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História

Natal na Caatinga

História de: Alfredo de Queiroz Viana
Autor: Érika
Publicado em: 14/06/2021

Sinopse

Nordestino, trabalha na produção rural desde a infância. Dificuldade e superação financeira. Desenvolvimento no cooperativismo. Área rural e agricultura familiar, financiada, mas independente.

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História completa

Projeto BB 200 anos de Brasil Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Alfredo de Queiroz Viana Entrevistado por Luis Egito e Nádia Lopes Monteiro, Paraíba, 08 de outubro de 2008 Código: BB200_HV012 Transcrito por Karina Medici Barrella Revisado por Paula Silva de Almeida Nunes P/1 – Seu Alfredo, muito obrigado por ter aceito o convite de dar esse depoimento a nós. Eu queria que o senhor começasse dizendo o seu nome completo, a sua data de nascimento e o local onde o senhor nasceu. R – Meu nome é Alfredo de Queiroz Viana, nasci em 12 de janeiro de 1966 aqui em Monteiro. E, ainda hoje, continuo como produtor rural. Sou filho de produtor rural e continuo ainda a mesma atividade. P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor. R – O nome do meu pai é Célio Viana, e o nome de minha mãe é Maria de Lourdes Queiroz Viana. P/1 – O que fazia o seu pai? R – Era produtor rural também. P/1 – E a sua mãe? R – Produtora também. Ainda hoje é. P/1 – A produção tá no sangue da família. O senhor conheceu os seus avós? R – Não cheguei a conhecer. P/1 – Nem da parte do pai, nem da parte de mãe? R – Não. P/1 – O senhor tem ideia de onde eles vieram, se eram daqui mesmo? R – Não, meus avós, parece que tinham um pouco de descendência de português. P/1 – Seus pais não contavam alguma história de seus avós? R – Contavam muitas histórias. P/1 – Mas nada que o senhor se lembrasse? R – Não, assim de momento, não lembro, não. P/1 – Tá certo. O senhor tem irmãos? R – Duas irmãs. P/1 – O nome delas, por favor. R – Luciene Viana e Lucélia Viana. P/1 – E nascidas aqui também, moram aqui também? R – Não. Hoje uma já foi embora, mora em Brasília e, a outra, mora aqui em Monteiro. P/1 – O que elas fazem? R – Uma é Assistente Social e a outra é formada em Cooperativismo. P/1 – Como é que era essa cidade onde o senhor passou a sua infância? Essa Monteiro da sua meninice, como era essa cidade? R – Era um pouco atrasada porque não tinha tanta renda. Calma e onde a gente tinha uma grande tristeza porque o filho do produtor, ele era obrigado, se queria uma coisa melhor, a ir embora. Procurar os grandes centros sem preparação nenhuma e traz um grande sofrimento. Tanto pra família, como ele saía daqui sem ter uma mão-de-obra qualificada, sem nada, só vai pro grande centro sofrer. P/1 – E como foi a sua infância aqui na cidade? O senhor não morava na cidade, morava no sítio... R – Morava no sítio, depois fui pro jardim, pra cidade. Foi ótimo porque sempre teve criança brincando no difícil. Sempre com muitas dificuldades, mas a gente tirava de letra, como diz o matuto. P/1 – E quais eram as brincadeiras que o senhor tinha na infância? R – Eram várias, onde hoje acho que nem existem mais. Era o badoque, a baleadeira. P/1 – O que é isso? R – Badoque é mais ou menos uma vara entortada com um cordão, o cara fazia as bolas de barro, deixava endurecer pra brincar, jogar um no outro. P/1 – Mais do que o senhor brincava? R – Brincava de baleadeira, de badoque, de nadar nos açudes. Quando tinha uma bicicleta, que naquela época era um sucesso. P/1 – E como era o sitiozinho que o senhor vivia com a família? R – Lá ele produzia leite de vaca e criava cabra só pra comer e vender um cabrito de vez em quando. E, sempre teve a dificuldade de leite que não achava a quem vender. Quando chega a época da estiagem, tem a quem vender, e não tem o leite. Chega a época quando chove, que é um período muito curto aqui, você tem o leite e não tem a quem vender. A gente sempre foi criado com esse grande dilema. P/1 – E como é que isso se refletia no cotidiano da família? R – Em dificuldades, né? Dificuldades que às vezes um ir-se embora, como foi o caso da minha irmã, de procurar outro meio. P/1 – E o senhor ficou. R – Fiquei. Quando eu tava desistindo pra ir embora, foi quando começou esse programa e eu voltei. Voltei, digo hoje, no momento certo. P/1 – Eu queria que o senhor contasse um pouquinho da rotina do sítio, quando o senhor era criança ainda, o senhor ajudava nos trabalhos? R – Ajudava. P/1 – Como é que era o dia a dia? R – No dia a dia você acorda muito cedo, na zona rural, e começa a juntar o gado. Na época tirava leite de criação e depois ordenhava as vacas. Quando terminava, fazia aquele queijo, de tarde ia estudar e à noite retornava de novo, já cansado, pra dormir logo cedo, porque não tinha energia. Então, a gente ficava meio a parte das coisas que estavam acontecendo. P/1 – O senhor nasceu, e a sua família tem origem num lugar metido no coração da Caatinga. R – Exato. P/1 – E um lugar onde o senhor brincou, foi criado, enfim. Como é que o senhor definiria a Caatinga? Como os seus olhos vêem esse bioma, esse ambiente que tá à nossa volta, aqui? R – Eu acho que a Caatinga é um fenômeno. Uma coisa da natureza, onde ela se renova sempre, apesar do homem ter agredido muito ela, ter desmatado sem orientação, ter desmatado demais, estragado. Mas