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História

No berço da ferrovia

História de: Jesaías Barbosa Campos Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/06/2016

Sinopse

Jesaías nasceu em Recife, mas cresceu em Jaboatão dos Guararapes, cidade em que ficava a maior oficina da Rede Ferroviária do Nordeste. Vários familiares tinham trabalhado na empresa. Com quatorze anos, ele se inscreve em um curso profissionalizante para trabalhar na Rede Ferroviária. Está na empresa até hoje, mesmo após a concessão da estrada de ferro a uma empresa privada. 

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História completa

P/1 – Boa tarde, Jesaías.

 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Obrigada por você ter vindo aqui conversar com a gente. Eu queria que você começasse dizendo o seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R – O meu nome é Jesaías Barbosa Campos Filho. Eu nasci em doze de março de 1969, na cidade do Recife.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – O nome do meu pai é Jesaías Barbosa Campos e o da minha mãe é Maria Auxiliadora de Moraes e Silva.

 

P/1 – Onde eles nasceram?

 

R – O meu pai é natural de Palmares e a minha mãe de Jaboatão.

 

P/1 – Que atividade eles faziam?

 

R – A minha mãe era funcionária pública e o meu pai trabalhava no comércio.

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram?

 

R – Não, não sei a história deles.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho dois irmãos.

 

P/1 – Qual o nome deles? O que eles fazem?

 

R – O nome do meu irmão mais velho… Chama-se Jason. Ele trabalha no departamento de pessoal numa empresa. O meu irmão mais novo chama-se Jenilton. Ele é policial do Batalhão de Polícia de Trânsito (BP-Tran).

 

P/1 – E você está no meio?

 

R – Eu sou o do meio. (risos)

 

P/1 – Como foi sua infância aqui em Recife? Em que bairro você morou?

 

R – Eu nasci no Recife, mas eu fui criado em Jaboatão [dos Guararapes].

 

P/1 – Ah, foi criado em Jaboatão? E onde você morava?

 

R – Eu morei em vários bairros no Jaboatão. Morei no Vila Rica, atualmente moro no Padre Roma, morei no bairro de Engenho Velho. Em Jaboatão eu conheço quase tudo.

 

P/1 – Você só nasceu em Recife, é isso?

 

R – Só nasci em Recife.

 

P/2 – Por que? O hospital era aqui, foi isso?

 

R – Um dos motivos é que o meu tio era médico do Hospital e Maternidade São João da Escócia e a minha mãe foi para lá.

 

P/2 – A sua mãe e o seu pai já moravam em Jaboatão?

 

R – Já moravam em Jaboatão.

 

P/2 – Só veio lhe ter aqui e voltou para lá?

 

R – Foi, foi.

 

P/1 – Como foi a sua infância? Como era a sua casa?

 

R – Casa humilde, simples. Dos treze para quatorze anos, eu fiquei sabendo do Centro de Formação Profissional, que tinha o acordo com a Rede Ferroviária. Eu me inscrevi, fiz o concurso e passei para o Senai Jaboatão.

 

P/1 – Vamos voltar só um pouquinho. Qual foi a sua primeira escola?

 

R – A minha primeira escola foi a Escola Municipal Rodolfo Aureliano, em Jaboatão.

 

P/1 – Como era essa escola?

 

R – Escola pública, escola comum, né?

 

P/1 – Tinha muitos alunos?

 

R – Muitos, muitos alunos.

 

P/1 – Tinha alguma professora, alguma matéria que você gostava mais?

 

R – Eu sempre gostei de História.

 

P/2 – Só para agradar as entrevistadoras. (risos)

 

R – Não, eu gostava de História.

 

P/2 – Então sempre gostou de História, tirava nota boa?

 

R – Tirava nota boa, sempre gostei de História.

 

P/1 – Como era o seu cotidiano nesse período? Você levantava cedo e ia pra escola? Como era?

 

R – Levantava cedo e não ia para escola porque eu não estudava na parte da manhã. Tinha os lazeres com os amigos - jogar bola, gostava de andar com passarinho. Até hoje eu crio passarinho, eu gosto de criar passarinho. O meu lazer era esse.

 

P/2 – Pegava passarinho assim, fácil na rua?

 

R – Não. Na rua, não, nas proximidades da cidade.

 

P/2 – Como era? Você ia lá com uma caixinha, com armadilha?

 

R – Vai com uma gaiola, com um passarinho dentro, chama-se alçapão. Quando a gente bota a comidinha, o passarinho vem e ali dentro ele pula. E a gente traz para casa.

 

P/2 – Já vai um passarinho na gaiola.

 

R – É, que é o ‘chama’,  chama-se ‘chama’, né? A gente ia e pegava.

 

P/2 – Ele chama um passarinho igual a ele ou...

 

R – Só cai da mesma espécie.

 

P/2 – Olha só! Você catava um monte, então? Sua mãe não achava ruim aquele monte de passarinho?

 

R – Não, não. Ela nunca implicou com meus animais, não. Eu gosto de passarinho, gosto de criar galinha.

 

P/2 – Você disse que era uma casa simples, mas tinha espaço, tinha quintal?

 

R – Tinha espaço.

 

P/2 – Seus irmãos iam junto?

 

R – Não. Meus irmãos nunca foram chegados a passarinho, nem criar. Da família só eu mesmo, que puxei a minha avó. A minha avó é que gostava.  

 

P/1 – Falando em avó, você chegou a conhecer os seus avós?

 

R – Olha, dos meus avós, da parte de mãe, só a minha avó. Por parte de pai, o meu avô também foi ferroviário.

 

P/1 – Por parte de pai?

 

R – Por parte de pai, ele foi maquinista.

 

P/1 – Maquinista? E qual era o nome dele?

 

R – Amaro Nascimento.

 

P/1 – Você chegou a conhecê-lo?

 

R – Conheci, conheci.

 

P/1 – Chegou a andar com ele no trem?

 

R – Não, não. Andar com ele, não.

 

P/1 – Mas ele contava muitas histórias?

 

R – Contava.

 

P/1 – Você lembra de alguma história?

 

R – Lembro. Uma vez ele me contou que estava puxando um trem e quando o trem fez uma curva, tinha provavelmente alguém embriagado que se deitou na linha do trem. E ele disse que partiu certinho: os joelhos e aqui no pescoço. Ele disse que foi chamado para responder inquérito. Ele me contava essas histórias.  

 

P/2 – Quer dizer que ele nem viu a pessoa...

 

R – Não, não dá tempo, né? Quando o trem fez a curva, ele encontrou a pessoa deitada no meio da linha.

 

P/2 – Quando você acha que foi isso que ele lhe contou?

 

R – Não lembro, ele me contou faz muito tempo.

 

P/2 – Tadinho, ele ficou chateado provavelmente.

 

R – Ficou. Ficava chateado, mas, infelizmente, não podia fazer nada.

 

P/1 – Você lembra de outra história?

 

R – Não. Histórias que ele tenha contado, não. Eu lembro que era bem pequeno e tinha um tio por parte de mãe [que] na época era guarda-freio. Eu lembro que quando chegava de viagem ele trazia aquele açúcar de usina, aquele açúcar bem esverdeado, que [se] chama açúcar demerara.

 

P/2 – Vocês comiam isso?

 

R – É. Um açúcar muito gostoso. Por parte da minha mãe, os meus tios quase todos eram ferroviários. Um, chamado Benito, trabalhou na Oficina de Jaboatão, na carpintaria. Esse que eu falei que era médico, ele também era médico da Rede, Benival. Era médico, trabalhava no [Hospital] São João da Escócia, mas também era ferroviário. E esse José, que era o guarda-freio.

