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História

Negro, pobre e homossexual

História de: Mateus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Esta é a história de Mateus, nome fictício, que sempre viveu envolto em um contexto de preconceito: tanto em casa, onde sofria com a incompreensão do pai por ser homossexual, como na escola e na rua, onde à sua orientação sexual somava-se o fato de ser negro e pobre. Aos 13 anos vestiu-se de mulher pela primeira vez, tempos depois foi expulso de casa e precisou prostituir-se para conseguir se manter. Daí para a drogas foi um caminho curto– maconha, cocaína, crack. E a barra pesou: foi espancado por seis homens, ficou nove dias em coma, dois meses no hospital. Aí apareceu o projeto Vira Vida, que foi como uma luz no fim do túnel para Mateus. Sua vida mudou. Para melhor. Reatou a relação com a mãe: “Ela não tinha mais expectativa em mim, porque eu era uma pessoa que não queria saber de nada. Agora estou estudando, pegando firme e voltando a ser quem eu realmente deveria ter sido”.

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História completa

Na minha vida, sempre sofri muito com o preconceito, mesmo dentro de casa. Em casa, por ser homossexual. Na escola e na rua, por ser negro, pobre e, também, pela minha homossexualidade. Estudar sempre foi um sonho pra mim! Apesar do preconceito que sofria, gostava da escola, porque tinha amigos. Minha casa sempre foi de muita briga, porque meu pai achava que homossexualidade não existia. “É safadeza”, ele dizia. Então, foi muito difícil! Durante anos, levei a minha vida de forma muito errada. Só parei pra pensar na vida e no meu futuro quando fui espancado quase até a morte por seis homens. Dois meses no hospital me fizeram pensar numa mudança radical em minha vida. Mas o que era a minha vida? Com 13 anos, me vesti de mulher pela primeira vez. Quando cheguei em casa um dia, no final da noite, meu pai me deu uma surra e me botou pra fora de casa. Ele falou assim: “Se quer ser veado, tu pode ser, mas debaixo do meu teto não!” Minha mãe não queria que eu fosse embora, só que naquele momento ela ficou do lado do meu pai e eu fui. Saí de casa levando a roupa da minha mãe. Era o que eu tinha no corpo: um sapatinho no pé, uma bolsa, uma coberta e raiva, muita raiva, raiva a ponto de querer bater na primeira pessoa que encontrasse. Queria bater em alguém até matar! Porque eu achava que não podia ter sido tratado daquele jeito. A minha homossexualidade não era um problema, era uma opção minha.

 

Sem saber para onde ir, procurei uma amiga travesti que eu admirava. Ela morava no interior de São Paulo. Liguei pra ela, contei o que estava acontecendo e ela me chamou para ir pra sua casa. Peguei carona em três caminhões para chegar até a sua cidade. Tive que pagar com favores sexuais. Tive que fazer sexo oral, sexo anal... Me senti um lixo, mas foi o jeito, não tinha dinheiro não tinha nada. Quando cheguei, fui viver na casa de um travesti “cafetino¹”. Por quatro anos vivi ali. Para me manter, passei a me prostituir, eu e outras 14 companheiras de ofício. Vivíamos na mesma casa. Dormíamos em beliches, trocando a noite pelo dia e eu me drogando. No início foi muito difícil, mas não vou mentir, porque depois eu passei a gostar daquela situação. Conheci muita gente, fiz muita coisa, aprendi muita coisa, ganhei muito dinheiro. Todo dia tinha que ir pra rua fazer 30 reais pra pagar a casa, com direito ao almoço. Sabia que tinha que ganhar os 30 e mais o dinheiro da janta.

 

O dono da casa era transexual operado e bem louco mesmo! Mas por um tempo foi divertido viver ali. Era obcecado pela ideia de ter minha própria casa, de onde ninguém poderia me expulsar. Trabalhei duro e nunca caí no conto do “cafetino”, que dizia para eu colocar silicone industrial e contrair dívida com ele. Essa dívida não fiz, mas, para aguentar a dureza do trabalho nas ruas, acabei viciado em drogas e devendo para os traficantes. Os clientes paravam, perguntavam o preço, sempre tentavam negociar, queriam mais barato. Às vezes, a gente saía porque estava precisando, às vezes não. Entrava no carro do desconhecido e ia, como se fôssemos dois melhores amigos, namorados. O preço era 20 reais pelo sexo oral e 50 por um programa de uma hora. Naquela época, não tinha medo. Pra mim era supernatural, porque estava iludida pelo dinheiro. Quando a gente é nova, 13, 14 anos, todo mundo quer. Depois, vira carne de vaca. Teve noite de eu fazer 16 programas. Porque a vida da prostituição é lucrativa, mas é muito prejudicial também. É muita droga, cliente pagando pra você se drogar... E aí você se ilude, se droga porque é o que tem na hora. Você acha isso normal, mas não é.