a Caatinga, acho, que é uma das grandes coisas que ainda, mesmo nesse período da estiagem, ainda dá sustentação pros homens daqui. P/1 – Por que o senhor diz isso? R – A Caatinga? Porque quando houve o desmatamento desordenado, vai virando deserto. Vai ficando que não tem mais pasto, não tem onde o bicho comer nada, dele pastar, de nada. E quando está a Caatinga, ele tem ali, o bicho mesmo daqui, que é acostumado da região, ele passa muito bem porque tem a folha, tem o mel de cupira, tem muitas vantagens. Por isso que pra desmatar, acho que hoje tem que repensar muito. P/1 – Mas já existe uma consciência de preservação do bioma, no sentido mesmo de não deixar... R – Já. Graças a Deus hoje, depois das nossas reuniões que a gente vem fazendo tanto, hoje também tem energia, tem televisão e todo mundo assistindo. Hoje, já tem uma grande consciência, principalmente nessa turma nova que vem chegando. P/1 – Voltando um pouquinho lá no seu sítio, é o Cacimbinha que chama? R – É Cacimbinha. P/1 – O senhor estudou lá, onde é que foi a sua primeira escola? R – Primeira escola foi aqui mesmo em Monteiro. A gente vinha de lá, estudar aqui e voltava, de novo, à tarde. P/1 – Qual é a distância do sítio pra cidade? R – Nove quilômetros. P/1 – O senhor fazia esse caminho todo dia, ida e volta? R – Todo dia. P/1 – E como é que era essa vinda pra cá? A pé, de bicicleta… R – De bicicleta ou, às vezes passava um transporte, um carro. Depois, agora já no final, já tava aparecendo moto. Na época praticamente não existia. P/1 – O senhor se lembra do nome da sua primeira escola? R – Me lembro. É Colégio Nossa Senhora de Lourdes, das freiras, aqui em Monteiro. P/1 – E alguma professora que o senhor tenha lembrança, que tenha marcado a sua vida escolar? R – Tenho. P/1 – Quem? R – Dona Nilza. P/1 – Por que? R – Porque foi uma das pessoas assim, você, quando saia um pouco do sítio, meio assombrado com tudo... quando chegava aqui, começava a tratar a pessoa ótima. Porque a gente tinha outra visão dela, tinha ela como uma mãe. Tinha não. Tem, ainda hoje. P/1 – Como é que o senhor se divertia nessa época aqui, já na cidade? O senhor chegou a mudar pra cá ou... R – Cheguei… depois cheguei a mudar pra cá. P/1 – Quando isso? R – Já com 16, 17 anos. P/1 – E esse jovem fazia o que na cidade? R – Mais era jogar bola aqui, já tinha os campos mais modernos. Porque lá no sítio chamava pelada, aqui já tinha os campos de futebol, as quadras, já tinha outras atividades. P/1 – A família continuou no sítio… o senhor já morava aqui e ficou fazendo o que? Continuou os estudos? R – Continuando os estudos. P/1 – Já onde, no Ginásio? R – Ginásio. Eu terminei o Científico, aí fiz vestibular, não passei. E não tive ___, foi o tempo que eu parei. P/2 – O senhor prestou vestibular pra quê? R – Veterinária. P/2 – E o que levou o senhor a pensar em Veterinária? R – Porque a gente já nasceu no campo, com atividade de criar a cabra, a vaca, as coisas. Eu achava no momento que era a coisa que mais se identificava comigo, que já era acostumado com aquilo. P/1 – E esse talento para lidar com essas coisas se deu lá desde a sua primeira infância? O senhor aprendeu no sítio isso? R – Foi. A gente já foi criado com aquilo lá, acompanhando o dia a dia, aquelas coisas. Às vezes você é obrigado a fazer um parto, mesmo sem saber, mas, às vezes, você, que mora no sítio, é obrigado. Você vê uma criação, ela tem um cabrito, às vezes, você precisar ajudar, mesmo você sem saber, você tem que fazer os primeiros socorros, que é mais ou menos aquilo que você sabe fazer. P/2 – E o senhor lembra a primeira vez que o senhor fez isso? R – Lembro. P/2 – Como é que foi isso? R – Foi uma cabra, tava morrendo. Minha mãe gritou que ela tava morrendo. Muito aperriada na hora dela ter os cabritos e berrando muito. Procurei uma pessoa pra me ajudar e não tinha. Então, fui obrigado a fazer aquilo naquela hora, ajudar a puxar os cabritos. E me assustei muito até na hora, porque é na hora que a bolsa estoura e vem muito sangue, me assustei. Mas a gente vai acostumando, o dia a dia do sítio obriga você a fazer isso. P/1 – E os bichinhos sobreviveram? R – Sobreviveram P/1 – O senhor se sentiu orgulhoso com isso? R – A gente sente orgulhoso daquilo. P/1 – Seu Alfredo me diga uma cois a: a criação de cabra, a ovinocultura, nunca foi uma coisa muito bem vista, né? Era sempre, geralmente, um trabalho menor, uma cultura menor, secundária. Por que o senhor se interessou por isso? R – Exato. Porque eu já vinha acompanhando o meu pai desde criança. E a vaca come muito, principalmente na nossa região que chove poucos meses, a maioria é seca, e a vaca come demais. E todo ano era aquela mesma coisa: ganhava um dinheirinho, quando chegava no fim do ano, chegava faltando. Tenho lembrança de quando chegava o período, como diz aqui, na cidade tinha a alegria de ser Natal; eu tinha tristeza de ser Natal, porque é a época que no sítio tá mais difícil. A época seca aqui, ele tá liso, sem dinheiro pra comprar uma roupa pra ele e pro filho, porque ele ta pegando o dinheirinho que tem e tá comprando as rações pras vacas. Então, fiquei muito gravado com isso. Quando eu comecei a criar cabra, foi outra coisa que todo mundo disse: “Rapaz, isso não dá certo, isso é coisa que não dá renda. A cabra é criada só pra gente comer o cabrito, comer a buchada