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História

Nildete de Souza Silva

História de: Nildete de Souza Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2005

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História completa



Identificação
Meu nome é Nildete Silva, nasci no dia oito de julho de 1972, em Riacho de Santana, na Bahia.

Família
Meus pais são Anésio Pereira da Silva e Maria Áurea de Souza Silva. Meu pai trabalhava na roça, quando a gente era criança. A gente nasceu na roça, no nordeste lá da Bahia, e a minha mãe ajudava na roça. Eu também trabalhei na roça, ajudei meus pais.

Infância e Adolescência
Morei na roça, em Riacho de Santana, até os 16 anos. Quem é lá do nordeste vai entender o que é ralear algodão. O que é ralear algodão? É que no plantio de algodão, quando planta, não tem como separar as sementes; eles nascem juntos, e não crescem se não tirar aqueles que ficam a mais. Tem que deixar três, quatro pezinhos de algodão. Então tem que tirar, e isso era feito na mão – não sei se hoje já tem um outro jeito, mas era feito na mão. Meus pais que ensinaram a gente a fazer esse trabalho. E ia todo mundo, nós somos sete filhos. Então íamos eu, minhas irmãs e meu irmão, e a gente fazia isso juntos. A gente tinha uma vida muito difícil, porque não tinha meios de sustento. Então, desde criança, a gente trabalhava na roça. Na época das férias escolares a gente já trabalhava, fazia alguma coisa para poder comprar uniforme escolar. A gente ganhava muito pouquinho, era coisa de um real por dia, no valor de hoje. Eu estudava no período da tarde, e de manhã eu trabalhava junto com meus pais. Depois de uma certa idade eu passei a trabalhar para fazendeiros, pessoas que tinham grande plantio e que poderiam pagar para a gente. Meu pai ia para a cidade sempre aos sábados, fazer feira. Era pouca coisa que comprava, que não tinha condição de comprar muita coisa, mas era o básico. E quando a gente precisava comprar alguma coisa – por exemplo, o uniforme, um tecido para minha mãe fazer uma roupa para a gente ir para a escola – a minha mãe ia com a gente, e era bem longe. Como a gente não tinha condição de pagar o transporte, que eram aqueles carros que tinham carroceria e tal, a gente saía às quatro horas da manhã e andava até chegar na cidade. A gente pegava a madrugada toda andando quilômetros para chegar até a cidade, porque a região onde eu morava se chama Boqueirão, então tinha mais ou menos uns dez quilômetros até a cidade. De dez a quinze quilômetros. Então a gente andava bastante. Isso desde os 8 anos de idade, e quando precisava de um médico, a gente saía também de madrugada para chegar lá e encontrar uma consulta, para conseguir passar no médico. A nossa casa era de telha, e tinha uma parte que era de adobo (espécie de tijolo cru, feito misturado com palha), outra de sapé, que é feito de madeiras com barro e tinha varanda, sala, dois quartos e o quintal. A área que eu mais gostava era o quintal, que chama terreiro lá. Porque eu fazia umas plantas – eu gosto muito de plantas –, fazia um cantinho de plantas, e acabava pegando muda com a vizinha, fazendo aquela troca de figurinhas. Tinha muito isso [problema de seca na região]. A gente sofreu e passou necessidade; teve momentos também em que a colheita era muito boa, mas a gente nunca sabia qual ano seria legal. Às vezes não chovia, então quando chegava o mês de novembro a gente ficava esperando a chuva para poder já fazer o plantio, mas aí não vinha chuva, e a gente ficava meio desesperada: “Cadê a chuva, cadê a chuva?”. Então se fazia reza, a gente pegava uma latinha de água – eu e muitas crianças da região – e andávamos no rio pedindo a Deus para mandar chuva, porque a gente ficava com medo da fome. Isso até me emociona, sabe? Eram muito legais [as brincadeiras de criança]. Hoje em dia as crianças brincam de coisas tão diferentes da minha época, com video-game... Mas na minha época lá a gente não tinha brinquedo, a gente não tinha nem condições de ter uma boneca, então... Meu pai plantava milho, eu pegava aquelas espigas de milho – a gente nem conhecia como espiga de milho, a gente falava boneca de milho – quando o milho começava crescer e começava a dar as bonecas (até hoje eu falo boneca de milho), a gente corria até a roça. A gente ficava olhando, no intervalo que a gente tinha, e já ficava procurando as loiras e as morenas. Não sei se vocês sabem, mas tem uns milhos assim com os cabelinhos, os pelinhos do milho, pretos e loiros. Então a gente pedia permissão para o nosso pai e tirava. A gente fazia as roupinhas da própria folha do milho. E eram as bonecas que a gente tinha. A gente brincava de outras coisas assim tão legais: por exemplo, de Marré, Tango-tango, que tem uma musiquinha assim que diz: “É tango-tango-tango morena, é de carrapicho, vou jogar você, morena, na lata do lixo”. A gente fazia a rodinha, uma pessoa ficava no centro e a gente ficava cantando a música, rodando; onde a pessoa parasse, quando a pessoa ouvia falar assim, “vou jogar você, morena, na lata...” quem a pessoa escolhesse mais próximo, saía da roda. Era interessante, sabe? A gente brincava de pegar uma lata de óleo – que usava muita lata de óleo naquela época, óleo de soja, porque a gente nem conhecia, como hoje essas embalagens novas, modernas, legais, fáceis. Então a gente pegava pedras e colocava as latas [como um alvo], e via quem mais acertava para derrubar as latas. Era muito legal. Nem me fale em traquinagem, em aprontar Eu até hoje gosto Se eu vou num lugar onde tem rio, ou uma cachoeira, eu quero subir, ver se tem algum caminho, uma trilha. Água, pular de trampolim. Eu gosto, até hoje eu tenho esse jeitinho moleque, porque é saudoso até. Mas eu me lembro de umas épocas que a gente tinha necessidade e não tinha nada para comer, então pegava um estilingue, umas pedrinhas, e íamos caçar alguma coisa. Eu e meus primos, a gente caçou, matou uma rolinha, trouxe para casa e deu para minha tia – ela que ia fazer para a gente comer. A gente ficou com muita dó do passarinho, mas na hora de comer a gente ria. Era difícil, né? A gente ficou até com dó de comer o passarinho (risos). Na Bahia, lá na região – há muitas pessoas que, eu contando a minha história na Bahia, falam assim: “Não, mas não tem essa seca”, mas depende da região. A região Nordeste, a região Sul e a região Norte são regiões difíceis nesse sentido. Tanto que até hoje meu pai liga lá para a Bahia para saber das minhas tias se já choveu, para ficar mais tranqüilo: “Será que já foi, será que já teve algum plantio?” Mas a gente estava nuns anos difíceis, muito difíceis, muita seca. E variava, muitas vezes chovia demais, e a roça do meu pai era perto de um rio. Então, quando chovia muito, dava enchente, levava tudo o que tinha. Todo o milho, toda a mandioca, feijão, tudo, um atrás do outro.