 

Comecei a fumar maconha com 15 anos, quando ainda não bebia. Da maconha fui pra cocaína. Fiquei um bom tempo na cocaína. Mas chegou um momento em que a cocaína não fazia mais efeito. Aí veio o crack, o grande vilão da história, porque fiz coisas de que até Deus duvida. Pelo crack, a gente se dá por qualquer preço, quaisquer 5 reais já são lucro. Roubei coisas da minha casa, vendi coisas minhas, fiquei devendo pra traficante, quase morri. Foi bem difícil. Conseguir drogas nunca foi problema: toda casa de cafetina tem alguém que abastece. Todo dia tem droga, porque as travestis têm que se drogar pra conseguir fazer o que fazem. A gente não precisava buscar, eles traziam. E quando você não queria, eles insistiam, diziam: “Depois você me paga.” E aí você afunda cada vez mais. É difícil tirar a roupa pra uma pessoa que você nunca viu, uma pessoa que você não sabe de onde vem, que pode fazer qualquer coisa com você. Eu só vivia pra isso. Chegava às 5 da manhã em casa e saía às 5 da tarde. Quase não comia. Lembro do medo que a droga me provocava. Tinha medo de tudo, aquilo me paralisava, me impedia de trabalhar.

 

Tudo começou a mudar depois que fui violentamente espancada por seis homens quando voltava de um programa. Me deixaram cicatrizes no corpo e na alma. Fiz duas cirurgias no cérebro, fiquei nove dias em coma, dois meses no hospital numa cadeira de rodas. Foi horrível! Foi aí que vi que tudo aquilo não existia, era uma ilusão. O que você ganha, gasta com maquiagem, roupa, droga... Então parei, tinha que parar. Deus me deu uma nova chance e eu pretendo fazer a coisa certa daqui pra frente. Minha mãe, quando soube do que tinha acontecido comigo, largou o emprego pra ficar cuidando de mim. Acho que, de tão arrependida que ficou por deixar meu pai me expulsar de casa, ela se separou do meu pai e me acolheu novamente.

 

Aí apareceu o Vira Vida, que foi a luz no final do túnel pra mim. Tenho duas amigas que fazem curso aqui no Vira Vida, são também travestis. Trabalhávamos juntas na rua, quase na mesma esquina. Quando souberam o que aconteceu comigo, falaram: “Ô bicha, por que você não vai no SESI conhecer o projeto Vira Vida?” Eu falei: “Estudar e ainda receber uma bolsa de 400 reais, onde é isso?” Eu não acreditei. Até que um dia minha mãe pediu e eu liguei pro SESI. No começo, estava assustado, porque é aquela velha questão: “veado” e escola, né? Eu falei: “Meu Deus, vou ter que pegar ônibus todo dia.” Eu não andava de ônibus, não! Pensei: “Como é que eu vou fazer? Será que o povo vai gostar de mim? Vai ter professor chato?” Mas aí cheguei, vi que não era nada daquilo. Eu não faltei nenhum dia até hoje. Eu participo de todas as atividades do Vira Vida. Gosto muito da “roda comunitária”. É assim: você conta o seu problema e no final você fala: “O grupo me apoia?” e o grupo responde: “Nós lhe apoiamos, Mateus.” É bem legal, porque todo mundo fala dos seus problemas, mas o que se fala ali, fica ali. O problema que eu contei foi a surra homofóbica que sofri. Eu achei que os outros iam achar graça, que iam rir de mim, mas todo mundo se sensibilizou. “Por que fizeram isso com você, por quê?” Foi bom compartilhar isso. A dor não é tão grande quando você compartilha. Dói, mas não dói tanto. Hoje eu já sinto que alguma mudança aconteceu comigo. Eu sou uma pessoa muito melhor, mais alegre. Porque eu era uma pessoa que dormia até 2 da tarde, acordava de novo, comia alguma coisa e deitava de novo. Às 5, 6 horas da tarde eu me arrumava e ia para a rua. Agora é totalmente diferente. Eu estudo aqui o dia inteiro, saio e vou para casa. Eu como alguma coisa bem rápido, faço uma coisa aqui e ali e já saio para a escola à noite. Eu sou superpopular, tanto na escola do Vira Vida, quanto no curso que faço à noite. Eu estou gostando de tudo o que está acontecendo comigo. Sei que perdi a minha juventude. Se tivesse como voltar no tempo, eu nunca teria ido embora da minha cidade, nunca teria virado travesti. Eu seria homossexual, não travesti. Eu nunca teria entrado nas drogas, nem teria parado de estudar, porque, quando a gente é nova, está na essência, no pique de estudar. E agora eu estou com um pouquinho de dificuldades, mas vou chegar lá. A minha mãe tem muito orgulho de mim, nem sei como explicar. Ela não tinha mais expectativa em mim, porque eu era drogada, travesti, uma pessoa que não queria saber de nada. Agora estou estudando, pegando firme e voltando a ser quem eu realmente deveria ter sido.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a identidade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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