dele que chama”. E foi onde, graças a Deus, acho que foi o momento certo... quando a gente se reuniu, vários amigos, e começamos a produzir. A primeira produção a que a gente chegou aqui, um dia, foi com 40 litros de leite. Todos. Dez ou doze pessoas, chegou com 40 litros de leite. E foi se juntando, no segundo foi 60 e, hoje chegando na produção que tá. P/1 – Como é que se deu esse processo de convencimento para que os produtores investissem tempo e algum dinheiro na ovinocultura? R – Porque nós já tínhamos as cabras e os amigos que você conhecia, que a gente já comprava uma cabra a um, o reprodutor a outro, e a gente sabia da condição de cada um, que eram todos muito apertados. Muito sem renda. Sem, melhor dizer, sem crédito pra comprar no pequeno mercadinho. E, às vezes, não é você ser ruim pagador, você não pagava porque não tinha com que pagar. Acabava que você ia fazer, comprava alguma coisa, seu pai mandava você ir comprar na feira e o cabra reclamava: “Rapaz, quando é que ele vem pagar?”. Mas ele não vinha porque não tinha a renda dele. Quando começou essa oportunidade foi que a gente se juntou, de conversar com os amigos, de sentar, de ver que foi a única saída que a gente achou no momento. Depois do fracasso do algodão que foi o ouro branco do Nordeste, depois do fracasso do sisal por vários motivos, foi esse que a gente apostou todos o resto das fichas. P/1 – O senhor chegou a se envolver com a cultura de algodão? R – Cheguei já no final. Que era na época, que o cabra não entendia bem. Criança só via meu pai e os outros, os tios. P/1 – E o que aconteceu com o algodão? R – Algodão, aqui, foi o besouro. Veio o besouro e acabou, praticamente. Tanto o besouro deu, como deixou de plantar. O produtor deixou de plantar as duas coisas. P/1 – E o sisal, o que aconteceu? R – O sisal foi o estímulo, o preço muito baixo que não compensava pelo trabalho, e ele começou a abandonar também o sisal. P/1 – Quando o senhor e os seus companheiros identificaram essa oportunidade na ovinocultura, como foram as primeiras reuniões, o que ligou essa turma? R – O que ligou aí foi que a gente tava na necessidade. Chegou também, convencemos, partimos pra Prefeitura. O prefeito, também convidamos ele, o secretário rural e tudo começou. E ele começou a creditar pulso, também, meio desanimado, porque era aquela coisa, mas disse: “Eu vou ajudar vocês. Eu vou comprar 200 litros de leite por dia de vocês pra dar a merenda escolar.” “Não, mas baixa pra 40, mas só tem 40 litros.” “Mas vou comprar 200, vão crescer”. E foi uma coisa imediata. Com 60 dias a gente já tava juntando os 200 litros. Foi quando começou o programa no estado inteiro que era o governador, na época, era José Maranhão. Pode falar nome? P/1 – Claro. R – Foi José Maranhão, ele visitou e disse: “Então, já que a prefeitura tá comprando 200 litros, eu vou comprar 400”. Aí, o prefeito disse: “Eu vou comprar mais 200. Você compra 400 e eu, 400, 800”. E a gente fazendo a ele que não fizesse aquilo, porque a gente só tinha 200. Como é que era 800 por dia? Aí, foi mais aquela correria e chamando produtor, mostrando a ele que já tinha renda, que era um leite que ele vendia e recebia. Aí foi onde teve todo ano e começou a produzir, daqui a pouco a gente tava produzindo mil e já tava correndo atrás do mercado de novo. P/1 - Que ano foi isso Seu Alfredo? R – Foi em 96, mais ou menos, 95, final de 96. P/1 – E aí, resolveram criar a Associação? R – Aí fez a Associação. P/1 – Como é o nome da Associação mesmo? R – Aocop, Associação dos Ovinocaprinocultores do Cariri Paraibano. E hoje tá passando pra Cooperativa, caprino. Aí o Cooperar foi orientar a gente. A gente se juntou, fomos ao Cooperar e fizemos aquela usina, foi com o dinheiro do Cooperar. Na época, em torno de 100 mil reais. Formou a usina aqui, e foi um sucesso. E hoje não existe mais nada dela, com o próprio dinheiro dos produtores, hoje nós já investimos ali em torno de 600 mil, 700 mil. P/1 - Um dinheiro aplicado pela Associação? R – Sim, esse pra renovar os equipamentos. Porque os equipamentos eram ótimos no dia, mas depois, quando não passou na qualidade, foi preciso comprar novos equipamentos. E isso é um grande orgulho que a gente tem: foi comprar com o dinheiro dos produtores, mesmo. P/1 – Isso dá mais segurança, né? R – Mais segurança. Onde passou várias políticas, agora tá terminando outra e nunca atingiu a gente. Porque a gente nunca deixou entrar a Política lá. A gente aceita o político trazer as coisas, não o político entrar dentro. P/1 – Na verdade, isso é uma garantia de autonomia das decisões da Associação, né? R – Exato. P/1 – Quem toma as decisões são os associados. Como é a relação dos associados com a Associação? É uma relação franca? Como é a rotina? R – Aberta. A prestação de contas, de todas as coisas, funciona desse jeito. Todo produtor tem direito, a qualquer momento, de ver as contas, reclamar, reivindicar, como nós temos o direito de cobrar a ele. A eleição é feita abertamente. Tenho o prazer de ter sido o Presidente da Cooperativa duas vezes, por unanimidade. Mas as prestações de contas são abertas, todos os dias e o produtor sabe disso, é ele quem manda. P/1 – E como é a rotina dessa relação? Ele chega de manhã, entrega o leite... Quando e como ele recebe? Como é que se dá? R – Ele tem o horário de entregar o