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História

Negócio de família

História de: Almir Romão Damásio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

A família de Almir vem de São João da Madeira, cidade portuguesa famosa pela fabricação de chapéus. Seu tio-avô fundou a Chapelaria Porto no Rio de Janeiro em 1880. O negócio passou para seu pai e quando Almir se aposentou, assumiu o negócio, que existe até hoje.  

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História completa

P/2 – Bom dia, seu Almir.

 

R – Bom dia.

 

P/2 – A gente está aqui hoje fazendo a entrevista com o senhor Almir Romão Damásio, da Chapelaria Porto, pra constar no projeto Memórias do Comércio do Rio de Janeiro, projeto patrocinado pelo SESC e realizado pelo Museu da Pessoa.

Seu Almir, pra começo de conversa, o senhor pode nos dizer seu nome completo, a história do seu nome, local e data do seu nascimento e nome dos seus pais, só pra gente poder começar.

 

R – Meu nome [é] Almir Romão Damásio. Data de nascimento, 29 de janeiro de 1940. O nome dos meus pais, Moisés Romão Damásio e Almira Emília de Araújo Damásio.   

 

P/2 – Seus pais vem de onde? Eles nasceram onde, como é que...?

 

R – Eles nasceram em São João da Madeira, na… Uma cidade perto de Porto, em Portugal. Era a cidade do chapéu, lá era onde existia todas as fábricas de chapéus da época.

 

P/2 – E por que ele resolveu vir para o Brasil, seu pai?

R – Meu pai veio mais por causa da necessidade financeira. Na época, minha avó já tinha 23 filhos. Como o mais velho, ele estava com mais ou menos doze anos de idade, quando veio para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar aqui. Ele veio trabalhar aqui e depois em 1927 ele… O meu avô... Meu tio-avô ofereceu a loja para o meu pai e ele começou a trabalhar nessa loja, até a data de 1993.

 

P/2 – Ele trabalhava como chapeleiro?

 

R – Como chapeleiro.

 

P/2 – E como ele conheceu a sua mãe?

 

R – Ele conheceu já na… Eles moravam perto. Minha avó tinha um armazém e  meu pai fazia as compras lá nesse armazém. E conheceu ali, que era um bairro… Ficam perto da… Mesmo bairro, né? Ele veio pra casa e começou a namorar a minha mãe; disse que quando voltasse, ele voltaria pra casar com ela. Voltou e casou. Fez a festa em Portugal e tudo o mais e trouxe minha mãe aqui, pro Rio de Janeiro.

 

P/2 – Quanto tempo levou isso, entre ele vir pro Brasil e voltar pra casar com ela?

 

R – Eu não tenho a data certa, mas...

 

P/2 – Mais ou menos quantos anos?

 

R – Mais ou menos uns seis, oito anos.

 

P/2 – Seis, oito anos?

 

R – É.

 

P/2 – Seu Almir, você morava onde com os seus pais?

 

R – O meu pai, quando veio pra cá, morou ali na Travessa das Pastilhas - é um bairro atrás da Central do Brasil -, depois ele mudou pra Ladeira do Barroso. Eu nasci na Ladeira do Barroso, 58, em 1940. Nessa época, ele já estava morando lá, na época da guerra.

 

P/1 – Ladeira do Barroso é ali perto do Morro da Conceição, da Providência?

 

R – No Morro da Providência.

 

P/2 – Quais são as recordações que você tem da infância, da sua vida ali, da sua casa de infância?

 

R – Ali eu vivi… Na época, aquele bairro era muito bom. Meu pai gostava dali porque ficava perto da loja, não precisava pegar transporte nem nada. Ele ficou ali nessa... Eu vivi por ali até 1954. Já estava com quatorze anos quando nós mudamos para a Rua Ibituruna, 66. Nessa época, os meus irmãos já estavam maiores, adolescentes e começaram a querer sair dali, querer ir para um bairro… Queriam até ir pra Copacabana, mas meu pai não aceitou e acabou comprando [uma casa] ali na Rua Ibituruna.  

 

P/1 – Preferiu ir pra Tijuca?

 

R – Tijuca, é.

 

P/2 – O senhor lembra como era a sua infância ali? Os amigos, as brincadeiras, esse tipo de coisa.

 

R – Minha vida foi uma criação normal. Brinquei muito, soltava pipa, jogava bola de gude, brinquei de pique, aquelas coisas todas ali… Foi uma infância normal, eu jogando bola ali o tempo todo. Até os quatorze anos brinquei muito.

 

P/2 – Até os quatorze. Nos quatorze anos, o que aconteceu?

R – Eu fui pra [Rua] Ibituruna e já comecei a trabalhar.

 

P/2 – Começou a trabalhar onde, exatamente?

 

R – Comecei na (Machem Eles?) Publicidade S/A. Foi [com] uns quinze, dezessseis anos, já fui pra (Machem?). Ali eu fiquei até depois do Exército, até 60… Servi o Exército em 59 e fiquei… Depois, em 60, eu saí do Exército e continuei trabalhar até 62.

Quando eu saí dali eu fui pra Casa Peixoto, na [Rua] Marechal Floriano. É uma camisaria, trabalhava como balconista. E depois fui… Em 65, mais ou menos, fui trabalhar na Jota Mota Irmãos. [Em] 66 eu comprei um bar, Café e Bar Ponta do Leste - hoje é o bar 95 da Rua Pereira Nunes. Trabalhamos um ano e cinco meses, mais ou menos. Aí meu pai queria ir pra Portugal e minha mãe disse que enquanto eu estivesse no bar, ela não sairia daqui.

 

P/2 – Mas por quê?

 

R – Porque ela ficava preocupada comigo dentro do bar, achava que o bar era um lugar muito perigoso. Mas trabalhei ali [por] um ano e seis meses e nunca houve nada, não.

 

P/1 – Era ali no Andaraí, [a Rua] Pereira Nunes?

 

R – Não, Pereira Nunes é Tijuca.

 

P/1 – Tijuca mesmo.

 

R – É, ali perto do shopping.

 

P/1 – Sei.

 

R – Quando eu sai dali, o meu irmão arranjou pra eu trabalhar no Banco Central, contratado pela Conservadora Fluminense. Lá eu trabalhei de 67 até 93. Em 93 [foi] quando eu assumi a loja. Está fazendo hoje dez anos que eu assumi a loja.  

 

P/1 – Hoje? Nossa, então é um aniversário mesmo.

 

R – Ele fechou a loja em maio de 93. Em junho, comecei a negociar e comprar… Meu pai me deu a parte dele e eu negociei com o meu tio a parte do meu tio. Os dois eram sócios.

 

P/1 – Entendi. Deixa eu perguntar uma coisa para o senhor. O senhor começou a trabalhar cedo, com quatorze anos. O senhor estava estudando, o senhor começou também...

 

R – Trabalhava e estudava. Passei a estudar à noite.

 

P/1 – O senhor chegou a estudar quando morava ali na Ladeira do Barroso, quer dizer, entrar na escola?

 

R – Ali eu estudei na escola pública. Escola República da Colômbia, na Rua Camerino.

 

P/1 – Ali na Rua Camerino, entre o Morro da Providência e Conceição?

 

R – É. Depois é que eu passei, fui pra o Colégio Luther King na Praça da Bandeira. Ali eu fiz o comercial.

 

P/1 – Aí o senhor já estava morando na [Rua] Ibituruna?

 

R – Já estava morando na Ibituruna.

 

P/2 – E quais as suas lembranças na época de escola? O que ficou mais marcado desse tempo?

 

R – Não tem muita coisa marcada não, porque estudei normalmente já dedicando… Eu estava com quinze anos, já comecei a namorar, e tinha aquela ambição de ter a primeira namorada. Ela também, e eu conservando aquela namorada pra poder casar. Pra evitar de passar na mão de outros.

 

P/1 – Sei.

 

R – Aí vim conservando desde cedo. Nisso, levei dez anos pra casar. Eu era muito garoto ainda, estava com quinze anos.

 

P/2 – O senhor ficou dez anos namorando?

 

R – Namorando. Entre namoro e noivado foram dez anos, vim conservando aquilo até casar.

 

P/2 – Certo.

 

P/1 – Para isso, o senhor já estava preocupado nessa questão de caminho profissional.  

 

R – Eu me dediquei mais ao trabalho. Procurando trabalhar ao máximo pra poder casar, porque a ordem do meu pai [era]: “Quer casar, pode casar, mas você tem que se manter.” Com tudo que ele tinha, ele só queria que eu casasse tendo estrutura pra poder manter o casamento.   

 

P/2 – Tendo em vista todos estes fatores, escola, trabalho, o senhor já visando um casamento, então sobrou pouco tempo pra juventude, vamos dizer assim.

 

R – Não, frequentei bailes, ia pra associação Ramos Clube, ia pro Senac, ia pro Sesc, pro baile aos sábados. Minha vida foi muito boa, assim como se diz, de boemia foi muito boa também. Sábado e domingo sempre tinha festa, todo sábado e todo domingo...

 

P/2 – E como é que era essa… Perdão...

 

R – E até hoje ainda continua também, frequento as escolas de samba, terceira idade, e até hoje continuo com as festas [aos] sábados e domingos.

 

P/1 – E como era essa boemia na década de 50, 60?

 

R – Nessa época, era uma coisa muito boa. As festas eram muito boas, decentes. Não tinha aquela farra como tem hoje, como aparece na televisão, essas coisas todas. Você ia ao baile e respeitava a moça; dançava com a moça, tudo direitinho, não tinha dessas coisas como tem hoje. Hoje, nas escolas de samba também. Nas festas de velha guarda e festa de terceira idade, o respeito é mútuo, não tem bagunça, não.

 

P/2 – O senhor era frequentador da Lapa ou não, nem tanto?

 

R – Não, não cheguei a frequentar Lapa nem gafieira, essas coisas não frequentei.  

 

P/2 – Não fazia muito o gênero do senhor?

 

R – Não, só bailes sociais e familiares.

 

P/1 – O senhor se lembra mais ou menos como as pessoas se vestiam, se era muito diferente de hoje [a] pessoa que saía pra ir numa festa, num baile?

 

R – Não, é diferente. Nós só íamos ao baile de terno.

 

P/1 – Terno?

 

R – É. Ia bem vestido, só andava de terno, tudo direitinho. Hoje você vai a um baile de calça jeans e camisa, mas na época só ia de terno.

 

P/1 – Só ia de terno?

 

R – Terno e gravata.

 

P/2 – Voltando um pouco no que o senhor falou, o senhor disse que com quinze anos foi trabalhar na (Machenson?), que era [uma] empresa de publicidade. Como o senhor chega à empresa? Como o senhor… O senhor foi indicado?  

 

R – Eu fui indicado por um outro colega que eu tinha. Nós éramos muito amigos, inclusive de baile, de tudo. Até namorar, quando eu namorava a minha esposa hoje, ele namorava a irmã dela, depois acabou e foi pra outro lado. Mas ele namorava a irmã dele também… A irmã da minha esposa.

 

P/2 – Ele já trabalhava lá?

 

R – Ele já trabalhava lá e me indicou. Tenha uma vaga e ele me indicou pra lá.

 

P/2 – Nesse período que o senhor trabalhou na (Machenson?) teve uma fase que o senhor foi servir o Exército...

 

R – Fui servir o Exército.

 

P/2 – E como foi? O senhor teve que… Pediu demissão, voltou?