Família
A minha irmã mais velha resolveu vir para São Paulo, meu tio a convidou e ela veio com o objetivo de arrumar um trabalho e ajudar minha mãe com um pouquinho de dinheiro. O que ela mandasse já ajudava muito, porque qualquer quantia era válida. E ela veio, arranjou serviço para o meu pai também e teve a idéia de mandar buscá-lo. Só que o meu pai teria que vir com a minha mãe, com a família, então ele veio primeiro e a gente ficou lá, lutando, trabalhando na roça para poder ir segurando a barra. O meu pai veio para cá, não conseguia emprego, já estava desanimado, mas a gente foi pedindo tanto a Deus que abrisse uma porta de serviço para o meu pai, que ele conseguiu. E aí ele ligou – ligou não, escreveu, que nem tinha telefone, nem e-mail – que tinha conseguido serviço. A minha mãe poderia então vender a casinha que tinha lá porque, por menor [que fosse o] valor que pegasse na casa, era um dinheiro. Aí minha mãe vendeu a casa, e com esse dinheiro a gente pagou a condução dela e das minhas outras irmãs, que vieram com a gente. A gente veio de ônibus, carregando farofa, porque não tinha condição de comprar. O que mais marcou nessa viagem não foi o cansaço não – porque só a vontade que eu tinha [de vir para São Paulo], que [eu achava que] se eu chegasse aqui eu poderia arranjar um emprego, a minha vida ia mudar –, eu nem sentia cansaço, era uma felicidade muito grande Mas a gente veio da roça, então quando a gente dava uma parada com o ônibus e entrava naqueles restaurantes grandes, enormes, a gente ficava até perdida. Mas a felicidade foi quando chegamos em São Paulo São Paulo, para a gente, era como passar num concurso muito difícil de você conseguir. Mas o que eu me lembro muito é a saudade das pessoas que cercavam a gente. Da união que a gente tinha lá com os vizinhos – quando minha mãe precisava de uma canequinha de café emprestado, ou quando a vizinha precisava, a gente fazia aquela troca de figurinhas.

Infância e Adolescência
Eu tinha 16 anos quando cheguei a São Paulo. A minha irmã foi buscar a gente lá na rodoviária. Mas eu me lembro que minha irmã falava pelas cartas sobre a Estação da Luz, então eu imaginava que era um lugar de muitas luzes; e como a gente ia chegar no período noturno, eu ficava imaginando que ia encontrar aquela Estação da Luz muito iluminada, uma coisa muito grande E não era assim, e eu vim a entender isso depois, sabe? (risos) A gente foi morar em Guarulhos, no bairro do Jardim Silva, que é lá próximo da praça Oito, lá do Taboão. O meu pai já tinha conseguido uma casinha para a gente, tinha dois cômodos e um banheiro. Uma cozinha e um quartinho bem pequenos, já tinha conseguido uns beliches, e a gente se acoplou [acomodou] bem, feliz da vida, que a gente era um só.

Vida Profissional e Trabalho
O primeiro passo [em São Paulo] – como a gente tinha meu tio que morava aqui – minha irmã levou a gente para ver os meus tios. Foi legal, aquele momento do almoço junto, aquela união ali. Na outra semana a gente já estava na expectativa do emprego, eu já batalhava, andando ali na redondeza, procurando alguma coisa. Tinha aquele jornalzinho amarelo na época, que era de graça, então a gente de manhã pegava o jornalzinho e saía procurando. Só que eu não conhecia a cidade, não conhecia nada. Então a gente ia procurando a pé, porque a gente não tinha dinheiro. Eu andava do bairro do Jardim Silva até o centro de Guarulhos a pé, pegava de empresa em empresa, de firma em firma procurando. “Tem alguma vaga para a gente?” Minha irmã falou para a gente: “Olha, você chega e fala que quer trabalhar de ajudante geral”. Mas foi uma decepção para mim. Eu me decepcionei porque eu chegava e nunca encontrava nada. Quando estavam precisando exigiam experiência, e eu não tinha. E sempre ouvia isso: “Você não tem experiência”. E quando estava precisando eu falava: “Eu não tenho, mas eu faço qualquer coisa”, e eles: “A gente precisa de experiência nessa área de no mínimo um ano”. Então isso chocava, a auto-estima da gente ficava bem para baixo mesmo. Até que depois de um tempo um amigo, um vizinho, falou que no Aeroporto estavam precisando de uma pessoa, de uma menina. Eu e minha irmã fomos lá para trabalhar de ajudante de cozinha, no aeroporto de Guarulhos [Cumbica]. Mas mesmo assim, sem registro, nada, bem clandestino. E trabalhamos uns seis meses com uma menina muito legal que a gente conheceu. Mas depois ela falou: “Olha, a gente está num momento difícil e vai mudar”. E então perdemos o emprego; foi muito difícil. Eu saí na batalha novamente, para andar e procurar. E eu me lembro de uma experiência muito legal, muito boa. Eu estava lá no centro de Guarulhos andando e, de repente, eu avistei uma placa: “Precisa de balconista com experiência”, e eu fui lá. Eu falei com a gerente, a Sílvia, e ela olhou para mim nos meus olhos e disse: “Você tem experiência?” Eu disse assim: “Não, eu não tenho experiência, mas eu quero trabalhar”. Ela disse: “Gostei de você, você vai ficar; não sei, mas gostei de você”. Aí comecei a trabalhar de balconista, de vendedora de retalhos, de tecidos. [A loja] chamava Retalhão dos Tecidos, e ali foi uma experiência muito legal, porque eu consegui bastante clientes ali, clientes fiéis, que chegavam e queriam ser atendidos pela Nildete. E até teve um pouquinho de ciúmes das outras vendedoras, que diziam: “Ai, ela está tomando a minha área” (risos). Mas eu acho que tem espaço para todas as pessoas que querem e têm coragem de trabalhar. Dessa vez eu fiquei ali trabalhando e foi muito legal, muito gostoso. Uma boa experiência. Lá no Retalhão, eu aprendi sobre o atendimento ao cliente: que quando o cliente chegava para procurar uma coisa, a gente tinha que ter a percepção do que realmente ele estava procurando. Porque nem todos os clientes... Quando eles querem uma coisa, muitas vezes eles nem sabem o que querem, eles necessitam da gente para entender a necessidade deles. Porque muitas vezes eu tirava todos os tecidos das prateleiras e jogava tudo no balcão para a cliente levar e, muitas vezes, ela falava: “Olha eu vou levar, é esse mesmo que eu quero”. E muitas vezes ela falava: “Não é isso, mas você me deu uma idéia”. E a gente tinha aquele joguinho de cintura que a gente tem com cliente, de ter a percepção do que fica bem, dar idéias legais – porque às vezes você quer fazer um vestido e não sabe muito ainda de que cor – então a gente tinha que ter essa percepção. E a gente não fez curso; lá foi coisa assim, na prática mesmo, e foi muito legal. Trabalhei lá um ano e dois meses. Eu saí do emprego [para casar], pedi as contas. A minha gerente ficou muito triste, ela falou: “Puxa Nildete, a gente gosta tanto de você, você vai fazer tanta falta”. Tanto que ela foi até no meu casamento.