 

P/1 – Eles estão vivos, esses seus tios?

 

R – Nenhum mais; da família da minha mãe só tem ela viva, perdeu todos os irmãos.

 

P/2 – Todo mundo tinha orgulho de trabalhar na Rede? Como era isso?

 

R – Tinha. Todo mundo gostava de ser ferroviário, Jaboatão é um berço da ferrovia. Muitas famílias ali de Jaboatão são todas ferroviárias.

 

P/2 – Voltando para escola, você fez o concurso para escola da...

 

R – Fiz o concurso para o Centro de Formação Profissional.

 

P/2 – Foi por vontade sua? Foi iniciativa sua ou alguém falou...

 

R – Alguém falou, eu nem sabia.

 

P/2 – Você lembra quem falou, se foi seu pai, mãe?

 

R – Quem falou foi uma prima minha.

 

P/1 – Ela era mais velha do que você?  

 

R – Bem mais velha.

 

P/1 – Ela já trabalhava na Rede?

 

R – Não. O pai dela já tinha trabalhado na Rede, era aposentado. Ela me disse: "Tem a escola profissional. A partir de quatorze anos, pode se inscrever. Se passar, recebe salário e depois, quando terminar o curso, ainda pode entrar na Rede." Aí ela me levou e eu me inscrevi. Na primeira vez que eu fiz, não passei. Na segunda vez, eu passei.

 

P/2 – Qual o nome dessa sua prima?

 

R – Nilma Pessoa Lima.

 

P/2 – Então, a Nilma...

 

R – A Nilma foi que me levou.

 

P/2 – Você ficou feliz com a possibilidade, Jesaías? O que você pensava? Você queria ir para Rede?

 

R – Não, era aquele negócio de criança. Quando disseram: "Você vai passar na escola e vai receber um salário." Eu fiquei empolgado por receber um salário.

 

P/2 – Não pelo  que ia aprender... (risos)

 

R – Não. Falou em salário: "Você vai estudar e vai receber um salário." Aí eu fiz a primeira vez, não passei; na segunda vez eu passei. Era [para] até quinze anos incompletos e quando eu fiz a primeira, tinha quatorze. Porque tem que sair de lá ainda menor de idade. Tinha, né? Porque o Centro de Formação Profissional de Jaboatão acabou. Eu passei na segunda vez, eu ainda estava para completar os quinze anos. Aí você saía antes de completar os dezoito anos. Eu passei um período parado, que foi de janeiro a agosto, quando abriu o concurso na Rede Ferroviária. Como eu era ex-aluno, eu fiz o concurso e passei para a Rede.

 

P/1 – Nesse ano você fez primeiro a prova. E no seguinte você continuou estudando em outra escola ou ficou...

 

R – Não. Eu já tinha terminado o segundo grau. Terminei o segundo grau ao mesmo tempo que encerrei lá no Centro de Formação Profissional. De janeiro de 1987 até agosto, a data que eu entrei, eu estava parado.  

 

P/2 – Quando você fez, aos quatorze anos, pela primeira vez, você não passou.

 

R – Certo.

 

P/2 – Teve um período. O que você fez?

 

R – Continuei estudando normal. [O concurso] era anual; quando no outro ano abriram de novo as inscrições, eu me inscrevi.

 

P/2 – Você voltava pro primeiro ano ou aproveitava o que tinha estudado antes? Começava de novo do zero na escola profissionalizante?

 

R – Na escola profissionalizante?

 

P/2 – É.

 

R – Lá era por termos. Cada termo era seis meses, então tinha as provas. Lá a gente estudava também todas as matérias. Se fosse reprovado saía do curso, então a gente tinha que se esforçar para passar nas provas, para ter as médias e continuar na escola porque lá também tinha reprovação.

 

P/1 – Como eram essas aulas?

 

R – Tínhamos aula de Matemática, nós tínhamos aula de Metrologia, nós tínhamos aula referente à história da Rede Ferroviária no Brasil, tínhamos aula de Educação Moral e Cívica. Tinha diversas matérias.

 

P/1 – Você ia cedinho pra aula?

 

R – Lá a gente começava às sete e meia da manhã. Pela parte da manhã nós tínhamos aula em sala de aula e, depois do almoço, no segundo expediente, nós tínhamos oficina. Íamos para a oficina, era só prática. Pela manhã aula em salas e à tarde em oficina.

 

P/2 – Você falou que era termo.

 

R – Cada termo eram seis meses.

 

P/2 – Então era termo um, termo dois ou não?

 

R – Não, a turma era semestral. Passava seis meses, eu era primeiro termo; com mais seis meses, eu era do segundo termo. Passava seis meses e entrava a outra turma, aí ia: primeiro semestre, primeiro termo. Eu já estava completando o terceiro; completava o quarto. Com quatro termos de seis meses, a gente saía da escola e ia para as oficinas da Rede estagiar.

 

P/2 – Uma outra coisa que eu queria saber, Jesaías, coisas da história. Quer dizer, você tinha aula de história da Rede? Como era a aula dessa disciplina?

 

R – A professora falava tudo sobre a Rede Ferroviária, inclusive desde Barão de Mauá, que foi ele que trouxe a ferrovia para o Brasil e ao longo da história, de Barão de Mauá para cá, tudo o que estivesse registrado, ela passava para a gente as informações.

 

P/2 – Era específico?

 

R – Específico, só dava...

 

P/2 – Você tinha aula de História geral, História do Brasil ou não?

 

R – Não, não. Só história da Rede Ferroviária.

 

P/1 – Você se lembra dessa professora?

 

R – Esqueci.

 

P/1 – Não tem problema. Bom, quando tinha essas aulas, como eram? Eram específicas ou eram gerais e depois vocês escolhiam a área?

 

R – Para passar para a profissão? No primeiro termo de seis meses, nós iríamos fazer um geral e depois cada um se identificava pelas notas para qual função, qual carreira ia seguir no Senai.

 

P/2 – Como assim pela nota? Quem tivesse nota maior escolhia primeiro? É isso?

 

R – É, exato. Tinha possibilidade de eu colocar na minha escolha: mecânico, torneiro e soldador. Aqueles que tivessem as melhores notas é que ficavam com a primeira opção.

 

P/2 – Você lembra a média que era para passar, Jesaías?

 

R – A média lá era seis.

 

P/1 – Desde o primeiro termo, já ia para as oficinas?

 

R – O primeiro termo a gente passava todo em sala de aula. Depois que você via para qual função você estava mais qualificado, tinha mais aptidão, aí é que você passava para a oficina, para aprender aquela função especificamente.

 

P/1 – Como você escolheu a sua?

 

R – A minha, eu coloquei em primeiro eletricidade e em segundo metalurgia. Então, quem tirou nota maior em eletricidade é que tinha preferência para ficar em eletricidade. Eu fiquei em metalurgia.

 

P/2 – Então depois é que subdividia?

 

R – É. Aquela turma que entrou subdividia, cada um ficava na sua função.

 

P/2 – Quais eram as subdivisões, Jesaías?

 

R – Na área de metalurgia tinha para metalúrgico serralheiro e soldador. Na área de mecânica tinha para torneiro mecânico e para mecânico de motores, mecânico diesel. Tinha a área de eletricidade... Basicamente, que eu lembro, só essas.

 

P/2 – O que o pessoal procurava mais? Eletricidade?

 

R – O pessoal era muito empolgado para ser torneiro. Entrava lá já querendo ser torneiro.

 

P/1 – Como foram seus primeiros dias de oficina?

 

R – Foi bom porque era mais gostoso, justamente, estar na oficina do que estar na sala de aula.

 

P/1 – Como era? Vocês iam para a oficina e ficavam...