leite, de 7h às 9h30 da manhã. Porque Monteiro é uma cidade, desloca distância, ou mora um do lado do outro, e ele tem esse período pra entregar. E, quando ele entrega o leite, a gente não recebe de imediato, faz o teste do leite. Se o leite estiver com qualidade nós recebemos, se não tiver, ele devolve. P/1 – Que tipo de teste é esse? R – É feita a análise de água e a outra análise é se tem algum produto, alguma mistura... P/1 – E na sequência disso... R – Na sequência o leite vai pra dentro pra ser pasteurizado. P/1 – E o produtor, quando é que ele recebe alguma coisa? R – Ele recebe por quinzena. Às vezes atrasa um pouquinho por causa de documento, que a gente depende de documento pra mandar pro governo do Estado e pro Governo Federal, mas, geralmente, nunca passa de 30 dias. Ele tem a certeza que recebe. P/1 – E a Associação oferece algum serviço pra ele, algum tipo de assistência? R – É onde entra os ADRs, quando dá um problema, adoece uma cabra, ele precisa de um reprodutor, de vacinar as cabras, de remédio. É onde entra os ADRs que acompanham ele todos os dias, todas as horas que ele precisa. P/1 – O que quer dizer ADR? R – ADR é um Agente de Desenvolvimento Rural, que é mais ou menos um Agente de Saúde da casa, que acompanha o produtor, como é que tá a criação dele, se ele deu remédio de verme, se vacinou, se tá fazendo a higiene do curral. Todas essas coisas, tem um ADR. O ADR é da comunidade, é um amigo que ele tem, que, quando precisa, tá ali à disposição. P/1 – E qual é a relação do ADR com a Associação? R – Hoje o ADR... Hoje o programa, até agora, não renovou com a Fundação Banco do Brasil, nem mesmo com o Banco do Brasil, nem o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas]. Hoje, quem paga os ADRs é a Associação, que é tirado do dinheiro dos produtores mesmo, pra manter os ADRs. P/1 – Mas é um investimento rentável, né? R – É. Porque quando não tem os ADRs, geralmente fica aquilo, o cabra se esquece de uma coisinha. O ADR é aquele que vem fiscalizando você todos os dias. P/1 – A produção, o senhor definiu muito bem. E como é que se dá a distribuição deste produto? R – A distribuição... A gente ganha cotas do Governo do Estado, que é o convênio que tem o Governo do Estado e Governo Federal. Mas quem toma conta disso é o Governo do Estado. E em Monteiro, a cota é de 1100 litros por dia. Em Camalaú a gente bota mais 280. Em Boqueirão, a gente bota 200; Santa Cecília, mais 600, e vai dando um total de 2200 litros por dia. A gente tem um caminhão e entrega aqui em Monteiro. Quando é nas outras cidades, a gente se junta com as outras usinas pra ficar mais, dividir os fretes e fazer aquela rota, entregando aquele leite. P/1 – E o grande cliente é o Governo Federal e Estadual? R – É, hoje só temos um cliente, o Governo Federal e o Governo do Estado. Agora a ______ e eu já estamos avançados já, com apoio do Sebrae, de todas organizações e estamos entrando na iniciativa privada. P/1 – E como é que isso tá se dando? R – Estamos ainda amadurecendo. Tem que fazer __, coisa totalmente diferente, estudo de mercado, pra gente poder entrar no mercado privado. Não é porque esse que a gente já tem não é exigente, é porque o mercado privado é mais. A gente tem que garantir de ter aquela produção direto e a gente tá se preparando pra isso, pra, no momento certo, entrar. P/1 – E diversificando a produção, ou mantendo o mesmo tipo de produção? R – Diversificando a produção, fazendo queijo, o iogurte, a bebida láctea. Fazer isso e entrar no mercado. Hoje a gente já tem um estudo completo para entrar principalmente nas grandes cidades que ficam próximas daqui: Natal, João Pessoa, Recife, Fortaleza. A gente tem como fazer isso, porque as associações trabalham unidas. Hoje, a gente produz, aqui no Cariri, em torno de 18 mil litros de leite de cabra por dia e todos os presidentes de associações, todos os dias a gente tá se comunicando. P/1 – Importante isso. Vou lhe fazer uma pergunta óbvia, mas eu queria que o senhor respondesse com reflexão. O que tem de bom no leite de cabra? O que ele tem de diferente? R – Diferente, até o gosto dele, você tomando, você nota que é diferente. É mais sadio, tem menos gordura... P/1 – Quer dizer, isso pode suscitar um desejo de mercado, digamos, mais exclusivo, em grandes cidades, né? R – Em grandes cidades. Não porque a cidade pequena não tem, até porque as condições do pessoal da cidade pequena são menos... É um leite mais caro que o de vaca, então, o mercado pra você fazer uma coisa dessas, tem que ter um poder aquisitivo melhor. E, infelizmente, onde tem um mercado que tem isso é nas grandes cidades. Campina, João Pessoa, Recife. É onde tem um mercado melhor, em que as pessoas têm um poder maior e vão poder comprar um queijo desses. P/1 – Pois é, vai ver que esses novos planos da Associação, de ganhar novos mercados, de repente, em vez de 14 mil litros, vão precisar de 25 mil litros. E aí, como é que faz? R – Aí, é onde a gente vai recorrer, de novo, às agências financeiras, como elas nos ajudaram a dar o pontapé de financiar, de novo, a comprar matrizes e botar o homem no campo pra trabalhar. Porque é o que eu sempre digo: É no campo que ele ganha o dinheirinho dele hoje. Tranquilo, tomando conta do que é dele mesmo, não precisando sair, trabalhar o dia por 15 reais, por dez, como era. É um pequeno