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História

Nascimento e renascimento

História de: Vania Daura de Morais Rosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A dependência e submissão em relação ao avô e à mãe e a conturbada separação dos pais fizeram com que a rua, o grande quintal com pomar e os livros servissem de refúgio para as perturbações. A falência do avô, as responsabilidades herdadas desde cedo e falta de diálogo fizeram com que Vânia passasse por períodos de extrema instabilidade. A tentativa de estupro pelo tio, aos nove anos, o sentimento de abandono familiar e a gravidez acidental, aos 26, tornaram seu caminho pedregoso, mas nada a impediu de prosseguir. Vânia conta como a filha representou uma virada em sua vida, servindo como uma bússola que podia consultar quando se sentia perdida, e como a ajuda dos amigos foi fundamental durante todo o seu percurso.  

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História completa

P/1 – Começando, Vânia, eu queria que você dissesse o teu nome inteiro, a data e o local de nascimento.

 

R – Vânia Daura de Morais Rosa. Eu nasci em Extrema, no Estado de Minas Gerais, no dia 20 de junho de 1959.

 

P/1 – Bom, Vânia, eu queria que você falasse sobre a sua infância: quais as memórias, as lembranças que você tem da sua infância? As mais antigas?

 

R – Bom, o que mais ficou marcado é a rua da minha casa. Extrema é uma cidade bem de interior mesmo, e eu devia ter uns quinze primos, mais ou menos, e todos nós morávamos na mesma região, bem próximos um do outro. A figura que fazia com que todos nós ficássemos próximos era o meu avô, que era uma pessoa muito poderosa, então na infância ele foi uma figura muito forte na minha vida. Nós brincávamos na rua de queimada, de futebol... E nós brincávamos na rua da minha casa, a imagem mais forte da minha infância tem a ver com ele mesmo, o meu avô, porque ele criou os cinco filhos dele, são duas mulheres e três homens, mas com o poder sobre todas as famílias. Ele tinha o poder financeiro sobre todos os filhos, porque nós morávamos nas casas dele, então ele dominava realmente toda a família. Como éramos vários primos e mais as crianças da rua também, a imagem que mais me marca são as vezes em que a gente brincava e ele sempre aparecia, ele era proprietário... Tinha o único posto de gasolina da cidade e uma frota de uns trinta caminhões, mais ou menos. Fazia transporte de São Paulo a Belo Horizonte. E nós brincávamos nessa rua em que os caminhões transitavam e estacionavam, era assim constante a interferência dele nas nossas brincadeiras, e eram interferências aparentemente violentas, porque ele espantava as crianças da rua com um chicote, sabe? Só que de todos os netos, a neta mais ligada afetivamente, que realmente conseguia sentar no colo dele, dar carinho e receber também, essa neta era eu. Eu poderia ser considerada a neta preferida dele, mas de tudo na infância, essa imagem é a imagem mais forte que vem com mais frequência, a imagem do meu avô interferindo na nossa infância, na nossa vida mesmo, em geral. E também a separação dos meus pais que aconteceu nessa faixa, também, de nove anos. Essa foi uma memória dolorosa, a alegre seria a da gente brincando na rua mesmo, e aos nove anos a separação, nunca muito bem explicada até agora. Acho que são essas.

 

P/1 – Você se lembra de alguma cena que você presenciou? Alguma que te marcou?

 

R – Da separação?

 

P/1 – É.

 

