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História de: Raquel Martins
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Raquel conta sobre sua infância na China, o choque cultural de vir morar no Brasil aos 15 anos, seu retorno à China para estudar e sobre sua família.    

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História completa

(00:31) P/1 - Boa tarde, Raquel, tudo bem?

R - Tudo bem, boa tarde.

(00:37) P/1 - Bom, então a gente vai começar com a pergunta mais básica: gostaria que você me dissesse o seu nome completo, a data de nascimento e a cidade onde você nasceu. 

R - Meu nome é Raquel Picchi Martins, nasci no dia dois de setembro de 1964 e sou natural de Jundiai, interior de São Paulo.

(01:01) P/1 - Qual o nome dos seus pais?

R - Meu pai é Jaime Martins e a minha mãe é Maria Angelina Picchi Martins.

(01:15) P/1 - Você tem irmãos, Raquel?

R - Eu tenho uma irmã só, chamada Joana Andreia Martins, que é um ano e meio mais nova que eu.

(01:28) P/1 - E qual a ocupação dos seus pais, Raquel?

R - Meu pai é ainda vivo, tem quase 92 anos. Ele é jornalista, trabalhou na década de cinquenta em jornais de São Paulo, no Última Hora. Minha mãe foi formada em sociologia, mas sempre trabalhou na China, como locutora de noticiários em português.

(02:00) P/1 - Os seus pais são de São Paulo mesmo, ou eles vieram de algum outro lugar pra morar em São Paulo?

R - Não, os dois são do interior de São Paulo. Meu pai nasceu em Pederneiras, no interior de São Paulo, perto de Jaú, e minha mãe é natural de Jundiaí, nasceu aqui no interior de São Paulo também.

(02:23) P/1 - Certo. Então, vamos começar a falar um pouquinho da sua infância. Você tem alguma recordação sobre a sua infância no Brasil, antes de ir pra China?

R - Nenhuma. É uma longa história: meus pais se conheceram bem no finalzinho da década de cinquenta e logo depois, em 1961, meu pai recebeu um convite pra ir trabalhar na China, como locutor de rádio, da Rádio Peking. Eles estavam noivos e meu pai foi primeiro. Daí, chegando lá, os chineses souberam que ele era noivo, que tinha a minha mãe aqui no Brasil e pediu pra chamar a minha mãe também; a minha mãe foi logo em seguida, em 1962. 

Meus pais se casaram na China e o contrato era pra trabalhar dois anos. Eles fizeram dois e os chineses pediram para eles fazerem mais dois anos, daí eles tinham direito de passar férias no Brasil, em 1964. 

Meus pais chegaram duas semanas antes do golpe, chegaram nos meados de março. Minha mãe estava grávida de mim e meu pai logo foi preso, em maio ele já foi preso, porque ele tinha voltado da China; o delegado de Jundiaí talvez quisesse mostrar serviço e meu pai foi preso. Eu nasci em setembro, meu pai já estava preso no Carandiru. Ele ficou mais de um ano preso em São Paulo e, como eles tinham contrato ainda de voltar pra China, pra trabalhar, quando a Justiça viu que meu pai não tinha feito nada errado, que não tinha nada contra ele - ele não tinha grupo nenhum, não tinha falado nada, não tinha feito nada - aí o soltaram. Com isso, meus pais fizeram passaporte no Paraná e saíram comigo, com dez meses de idade, de volta à Pequim, na China. Isso em 1965. 

Eu não tenho memória nenhuma do Brasil, porque eu saí com menos de um ano de idade, junto com meus pais. Toda a minha infância, até os quinze anos de idade, eu passei em Pequim, na China, e a minha irmã nasceu lá em 1966. De memória do Brasil, só temos a memória do que meus pais contavam pra gente, de como era o Brasil, porque nem outra família de brasileiros tinha. Meus pais eram os únicos, por muitos anos.

(05:17) P/1 - E você se lembra, então, da sua infância na China? Do que você gostava de brincar? Onde vocês moravam? Conta um pouco disso pra gente.

R - Bom, nós nascemos e crescemos num período muito interessante, acredito que mundialmente, que foi a década de sessenta. A China estava em plena Revolução Cultural - na mesma semana que a minha irmã nasceu, começou a famosa Revolução Cultural. Nós crescemos numa época onde tudo era contra a burguesia, era contra a americanização, tudo contra o imperialismo, então, quando nós crescíamos, não tínhamos brinquedos de bonecas, de histórias de Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, não tinha nada disso; eram histórias revolucionárias da  Segunda Guerra Mundial, a China contra a invasão japonesa, que durou por oito anos. Brinquedos nós não tínhamos, além de revólveres e espingardas de madeira. Isso a gente comprava, porque não tinha outras coisas, a gente brincava como... Nós éramos soldados o tempo todo, tinha os bandidos e os bonzinhos, os bonzinhos ganhavam sempre dos bandidos. [Tinha], inclusive, músicas, histórias revolucionárias, tudo. 

Como não havia vendas de bonecas nem nada e nós éramos duas meninas, então minha mãe tentou fazer bonecas pra gente poder brincar, mas nós, crescendo junto com os chineses, já tínhamos essa ideia: "Como brincar com uma coisa burguesa de bonecas? Jamais." Brincamos só com armas. 

Quando eu tive os meus filhos - eu tenho um filho homem agora - eu nunca fui contra dar uma espingarda de madeira pra ele, porque eu brinquei a infância inteira e não sai atirando em ninguém. (risos) Então, é bem diferente, a gente brincava de muita coisa sobre guerra, porque a China havia passado por muitos anos de guerra.

(07:53) P/1 - E onde vocês moravam? Você tem lembranças, se era uma casa, um apartamento, como eram as ruas em volta?

R - Meus pais... Todos os estrangeiros, fora os diplomatas - naquela época, na década de cinquenta, sessenta, ou toda a década de setenta - que viviam na China, principalmente em Pequim, eram todos idealistas, comunistas, socialistas, que foram por um ideal grande, pra ajudar o governo chinês. O governo chinês sempre convidou ou recrutou pessoas que apoiavam a China, que tinham ideias ideológicas de apoiar o governo chinês. Meu pai era um deles, ele tinha um ideal de comunismo; ele nunca se filiou a nenhum partido comunista, mas tinha essas ideias e era jornalista. Então, essas pessoas, todos os estrangeiros que foram à China nessa época, eram muito bem tratados e privilegiados. 

Como a China estava passando por um momento de política muito sensível, nós, como estrangeiros, não morávamos com os chineses. Nós morávamos separados, dentro de um condomínio, chamado Hotel da Amizade, que até hoje existe. Esse hotel tem quase dois mil apartamentos, é um hotel construído pelos russos, na década de cinquenta, para os russos trabalhando na China. Depois que a China e a Rússia tiveram um rompimento diplomático, no final da década de cinquenta, eles saíram e então os outros estrangeiros passaram a morar lá. Nós éramos quinhentas pessoas ou menos de mil pessoas, com família e tudo, morando lá; gente do mundo inteiro: africanos, tanzanianos, moçambicanos, angolanos, europeus. Tinha gregos, ou da Albânia, da Croácia, da antiga Iugoslávia e depois alguns americanos, japoneses, indonésios, do Laos, Camboja. E também os latinos: nós tínhamos chilenos, argentinos, bolivianos, peruanos, colombianos, venezuelanos, tínhamos gente do mundo inteiro que morava naquele que a gente chama de Hotel da Amizade. 

Ali a gente tinha uma vida completamente privilegiada, muito diferente dos chineses: tinha piscina, tinha clubes, onde a gente tinha cinema, tinha clínicas, tinha armazéns. A gente saía dali pra ir à escola e os pais, todos os estrangeiros pais, nossos amigos, todos trabalhavam para o governo chinês e todos trabalhavam na área de propaganda - propaganda que eu quero dizer é no sentido inglês, de fazer propaganda para o governo chinês. Meus pais trabalhavam na rádio e muitos trabalhavam pra publicações, traduções de livros de Mao, ensinavam línguas; meu pai também ensinou muitos anos de português nas escolas de idiomas e meus pais faziam principalmente transmissões de noticiários chineses, em português, para os países de língua portuguesa. 

Nós morávamos em apartamentos, com gente do mundo inteiro, por isso que eu falo: a globalização eu já fazia na década de sessenta. (risos) Eu já era uma criança… A gente cresceu lá, sempre falamos chinês, mas tinha gente do mundo inteiro conosco; a gente só tinha contato real com os amigos chineses dentro da escola. Nós não podíamos ir a casa deles e nem eles podiam vir à nossa casa. Dentro do nosso condomínio só tinha filhos estrangeiros, que eram nossos amigos.

(12:33) P/1 - Como era, pra você, ter amigos de tantas… Crianças, amigos, vizinhos, de tantas nacionalidades, todas diferentes,num lugar separado? Como era isso, pra você? Você conversava com todo mundo, como eram essas suas amizades de infância?