negócio em que ele mesmo toma conta do que é dele. Ele, a esposa, o filho... É agricultura familiar, a vantagem, porque só quem fica nesse é mesmo a família. Se for pra você pagar isso pra uma pessoa de fora, até hoje eu não conheço um que tenha dado certo. P/1 – E que papel tem a mulher nesse processo todo? R – É fundamental o papel da mulher. Fundamental, até porque a mão dela é mais delicada. A teta das cabras é muito sensível, geralmente o homem fica fazendo aquele papel mais grosseiro, que é tirar a ração, trazer. E a mulher faz o mais delicado, que é tirar o leite da cabra. Ela é mais higiênica e tira o leite com mais qualidade. Então, o papel da mulher nisso é importante. P/1 – E entre os associados, as esposas e as filhas estão todas mobilizadas em torno da produção? R – Estão. Agora tem uma coisa engraçada. Na hora de receber, sempre quem vem é o marido [risos]. P/1 – O senhor falou nos agentes financiadores. Como o Banco do Brasil apareceu nessa história junto com a Associação? R – Foi quando estávamos precisando, tava numa altura, que a gente tava achando que tava ótimo, de 800 litros diários e ganhamos uma cota de 1500. Foi quando a gente procurou o Banco, procurou o gerente, e uma surpresa grande que a gente teve. Eu já disse isso anteriormente, várias vezes, e vou dizer agora. Foi que o pequeno produtor tinha medo de entrar no banco, e foi o contrário. Foi o Banco, quando a gente fez o convite, veio, nos procurou e arrumou financiamento e os ADRs, foi um pontapé ótimo. Porque nós, os pequenos, tínhamos medo de entrar no banco, aquele medo de todas as coisas, né? P/1 – E como se deu essa relação, era direto com o gerente, como era a rotina dessa relação? R – Essa foi quebrada pelo gerente, Senhor Nielson. A gente chamou ele, explicou pra ele as coisas que a gente tava querendo. Ele entendeu demais e saiu do Banco e veio pra Associação. E, junto com a gente, fez esse plano. A maioria tem a terra, não tem o documento, é aquela terra que já é de herdeiro, já vive dentro. E juntou, um avalizou pelo outro, ele confiou, acompanhou a gente na compra das cabras, teve um papel fundamental, entendeu? Foi isso a grande coisa que deu. P/1 – Na compra das matrizes, quem foi escolher essas matrizes, de onde elas vieram? R – A maioria veio da Bahia, outras de Pernambuco. O melhoramento genético era uma coisa que não existia isso. Você tirava 500 gramas, meio litro, como a gente chama, de leite, de uma cabra, já achando ótimo. Quando chegou esse ponto, falou uma coisa que a gente nunca pensou na vida: melhoramento genético. Aí, foi onde foi ver essas cabras melhores, os bodes, onde hoje ta tendo uma coisa incrível, que é aquele melhoramento daqueles bodes. Falou o prazo, hoje tá chegando cabra produzindo três litros diários, três e pouco, então, foi a consequência daquilo que chegou. Melhoramento genético, a gente não sabia o que era isso. E assistência técnica que a gente não tinha. P/1 – Quer dizer, então mudou de figura aquela idéia que se fazia da ovinocultura antigamente, né? R – Mudou totalmente. P/1 – Quem tá fora, tá querendo entrar? R – Hoje tá querendo entrar. Estamos esperando esse mercado pra abrir as portas. Porque hoje tá produzindo três mil litros. Mas, se você for hoje numa rádio daqui da cidade, convocando os produtores, dizendo que tá precisando de cinco mil litros, eu garanto a você que com sessenta dias a gente tem esses cinco mil litros. Desde que tenha apoio dos parceiros, que a gente trabalha com parceiros. P/1 – Quer dizer, na verdade, isso não é um projeto solitário, ele tá envolvendo... R – Não, envolve a Prefeitura, Governo do Estado, Governo Federal, Sebrae... Todos os outros órgãos: Banco do Brasil, Fundação Banco do Brasil, Banco do Nordeste. Todos os parceiros. A Universidade tem vindo com os veterinários, os zootecnistas têm nos ajudado. Tem muita parceria, por isso que ta funcionando. P/1 – E a Associação tá segura no meio desse conjunto de parceiros? Ela tá sendo pró-ativa, colocando suas demandas de forma mais intensa? R – Com certeza. Com todos os parceiros que nós temos, com a gente e mesmo com a vontade dos produtores, eu garanto a você que o leite nosso, de hoje, é um dos melhores que tem. Pode não ser o melhor, mas é um dos melhores que tem, com qualidade. P/1 – A Associação tem quantos associados têm hoje? R – Tem 180 sócios. P/1 – E o que tá levando a Associação a se transformar em Cooperativa? R – É a burocracia da Lei, a Associação não pode movimentar dinheiro, por vários motivos, eu nem sei nem explicar. Por motivo da lei que está sendo obrigada a passar a Cooperativa. Porque a Cooperativa pode movimentar dinheiro e a Associação não pode. P/1 – Na forma da Cooperativa, o grupo vai ter mais liberdade de ação ou vai ficar... R – Vai ter mais liberdade de ação, vai diversificar as produções, não só do produtor, só do leite. A gente tá querendo fechar a cadeia produtiva. P/1 – O que significa isso? R – Fechar a cadeia produtiva é hoje o abatedouro que tem esse aí, pronto, onde já foi investido 1,5 milhão, mais ou menos, dinheiro do Governo Federal, que é matar, hoje, também o cabrito. Porque o cabrito hoje que tira leite, a maioria do produtor dava ele porque não tinha interesse de criar. Mas com o abatedouro que tem aí, ele vai criar também o cabrito, que é gerar renda, vai matar e vender a