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Natal da minha infância

História de: João Ivo Caleffi
Autor: João Ivo Caleffi
Publicado em: 18/12/2019

Sinopse

O Natal que vivi na minha infância. Doces lembranças.

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História completa

No sítio de meu avô Santo Caleffi, lá no Município de Marialva, onde nasci, o Natal era uma dia muito especial, uma verdadeira celebração, muito simples, mas cheia de pureza, de muito amor. O dia do Natal era especial, aguardado com muita ansiedade. Demorava uma eternidade para chegar! Era preparado, com muito carinho, com antecedência de dois, três meses, já começava o preparo para o grande dia. Meu avô criava cabritos, leitoas, frangos. Havia todo um cerimonial no preparo de tudo, uma verdadeira tradição familiar, que vinha de longe, de muito longe. Aos poucos começava naturalmente a selecionar e a preparar para o Natal. Parece que todos, no silêncio, sabia que era chegado a hora de começar os preparos para o Natal, o grande dia. Ía-se a Cidade de Marialva e comprava engradados de guaraná, lembro bem era umas garrafinhas pequenas, caçulinhas, de vidro, que vinha dentro de um engradado de madeira, comprava-se, dois até três meses antes do Natal. Colocava-se, no quarto, debaixo da cama, escondido, esperando chegar o dia do Natal. Vira e mexe íamos dar uma espiadinha para ver se o guaraná estava lá ainda debaixo da cama. Éramos uma família de italianos, uma família grande, meu avô Santo Caleffi era o patriarca. Era religioso, mas não muito fervoroso, ía pouco a igreja, pois a igreja ficava muito longe lá do nosso sítio e o padre quase não aparecia lá. Mas era muito religioso, uma religião livre, católico, como todo italiano, mas sem nenhuma amarra. Meu avô era benzedor, ele tinha esse dom. Fazia o bem e preservava a sua fé pura. O Natal era uma festa pura, muito mais que uma festa só religiosa, era na verdade a celebração da vida. Muito simples. A mais bonita e importante ali do sítio. Tudo muito na simplicidade e carinho puro, amor de verdade. O comércio andava longe dali, para nós, ele não existia, era só pureza mesmo, sem nenhum outro interesse a não ser ser feliz e celebrar o nascimento de Jesus. De fato ele nascia de novo, com certeza ele festejava conosco, aquele nascimento, estava no meio de nós, era um de nós, naquele simplicidade, alegria e paz, bebia guaraná na garrafinha de tampinha furada conosco. Tenho certeza que ele brincava com a gente naquele sítio. Lá no sítio tinha um forno enorme de uso coletivo. O forno ficava no terreiro, no meio das casas. Feito sobre um tablado de madeira. Na semana do Natal era só festa. Começava o preparo de tudo. Fazia-se pães, doces e salgados, roscas, bolachas, salgados de todo tipo e muitos doces Enchia o forno de lenha seca, depois, colocava-se fogo, virava tudo brasa, varria as brasas, com uma vassoura de guaxuma verde, depois preparava-se os pães, colocava-os sobre folhas novas de bananeira verde e colocava para assar. No dia do Natal, levantava-se bem cedinho, matava os animais, cabritos, leitoas, frangos, colocava no forno. Lembro que o cabrito tinha todo um cerimonial desde a escolha do animal a ser sacrificado, da forma de sacrificar até seu preparo para assar o animal no forno de barro. Matava-se o cabrito novo, com um corte no pescoço e depois deixava-o com as patas dianteiras para baixo, pendurado em um galho de um pé de laranja que ficava no pomar perto das casas, para dessangrar. Meu avô tinha uma maquina italiana de fazer macarrão, fazia-se todos os tipos. Lá no nosso sítio, o macarrão era feito o ano todo, éramos italianos, não poderia é claro faltar macarrão. No dia do Natal fazia-se um especial. Botava o macarrão no varal para secar. Era um cerimonial, como tudo lá no sítio. Comprava-se um garrafão de cinco litros de vinho, lembro que o garrafão era todo envolvido por um tipo de finas tiras de bambu. Era lindo! Neste dia tão especial, meu pai pegava o engradado de guaraná debaixo da cama e furava a tampinha da garrafinha com um prego e distribuía um só para cada criança do sítio, que éramos muitos, era uma alegria só, uma festa. Ficávamos o dia inteiro com aquela garrafinha de guaraná, quando acabava o guaraná, colocávamos todo tipo de sucos na garrafinha feito ali mesmo no sítio, continuávamos bebendo, continuávamos brincando, afinal era o dia de Natal. Era alegria pura. Vida. Era Natal. Doces lembranças, sonho, utopia, doces memórias. Contar para não esquecer. NATAL DA MINHA INFÂNCIA

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