Namoro e Casamento
Aí vem outra história. Nós fomos criados com aquela criação bem familiar e bem tradicional. Eu nunca tinha tido namorado nem nada. Eu ia à igreja e lá eu conheci um rapaz que se interessou por mim, a gente andou trocando umas figurinhas e ele queria casar. Mas eu era uma pessoa muito imatura nesse sentido, porque naquela época a minha mãe não sentava com a gente para dizer sobre a parte sentimental, dar orientações. Isso era um tabu. E a gente acabou passando por umas conseqüências disso aí também. Quando eu conheci esse rapaz, ele queria casar logo porque “Ah, é uma menina de família, não é para ficar namorando muito tempo”. Aí ele falou com meu pai, aquela coisa toda tradicional. Pediu minha mão em casamento. Para ter uma idéia, ele não falou em namoro, falou que gostou da filha e já logo em seguida queria casar. Aí, sabe aquela pessoa que... eu aceitei, mas na realidade eu não me entendia. Eu não queria aceitar, mas fui levada a aceitar aquilo. Não forçada, mas por imaturidade. Então eu resolvi, aceitei e ele logo em seguida falou: “Você não vai precisar trabalhar, deixa o serviço porque mulher minha eu não quero trabalhando”. Eu tinha 18 anos. Eu me casei e deixei o emprego, porque eu tinha muito na minha mente que a mulher tinha que ser muito submissa – não que hoje eu não tenha [isso] em mente, porque a mulher não tem que ser submissa, mas tem aí um equilíbrio. Aí eu teria que aceitar tudo o que ele falasse. E então eu aceitei isso, saí do emprego e me casei. Eu fiquei casada sete anos. Tenho uma piadinha, que o casamento dura sete anos, depois vem a crise (risos). Não passei da crise dos sete anos. Eu nunca imaginei isso, nunca pensei, mas eu acho que essas coisas são bobagens e acontecem. Porque na realidade não termina nos sete, termina antes. E depois, quando a gente vai ver, já está nos sete. Eu nunca imaginava que fosse acontecer isso [a separação]. Por ter um pensamento de tradição, ninguém da minha família havia se separado antes, eu seria a primeira. Foi muito difícil. Para você ter uma idéia, quando eu me separei, fiquei uma semana sem contar para ninguém. Só eu e meu filho sofremos, eu não queria falar com a minha mãe porque ela ia tomar um susto. Meus pais, minhas irmãs... foi muito difícil, eu até queria voltar na época, naqueles dias, para poder fugir desse sofrimento: “Se eu volto, fica tudo normal”. E isso não aconteceu. Meu filho estava sofrendo, eu via, porque não é fácil um filho se separar do pai. Como mãe, estava sendo muito difícil para mim, muito difícil mesmo, mas eu fiquei naquela situação. Eu estava num lugar e o aluguel não tinha sido pago naquele mês, e não tinha nada para comer em casa.

Ingresso na Natura
A Natura entrou na minha vida num momento de crises, emocional e financeira. Porque eu tinha saído de uma separação e meu filho tinha 5 anos. A gente foi abandonado. Eu fui abandonada pelo marido, e meu filho, abandonado pelo pai. Então não tinha nada para comer em casa. Na realidade, em casa tinha as paredes e uma cama para dormir. Quando aconteceu isso eu fiquei muito abalada emocionalmente, e meu filho também. Muita gente passa por essa dificuldade. Uma mulher que passa por um divórcio sabe a dificuldade que é isso, assimilar essas coisas de separação. E aí eu me vi naquela situação tão difícil. Uma amiga minha – ela não trabalhava com a Natura, mas ela já usava Natura, comprava de uma outra pessoa – disse para mim assim: “Nildete, por que você não vende Natura? Por que não entra na Natura, para ser vendedora, uma consultora?” E eu nem sabia o que era Natura. Para você ter uma idéia, quando eu estava grávida do meu filho, eu nunca imaginei que existisse um creme preventivo de estrias, um hidratante, eu nem sabia o que era Natura. Ela me deu uma idéia, me passou uma Vitrine, eu olhei e achei muito esquisito. Porque os preços estavam além do que eu imaginava. Eu falei: “Quando que alguém vai comprar um desodorante de R$17,70?” Aquela coisa, não é o R$17,70, mas eu comecei a pensar e falei: “Eu vou à luta, porque a gente precisa ter coragem”.

