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História

“Ninguém deve desistir. Sempre vem uma mudança”

História de: Carlos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/09/2019

Sinopse

Carlos trabalhava na praia desde criança, vendendo ovos de codorna. Seu pai ficou inválido após um assalto e sua mãe saiu de casa, levando somente o filho mais jovem. Acabou envolvendo-se com drogas e em seguida com a prostituição, para poder se sustentar. Nesta entrevista, ele nos conta como desistiu das drogas e da prostituição e sobre as perspectivas para o futuro que ganhou com o projeto ViraVida.   

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História completa

Eu me chamo Carlos. 

Tenho três irmãos: a minha irmã é a mais velha, tenho outro irmão que tem 22, e o mais novo, de dezessete. A minha mãe está morando no interior com outra pessoa e o meu pai fica em casa. Ele não trabalha mais, já se aposentou.

Minha mãe trabalhava, meu pai também trabalhava. Houve um dia em que ele, voltando do trabalho, foi assaltado e levou uma chicotada de rabo de arraia na perna, que secou. Ele se aposentou por conta disso.

Minha mãe foi para o interior há dois anos e meio. Ela foi sozinha, levou meu irmão mais novo; meu irmão mais velho ainda mora nessa região, só moramos eu e meu pai. Ela foi, passou um bom tempo, depois veio buscar meu irmão, porque ele sentia saudade dela. Era o mais novo. 

Eu fiquei sozinho. Sinto saudade dela.

Quando eu comecei a estudar, a escola era pequena; ficava o dia todo, participava das aulas. Teve marchas no Dia da Independência, essas coisas assim. Gostava de participar na organização de eventos da escola. Fui passando para o jardim, jardim dois, três, a alfabetização, isso tudo, até a quarta série - do tempo que era série, hoje é ano. Fui passando, repeti três anos na escola, no sexto ano. Eu repeti três anos porque tinha deixado de ir por besteira, porque sempre colocava culpa na minha mãe. Eu ficava com raiva de algum acontecimento, eu dizia que era ela a culpada. Eu sentia mais raiva quando estava com razão, quando meus irmãos faziam alguma coisa dentro de casa, deixavam bagunçado, eu falava e nunca me ouviam. 

Terminei uma escola, fui para outra, e nessa outra escola eu fiz o sétimo ano. Parei nessa sétima série, repeti três vezes; entrei para o EJA, Educação de Jovens e Adultos. Não terminei, repeti também. Aliás, repeti dois anos o sétimo ano e repeti um ano o EJA, que era do sexto e sétimo ano, repeti esses três anos. Entrei para o ProJovem, Programa de Inclusão de Jovens e Adultos, e terminei, fiz o ensino fundamental completo. Hoje estou no primeiro [ano do ensino médio]. Ganhei o certificado, falta pegar. 

A matéria que eu mais gostava era Ciências Humanas, Ciências da Natureza. Hoje, na escola, eu estou vendo mais outras matérias; dessas de hoje eu gosto mais de Filosofia, é bem legal.

Comecei a trabalhar quando tinha treze anos. Comecei a vender ovo na praia, ovo de codorna. 

Eu vendi ovo até meus dezoito anos. Por um lado eu queria ir, mas muitas vezes era para ajudar minha mãe ou então comprar minhas coisas. 

Comecei a participar de um projeto social pela manhã; fui deixando de ir, tinha dias que voltava a vender. Saí do projeto com dezesseis anos e fui vendendo. 

Teve um tempo que eu parei porque não dava mais [pra] ganhar pouco dinheiro, que não sustenta, ainda mais trabalhando na praia. É bom para uma pessoa adulta que esteja precisando mesmo, criança não. Criança deve estar na escola. Criança deve estar brincando, porque tem os domingos para brincar. Passa a semana todinha estudando, fica no domingo trabalhando, não dá. Estou participando agora deste projeto, ViraVida, que está me ajudando muito, na minha condição financeira exatamente. E o curso de qualificação, que pode garantir meu sustento durante minha vida toda.