 

R – Não, eu apresentei a carta, eles me deram a licença pra ir pro Exército. Eu fui pro Exército em janeiro e saí em dezembro.

 

P/1 – Um ano, né?

 

R – Foi no… Eu tava com 29 anos… 19 anos quando fui pra lá. Fui em 1959, fui em primeiro de janeiro e saí em doze de dezembro.

 

P/1 – O senhor serviu onde, aqui no Rio de Janeiro mesmo?

 

R – No Deodoro, Regimento Escolar de Artilharia. Eu era treinador ré e depois, quando na re-manobra, era motorista do comandante.

 

P/2 – O senhor se lembra, fora isso, que tipo de treinamento tinha, quer dizer, o que que o senhor fazia além dessa coisa?

 

R – Eu geralmente fazia esses treinamentos e íamos pra Gericinó, pro quilômetro 47. Em tiros, eu só dei nove tiros.

 

P/1 – Só nove?

 

R – Nove tiros. Foram cinco reais, no estande de tiro lá de Deodoro e quatro de festim, dentro do quartel mesmo.

 

P/2 – Aí o senhor serve o Exército, volta e continua trabalhando...

 

R – Continuo trabalhando no arquivo da empresa. Trabalhei mais dois anos, depois saí de lá e fui trabalhar na Casa Peixoto.

 

P/2 – Por indicação também ou...

 

R – Por indicação do meu pai, era amigo do meu pai.

 

P/2 – Essa Casa Peixoto lidava com o quê, exatamente?

 

R – Camisaria.

 

P/2 – Camisaria.

 

P/1 – Na Rua Marechal Floriano?

 

R – Marechal Floriano.

 

P/2 – Certo. E o Banco Central, como o senhor começou a trabalhar lá?

 

R – Ali foi por causa do… Depois que eu fui pro… Eu estava no bar, trabalhando. Era dono do bar, estava lá há um ano e seis meses, mas minha mãe tinha muita preocupação comigo no bar, tinha medo, então ela começou… Meu pai queria ir pra Portugal e ela disse que só iria se eu saísse do bar. Meu irmão arranjou, na época, pra eu entrar como contratado da Conservadora Fluminense, pra trabalhar no Banco Central. E eu trabalhei 25 anos lá dentro, à noite.  

 

P/2 – Trabalhando com o que, exatamente?

 

R – Era fiscal de limpeza e trabalhei na secretaria. Fazia a relação… Na época, quem fazia a relação de cheques sem fundo era o Banco Central, e eu fazia parte do grupo que trabalhava com essa relação. E correspondências também, que… Tudo o que fazia parte da secretaria eu participava.

 

P/1 – O senhor trabalhava nessa parte da conservadora, que era fiscal de limpeza, mais...

 

R – Era contratado pela conservadora.

 

P/1 – Mas também nessa coisa bancária.

 

R – É, fazia parte. Bancária e depois me passaram pra fiscal de limpeza. Eu fiscalizava toda a limpeza do prédio.

 

P/1 – Que era feita de noite, quando não tinha mais ninguém trabalhando.

 

P/2 – Como o senhor começa a se envolver com a chapelaria, propriamente dita?

 

R – Eu me envolvi na época, em… Foi em 68. Como eu estava com o dia vago, nessa época, passei a trabalhar na chapelaria durante o dia. Meu pai me levou pra lá e eu comecei a trabalhar com ele em… 68. Mas na parte… Nessa época de… Dos oito anos até doze, quinze anos, mais ou menos, várias vezes eu passei meses dentro da chapelaria trabalhando; eu era muito arteiro, então meu castigo era esse, ficar dentro da loja.

Por outro lado eu gostava porque toda semana, quando chegava no final de semana, meu pai chegava perto de mim: “Toma seu dinheiro que, você trabalhou bem. Essa semana você trabalhou pior, você vai trabalhar menos.” E sempre me manteve ali, na linha.  

 

P/2 – Ou seja, era um castigo, mas nem tanto, porque...

 

R – Chegava no final de semana sempre tinha um trocado pras minhas farras.  

 

P/1 – Nessa época, estava com dez, onze anos. Que tipo de coisas o senhor fazia na chapelaria quando ia lá?

 

R – Eu procurava limpar as prateleiras, ia escovar os chapéus que estavam nas prateleiras, aguardando que o freguês chegasse. Eu fazia... Ia até o banco pagar alguma coisa, conta de luz ou uma fatura, qualquer coisa. E fazia algum recado que tivesse necessidade.  

 

P/1 – O seu pai, desde que chegou, já se envolveu direto com esse ramo de negócio? Nunca teve outro?

R – Não. Desde que ele começou a trabalhar em Portugal, ele já trabalhava nas fábricas, lá de Portugal, de chapéu. Quando ele veio pra cá, ele já veio formado, com uma profissão.  

 

P/1 – E ele já tinha essa formação?

 

R – Quando veio pra cá, ele veio trabalhar na J. Almeida, ali na Rua do Ouvidor, que tinha uma fábrica grande. Ele dizia que o chapéu, naquela época, era um bom chapéu. Que o dono da fábrica, ele passava, tinha aquelas... As bancadas, e quando o dono da fábrica passava, ele virava um chapéu, enchia de água e ia embora. O funcionário não poderia mexer no chapéu. No dia seguinte, se ele voltasse e estivesse molhado por fora, ele lhe dava um tapa.

 

P/1 – Um tapa?

 

R – Dava um tapa porque estava vazando o chapéu pelo… Naquela época, os empregados apanhavam, [ele] dava um tapa nas pessoas.

 

P/1 – Nossa.

 

P/2 – É mesmo?

 

P/1 – Quer dizer, o seu pai então veio, foi trabalhar nessa chapelaria...

 

R – Nessa… Ele trabalhou nessa até 1927, quando meu tio o chamou e ofereceu a loja.

 

P/2 – O tio dele, seu tio-avô.

 

R – Meu tio-avô. Ele aceitou e dali em diante começou a trabalhar por conta própria.

 

P/1 – Mas ele já estava no Brasil...

R – Ele já estava no Brasil há alguns anos.

 

P/1 – Há alguns anos e trabalhando no mesmo ramo, mas num outro lugar.

 

R – Num outro lugar.

 

P/2 – Seu tio-avô foi quem fundou então a Chapelaria Porto, propriamente dita.

 

R – Foi. Ele inaugurou a Chapelaria Porto em 1880 e trabalhou de 1880 até 1927. Meu pai, quando assumiu, em 1927, trabalhou até 1993, quando o prédio foi interditado. Ele se virou pra mim e disse: “Olha, eu agora já estou com 85 anos e não vou mais trabalhar. É muita burrice eu abrir uma loja agora, então agora vou ficar em casa e [de] agora em diante você continua. Fica com a minha parte e negocia a parte do seu tio com ele.” Negociei a parte do meu tio e continuei, agora sozinho na loja.

 

P/1 – Seu Almir, uma pergunta: muitas vezes, as pessoas vem já pra trabalhar com parente que está aqui no Brasil. No caso do seu pai, embora ele tenha trabalhado no mesmo ramo, ele não trabalhou logo que chegou com o tio-avô dele...

 

R – Não, não.

 

P/1 – Por que, o senhor sabe por que não foi assim, direto?

 

R – Não porque na época, na loja do meu tio não havia um… Não tinha… Era uma loja pequena, trabalhava ele e um empregado só.

 

P/1 – Entendi.

 

R – E ele já veio indicado pra trabalhar nessa fábrica.

 

P/1 – Já veio indicado. Ele tinha, o senhor disse que era 23 irmãos. Desses 23, muitos vieram também pro Brasil?

 

R – Vieram e fizeram... Abriram diversas lojas, do mesmo ramo.

 

P/1 – Chapéus.

 

R – Em outros lugares. Na [Rua] Sacadura Cabral, ali na Central, também tinha outro que tinha, mas esses fecharam, já. Meu pai sempre dizia que a loja dele seria uma das últimas lojas do Rio de Janeiro. E está sendo, hoje não tem mais nenhuma que faz o serviço que nós fazemos.

 

P/1 – Por que será que essas dos outros irmãos dele acabaram não indo muito pra frente?

 

R – Não, foram pra frente.

 

P/1 – Foram pra frente?

 

R – Mas depois, com a extinção, eles foram… Um estava com a tinturaria também e o outro está com a... Também fez a camisaria. O forte era mais camisaria do que chapéu, e ele se interessou mais em ter a camisaria.

 

P/2 –? O que o senhor acha que marca o final do interesse das pessoas por chapéu? O que que marca o final das chapelarias, vamos dizer assim?  

 

R – Até 70, mais ou menos, quando começou o real, nós tínhamos muitos fregueses bons e aposentados. Os aposentados, na época, eles iam ao banco receber o pagamento e compravam um, dois chapéus, passavam satisfeitos. Depois passaram a comprar um chapéu, depois um boné. Depois chegavam a dizer: “Olha, minha aposentadoria hoje não dá nem pra comprar um boné”.

 

P/1 – Nossa.

 

R – E foi isso que foi… A dificuldade toda dos chapéus hoje é a dificuldade do dinheiro que os aposentados e das pessoas antigas têm. A aposentadoria vem caindo, e caiu mesmo. Quem ganhava seis, sete salários, passou a ganhar dois, três, então não tem condição de coisa… A desvalorização da moeda também foi muito grande.   

 

P/1 – Mas por que o senhor acha que… O senhor falou, então dá a entender, basicamente, que o pessoal aposentado, mais antigo, era o público desse mercado de chapéus. Por que o senhor acha que de repente o público jovem não se interessou por essa peça de vestuário? Por que o senhor acha que essa peça do vestuário foi...

 

R – Interessa, mas hoje em dia o jovem está mais… Eles, hoje, usam boné. Mas não é aquilo que era antigamente, mais devido à situação financeira. A dificuldade de comprar um chapéu hoje é maior do que… Nem todos têm dinheiro pra comprar um chapéu, pela dificuldade que está hoje.  

 

P/1 – A peça de vestuário então, na sua opinião, foi vencida pelas dificuldades.

 

R – Você vê que o terno também, hoje… A pessoa bota uma calça jeans, um tênis no pé e não quer saber de outra coisa, por que fica muito mais barato do que um terno. Pra conservar um terno e andar com um terno num…  Você anda uma, duas semanas com a calça jeans. [Com] um terno você não pode fazer mais isso. Ia usar o terno, gravata com… Você hoje que muitos já têm dificuldade de usar. Até quem tem necessidade mesmo de usar, tem dificuldade hoje.  

 

P/2 – Quer perguntar alguma coisa, Carlos?

 

P/1 – Uma pergunta: vários familiares seus vieram também de Portugal, se estabeleceram aqui no Rio. Todos eles moraram naquela área da Central do Brasil, Conceição, Camerino?

 

R – Vieram ali e foram pra outros lados também.  

 

P/1 – O senhor convivia com eles quando era criança, os primos?

 

R – Convivia. Tinha tios que moravam em Santa Tereza, tinha outros que moraram em Pilares e em diversos bairros.

 

P/1 – E essa coisa de ser próximo ao cais, do porto? O senhor, na escola, tinha colegas que eram filhos de gente que trabalhava no porto? O senhor se lembra?

 

R – Eu tenho, tinha alguns estivadores que moravam ali por perto também, e os colegas todos eram naquela… Ali naquela redondeza, Camerino, Ladeira do Barroso, Ladeira do Faria. E era um bairro muito bom, ali a Travessa das Pastilhas também era um bairro bom, na época.