R - Sim, sim. Nós não conhecíamos nada diferente, nós não sabíamos como seria em outros lugares, então pra nós era muito normal ter essa vida, apesar de que eu sempre senti que eu não pertencia àquele lugar. Sabe quando você... Por mais que meus pais se esforçassem pra que a gente se vestisse, [usasse] penteado, tudo do mesmo jeito que os chineses, a gente tinha, tem uma cara diferente, né? E a minha irmã mais ainda, porque a minha irmã é loira, daquele cabelo bem branquinho, todo cacheado e de olhos azuis. Era muito visível que a gente não era um deles, nós éramos diferentes dos nossos amigos asiáticos. Pelo menos os indonésios, os japoneses, coreanos, podiam se misturar junto com os chineses e nós não. 

Apesar de nunca achar estranho viver com gente do mundo inteiro, nós não tínhamos diferença pra nós, então nossos amigos eram do mundo inteiro. Como nossos pais tinham ideais parecidos, então não havia uma divergência política também: "Ah, você apoia ou não apoia o governo chinês". Não havia isso, a gente era... Todo mundo estava no mesmo barco, por um ideal, ajudando o governo chinês, então eu não percebia nada. 

Meu pai sempre foi muito correto nessa maneira de nunca ser diferente dos chineses, apesar da gente não poder morar com eles - também porque a China sempre foi um país superpopuloso; a gente não tinha um lugar que a gente pudesse morar com eles, a gente tinha lugar oferecido pelo governo chinês. Mesmo assim, minha mãe tentava, às vezes, falar alguma coisa sobre o Brasil. Meus pais conviviam muito com os latino-americanos, então a gente, de vez em quando, fazia churrascos, essas coisas. 

A gente percebia que havia algum ritual, dentro de casa era diferente dos chineses, mas o resto... Sabíamos que dentro de casa nós falávamos uma língua diferente. Meus amigos do Nepal falavam nepalês em casa; meus amigos japoneses falavam japonês em casa; os malaios... Então, pra nós era normal ter outra língua dentro de casa que não fosse a língua chinesa, que falássemos entre nós. 

(15:50) P/1 - E, falando em escola, quais as primeiras lembranças que você tem de ir à escola, em Pequim?

R - Bom, eu entrei na escola acho que em 1970. Já fazia quatro ou cinco anos que tinha começado a Revolução Cultural e todas as escolas haviam sido fechadas; os jovens foram todos mandados para a roça pra trabalhar com os camponeses, pra aprender com os camponeses, trabalhar nas fábricas. Em 1970, o primário voltou pras crianças menores, porque já sabiam que ninguém pode ficar sem educação. Acho que eu tinha seis anos quando a gente voltou à escola, mas assim, limitados a estudar principalmente diretrizes do partido e também o livrinho vermelho do Mao. 

O chinês não é alfabeto, são ideogramas, então quando criança você começa a aprender os ideogramas mais simples, vai acumulando os ideogramas e formando, assim, três mil, quatro mil, cinco mil ideogramas, pra você poder fazer leitura, depois, de livros. Os primeiros cinco ideogramas que eu aprendi foram "Longa vida ao presidente Mao", “Máo zhuxí wànsuì”. Só depois de você aprender a escrever esses cinco ideogramas que você passa a aprender a escrever o seu nome em chinês.

Eu acho que, como toda criança, a minha infância, de memória de escola, sempre foi muito alegre, muito divertida, apesar da gente morar separado, mas isso nunca foi um... Pra mim isso era normal, era assim, eu não sentia porque eu era privilegiada. A gente ia à escola e voltava pra outro lugar de moradia, diferente dos chineses, mas as memórias dentro da escola sempre foram bastante alegres. A gente podia brincar, só que como eu falei, não tenho comparação naquela época de como era a escola. A escola é muito rígida, até hoje a educação oriental é bastante rígida; as crianças tinham que sentar com os braços pra trás por quarenta e poucos minutos, pra fazer uma pergunta você tinha que pôr a mão assim, você não pode: "Aê, fessora, ô, fessora", não tinha nada disso. É um respeito muito grande pelos professores. 

A gente teve bastante dificuldade, no início, em escrever, porque os meus pais não falavam muito o chinês. A minha mãe falava mais do que o meu pai, era difícil poder ajudar, mas o meu pai fez de tudo: copiar os ideogramas, nem sabendo o que querem dizer os ideogramas, mas ajudando a gente a copiar, como fazer direitinho, certinho. 

A gente cresceu com as ideias e ideologia do Mao Tsé-Tung, do partido e com as histórias, lendas, todas revolucionárias, sem nada da burguesia, do imperialismo americano. (risos) 

(19:43) P/1 - E, passando do seu ensino mais básico, quando você foi chegando na adolescência, o que foi mudando pra você - tanto em relação aos estudos, quanto em relação a gostos, atividades que você passou a fazer?

R - Nas escolas chinesas, na década de setenta ainda, todos os alunos, de todos os anos, eram enviados a campo, porque lá não tinha camponeses com terras particulares, eram comunas com terras coletivas. Eles faziam tudo junto, aquela terra toda pertencia a uma aldeia e ali todo mundo plantava junto. As escolas enviavam, os alunos passavam duas, três semanas na roça, ou nas fábricas, ou no Exército também. Todo ano você tinha que fazer essas três passagens nesses lugares, pra todo mundo aprender como trabalhar na terra, como trabalhar numa fábrica e como se comportar no Exército. 

Na época, na escola onde eu frequentei… Eu só podia frequentar a escola que pertencia aos funcionários da Rádio Peking, a gente frequentava a escola que os pais todos eram funcionários da rádio. Nós não éramos muitos estrangeiros: tinha eu e minha irmã, tinha japoneses, tinha malaios, tinha [gente] do Laos e eram muito poucos, eram menos de dez estrangeiros; não queriam que nós fossemos e nós escrevemos uma carta, na época, para o Primeiro Ministro chinês, que era o Zhou Enlai, pra nos deixar ir fazer essas viagens, se não a gente ficaria várias semanas sem ir à escola e, assim, sem ir, nos divertir. Era como uma viagem pra criançada toda, pra passear. Nós escrevemos uma carta e fomos autorizados a ir, então passamos a ir todos os anos - isso, acho que desde os oito, nove anos, eu não me lembro exatamente. 

Nós íamos e era super divertido, era uma viagem, tipo viagem de férias com a escola. [Era] pra ser sobre como colher, plantar tomate, colher tomate, plantar milho, colher milho, plantar trigo, colher trigo… Principalmente trigo no outono, quando era pra colher, Pequim inteira parava todos os trabalhadores, inclusive meus pais; todos eram enviados pra colher o trigo, porque não tinha máquinas, era tudo manual. Era muito divertido, era uma brincadeira total pra gente. Ao mesmo tempo, a gente aprendia como lidar com os animais, os porcos, os bois, que a gente tinha que dar comida, acordar cedo. 

Depois, passados uns dois meses, a gente ia trabalhar em fábricas, daí já seria dentro da cidade. A gente já não dormia fora de casa, mas passava duas semanas, três semanas, todo dia indo trabalhar numa fábrica. Já trabalhei em fábricas de medicina, a gente colocava pomadas em tubos de pomadas, daí fechava o finzinho com um negócio, um ferrinho quente. Punha a pomada e fechava, punha a pomada e fechava. Trabalhei em tornos de borracha também, a máquina que corta borrachas, torno de ferro também. Nisso eu já estava, talvez, com doze anos. Cada ano numa fábrica diferente, cada ano num campo diferente também. 

E no Exército, claro, criança não pega arma, não pega nada, mas você treina com espingarda de madeira, você tem que ficar... Como que fala? Marchando debaixo do sol. De madrugada, às vezes, tocava a sirene e a gente tinha que empacotar todas as nossas coisas da cama e sair à noite, sei lá, levando a gente pra algum lugar, no escuro, na corrida e se abaixar pra atirar, mas nunca com arma de verdade. E isso, sempre, pra nós era normal. 

A gente não tinha uma outra comparação. Todo mundo ia, todo mundo fazia isso e pra nós era muito alegre, era uma coisa diferente; a gente convivia com os nossos amigos chineses, foi bastante interessante, daí você vê como era o dia a dia dos chineses. Nessa época a gente tinha que ir ao banho coletivo - por exemplo: você está num campo, não tem chuveiro, né? Na nossa casa, onde nós morávamos tinha. A gente tinha que ir a um banho coletivo, onde todas as meninas tomavam banho juntas, abertos. Sempre foi muito alegre, foi muito divertido, e ao mesmo tempo com o ideal que isso seria a melhor coisa para o mundo inteiro, que nós, crescendo, levaríamos essa ideologia para o nosso mundo. 