R – Veja bem, você me fez... Quando eu sentei aqui, achei que eu fosse falar do nascimento da minha filha em diante, sabe? A infância é um episódio assim... Digamos que eu tenha bloqueado ali por alguns anos. Mas eu estou aqui com esse propósito também, de fazer uma viajem no tempo. Bom, as imagens que eu tenho assim, em relação ao meu pai e a minha mãe, quase não existem, e eu tenho tentado trazê-las. É como se eles não tivessem vividos juntos, mas eu sei que viveram. Mas a da separação em si, ela não foi... Houve uma cena de violência física dentro de casa, aí o meu avô presente, porque como eu disse, o meu avô sempre esteve dirigindo a vida de todos os filhos e consequentemente dos netos também. Ele era o verdadeiro patriarca mesmo, então no momento, digamos assim, que a discussão, a briga, a situação que realmente desencadeou a separação... Isso eu me lembro que foi forte, houve violência, brigas dentro de casa, incluindo meu tio, minha mãe, meu pai, meu avô, e isso ficou registrado sim, mas nunca foi explicado. Eu acho que o que mais dói e que depois vem refletir na gente, como adulto, é a não explicação. Simplesmente você passa por aquilo e não sabe por que está passando, o que está acontecendo. Então eu me lembro disso, de cenas de violência mesmo, dentro de casa, e depois a separação, tanto que em consequência disso, algum tempo depois o meu avô entrou em um processo de falência, e a primeira casa a ser vendida com o intuito de pagar os juros da dívida dele foi a nossa. Então era onde morávamos: eu, minha mãe e meus três irmãos, e aí nós fomos morar na casa grande, que nós chamávamos de casa grande porque era a casa do meu avô, né, o QG (quartel general?) lá. Nós fomos para lá, minha mãe separada... Quer dizer, em uma cidade de interior ela foi, se não foi a primeira, foi uma das primeiras mulheres a se separar. Isso para ela deve ter sido muito difícil, e eu tinha nove anos, eu sou a terceira filha, então houve assim, mudanças bruscas sem a gente ser comunicado mesmo, ser explicado, e é isso que deixa marca profunda, o fato em si não tem como evitar às vezes, mas eu acho que participar da própria dor... Para a gente não é o fato de ter nove anos ou não, é o que eu tento passar para a minha filha agora, não importa a intensidade da dor ou a situação. Nem sempre a gente consegue evitar as situações que nos pegam de surpresa, mas os sentimentos, as emoções e o que realmente isso provoca em mim, como pessoa, e nela também, sejam sentimentos bons ou não isso eu procuro falar sempre, coisa que nunca me foi falado, da dor. Então eu cresci num ambiente, fui educada em um ambiente em que chorar, nem pensar; sentir medo, dor, qualquer sentimento que venha provar esse nosso lado frágil não era permitido. Isso não era permitido, então eu cresci nisso, absorvendo todos esses valores que minha mãe recebeu do meu avô super rígido, e ela também não soube transformar isso de alguma forma. Eu estou tentando fazer isso agora com a minha filha.

 

P/1 – E quem determinava a forma de educação dos filhos? Era a sua mãe mesmo? Ou era o pai e a mãe que...

 

R – Não, muito mais ela. Assim, o autoritarismo vinha dela. Se houve a separação com sete anos, não com nove... Aliás, eu tive poucos anos de convivência com o meu pai, e no momento... Agora é que estou remexendo nessas memórias que não foram tão apagadas assim, né? O que tem vindo à tona em dose homeopáticas é que ele era afetivo, carinhoso... É ainda, porque está vivo. Mas naquele período que eu vivi com ele, a forma de educar nem sei se vinha muito dela não, porque ela tinha uma dependência total do meu avô, e ela estava vivendo aquele momento de conflito dela também. Hoje, olhando de um outro... Desse lugar em que estou agora, consigo enxergar que acho que não via tanto a determinação dela na educação, acho que era uma coisa assim, como consequência até. Nós tivemos até o momento eu que houve a separação, que nós precisamos sair da nossa casa e tal. O meu avô foi muito rico, muito poderoso, e nós tivemos muita abundância de tudo na nossa vida, mas tudo tem um preço, então pagava-se com a dependência total, então ela tinha que prestar conta de tudo, inclusive muitas atitudes da gente eram corrigidas pelo meu avô. Essa correção ela era determinada ou pela minha avó ou pelo meu avô, e ela obedecia, tanto que ela herdou, acho, esse autoritarismo dele. Mas faltava assim, apesar do autoritarismo, faltava firmeza nela. Firmeza e acho que... Hoje eu vejo que ela não... Ou o medo dela era muito grande, quero crer que seja, que tenha sido movida por medo, ela não assumiu verdadeiramente, integralmente o papel de educadora, não como mãe. Ela esteve do nosso lado, mas por que esteve? Sabe, hoje eu questiono isso: será que naquela época, porque não havia uma outra opção para ela... Então fica esse questionamento em relação a ela, mas ela não atuava como ela mesma, determinando as normas, as regras, vamos dizer, de uma educação mais... Acho que vinha muito mais do meu avô mesmo, em consequência do que ela recebeu dele.

 

P/1 – Na vida prática, assim, como é que era? O que podia ser feito, o que não podia?

 

R – Você está perguntando da infância?

 

P/1 – É, da infância.