Comecei a usar drogas por influências ruins, aos dezessete anos. Quando eu não usava, houve dias em que eu ficava no meio da roda. Eles fumando, eu só sentindo o cheiro, mas eu não fumava. Eram pessoas do bairro, [que] frequentavam os mesmos lugares. Passando o tempo, essa rotina acontecendo, eu só na roda, sem fumar, até que eu experimentei e quis ficar usando. Eu parei um tempo, tive algumas recaídas, mas eu estou resolvendo novamente, voltar ao caminho normal.

Quando era na maconha, ficava uma sensação de ficar meio relaxado. A sensação da maconha com crack era uma paranoia, olho arregalado, ficava na minha. 

Quando eu ia comprar droga, tinha a sensação que eu poderia ser pego a qualquer momento pelos “homens”, que poderiam me forçar a entregar a boca de fumo. Eu poderia até morrer, porque isso não se faz de nenhuma forma. Eu ficava com uma sensação horripilante: “Por que você vai usar essa droga?” Ficava com frio na barriga, ficava pensando: “Eu tô gastando meu dinheiro agora, mas depois não tenho mais nada.” 

Tinha dias que eu tinha o único dinheiro para pegar, uns cinco reais, e ficava sem dinheiro; queria ir à lan house, não tinha. Às vezes eu ficava nessa sensação com arrependimento disso: “Agora não tenho mais nenhum centavo.” No tempo que eu não fazia nada, eu pedia dinheiro. Cheguei a pedir para as pessoas que passavam no meio da rua. “Vinte e cinco centavos, Fulano, cinquenta.” Tudo era em centavos. Pedia para minha mãe, só que ela ficou desconfiada. Eu não sei, mas ela deve saber que eu já usei droga e [sobre] a recaída recente. 

Para eu chegar no ViraVida, era o período que eu estava no ProJovem, [em] que eu terminei o ensino fundamental. Eu entrei no ViraVida fazendo o ProJovem. Foi o ano passado que terminou. Eu comecei em 2010 e terminei em 2011. Fiquei sem fazer nada, depois eu parei e pensei: “Eu tenho que ir atrás de alguma coisa.” Veio a oportunidade de fazer um curso e ao mesmo tempo ganhar um auxílio, que me ajuda também. E o curso é para se qualificar e se profissionalizar. Apareceu o ViraVida, fiz minha ficha, entrei para a Associação das Prostitutas. Eles têm um trabalho interativo, que eles participam: palestras, essas coisas, dinâmicas, esportes, entre outras atividades. Entrei no ViraVida e hoje eu tô fazendo de tudo para passar e me qualificar.

Eu resolvi entrar para a Associação das Prostitutas para manter uma vida boa, sair da prostituição. Eu fazia programa, aliás; saí. 

Comecei a fazer programa com dezesseis para dezessete anos. Era para me manter, comprar algumas coisas, o que for de necessário para dentro de casa. E outra coisa, eu pegava o dinheiro, usava droga. Mas eu ficava muito pensativo. 

Eu ficava mais em estabelecimentos. Surgiram pessoas que queriam fazer e eu não neguei. Às vezes eu tinha medo, mas às vezes eu não tinha, não, porque tinha que fazer mesmo.

Os bons clientes eram mais os idosos, porque eles pagavam direitinho, sem problema. Às vezes vêm adultos mais maduros, às vezes vem jovem. Nunca neguei de ir.

Eu me vestia de garoto de programa, ficava em qualquer canto e aparecia cliente. Eu me vestia de sandália, short e camiseta. Às vezes era calça, às vezes eu ficava de blusa polo, me ajeitava todinho. A maioria dos clientes eram gringos.

No tempo sem fazer nada eu ficava perto de casa, como um que não tem nada para fazer. E maioria do tempo também era usando droga. Mas mesmo assim eu dei a volta por cima, saí desse lugar, saí de todos.

Entrar no projeto foi um passo imenso, um passo que te ajuda. Você está com pessoas que te apoiam e que veem o seu melhor, e o pior eles conversam individualmente, porque o que é pior eles transmutam para melhor. E foi tudo mesmo, foi um agradecimento que só Deus mesmo.