carne, vai ter quem compre o couro por um preço melhor. Esse é o nosso sonho, é fechar, hoje, a cadeia produtiva que é isso. Com esse abatedouro funcionando, curtume funcionando, aí sim. É gerar, mesmo, renda, porque o produtor, ganhando dinheiro pode investir na propriedade e sua vida melhorar. P/1 – Eu queria que o senhor me dissesse se há condições objetivas de concretizar esse sonho de fechar a cadeia produtiva, e por quê? R – Só tá faltando hoje uma vontade política. O abatedouro está pronto. Dinheiro nosso, que dinheiro federal é dinheiro nosso. Tá pronto o abatedouro onde gastamos 1,5 milhão. Ta aí pronto, com todos os equipamentos de última geração. Então, acho que só falta, agora, os políticos esquecerem a politicagem e realmente "botar" ele pra funcionar. Chamar os produtores, todos os outros parceiros e "botar" pra funcionar. O abatedouro tá pronto, tem o ovino e o caprino. E tem mercado pra vender. Eu acredito que, no máximo, agora no final do ano, a gente tem esse sonho realizado. P/1 – Essa organização da ovinocultura aqui na região, sobretudo em Monteiro, deve ter causado um impacto grande na economia da cidade. R – Enorme. P/1 – O senhor poderia descrever como é que isso se deu? R – Enorme. Em todos os aspectos que você andar... O comércio do Monteiro melhorou demais. Pessoal tudo sentindo, da construção, porque ele começou a ajeitar a casa dele, os mercadinhos, todos viraram supermercados. Porque primeiro a gente chamava de bodega, hoje tudo é supermercado. E o produtor quando chega, tem crédito: “Ah, ele é produtor rural”. Ele já sabe que ele tem dia certo de receber. Então, isso gerou renda, emprego. Ainda tem o emprego indireto, tem aquele hoje que tem a motinho pra carregar o leite pro produtor. Ele ganha cinco, seis centavos por litro, depende. Gerou emprego, renda. A coisa mais importante nossa, hoje, aqui na região. P/1 – Mudou de figura, né? R – Mudou. P/1 – Agora, também tem uma segurança pelo fato de que essa produção não sofre tanto quanto a produção leiteira de vaca, né? R – Não, porque a cabra... É engraçado. Na época do inverno, aqui, como a gente chama, que é curto, mas tem, a cabra diminui o leite, ela não gosta de tanta chuva. Então, na época aqui é o contrário. Na época quando o produtor tá aliviado, o leite dela é pouco, ele não compra a ração. Quando chega agora nesse período do calor, como está, é a época que a cabra gosta, que aumenta o leite, que ela se dá no tempo. É a época que eu disse a você, quando chegava o Natal e o fim do ano que você tava preocupado que não tinha um tostão e estava gastando, hoje a gente tá chegando o Natal, vai chegando com felicidade. Você sabe que tem aquela produção de leite e tem o dinheiro para, pelo menos no Natal, você dividir com a sua família. P/1 – Mudou de figura a coisa, então, né? E o que o senhor destacaria como um fato marcante desse processo de redenção da produção de leite de cabra aqui em Monteiro? Nesse processo todo aí. R – Acho que foi na hora que entrou o Banco, que nos financiou, apoiou, trouxe essa genética... Todo mundo nem sabia o que era isso, melhoramento genético, nem sabia o que era isso. Acho que o grande impacto que houve foi isso. P/1 – E como é que se dá a relação com o Banco, hoje? R – Ótima. Uma coisa que não tinha antes, que o pequeno tinha medo de ir até o Banco. E hoje, o Banco nos procura, o Gerente nos visita. Quando nós precisamos de uma coisa, hoje temos orgulho de entrar e sermos recebidos como qualquer outro. P/1 – Essa imagem, digamos, de distância, hoje não existe mais. R – Não, hoje não existe. P/1 – O senhor diria que isso derivou para uma relação de parceria mesmo, intensa? R – Exato. P/1 – Que importância que o senhor dá a ações desse tipo? O que um Banco tem pra fazer nesse tipo de produção local? Que tipo de importância ele tem no sentido de estimular a produção local como fez com o leite de cabra aqui em Monteiro? R – Eu acho que agora é a mesma coisa que fez com o leite de cabra, onde hoje a gente, se não é o maior, é um dos maiores produtos da Paraíba, até digo do Nordeste, produzindo. Acho que o Banco poderia entrar também, mesma coisa agora, fazendo com o abatedouro. Chamando de novo os produtores, vindo aqui à Associação visitar, financiando aquele pequeno produtor. Não é grande soma não, pode ser pequena. E melhorar, de novo geneticamente, pra gente ter esse cabrito de qualidade, esse _______ de qualidade, no mercado. Porque hoje a gente sabe, onde o mundo hoje é o da concorrência enorme, vale a qualidade que a gente tem. E aqui a gente tem condições de produzir isso. Às vezes, precisa de um pequeno ajuste, um pequeno financiamento. Acho que o Banco, tava na hora, de novo, de dar esse passo à frente, de novo. P/1 – O senhor acredita que é possível pensar inclusive numa possibilidade industrial, aqui mesmo, na utilização desse couro, por exemplo, dos animais? R – Pode, pode. Até porque a pele que nós temos aqui, é uma pele ótima, de qualidade. Falta apenas orientar, voltar, a mesma coisa como foi feito com o leite, fazer também o mesmo, com o criador, pra ele criar o cabrito, a ovelha, num canto separado, pra ter um couro de qualidade. Tem mercado hoje, tem um abatedouro desse pronto pra funcionar a qualquer momento. Então, acho que tá faltando, de novo, outro pontapé desse. P/1 – E o que é feito da pele hoje? R – Da pele, hoje, não é feito nada. É vendida por dois reais, por três, ninguém sabe nem onde vai parar. P/1 – E seria uma forma de manter mais esse insumo aqui, né? R – E dar preço a ele, agregar valor. Que há grande interesse em fazer isso, porque o produtor só pode fazer isso, quando o produto dele tem preço. P/1 – Hoje ninguém mais reclama de ser chamado de vaqueiro de cabra, então? R – Não, a gente se sente orgulhoso. Teve uma época que fazia vergonha. A primeira vez que eu trouxe dois litros de leite e botei, eu botei escondido. O cabra perguntou: “O que é isso?”