Trajetória Profissional na Natura
Aí eu comecei, eu me lembro que a minha primeira venda foi quando eu fui na quitanda comprar meia dúzia de bananas para o meu filho, com um dinheirinho que eu tinha. Entrou um cliente da quitanda e brincou comigo: “Olha os cabelos dela, que cachinhos legais” Eu disse assim para ele: “Olha, eu sou consultora Natura, dá uma olhadinha na Vitrine”. Que eu aprendi que a gente nunca deve dizer “Não quer comprar?”, o “não” nunca deve existir. E ele disse: “Traz o refil do Rarus”. Que era o Rarus naquela época [perfume masculino], e eu não sabia o que era refil, porque eu tinha pegado a Vitrine com minha amiga. Quando a gente passa pela promotora, a gente faz uns cursos de vendas, preparatórios, alguns cursos básicos. E quando ele falou isso para mim, falou em inglês. [Ele não falou] enrolado, mas eu não entendi. Só que eu não disse que não entendi, eu falei: “Está bom, eu trago para você”. E já imaginei: “Eu vou ligar para a promotora da Natura”, porque na realidade eu não tinha nem passado pela promotora ainda, eu tinha ligado para a Natura no telefone 0800 da Vitrine. Eles tinham entrado em contato com a promotora para uma visita e para fazer o meu cadastro. E aí eu pensei: “Depois eu ligo para Natura e pergunto sobre o refil do Rarus, então depois eu descubro”. Mas ele perguntou o preço: “Quanto vai ficar, você pode trazer dois para mim, quanto vai ficar?” Aí eu disse: “Olha, na realidade eu comecei a vender Natura hoje, mas você pode ficar tranqüilo”. Ele disse: “Nossa, mas já está bem assim?” Então a gente procurou juntos, eu e ele, na Vitrine que na época não tinha preço, tinha a tabelinha. E foi difícil encontrar – não encontramos na realidade, mas ele disse: “Olha, eu vou ser seu cliente e você pode trazer, porque eu tenho uma média [de quanto deve custar], deve estar de 11 a 12 reais. Então você pode trazer dois, não tem problema”. E lá fui eu. Quando cheguei em casa, olhei a tabela de cima a baixo, e descobri o Rarus. Eu fiquei com uma vergonha do cliente, “só comigo mesmo, puxa vida”. Nisso, já fui fazendo a relação de pedidos, esperando a promotora chegar em casa. Aí a promotora veio logo, acho que no outro dia. Ela se chamava Elisabeth, não sei se ela está hoje como promotora ainda. Ela me atendeu bem, eu fiquei com vergonha, porque quando ela chegou em casa não tinha nem uma cadeira para sentar. A gente sentava no chão e ficava assim num quartinho, era um quarto e cozinha. Eu falei com ela, – muito simpática, muito legal – ela fez o meu cadastro e falou que ia ter a aprovação da Natura. Passou umas dicas para mim, da Vitrine, da tabela. Eu falei das dificuldades, mas mesmo assim não reclamei delas. Porque eu não tinha feito o curso básico ainda. Eu tinha sido aprovada, e fui atrás do cliente, de porta em porta, para ir pegando pedidos. E o cliente sempre pergunta assim: “Quando vai chegar?” Então eu dizia: “Olha, assim que chegar – me dá seu telefone – eu já ligo para você, já venho aqui e já digo para você, dentro de uma semana já está aqui o produto”. Quando recebi a primeira caixa de produtos, senti curiosidade. Curiosidade de ver como era o produto, de ler as informações que tinham nas caixinhas, nas embalagens dos produtos. Muito legal isso. Fiquei emocionada, mas eu já começava a pensar assim: naquele produto, eu já teria as informações para falar para outros clientes. Afinal, por menor que ela fosse, seria meu conhecimento. Foi uma emoção grande, muito grande mesmo. E aí chegou minha primeira caixa com os produtos. A Natura libera 200 pontos de início, então eu já tinha pedidos a mais, e com aquela pontuação o que eu fiz? Eu tinha que pagar o aluguel, porque eu já tinha recebido uma carta de despejo, então fui lá, conversei com o dono, expliquei para ele, mostrei a Vitrine da Natura para ele e falei: “Olha, o senhor pode olhar e já escolher algum produto também, porque é muito bom”. E ele falou: “Olha, Nildete, eu não vou pegar, mas pela sua coragem, você pode ficar tranqüila, eu te dou uns dois, três meses para você acertar, pode ficar tranqüila”. Eu já saí com um sorrisão no rosto. E fui batalhar com a primeira caixa, tinha que trabalhar, então na primeira caixa eu peguei a comissão, paguei a fatura para poder liberar a pontuação e poder pegar outros pedidos que eu já tinha feito. Então fiquei imaginando, pela experiência que eu tive de emprego: “Numa empresa eu trabalho geralmente oito horas, então, por que trabalhando com a Natura eu não posso fazer oito horas?” Sendo que nessas oito horas eu posso ter intervalo de um café, de um suco, e numa empresa muitas vezes eu não posso sair para isso. Eu posso me sentar, e muitas vezes, trabalhando – como eu trabalhei de balconista, eu não podia sentar, por exemplo. Então eu fui batalhando assim um horário fixo, e uma coisa que eu sempre coloquei na minha mente é que um “não” não dói. Então quando um cliente dizia “não, eu não quero”, eu andava e recebia outro “não”, mas quando eu recebia um “sim”, eu esquecia todos os “nãos” que eu tinha recebido, isso foi muito legal. Nesse momento [inicial] eu fazia esse trabalho a pé, andava muito mesmo; eu tinha conseguido uma creche para o meu filho e ia a pé levar ele. Era um pouquinho longe, mas eu levava a pé e, nesse espaço de tempo, eu já vinha andando, da escolinha dele, da creche, já passando nos lugares. E como a região onde eu estava era um comércio – onde eu estou até hoje – eu ia abordando, de porta em porta, cliente por cliente; se eu visse uma padaria, eu já contava quantos funcionários tinha aquela padaria, que eu não queria deixar escapar nenhum para conhecer a consultoria Natura, que a Natura tinha as novidades. De 96 para 97 eu tive a idéia de trabalhar de bicicleta. Na minha infância o meu tio tinha bicicletaria, ele arrumava aquelas bicicletas velhas. Então tinha umas bicicletas velhas e a gente aprendeu, eu aprendi a andar de bicicleta com meus primos. A gente corria muito de bicicleta no meio da terra, subida, descida. Como o prezinho do meu filho era longe e quando eu levava, – eu sempre tive uma coisa assim, que eu acho muito importante: tempo é dinheiro – a gente não pode perder tempo, a gente tem que ocupar o tempo da gente com algo que dê crescimento. Eu levava ele para a creche e depois ao prezinho. Na volta eu ia abordando os clientes. A sacola começou a ficar muito pesada. Porque eram muitos produtos e, às vezes, eu ficava pensando em problemas de coluna, essas coisas, que se podia ter mais adiante. Foi então que eu pensei numa bicicleta. Comecei a pensar, mas eu falei dessa minha idéia para as pessoas e elas falavam assim: “Mas faz tanto tempo que você não anda de bicicleta”. Minha mãe, minhas irmãs disseram que fazia tanto tempo [que eu não andava]... Aí eu fiz uma experiência: peguei uma bicicleta de uma amiga minha e, quando eu segurei no guidão da bicicleta, comecei a tremer. Mas eu sou meio teimosa, eu falei: “Eu vou conseguir, eu vou conseguir”. E fui andando, depois de um tempo eu vi que já tinha voltado a me relacionar com a bicicleta. Eu tive essa idéia, então eu comecei a batalhar, trabalhando. Então eu consegui uma comissão e, depois que eu consegui pagar o aluguel que estava atrasado, consegui colocar umas compras em casa – que a gente estava precisando – e comprei a bicicleta. E ainda consegui uma promoção, fui atrás de promoção, onde estava mais em conta. Comprei aquela bicicletinha assim, a mais barata que tinha. Ainda as pessoas diziam assim: “Ah, mas para você que trabalha muito tem que ter marcha”. Eu falava: “Não, não importa a marcha não, vai assim mesmo”.

