quando eu resolvo, já vou fazer direto, não espero muito. Então eu acredito que mudar em si, talvez eu não mudasse em nada, porque a profissão que eu escolhi pode ser até por influência de infância, mas eu escolhi até através de um curriculum, eu gosto disso, então eu vou fazer isso, a medicina ou o tempo como minha mãe falava muito, eu cheguei até pensar em CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva] e quando eu fiz CPOR foi que eu conheci o pessoal que está fazendo esse cursinho aí, que eu acabei indo fazer cursinho das ciências biológicas, e nesse cursinho eu tinha um professor... ele nos levou à faculdade... ele estava começando a faculdade de medicina da Santa Casa, então ele falou: “Então eu vou levar vocês pra lá, que vocês vão ver uma necropsia.” Só que nós entramos na necropsia ele falou: “Só que vocês vão entrar, vocês vão ver, mas nenhum comentário, porque às vezes tem familiares fora e tudo mais.” Então eu entrei pra ver a necropsia. Aí no outro dia nós voltamos pra ver uma operação de crânio, até era um rapaz até jovem, ele estava com um tumor no cérebro e aí, eu estava no cursinho essa época, eu lembro que nós estávamos em cima como se fosse um anfiteatro onde ficam os próprios alunos... e como ele era professor da faculdade, então por isso que ele levava uns grupos assim. Aí eu lembro que eu vi essa operação que eles fizeram, até uma hora lá eles pararam, depois ele olhou e falou assim: “A medicina acabou aqui. Não tem jeito, o cérebro dele está totalmente tomado pelo tumor, e ele ficou aqui”. Aí aquela história: “Não abram a boca, porque os familiares estão todos aí fora.” Eu saí, vi aquilo lá, depois eu olhei, falei: “Não é bem isso que eu quero. Aí que eu fui ver o curriculum, falei, bom é isso daí... então se fosse dessa forma eu talvez caminhasse também pra farmácia bioquímica, eu, realmente, eu gosto muito da profissão, eu sempre gostei. Tanto que eu sempre me envolvi com os próprios órgãos de classes, conselho, sindicato, então eu vou muito assim, agora eu estou parando um pouco porque eu acho que está... é bom a gente dar uma paradinha, mas eu ainda frequento essas reuniões assim de classe, esses cursos que eles fazem, eu vou porque eu acho que é uma maneira da gente estar sempre em contato com o pessoal, conhecer todo mundo, que eu acho que é muito importante isso, né? Eu acho que... não sei, não mudaria nada não, a não ser essa correria que certa fase poderia ser até... também não dependeu muito de mim, dependeu da própria situação que ocorria no momento e talvez eu fosse menos ansioso, porque realmente eu sou muito ansioso. Isso prejudica, não é muito bom a gente ser assim tão ansioso, desgasta muito.

 

P/2 - Então eu queria agradecer a presença do senhor por ter dado essa entrevista aqui pra gente.

 

R - Ah! Está ok, eu que agradeço a oportunidade de poder falar um pouquinho da gente, e é bom que a gente vai recordando mesmo. Muita coisa que parece que eu tinha esquecido, agora com essas perguntas assim foi passando tudo pela memória.

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