 

P/2 – E como o perfil desses bairros começa a mudar, o senhor tem... Quando é que isso começa a acontecer, começa a haver...?

 

R – Aquilo mudou na época que fizeram aquela rodoviária, ali embaixo... Começaram a demolir aquilo e começou a juntar muito vagabundo por ali. Ali na Central do Brasil era um bairro também, era o centro da cidade… São Cristóvão também era um bairro muito bom, familiar, e era uma coisa muito… Depois é que, com aquela rodoviária, aquele negócio todo, veio juntando aquela turma toda por ali, que piorou tudo.     

 

P/2 – Certo.

 

R – E aquela favela que fizeram no morro, que na época não existia morro ali.

P/1 – Não?

 

R – Não, não. Existia do outro lado a favela do Cruzeiro, lá em cima, mas era uma favela que eu entrava e saía. Hoje eu não subo nem a ladeira, mas naquela época entrava de um lado, saía de outro e não tinha perigo nenhum. Era uma favela pacífica, uma favela boa.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor subia pela Ladeira do Barroso?

 

R – Subia a Ladeira do Barroso toda, subia aquela escadinha que tinha lá. O meu irmão ia rezar missa naquela capela do compadre. Ele era sacristão e ia muitas vezes àquela favela. Ia rezar missa lá em cima com o padre.

 

P/2 – E o senhor costumava muito frequentar ali, nesse tempo também? O senhor ia exatamente com que objetivo, o senhor ia lá...?

 

R – Não frequentava muito lá em cima, não. Eu ia assim… Eu brincava ali [pelo] morro todo, entrava por um lado, saia pelo outro. Ia pra escola, ali do lado do túnel, descia por ali, pela coisa. A minha professora particular - eu estudava de manhã na escola pública e à tarde na dona Dionísia - era lá em cima, no pé da escada do morro.   

 

P/1 – Você estudava nessa escola particular, além da escola pública?

 

R – Estudava.

 

P/1 – Pra reforçar?

 

R – Pra reforçar os estudos.

 

P/2 – E com que idade isso, mais ou menos?

 

R – Foi até os doze anos mais ou menos.

 

P/1 – Doze anos, aí com uns quatorze o senhor começa a trabalhar. Seu Almir, o que mudou? O que o senhor marca como principal mudança no trabalho do chapeleiro, no trabalho das chapelarias, ao longo do tempo?

 

R – Que o chapéu… O que mudou foi as máquinas, a evolução da coisa. Hoje em dia, pra fazer um chapéu, é tudo na máquina; na época do meu pai era tudo à mão, os chapéus era todos feitos à mão. Agora é que… Na época do meu pai, na época de Getúlio pra cá, já vieram criando as máquinas e fazendo. Mas a anterior, quando ele começou, era tudo à mão.

 

P/2 – Bem artesanal?  

 

R – É, tudo artesanal.

 

P/2 – Como é a relação entre o dono da chapelaria - o seu pai, no caso - e as pessoas que trabalhavam? Era essa coisa meio de patrão-empregado ou era mais tipo um professor ensinando, passando um ofício?  

 

R – Ali, havia.

 

P/2 – Havia esta coisa da transmissão do ofício, como era?

 

R – Todos os empregados… Aquela loja ali chegou a ter dezesseis empregados, e todos eles entraram quase garotos. Entraram garotos e saíram aposentados, velhos, com casa. Todos eles tiveram casa, com os filhos casados, já avós.

 

P/2 – Quer dizer, era um clima bem familiar.

 

R – Bem familiar, e todos eles ganhavam. Não tinha… Além do ordenado, eles tinham a participação deles do trabalho.

 

P/2 – Hoje em dia, quem é que compra chapéus, especificamente?  

 

R – Hoje em dia é mais teatro, cinema, televisão e escola de samba, maçom, a parte judia e eventos que eles fazem, negócio de… Coisas simples, mas... Bares também, tem as garçonetes que botam o boné. E um ou outro tipo de festinha, usam o boné também.   

 

P/2 – Certo.

 

P/1 – Esse nome do senhor, Damásio, o senhor sabe de onde é a origem dele, se é um nome mesmo daquelas cidades...?

 

R – Não, vem das cidades, mas é um nome meio antigo já.

 

P/1 – Nome antigo?

 

R – Já vem de séculos atrás.

 

P/1 – Séculos atrás? E o senhor ainda tem muitos parentes em Portugal, em São João da Madeira?

 

R - Em Portugal, tem.

 

P/1 – Quer dizer, dos vários irmãos e irmãs que seu pai teve, muita gente ficou também?

 

R – Sim. Agora eu...Tem primos, já tios já tem poucos. Da parte da minha mãe foram 23 e da parte do meu pai foram 24 irmãos.

 

P/1 – Nossa. Somando tudo, são 47 irmãos e irmãs, tios e primos. É muita gente.

 

R – E desses saíam os primos, mas eu não conheço todos os primos que eu tenho em Portugal, não.

 

P/1 – O senhor já esteve lá?

 

R – Já estive uma vez. Foi na… Em 49, com nove anos de idade, nós ficamos dois anos. Na época, o meu pai foi com cinco filhos que já tinha. Sou eu e mais quatro irmãos, duas mulheres e três homens. Fomos os cinco pra lá, com o meu pai e minha mãe; foram sete pessoas.

 

P/1 – O seu pai já estava há muitos anos à frente da chapelaria?

 

R – Sim. Nós fomos no navio Serpa Pinto.

 

P/1 – Serpa Pinto.

 

R – Esse navio quando foi pra lá, nos levou, na volta pegou fogo.

 

P/1 – Ah, é? Nossa!

 

R – Era um navio de guerra na época. Foi a última viagem que ele fez. E nós ficamos lá dois anos porque meu pai tinha um terreno e fez a casa mais alta do lugar. Subsolo, loja e dois andares pra cima.

 

P/1 – Era a mais alta pra cima?

 

R – A casa mais alta do lugar, na época. Enquanto não ficou pronta, ele não saiu, porque dizia que os portugueses, quando chegavam lá, chegavam cheio de pompa e quando chegava no meio do caminho, botava o pé no caminho e vinha embora, porque não tinha dinheiro pra sustentar a pompa que...então enquanto não terminou a loja, o prédio, ele não saiu de lá. Inaugurou, alugou e veio embora.

 

P/1 – Nossa.

 

R – E nós ficamos dois anos lá.

 

P/1 – E nesse tempo lá o senhor estudou na escola lá?

 

R – Estudei lá na escola.

 

P/1 – Quer dizer, ele construiu o prédio mais alto de São João da Madeira?

 

R – De São João da Madeira, na época.

 

P/1 – Mas ele tinha intenção de se estabelecer lá ou não? Só queria terminar, né?

 

R – Não. Só foi lá e teve orgulho de fazer aquele prédio, deixar o prédio mais alto do local, na época.

 

P/1 – Pra mostrar pras pessoas que tinha sido bem-sucedido, talvez. Interessante. E nesse tempo, quem ficou aqui tocando a...

 

R – O meu tio, que veio na época que eu nasci. Eu estava com oito dias de nascido quando ele veio pra cá.

 

P/1 – Irmão do seu pai?

 

R – Irmão da minha mãe.

 

P/1 – Da sua mãe.

 

R – Sim, ele veio pra cá e meu pai deu a sociedade a ele. Quando ele acabou a loja, ele disse: “Vou terminar”... Acertar com o meu tio a parte dele.

 

P/1 – Ah, foi esse o tio que o senhor citou. Então o seu pai estava lá, cuidando dessa coisa da construção...

 

R – E o meu tio administrando aqui.

 

P/1 – E ele construiu lá com loja, pra alugar mesmo?

 

R – É, é um prédio com duas lojas, uma de cada lado, um subsolo e dois andares pra cima.

 

P/1 – O senhor sabe hoje que tipo de ocupação tem nesse prédio?

 

R – Não sei, não.

 

P/1 – Não tem nada a ver com chapéu?

 

R – Não, é outra.

 

P/1 – E nessa cidade em Portugal ainda continua essa atividade relacionada a chapéu, um pouco, pelo menos?

 

R – Até Portugal também decaiu muito o.... Negócio de chapéu. As fábricas e tudo modificaram.

 

P/2 – O senhor tem alguma lembrança de alguma campanha publicitária, algum produto, alguma vitrine, alguma loja que chamava atenção do senhor nessa época?  Alguma coisa que ficou marcada?

 

R – Sobre chapéu?

 

P/2 – Não, de um modo geral, uma loja.

 

R – Ah, tinha, aquele... No bonde tinha diversas propaganda do Gumex. Como é? “Gumex, dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex.” E outras mais que eu não estou lembrado no momento, a propaganda.

 

P/1 – Tinha a Casa Matias.

 

R – Tinha a Casa Matias. Eu comprei muita coisa na Casa Matias com minha mãe. E nessa época, no sabonete Eucalol vinha umas figurinhas...

 

P/1 – O senhor colecionava?

 

R – Colecionava aquelas figurinhas do sabonete...

 

P/1 – Sabonete Eucalol.

 

P/2 – E que figurinhas que vinham, elas retratavam o quê, exatamente?

 

R – De tudo, em geral.

 

P/2 – Paisagem?

 

R – Tinha paisagem, tinha... Geral, tudo o que você queria tinha ali.  

 

P/2 – Interessante.

 

P/1 – Aquele comércio, ali daquela região, era um comércio muito forte, tinha até o Dragão da Rua Larga.

R – Tinha o Dragão, a Casa Matias, tinha a Casa Matos e tinha O Mundo das Louças.

 

P/1 – Também ali?

 

R – Sim. E ali era um dos bairros...o bairro mais forte que tinha, é o que tem hoje na Saara, era tudo por ali.

 

P/1 – Pela Rua Marechal Floriano?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor achava naquela época que essa região ia continuar uma região forte, importante, boa pra comércio, ou já dava pra sentir que talvez as coisas já estavam mudando?

 

R – As coisas já vieram mudando muito.

 

P/1 – Já?

 

R – Já, já. Desde essa época que fizeram aquela rodoviária ali, [Américo] Fontenelle, dali pra cá veio decaindo muito.

 

P/1 – E foi mais ou menos em que época aquela rodoviária, ali atrás da Central?

 

R – Foi em sessenta e pouco, sessenta, mais ou menos.

 

P/1 – São ônibus pra baixada, em geral?

 

R – Pra Baixada Fluminense. Começaram a demolir por ali, começaram aquelas invasões nos prédios e a vagabundada começou a tomar conta daquilo ali.

 

P/1 – E começou a tomar conta e ficar mais complicado?

 

R – Aí ficou.

 

P/1 – É por isso que seu pai então já fez essa mudança ali pra Rua Ibituruna, já sentiu ______.

 

R – Não, ali foi o caso da [Rua] Ibituruna. O meu pai não queria sair. A casa que nós tínhamos era uma casa própria. Quando ele chegava na janela do quarto, via a Central do Brasil, via a cidade toda. Eram casas baixas, mas eles fizeram um prédio ali na frente e tomaram a visão. A casa ficou devassada, então nessa época, ele se entristeceu e procurou sair. Foi ali que ele deu o braço a torcer, fora disso ele não sairia dali, não.  

 

P/1 – E a sua mãe, ela queria sair ou não?

 

R – Não, a minha mãe não… Ela era passiva, quem fazia mais pressão eram meus irmãos mais velhos.

 

P/1 – Que queriam sair?