 

R – Bom, nós tínhamos essa liberdade de brincar ali na rua, certo? Como em casa somos três mulheres, o meu irmão, o mais velho, ficou um pouco ausente da nossa geração ali de brincadeiras. Agora, dentro da casa, o que podia? Eu tenho uma irmã um ano mais velha que eu, então enquanto... Até os meus sete, oito anos, mais ou menos, que nós tínhamos tudo em abundância, pouco a gente fazia em termos de assumir responsabilidade dentro da casa, porque tínhamos empregadas e tudo mais. A partir daí, dos nove anos, é que nós recebemos, também sem nenhuma explicação, um monte de responsabilidades, coisa que nunca tinha sido cobrado e desenvolvido na gente antes. Eu me lembro que dentro de casa uma coisa que ela proibia veementemente era a gente deitar no sofá para assistir televisão, uma coisa que eu não conseguia compreender, tinha regras, tinha horários... O que mais? Ela exigia que nós a chamássemos de senhora, o tratamento tinha que ser senhora. Tínhamos que pedir benção, pegar na mão... Era uma coisa que o meu avô exigia da gente, e a gente fazia então. Todos os netos, quando entravam no posto à tarde depois que voltavam da escola, beijavam a mão, e então tínhamos que repetir isso com ela à noite também.

 

P/1 – Como era a rotina do dia a dia?

 

R – Você perguntou a rotina de um dia? Eu me lembro de estudar de manhã, eu tive a mesma professora, que me acompanhou da primeira à quarta série, foi uma coisa muito benéfica e então de manhã... Eu me lembro de poucas vezes, não lembro da minha mãe cuidando de mim, do tipo assim, sabe? Me ajudando a escolher roupa, a tomar um banho, eu não consigo me lembrar disso, do cuidado mesmo. Tinha uma outra pessoa, a empregada, que até os meus nove anos... Foi quando ela deixou a nossa casa. Ela fazia tudo por nós, inclusive eu me levantava para ir para a escola e a mesa do café estava posta, com o café dentro da xícara – adoçado –, a manteiga passada no pão... Era só sentar e comer, não tinha mais nenhum trabalho. Eu me lembro dessa empregada, que ficou anos com a gente, e deve ter ficado a minha infância, não me lembro se é desde o meu nascimento. O nome dela era Lavínia, ela acompanhou, ficou muitos anos dentro da nossa casa, acredito que ela tenha nos criado, ela tenha participado muito mais disso. Aí íamos para a escola, voltávamos, almoçávamos e depois reunia a criançada ali em frente a minha casa mesmo. E nessa mesma rua, em frente a minha casa, morava a minha outra tia, na esquina dessa rua era a casa grande, que era um sobrado, e em baixo tinha o posto de gasolina do meu avô e a loja de autopeças também, então era tudo ali. Mais para frente, em outra quadra, tinha a casa de outra tia, então acabava reunindo ali na frente de casa, e a gente passava a tarde brincando. E a minha casa tinha um quintal maravilhoso, um pomar muito lindo, e nós brincávamos no fim da tarde, ela permitia que a gente ficasse na rua, mas até certa hora, depois tínhamos que nos satisfazer brincando no nosso quintal, que era um quintal de terra. Tinha o nosso pomar e tinha uma mangueira muito linda, que eu fotografei há uns dois, três anos atrás, porque ela vai ser arrancada agora. Nós brincávamos muito nesse quintal, eu, minha irmã mais velha e a outra irmã caçula também, e íamos para a cama cedo. Era uma rotina assim, de manhã a escola, brincadeira na rua, depois brincadeira no quintal.

 

P/1 – Como era a rua? Você falou que na rua tinha caminhões. Era uma rua de paralelepípedo? Era...

 

R – Paralelepípedo.

 

P/1 – Então você morava na região mais central da cidade?

 

R – Ah sim, é uma rua abaixo da praça central, nós estávamos no centro da cidade mesmo, bem localizada. E essa rua era larga, plana. Logo depois também o meu avô tinha, em frente à nossa casa, uma oficina mecânica que dava assistência para a frota de caminhões. Então a metade da rua... Quando os caminhões chegavam, metade da rua era ocupada pelo estacionamento dos caminhões, e era aí que entrava em conflito, porque nós queríamos a rua para brincar, e o meu avô com a frota de caminhão dele ali. Então quando não era possível brincar ali, que era a rua mais procurada, nós brincávamos no quintal.

 

P/1 – Quais eram as brincadeiras? As brincadeiras de rua e as brincadeiras de quintal?