A única coisa que eu falei no início, é que a gente não se sentia… A gente não pertencia à sociedade, entendeu? Toda a sociedade no mundo, até hoje… Por exemplo, quando você nasce na Suíça, até hoje, se você tem pais que não são suíços, você não é um suíço. Na China é a mesma coisa: você nasce lá, mas você não é chinês; se você não tiver sangue, você não é chinês. Isso eu acho que fazia, muitas vezes, a gente ficar triste, porque a gente nunca achou que pertencia àquele lugar. Você pode estar morando lá há anos, mas você não é um deles, você é diferente; um dia você vai embora, um dia você vai voltar para o seu país. E qual era o meu país? Era o Brasil, mas eu, além dos meus pais, não conhecia outros brasileiros; eu conhecia dois casais de portugueses, o resto todo mundo falava espanhol. Quando criança, acho que a gente ouvia e falava mais espanhol do que o português com os meus pais, além do chinês, então a comunicação com os meus pais, enquanto a gente crescia, passou a ser diferente, porque nós não sabíamos falar o português perfeito. Meus pais ensinavam chineses, então tentavam ensinar a gente também, mas como vocês devem saber também, estudar uma língua que você não tem contato nenhum, com ninguém, é muito mais difícil. Quando a gente chegou nos doze, treze anos, a gente já percebia bastante essa diferença, nossos amigos estrangeiros também falavam línguas diferentes. 

Já estava chegando no final da Revolução Cultural, que terminou em 1976, quando o Mao morre e a mulher dele é presa, junto com outros três, que eram chamados de Bando dos Quatro. A partir daí, muitos estrangeiros começaram a sair da China; aqueles que sempre viveram lá começaram a sair, por achar que agora que Mao já estava morto, a China ia se corromper, a China ia virar, sei lá… Reatou relações diplomáticas com os Estados Unidos, então muita gente começou a sair da China. 

O Brasil estabeleceu relações diplomáticas com o governo chinês em 1974 e a Embaixada do Brasil começou em 1975, se eu não me engano. Só aí, com a minha irmã já com nove anos de idade, [é que ela] foi registrada como brasileira, por que até aí ela tinha o nome chinês dela, mas não tinha um registro oficial. A gente não tinha documento, a gente não tinha passaporte, não tinha nada, porque os meus pais voltaram pra China em 1965, tiraram o passaporte e acabou, não tinha embaixada. 

Aí meus pais passaram a ver a possibilidade de podermos voltar ao Brasil. Aos poucos eles deram passaporte pra minha mãe, que não tinha nenhum problema político com o governo brasileiro; pro meu pai é que demorou demais, demorou até a Anistia, quando concederam o passaporte normal para o meu pai. Até aí, o governo ofereceu um passaporte temporário e o meu pai nunca aceitou, falou que não havia cometido nenhum crime, nunca provaram nenhum crime dele, apesar de ficar mais de um ano preso. 

Foi aí que a gente começou a pensar se voltaria pro Brasil ou não. Eu já estava com quinze anos, falávamos só chinês e um português bastante limitado. Eu e a minha irmã já éramos intérpretes dos meus pais; tudo que a gente fazia, a gente já fazia tradução pros meus pais. 

Foi depois da Anistia que os meus pais decidiram, em vez de vir passar férias no Brasil, morar no Brasil, pra ver como seria a situação no Brasil, pra ver se eu e a minha irmã aprenderíamos português; [era] melhor que ficar o resto da vida com sotaque. Foi uma decisão muito difícil, porque eles também tinham medo, meu pai podia ser preso de novo. Era tudo uma incerteza, depois de quinze anos fora do Brasil - o Brasil tinha mudado tremendamente, né? - quinze anos sem ver a família, sem ver nada. Nós tivemos uma conversa bem séria, meus pais e nós, eu e a minha irmã, só que não tínhamos como ter essa conversa sem ter intérprete, daí tinha os intérpretes chineses - os colegas dos meus pais que trabalhavam na Rádio Peking, o noticiário era traduzido pelos chineses, os meus pais corrigiam e faziam a locução. Nós tivemos intérprete pra poder fazer essa conversa séria, de ver se a gente voltaria pro Brasil ou não. Então, em 1980, em janeiro, nós estávamos no Brasil pela primeira vez - eu com quinze anos e a minha irmã com treze.

(32:00) P/1 - E como foi essa primeira, no seu caso, praticamente a primeira chegada no Brasil? Como foi a adaptação, pra você? Como você se sentiu? O que aconteceu com você, nesse período?

R - Bom, antes de chegar no Brasil, nós passamos um mês viajando. Passamos por alguns países, principalmente países latino-americanos. Passamos por Japão, depois Colômbia, Venezuela, Peru e chegamos no Brasil. E eu lembro - México, nós passamos no México também – que, no México e principalmente Peru, que havia muita gente, muitos pedintes pedindo esmola, pessoas bem pobres na rua, crianças. Nós nunca tínhamos visto isso, nunca. Isso era o que a gente aprendeu na propaganda dos chineses, que em país imperialista é assim: cheio de pobre, cheio de criança pedindo comida, pedindo. Foi bastante assustador e meu pai falava assim: "O Brasil é assim. Vocês têm que saber essa diferença, porque agora nós vamos chegar no Brasil". 

Havia um receio, um medo muito grande da incerteza dos meus pais, de como seria, se teria emprego, se ele seria preso. Só que no dia que nós chegamos, nós chegamos no aeroporto de Campinas, no Viracopos, e a gente tinha, talvez, cinquenta, cem pessoas nos esperando - família e amigos dos meus pais, família dos dois lados, com faixas. Fazia quinze anos que a gente, meus pais não haviam estado no Brasil, ninguém nem conhecia a minha irmã. Foi uma emoção tão grande! Só que no aeroporto demorou demais, abriram todas as nossas malas, viram coisa por coisa, eu nem sei se tiraram… Meu pai foi separado, interrogaram meu pai; acho que tudo isso porque a gente estava vindo da China, ainda era o governo militar, apesar da Anistia, então foi assim, uma mistura de medo, uma incerteza, né? O policial perguntando coisas pra mim e pra minha irmã e a gente não entendendo o que eles queriam, coisas assim, mas no fim valeu a pena por toda aquela família, aquela festa, aquela choradeira, aquela gritaria: "Eu sou seu tio, eu sou seu primo, eu sou não sei quem". A gente não conhecia ninguém, ninguém. 

Foi muito, muito emocionante, foi muito bom. Os primeiros… Acho que o primeiro ano, o segundo ano, apesar de a gente ter tido uma dificuldade muito grande na escola pra aprender o português, porque a gente só aprendeu a escrever a, b, c, pra escrever o nosso nome, pra assinar o passaporte, porque nem isso a gente… Eu não sabia escrever Raquel Picchi Martins. 

Aí a gente chegou na melhor idade, quinze anos. Fomos pra Jundiaí, a cidade natal da minha mãe; todos os irmãos da minha mãe, a família da minha mãe é toda de Jundiaí. Os nossos primos [eram] todos mais ou menos da nossa idade, então foi uma liberdade que a gente nunca havia sentido. Nunca havíamos colocado um salto, nunca havíamos botado um batom, uma maquiagem, nada disso - não existia isso na China. Foi a primeira vez também que meus pais deixaram a gente dormir fora de casa, porque nós nunca pudemos dormir na casa de ninguém, mesmo de amigos que cresceram com a gente, que os meus pais conheciam os pais - meus amigos japoneses, nepaleses, americanos, indonésios. Meus pais nunca deixaram a gente dormir fora de casa e pela primeira vez a gente pôde fazer isso na casa dos primos. Nossa, foi muito divertido. A alegria do nosso povo é uma coisa contagiante, então foi impressionante, foi muito bom. 

A única coisa é que brasileiro é muito desconfiado. Assim que a gente falava chinês, todo mundo achava que a gente estava falando mal deles, até hoje isso acontece. A gente não entendia: "Eu não tô falando de você, por que eu tenho que estar falando de você? A gente está acostumado a falar em chinês". As pessoas são muito desconfiadas, acham que [quando] você fala uma outra língua, você está falando mal deles. Essa foi uma parte muito diferente. 

Com quinze, dezesseis anos você sai, começa a paquerar, uma coisa que a gente nem sabia fazer. Foi realmente uma das melhores fases da nossa vida. 

Daí passam dois, três anos e a gente começa a perceber muita diferença. Nós sempre lemos muito, a leitura fazia parte da nossa vida na escola e fora da escola. Dentro de casa, meus pais sempre leram muito. Eu não via livros na casa dos amigos, ou dos primos. Meus pais davam livros de presente de Natal e os meus primos: "Ai, coitada de você. Seu pai dá livro pra você de Natal, meu Deus!" A gente falava assim: "Mas por que não? Por quê?" Era assim: aos poucos a gente foi ver a diferença, a gente tinha uma percepção muito diferente, o pessoal fala assim... Daí começou a ter amigos que não conheciam a nossa história, que duvidavam da nossa história, que minha irmã nasceu na China, que eu cresci na China, [que] fazia só dois, três anos que eu estava aqui. As pessoas não acreditavam: "Fala alguma coisa em chinês", a gente falava e eles achavam que a gente estava tirando sarro: “Não entendi e você podia estar falando bla, bla, bla”, entendeu? (risos) Começou o relacionamento com as pessoas e a gente começou a perceber que bastante coisa era muito superficial, era muito só assim: "Ah, fulano falou, ciclano fez, bla, bla, bla". Isso foi um pouquinho difícil. 