 

R – Que queriam sair dali, mas quando houve esse caso do prédio que fizeram na frente da casa, ele procurou sair.

 

P/1 – Esse prédio, em que rua que ele foi construído? Bem em frente?

 

R – Em frente à minha casa mesmo, na Ladeira do Barroso.  

 

P/1 – Na Ladeira do Barroso, o prédio mesmo?

 

R – É.

 

P/2 – E a freguesia… E ali, nos arredores da onde está estabelecida a chapelaria, o que mudou ao longo dos anos? O que o senhor percebe que mudou? Melhorou, piorou?

 

R – Piorou. Veja que dessa época pra cá, quando o Collor tomou posse, e fez o real, o negócio… Tinha esperança de ser melhor. Aí depois veio aquela confusão toda, o Collor saiu, o real começou a cair. O Fernando Henrique, na primeira gestão, foi mais ou menos, na segunda, foi tudo por água abaixo. Veja que o Rio de Janeiro está com… Nunca se viu tantas lojas fechando como se vê agora, da segunda gestão do Fernando Henrique pra cá.   

 

P/2 – O senhor falou do ex-presidente Collor. Como foi aquela época do confisco da poupança? Como isso mexeu com a loja do senhor, com a sua vida, de um modo geral? Como mexeu com os comerciantes que o senhor conhece, como foi o comércio nessa época?

 

R – Quando ele segurou o dinheiro, foi aquele choque. O dinheiro estava circulando, então os cheques ficaram presos, aquela confusão, mas o dinheiro veio entrando, circulando e foi dando pra cobrir as coisas. Até ali estava tudo bem. Quando começou aquela confusão do Collor e ele saiu e o real começou a decair, aí então foi quando a crise começou. Eles começaram a segurar o dinheiro dos aposentados e a aquisição do povo começou a decair.

Uma grande parte também eu agradeço aos bancos. Esses créditos, esses juros bancários, esses cartões de crédito que estão tirando o dinheiro do povo. Isso é uma coisa horrível.   

 

P/2 – E cada vez que trocava de moeda? A gente teve um período que trocou de moeda um monte de vezes. Era complicação muito grande ou a coisa fluía normalmente?

 

R – Não, fluía normalmente. No cruzeiro, cruzado, havia aquela confusão toda, mas o dinheiro andava normal. O dinheiro só começou a cair mesmo e o povo começou a sentir foi nesse negócio dos cartões de crédito, esses juros bancários absurdos e o real decaindo, como está decaindo. Isso é que tem sido uma coisa horrível.

 

P/2 – Certo.

R – Eu, hoje, por muitas vezes fecho o mês com prejuízo, fecho o mês no vermelho. Sou obrigado a pôr dinheiro da minha aposentadoria dentro da loja pra não fechar.

 

P/1 – Se esse comércio ali da [Rua] Senador Pompeu… O senhor falou que tem aquela igreja evangélica, tem todas aquelas… Tem aquela proximidade com a [Avenida] Marechal Floriano. De uma maneira geral, o que o senhor vê como mudança de pessoas que frequentavam aquela região? É um público muito mais ligado à rodoviária central ou vai gente de outros bairros por ali?

 

R – Não, ali tem muita gente… Ali é um ponto… A rodoviária é um ponto igual à estação de trem. Não tem diferença nenhuma. O pessoal que vem de ônibus e o pessoal que vem de trem, ali se junta tudo e se espalha pela cidade inteira.

 

P/1 – Pela cidade toda. Pelo metrô também aproveita aquela estação...

 

R – O metro também aproveita, pega grande parte do pessoal por ali.

 

P/1 – E eles compram muito por ali, pela Marechal Floriano, pela Senador Pompeu?

 

R – Compravam.

 

P/1 – Compravam?

 

R – Nessa época, passava muita gente ali na Senador Pompeu. Quando ia pro trabalho e voltava. Na época de 60, 70 até 80 passava muita gente, mas o desemprego também acabou com aquele caminho por ali. Quando eles passavam por ali, compravam boné, compravam chapéu, agora acabou. E o desemprego foi muito grande, também.

 

(pausa)

 

P/2 – Senhor Almir, continuando, eu estou aqui pensando nessa questão do senhor estar sempre muito ocupado trabalhando, às vezes estudando, embora embora ainda não trabalhando com o seu pai. Sobrava algum tempo pro senhor ainda sair dali, ir à Copacabana ou a praia, praticar esportes, ou o senhor estava muito naquela área mesmo de trabalho?

 

R – Não. Eu ficava muito na área de trabalho, porque eu depois eu casei, meus filhos estavam no colégio. Meu pai sempre foi duro e sempre exigiu que nós cumpríssemos com nosso dever. Eu, pra manter as crianças no colégio, manter as coisas, tive que trabalhar bastante, tanto que eu tinha dois empregos pra poder manter as crianças. Inclusive meu filho trabalhou ou estudou… Estudava de manhã num colégio, à tarde… Tudo particular, e à noite na faculdade. E eu mantia tudo, até a alimentação dele, passagem, ele tinha tudo pago.

 

P/1 – O senhor, quando se casou, saiu da Ibituruna e foi morar...

 

R – Eu fui morar num apartamento alugado em Manguinhos. Dali eu fui pra Bonsucesso. Era um apartamento do meu pai, até hoje ainda está lá a minha esposa.

 

P/1 – Nesse tempo todo que o senhor estava trabalhando em várias outras coisas até assumir, em 93… O senhor achava que ia em algum momento voltar pra essa questão do chapéu ou o senhor achava que não, que ia ficar nos negócios, separado da chapelaria?

 

R – Não, não. Quando eu comecei a trabalhar em 68 na chapelaria, dali em diante eu já me dediquei. Até os chapéus colados eu me dediquei a fazer. O meu pai não queria que fizesse, mas eu comecei a fazer alguns e até hoje eu estou fazendo.

 

P/1 – Explica um pouquinho pra gente qual é essa diferença do chapéu colado pros outros tipos.

 

R – Esse chapéu colado é feito com chapéu de palha de carnaúba e o pano que a pessoa deseja, então eu faço… Não tem o chapéu na praça, a cor que a pessoa queira, então eu faço o chapéu colado, que vai ficar idêntico àquilo que eles querem em menos da metade do preço.

 

P/1 – Menos da metade?

 

R – Sim.

 

P/1 – E os tipos de chapéu da moda? Quando o senhor começou, era um certo tipo de chapéu. Fale um pouquinho pra gente dessas diferenças.

 

R – O chapéu da moda foi mais no tempo do Getúlio, que era o chapéu palheta que todos usavam. Era unânime, noventa por cento, mais ou menos, usava. E o chapéu de feltro e panamá -  quem usava mais o feltro era mais a parte social e o panamá, a parte mais [da] malandragem.

Tinha aquela oportunidade dos navios que… Ali, no cais do porto, encostavam os navios; trazia chapéu panamá e vendia ali. Quando compravam o chapéu ali, todos eles iam lá pra chapelaria fazer, enformar o chapéu na chapelaria. Nessa época, todos… A malandragem, o pessoal do samba usava o chapéu panamá.

 

P/1 – E essa coisa do enformar, como é isso, exatamente? A pessoa comprou um chapéu ali no cais do porto e ele vem como?

 

R – Ele vem todo fechado e enrolado. Então dá a goma, se coloca na forma e dá o modelo e o tamanho de aba também que a pessoa deseja.

 

P/1 – E como se faz isso? Uma máquina, uma forma?

 

R – Não, tudo à mão, tudo artesanal. A forma é só o tamanho da cabeça e o feitio da aba.  

 

P/1 – Entendi. Então é uma coisa artesanal, que depende de muito da habilidade de quem está...

 

R – Toda a habilidade de quem está fazendo.

 

P/1 – ...fazendo isso. Nessa época, o Getúlio… O Rio de Janeiro era capital, quer dizer, muitos políticos ou pessoas importantes iam à chapelaria pra...

 

R – Não, eles não iam. Eles chamavam o meu pai pra ir.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Meu pai ia lá no palácio do Catete fazer o chapéu do Getúlio.

 

P/1 – Olha!

 

R – Ou então ele mandava o motorista dele ir lá buscar. Meu pai foi várias vezes ao palácio do Catete conversar diretamente com Getúlio. A aba do chapéu do Getúlio tinha que balançar; quando ele chegava e estava falando, dando o discurso, a aba ficava balançando. Se não balançasse, ele não aceitava o chapéu.

 

P/1 – Mas porque que ele achava que...

 

R – Cada um tem aquele gosto, né? Então tinha que levar pouca goma e aba grande, aba sete.

 

P/1 – Tem uma numeração, então? Aba seis, sete, oito?

 

R – É.

 

P/2 – Além do Getúlio, quem mais desse pessoal da época que o Rio era capital que fazia os chapéus lá?

R – Todos esses políticos usavam, como o Negrão de Lima, também. O Negrão de Lima marcou muito devido ao chapéu, que era um chapéu Gelot e rachado no centro. Era diferente, por aquela racha que tinha. Ela ficava diferente, porque o Gelot é todo arredondado, então ele mandava rachar que fazia o estilo dele.

 

P/2 – Mas alguém além desses do chapéu rachado do Negrão de Lima, e da aba que balançava do Getúlio, mais alguém que tinha algum posto...

 

R – Não, não. Depois os outros, já quase todos eles usam chapéu normal.

 

P/2 – Chapéu normal?

 

R – Sim. Agora, tinha a malandragem que usava o chapéu nariz de ferro. Esse chapéu era feito pelo meu pai. Era um chapéu de aba larga também, copa alta; na frente ele era bicudo e atrás era bem cavado.

 

P/2 – E porque o nome ‘nariz de ferro’?

 

R – Por causa daquele tipo do chapéu na frente, que parecia mais um nariz grande, então eles deram o nome, a malandragem dava o nome de nariz de ferro. Toda aquela malandragem da Lapa, cais do porto, Praça Mauá, eles usavam muito esse chapéu. E o pessoal do subúrbio também ia lá comprar e mandar fazer o chapéu, também desse nariz de ferro.

Depois disso, um dos diretores da fábrica Ramenzoni foi lá na loja conversar com o meu pai e pediu um modelo. Foi quando o meu pai disse: “Não, se você quiser levar, leva que eu faço outro.” E fez o modelo zequete: fez o modelo, diminuiu a aba, modificou-o todo, botou debrum no chapéu, ficou um chapeuzinho todo diferente. O Zé Keti, nessa época, ia entrando. Ele disse: “Gostei desse chapéu, vou levar.” Levou e começou a cantar com esse chapéu na cabeça.  Onde ele se apresentava com chapéu, todo mundo voltava: “Eu quero o chapéu igual do Zé Keti, eu quero...” E ficou o nome até hoje, tem o nome de ‘zequete’ por causa disso.

 

P/2 – Foi o seu pai que inventou o feitio?

 

R – Que colocou, fez o feitio pra ele.

 

P/2 – Mas ele criou do nada ou adaptou algum chapéu que já existia?

 

R – Não, ele criou do nada. Depois que o diretor da Ramenzoni levou o chapéu pra fazer o modelo, ele começou a fazer outro modelo.

 

P/1 – Nessa época, as pessoas tinham muitos chapéus? Elas trocavam, como era essa coisa de...

 

R – Era uma época muito boa, inclusive [quando] esse [chapéu] palheta ainda estava bom, ele chegava: “Eu quero um chapéu novo.” Botava na cabeça, pagava e jogava aquele fora.