. Eu digo: “É um leite de cabra”. E botei escondido porque a gente tinha vergonha de dizer que era um leite de cabra. P/1 – Que coisa, hein? Como é que muda a cultura. Impressionante... P/2 – Uma curiosidade, senhor Alfredo. E pra comunidade, os mais jovens, como eles olham a Associação? É uma perspectiva, também, de vida a seguir, como é isso aqui? R – Claro, claro. Hoje o jovem já tem a certeza, já tem uma visão melhor, independente daquele mais velho, que não acreditava, já vinha de várias tentativas frustradas, de outras associações e cooperativas que não deram certo. Ele já vinha muito frustrado, ou chegava um político e tomava conta, só fazia aquilo na época de eleição. E o jovem não. Viu o que a gente fez, ele já sabe que não tem nada a ver, independente de política... Já passou presidente, prefeito, deputado, não nos atinge porque a gente tira totalmente diferente. Isso aqui é um negócio nosso e tem muito orgulho de dizer isso: É um negócio nosso, é da gente, dos nossos filhos. O jovem tá entrando com outra mentalidade, é onde o melhoramento genético acontecendo, é o jovem já fazendo. Já pensando em fazer aqui inseminação artificial, coisas que há cinco, oito anos, ninguém nunca imaginou isso. E os jovens já estão pensando nisso, em trazer de outras regiões melhores e melhorar seu rebanho. Outro preservando mesmo aquela nativa da Caatinga pra termos o melhoramento, mas nunca desprezando o que tem. Hoje, o jovem é totalmente importante e já tem a confiança. P/1 – O jovem deve ter a consciência de que aqui tem oportunidade, né? R – Tem oportunidade... P/1 – Não precisa sair daqui, né? Pois bem... P/2 – Outra curiosidade, Seu Alfredo. Durante esse tempo de formação da Associação, o senhor lembra de uma situação, um caso curioso que tenha ocorrido? Assim, seja uma dificuldade, o senhor lembra de alguma coisa assim? R – Lembro muito de um depoimento que uma senhora deu. Talvez possa até dizer o nome dela, a esposa de um cooperado nosso, de Ronaldo, Dona Alberta, que chegou a dizer que tinha muito orgulho de ser cooperada e de vender, porque terminou de formar um dos filhos dela, com o dinheiro de leite de cabra. Disse que nunca imaginou isso e disse que tinha muito orgulho de dizer isso. E ela disse isso numa reunião e eu to passando, porque fiquei muito orgulhoso. E a gente diz ter participado, não só dela, como de outras pessoas. Mas esse foi o mais marcante, que ela levantou-se na presença de todo mundo e disse ter orgulho de ter terminado de formar um filho dela com dinheiro de leite de cabra. P/1 – Isso gera também uma auto-estima muito forte, né, Seu Alfredo? R – Gera. Eles se sentem ali empresariozinho, dono do que é dele, tem muito amor. Se você chegar ao pequeno produtor rural, ele tem muito amor de mostrar ali, e aumentar os troféus que ele tem. P/1 – E a sua família pensa assim também, como o senhor? R – Pensa, hoje eu já tenho um filho com 18 anos e é onde ele tá tomando conta lá e já há pensamentos, pensamentos totalmente diferentes. Graças a Deus, já ta pensando em fazer a inseminação artificial, ele mesmo já faz os currais, já é melhor. Porque quando a gente vai ficando um pouco mais velho, vai ficando descuidado, com outras coisas. E a turma mais nova vem com novos pensamentos, com novas tecnologias. P/1 – Quantos filhos o senhor tem? R – Três. P/1 – Qual é o nome deles? R – Célio Viana Neto, Raiane Feliciano Viana e Pedro Henrique Viana. P/1 – E é o mais velho que já tá interessado... R – Já. E o mais novo também é engraçado. É engraçado também, quando sai daqui, vai direto, já toma, já tem suas cabras, suas posições. P/1 – Já mexe com o bichinho lá... R – Já mexe e ordenha também. P/1 – O senhor, nesse seu trabalho, nessa sua produção, fora a produção propriamente dita, é uma atividade de grande inserção comunitária. O senhor não tá sozinho, né? R – Não, a todo momento... P/1 – Como é que o senhor avalia essa relação que o senhor tem mantido pra levantar o seu negócio e levantar o negócio de todo mundo? R – Pra gente chegar nessa posição que tá aqui, tem o apoio de todos os produtores, dos pequenos, daquele que tira dois litros ao que tira dez. É fundamental. Se não fosse isso, o apoio de todos juntos, do pequeno funcionário, do que traz o leite, que chega de manhã cedo… se não fosse a união de todos, a gente não tinha chegado aqui. De todos, sem exceção de nenhum. (troca de fita) P/2 – Seu Alfredo, o senhor tava falando dessa atividade comunitária. A minha curiosidade é assim: Esse espírito comunitário é uma coisa que acaba sendo necessária pra viver em um local como a Caatinga, um local que exige até um pouco mais, até, pra poder sobreviver... R – Pra sobreviver? Foi fundamental. Se não fosse isso, você não viveria isolado dentro de uma