E depois, a questão da religião. A família não é tão religiosa, mas é uma família que cresceu com a religião, então sempre nos... Não provocavam, mas [perguntavam]: "Por que você não acredita? Por que você...?" E nós tínhamos quinze, dezesseis anos. "Não tem por que não, nunca tive uma religião, não tenho necessidade de ter uma religião". E as pessoas não entendiam. Eu não quero dizer que nos pressionavam, mas era uma questão que sempre estava ali, nos questionando de uma coisa que nós não tínhamos resposta, sabe, como se eu ficar interrogando: "Mas por que você é religiosa? Por que você acredita?", pra uma pessoa de quinze anos. Porque acredita, porque cresceu assim, eu não tenho nada porque eu não cresci assim. 

Depois o pessoal [perguntava]: "Você morou na China? Você conhece a Muralha da China?" "Claro, a Muralha da China era quase no fundo do quintal, a gente ia sempre”. Duvidavam dessas coisas. (risos) Passou a voltar um sentimento de que: "Eu não pertenço a esse lugar, eu sou diferente deles". Sabe, era tão estranho, era uma coisa tão estranha, porque eu passei a minha vida, até os quinze, dezesseis anos sabendo exatamente que eu não pertencia àquele lugar, que eu não tinha a mesma cara; nesse lugar eu tenho a mesma cara, mas eu não sentia que era o meu lugar. É uma sensação muito estranha, sabe, que você... "Eu não pertenço a esse lugar também". Passou-se alguns anos assim. 

Eu lembro que nós já tínhamos... Acho que antes da gente vir pro Brasil, em 1980, acho que três, quatro anos antes, é que nós soubemos que tinha festa de Natal, porque até aí meus pais nunca contaram que existia Natal. Nunca soubemos que tinha Natal. No fim da Revolução Cultural os latino-americanos começaram a se juntar pra celebrar o Natal, coisa assim, que a gente passou a ter... Quando nós chegamos no Brasil existia Natal e Réveillon, um em seguida do outro, né? O Natal ainda a gente passava em casa, com família grande, com todo mundo e era muito bom, mas Réveillon era uma festa que nem eu, nem a minha irmã, eu acho que até hoje, não gostamos por causa desse... Você está num lugar cheio de gente, chega meia-noite todo mundo te abraça: "Tudo de bom, não sei o quê". A gente achava aquilo lá tão falso, pra nós é uma coisa tão falsa, que até hoje eu passo dentro de casa, só eu e meu marido; quando as crianças eram pequenas ficavam com a gente, mas já não passo mais. A gente tinha toda uma outra percepção de que muita coisa era muito superficial, não era uma coisa profunda, sabe? A gente precisava de algo a mais. Isso foi difícil, mas foi a melhor parte da minha vida - uma das, aquele trecho lá.

(43:30) P/1 - E depois disso, da decisão de vir pro Brasil, você teve esses pensamentos, essas questões de adaptação, essas comparações que você fez. Você pensou em fazer faculdade aqui ou você resolveu só voltar a estudar mesmo na China? Conta pra gente como foi esse período. 

R - Bom, quando eu fiz dezoito, dezenove anos, arrumei um emprego na antiga Fepasa, a ferrovia paulista. Trabalhei em Jundiaí, no museu da Fepasa; acho que trabalhei um ano lá e fui transferida pra trabalhar em São Paulo, no escritório da Fepasa na [Estação] Júlio Prestes, que hoje é a sala de... Como é que chama? A sala de concertos, Sala São Paulo. Comecei a minha vida independente, morava em São Paulo junto com uma amiga. 

Foi muito difícil, também, pra família entender isso: "Como você vai morar sozinha em São Paulo?" (risos) Pra nós era assim: "Como não, né?" E como, por sorte, meus pais moraram fora, então o costume dentro da minha casa… Até hoje é um costume diferente, nós comemos inclusive diferente, então meu pai sempre apoiou. 

Nós percebemos que até aquela época, no início dos anos oitenta, não havia muitos brasileiros como nós, sem ser descendentes chineses, que falavam chinês perfeito. Não vou dizer que nós éramos únicas, isso é impossível, com certeza havia outros, mas nós não conhecíamos ninguém que falasse chinês. Fomos até a USP que já, desde aquela época, tinha o curso de chinês, que era muito básico naquela época; o professor Sun, da época, falou: "Olha, se vocês entrarem na USP, vocês podem dar aula, em vez de assistir as aulas". Daí nós pensamos que talvez não valeria a pena fazer faculdade por quatro anos e não aprender algo. Então, o meu pai teve a ideia: "Vamos pedir bolsa de estudos." Já que o Brasil já oferecia bolsa da Capes, oferecia bolsa de estudos para muitos países, por que não para a China? Nós entramos nesse processo de pedir bolsa de estudo para a China. 

Nessa época eu estava morando em São Paulo, fiz cursinho e passei numa faculdade que eu nem lembro qual o nome, só para fazer Letras. Fiz por muito pouco tempo e, em 1987, eu e a minha irmã conseguimos a bolsa da Capes pra estudar na Universidade de Pequim. Nós fomos as duas primeiras bolsistas do governo brasileiro pra estudar na China. Pra nós foi muito bom, porque eu estava com 22 anos, a Andreia com vinte anos. Você cresceu, já viu que: "Nós temos que sair daqui pra melhorar, pelo menos o chinês, pra poder depois voltar pro Brasil".

Nessa, meus pais também resolveram voltar à China porque, como nós vivemos tantos anos só nós quatro, foi bastante difícil de os meus pais deixarem as duas filhas irem e os dois ficarem. O meu pai estava trabalhando na prefeitura de Jundiaí, não estava contente com toda a política da situação daquela época. Como os chineses sempre os convidaram, todo ano, pra voltar a trabalhar lá, então os meus pais aceitaram e em abril, maio de 1987, todos nós voltamos pra Pequim. Eu fui com a bolsa pra estudar Literatura Chinesa e minha irmã pra estudar História Chinesa, na mesma universidade. Então, em 1987, fechamos a casa e mais uma vez deixamos tudo e voltamos à China. 

Foi muito dolorosa também a saída, porque nós passamos sete anos aqui. De alguma forma você cria uma certa raiz. Até ali, já tinha todo o costume, eu e minha irmã já tínhamos parado de falar chinês entre nós, só falávamos em português - de tanto os primos encherem a paciência da gente, paramos de falar chinês. E foi muito doloroso, eu tinha um namorado e foi muito difícil deixar… Aquela coisa de jovem, você não quer, mas o retorno foi outra coisa, uma maravilha, sabe? Você retorna à China, é como se fosse uma lua que te serve tudo, tudo é muito familiar, tudo é muito conhecido; tudo você sabe, você não está chegando num lugar novo. Queira ou não, no Brasil, quando nós chegamos, era um lugar novo pra nós, tudo você tinha que conhecer. Lá, a gente voltando, a gente não tinha que conhecer nada novo - apesar da política chinesa, já havia a abertura. Os chineses tinham mudado muito. O pessoal de salto alto, de permanente no cabelo, de maquiagem. Não havia nada disso, a China passou a ter em 1987, quando a gente voltou lá. 

Muitos amigos nossos que voltaram ou que continuaram lá estavam na mesma faculdade, ou na faculdade ao lado. Foi muito bom reconectar com amigos de infância, que sabem tudo de você, sabe qual escola você frequentou; não faltou aquela parte, aquele elo da infância, sabe? Os pais se conheciam. Foi outra alegria  estar lá, apesar de [que], na faculdade, a gente voltou a viver só [com] os estrangeiros, todos os estudantes estrangeiros num prédio e os chineses nos outros. Como eu já tinha passado quinze, dezesseis anos daquele jeito, pra mim aquilo era assim. Não tinha como mudar isso, por que eu iria contra isso? 

Foi uma redescoberta, uma alegria muito grande de estar lá. Já havia um pouquinho mais de brasileiros, mais diplomatas; já havia algumas empresas brasileiras, o Banco do Brasil começando a abrir uma agência, a Petrobras começando, algumas empresas brasileiras querendo fazer negócio com a China. Imediatamente, eu e a Andreia, minha irmã, já começamos a ser intérpretes, porque a gente já... Não havia brasileiros lá que falavam chinês, só nós e filhos de chineses que falavam chinês, né, brasileiros que voltaram à China. A gente logo começou a estudar e trabalhar ao mesmo tempo em exposições, algumas empresas que nos contratavam pra fazer tradução e visitas de empresas, compras de máquinas. Foi quando a gente começou a fazer a tradução como trabalho mesmo. 

Isso [foi] até 1989, quando a minha faculdade e a da minha irmã também, a nossa faculdade, começou o Movimento Estudantil, o famoso Movimento Estudantil e o incidente da Praça da Paz Celestial, que é famoso no mundo inteiro. Começou dentro da nossa escola, nós vimos tudo isso nascer, nós vimos os estudantes irem às ruas, ir até a praça e nós participamos disso como observadores. A gente já estava trabalhando como intérprete pra muitas mídias internacionais, televisão canadense. 