 

P/1 – Nossa.

 

R – E existia o chapéu de lebre, mais um chapéu bom. O chapéu de veludo, a pessoa levava… Comprava três, quatro, cinco chapéus. Aquele chapéu, o Ramenzoni, é um chapéu que dura… Hoje, nessa semana, reformei um que era da Ramenzoni, e a Ramenzoni acabou há mais de quarenta anos.

 

P/1 – A fábrica  de chapéus.

 

R – A fábrica Ramenzoni acabou há mais de quarenta anos.

 

P/1 – Então a qualidade...

 

R – A qualidade dela. Quem comprava quatro cores, daquele chapéu, não precisava mais comprar chapéu.

 

P/2 – O chapéu era uma peça de vestuário assim… Havia um chapéu específico pra cada ocasião? Tipo um chapéu pra andar à noite, um chapéu pra ir de dia, um chapéu pra festa, um chapéu pra trabalho?

 

R – Ah, tinha. Eles usavam muito o chapéu panamá. Na época da Penha, todo mundo ia com chapéu novo pra Penha. Na época de São Jorge, todo mundo botava chapéu panamá com uma fita vermelha. E outras festas também, que eles botavam o... Compravam chapéu novo. Hoje não acontece mais isso, um ou outro ainda conserva essa tradição.

Minha memória da festa da Penha: nessa época era uma festa que você chegava ali na porta, era difícil entrar. Hoje você entra normalmente, não tem mais… A população aumentou dez ou vinte vezes mais e lá na igreja da Penha a população diminuiu.

 

P/2 – O senhor era frequentador da festa da Penha?

 

R – Eu frequentava a festa da Penha, a festa de São Jorge. Isso tudo, hoje, já não é a mesma coisa.

 

P/1 – A festa de São Jorge é onde?

 

R – Ali no Campo de Santana.

 

P/1 – Campo de Santana, a igreja mesmo. Os senhores colocavam então a fita vermelha...?

 

R – Comprava um chapéu novo pra ir, fazia questão de comprar um chapéu, “Esse aqui é na festa, no dia de São Jorge na igreja.” “Esse aqui é pra ir na festa da Penha.” Comprava um chapéu específico pra isso.

 

P/1 – E todo anos eles compravam?

 

R – Compravam. Todo ano compravam um chapéu novo e botavam uma roupa nova também. Hoje em dia, isso acabou.  

 

P/1 – As pessoas às vezes iam a loja pra comprar um chapéu pra uma outra pessoa, de presente?

 

R – Presente de aniversário, papai, ou compra pra mandar pro Norte. Eu tinha um freguês que era da Bahia, ele chegava e comprava dez chapéus. Ele dizia que botava o chapéu na cabeça, ia pra Bahia. Chegava na casa de um parente, o cara tomava o chapéu da cabeça dele e dizia: “Esse é meu. Se você quiser outro, você compra. Eu te dou o dinheiro, mas esse aqui tu não levas mais de volta.” E cada casa que ele entrava de um parente era assim, ele perdia o chapéu, então ele já levava oito, dez chapéus. A cada parente que ele ia, já sabia que ia perder o chapéu.   

 

P/2 – Seu pai chegou a vender muito chapéu tipo cartola, aqueles…?

 

R – Cartola, na época da época se vendia muito. O meu pai usou muito cartola, aquele cordão de ouro na cintura, aquele relógio de ouro no bolso.    

 

P/2 – Qual foi essa época da cartola?

 

R – Foi na época mais ou menos de 30. Antes de 30, mais ou menos. [Em] 40, 50 já estava difícil de usar isso, já não se via mais o cordão de ouro… Ainda se usava o cordão de ouro, mas não se via mais aquela coisa, era mais difícil.

 

P/1 – A cartola, no caso, era um chapéu mais de luxo...

 

R – Um chapéu mais [de] luxo; se usava antigamente a bengala.

 

P2 – Vocês vendiam a bengala também ou só...?

 

R – Vendia a bengala também, até hoje eu vendo a bengala.

P/1 – A maioria dos clientes eram homens que iam comprar. Mas iam mulheres, às vezes, comprar para um parente, um presente ou não frequentavam a loja?

 

R – Não, a loja do meu pai era só chapéu masculino.

Tem uma história dos chapéus de mulheres que meu pai conta. Meu pai diz que todas as mulheres usavam chapéus. Elas iam ao cinema, todas bem-vestidas, com aquele chapéu na cabeça. Era uma dificuldade [para] quem estava atrás assistir o filme, porque cada uma queria ir com um chapéu com a aba maior do que a outra. Aí o dono do cinema, já com esse problema, colocava um cartaz na parede: “Só pode entrar com chapéu as senhoras que têm acima de quarenta anos.” Então as mulheres, mesmo que tivessem quarenta ou menos de quarenta, viam aquele cartaz no cinema e iam sem chapéu. Assim foram abolindo os chapéus das mulheres no cinema.  

 

P/1 – Existiam outras lojas especializadas em chapéus pra mulheres?

 

R – Sim, o chapéu de mulheres numa loja e o chapéu de homem em outra.

 

P/1 – Chapéu de homem numa outra.

 

R – Tanto que o seu Tavarez, ele só tinha chapéus femininos, a linha dele era só chapéus femininos. E lá na loja, só chapéus masculinos.

 

P/1 – O senhor tem uma ideia, mais ou menos, de quantos concorrentes existiam nesse mesmo ramo ali pela Marechal Floriano, Senador Pompeu?

 

R – Ali, no centro da cidade na década de 50, deveria ter umas cinquenta, sessenta lojas, mais ou menos.

 

P/1 – Cinquenta, sessenta lojas? Todas elas parecidas com o ramo do seu pai?

 

R – É.  

P/1 – E elas se concentravam todas ali na...?

 

R – A Rua da Carioca, a Rua da Conceição, Rua Senador Pompeu, [Rua] Sacadura Cabral, aquela Rua da [Estação] Central, a Gomes Freire, a Tiradentes, a... Outras mais ali, a Ouvidor, todas elas… Quase toda rua ali pelo centro da cidade tinha uma loja de chapéus.   

 

P/1 – E aí elas foram fechando?

 

R – Foram fechando, de uma a uma.

 

P/1 – Quando o senhor está dizendo que hoje são dez anos que o senhor realmente assumiu a chapelaria, como é que foi isso? Foi essa questão da interdição do prédio? Conte mais um pouquinho pra gente.

 

R – O que houve foi o seguinte: a prefeitura interditou o prédio para obras, nós então fechamos e o pessoal todo foi mudando. Quando o prédio ficou vazio, os mendigos arrombaram a porta e invadiram os quartos lá em cima, os andares lá em cima -  eram apartamentos, quartos. Quando foi pra fazer a obra, chamaram a polícia e os botaram pra fora. Eles disseram: “Vocês vão ficar aí durante uma semana. Quando vocês saírem daí, voltamos pra botar fogo.” Quando a polícia foi embora, eles botaram fogo no prédio, acabaram com tudo.

 

P/2 – Os mendigos incendiaram o prédio?

 

R – Incendiaram o prédio.

 

P/2 – O prédio ruiu, veio abaixo ou não?

 

R – Depois de três vezes que eles botaram fogo no prédio, o prédio ruiu e veio abaixo, aí acabou com tudo. Hoje é um estacionamento ali no lugar.

 

P/1 – É na Senador Pompeu, número...?

 

R – 104. Passei a trabalhar… O rapaz do botequim, que era dono do prédio da outra esquina, no 114, me deu um quarto para botar o material que eu tinha retirado da loja. Depois ele me ofereceu uma parte lá em cima, no sobrado. Fiz a minha loja ali no sobrado e estou até hoje.

 

P/1 - Quer dizer, de uma loja que já tinha tido muitos funcionários… Nessa época, a loja já era um pouco menor?

 

R – Já, era bem menor. Tanto que essa loja tinha dezesseis empregados. Eles foram se aposentando, meu pai não ia pondo mais ninguém no lugar.

 

P/1 – Sozinho mesmo?

 

R – Sozinho mesmo. Só tem uma pessoa que me ajuda nas horas vagas, mas não é empregada. Ela só fica lá nas horas que eu preciso pra fazer um recado, então eu a pago pra fazer isso.

 

P/1 – E na época do seu pai? Essa diferença entre o Ramenzoni, que era uma grande e os lojistas, os estabelecimentos menores… Que diferença existia exatamente, era só o tamanho do negócio ou o tipo do trabalho também?

 

R – O tipo de trabalho influenciava muito. O Ramenzoni foi um chapéu que a pessoa usava durante vinte anos e o chapéu não acabava. Outros chapéus já vieram, mas não vieram… Esse chapéu Mangueira também, era outra fábrica muito boa, tinha um ___________, mas acabou. A Prada...

 

P/1 – Prada?

 

R – A Prada agora fechou, tem dois anos mais ou menos, mais devido ao tamanho dela, os impostos que ela não conseguiu… O que ela está faturando hoje não dava pra pagar os impostos da fábrica.

 

P/1 – Muito altos.

 

R – Então foi obrigada a fechar. E ela trabalhava com sapato, cristal, para-choque de automóvel, uma infinidade de coisas.

 

P/1 – E acabou fechando tudo. Em relação ao horário de funcionamento, foi mudando muito, porque se trabalhava mais, antigamente se trabalhava aos sábados. Como é que isso foi...?

 

R – O horário do trabalho era de sete da manhã até sete da noite, e tinha hora extra até dez, onze horas da noite. Eles trabalhavam pra valer mesmo, não era um trabalho como nós temos hoje.

 

P/1 – Hoje se trabalha menos?

 

R – Trabalha-se muito menos. E no sábado também se trabalhava de sete às sete, no domingo de sete ao meio-dia.  

 

P/1 – Normalmente, então?

 

R – Domingo e feriado, [das] sete ao meio-dia. Só fechava de meio-dia pra tarde. A folga de todos só era no domingo e feriados, de meio-dia pra tarde.  

 

P/1 – Meio-dia pra tarde? Até que época, mais ou menos, foi assim?

 

R – Não tenho data certa, não. Depois é que veio decaindo. Da época do Getúlio pra cá, já começou a botar oito horas de serviço, aquele negócio todo já começou a modificar.  

P/2 – E feriado, tipo Natal, parava na véspera, no dia 24 ou trabalhava até as sete?

 

R – Não, muitos trabalhavam até as sete horas da noite, a maioria trabalhava. Mas o Natal era muito feliz, um Natal que os patrões davam tudo para os empregados. Essa cesta-básica, que hoje dizem que é uma cesta-básica, isso aí não vale nada. Naquela época, os patrões já davam… Faziam a ceia, a parte do… Era uma ceia feliz. Ele levava fartura pra casa.   

 

P/2 – A loja chegou alguma vez a organizar alguma ceia, juntar todo mundo?

 

R – Não, não. Lá na loja, sempre teve nos dias… Natal, Ano Novo, Carnaval e no aniversário, todos os empregados que iam fazer aniversário, naquele dia, a comida toda era por conta da loja. Nessas datas ninguém saia pra almoçar, almoçava lá dentro mesmo e ficava comendo o dia todo lá dentro.

 

P/2 – Fazia um grande almoço, um...

 

R – Não era bem um almoço, fazia um lanche que dava… Era mais do que um almoço, a pessoa preferia mais do que um almoço.