 

R – Bom, brincadeira de rua prevalecia a queimada, pega-pega, esconde-esconde. Os meninos acabavam brincando de futebol. Depois, dentro de casa, ali no quintal, eram brincadeiras... Como o quintal era de terra, nós mexíamos muito com a terra. Subir em árvore... Tinha essa minha irmã – que era um ano mais velha – não tinha árvore ali naquele pomar que ela não conseguisse subir e descer. E eu tinha dificuldade, até hoje tenho dificuldade em subir, eu subia e não conseguia descer. Nós brincávamos muito ali... A brincadeira de casinha usávamos ervas ou plantas, ou alguma coisa que tinha no próprio quintal. Enfim, ficava em volta dessas brincadeiras inocentes nessa época.

 

P/1 – Você lembra se tinha alguma coisa da televisão que interferia nas brincadeiras?

 

R – A primeira casa da nossa família que recebeu uma TV foi a nossa, que o ano, especificamente, acho que... Eu sei que foi a primeira casa, não sei se foi a primeira casa na cidade, mas sei que foi na família. À noite reunia toda a família na nossa casa, não era nem a casa do meu avô, foi a nossa casa que recebeu a primeira TV. O que me marcou muito acho que foi na época em que o homem pisou na lua. Que ano foi?

 

P/1 – 1969.

 

R – Sessenta e nove, então foi nesse ano. Isso me marcou muito, eu me lembro que assisti, eu já tinha dez anos... Mas que influenciava as brincadeiras? Não, porque é como eu falei, nós recebemos a TV nessa faixa, com nove, dez anos, então realmente a infância toda eu não tive influência de TV.

 

P/1 – E os brinquedos, assim?

 

R – Ah, os brinquedos... Nós criávamos os brinquedos. E no posto do meu avô tinha um senhor que ficava sempre lá e tinha aqueles carretéis de linha grandes, ele ensinava a gente a fazer brinquedos a partir desse carretel, e nós usávamos chuchu, batata... Se fosse brincar de fazendinha ou alguma coisa assim no quintal, usávamos palito de fósforo para fazer os bichinhos. Presente nós ganhávamos um por ano, que era no natal só, exatamente um por ano. Por mais condições que meu avô tivesse, nós tínhamos abundância de tudo, mas não nesse sentido de consumo... Porque Extrema é comercialmente... Ela estava ainda começando. Quem servia Extrema de comércio era Bragança Paulista, então as pessoas iam para Bragança para comprar o que fosse necessário. Extrema é uma cidade tipicamente do interior, ela tinha aqueles armazéns antigos – que chamava empório –, secos e molhados, tinha um posto de gasolina... Um armazém, sabe? Padaria, farmácia, na época da minha infância, era exatamente assim. Nós não tínhamos esse consumo desenfreado, de você passar, ver vitrines e ser assediada em todos os seus aspectos: visuais, auditivos, mentais, tudo você está sendo atraído para consumir. Não, na minha infância eu não tive isso, foi uma coisa realmente voltada para a minha casa, minha família, minha rua, minha cidade, meus primos e amigos. Eram brincadeiras ou as mais comuns, como as que eu citei, ou brincadeiras que criávamos na hora, não tinha uma influência forte de TV não, graças a Deus, pelo menos isso.

 

P/1 – Você estava falando da escola, poque você teve a mesma professora durante os quatro anos. Cite alguma lembrança desse período escolar.

 