Caatinga, você produz cinco litros de leite e eu produzo cinco. Se for pra você trazer todo dia os seus cinco e eu cinco, não compensa. Mas, quando nós nos juntamos, um dia eu trago o seu, uma viagem, no outro dia você traz o meu, outra viagem. Então, o Cooperativismo, a Associação, foi uma necessidade, uma obrigação pra gente sobreviver, fomos obrigados a nos unir. Às vezes a gente tem diferenças, todo mundo tem diferença disso ou daquilo, mas a gente foi tirando todas essas diferenças. Foi muito difícil, ter de chegar, deixar a política de lado, deixar muitas coisas de lado, mas a gente teve que se unir nisso por obrigação, foi a maneira que a gente teve de sobreviver foi isso. E hoje, ainda digo, todo dia em toda reunião. Enquanto a gente estiver de mãos dadas, a gente vai longe. Mas, na hora que houver qualquer problema, a gente morre. Porque somos pequenos produtores, não tem condições de parar hoje muitos dias. Às vezes tem, na época da chuva: “Vamos parar”. Mas a gente não pode parar dia nenhum, nem feriado, dia santo, dia nada. A gente não pode parar porque a gente precisa desse dinheiro. Mas tem que estar unido, direto. Pode até ter divergência, mas a gente não pode nunca deixar de ser unido. P/1 – O senhor acha que com essa conformação nova da Cooperativa, isso pode ficar mais bem sucedido, vai ficar mais fácil de trabalhar nesse meio? R – Vai porque até eu já tenho uma turma nova entrando na Cooperativa, que quer não só produzir o leite, nem a carne, ele já quer produzir a mamona, quer agregar outras coisas à Cooperativa. Porque a Cooperativa não é só de leite, que seja outra coisa. Então, a turma nova já tá vindo com outros pensamentos pra trazer outras coisas que é ótimo. P/1 – E os insumos pra produção, Seu Alfredo. O senhor não tem muito controle sobre o preço desses insumos. Como a Cooperativa pode ajudar pra fazer mais rentável a compra desses insumos e reverter em benefício dos associados? R – A gente já tá recebendo aí, onde já tem um dinheiro do Governo Federal, uma fábrica de ração pra ser instalada aqui. Foi parada agora, claro, nesse período político, sempre tem um ou outro que queira tomar o proveito. Pra não haver nada, foi parado, mas agora vai voltar. A Política passou, mas nós, produtores, agora estamos aqui e precisamos. E a gente tem que ver isso, como é que faz pra comprar agora o milho, que é uma das coisas que tá barata nesse momento, onde tem a algaroba que pode ser feito, que já tem as coisas. A gente tá esperando agora, esse momento, pra gente começar a fazer reuniões e ver como é que a gente vai fazer isso. P/1 – E a ração consiste basicamente em quê? Qual é a ração básica dele? R – Farelo de soja, farelo do caroço de algodão e o xerém. P/1 – O xerém o que que é? R – Xerém é do milho. P/1 – O senhor poderia dizer qual foi o seu maior aprendizado nesse processo todo de relação comunitária e de associativismo com seus companheiros produtores? Qual a grande lição que o senhor leva de tudo isso? R – Eu acho que foi o momento que a gente passou mais difícil e todo produtor chegou, investiu, mesmo o dinheiro dele pouco, dez, 15 reais, mas botou as coisas na organização a todo momento. Ele mesmo querendo vir botar as coisas, acho que foi isso o mais importante. A gente teve um momento difícil onde foi fechada a usina, até porque, hoje, a gente reconhece que o leite não tava de qualidade. E os produtores vieram, imediatamente: “Vamos ver o que precisa, vamos fazer um estágio, vamos atrás de um cabra pra dar um treinamento pra gente. A gente banca do nosso bolso, mas ela vai funcionar”. E o que eu achei mais importante de tudo foi a união que levou a isso tudo. Porque no momento difícil, geralmente o povo corre. E aqui foi o contrário, aí, foi que a gente se uniu, trabalhou e voltou com um leite de qualidade. E investiu, mesmo, do bolso. P/1 – Isso aí, né? R – Porque se na primeira dificuldade a gente tivesse corrido, viria tudo por água abaixo. P/1 – O senhor teria alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e a gente não perguntou ao senhor? R – Não, só agradecer a todos os produtores, a todos os parceiros que a gente tá junto nisso, e espera a gente continuar junto, com os parceiros. Porque sem parceria, se for só a gente, a gente não vai chegar a lugar e nenhum. E o grande sonho que eu tinha, e tenho ainda, e sei que vai concretizar, é entrar no mercado privado, com produtos de qualidade que nós temos. P/1 – E como o senhor avalia, o que parece ao senhor, essa idéia do Banco do Brasil, de comemorar os 200 anos contando uma história que tem a ver com esses Biomas onde ele tá presente. Como é que o senhor vê essa idéia? R – Ótima, pra contar uma história dessas pra outros também, pras outras comunidades, pra outros verem o incentivo que nós temos e o orgulho de ter chegado a isso e ter o Banco do Brasil participando foi fundamental, um parceiro nosso na hora que a gente precisou. P/1 – E o senhor, como é que se sentiu dando esse depoimento pra gente aqui? R – Senti mais uma vez orgulhoso de estar participando junto com vocês. P/1 – Tá bem, a gente só tem a agradecer a sua memória e as suas histórias porque foram muito úteis pro nosso projeto. R – Muito obrigado. P/1 – Mu ito obrigado o senhor. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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