 

P/1 – E esse horário todo das pessoas, de sete às sete, como é que se dividia isso? Quem atendia os clientes e quem ficava trabalhando na...?

 

R – Todos trabalhavam.

 

P/1 – Todos.

 

R – E o pessoal do balcão, se não tivesse… Se entrasse cinco, seis fregueses, vinha cinco, seis funcionários atender.

 

P/1 – Sei.

 

R – Depois voltavam todos pro seu trabalho novamente.

 

P/1 – Então as pessoas combinavam a venda no balcão com o trabalho de fazer o chapéu.

 

R – Era.

 

P/2 – Como era esse trabalho? Cada funcionário fazia o chapéu do começo ao fim ou, por exemplo, um fazia as abas, o outro engomava, o outro costurava?

 

R – Tem o rapaz que é o lavador, ele lava e engoma o chapéu. Os outros enformavam… Uns enformavam o chapéu de panamá e outros o chapéu de pêlos. Não pode misturar uma coisa com a outra.

 

P/1 – Porque?

 

R – Por causa do enxofre. Trabalha com pó de enxofre e se cair no pêlo, acaba com o chapéu todo.   

 

P/1 – Entendi.

 

R – E as formas também não podem ser usadas. As formas de panamá são de panamá e as formas do chapéu de pêlo são de pêlo.

 

P/1 – Entendi, tem essa separação.

 

R – Tem essa separação.

 

P/1 – No balcão, a que hora do dia existia um maior movimento? Era o dia todo ou…

 

R – O dia todo tinha movimento.

 

P/1 – O dia todo?

 

R – [Às] sete horas da manhã, quando abria a loja, já tinha freguês esperando. E [às] sete horas da noite tinha freguês também.

 

P/1 – E algum dia da semana também ou _________?

 

R – Toda a semana. Não tinha dia ruim. Naquela época, era bom pra tudo.

 

P/2 – Sábado, domingo...

 

R – Até sábado e domingo tinha freguês.

 

P/1 – Como as pessoas conheciam a loja? Era do boca a boca ou ela anunciava no jornal, no bonde?

 

R – Tinha a propaganda no rádio, mais o… A Chapelaria Porto tinha fama em todo lado, até hoje. Ainda hoje eu estou fazendo o chapéu do Carlinhos de Jesus, e lá de Minas eles telefonaram pra mim, pra mandar chapéu pra lá.   

 

P/1 – Olha que interessante, de outro estado.

 

R – Ele deu o meu telefone e eu vou mandar pelo correio o chapéu, pra Minas.

 

P/1 – Pelo correio? Mas tem que ter esse cuidado com embalagem.

 

R – Sim.

 

P/1 – Como era a embalagem do chapéu? Era uma caixa?

 

R – Era uma caixa oval, que hoje não existe mais. Era uma caixa muito bonita, muito boa. Depois servia até pra… Na época de 60… Antes não tinha isso, botava aquelas ornamentações, aquelas cabeças de… O globo, fazia aquela do palhaço e botava em cima pra fazer bolo de aniversário de criança, essas coisas todas.

 

P/1 – Sei.

 

R – Elas começaram a pedir aquelas caixas pra isso. A fábrica agora já está fazendo quadrada, não está fazendo mais dessas ovais.

 

P/1 – E hoje como o senhor faz essa questão da embalagem, da entrega, já que não tem mais aquela caixa?

 

R – Não, tem as caixas ainda, as embalagens. Ainda vão pelo Correio, dentro de caixa de papelão. Chegam lá, normal.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor ainda tem embalagem guardada, é isso?

 

R – Não, hoje eu mando, mas não naquelas embalagens ovais antigas, como tinha, que as pessoas gostavam pra negócio de aniversário.

 

P/2 – A Chapelaria Porto tem alguma embalagem personalizada, essas caixas tem...?

 

R – Não, não.

 

P/2 – Não.

 

R – Não, nunca fiz.  

 

P/2 – Sacola, coisa assim, com...?

 

R – Já teve.

 

P/1 – Já teve?

 

R – Na época boa tinha sacolas e o próprio chapéu da loja tinha o nome da Chapelaria Porto. Vinham impressos já com o nome da Chapelaria Porto, mas hoje não tem mais, não.  

 

P/1 – Esse nome, Porto, quem deu o nome mesmo?

 

R – O Porto veio já do meu tio-avô.

 

P/1 – Seu tio-avô?

 

R – Ele era da cidade de Porto, lá de Portugal. De São João da Madeira, perto da cidade de Porto, então botou o nome de Chapelaria Porto.

 

P/1 – Entendi.

 

P/2 – Mais alguma razão especial pra ele ter escolhido Porto? Por que ele não colocou São João da Madeira, por exemplo, Seria a cidade de onde ele veio mesmo.

 

R – Não sei explicar, não. Mas se falava mais no Porto do que São João da Madeira. Tudo é Porto, Porto, Porto… Inclusive, se quiser ir pra São João da Madeira, precisa passar pelo Porto.

 

P/1 – Na loja mesmo, antes dessa ______ do senhor, como era? A loja tinha prateleiras com vários tipos de chapéu?

 

R – Aquelas antigas, com os vidros de cristal e tudo mais; aquelas altas, tinham três, quatro metros de altura. Depois houve umas modificações e meu pai modificou a loja. Ele adorou, veio com as armações na… Até a época que demoliu.

 

P/1 – Entendi. O senhor chegou a guardar uma coisa desse mobiliário, desses móveis, ou não?

 

R – Não, estavam lá dentro ainda quando eles invadiram. Quebraram e arrancaram as vitrines pra vender, as portas, as molas de porta, arrancaram tudo.

 

P/1 – Quando havia as prateleiras, o cliente tinha acesso direto? Ele podia pegar, olhar o chapéu ou não, tinha que pedir pro...?

 

R – Não, geralmente tinha que pedir. É que a malandragem ali naquela época era fogo (risos). Inclusive no balcão, meu pai conta que a pessoa chegava assim... Se deixasse alguma coisa em cima do balcão, ele pegava o chapéu, botava na cabeça. Você ia dizer que não era dele? (risos) Então se evitava de deixar as coisas ali, à mão, [de forma] que pudessem fazer isso.

 

P/1 – E quem eram os fornecedores de material de vocês? Vocês tinham fornecedores certos?

 

R – Tinha a Prada, a Ramenzoni, a Chapéus Mangueira, a Cury, a Marcatto, que já veio depois. Mais a Prado, a Ramenzoni, Cury e Chapéus Mangueira, são as quatro fábricas que faziam o chapéu.

P/1 – E eles tinham vendedores que passavam lá na loja.

 

R – Tinham vendedores que passavam lá e vendiam chapéus.

 

P/1 – Faziam encomendas, _______ como é que estava?

 

R – Sim.

 

P/1 – Então, na verdade, esses vendedores frequentavam várias lojas...

 

R – Frequentavam todas as lojas da cidade.

 

P/1 – Sei.

 

P/2 – E como era essa relação do fornecedor com a chapelaria? Vocês chegavam e falavam: “Olha, eu quero um chapéu assim, assado, quero determinado tipo de chapéu”? Ou eles ofereciam no catálogo?

 

R – Não, eles ofereciam no catálogo.

 

P/2 – No catálogo.

 

R – Quando o freguês queria modificar, como esse chapéu zequete, que nós cortávamos a aba e preparávamos o chapéu todo… Esse modelo agora é que as fábricas estão fazendo. Mas até a época de 60, 70… Até 70, 80 não tinha chapéus nas fábricas, não tinha. Quem quisesse esse chapéu era só lá na loja que tinha.

 

P/2 – Ou seja, além de vender os chapéus das fábricas, vocês também produziam?

 

R – Produziam chapéu. Hoje eu ainda faço diversos eventos que eles pedem um modelo diferente. Então eles levam a fotografia, como pra… Casamento, que é um chapéu, qualquer coisa, aí leva 70 centímetros do pano do vestido da moça, eu faço chapéu. No carnaval, eles escolhem o chapéu do homem e o chapéu da mulher, eu modifico-o todo e faço o chapéu da mulher de acordo com o que eles querem.

 

P/1 – O senhor falou do Zé Keti. Tinha outras pessoas ligadas ao samba que freqüentavam lá a chapelaria?

 

R – Tinha, todo o sambista era de lá, o Zé Keti, o Paulinho da Viola, o... Esqueci... O Cartola, o Martinho da Vila e todos eles, Beto Sem Braço, o Mano Décio... Do Império também tinha, mas agora eu não estou lembrado, de tantos nomes que tinha.

 

P/1 – E eles iam lá pessoalmente pra escolher?

 

R – Pessoalmente, todos eles. O da Mangueira, o Jamelão...

 

P/1 – Jamelão?

 

R – O Jamelão esteve lá há pouco tempo. Esse chapéu que ele apresentou no aniversário dele foi lá da loja.

 

P/1 – Loja de vocês, né?

 

R – Sim.

 

P/2 – Algum deles pediu alguma coisa especial assim, “grava o nome” ou então “faz uma aba menor, faz uma aba maior”?

 

R – Esse aí tem uma coisa que pegou muito. Antigamente você tinha uma máquina que botava as iniciais no chapéu, mas aquela malandragem, aquela vagabundagem, não deixava botar. Quando era pra lavar o chapéu, o próprio tinha que botar as iniciais no chapéu e quando havia confusão no meio da rua, a polícia, pelo chapéu, sabia de quem era.

 

P/1 – Ah! (Risos)

 

R – Então eles deixaram de botar o nome no chapéu por causa disso, não queriam que botassem nada...

 

P/1 – Pra não ser identificado.

 

R – Muitas vezes, eles faziam as malandragens deles e ia a polícia lá; pelo chapéu, sabiam de quem era.

 

P/2 – Olha só!

 

P/1 – Como se fazia essa lavagem do chapéu, tinha que ter um certo cuidado?

 

R – São sete banhos, ao todo.

 

P/1 – Sete banhos?

 

R – Tem um banho da água com sabão, depois tem o sal azedo, depois ele vai na goma, depois da goma ele vai pra escova, leva o banho de enxofre, depois volta pra escova, leva outro banho de escova, depois é que leva… É preparado o chapéu.

 

P/1 – Nossa, quer dizer que a pessoa deixava lá com vocês e vocês faziam esse processo todo?

 

R – Esse processo todo.

 

P/1 – E ele ia lá pegar depois.

 

P/2 – Com essa moda que tem hoje em dia, a moda dos rodeios, a moda country, isso mexeu em alguma coisa com o negócio todo? Melhorou, piorou ou o senhor passou ao largo disso?

 

R – Não, não. Eu fico mais à parte. Já tentaram me envolver nessa parte, mas eu não aceitei. Eles queriam que eu preparasse chapéu e fosse para o evento, pra vender lá nas barracas, essas coisas. E eu não aceitei.

 

P/2 – Porque?

 

R – Porque eu já estou aposentado e o que eu tinha que fazer, já fiz. Agora já não tenho mais aquele interesse de passar noites… Não sei onde eu vou parar e passo noites aí, sem saber onde.

 

P/2 – Mas no passado, quando o senhor estava começando a trabalhar nessa parte, já começou a pegar um pouco mais à frente? Já houve situações dessa, de o senhor...  

 

R – Já houve situações dessa, mas eu não aceitei. Teve um, que chegou um freguês uma vez que quis fazer. Eu preparei perto de trinta chapéus para um evento esse. Ele foi. Nesse dia, caiu um temporal danado. Ele se molhou todo, se sujou todo; molhou a mercadoria toda e voltou todo arrebentado. Não compensa mesmo eu fazer... Eu sair daqui do Rio de Janeiro pra correr estados por aí afora, pra fazer isso. Não compensa, não.