 

R – Cada um ia para sua área e tinha o professor específico. Ali a gente recebia as apostilas e, no decorrer do curso, tinha as peças que deveriam ser feitas. Na área de metalurgia a gente fez balde, fez escada, carro de mão, basculante. O gostoso era ir para a oficina, trabalhar, fazer essas coisas. Soldar, cortar com o maçarico. A ansiedade era ir para fazer essas coisas.

 

P/1 – Então eram vocês mesmo que faziam?

 

R – A gente que fazia, com a orientação de um professor.

 

P/2 – Tinha equipamento de segurança para vocês...

 

R – Tinha! Tinha todos os equipamentos de segurança.

 

P/2 – Como o que, por exemplo?

 

R – Luva, óculos, botina, todos os equipamentos.

 

P/2 – Nós estamos falando de 1984, né?

 

R – Do período de 1984...

 

P/2 – Até 1988.

 

R – Até 1985. Porque em 1986 eu já estava no estágio, dentro da oficina de Jaboatão.

 

P/2 – Já era uma coisa automática, que nos últimos termos você já fosse...

 

R – Os últimos dois termos, o último ano, eram dentro da oficina.

 

P/2 – E que salário ganhava?

 

R – Na minha época, a gente ganhava dois terços de um salário mínimo.

 

P/2 – Isso durante todo o período?

 

R – Durante o período da escola. Quando passava para o estágio ganhava um salário mínimo.

 

P/2 – Era bom, né? Para um garoto...

 

R – Era bom, era muito bom!

 

P/2 – E você gastava onde?

 

R – Uma parte eu dava para a minha mãe e a outra parte eu gastava com tudo que viesse na cabeça.

 

P/2 – Namorada, sorvete...

 

R – Sorvete...

 

P/1 – Como foi o seu período de estágio?

 

R – Período de estágio foi muito bom, na oficina de Jaboatão.

 

P/1 – Você conheceu algum mestre especial que lhe ajudou mais?

 

R – Teve um senhor muito importante, Jânio. Ele morava em Moreno e eu tinha muita afinidade com ele. Era uma pessoa evangélica e gostava muito de dar conselhos aos estagiários. Era uma pessoa bastante querida pelos estagiários do Centro de Formação Profissional.

 

P/1 – Ele era da oficina?

 

R – Ele era da oficina.

 

P/2 – Eu estava pensando uma coisa aqui agora. Quando entravam, você lembra quantos alunos entravam?

 

R – Lembro. Por ano, entrava uma turma com quarenta alunos.

 

P/2 – Já neste segundo ano, aliás, no terceiro ano, na passagem para a oficina, tinha uma diminuição da turma ou iam todos os quarenta?

 

R – Raramente alguém era reprovado.

 

P/2 – O pessoal era bastante disciplinado?

 

R – É. Pouca gente não terminava o curso.

 

P/2 – Então, teoricamente, eram quarenta estagiários por ano.

 

R – Era.

 

P/2 – E iam para a Rede...

 

R – Para as oficinas da Rede Ferroviária.

 

P/2 – Acabado esse período de estágio não havia...

 

R – Não tinha mais vínculo nenhum.

 

P/2 – Não havia mais vínculo e não tinha mais garantia, inclusive.

 

R – Não, não.

 

P/2 – Mas vocês tinham preferência no concurso?

 

R – Tinha preferência por ser ex-aluno da escola profissional.

 

P/1 – O seu período de estágio já foi como caldeireiro?

 

R – Na área de metalurgia. Tudo que abrangesse a metalurgia tinha que praticar. Praticar para aprender, para desenvolver.

 

P/2 – Quer dizer que no estágio a subdivisão não existia? Você tinha que fazer um pouquinho de cada coisa?

 

R – Um pouquinho de cada coisa dentro da oficina. Dentro da área de metalurgia, aí tinha de fazer de tudo um pouco.

 

P/1 – Era o dia inteiro de trabalho na oficina?

 

R – O dia inteiro.

 

P/1 – Onde vocês almoçavam?

 

R – Tinha refeitório. A Rede tinha refeitório.

 

P/1 – Aí os alunos...

 

R – Os alunos também usavam o refeitório, com os funcionários da Rede.

 

P/1 – A Escola da Rede tinha uniforme?

 

R – Na escola da Rede tinha. Tinha farda.

 

P/1 – Era a mesma farda dos funcionários ou era diferente?

 

R – Não. Os funcionários tinham uma farda azul, com o logotipo da Rede, e a farda dos estagiários era uma roupa diferente.

 

P/1 – E como era essa roupa dos estagiários?

 

R – Era um pano comum, azul. Não azul como o azul-marinho da farda da Rede, era um azul mais claro.

 

P/2 – E não tinha logotipo.

 

R – Não tinha logotipo.

 

P/2 – Mas a Rede dava essa farda para vocês?

 

R – Não, era confeccionado. A escola passava o modelo do pano e os pais, as mães tinham de fazer, mandar confeccionar esse fardamento conforme o modelo próprio que a escola indicava.

 

P/2 – E aí mandava fazer numa costureira ou tinha...

 

R – Numa costureira.  

 

P/2 – Não tinha nenhuma loja que já vendia pronto?

 

R – Não.  

 

P/2 – Interessante. Mas a costureira era sempre a mesma para todo mundo ou não?

 

R – Não. Eu acredito que cada mãe tinha a sua costureira de preferência, que mandava fazer.

 

P/2 – Era tipo um macacão?

 

R – Não, camisa e calça. O fardamento da Escola Profissional era confeccionado por uma fábrica e era um modelo único para todo mundo.

 

P/2 – Então tinha também um uniforme da escola?

 

R – Tinha o uniforme da escola.

 

P/2 – E como ele era, Jesaías?

 

R – Era uma camisa branca com um nome aqui: Centro de Formação Profissional, Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), acordo Senai.

 

P/2 – A calça era preta?

 

R – Azul-marinho.

 

P/2 – E aí era sapato...

 

R – Sapato preto.

 

P/2 – No inverno era casaco e um paletozinho?

 

R – A camisa?

 

P/2 – No inverno.

 

R – Ah, no inverno! (risos) Era a mesma coisa, uma camisa e a calça.

 

P/2 – Ah, aqui não tem inverno, não tem frio.

 

R – Pouco, aqui é mais sol.

 

P/1 – Como foi terminar o estágio?

 

R – Foi bom o período do estágio. Ficou uma certa angústia, uma certa ansiedade de sair do estágio e ficar sem saber o que fazer, sem saber se ia conseguir o emprego. Como eu falei antes, eu fiquei parado de janeiro até agosto. Mais ou menos no período de julho um conhecido meu da Rede Ferroviária foi até a minha casa e disse: "Olha, Jesaías, abriu vagas para a Rede, para várias funções, inclusive para a sua área, que é metalurgia." Aí eu me inscrevi dentro desse mês de julho, que foi a seleção. Entrei em três de agosto de 1987.

 

P/1 – O que você fez nesse período de aguardo?

 

R – De aguardo? Rapaz, eu não fazia praticamente nada. Nem procurar emprego eu procurei.

 

P/2 – Por que você queria ir para a Rede? É isso ou não tinha emprego por aqui? Você se formou em metalurgia, não é isso? Onde mais você poderia trabalhar aqui na região?

 

R – No Grupo Gerdau, só que na época eu não tinha visão para correr atrás. Não tinha conhecimento, estava muito restrito ali à cidade de Jaboatão, ao Senai, à escola e à oficina. Quando eu saí, eu não me preocupei logo de imediato a correr atrás de emprego, não.

 

P/1 – E o que você fazia, então? Ia andar ou ficava com seus irmãos?