Família
Eu levava meu filho e colocava ele no quadro da bicicleta, e falava: “Filho, segura bem aqui no guidão, segura bem”. E ele: “‘Vamo’ lá mãe, ‘vamo’ lá”. E a gente ia de bicicleta, eu deixava ele no prezinho e na volta eu já vinha trazendo – que eu pegava as sacolinhas e pendurava no guidão, onde a gente segurava assim – e ia entregando. O Israel, meu filho, andou tanto no quadro [da bicicleta] que virou esse relacionamento de muitos anos no quadro da bicicleta, e até hoje, quando eu tenho que sair ou a gente vai à praia, eu falo: “Filho, senta na garupa”. Ele fala: “Não mãe, deixa eu sentar no quadro da bicicleta” (risos). Então é muito legal. Na época de frio a gente colocava aquelas toucas, encapuzava tudo e falava: “Vamos lá” Interessante que quando estava muito frio – porque era muito cedo, ele entrava às sete horas – a gente saía de casa antes, e muitas vezes saía até bem antes, porque eu tinha que passar no cliente. Ele falava assim: “Mãe, a senhora fica com os braços assim na bicicleta, para ficar bem quentinho” (risos). Porque o vento, quando a gente descia uma ladeira, vinha aquele vento e ele falava: “Mãe, encosta bem assim, para ficar quentinho”.

Trajetória Profissional na Natura
Só que sempre na entrega surgem mais pedidos. Quando a gente está entregando a gente sempre tem um cliente, uma cliente que vai apresentando outra: “Minha amiga também quer aquele produto gostoso”. Aí eu comprei uma garupa para a bicicleta e coloquei. Era difícil, não era o que eu gostava, eu queria uma coisa mais chique até, mas eu peguei uma caixa mesmo – daquelas caixas que vêm da Natura – e coloquei atrás, amarrei com uma cordinha por baixo e coloquei os produtos, e deixava só para entregar. E já voltava vazia. Coloquei um cestinho na frente em que eu colocava meu mostruário e tal, e assim foi indo. As pessoas já me conheciam como “Nildete, a menina da Natura de bicicleta”. Quando eu passava falavam “Olha a bicicleta”. Então muitas clientes falavam assim nos comércios: “A menina da Natura, da bicicleta”, “A menina da Natura, que vende de bicicleta”. Quando eu passava, já gritavam: “Ei Ei da Natura Ei da Natura”

Mudanças e Aprendizados mais significativos
É gostoso o carinho que os clientes sempre tiveram. Eu digo, porque até hoje eu faço o trabalho de bicicleta. Eu quero deixar claro que eu não fiz isso só por necessidade, eu uni o útil ao agradável. Porque eu sempre gostei do que eu faço, mas assim, muito gostoso... e eu fico tão feliz de pensar na minha história. É como quando a gente acerta numa coisa que a gente nunca imaginou. Apareceu aquela porta e a gente entrou. Lá se abriram muitas portas, muitas portas para dar certo, então foi muito legal.

Trajetória Profissional na Natura
Hoje eu trabalho com pronta entrega e tenho um grupo de revendedoras minhas. Com essas revendedoras – que eu amo muito e que fazem parte da minha vida – a gente trabalha dando cursinhos básicos também. A gente faz promoções, de vez em quando um jantarzinho, é um relacionamento muito gostoso. Eu sou a mini-promotora (risos). São 15 revendedoras, umas vendem mais, outras [menos]. Eu tenho uma revendedora que hoje fala: “Nil, se você conseguiu, eu vou conseguir também”. Então hoje ela trabalha só com a Natura, está trabalhando comigo. E tem algumas revendedoras minhas que perderam o emprego e vieram. Eram clientes e falaram para mim, tristes porque tinham perdido o emprego. E eu dei a idéia – assim como me deram, eu dei a idéia para elas. Hoje trabalham comigo.

Relacionamentos Natura
Já fui à Fábrica, várias vezes. Em Cajamar é maravilhosa a Fábrica, é muito linda, mas tem um pontinho lá que me chamou muito a atenção – que me fez ver o pensamento do construtor que elaborou isso – que são as pontes, que vão de um prédio até o outro. É muito legal isso Elas são cobertas e tudo. Então o que eu vejo na Natura: a Natura se preocupa muito com o bem-estar, o “bem estar bem”, então é isso que motiva mais ainda a gente a crescer junto. E tem outras coisas na Fábrica que são... Por exemplo, tem uma amiga minha que trabalha lá. Ela ficou grávida, tem berçário. Tem academia para os funcionários... E isso é muito legal, tem alguém pensando na gente.