 

P/2 – Certo.

 

P/1 – O senhor falou de gente que às vezes até pegava no balcão outro… Como era a forma de pagamento? As pessoas fiavam?

 

R – Sempre à vista.

 

P/1 – À vista sempre?

 

R – Não, sempre à vista, e procurando sempre o dinheiro.

 

P/1 – Sempre o dinheiro?

 

R – Sim.

 

P/1 – O senhor não trabalhava com cheque, de preferência?

 

R – Era difícil. O meu pai sempre dizia: “Escola de samba e político, tem que receber na hora e em dinheiro. Negócio de cheque, essas coisas, é fogo.” Político, se não receber na hora, se ele ganhar, você não consegue chegar perto dele. Se perder ele some, você não vê mais, então não tem... Sambista é a mesma coisa.

 

P/2 – Ou seja, o senhor não costuma trabalhar com cartão de crédito?

 

R – Não, não tenho cartão de crédito, não financio nada.

 

P/2 – Não existe crediário na loja, nada disso?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Nem vender em prestações com ______?

 

R – Não, nada disso.

 

P/1 – E, essa… O senhor chegou a pensar em, enfim, fazer alguma forma de pagamento diferente pra facilitar o crédito, pra mais pessoas comprarem, ou acha que valia a pena?

 

R – Não vale a pena, não. Nem cartão de crédito, eu tenho raiva desse negócio de cartão de crédito, pelos juros que eles cobram e essas coisas todas, então eu particularmente não tenho, nem aceito esse cheque especial. Eu não aceito.

 

P/2 – Quanto custa um chapéu, em média? Ele pode variar de quanto a quanto?

 

R – Hoje o chapéu bom, o de lá, está na faixa de setenta reais. O [chapéu] lebre, puro, está na faixa de 140, 150 reais. Um panamá é aquele caso que eu falei; depende do tipo do chapéu, ele vai de trinta, quarenta reais, pra quatrocentos, seiscentos, setecentos; vai de acordo com o tipo de linha que ele tem. Mas eu não trabalho com esse chapéu Montecristi. Nenhum trabalha por aqui, só mandando vir de lá do Equador mesmo. Ou então quando tem essa feira da providência, que tem as barracas dos estados, nessas barracas, eles botam o chapéu Montecristi, que é um dos chapéus que está com o preço mais ou menos adequado pra poder trabalhar. É um chapéu bom.

 

P/1 – É do Equador?

 

R – É do Equador, da cidade de Montecristi.

 

P/1 – Ah, da cidade de Montecristi. Eles são especializados nesse… Então?

 

R – São especializados nesse chapéu.

 

P/2 – O senhor sabe se chegou a exportar chapéu do Brasil pra outros países também?  

 

R – Exporta, a Prado e a Cury exportam chapéu. Tanto que acontece que o freguês chega: “Eu comprei esse chapéu nos Estados Unidos!” Aí quando puxa a etiqueta, “Made in Brazil.”  

 

P/1 – Entendi.

 

R – (risos) Vem com um chapéu lá dos Estados Unidos, cheio de pompa e quando chega aqui, está com nome do Brasil.

 

P/2 – Existe algum modelo de chapéu nosso, que foi criado aqui, que seja só modelo brasileiro, como é o Panamá, esse Monte Cristi?

 

R – Não, cada um tem um modelo. Único modelo próprio mesmo, é esse modelo Nariz de Ferro e o modelo zequete, quando cortou a aba dele e fez o modelo.

 

P/2 – Certo.

 

R – Mas o resto não, o resto vem tudo de fábrica, tudo coisa, não é… Já vem da época de 1600... 1700, 1800, por aí.

 

P/1 – Hoje em dia, quem são os clientes da loja do senhor? O senhor falou no Zé Keti, algum tempo atrás, no Jamelão. Hoje em dia, quem é que compra?

 

R – Toda a linha das escolas de samba...

 

P/1 – Escola de samba...

 

R – A parte de... Essa parte religiosa, a parte de umbanda, que usa o chapéu e a cartola, e o boné também. Maçom...

 

P/1 – Maçom, religião.

 

R – Que eu uso pro culto.

 

P/1 – Pro culto, né?

 

R – É. Os judeus, rabinos...

 

P/1 – Compram do senhor?

 

R – Uma parte que eu ia esquecendo é a parte do chapéu panamá. Eu vendo muito agora, que o Hospital do Câncer está mandando. Com esse negócio do ozônio, raios solares, as pessoas calvas, as pessoas claras, elas têm muita mancha na… Começa a dar umas bolinhas e sair água dessa bolinha, daí vira câncer de pele. Então quando eles chegam assim no Hospital do Câncer, o médico os manda ir lá na loja comprar chapéu panamá, pra evitar esse problema.

 

P/1 – Pra proteger do sol?

 

R – Proteger do sol.

 

P/1 – Interessante.

 

P/2 – E a clientela, essa clientela variada, ela tem mudança ao longo do ano ou é… Por exemplo, em determinado mês mais pessoas de um tipo, mais… No começo do ano, os pacientes do Hospital do Câncer compram muito chapéu, aí no meio do ano...

 

R – Não, isso aí varia muito, como a parte de teatro também, cinema, televisão.

 

P/1 – Compram com o senhor, o espetáculo, não é?

 

R – Sim. Eles fazem… Eu faço o chapéu pra pra TV Globo...

 

P/1 – Ah, pra TV Globo também.

 

R – Faço pra dona Calma, ela faz os negócio de teatro, e outros teatros também eu faço. Cinema também, quando… Vários filmes por aí, eu fiz muitos chapéus. E eventos também, quando eles chegam aqui… Há pouco tempo eu fiz, uma empresa de turismo… As pessoas chegaram aí e botaram aquele... A linha cubana na cabeça deles. Saíram pelo Brasil com esses chapéus, e eu preparei todos esses chapéus.  

 

P/2 – O senhor pode citar, lembra de algum filme ou programa que tem usado seus chapéus?

 

R – Não, lembro agora do Petrúquio, aquele dessa novela do Petrúquio. Agora guardar nome de peça de teatro é difícil. Estou fazendo agora pra essa novela, não guardei o nome, que eles falaram uma vez só e não… Estou fazendo pra TV Globo. Ainda vão começar a filmar, já estou começando a fazer os chapéus pra lá.  

 

P/1 – O senhor disse que, na verdade, tem só uma pessoa que lhe ajuda, às vezes. Quando o senhor assumiu, em 93, ainda havia empregados?

 

R – Havia três empregados. Comigo ficavam quatro, e [com] meu pai e meu tio seis.

 

P/1 – Sei.

 

R – Aí foram se aposentando, foram saindo e no final estava eu, meu pai e meu tio. Foi quando aconteceu o acidente com a loja, aí o meu pai saiu fora. Meu tio também quis sair e eu comprei a parte dele.

 

P/1 – E como era o seu relacionamento com os empregados? O senhor sempre foi de uma família que foi a dona do negócio. Era um relacionamento tranquilo, era gente mais antiga?

 

R – Tudo… A costureira veio garota pra lá.

 

P/1 – É?

 

R – Ela veio solteira, casou e teve filhos, netos, lá dentro, trabalhando lá na loja.

 

P/1 – Eram emigrantes também de Portugal ou eram brasileiros?

 

R – Não, eram todos brasileiros. E os empregados também, o último que saiu era o Pedro, falecido Pedro. Ele deu… Quando saiu da loja, os netos dele tinham até casas que o avô deu.

 

P/1 – Quer dizer, eles então tiveram como construir um patrimônio trabalhando lá o tempo todo.

 

R – Todos eles construíram patrimônio, não saiu ninguém sem construir seu patrimônio. Entraram garotos lá e trabalharam até aposentar.

P/1 – O senhor acha que hoje em dia isso ainda é fácil de encontrar?

 

R – É difícil acontecer.

 

P/1 – Tanto tempo numa empresa e construir um patrimônio.

 

R – Isso é muito difícil, pra tudo é difícil. Hoje em dia, você não consegue ficar mais dez anos dentro de uma loja ou de uma empresa qualquer. [É] muito difícil começar e acabar numa empresa.   

 

P/1 – Quer dizer, já são na verdade três gerações: seu tio-avô, o seu pai...

 

R – E agora eu...

 

P/1 – O senhor. Como o senhor vê isso pra frente, no futuro?

 

R – Isso aí. Agora, a expectativa é muito falha, porque o dia a dia, a coisa não está dando ânimo pra trabalhar. O comércio em geral, seja lá o que for, desde uma caixa de fósforo até um avião, pra comprar você vê que está uma dificuldade… Depois que entrou esse real, depois da segunda gestão do Fernando Henrique pra cá, quantas lojas estão fechadas no Brasil inteiro? No Rio de Janeiro, o que se vê de lojas fechadas é uma tristeza. Tantas casas fechadas e fábricas também que acabaram por aí, por necessidade, pela dificuldade que está o país.

 

P/2 – Daquelas empresas antigas, tradicionais que fabricavam chapéus, qual sobreviveu até hoje? Quais fabricam hoje em dia?

 

R – A que está conseguindo sobreviver até hoje é a Cury.

 

P/1 – Cury?

 

R – É, as demais já foram todas embora.

P/1 – E ela é uma fábrica grande?

 

R – É. A Prada, a Ramenzoni, Chapéus Mangueira, tudo isso já acabou.

 

P/1 – O senhor acha que o ramo mesmo da chapelaria...

 

R – Chapelaria, hoje… Uma cidade que tinha… [Em] todas as ruas tinha chapelaria, era quase igual botequim...

 

P/1 – Nossa!

 

R – Hoje, tem três lojas no Rio de Janeiro. No meu ramo mesmo, que mexe com chapéu, lava, passa, enforma e modifica o chapéu, acho que no Rio de Janeiro eu sou o único.

 

P/1 – O senhor é o único?

 

R – Sim. Que está fazendo, e estou porque estou aposentado. Muitos meses, como esse mês de maio, eu fechei botando dinheiro do meu bolso pra não fechar a loja. Se eu fechar a loja agora, eu estou aposentado, vou ficar na praça jogando carta. Pra não ficar na praça jogando carta, prefiro estar com a porta aberta. Passando dificuldade, mas com a porta aberta.

 

P/1 – Entendi. O senhor tem filhos?

 

R – Tenho um casal de filhos.

 

P/1 – E eles têm mais ou menos que idade?

 

R – Estão com 35 anos e 34.

 

P/1 – Eles se interessaram em trabalhar no comércio?

R – Minha filha trabalha com negócio de aniversário e meu filho, eu falei muito pra educá-lo. Hoje ele é engenheiro na lista de contratados da Petrobrás.

 

P/1 – Então eles passaram longe desse ramo do senhor.

 

R – Passaram.

 

P/1 – O senhor gostaria que eles tivessem, de alguma maneira, tentado continuar ou...?

 

R – Não compensa muito, não. A minha sobrinha é que está interessada e minha filha também está interessada a continuar. Mas eu não estou vendo perspectiva.  

 

P/1 – Perspectiva de ser um bom negócio?

 

R – É, de ser um bom negócio. Trabalhar pra aquecer, já não compensa. Chega no final do mês, não tem dinheiro… Não rende nem pra pagar o aluguel. Não está compensando mais.