Eu ficava muito com o meu pai - meu pai é jornalista, né? Quando ele voltou, em 1987, ele passou a ser correspondente de vários rádios e jornais do Brasil e era o único correspondente brasileiro na China durante todo aquele movimento, que durou dois meses. Vimos tudo: vimos a greve de fome, vimos os líderes chineses não quererem conversar com os estudantes; todos os dias estávamos na praça, vendo o que estava acontecendo com os nossos colegas chineses, nossos amigos chineses. O pessoal todo mundo acampado, milhares de pessoas na praça. 

Era uma coisa tão emocionante, porque tanta gente protestando, milhares… Tinha dez mil, não sei quanto, não posso te dizer quanto, vinte mil pessoas na praça. Você não tinha um pingo de medo, não houve um quebra-quebra de briga, nada, não teve saques, sabe? É tão diferente de outros países… Quando há um movimento de povo sempre tem quebra-quebra; os chineses não, eles têm o objetivo deles, pedirem a democracia, mas que não quebre nada, que não faça briga entre eles. 

Foi uma época muito intensa, muito emocionante. A gente ficava dia e noite ali e não existia celular. A gente tinha que... De alguma maneira nós sabíamos, do nosso círculo de amizades, quem estava onde, com quem, em que hora, que hora vem, que hora vai, a que hora nós iríamos lá. 

Foi uma situação muito intensa que nós vivemos, não de medo e sim de estar lá, vendo e participando, sabe? Até que houve o dia quatro de junho, do dia três para o dia quatro de junho, a invasão do exército chinês para o centro da cidade - pelos quatro cantos, porque Pequim é uma cidade planejada, né? Ela é quadrada, você tem as quatro entradas: norte, sul, leste e oeste, pro centro da cidade. Uns dias antes, nós já sabíamos que os tanques militares estavam rodeando, já estavam querendo cercar a cidade de Pequim. Ninguém acreditava que isso pudesse acontecer. Imagina, nem os japoneses fizeram isso, o próprio governo chinês vai querer botar tanque no meio da cidade contra os estudantes, que nem tinham uma pedra na mão, porque não tem uma pedra na praça. 

Nós saímos da praça acho que era umas cinco, seis horas da tarde; fomos pro lado leste da cidade, caminhando, até chegar na casa de alguns brasileiros. Meus pais estavam lá também. Muita, muita gente na rua, muita criança, velhos e o exército já estava lá por perto; a gente já via os caminhões com os soldados parados embaixo de viadutos e os chineses, os residentes de Pequim, gritando: "O que vocês estão fazendo aqui? Por que vocês estão aqui? Nós somos só o povão aqui, não tem nada, vão embora." Até que chegou acho que era noite já, bem tarde, onze horas, meia-noite e começamos a ouvir barulhos. A gente estava no meio da avenida e junto com o pessoal da Embaixada do Brasil, porque era muito perto da Embaixada do Brasil onde nós estávamos, então tinha o embaixador, o pessoal que estava ali com a gente e meu pai falou: "Deve ser o bombeiro, com a água de pressão vindo." Todo mundo começou a se afastar pros lados, até que nós vimos [que] eram tanques entrando na nossa frente. 

Aquilo foi tão impressionante, foi um barulho tão ensurdecedor. Ninguém nunca tinha ouvido aquilo no centro da cidade, no meio da gente, de velhos e de crianças, sabe? O pessoal não tinha nada pra se defender, [era] só o pessoal se afastando e aqueles tanques, brrrrrrr, entrando. Um rapaz - talvez a turma dele tivesse ficado do outro lado da rua - foi atravessar bem em frente do tanque; nós vimos o tanque passar por cima dele. Quando passou, não sei quantos, dez, eu não sei quantos tanques passaram, os chineses estavam furiosos; gritaram pra nós, que éramos estrangeiros: "Cadê a câmera? Filma isso, mostra lá pra fora". 

Nossa! Foi tão inacreditável, tão impressionante. Nunca ninguém pensou que isso pudesse acontecer, que o próprio governo não conseguiu lidar com os estudantes e  mandou tanques pra rua. 

Foi a noite inteira o tiroteio. Eles atiraram nos apartamentos, porque tinha apartamentos, os condomínios diplomáticos ficavam em frente daquela avenida. Ta- tata-tata-tata. A gente ouvia a noite inteira. E a minha irmã não estava com a gente, estava com outros jornalistas canadenses, em outro lado; naquela época o telefone não era como hoje em dia, né? Foi assim, até saber onde as pessoas estavam, onde os amigos estavam; foi muito difícil. 

Eu acho que a gente chorou muito, mas a decepção era maior do que a tristeza.  Meus pais, que voltaram pra Pequim em 1987 pra trabalhar na rádio, vendo tudo isso acontecer e a rádio tendo que dar outra notícia, dizendo que não, que os estudantes que mataram alguns soldados - realmente, queimaram alguns soldados, dois ou três soldados - e que o que nós vimos, tanques entrando e matando gente, não era verdade… Aquilo foi uma decepção tão grande, acho, pro meu pai; meu pai que foi preso por causa do golpe e nunca pensou que o militar ia tomar conta das ruas de Pequim também, sabe? Isso foi muito, muito triste, muito... Como vou dizer? Não só triste, mas chocante, pra nós. E como essa situação perdurou por vários dias - tinha toque de recolher, lei marcial, que não podia sair na rua e houve boato de que haveria uma briga interna de facções dentro do não sei o que, que haveria uma guerra dentro de Pequim - o governo brasileiro resolveu retirar todos os brasileiros de Pequim. O Itamaraty fretou um avião do Paquistão, nos tirou de Pequim pra Tóquio e de Tóquio nós pegamos a Varig de volta, nós fomos todos de volta para o Brasil. 

Daí foi… Até aí, todas as reportagens daquela época foram feitas pelo meu pai - d’O Globo, acho que a Folha, o Estadão, fora rádios, então a gente estava muito em evidência. Fomos entrevistados pelo Estadão, depois [pela] Hebe Camargo. 

Eu acho que eu nunca tinha visto o meu pai chorar até ali, acho que foi a primeira vez que ele se emocionou e chorou, por causa de tudo isso que aconteceu. E ali, ele falou que ele não voltaria à Pequim - ele tinha contrato de trabalho ainda - nessas circunstâncias. E eu fiquei assim... Eu tinha feito dois anos de faculdade. Eu falei: "Eu vou voltar, eu não vou ficar aqui. Eu quero terminar a faculdade, não quero acabar e começar outra coisa no Brasil, de novo." 

Eu já estava namorando o que hoje é meu marido e que estava lá em Pequim.  Minha irmã resolveu ir pros Estados Unidos, porque já tinha alguns colegas dela [lá]; ela estava namorando um dos líderes dos estudantes, do movimento e ele conseguiu fugir da China, foi pros Estados Unidos. Minha irmã resolveu ir pra Boston, foi terminar os estudos dela nos Estados Unidos. 

Meu pai resolveu ficar no Brasil e chegou a questão da minha mãe, o que a minha mãe faria. Daí a minha mãe, coitada, sempre foi atrás do marido, né? Foi à China pra casar com o meu pai, depois ficou na China tanto tempo por causa do meu pai, que não tinha passaporte, devido à situação política, depois voltou pro Brasil; meu pai quis voltar, minha mãe voltou pra China. Dessa vez ela falou: "Ah, não, eu vou voltar pra China. Eu vou pelo menos empacotar a minha casa, fechar a casa e trazer tudo pra cá". Daí eu e minha mãe voltamos pra Pequim, minha mãe ficou um ano lá pra terminar o contrato de trabalho dela e fazer a mudança dela pro Brasil. Minha mãe voltou no final do ano de 1990 e eu fiquei [lá] até acabar a faculdade, em 1991. Essa é mais uma parte... Como que fala? [Mais uma] página que é virada.

 

(PAUSA)

 

(01:04:47) P/1 - Voltando, então, Raquel, à nossa entrevista, você disse então que você concluiu a sua faculdade em Pequim. Quais foram os próximos passos que você tomou na sua vida, depois disso?

R - Eu me formei em 1991 pela Universidade de Pequim e, como eu já estava namorando o que hoje é meu marido, o Matt, então nos casamos em seguida - me formei em junho e casei em agosto. Por causa do problema da [Praça] Tiananmen, em 1989, muitas empresas saíram de Pequim, foram pra Hong Kong ou pra Singapura, e a empresa onde o Matt trabalhava foi pra Hong Kong, então, quando eu me casei na Finlândia, nos mudamos pra Hong Kong. 

Em Hong Kong, nós tivemos a nossa primeira filha lá, daí veio o problema da língua: que língua nós vamos falar com a nossa filha. Até aí o Matt já estava estudando português e já estava entendendo um pouquinho, então nós decidimos que eu falaria em português e ele falaria em finlandês. Como eu não falava nada de finlandês, então resolvemos morar na Finlândia, por dois anos. 