Linhas e Produtos Natura
Sempre vendi mais os perfumes, colônias e desodorantes no início. Até porque eu não tinha muita informação ainda, então eram os que [eu] mais vendia. Era uma coisa mais fácil porque eu tinha mostruário. Hoje eu vendo muito fotoequilíbrio. O que eu mais gosto de usar é batom. Acho que em primeiro lugar... Não digo primeiro, mas eu durmo de batom. Eu falo para as minhas clientes: “Eu durmo de batom”, e elas dizem: “Por que você dorme de batom”? Eu até brinco: “porque se um dia eu partir para o céu eu vou já estar bonita”. Acho que a pessoa fica no caixão assim sabe... Às vezes aquele semblante apagado, aí eu fico imaginando um batonzinho ali, um lápis nos olhos, uma sombrinha delicada, uma coisinha ali delicada, aquelas bochechinhas com blush... Poxa vida, eu não tive essa oportunidade ainda, mas é um sonho que eu tenho. Minha mãe ainda brinca assim: “Ah, minha filha, quando eu for você me maquia”. Eu falo: “Não mãe, a senhora não, eu não vou conseguir”. Mas é um sonho que eu tenho. E principalmente se for uma senhora de idade. Porque eu faço parte da igreja, então eu já dei umas dicas de maquiagem, do que a gente aprende na Natura, para umas mulheres da terceira idade. Então eu peguei algumas mulheres, senhoras da terceira idade para maquiar, e é gostoso. Quando você vê uma pessoa assim, de 60, 70, 80 anos e você pode fazer alguma coisa nela. Sabe, é um bem-estar, não é para a pessoa que está sendo maquiada – acho que é também –, mas é para mim, é presente. Batom é demais, mas do protetor solar eu não abro mão, porque como eu trabalho de bicicleta – por exemplo, agora no verão, muito sol, antes de sair para rua eu aplico o meu protetor solar, nos braços; no rosto, a proteção e o hidratante – é muito importante o hidratante corporal, o óleo de banho, que é uma sensação maravilhosa.