 

R – Passava o dia em casa. Passei esse período… Eu me lembro que tinha me matriculado numa academia de educação física e à noite eu ia para academia. Mas a maior parte do dia eu ficava em casa.

 

P/2 – Aí entrou na Rede?

 

R – Entrei na Rede.

 

P/2 – Aí ficou feliz?

 

R – Fiquei feliz.

 

P/2 – O que você lembra da emoção que você sentiu?

 

R – A emoção do primeiro emprego, né? De ganhar um salário bom - na época, a Rede pagava bem. Foi muito bom.

 

P/2 – Como foi o seu primeiro dia? Quando você chegou lá alguém te levou para algum lugar, para o seu lugar de trabalho?

 

R – No primeiro dia, eu e mais dois que tinham sido designados para ir para essa oficina da via, fomos para lá, nós três. Chegando lá, nós fomos apresentados: "Esse pessoal aqui foi os que passaram no concurso agora." Fomos apresentados a todo mundo, apresentaram as áreas, as seções e a gente começou a trabalhar.

 

P/1 – Como era essa oficina?

 

R – Essa oficina trabalhava especificamente com a via permanente, aqueles autos de linha de trabalho, o auto de linha de inspeção e o reboque, aquelas carrocinhas que vão atrás com as ferramentas, com o material do pessoal da via.

 

P/1 – Faziam os consertos dessas máquinas e manutenção?

 

R – Consertos e construía, né? Pegava do zero mesmo o material e construía.

 

P/2 – Que tipo de máquina que vocês construíam mais?

 

R – Construía mais o reboque para carregar ferramentas e material. Carregava dormente, carregava todo o material das vias permanentes naqueles reboques.

 

P/2 – Sua participação era em que estágio, mais ou menos, dessa construção?

 

R – Tudo que fosse na parte de solda elétrica e na de trabalhar com maçarico de corte, eu tinha de atuar.

 

P/2 – Você recebia, então, uma chapa de ferro...

 

R – Chapa, cantoneira. A gente cortava aquele material todo na medida e começava a montar o reboque.

 

P/2 – Lá na escola você aprendeu a trabalhar com os dois tipos de maçarico?

 

R – Com o maçarico, com a solda elétrica, com medidas.

 

P/2 – Como é que mede? É uma régua normal, Jesaías, ou é uma régua especial?

 

R – Bem, na parte de construção de reboques e de auto de linha já não é mais com régua, é com a trena porque tem que ser uma coisa bem maior; as medidas são maiores, são grandes.

 

P/2 – Mas é uma trena comum?

 

R – Uma trena comum.

 

P/2 – Não precisa ser tão precisa?

 

R – Não, não. Quem trabalha com mais precisão é torneiro, que trabalha com o paquímetro, com coisas que têm que ter um grau de precisão muito grande. Mas para quem trabalha com serralheria uma trena é suficiente.

 

P/2 – Essa oficina não era em Jaboatão?

 

R – Não era no Jaboatão. Era no Recife.

 

P/1 – E como você fazia para ir trabalhar?

 

R – Eu pegava ônibus em Jaboatão para Recife.

 

P/1 – Daí você começou a trabalhar nessa oficina fazendo...

 

R – Reboques e autos de linha.

 

P/2 – O que é um auto de linha?

 

R – O auto de linha é aquele carrinho que tem um motor, geralmente é um motor Volkswagen. Ele traciona e puxa aqueles outros carrinhos que a gente chama de... Agora me deu um branco. De reboque! O auto de linha é o carrinho que tem o motor e puxa o reboque, que são aquelas carrocinhas onde vão o material e as ferramentas.  

 

P/2 – As carcaças eram montadas por vocês ou vinham de outro lugar?

 

R – Não, não. Montava tudo! Inclusive aquela foto que tem daquele auto de linha de inspeção, que não é um auto de linha de serviço, naquele ali quem andava eram os engenheiros, era o pessoal técnico da Rede.

 

P/1 – Qual era a diferença desses dois autos?

 

R – A diferença era o tamanho, a qualidade, o conforto.

 

P/2 – Como assim? Explica melhor, Jesaías. Como assim, o conforto? O que tinha? Banquinho estofado...

 

R – Banquinho estofado, era maior, era fechado, enquanto que aquele auto de linha de trabalho do pessoal é aberto dos lados, é um banquinho de madeira. Ele não tem conforto como tem o grande [em] que iam os engenheiros, né?

 

P/1 – Você chegou a fazer alguma viagem nesses autos de linha?

 

R – Auto de linha de inspeção, a gente sempre fazia a viagem nele depois que ele estava pronto, se chama ‘a experiência’. A gente saía daqui e ia até Gravatá, até Caruaru. Ia e voltava, fazendo um teste nele. Depois passava ele para ser usado.

 

P/1 – E quantos iam nessas viagens?

 

R – Geralmente iam o condutor, dois ou três que participaram da construção, mais um supervisor. Iam umas quatro a cinco pessoas.

 

P/1 – Quanto tempo demorava essas viagens?  

 

R – Daqui para Gravatá a gente fazia em duas horas. Chegava lá, parava na estação e ia almoçar. Depois, retornava.

 

P/2 – Como era a produção desse auto de linha, por exemplo? Quantos vocês faziam por mês? Dois?

 

R – Esses autos de linha grandes, que eram entregues à Rede para inspeção, para os engenheiros, eu me recordo de só ter feito dois, desses grandes.

 

P/2 – Enquanto tempo, mais ou menos, Jesaías? Dois, três anos, quatro anos?

 

R – Num período de três anos. Esses menores, que são os de trabalho, eram feitos com frequência.

 

P/2 – Um por mês, mais ou menos?

 

R – Mais, mais. Porque não atendia só a Pernambuco. Eles eram mandados para Paraíba, Rio Grande do Norte.

 

P/1 – E vocês tinham que fazer o caminho para ver se eles estavam funcionando quando pronto?

 

R – Fazíamos as experiências. Não tão grandes quanto os de inspeção, mas num trecho menor fazíamos a experiência deles para poderem ser entregues.

 

P/2 – Precisava de tantos, assim? Porque...

 

R – Precisa. Precisa porque cada turma da via permanente tinha que ter o seu auto de linha e as suas carrocinhas, os reboques. Cada turma, por trecho, tem de ter o seu auto de linha e o seu reboque.

 

P/2 – E essa coisa de ir pra outros lugares? Você falou que ia para Paraíba...

 

R – Mandava para a Paraíba, mandava para o Rio Grande do Norte. Eu me lembro que a gente fez bastante autos de linhas que foram para outros estados.

 

P/2 – Você sabe se era a Rede que vendia?

 

R – Não, não! Era pra própria Rede.

 

P/2 – Então, pra própria Rede, mas a sua oficina de repente vendia...

 

R – Não, não. Não tinha, não.

 

P/1 – Você comentou que depois, o que aconteceu com a oficina?

 

R – Tragicamente, em 1998, houve a... Esqueci o nome. Eu não queria dizer o termo “privatização” porque não foi privatização. Na verdade, foi um arrendamento, uma concessão da ferrovia que o Governo Federal fez por trinta anos, da malha ferroviária em todo o Brasil. Não foi só aqui no Nordeste, foi em todo o Brasil.

 

P/2 – Em 1998?

 

R – Em 1998.

 

P/2 – Até então você estava na oficina...

 

R – De Jaboatão.

 

P/2 – De Jaboatão. Você já tinha tido alguma promoção ou você continuava...

 

R – Não, continuava como artífice de oficina.

 

P/1 – Ah, espera aí, já teve uma mudança, pois você estava na oficina de Recife.