Em 1993 fomos pra Finlândia. Lá nós ficamos dois anos, aprendi a falar finlandês. [Foi] onde nós tivemos nossos gêmeos. Mas como nós dois falamos chinês e naquela época ainda não havia muitos estrangeiros que falassem bem chinês, que é... Como que fala? Nós somos bilíngues. Eu tenho duas línguas A, porque eu falo tão bem português quanto o chinês, então as empresas pedem pra gente voltar.

Voltamos pra Hong Kong em 1995, com as crianças pequenas; vivemos mais seis anos em Hong Kong, até 2001. Até que, quando chegou 2001, nós percebemos que nossos filhos não conseguiam aprender a falar mandarim. Como eu e o Matt falamos chinês entre nós, porque é a língua comum… Pra mim sempre foi chinês a minha primeira língua, português é a minha língua materna; quando eu o conheci, o meu chinês era muito melhor do que o meu inglês. Como o inglês não faz nem parte da minha vida, nem da parte dele, apesar dos dois falarem inglês, foi natural falar chinês, eu e ele. Quando a gente percebeu que os nossos filhos não estavam falando chinês, nós resolvemos voltar pra Pequim. 

Já fazia dez anos [que eu tinha saído de Pequim]. Eu ia todo ano. A minha irmã também voltou a Pequim em 1994, uma coisa assim; ela terminou a faculdade nos Estados Unidos e voltou pra Pequim, pra trabalhar. E a gente em Hong Kong, nós íamos todo ano pra Pequim também, então Pequim é onde eu me sinto mais confortável até hoje. 

Nós voltamos a Pequim por causa dos nossos filhos, que não conseguiam aprender a falar mandarim em Hong Kong. Já é a segunda geração que cresce na China, que fala chinês. Eu cresci falando duas línguas e eles cresceram falando quatro idiomas dentro [de casa]. Nós estamos que nem [uma] pequena [Organização das] Nações Unidas: falamos português, finlandês, inglês e chinês dentro de casa. Eu e o marido falamos chinês, com os filhos falo português, ele, com os filhos, fala em finlandês e as crianças entre eles falam inglês, porque eles estudaram em escola internacional. Então, quando nós estamos todos juntos, por exemplo, se nós estamos almoçando, eu falo português, o Matt responde pra mim em chinês, ou ele fala alguma coisa em finlandês e eu respondo em português; as crianças, depende pra quem respondem: pra mim em português, pro pai em finlandês. (risos) Temos quatro línguas funcionando ao mesmo tempo, na mesma mesa, mas dentro de uma sentença tem que ser uma língua só, não pode misturar palavras de outras línguas, inserir palavras de outra língua. A gente sabia: se a gente misturasse as palavras, a gente ia criar uma língua nova dentro de casa, isso a gente não queria. (risos) 

Pra nós foi muito importante de enfatizar, falar línguas, para os nossos filhos poderem conversar com os nossos pais porque, se eu não falasse português com os meus filhos seria muito difícil falar com os meus pais, apesar de eles falarem um pouquinho de chinês, mas não dá pra ter uma conversa completa e não falar com os pais do Matt também, então eles falam. Foi muito difícil no início, porque eu cresci fora do Brasil, então tem muitas coisas, tem muitas palavras que eu fico: "Ai, é feminino, é masculino, é artigo, é...". Se você... o Matt, às vezes, fala assim: “Caixa de ferramentas, como chama isso?" "Não sei, não sei". Então, tem muita coisa que, pra mim, não faz parte do meu vocabulário também. Se perguntar coisas do carro, eu também não sei como se chamam todas as peças. 

As crianças muitas vezes não entendiam por que as pessoas - quando eles tinham quatro, cinco anos – falavam: "Fala isso em finlandês, fala isso em português". Eles não entendiam o que as pessoas estavam pedindo pra eles, porque eles não sabiam que falavam línguas diferentes. Só sabiam que com a mãe fala assim e com o pai fala assim. Eles não sabiam que falavam línguas diferentes até chegar a uns vinte anos, foi quando eles perceberam: "Uau, nós falamos quatro línguas diferentes”. Todo mundo fica: “Uau". Daí eles agradecem. 

Foi bastante trabalho, mas hoje em dia é uma maravilha, porque eles podem conversar com os meus pais, vêm pro Brasil, conversam com qualquer... Eles têm sotaque, claro; é bem trabalhoso, mas nós insistimos e deu certo. 

Em 2001, meu marido foi trabalhar pra empresas finlandesas de tecnologia e eu passei a ser professora de chinês nas escolas internacionais, mas na maior parte eu fazia traduções. Trabalhei com vários presidentes brasileiros visitando a China, muitos senadores, ministros, governadores, prefeitos que iam fazer visita à China e eu acompanhava, inclusive, seminários, reuniões governamentais ou simpósios. Passei a fazer mais traduções do que dar aulas. 

Quando eu dava aula de chinês nas escolas internacionais, meus alunos eram filhos de chineses; muitos filhos de chineses migram para os Estados Unidos, conseguem nacionalidade americana, voltam à China, mas os filhos só falam, não leem e não escrevem, porque chinês, se você não sentar e aprender, você é analfabeto; você só fala, você não lê e não escreve. A maioria eram filhos de chineses, então era bastante interessante também: os pais não entendiam como uma brasileira pode ser filha de chinês, o meu filho (risos) tinha muitas reuniões interessantes para os pais. Passei a fazer essas duas coisas. 

O mais importante nesse [período], até 2016, [é que] consegui fazer um grupo de brasileiros, chamado Brasileiros em Pequim, Brapeq, porque eu sempre achei importante divulgar a cultura brasileira na China. A China é um país muito homogêneo, tem só chineses, nenhum estrangeiro vai pra ficar lá. Mesmo morando lá por tanto tempo - eu sou nativa, falo como eles - eu não sou chinesa, nunca serei chinesa, não existe nacionalidade chinesa que se dá aos estrangeiros. Hoje em dia eles dão pra alguns jogadores de futebol, pra jogar na seleção chinesa, mas pra pessoas como eu, meus amigos, que nasceram, cresceram lá, inclusive os pais faleceram e são enterrados lá, não têm nacionalidade chinesa. Então, eu falei: “Bom, eu sou brasileira, gostaria muito mais de divulgar a cultura brasileira e também pra ajuntar os brasileiros na China, né?” 

Os brasileiros que vão à China, ou estrangeiros em geral, geralmente são altos executivos ou professores ou cientistas; não tem motorista de táxi estrangeiro, não tem mão de obra barata estrangeira. Tinha gente que escrevia pra mim: "Me indica uma loja eletrônica onde tem vendedor brasileiro". Não existe isso. "Me indica um motorista de taxi brasileiro". Não existe isso, porque por causa da superpopulação tem que ter trabalho pra eles, então não há estrangeiro que faça mão de obra barata, sempre [são] mais altos executivos lá. E isso gera um problema, ninguém fica. O pessoal vai, fica três, quatro anos, cinco anos, pode chegar a dez anos, mas no fim vão embora. 

Pra divulgar a cultura brasileira foi muito difícil, porque você não tem... Não são como os chineses que vêm para o Brasil e ficam gerações, qualquer nacionalidade vem pra cá e fica gerações. Lá é muito difícil, então a rotatividade das pessoas é muito grande. Consegui juntar uma turma boa lá. O que eu queria mais divulgar era cinema, filmes brasileiros e festa junina, porque eu sempre achei que tem muitos jeitos de você saber como é o Carnaval, tem muitos jeitos de você saber como é o futebol, mas a festa junina, se a gente não mostrar, ninguém sabe o que é uma festa junina. 

Por vários anos nós conseguimos juntar turmas brasileiras pra fazer uma festa bem típica, só que em junho, no hemisfério norte é verão, então não há aquele frio pra tomar quentão, essas coisas. Mas o resto tinha: canjica, essas coisas, música, dança, correio, inclusive pra mostrar pros meus filhos como era uma festa junina, porque eles nunca vinham pra cá nessa época do ano. Foi bastante interessante ver a reação dos chineses, era bastante divertido. 

Festival de cinema brasileiro na China eu consegui fazer por vários anos, com pessoas super interessadas em cinema, conhecedores de cinema que estavam morando em Pequim, que conheciam as pessoas daqui, pra poder a gente saber quais são os novos filmes, inclusive alguns filmes clássicos brasileiros, pra poder mostrar na China. Só que, na China, um país comunista, tudo é muito censurado, então você não pode querer fazer um festival sem uma permissão, sem o filme passar pela censura. Tem alguns filmes que a gente sabe que não passa na censura, a gente nem cogitava. Filme que menciona ditadura militar brasileira não passa na censura, filme que tem muitas cenas de sexo não passa na censura, então a gente geralmente contratava os diretores ou produtores, uns dez, doze filmes e mandávamos pra censura. Só que eu, como Raquel Martins, não podia mandar pra censura, eu tinha que ir através do canal do governo brasileiro. A Embaixada do Brasil sempre me ajudou, porque a Embaixada tinha que levar esses filmes para a censura. 