 

P/1 – Está compensando pouca coisa.

 

R – As despesas… E eu estou sem empregado, sem nada. Se eu tivesse empregado e tudo pra pagar, estava ferrado.

 

P/1 – Uma pergunta: o senhor usa chapéu de vez em quando?

 

R – Uso chapéu e uso boné.

 

P/1 – Usa boné em que ocasião? Em uma ocasião especial, sempre?

 

R – Ocasião especial. Quando eu vou pras festas de velha guarda. Boné uso mais pra ir pra casa agora, na época do inverno. E [para] festas vou sempre de chapéu.

P/1 – O senhor encontra muitas pessoas também com chapéu em festa?

 

R – Encontro. Tem, tem.

 

P/1 – Quando o senhor vai comprar um chapéu, boné ou comprar qualquer coisa, como o senhor é como consumidor? O senhor pechincha, exigências...

 

P/2 – Pechincha, exige?  

 

R – Não. Eu vejo mais ou menos, se eu vir o preço... Eu sou uma pessoa que não gosta muito de comprar.  

 

P/1 – Não?

 

R – Não. Aí eu paro… Eu vou à rua; gostei, eu compro. Se eu parar pra escolher… Eu muitas vezes saio escolhendo e volto pra casa sem nada.  

 

P/1 – E na loja, tem muita gente que pechincha?

 

R – Ah tem, muita gente. Principalmente quem tem mais dinheiro, é quem pechincha mais.

 

P/1 – Ah é, não é quem tem menos?

 

R – Não, quem tem menos não pechincha tanto.

 

P/2 – O senhor já fez algum tipo de promoção na loja, tipo “leve um chapéu tal e ganhe um chaveirinho de brinde” ou alguma coisa nesse sentido?

 

R – Não, não fiz. Isso nunca fiz.  

 

P/2 – Por que? O senhor acha que não vale a pena também?

R – Não vale a pena. [Com] a freguesia que está [agora], não vale a pena fazer brinde, essas coisas.

 

P/1 – O senhor anuncia em Páginas Amarelas?

 

R – Eu tenho Paginas Amarelas, só. Antes eu anunciava mais nas outras partes de telefones, outros catálogos, mas agora só Paginas Amarelas, porque o dinheiro não dá mais pra nada.  

 

P/2 – Alguma vez a loja chegou a anunciar em TV, rádio?  

 

R – Já apareceu eu na televisão, nessa… Na Manchete, na Globo uma vez, no Jornal do Brasil.

 

P/1 – Mas anuncio mesmo ou só mencionaram a loja?

 

R – Não, só mencionaram a loja. Tanto que esse programa das duas horas da prefeitura… Inclusive me mandaram uma fita, falando sobre a extinção do chapéu.

 

P/2 – Certo.

 

P/1 – Agora tem poucas lojas, mas pelo jeito ainda tem um público cativo.

 

R – Tem, tem.

 

P/1 – Não vai terminar, quer dizer, vai dar pra...

 

R – Não. Ainda dá pra ir arrastando, não pra ir vivendo.

 

P/1 – O senhor teve essa trajetória variada, apesar de ter esse negócio na família o senhor fez outras coisas. Olhando pra trás hoje, o senhor mudaria alguma coisa nessa coisa,  na trajetória de vida do senhor, do trabalho, ou não?

R – Eu não pensei muito nessa parte, porque a vida é aquela que nós levamos. Penso mais agora, o presente. O futuro Deus dará, então vou indo até ver como é que vai.

 

P/2 – Tem mais 25 minutos.

 

P/1 – Eu tenho, na verdade, umas duas perguntas pro senhor. O seu pai, quando começou a ver o negócio mudando, ele se preocupou com a continuidade do negócio? Ele se preocupava em achar que o senhor tivesse um caminho melhor em outro ramo ou sempre quis que o senhor estivesse junto?

 

R – Não, isso aí ele sempre deixou.. Nós somos cinco filhos.

 

P/1 – Cinco?

 

R – É, e ele deixou cada um escolher o seu caminho. Não interveio no caminho de ninguém. Só que eu fui um cara, como eu falei, muito travesso. Comecei a ficar de castigo, às vezes ficava um mês, dois meses dentro da loja de castigo. Eu ia com ele pro trabalho e subia com ele pra casa. O colégio era em frente, eu ia ao colégio e voltava. Ele ia almoçar em casa, eu ia com ele e voltava. E ficava sempre ali fazendo alguma coisinha pra não ficar parado. Sempre fazia alguma coisinha, então ele me dava um trocadinho. Nunca se impôs em nada, não.  

 

P/1 – Os seus irmãos chegaram a se interessar também pelo negócio?

 

R – Não.

 

P/1 – Nunca nem ficaram perto?

 

R – Não. Eles dois, sempre… Os dois mais velhos foram pra Brasília. Um é… Era chefe, se aposentou como chefe da auditoria do Banco Central. O outro foi do departamento de polícia, foi prefeito, foi um monte de coisa lá. Foi chefe de presídio, essa parte, delegado.

 

P/1 – Sei.

 

R – Ele entrou nessa área.

 

P/1 – Trabalho no governo?

 

R – Sim. E hoje é fazendeiro.

 

P/1 – E não tiveram nada com o comércio?

 

R – Nada.  

 

P/2 – O senhor, vendo esse rumo que a chapelaria está tomando, o senhor sente alguma tristeza por isso, por esse ramo estar acabando? O senhor se sente chateado de alguma forma por essa… Um ramo tão tradicional, tão antigo, característica até da cidade estar assim, se acabando?

 

R – É triste, porque a pessoa quer desenvolver alguma coisa e fica se agarrando àquilo, e lutando pra ver se aquilo, de hoje pra amanhã, se desenvolve e vai à frente. Está muito devagar, não dá animação nenhuma pra fazer alguma coisa.

 

P/1 – O senhor acha que o chapéu podia voltar à moda, talvez?

 

R – Não é só a moda...

 

P/1 – Não é só a moda, o senhor explicou, necessidade também.

 

R – A necessidade também obriga a ter alguma coisa na cabeça.

 

P/1 – É, o senhor falou da novela. Muitas pessoas querem a roupa da novela, o penteado da novela...

 

R – Querem. Esse boné de goma que está saindo, que a Xuxa aparece com ele na cabeça e outros artistas, está na moda agora.  

 

P/1 – É? E o senhor acha que isso se reflete...?

 

R – As moças… Está refletindo, elas vêm procurar especificamente aquele boné, porque aquele boné de goma é aquilo que elas quererem. É pra ficar igual à Xuxa.

 

P/1 – Procuram o senhor?

 

R – Sim.

 

P/2 – O senhor não vê nisso de repente um ensaio, um começo de uma retomada desse mercado de chapéu?  

 

R – Não.

 

P/2 – Pode ser...

 

R – Não, não vejo. Você vê que [em] quase todas as novelas da Globo tem chapéu e ninguém procura. Só quando acontece um caso do… Como aconteceu [com] a [novela] “Ana Raio e Zé Trovão”. Nessa época se vendeu, mas também era uma época melhor, foi uma época que vendeu muito chapéu. Uma vez também, que o Roberto Carlos apareceu com chapéu na cabeça. Quando o Zé Keti, na época do Zé Keti também. O Paulinho da Viola também foi uma coisa que… Passageira, mas houve alguma coisa. Coisas que aconteceram assim, mas fora disso, não acontece mais.   

 

P/1 – Quer dizer, dura um pouquinho, mas depois...

R – Dura um pouquinho, mas [é] coisa passageira.

 

P/1 – O senhor falou que essas pessoas que veem na novela ou veem um artista famoso… Como é que eles chegam à loja do senhor? Como é que eles sabem que é o senhor que fabrica, que é o senhor que...

 

R – Já vem… Até atores da Globo vão lá comprar como uma pessoa qualquer. Eu atendo a mesma coisa.

 

P/1 – Sei.

 

R – Esse Jorge Aragão...

 

P/1 – Sei.

 

R – Ele esteve lá na loja comprando boné. Eu atendi o Jorge Aragão como outro qualquer.

 

P/2 – Mas como eles sabem? Por exemplo: “Eu quero chapéu igual o da TV! Vou procurar o seu Almir...”

 

R – Não, quem sabe quer o... Foi ontem, tinha uma pessoa lá e disse… Estava lá em Caxias, e ele queria comprar um chapéu. O cara ia passando com chapéu na cabeça, aí: ” Por favor, o senhor me indica onde comprou esse chapéu?” Ele disse: “Vai lá na chapelaria na Senador Pompeu que o senhor encontra.” Aí pronto. Sou mais conhecido assim.

 

P/1 – Divulgação boca a boca, não é?

 

R – É.

 

P/1 – Deixa eu… Você tem mais alguma pergunta?

P/2 – Não, pode...

 

P/1 – O que o senhor achou de poder recordar essa experiência de vida, de ter dado esse depoimento pro projeto?

 

R – Uma coisa muito importante pra mim é uma esperança. Ver se há possibilidade de alguém fazer alguma coisa com que isso volte a florir novamente, a aparecer o chapéu novamente no comércio todo, porque isso é muito importante - até com esse problema do ozônio, o câncer de pele.  

 

P/1 – Sim, e isso pode ajudar, né?

 

R – Ajuda bastante.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que o senhor se lembra, que não chegou a falar aqui no depoimento e que gostaria de contar, alguma história interessante?

 

P/2 – Alguma coisa que o senhor gostaria de deixar registrado?

 

P/1 – Do depoimento, da família do senhor, do negócio da chapelaria que a gente não chegou a perguntar?

 

R – Não. No momento, infelizmente, eu não tenho mais nada que possa lembrar, a não ser esses detalhes. Desde 68 pra cá, as coisas que meu pai me falou, a orientação que ele me deu, e procuro hoje andar no caminho dele. Se eu sair fora do caminho que ele me deu, eu levo na cabeça. (risos)

 

P/1 – Ele estava certo, né?

 

R – Estava.

 

P/1 – A última pergunta que eu tenho, e gostaria… O senhor ainda pensa em voltar - voltar não digo, mas viver novamente nas terras dos seus antepassados em Portugal, ou o senhor acha que...?

 

R – Não, não dá pra ir mais lá.  

 

P/1 – Não?

 

R – Não, infelizmente não dá pra eu ir. Eu, agora, sou mais assim de ficar… Gosto muito de passear, mas aqui dentro do Rio de Janeiro.

 

P/1 – Sei.

 

R – Saindo do Rio pra ir pra outro estado, outra coisa, não sou muito chegado.  Tanto que o meu irmão mora em Brasília e eu só fui lá duas vezes, quando… E não tenho vontade de voltar. A não ser um dia que eu [me] aposente, vá até a fazenda e fique lá um pouco, mas fora disso não.

 

P/1 – Tá bom. Eu queria agradecer muito pelo depoimento que o senhor deu aqui ao Sesc e ao Museu da Pessoa.

 

P/2 – Agradecer a sua participação no projeto. Se o senhor quiser deixar mais alguma coisa registrada...

 

R – Eu que agradeço a vocês por ter uma oportunidade dessas, de falar e ver se há possibilidade de alguém interessado no assunto fazer alguma coisa pelo… Ver se surge novamente o comércio e indústria do chapéu e outras coisas mais.

 

P/1 – É o que nós desejamos.

 

P/2 – É isso aí, obrigado.

 

R – Uma boa tarde e muito obrigado.

 

P/1 – Nós que agradecemos.



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