 

R – Ah, sim. Faltou explicar isso. Nossa oficina do Departamento da Via Permanente (DVIP)... Eu entrei em 1987. Em 1992 ela foi extinta e incorporada à oficina de Jaboatão.

 

P/1 – Você sabe o motivo?

 

R – Não, não sei dizer o por quê.

 

P/1 – Você foi lá para Jaboatão?

 

R – Foi toda a oficina do DVIP fazer parte da oficina de Jaboatão.

 

P/1 – Mas continuavam os mesmos serviços?

 

R – Os mesmos serviços.

 

P/1 – Aí a Rede foi privatizada em 1998...

 

R – Não privatizada.

 

P/2 – Teve a concessão.

 

R – Concessão para exploração da ferrovia por trinta anos.

 

P/2 – Em 1998.

 

R – Em 1998.

 

P/2 – Mas o seu contrato de trabalho seria extinto, não é isso, Jesaías?

 

R – O que aconteceu foi que houve nas nossas carteiras de trabalho um carimbo assim: sucessão trabalhista. Automaticamente, nós passamos para o quadro da Companhia Ferroviária do Nordeste. (CFN)

 

P/2 – Certo. Provavelmente como parte do acordo de concessão, que ficaria com todo o quadro de funcionários. Mas, Jesaías, me diz: quando vocês ficaram sabendo que o governo ia conceder essa exploração, você lembra como foi? Como foram as primeiras conversas? Quem lhe contou pela primeira vez?

 

R – Lembro. A gente viu na TV, via no jornalismo, na imprensa a questão da Rede Ferroviária. Primeiro, se falava em privatização e, na verdade, não foi uma privatização, foi uma concessão. Pegou a gente de surpresa. Todo mundo achava que não iria acontecer porque achava que a Rede era muito grande para acontecer isso e terminou acontecendo. Foi triste, né? Foi ruim.

 

P/2 – Houve manifestações?

 

R – Houve. Aqui em Pernambuco, por parte do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas Ferroviárias daqui, houve bastante manifestações, foram feitas camisas com inscrições. Até mesmo a televisão, usamos um dinheiro para pagar um comercial falando contra a privatização. Houve bastante mobilização aqui em Pernambuco.

 

P/1 – E como foi a sua participação nesse movimento?

 

R – Eu, sempre que podia, colaborava porque ninguém estava querendo que, naquele momento, a Rede fosse privatizada. Até porque se dizia que a Rede seria privatizada por malha, por região, e todos nós sabíamos que a Região Nordeste era deficitária. Ficava aquela pergunta: "Quem é que vai querer assumir a fatia que não rende? Todo mundo vai querer o filé da Rede Ferroviária." Ninguém queria entrar aqui no Nordeste, quem é que ia querer entrar numa região que é deficitária? A gente ficava preocupado com essa situação.  

 

P/1 – E qual era a região filé da Rede Ferroviária? Você sabe?

 

R – A região filé era o Sul do país, né? Sul e Sudeste.

 

P/2 – E nessa época, ainda que deficitária, havia bastante linhas, bastante trens funcionando?

 

R – Mesmo deficitária, em Pernambuco tinha bastante trem, bastante carga. Carregava para as usinas o álcool, o açúcar. Tinha bastante carga aqui em Pernambuco.

 

P/2 – Nós estamos falando do final dos anos de 1990.

 

R – É.

 

P/2 – E a movimentação ferroviária ainda era grande?

 

R – Era grande.

 

P/2 – Você estava falando que participou do movimento. Você estava preocupado, se sentia emocionado? Tinha medo de perder o emprego?

 

R – Tinha medo do que estava por vir, a gente não sabia o que era e infelizmente aconteceu. Foi essa sucessão que teve prejuízos. Prejuízos para o Estado e prejuízo para cada um dos funcionários porque houve muitas demissões e o quadro aqui em Pernambuco ficou bastante reduzido.

 

P/1 – Você sabe mais ou menos quantos permaneceram?

 

R – Olhe, na época da sucessão em 1998, no Estado de Pernambuco, nós tínhamos mil e duzentos ferroviários na ativa. Hoje em dia, dados da própria Transnordestina Logística S/A, em Pernambuco, nós temos 120 funcionários.

 

P/1 – Nossa! Distribuído entre tudo?

 

R – Distribuído entre tudo: oficina, escritório da Transnordestina, tudo.

 

P/2 – Jesaías, dez por cento! Mas em função também do movimento que diminuiu muito?

 

R – Não. O movimento ter diminuído muito já foi em consequência da administração da CFN. A CFN focaliza muito a região do Nordeste mais lá de cima: Maranhão, o Piauí e Fortaleza. Aqui, em Pernambuco, ela não dá muito apoio.

 

P/2 – A CFN foi a empresa que recebeu a concessão para explorar, né?

 

R – Exato.

 

P/2 – Foi uma concorrência, né? Concorrência não, foi...

 

R – Foi concorrência.

 

P/1 – Mudou alguma coisa na oficina?

 

R – Mudou, né? Mudou tanto que a Oficina de Jaboatão, que era a oficina de vagões, referência em manutenção de vagões no Brasil, foi fechada. Hoje ela se encontra em estado de total abandono e está desabando. A Oficina de Edgard Werneck, que era uma oficina de locomotivas, referência na manutenção de locomotivas no Brasil, também está fechada. E por isso tudo os funcionários foram demitidos, né? Nossos colegas foram demitidos.

 

P/2 – Você teve muitos colegas demitidos?

 

R – Muitos, muitos.

 

P/1 – E agora, você trabalha onde?

 

R – Eu trabalho na Oficina de Cinco Pontas, que é a única que tem aqui em Pernambuco.

 

P/2 – É uma nova? Já existia na época que...

 

R – Existia, não com tantos funcionários como era a de Jaboatão, que era a maior, e a de Werneck, mas ela já existia e é a que continua até hoje.

 

P/1 – Você falou que as oficinas de Jaboatão e de Werneck eram referência. Como eram essas oficinas?

 

R – A Oficina de Jaboatão era bastante grande. Ela tinha umas pontes rolantes que tinham potência para suspender cargas de até trinta toneladas, suspendiam vagões. Tinha uma seção bastante grande da fundição, todas as peças da própria Rede Ferroviária eram confeccionadas lá porque tinha a fundição. Tudo que fosse de alumínio, de ferro fundido, de bronze, nós tínhamos condições de fabricar. Tinha um refeitório na Oficina de Jaboatão, um refeitório bastante grande.

 

P/2 – E ela era bem maior que a de Recife, não é?

 

R – Bem maior, uma estrutura bem maior.

 

P/2 – Você lembra quantos funcionários atuavam lá na Oficina ou não?

 

R – Não...

 

P/2 – A gente tem alguns números ao longo do tempo...

 

R – É. Há muitos anos, eu nem me entendia por gente, ouvia dizer que a Oficina de Jaboatão teve mais de mil trabalhadores.

 

P/2 – E comportava, né?

 

R – Comportava.

 

P/2 – Essa de Recife era um pouquinho menor?

 

R – Essa de Recife era bem pequena.

 

P/2 – Até porque fabricava coisas menores, não é?

 

R – É.

 

P/2 – Agora diz uma coisa, Jesaías. Você trabalhava com três tipos de metais diferentes: bronze, alumínio...

 

R – E ferro fundido.

 

P/2 – E ferro fundido. Dá para você descrever para a gente no que cada um é usado?