Eles têm um departamento que assiste tudo, filme por filme, e depois me dá meia dúzia, cinco filmes, autorizando passar. Só que eu não posso passar em qualquer cinema, só tinha um ou dois cinemas que eu podia passar. Só depois de eles terem autorizado eu vou fazer a tradução do filme pra pôr legenda em chinês, porque a  nossa preocupação, do grupo, que sempre me ajudou muito, é pra o público chinês. Não é pra nós, brasileiros, que tem duzentas pessoas em Pequim pra assistir, e sim pro público chinês. Então, pra traduzir, pedimos ajuda das escolas, dos institutos, universidades, onde havia curso de português. Tem várias universidades em Pequim que têm curso de português, principalmente intercâmbio com universidades portuguesas; muitos alunos aprendem o português de Portugal e muitos deles também tem alguns professores brasileiros lá - inclusive eles têm intercâmbio com o pessoal do Rio Grande do Sul, mandam alunos chineses pro Rio Grande do Sul, por um ano. Os professores de línguas, brasileiros ou portugueses, ajudavam os alunos a traduzir os filmes; eu fazia um ou dois. Dependendo do filme, fazia eu sozinha. 

Eu checava todos os filmes, porque eu era a pessoa que passava pela qualidade, pra ver se tudo estava certo porque os chineses falavam perfeitamente o chinês, mas não conheciam perfeitamente o português e os professores de língua portuguesa não conheciam perfeitamente o chinês, então eu era a pessoa que estava ali, checando tudo. Tinha coisas interessantíssimas, por exemplo: "Ai, eu comprei um apartamento na planta", então na tradução pôs assim: "Comprou apartamento com uma planta", que nem essa que está atrás de mim (risos). Entendeu? Daí tinha assim: alguns alunos me conheciam, me ligavam e falavam assim: "Mas, escuta, no filme eles vivem falando 'minha nossa'. É minha ou é nossa?" (risos). Tinha muitas coisas que só você, como brasileira, entende e tinha coisas que estava traduzindo que são tão nossas que você nem ensina pra eles; 'minha nossa' é coisa religiosa, minha Nossa Senhora, (risos) então era bem interessante. 

Esse [festival de] filmes geralmente acontecia em novembro. Nos primeiros anos nós fizemos em Pequim, depois nós passamos a fazer em Xangai. Xangai era um pouquinho mais liberal e a gente podia contatar diretamente os cinemas, senão eu tinha que ter autorização da censura; se você não tem autorização da censura, o filme não passa. Passamos muitos filmes, principalmente documentários, vários documentários. Nós passamos alguns filmes de desenhos também e filmes sobre… Por exemplo, que eu me lembro de repente, agora, é do Luiz Gonzaga, do Heleno, jogador de futebol. Os chineses tinham bastante interação.

Depois do segundo ano conseguimos fazer patrocínio com algumas empresas, como a Vale, o Banco do Brasil, algumas empresas que estavam em Pequim e que às vezes podiam doar um dinheiro pra nós. A gente conseguiu trazer a TAM também e trazer alguns diretores, alguns produtores e atores pra China; faziam perguntas, depois assistiam o filme, podia ter uma interação, então foi bastante interessante.

Infelizmente esse projeto, quando a gente sai da China… Como o grupo todo que me ajudava - era uma moçada superbacana - estava lá trabalhando como jornalistas,  ou eram casados com algum estrangeiro que estava trabalhando por lá, brasileiros, que a gente podia fazer… Todo mundo foi embora, aí falta mão de [obra] e a gente não consegue continuar isso. 

Os nossos filhos cresceram e resolveram fazer faculdade na Europa em 2014. [Em] 2012, minha filha mais velha, Carol, resolveu ir pra Londres; depois chegou a vez dos gêmeos, foram todos pra estudar na Europa e a gente passou a ter uma certa dificuldade de vê-los porque, como eu falei, a gente não tem uma nacionalidade chinesa, a gente não tem um green card como nos Estados Unidos, então toda a vez, pra eles irem pra casa, eles tinham que pedir o visto e toda vez, pra pedir o visto, você tem que ter pelo menos duas, três semanas de férias, então ficou um pouquinho mais difícil deles viajarem pra China. Era muito mais fácil nós sairmos, porque nós tínhamos visto de trabalho pra morar na China. 

Teve uma oportunidade do meu marido trabalhar na Finlândia. Pensamos bastante se a gente devia sair um pouquinho da China. Resolvemos ir morar na Europa um pouquinho, porque até ali, em 2016, quando nós saímos, já fazia 45 anos que eu estava morando na China e o Matt, 35 anos. A gente falava que queria ficar mais perto das crianças, então em 2016 tomamos essa decisão. Em abril de 2016 nós nos mudamos pra Helsinque, na Finlândia, onde eu moro hoje; tô de férias nesse momento, nesse vídeo, no Brasil, mas moramos na Finlândia. 

O projeto do cinema parou, o projeto todo. A Embaixada do Brasil, de vez em quando, tem feito isso, mas não uma coisa mais sistemática. Mas hoje em dia o problema da censura… Deixa eu só voltar um pedaço da censura, quando nós começamos a fazer [o festival]: pra censura não precisava ler a legenda em chinês; eles liam em inglês, porque todos os filmes brasileiros vêm automaticamente com o inglês. Depois de 2015 ou 2014 eles passaram a exigir ao contrário: você tem que ter a legenda em chinês pra passar na censura. Eu falei: "Mas como é que eu vou... Não tenho dinheiro pra gastar, pra traduzir uma dúzia de filmes e vocês me autorizarem meia dúzia! Não tenho como fazer isso. Eu só posso fazer com poucos". Daí, então, esse projeto a Embaixada faz de vez em quando, mas já não é assim, sistemático.

(01:27:22) P/1 - E indo um pouquinho pra questões mais pessoais, apesar de você já ter falado sobre várias delas aqui, como foi pra você ser mãe dos seus filhos nessas mudanças de países? Enfim, como foi pra você ser mãe?

R - Eu acho que pra todo mundo, ser mãe é um grande mistério. No começo, quando você está esperando, é um grande mistério, né? Ainda mais quando você... Pra mim nem tanto, porque meus pais já moravam fora, eu cresci fora, mas se você casar com uma pessoa que não é nem chinês, nem brasileiro, é um finlandês, tem todo um outro idioma… Apesar que em alguns costumes nós somos iguais: a gente come com garfo e faca, a gente tem Natal, Páscoa, tem essas similaridades, mas a cultura dos finlandeses e dos brasileiros são bem diferentes. 

Eu sempre falo que brasileiro e chinês são muito parecidos, né? Nós somos barulhentos, nós somos de falar alto, nós somos de festa; é família, três, quatro gerações, é o tio, avós, é todo mundo, a comida é farta. Os finlandeses não, os finlandeses são bem reservados; são bem silenciosos, não falam alto, não falam muito. Eu sempre digo que foi sorte nossa da gente estar morando na China pra criar os filhos, porque não era nem a minha cultura brasileira e nem a cultura finlandesa; a gente teve como criar a nossa cultura dentro da nossa casa, não tem ninguém dando palpite. “Ah, mas não come feijão todo dia. Ah, mas não faz isso todo... não sei o quê", sabe? Isso foi bom. 

Claro que a gente teve divergências. Por exemplo, quando a mais velha nasceu, eu falei: “Ah, não, ela vai pra creche"; o meu marido falou: "Eu nunca fui pra creche", eu falei: "Mas eu sempre fui pra creche". (risos) Teve esse tipo de discussão e de, inclusive, furar a orelha de meninas. Falei assim: "No Brasil fura no hospital." "Ah, jamais". Então, sabe, teve muitos... Não brigas, mas uma preocupação. Como eu já cresci dentro de uma família brasileira numa cultura chinesa, então eu acho que a adaptação é mais fácil, mais aceitável, sabe? Como eu cresci sem religião e meu marido é luterano, mal pra mim não vai fazer. Quer batizar, quer que siga a religião, que siga, mas eu não sou... Pra mim, religião não é uma coisa ruim, é uma coisa que você tem se você precisa e não tem quando você não precisa. Pra mim não faz grande diferença se você não é uma pessoa de índole correta, então vai; se você quer, você prefere, então sigamos e você que os leve e explique tudo, porque eu não sei de nada. Então, não houve briga, pra mim isso não faz a diferença. Depois as crianças crescem, ainda mais num país que é comunista, mas que tem muitas coisas budistas; eles que se virem depois pra entender o mundo nessa parte da religião. Mas uma coisa nós sempre enfatizamos: a religião não é pra você ser super religioso. Toda a cultura ocidental é baseada na religião, todos os feriados, todas as músicas eruditas, a literatura, tem muita coisa, você não tem como falar assim: “Eu vou negar e não vou aprender.” É aprender como [se] aprende química, física, biologia; aprende religião também, entendeu? 