Os estudantes escolhem os cursos, mas se [o candidato] for selecionado, eles dizem o curso [em que] ficamos. Mas se nós dissermos: “Não vou ficar, não. Vou esperar o próximo mesmo...” Eles também falam para os que vão entrar, para que cada siga sua opção. No meu caso, eles disseram: “Você vai ficar nessa turma.” Eu peguei e quis ficar, não era nenhum problema, eu queria começar logo. E tecelagem eu estou gostando, é a fabricação de tecido e o artesanato tomando conta da nossa turma mesmo, tem criatividade esbanjada nas paredes.

Quando eu fico o dia inteiro, fico para aula do SENAI, que é a qualificação profissional de tecelagem. É de tarde e de manhã. De tarde, às vezes é aula do SESI, que é a parte do ViraVida mesmo, que é aula continuada; às vezes é aula misturada, o SESI e o SENAI.

A atividade mais legal é o tingimento têxtil. Na parte de tingimento têxtil misturamos as cores, descobrimos cores, calculamos tudo para sair aquela cor que queremos. Fizemos, inclusive, uma pirâmide de cores que foi um sucesso; fizemos até duas, uma de corante de espesso, foi do poliéster, e uma de direto, que é do algodão. Eu gosto muito dessa parte, mas as outras partes também gosto.

No primeiro dia de aula, eu não tinha muita intimidade com os alunos. Mudou muito hoje, porque hoje em dia tenho uma intimidade de amizade com vários alunos daqui, sem ser da minha turma; uns que já terminaram, [com] alguns eu tenho, e uns que moram perto de casa também, que já participaram. 

O que mudou foi muita coisa mesmo, as oportunidades chegaram, tudo evoluiu de acordo com o seu tempo. Foram criações novas, novos módulos, tanto [da] parte do SENAI, como [da] parte do SESI. O SESI também e o Projeto ViraVida têm várias opiniões e criatividades para fazer uma virada mesmo nas nossas vidas. 

Eu estava precisando mesmo me ocupar. Sem fazer nada, a pessoa não vai aprender nada; fica só no meio da rua, aprende só aleatoriamente. Aqui no ViraVida não, é tudo planejado, tudo bem organizado e tem certo controle para fazer essa mudança nas nossas vidas.

Meu pai não vem mais para o ViraVida, porque tem problemas com álcool e não está ligando para vir às reuniões. Só um dia que eu o chamei para vir, quem vinha era a minha mãe. A mudança foi isso mesmo. 

Mas a mudança é minha para melhor, foi o querer. Eu me vejo mais importante, porque teve um tempo que eu nem estava me importando comigo. Eu cheguei e eu me senti importante. Se cada um fizer a sua parte, eu fiz a minha parte. Eu estou fazendo minha parte, está todo dia acontecendo uma coisa melhor. E o que mudou para melhor foi isso também, o que foi diferente.

Ao final do curso eu vou querer trabalhar para me manter, viver melhor e aprender mais. E já que daqui para lá eu me qualificarei, eu estarei disposto a trabalhar na parte em que eu aprendi.

O meu sonho é reunir todo mundo de novo da minha família e pelo menos eu viver com a minha mãe. E o que eu espero mais também é uma mudança para melhor, e que seja só uma coisa: felicidade. Também o meu maior sonho é que eu arrume minha casa completa, construa minha casa, reajeitar para transformar, mobiliar tudo. O maior sonho é ter uma casa decente, bonita e com a minha família, principalmente.

Escrevi um livro que fala de tudo que eu falei aqui. Fala da documentação necessária para conseguir mais benefícios, fala do ViraVida. Escrevi porque eu quis aproveitar pra desenhar o que eu passei e estou passando. Pra que elas vejam que o melhor a gente espera por um tempo, porque vai acabar chegando. E que as outras pessoas vejam que a vida também não é só o nada, é o tudo também, justamente que o meu livro fala disso. “Na vida é tudo ou nada”, de Carlos. Fala disso, que ninguém deve desistir e que sempre vem uma mudança, e que você não deve andar pra trás, só andar pra frente.



 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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