Busca avançada



Criar

História

No jurídico da Itaipu

História de: Edmilson Muniz Barreto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2005

Sinopse

Edmilson Muniz Barreto nasceu na cidade de Paulo Afonso, na Bahia. Mudou-se para Foz do Iguaçu em 1976 para trabalhar na parte de desapropriações de terras para a construção e descorre sobre sua trajetória.

Tags

História completa

P – Bom Edmilson, eu gostaria que você começasse nos dizendo seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Meu nome completo é Edmilson Muniz Barreto. Eu nasci em Paulo Afonso, na Bahia. E nasci no dia sete de abril de 1952.
P – E o nome de seu pai?
R – O nome de meu pai é Arão Muniz Barreto.
P – E o nome da sua mãe?
R – Maria Nobre Barreto.
P – Seu pai fazia o que?
R – Meu pai era garagista na Companhia Hidrelétrica do São Francisco, na Bahia. Aposentou-se lá. 
P – Certo. E você chegou em Foz do Iguaçu quando, Edmilson? Em que ano que você chegou em Foz do Iguaçu?
R – Eu cheguei em Foz do Iguaçu em início de 1976. O meu sogro tinha vindo pra cá em setembro de 1975. Ele trabalhava na Chesf na Companhia Hidrelétrica de São Francisco. Ele era o responsável pelo setor de projetos, de desenho e recebera um convite pra vir a Itaipu chefiar uma área idêntica. Então ele veio aqui na Itaipu, deu uma olhada e não pensou 2 vezes. Voltou a Paulo Afonso, fez acordo com a Chesf e veio embora pra Foz do Iguaçu. 
P – E você veio com ele?
R – Não, eu não vim com ele. Nessa época eu também trabalhava na Chesf, trabalhava na área jurídica da Chesf. Era noivo e tava com previsão de casamento para o ano seguinte que era em 76, e meu sogro iniciou seu trabalho acho que em outubro de 75. E a previsão é que a família viesse pra Foz logo após o final do ano letivo. Minha sogra com as seis filhas. Então aproveitei dezembro, de férias da Chesf, vim aqui a Foz do Iguaçu, em Itaipu. Eu sabia que a Itaipu ia precisar de pessoas com experiência em desapropriação, que tinha uma área muito grande pra ser desapropriada. Então eu vim dar uma olhada aqui na Itaipu. Mas nesta época a Itaipu não estava fichando ninguém ainda pra este projeto de desapropriação porque as áreas rurais do reservatório iam começar só em 1978. Então neste período eu fui na Unicom dei uma olhada e deu certo. Tinha vaga na Unicom, eu voltei na Chesf também, fiz um acordo, pedi demissão da Chesf e em fevereiro de 76 eu já vim junto com a minha sogra, a minha noiva, futura esposa. Viemos embora pra Foz. 
P – E que impressão você teve quando você chegou aqui? Quando você viu Itaipu, qual foi a tua impressão?
R – Olha eu fiquei abismado com... Nós já tínhamos informações do gigantismo da Itaipu. E fiquei abismado com o numero de pessoas que tava aqui na cidade. Era uma cidade até certo ponto, parecia uma cidade de Faroeste, aquela cidade estranha. E pra nós que vinha de Paulo Afonso, lá do Nordeste, e a impressão que eu tive era que isso aqui seria um ___________.
P – O que é hoje, né? Seria uma coisa... A impressão que você teve é que seria uma coisa. A impressão que você teve é que seria hoje o que é então. Essa coisa.
R - Isso aqui é uma cidade que iria ter um desenvolvimento muito grande.
P – Certo.
R – Teria um futuro muito grande isto daqui. 
P – Certo. E você veio pra trabalhar em uma área extremamente importante que é a área das desapropriações. Como é que foi este processo, Edmilson, das desapropriações? Houve alguma etapa que foi mais importante? Conta um pouco como foi este teu trabalho em relação ao pessoal aqui da região.
R – As desapropriações começaram em 1978. Em maio de 1978 eu entrei na Itaipu. Como tava começando já o processo de desapropriação da área do reservatório. E era um processo muito bem feito esse da Itaipu, Itaipu montou quatro escritórios de campo visando ter um contato mais direto e permanente com a população da área atingida. Ela montou quatro escritório de campo em Foz, um Santa Helena, um em Marechal Rondon e um em Guaíra. E eu fui designado para trabalhar no escritório de Marechal Rondon. Era uma área que atingiu uma população de aproximadamente 1500 processos que desapropriaram desta área, num total de acho que 8519 processos de desapropriação. E foi um processo muito bem organizado este da Itaipu. Ela quando começou este processo de desapropriação, a Itaipu fez uma série de palestras com toda a população atingida em vários locais do reservatório. Estas palestras ela fez propagandas através de rádios, jornais, explicando a necessidade, justificando a obra de Itaipu e conscientizando a população. E também quando começou este período de desapropriação a Itaipu fez um programa de visita à usina com esta população atingida. Um programa que era aos sábados e domingos. A Itaipu mandava os ônibus, cadastrava o pessoal e este pessoal vinha visitar a usina pra conhecer e tal. Tinha um filme específico que a Itaipu passava pra esse pessoal. Era um filme mostrando os critérios de desapropriação, a forma de pagamento, essa coisa toda para o pessoal. 
P – E qual foi a reação das pessoas, Edmilson? A reação das pessoas quando vocês começaram este trabalho. 
R – No início eles tinham um certo ceticismo. Mas a proporção em que elas iam vendo a transparência que a Itaipu conduzia o processo, o pessoal ia ficando mais conscientes. E também estes escritórios de campo que Itaipu abriu, nós tínhamos uma equipe pequena e nós tínhamos um contato direto com esta população. Então aos poucos esse pessoal foi tomando consciência desse processo de desapropriação, essa coisa bem transparente, um processo justo. Então não houve muito problema. 