Dicas e Estratégias de Vendas
Acho que meus clientes são meio a meio, são homens e mulheres. Hoje, por exemplo, eu trabalho, muitas vezes eu vou de bicicleta visitar um cliente e eu já levo meu kit de pele, Chronos, Faces, Acnes. A gente faz uma demonstração e atinge tanto mulheres como homens. Eu gosto muito de informação, então muitos clientes me procuram no site sobre produtos, sobre novos lançamentos, sobre pele, sobre maquiagem... É uma coisa gostosa e também legal, porque a gente faz alguns cursos básicos de maquiagem e eu sempre me ofereço em casamentos para maquiar o pessoal da noiva, do noivo; o pessoal dos grupos me convida e eu vou com muito prazer fazer isso, atingindo assim uma clientela mista. Vendo muito Fotoequilíbrio, que é a linha de proteção solar. O gostoso de trabalhar com essa linha é porque eu não me interesso muito só na venda do produto, mas o meu interesse é de ter esse cliente fiel. É também no bem-estar desse cliente. Então quando abro uma cliente nova, por exemplo, eu sempre procuro entender um pouco dessa cliente, da pele dela, do trabalho dela. É sempre uma preocupação que eu tenho, muito grande, se essa cliente – principalmente se ela trabalha na rua, no sol, no carro, se ela dirige muito e pega sol – tem uma proteção, se ela está usando um produto com proteção solar. Então eu sempre indico isso, e o interessante é que, hoje em dia, as pessoas têm medo de usar um produto no rosto, muitas vezes por não ser adequado para [sua] pele. Muitas vezes uma cliente me procura porque ela viu o Chronos na revista ou viu uma amiga que usou Chronos – que é um produto para [pessoas com] mais de 30 anos, um produto para sinais – e essa cliente, quando eu percebo que ela está insegura, eu digo: “Você não vai comprar sem antes eu aplicar na sua pele”. Então eu tenho um kit de todos os produtos da linha. Eu faço uma demonstração para essa cliente e ela vai sentir, [ver] como ela se sente [em relação ao produto], e eu falo: “Depois você compra, não precisa levar agora”. E ela diz assim: “Mas e se eu quiser levar agora?”, e eu: “Você pode até levar, mas o que eu quero é que você use, eu faço a demonstração em você primeiro para que sinta segurança do que está comprando”. E assim eu consegui muitas clientes do Chronos e da [linha] Fotoequilíbrio também. Eu sempre fico relacionando épocas, épocas de praia, de verão, então esse é o momento que a gente faz um estoque a mais de proteção solar. E sempre abordando o cliente. Às vezes aquela cliente, no final de semana, vai para a praia, mas nem pensou no protetor solar, aí você lembra. Então eu falo, a gente senta, conversa e... “Ai que legal, você vai para a praia, que gostoso Já comprou o protetor solar?” E ela diz: “Poxa vida, eu me esqueci”. E então eu falo para ela do protetor solar que a Natura tem, que hoje em dia tem até concorrência, mas é um produto que eu mostro que tem uma proteção comprovada – porque eu costumo usar os produtos – aqueles produtos que são ideais para que eu possa usar, sempre uso. E posso falar para o cliente, porque quando a gente usa, passa mais segurança para o cliente. Vou contar uma historinha de uma venda. Hoje eu estou namorando, e eu conheci o meu namorado quando eu estava passando de bicicleta na rua. E era quando eu estava com o desafio de comprar o apartamento, então eu trabalhei bastante. Então já eram umas oito horas da noite e eu estava passando de bicicleta em frente de uma firma, e tinha um barzinho. Então tinha um cliente meu na porta e eu disse: “Oi” – a gente se cumprimenta assim de longe, dá um olá, de bicicleta [mesmo] – e ele: “Oi, tudo bem Nildete? Olha a menina da bicicleta”. Então eu falei, “Oi” E ele: “Oi, pára aí, pára aí”. Eu já ando assim no guidão, com a mão no freio, porque sempre quando eu estou passando eu pego o pedido dos clientes assim: “Traz um refil para mim”; “Ah, eu quero alguma coisa para presente” Aí eu já paro a bicicleta, e vou até o cliente e a gente cumprimenta. E sempre, antes de entrar na venda, eu acho que é legal a gente perguntar como que está. E contar alguma coisa. “Ah, não vi você esses dias por aqui”, e eu: “É, porque eu estava na região tal, estava fazendo um curso da Natura”. Então é legal isso, porque a gente tem um relacionamento de amizade muito grande. Acho que a gente passa a ser útil [na vida deles] e eles também na vida da gente. Voltando ao assunto, aí eu estava passando em frente ao barzinho, na rua, de bicicleta, e [andando] bem rápido, porque estava para cair uma chuva. E eu lá com o meu bauzinho fechado – não entra chuva, não esquenta. Antes é que era uma caixa, hoje eu tenho um bauzinho de moto que eu adaptei na bicicleta. Foi um cliente que me deu a idéia. E no Dia das Crianças ele me deu um baú meio usado. Agora eu comprei um baú novinho, bonitinho, coloquei lá o adesivinho da Natura, é legalzinho, com chave... Quando eu paro para atender uma cliente no escritório, eu deixo a bicicleta e sempre eles me arrumam um lugarzinho: “Deixa sua bicicleta aqui para ninguém levar” – porque já me levaram uma, uma vez. Mas aí eu comprei outra. Eu pego esse bauzinho, ele tem uma chave, eu tiro ele da bicicleta e levo na mão, ele vira uma maleta. Lá eu abro o baú e atendo a cliente. Aí voltando ao assunto, eu passei, falei para o cliente – porque coisa que os clientes ficam muito bravos se a gente passar e não dar um “oi”, e eu acho isso muito legal. Eu ando de bicicleta olhando para a frente, a gente sempre tem que estar atento, mas um “oi”, um “olá” a gente vai dando, eu cumprimento com a mão, é muito importante. Eles se sentem bem. Esse carinho gostoso. E aí ele disse assim: “Pára aí, pára aí que eu já tenho um cliente para você, um amigo meu”. Ele me apresentou esse amigo. Então o amigo dele disse assim: “Eu já tenho o produto”. Aí ele falou: “Olha, o João da empresa aqui do lado é um cliente para você”. E aí eu [o] cumprimentei, me apresentei e tal. Eu sempre acho assim, uma oportunidade a gente não pode perder; então peguei a chave, abri o bauzinho da bicicleta e já fui mostrando os produtos para ele. Comecei a conversar com ele, e ele falou que morava na chácara. Então, “ligou” legal. Aí eu falei: “Que legal Muito sol, né? (risos)” Aí ele disse: “É muito sol mesmo” Aí eu disse assim: “Você usa protetor solar?” E ele falou: “Não, eu nunca me liguei com isso, sabe?” “Mas é tão importante, tão importante, você pode consultar um dermatologista, que ele vai dizer. As manchas do sol nunca aparecem assim de imediato, só aparecem depois de oito, dez anos. É tão importante isso; pode causar câncer de pele”. “Sabe que você me convenceu? Eu vou levar para minha velha porque ela toma muito sol, cuida dos cachorros, dos gatos e tal”. E comprou um protetor solar. Quando foi no outro dia, como é caminho da minha casa – e eu estava de bicicleta novamente – parei para saber se a mãe tinha gostado e ele falou assim: “Ah, ela ficou muito feliz e acho que vai ser legal mesmo”. Eu já procurei fazer outra venda para ele, aí passei para o hidratante corporal, eu disse para ele: “Muitos homens hoje em dia; a maioria, já se cuida mais. Sempre é gostoso a gente tomar banho, passar um hidratante no corpo. É muito gostoso, é uma sensação de lavar a alma. É muito bom passar um creminho nos pés e tal”. Sempre eu tenho um hidratante de demonstração – as pessoas, quando usam o hidratante da Natura (aquela linha Tododia, por exemplo), a sensação é muito gostosa, tem uma fragrância muito gostosa, é o diferencial. [Passei o hidratante nele] e ele falou: “Poxa, que gostoso” E ele comprou o hidratante. Na outra semana ele já me ligou porque a filha dele ia fazer aniversário e ele queria dar um presente. Aí eu montei uma cestinha, um bauzinho todo montadinho. Porque era uma das coisas que eu não sabia que sabia fazer. Mas hoje eu monto cestas Faço toda a decoração de cestas, de bauzinhos – na época de Dia das Mães eu faço cestas, no Natal eu já faço bauzinhos, porque os clientes que já compraram não teriam a mesma coisa. Então eu sempre faço diferente, compro bonequinhas, coloco junto na cesta, fica aquela coisa legal. Saio carregando na bicicleta e levo. Quando não dá para carregar muito, um bauzinho e uma cesta que é maiorzinha, eu levo uma, só como demonstração. Então cada cliente tem assim: “Minha mulher tem tal idade”, ou “Meu marido gosta de creme de barbear”. Então eu volto em casa, faço todos os bauzinhos com o nome dos clientes, já sabendo a necessidade. Bordo a toalhinha... Quando é aniversário de casamento, aquela coisa toda, fica muito legal. E o cliente virou namorado. E hoje a gente está namorando e ele continua cliente. Na realidade, hoje ele me ajuda. Porque é o seguinte: quando eu estou na rua, de bicicleta, e vai cair uma chuva, ele me liga e fala: “Você está onde? Eu vou te buscar”. Ele coloca a bicicleta no carro, joga lá (risos). E os amigos dele passaram a consumir também. A mãe dele tinha umas manchas, tinha a pele muito desgastada, hoje ela está com a pelinha tão gostosa, parece pele de bebê Eu faço promoções. Agora no Dia da Mulher, de 2005 – eu sempre tive dificuldade de vender presente para o Dia da Mulher, porque na realidade a mídia não faz uma propaganda assim, “presente para o Dia da Mulher”, não tem essa idéia formada – e para mim foi uma coisa nova, para você ver como a gente cresce. A gente vai crescendo, vai passando fases, vai crescendo e sempre melhorando... E quando foi agora em 2005, no Dia da Mulher... Eu uso o sabonete líquido da linha Tododia e sempre, no banheiro – a gente tem uma vida corrida, a gente precisa tomar banho e respirar fundo, deixar a água cair, é gostoso isso. E aí eu, olhando na embalagem da linha Tododia, diz lá: “Todo dia viver cada minuto como se fosse... viver cada minuto intensamente”. E cada produto da linha Tododia tem uma frase muito gostosa: “todo dia tomar banho e lavar a alma”. E no Dia da Mulher agora eu fiquei pensando sobre a mulher, que nós mulheres temos uma coisa muito linda que Deus deu para cada uma: essa força, essa coragem. Algumas vezes, como diz no Retrato de Mulher: “Muitas vezes frágil, mas muitas vezes age com a braveza de um leão”. E eu fiquei imaginando o papel que tem a mulher na vida de um homem; seja ela esposa, seja muitas vezes uma amiga, uma irmã, uma mãe. E eu fiz o desafio, que os meus clientes homens, pessoas, mesmo aqueles que não eram clientes, eles iam se decidir a comprar presentes para levar para uma mulher especial na vida deles, e eu fiquei imaginando: “Todo homem tem uma mulher especial”. Então eu fui abordando clientes. Eu estava de bicicleta. No dia oito [de março], acordei cedo já com esse desafio e fui para as ruas, passando nos postos de gasolina, nos comércios e visitando os meus clientes também. Foi um dia super corrido, porque eu fui abordando e quando eu chegava, falava: “Oi, tudo bem? Eu sou consultora Natura, e hoje é Dia Internacional da Mulher”. A gente sempre chega assim, bem espontâneo, e eles diziam assim: “Parabéns” Tinha uns que falavam assim: “Nem me lembro, hoje é dia da mulher? Puxa vida, hoje eu saí de casa e nem lembrei, quando eu chegar em casa vou ser frito”. Comecei a dizer para eles: “Olha, a Natura criou uma linha muito legal, chama linha Tododia, e essa linha é especial para todos os dias, mas principalmente para hoje – hoje porque você vai chegar em casa, vai dar um beijo na sua esposa, ou vai dar um abraço numa amiga, numa irmã, na mãe, numa pessoa especial, seja uma colega de trabalho – e dar os parabéns. Eu sei que o beijo, o carinho é o mais importante, mas vai selar esse compromisso com um presente Tododia”. E aí eu coloquei um cartãozinho junto, coloquei numa embalagem bonita do Crer para Ver, tinha aquele adesivo e um cartãozinho junto, e nesse cartãozinho – tem muitos homens que não sabem [o que] escrever, tem uns clientes têm vergonha, não sabem o que escrever para pessoa que [para quem] está dando o presente – e eu dizia para eles: “Você pode colocar uma mensagem”. E eles: “Mas que mensagem?” Eu falava: “Você pode colocar assim: ‘Parabéns pelo dia da mulher. Todo dia é dia da mulher, mas hoje é um dia especial porque é comemorado em todo o mundo’”. Então eles ficavam felizes, muitos até pediam: “Já escreve para mim”. E eu: “Então você assina embaixo”. Então foi legal porque eu abri muitos clientes nesse dia oito, clientes novos, por onde eu passava. Eu vendia para um, deixava meu cartãozinho, e já me ligava e dizia: “Você tem mais um?” Só que eles ficavam preocupados, porque eles pensavam assim: “Mas tem que ser para hoje”, e eu dizia: “Mas é para já, eu pego minha bicicleta e estou aí em dez minutos. Às vezes eu estava levando para um cliente e, quando um cliente me abordava onde eu já tinha passado, parava e ele dizia: “Fulano quer também”, “Traz um para fulano porque ele quer também”. Então eu passava às vezes e falava: “Olha, só um instantinho”. Ás vezes entregava aquele que eu estava levando, voltava e já pegava mais. Eu deixava os pacotinhos feitos, pacotinhos de presente, [por exemplo,] de um hidratante mais um sabonete. Também só de um sabonete, porque tem aquele cliente que quer dar uma lembrancinha mais simples – apesar de eu dizer sempre para eles que Natura não é um presente simples, é um presente especial Porque um sabonete é muito... quem usa o sabonete sabe. Eu, por exemplo: em épocas assim, eu dou de presente um sabonete para os meus amigos, coloco num celofane. E até um dia desses um casal brincou comigo: “Nildete, mas você é esperta, né? Você dá um sabonete de presente só para a gente ficar com vontade de comprar mais”. Mas eu disse assim: “Não, é com todo carinho”. Ela disse assim: “Traz um sabonete daquele vai, pode trazer um sabonete, porque depois que eu usei esse sabonete não dá para usar outro, a gente viciou agora” (risos). E realmente, eu digo assim, com toda verdade mesmo, experiência própria, quem usa um sabonete da Natura, um hidratante, o aroma, uma fragrância muito gostosa...