 

R – O ferro fundido era feito lá em Jaboatão, com ele eram feitas as sapatas de freio, tanto para as locomotivas como para os autos de linha que eu falei. O bronze, com ele era feito o mancal de fricção, que vai na ponta do eixo. Alguns vagões não tinham rolamento, então, era fricção e o mancal ia na ponta do eixo. Com o alumínio eram feitas algumas peças da própria locomotiva como, por exemplo, uma peça chamada injetor de areia, que fica embaixo da roda da locomotiva. Na locomotiva tinha os compartimentos em que vai a areia, uma areia bem fininha. Quando o maquinista está andando com a locomotiva e o trem começa a patinar, ele aciona esse injetor de areia, que joga a areia ali embaixo da roda para dar uma melhor fricção à roda.

 

P/2 – Tem motivo para o mancal ser feito de bronze? O bronze tem uma resistência diferente?

 

R – Pela liga dele. É um metal mole, então fica melhor que ele seja de bronze.

 

P/2 – E o injetor de areia [era] de alumínio provavelmente por ser mais leve?

 

R – Mais leve.  

 

P/2 – E o ferro, a sapata por ser, evidentemente...

 

R – Mais duro.

 

P/2 – Não é? Para frear aqueles...

 

R – É para frear.

 

P/2 – A gente estava conversando também, Jesaías, que eu estou impressionada com esta diferença de funcionários. Você estava explicando que houve, então, o plano de incentivo à demissão, é isso?

 

R – O plano de incentivo à demissão ocorreu no final de 1997, quando todo mundo já estava sabendo que o governo estava preparando a Rede Ferroviária para essa possível privatização. Ela fez bastantes planos de incentivo para os funcionários pedirem demissão, saírem.

 

P/2 – Você sabe listar alguma das vantagens que eram oferecidas?

 

R – Eu não tenho muita certeza, mas acredito que para cada ano trabalhado que a pessoa tinha, tinha um valor de salário referente, certo?

 

P/2 – Provavelmente algum percentual...

 

R – Algum percentual também em cima do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, além daqueles 40%. Algumas vantagens que fizeram muita gente se atrair e muita gente, nas vésperas da privatização, saiu por conta disso.

 

P/2 – Você não se interessou?

 

R – Não. Não me interessei.

 

P/2 – Você não tinha muito tempo, né?

 

R – Não tinha muito tempo, não tinha por que me desesperar, tinha de ficar para ver o que ia acontecer. Não adiantava eu pedir, sair. Tinha entrado em 1987, não adiantava. Tinha que ficar lá para ver o que ia acontecer.

 

P/2 – E a mesma coisa para aqueles que também já estavam em período de aposentadoria. Também houve um incentivo?

 

R – Provavelmente.

 

P/2 – Então muita gente também saiu antes até de 1998, Jesaías?

 

R – Muita, muita.

 

P/2 – Bom, aí teve essa questão...

 

R – Sucessão.

 

P/2 – Essa sucessão, pois é. Como você se sentiu vendo aquele carimbo na sua carteira de trabalho?

 

R – Estranho, né? A gente passa para outra empresa sem ter o contrato rompido, interrompido, sem receber nada e, de repente, está fazendo parte de outra empresa.

 

P/2 – Não alterou nada em termos de salários e benefícios ou alterou?

 

R – Totalmente!

 

P/2 – Ué, coisa estranha essa, não? Diminuiu o salário?

 

R – Tudo! Tudo que nós tínhamos de direito, que a Rede Ferroviária nos dava, a empresa, ao passar dos meses, foi mostrando que não iria ficar como estava. Ela foi retirando.

 

P/2 – Nossa! Quer dizer que não foi de imediato?

 

R – Não. Sempre tirou aos poucos.

 

P/2 – Mas o salário não reduziu ou reduziu?

 

R – Reduziu, por conta que o salário final se dava por conta de bastante vantagens, benefícios, que nós tínhamos da Rede. Então, quando dava aquele salário final, era por conta de muita coisa que a gente tinha e que a CFN foi, ao longo dos meses, cortando.

 

P/2 – A gente pode citar...

 

R – Pode, pode.

 

P/2 – Por exemplo, prêmio por tempo de serviço...

 

R – Olha, primeiramente, a Rede Ferroviária nos dava um tíquete refeição que, na época, era no valor de R$ 157,00, em 1997. Quando ela assumiu em janeiro, no meio do ano, em junho, ela cortou esse tíquete alimentação nosso. Ela passou dois anos sem dar esse tíquete. Então o sindicato procurou a Justiça e a Justiça... Antes de sair alguma decisão, ela voltou a pagar esse tíquete, sendo que ficaram esses dois anos para trás. Até hoje rola na Justiça e a gente não recebeu esses dois anos, ficou esse espaço sem ela pagar. Para os filhos de ferroviários, nós tínhamos o auxílio creche, que vinha no nosso contracheque um abono, num valor de… Naquela época, se eu não me engano, mais ou menos R$ 90,00 e ela cortou. O prêmio anuidade: [se] você estava na Rede Ferroviária há dez anos, você tinha dez anuênios; 11 anos, 11 e assim por diante. Ela também cortou nossos anuênios. E muitas outras vantagens que nós tínhamos da época da RFFSA, ela tirou.  

 

P/2 – A gente está fazendo esta entrevista em 2010. Isso vai ficar, esperamos que, para o resto da vida. Isso não é o chamado direito adquirido, Jesaías? Ou não tinha isso por conta de vocês serem funcionários federais?

 

R – A maioria dessas vantagens era via acordo coletivo.

 

P/2 – Ah, está certo.

 

R – Então ela se achou no direito de ir tirando.

 

P/2 – Mas, de certa forma, o contrato com o governo permitia, senão ela não tiraria.

 

R – Eu acredito que o governo, quando fez essa sucessão trabalhista, não deixou nenhuma cláusula, não deixou nada amarrado com as sucessoras, que não poderiam mexer tanto no quadro de pessoal. Deveriam ter garantido esse direito para a gente, e nem ter mexido nos nossos direitos. Eu acredito que o governo não amarrou nada a esse respeito.

 

P/2 – Você continua trabalhando?

 

R – Continuo trabalhando.

 

P/2 – Imagino que talvez com muita dor no coração, né? Porque ver os companheiros indo embora, não deve ter sido um período muito fácil, não é, Jesaías?

 

R – Foi.

 

P/2 – Você estava bem aborrecido?

 

R – Bem aborrecido, bem triste.

 

P/2 – Você estava ainda na Oficina de Jaboatão.

 

R – Na Oficina de Jaboatão. A primeira grande demissão foi em outubro de 1998. Bem recente, né?

 

P/2 – Mas a Oficina continuou aberta até quando, Jesaías?

 

R – Quando teve essa grande demissão em 1998, ela ficou aberta até o final do ano, até dezembro. De outubro a dezembro, [em] que [a demissão] foi quase em massa, ficaram poucas pessoas, inclusive eu. Quer dizer, os que ficaram tinham alguma estabilidade. No meu caso eu tinha estabilidade como ‘cipeiro’, funcionário da  Comissão Interna de Prevenção de Acidente (CIPA), por isso eu escapei, senão ela tinha demitido, acho que na totalidade.

 

P/2 – Em dezembro, eles chegaram para você e lhe mandaram para outro lugar.

 

R – Exatamente. Avisaram que aquela Oficina de Jaboatão ia ser fechada, então o pequeno grupo que ficou lá foi remanejado para a Oficina de Werneck, que ainda continuou existindo, e Cinco Pontas. Eu fui para Cinco Pontas.

 

P/2 – Você lembra quantas pessoas sobraram? Você e mais quantos?

 

R – Umas quinze pessoas, mais ou menos isso.

 

P/2 – De uma época que já tinha tido mil pessoas, sobraram mais ou menos quinze. E você veio para Cinco Pontas?

 

R – Vim para Cinco Pontas.