Eu acho que se tivesse ficado na Finlândia, criado meus três filhos [lá], teria sido muito mais difícil, porque lá é uma sociedade bem mais quieta... Como eu vou falar? Eles são mais frios. Não tô falando que é ruim, tá, eles são diferentes; isso não quer dizer ruim, eles são muito mais independentes, sabe? Eu, como filha de brasileiros e cresci na China, a gente quer ajuda, a gente quer família. Lá não tem, eu não tinha nem família, meu sogro e sogra já eram de idade, já não podiam me ajudar no dia a dia, então, pra mim, ter sido mãe fora da Finlândia foi bom, porque eu podia ter ajuda em casa, podia ter alguém que viesse limpar a casa quando... Isso, pra mim, foi muito bom. E tomar muito cuidado em criar na sua cultura e perceber que as outras culturas são diferentes, né? Os meus filhos também tiveram amigos do mundo inteiro, desde a África até latino-americanos, chineses, filhos de chineses e tudo isso e você tinha que ter... Não falar exatamente isso, mas assim: "Mas nessa casa se faz assim", sabe? Não menosprezando o que os outros não façam. 

Nós tivemos, por exemplo, a sauna, que a gente diz sauna seca no Brasil. É uma sauna típica da Finlândia -  inclusive a palavra sauna é finlandesa. Todo finlandês vai à sauna, tem sauna dentro de casa. É um evento familiar, a família vai à sauna juntos, pelados, inclusive você pode ir com os amigos pelados. É muito comum pra gente, mas quando as crianças começaram a crescer, com doze, quatorze, essa idade, a gente teve que... Quando eles tinham os amigos dentro da nossa casa, nós não fazíamos sauna pra não estar de toalha, porque os americanos não iam aceitar isso. "Ah, imagina, fulano de tal, o pai estava de toalha", entendeu? A gente tinha que tomar certos cuidados culturalmente, que pra nós não querem dizer nada, mas pro outro quer dizer um escândalo. Tudo isso você tinha que pôr na balança, medir como é. Também o pessoal que, com quatorze, quinze anos, se pode ou não pode tomar uma cerveja com os pais, tomar um vinho; tem família que não, tem outra que pode, sabe? Então, teve toda essa... É uma conversa que tem que ter e a gente resolver pra que lado vai; concordou aquilo, tem que ser aquilo. Para as crianças terem uma diretriz que nós somos diferentes, porque já temos duas culturas e ainda tem a terceira cultura do país. 

Como eu já cresci na China, eu fiz muita questão deles respeitarem muito a cultura chinesa, porque faz parte de mim, está dentro de mim. Não menosprezar, porque tem muitos estrangeiros que passam alguns anos na China e não aprendem nada da China, compram tudo barato da China, acham que a China só tem coisa barata e aí menosprezam a China. Tomei muito cuidado com os meus filhos [pra que] falassem chinês, estudassem chinês e respeitassem a cultura, as pessoas. Mesmo que eles nunca aceitem a gente sendo estrangeiro, mas tem que respeitar a cultura chinesa. 

Os meus filhos, pelo menos os gêmeos, querem muito voltar - assim que terminarem a faculdade, trabalharem alguns anos fora - à China. A mais velha já está mais ou menos juntada com um inglês, então fica mais difícil de sair. 

Muita gente pergunta pra mim: "Onde é a sua raiz?" e eu passei muito tempo pensando nisso: "Onde que é a minha raiz? Será que eu preciso de uma raiz? Pra que eu preciso de uma raiz, se eu me mudo tanto? Raiz não sai do lugar, (risos) por que eu vou ter uma raiz?" Foi interessante, alguns anos atrás, aqui no Brasil, nem me lembro onde, o pessoal falou assim: "Olha lá, é uma bromélia que cresce na árvore." Eu falei: "Está aí, sou uma bromélia. Não preciso de raiz, eu tô numa árvore, fico lá e depois, se eu quiser ir pra outra, eu vou.” (risos) Acho que a gente tem que mudar muito o nosso conceito de que você nasceu e você pertence, tem que ter uma raiz; só se você passou muito tempo no mesmo lugar, na infância. Como eu não passei, então eu acho que dá pra ser uma bromélia mesmo. (risos)

(01:37:51) P/1 - Bom, então vamos pras últimas perguntas, Raquel, pra finalizar. Primeiramente, quais são as coisas mais importantes pra você, hoje em dia? 

R - Pra mim, hoje em dia, é nunca parar de aprender alguma coisa, nunca menosprezar ninguém. Isso, pra mim... Nunca menosprezar ninguém, mesmo que você veja alguém fazendo coisas erradas. Às vezes você encontra pessoas brutas, que têm uma reação, mas você não sabe o que está acontecendo com a pessoa. E sempre aprender. Eu sempre fico perguntando: "Mas por quê? Por que assim? Por que assado?" Eu acho que a gente não... Pra mim, o mais importante - eu tô com 57 anos - o que a gente não pode é parar de aprender e todo dia ter uma curiosidade. [Se] olhar pra planta tem curiosidade, [se] olhar pro céu tem curiosidade, [se] olhar pra tudo tem uma curiosidade. Isso, pra mim, é o mais importante. 

(01:39:06) P/1 - Ah, uma coisa que eu esqueci de perguntar: o nome dos seus filhos e a idade deles. 

R - A minha filha se chama Carolina, a mais velha, ela tem 29 anos hoje. Os meus gêmeos são Valter e Idalina, os dois têm 26 anos. É um casal de gêmeos.

(01:39:28) P/1 - Certo. E quais os seus sonhos pro futuro, Raquel?

R - Ah, vixe, eu tenho um monte de sonhos! Primeiro que quero conhecer mais lugares. Conheço alguns, bastantes, mas eu quero conhecer. Acho que eu sou a única pessoa que, quando viaja não sente falta de casa. Eu jamais tenho saudade de casa, nem do banheiro, nem do travesseiro, nem do meu cobertor, de nada, nunca falo assim: “Melhor voltar pra lá.” Não acho. Dessa vez já estou há dois meses no Brasil; meus pais são idosos, meu pai já está com quase 92 anos e minha mãe com quase 84 anos, então, já que pode trabalhar online agora, home office, então eu e meu marido viemos pro Brasil e pensamos em poder ficar aqui por mais tempo, eu estar com eles por mais tempo, porque está na hora, né? Meus filhos já não precisam de mim. 

Planos de estudar… Eu quero qualquer coisa. Acho que eu vou passar na prova, pra você ter a cidadania finlandesa eu preciso passar numa prova de História e de língua. Isso acho que já tô bem, não tenho problemas com isso, mas estudar, quem sabe? Agora eu tô estudando sobre feminismo e também quero, sei lá, corte e costura, não parar de aprender a fazer as coisas, não importa, não vou falar que... O meu marido insiste: "Por que não aprende a tocar piano?" Quem sabe? (risos) 

(01:41:20) P/1 - Vamos pra última pergunta, Raquel: o que você achou de contar a sua história pra gente, hoje?

R - Ah, ótimo. Realmente, às vezes, a gente passa a pensar coisas que a gente geralmente não pensa, né? Eu só dei uma pincelada na minha história pra vocês, porque tem muitos detalhes da nossa vida, mas isso seria por horas. Acho ótimo e  muito legal isso que vocês estão fazendo, acho bastante interessante. Eu sempre... É uma das minhas curiosidades quando, por exemplo, eu tô num lugar, num show ou num teatro; quando se está num lugar com muita gente e você não conhece ninguém, eu sempre falo assim: "Puxa, cada história essas pessoas têm! Qual será a história? Cada um deles tem uma história pra falar", sabe? Eu sempre pensei nisso. Inclusive, eu faço parte de grupos de mulheres lá na Finlândia e eu sempre sugiro: "Gente, vamos escolher uma pessoa por mês e contar a história dela, você não sabe de onde ela vem, onde ela nasceu". Eu acho muito legal esse trabalho de vocês e eu tô até com inveja, viu? Acho que vou começar alguma coisa que nem vocês, porque é tão interessante, sabe? 

Eu e meu marido, [na] semana passada fomos à Minas e a gente... Eu sempre falo que na Finlândia as pessoas falam tão pouco, que eu sinto falta… Em inglês se chama small talk, quer dizer, uma conversa numa loja: "Oi, tudo bem?" Não tem isso lá, muito pouco, muito raro. No Brasil, você entra numa loja e a pessoa conta a vida pra você: "Ah, meu pai teve não sei quantos filhos, depois meu pai, a minha mãe e depois não sei o quê", sabe? A gente começou a gravar essas histórias depois. A gente voltava pro hotel ou dentro do carro nós mesmos gravávamos o que o cara contou pra gente, porque é tão interessante. (risos) 

Eu acho muito legal o trabalho de vocês. Se puder ter um espaço físico, a gente um dia vai aí visitar. Tudo, por enquanto, online, né? 

(01:43:47) P/1 - Bom, então, em meu nome e em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece muito a sua participação hoje.

R - Obrigada, gente, muito obrigada, adorei. O que precisar, se precisar de mais gente ou diferentes assuntos, eu posso ajudar vocês, talvez, a encontrar alguém.

(01:44:07) P/1 - Está ótimo, obrigado!

R - Tá bom. Muito obrigada, gente! 

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