P - Você fala de equipe. Nestes escritórios as equipes variavam de local pra local? Quantos eram na equipe?
R – Não, a equipe era fixa. Em torno, a equipe que trabalhou neste processo do reservatório, em torno de 50 pessoas. O escritório onde eu trabalhei eram 8 pessoas só pra uma área de mais de 101 mil hectares pra ser desapropriado, 8 mil 500 e poucos processos. Era uma equipe extremamente pequena para fazer isto. Mas era um processo muito bem organizado. 
P – É verdade que o pessoal achava que ia acabar o mundo porque a água ia invadir. Como é que foi esta reação da população, Edmilson?
R – O pessoal achava que... La em Marechal Rondon onde eu trabalhei muita gente não acreditava que a água chegaria ali naquele local. 
P – Porque era longe?
R – Muito longe. Daqui até Guaíra, por exemplo, dava em torno de 200 quilômetros daqui até lá. Então ninguém imaginava que fechando a barragem aqui essa água fosse represar lá em Guaíra. Tanto não acreditava que no período de alagamento, de enchimento do reservatório nós tivemos que, dia a dia, tivemos que sair a campo pra evitar que alguém permanecesse. Porque a água tava subindo, que permanecesse no local. Tirando gado da área. Inclusive o enchimento era supervisionado. Tinha um helicóptero que sobrevoava a área. Verificava...
P – Quer dizer que quando começou a encher mesmo tinha gente que não queria sair da área?
R – Não que não queria sair, mas a gente procurava... Teve casos em que as pessoas não acreditavam. A água subindo e tinha algum barraco, alguma coisa, a gente tinha que ir lá e desmanchar este barraco. Porque as construções quando nós fazíamos a desapropriação, a pessoa recebia a indenização e podia retirar tudo. As casas, todas as benfeitorias, casas de madeira, eles transportavam isto para a nova propriedade. A maioria, 99 tirou isto de inicio, foi comprando outras áreas. Foi transferindo. Mas sempre ficou alguma palhoça, alguma coisa, alguém ficou. Mas pouquíssimo. Nestes casos no finalzinho nós tivemos que tirar estas áreas porque as pessoas não acreditavam que a água chegaria ali. 
P – E como é que era o cotidiano de trabalho de vocês. Vocês ficavam no local? Vocês se dirigiam? Que horas vocês entravam? Até que horas vocês trabalhavam?
R - Cedo. Nós pegávamos os processos, nós tínhamos mais ou menos um, sabíamos mais ou menos o numero de contatos que poderíamos contatar no campo e fazer um acordo amigável com estas pessoas. Então o processo de desapropriação é um processo muito bem feito com (fotocarta?), um laudo de avaliação muito explicativo, e tinha inclusive um roteiro da propriedade. Então procurava mais ou menos agrupar estas propriedades. Chegava na casa de um desapropriado. Ia a campo procurar estas pessoas. Lá eu abria. Normalmente juntava toda a família em volta ali, a mulher, os filhos. Tudo. Eu abria o processo de desapropriação, mostrava tudo pra ele, conferia através de fotografia benfeitoria por benfeitoria. Casa, chiqueiro, paiol, tudo. As lavouras, ele conferia no laudo junto comigo. As culturas, manga, goiabeira, o que tivesse ali. A gente conferia todas as coisas. Inclusive a metragem, os preços de cada um, ele conferia. Quer dizer, ele era o fiscal do próprio processo de desapropriação dele. E ao final ele ficava com uma cópia desse laudo de desapropriação.
P - Quer dizer que você podia levar o dia inteiro só com uma família, vamos dizer?
R – É. Normalmente se não desse acordo eu deixava pra outro dia. Deixava pra ele pensar e tal. Mas a maioria das pessoas já tava mais ou menos consciente por causa do problema que a Itaipu vinha conversando com as pessoas, explicando, a maioria já sabia. E não demorava muito não. Aquele que a gente sabia que ia dar algum problema o deixava pensar, voltava outro dia. Mas não teve muito problema. 
P – Certo. Edmilson, você é casado? Tem filhos?
R – Sou casado. Tenho dois filhos. O Fábio Henrique Mendonça Barreto ta com 24 anos, fazendo faculdade de Educação Física. E tem o André Fernando também com 17 anos e ta se preparando pra fazer vestibular agora. Quer ir fazer o vestibular em Santa Catarina agora. 
P – Certo. E o que você achou de ter dado esta entrevista para o Memorial do Trabalhador?
R - Olha, eu achei uma bela homenagem e eu achei muito importante a Itaipu resgatar esta história da empresa. Por exemplo, no caso específico de desapropriação é uma coisa que, é uma obra ímpar, um trabalho ímpar este de desapropriação pelo gigantismo, tamanho da área que foi desapropriado. O número de propriedades, só pra você ter uma idéia, de 8519 propriedades desapropriadas, só houve 16 propriedades ajuizadas. Nós adquirimos o restante tudo amigável. Foi 12 propriedades rurais e quatro urbanas. Mesmo assim essas que foram ajuizadas não foram por problemas de recusa, foi problema documental. Então praticamente nós fizemos estas desapropriações todas amigável num prazo curtíssimo. E esta história dessa coisa toda ia ficar perdida. Até porque esta equipe que trabalhou na desapropriação toda já aposentou, já saíram e hoje resta só eu e um colega, o Rubens Fernandes Pires que tamos aí. Até brincamos, nós falamos que somos os últimos dos moicanos.
P – Então ta bom. Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+