 

P/2 – A oficina era nova ou ela já existia antes?

 

R – A gente não pode nem chamar de oficina. É um galpão onde tem duas linhas dentro, que os vagões entram. Não tem uma estrutura para se chamar de uma oficina; uma oficina tinha de ser nos moldes da oficina de Jaboatão. É mais um galpão.

 

P/2 – E as ferramentas e bancadas que havia na Oficina de Jaboatão? O que aconteceu com aquele material?

 

R – Boa pergunta! Ao longo dos anos, depois que ela ficou fechada, a CFN, Administração Fortaleza, retirou tudo. Retirou tudo e levou para Fortaleza, inclusive todo o maquinário, tudo tombamento da RFFSA.  

 

P/2 – Quer dizer que não foi nem aproveitado nessas oficinas...

 

R – Daqui não. Algum tempo depois, Werneck também foi fechada e foi levado tudo também de Werneck para Fortaleza.

 

P/2 – Werneck fechou mesmo em que data, mais ou menos?

 

R – Werneck fechou em 2000.

 

P/2 – Tem dez anos, então. Sobrou também um pouquinho de pessoas que foram pra Cinco Pontas ou não? Ou foram demitidos?

 

R – Dos que estavam em Werneck também, nessa mesma base, só quem tinha alguma estabilidade é que ficou, não pôde ser demitido.

 

P/2 – E hoje, vocês são quantos, Jesaías?

 

R – Olhe, na Oficina de Cinco Pontas, nós temos numa base de quinze a vinte pessoas.

 

P/2 – No total?

 

R – No total, na área de oficina.  

 

P/2 – Entre serrador, serralheiro...

 

R – Mecânico, eletricista.  

 

P/2 – Isso dá? Porque também hoje qual é a demanda de trabalho de vocês? Não é muito grande, né?

 

R – É porque a CFN centraliza tudo em Fortaleza, como eu já disse, então as grandes intervenções de manutenção são feitas lá. Aqui são pequenas avarias, pequenas correções, manutenções corretivas que são feitas.

 

P/2 – Você nunca precisou se deslocar para algum lugar e resolver o problema no local?

 

R – Já.

 

P/2 – Conte para a gente como foi.

 

R – Nesse período que eu saí de Jaboatão e vim para Cinco Pontas - que compreendeu dezembro de 1998, que Jaboatão fechou, e janeiro -, eu vim para Cinco Pontas, onde tínhamos uma turma que chamávamos de turma do socorro. Era para quando o trem descarrila, quando ele tomba; a gente vai para esses locais para colocar de novo o trem em cima do trilho. A gente saía para fazer esse socorro.

 

P/2 – Você lembra de algum que foi mais marcante?

 

R – Tem vários. .

 

P/2 – Conta algum que você lembra de pronto.

 

R – O de Macau, lá em Rio Grande do Norte. Porque eu conheci as salinas no Rio Grande do Norte. O trem entrava para tirar o sal nas salinas, aquelas montanhas brancas de sal, então aquilo marcou.  

 

P/2 – Você foi lá para socorrer o trem? Deve ter sido um negócio bonito, no meio das salinas todas.

 

R – É. O trem entrava.

 

P/2 – Vocês iam para o Rio Grande do Norte porque fazia parte da regional, é isso?

 

R – É. Porque, de Pernambuco, a gente fazia socorro de Paraíba até o Rio Grande do Norte. Já a outra equipe de socorro que tinha em Fortaleza fazia aqueles Estados mais próximos, está entendendo?

 

P/2 – Sim, entendi. E talvez até o Maranhão? E a turma de vocês ou outra...

 

R – Não. A turma da gente só ia até Natal, Rio Grande do Norte, daí para cá. E eles lá iam para o outro lado.

 

P/2 – Então esse foi um marcante e bonito. Teve algum outro que você ficou muito preocupado, que você achava que não ia resolver?

 

R – Teve um que nós íamos perdendo a vida porque o operador do guindaste, eu me lembro, ele levantou o vagão, passou o cabo de aço no vagão e levantou e a gente tinha que ir embaixo fazer o que nós chamamos de gaiola, são uns dormentes que nós colocamos sobrepostos. Aquele vagão vai descer e equilibrar ali naquela gaiola e nós vamos colocar o truque embaixo para, depois, ele descer o vagão. Quando ele levantou o vagão do trilho, a gente tinha de ir fazer as gaiolas. Por um espaço de tempo a gente ficou parado e o rapaz dizia: "Se vocês não forem fazer a gaiola, a gente não vai colocar o vagão nos truques." Quando a gente se movimenta para ir, o freio do guindaste arrebentou, soltou e aquele vagão despencou! Quer dizer, por causa de um minuto que a gente se atrasou para ir fazer aquela gaiola, era o tempo que a gente ia ser esmagado. Porque se a gente tivesse embaixo fazendo, aprontando, aquela gaiola, o vagão tinha caído em cima da gente.  

 

P/2 – Com certeza! Nossa! Espatifou o vagão ou não?

 

R – Não, não. Ele é forte. Ele caiu em cima da linha.

 

P/2 – Que susto! Onde foi isso, Jesaías?

 

R – Foi em Aliança.  

 

P/2 – Vocês levaram um susto danado.

 

R – Foi.

 

P/2 – A sua equipe tinha quantas pessoas? Essa de socorro?

 

R – A equipe do socorro geralmente saía com cinco pessoas: um motorista, geralmente tinha pessoas habilitadas a trabalhar com maçarico, as outras nem tanto. Porque a gente trabalhava assim: dois para cada lado do trem. Quando o trem estava sendo recarrilado ou a gente estava trabalhando com o guindaste, que geralmente acompanhava, sempre trabalhavam dois de cada lado.   

 

P/2 – Quando descarrila um trem, o único jeito de pôr de novo no trilho é com o guindaste ou tem alternativas como com o macaco...

 

R – Se ele tombar, se ele cair, só com o guindaste. Se ele só sair dos trilhos, a roda cair fora, isso aí tem como a gente colocar.

 

P/2 – Como faz, então?

 

R – Nós temos um equipamento chamado encarrilhadeira. Uma peça de ferro, no formato assim, como uma meia-lua, que a gente coloca ao lado da roda que está fora do trilho. Quando o maquinista puxa esse vagão, essa roda guia aqui nessa peça. Como ela é curvada, a roda sobe na altura do trilho e quando ela chega aqui no final, ela: “Pooww.” Cai em cima do trilho de novo.

 

P/2 – Ah, interessante. Uma peça pesada essa, não é?

 

R – É uma peça pesada. Geralmente, a gente carrega com duas pessoas para não ficar tão pesado para uma pessoa só carregar. A gente carrega com duas.  

 

P/2 – Eu pensava que eram mais de duas. (risos)

 

R – [Com] duas pessoas dá para carregar.

 

P/2 – Então isso é uma coisa rápida de resolver?

 

R – Quando o vagão descarrila e fica com as rodas próximas à linha.

 

P/2 – Aí tem o guindaste quando tomba. E quando ele sai e fica longe? Aí não jeito?

 

R – Tem jeito!

 

P/2 – Tem?  

 

R – Tem jeito.

 

P/2 – Como faz?

 

R – A gente sai guiando a roda, colocando um trilho embaixo das rodas. Esse trilho, a gente passa uma corrente e amarra-o com um parafuso na linha e vai puxando, chamando-o até ele se aproximar da linha novamente para gente usar essa encarrilhadeira.

 

P/2 – Olha só, que trabalhão, hein?

 

R – É. É um trabalho demorado. Aos poucos, vai tentando uma coisa, não dá certo, tenta outra até...