Gente bonita de verdade
Ah Eu acho que cada pessoa tem uma beleza particular, mas a beleza mesmo vem de dentro para fora. Mas eu sempre digo para as minhas clientes que todo mundo tem uma beleza. Essa beleza precisa ser aperfeiçoada no exterior. Ajuda muito [dar] um toque. E a beleza da mulher brasileira? Eu acho que o Brasil tem muita coisa a ser descoberta ainda, então há muita coisa do Brasil que torna essa mulher assim, essa beleza brasileira. A característica [da mulher, que a torna diferente] é o amor.

As mudanças e aprendizados mais significativos
O que mudou [na auto-estima]? Tudo Assim, tudo de bom (risos) Eu não sei se eu posso dar um exemplo, mas... Sabe um tatu, quando ele vive na toca e [ele] deixa de ser ‘tatu’? (risos) E ele vê o sol brilhar, sabe? Deixei de ser tatu, pronto, é isso. Sobre minha visão de mundo, eu tenho uma coisa muito clara para mim e eu digo isso para as pessoas: que quem crê, crê com firmeza, faz com que a mente trabalhe, imaginando meios de como fazer. Vitória Sobre conquistas, eu digo que depende de nós.

Conceitos e Visão Natura
Quando aprendi o que era refil, achei o máximo Li na embalagem que a Natura foi a primeira empresa a fabricar refis, então eu me senti... “Puxa, que legal isso” E o sentido disso também. Eu sempre, até hoje, desde o início, comecei a explicar para o cliente que o refil – porque a Natura criou o refil para o meio ambiente, para proteger melhor o meio ambiente – e eu dizia assim: “Estamos pensando em vocês também, no bolso de vocês”. Porque é um dinheiro a menos, é mais em conta e isso é muito bom. Eu até brinco com eles: “Vocês pensam que não, mas um real e vinte centavos, dois reais, já dá um cafezinho, então é legal”. Eu sempre procuro saber as coisas novas que surgem, o que a gente pode melhorar; o atendimento, principalmente. O que a gente pode melhorar para contribuir com educação – a Natura está com um projeto aí sobre educação muito bom, o projeto escola – inclusive uma das minhas revendedoras não teve [oportunidades], ela estudou só até a terceira série. Eu falei para ela e ela já está elaborando para estar nesse projeto. Então é muito legal isso, sobre o projeto, parceria, tanto que a Fundação Abrinq também está esse projeto, o Crer para Ver, que é uma coisa pensando na educação. Isso é muito importante. E meu plano é pensando o que eu posso ajudar, o que eu posso ser útil e melhorar meu trabalho a cada dia.

Auto-retrato
Ah, é difícil falar da gente, de qualidades e defeitos. Acho que uma das qualidades que eu tenho [é que] eu não trabalho pensando só no dinheiro, no retorno financeiro, mas porque eu gosto do que eu faço. Eu trabalho pensando que eu posso ser útil para alguém, é isso.

A entrevista
Resgatei algumas coisas. É uma experiência muito legal [participar da entrevista] porque a gente vê muitos momentos da vida da gente. E quando a gente está sentindo uma dor, parece que não tem ninguém perto da gente, mas quando a gente sente que também, [nesses] momentos difíceis, de conquistas, alguém está participando disso junto com a gente, está valorizando isso, é muito gratificante. É como [se] tudo contribuísse para o bem daqueles que têm amor no coração. Obrigada.

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