 

P/2 – Você conta isso com uma certa satisfação. Também porque deve ser bem legal quando vocês conseguem resolver. (risos)

 

R – É legal. Era legal fazer socorro, porque agora não fazemos mais.

 

P/2 – Mas existem ainda algumas equipes?

 

R – Existem. Atualmente, a equipe que faz socorro nesses estados é de Itabaiana, na Paraíba. Ainda tem uma equipe de socorro que faz. Hoje em dia, nós, do Recife aqui, é que não fazemos.

 

P/2 – E tem só uma equipe? Antes havia várias equipes aqui, não é?

 

R – Só em Itabaiana, na Paraíba.

 

P/1 – Jesaías, você continua trabalhando e está até hoje nessa oficina, é isso?

 

R – Na Oficina de Cinco Pontas.

 

P/2 – Qual a diferença entra a CFN e a Transnordestina Logística, é tudo a mesma coisa? Eu não entendo nada disso...

 

R – Quando da sucessão, do arrendamento, esse grupo entrou com o nome de CFN, Companhia Ferroviária do Nordeste, sendo que Transnordestina é essa ferrovia falada desde a época do Sarney, que está saindo do papel. A CFN, por sua vez, agora, tirou o nome CFN e está usando o nome Transnordestina. Ela pegou agora esse nome Transnordestina para ela e agora não é mais CFN, é Transnordestina Logística.  

 

P/2 – No fundo é a mesma coisa? Ou vocês...

 

R – Não. Não é a mesma coisa porque a CFN era a malha, os trechos, as linhas que já existiam da RFFSA e a Transnordestina é uma nova linha que está sendo construída.

 

P/2 – Então você saiu da CFN e passou pra Transnordestina?

 

R – Não.

 

P/2 – Não são empresas distintas?

 

R – Não. A CFN, como eu disse, mudou o nome para Transnordestina Logística. E a Transnordestina está sendo construída, que é outra linha.

 

P/2 – Que é a linha que vai para o Maranhão, não é isso?

 

R – É a linha que vem do Ceará, desce para cá, por Salgueiro, e vem para Suape.

 

P/2 – Suape é o porto daqui de Recife.

 

R – É o porto de Pernambuco.

 

P/2 – Mais que confusão isso, não? E essa linha está sendo construída agora?

 

R – Está sendo construída.

 

P/2 – Você tem tido alguma participação em alguma coisa?

 

R – Não, não. Quem está construindo a linha Transnordestina é a empresa Odebrecht.

 

P/2 – Que agora está numa fase de obras civis.

 

R – De terraplanagem.

 

P/2 – Mas provavelmente vai aumentar a quantidade de vagões, existe uma perspectiva da turma de vocês de máquinas...

 

R – Vai, vai. Diz a administração que vão vir novos vagões, vagões com maior capacidade de cargas, novas locomotivas, né?

 

P/2 – Há algum projeto para vagões de passageiros?

 

R – Não, não. Só cargas.

 

P/2 – O tempo inteiro só carga. Bom, mas de qualquer forma há uma expectativa boa, digamos. Você tem alguma expectativa neste momento de 2010?

 

R – A expectativa, eu diria que não [é] pra mim. Pra quem for novo, que estiver entrando, eu acredito que no futuro. Mas para agora...

 

P/2 – Por que você acha que pra você não, Jesaías? Você está tão novo ainda!

 

R – Eu estou novo, mas veja bem, como trabalho numa área insalubre e eu entrei com 18 anos, a minha aposentadoria é especial, com 25 anos. Eu já tenho 22, então para mim só faltam três. Daqui até que termine essa Transnordestina e que ela esteja a todo vapor, eu acredito que ainda vai demorar um pouco, eu não vou mais alcançar, não vou usufruir dessa...

 

P/2 – Jesaías, diga para mim, o que significa esse tempo todo de ferroviário para você?

 

R – Significou tudo na minha vida porque, graças a Deus, eu devo tudo à ferrovia. Tudo o que eu tenho hoje, a minha família, tudo que eu adquiri foi da ferrovia.

 

P/2 – Você é casado, Jesaías?

 

R – Sou casado.

 

P/2 – Tem filhos?

 

R – Um casal.

 

P/2 – Como se chama a sua esposa?

 

R – Isabel.

 

P/2 – E as crianças, como se chamam?

 

R – Tiago e Rebeca.

 

P/2 – O Tiago tem quantos anos?

 

R – Tiago tem dezessete.

 

P/2 – Ah, já está um rapazinho. E a Rebeca?

 

R – A Rebeca tem quinze.

 

P/2 – Já estão dando trabalho?

 

R – Não. (risos) Ainda não.

 

P/2 – E como você conheceu sua esposa?

 

R – Minha esposa, eu a conheci porque nós fazíamos parte da mesma igreja evangélica. Desde que a gente era adolescente a gente já se conhecia.

 

P/2 – Ah, que bom. Ela trabalha também?

 

R – Não. Ela era professora. Depois que nós nos casamos, ela passou a se dedicar só ao lar.

 

P/2 – E você andou de trem, gostava de andar?

 

R – Andava. Aqui tinha trem de passageiros que fazia o percurso Jaboatão–Recife e eu andei bastante no trem de passageiros.

 

P/2 – Até quando estava trabalhando, não é?

 

R – Não, não. Por que o trem de passageiros acabou assim que começaram as obras do Metrô de Recife.

 

P/2 – Ah, então eles aproveitaram o mesmo leito, não foi isso?

 

R – Alguma parte do trajeto compreende, assim...

 

P/2 – Esse antigo trecho do trem de Jaboatão.

 

R – É.

 

P/2 – E uniforme? Vocês têm uniforme hoje lá da oficina?

 

R – Da Oficina de CFN, nós temos uniforme.

 

P/2 – É diferente do da Rede?

 

R – Não. É o mesmo modelo, mesmo modelo de camisa.

 

P/2 – O seu cotidiano hoje? Seu horário de trabalho hoje?

 

R – Meu horário de trabalho hoje é das sete e meia às onze e meia e de meio-dia e meio às 17.

 

P/2 – São turnos?

 

R – Não, não.

 

P/2 – É sempre esse horário, a não ser que haja alguma coisa, Jesaías, ou é difícil?

 

R – É difícil porque quando tem alguma coisa fora do horário, se for da área de vagões, vem a turma de Itabaiana, que é a turma do socorro. Algum defeito de locomotiva, aqui nós temos pessoas específicas que trabalham com locomotiva e que são acionadas para, ainda, fazer esse atendimento.

 

P/2 – Tem alguma coisa que você queira contar mais? Alguma historinha que você lembre?

 

R – No momento...

 

P/2 – Sempre dá um branquinho. E o que você acha dessa ideia, Jesaías? Você que foi super simpático, se ofereceu para contar sua experiência, o que você acha dessa ideia do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Museu da Pessoa de registrar a história da Rede Ferroviária por meio dos trabalhadores?

 

R – Muito bom, né? Porque a própria pessoa que está dando as regulagens do que viveu, do que viu, então fica uma coisa bastante autêntica, um bom trabalho.

 

P/2 – Você gostou de dar a entrevista?

 

R – Gostei, gostei.

 

P/2 – Foi tranquilo ou estava preocupado se ia ter perguntas difíceis?

 

R – É. Eu estava preocupado se perguntasse alguma coisa que eu não soubesse responder. Mas foi tudo que eu sei, que eu vi, então não teve nenhum problema, não.

 

P/2 – Então está bom, Jesaías! Muito obrigada por você ter vindo e ter colaborado. Foi muito bom ter te entrevistado.

 

R – Foi muito bom, também. Obrigado!

 

P/2 – Obrigada!

 

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