R – Dona Odila, o nome dela, eu me lembro muito. Ela era muito rígida também, mas muito carinhosa, a gente percebia isso. O dia começava assim, nós entrávamos primeiro na fila lá na frente, e todo mundo rezava em pé, todas as salas enfileiradas, em frente à diretora, em frente a todas as professoras. Ali era rezado um Pai Nosso e era cantado o Hino Nacional, quase todo dia a gente fazia isso, a oração era diária, e entravamos para a sala. Aí na sala – e isso me marcou muito – foi que ela escalava semanalmente uma dupla de alunos para examinar a higiene de cada um dentro da sala. Então nós éramos obrigados a estender as mãos sobre a carteira, aí o aluno vinha e examinava se o aluno estava com a unha cortada, limpa, examinava o ouvido, se a gente tinha lavado, a cabeça e o pescoço. Tinha uma menina examinando as meninas e um menino examinando os meninos, e isso era feito diariamente, todos nós sabíamos que tínhamos que tomar banho para ir para a escola e acabávamos tomando outro banho quando voltávamos, porque brincávamos muito. Isso me marcou muito, sabe? Era diária essa revista, mas eu não me sentia humilhada, pelo contrário, acho que na maneira dela ela acabou desenvolvendo um hábito de higiene, mas era uma vistoria brava, porque aqueles... Sempre tinha aqueles que tiravam proveito da situação. Quando tinha alguém que tinha esquecido de tomar banho, uma coisa assim, virava motivo de gozação na sala. Fora isso... E hoje, atuando como professora – eu dei aula 15 anos e para criança eu dei aula nove anos –, acabo entrando em comparação com o que ela fez comigo, digamos assim. E o que me chamava... Ela sempre fazia jogos de competição em relação à memorização de tabuada, era um terror, ela fazia chamada oral diariamente da tabuada, sabe? Ali na frente a gente tinha que ficar em pé olhando para a sala, ao lado dela, e aí... Isso não me afetou tanto, mas afetou a minha irmã que também foi aluna dela. Ela fazia um caldeirão, desenhava um caldeirão na lousa, e quem errasse cairia dentro do caldeirão e seria cozinhado vivo, olha, para você ver que terrorismo! Bom, essa é a memória. Outra coisa também é o recreio e o lanche e o que nós levávamos... Ah, tem uma coisa que tem que ser registrada: eu adorava quando a minha mãe ia levar o lanche para gente lá, eu não me lembro muito, com certeza, se ela fazia isso sempre, mas tinha uma importância muito grande vê-la lá. Quando a gente saía atrasada e não levava o lanche pronto, ela levava para a gente lá na escola, porque era tudo pertinho, andava uma quadra e estava na escola, na praça, e era uma alegria muito grande vê-la chegando lá no portão, esperando que a gente fosse buscar o lanche. Ou então ela fazia um virado de banana com queijo mineiro. Fazia e levava quentinho pra gente, então alguma coisa que ela fazia no horário do recreio ela levava para a gente. O fato da gente não ter sofrido a influência massificante do poder de consumo fez com que a minha infância fosse, apesar das dores da separação do meu pai e da minha mãe, foi uma infância doce, foi uma coisa ingênua mesmo, no verdadeiro sentido da palavra.

 

P/1 – Você se lembra de alguma coisa que você aprendeu na escola durante esse ginásio... Não, é primário, que marcou você assim? Alguma coisa que você tenha aprendido na escola mesmo, em alguma aula?

 

R – E que tenha sido útil para mim? É isso?

 

P/1 – É, alguma coisa que ficou assim na cabeça?

 

R – Dentro da escola? De primeira a quarta série?

 

P/1 – É. Ou depois, se não tiver a lembrança da primeira à quarta. Pular um pouquinho.

 

R – Não, eu acho que foi quando eu percebi que estava lendo, isso foi assim... Esse momento... Agora, o conteúdo mesmo não, o que marcou, que foi forte, foi quando percebi que estava lendo. Mas alguma coisa específica, a não ser da tabuada que eu já falei qual era o processo, o método que ela usava para gente memorizar a tabuada e que até hoje se perguntarem, eu não sei, algumas eu não sei. Fora isso, acho que é esse momento que eu percebi que eu estava lendo mesmo. Depois... Ah, os momentos que eu considerava para mim muito importantes da primeira à quarta eram os momentos em que a gente ou tinha acesso a um livro de história – porque eu adoro ler –, ou que ela contava história. Parece que uma vez por semana, se não me falha a memória, ela contava uma história para gente, lia uma história para gente. Depois de alfabetizada a gente tinha acesso aos livros, então esses momentos eram momentos que realmente me davam prazer por estar na escola.

 

P/1 – Você se alfabetizou na escola?

 

R – Na escola.

 

P/1 – E voltando assim... Depois da separação dos seus pais, com nove anos, o que... Você falou que passou a assumir um monte de responsabilidades que antes você não tinha. Como foi essa mudança? Conta um pouquinho?

 

R – Traumática.

 

P/1 – Quais eram essas responsabilidades que você teve que assumir?

 

R – Traumática. Começou dentro de casa mesmo, então como eu falei, nós não tínhamos o trabalho nem de cortar o pão que comíamos. A partir daí... Minha irmã é um ano mais velha do que eu, então nós tínhamos que dividir as atividades, porque uma limpava a casa e outra... A minha irmã, que tinha aptidão para cozinha, cozinhava, então começou por aí. Isso já foi difícil assumir, aí que entrou o verdadeiro autoritarismo da minha mãe. Ela fazia valer na força mesmo, porque depois disso... Deve ter sido esse o fato da Lavínia que cuidou mais da gente, porque até então... Eu só fui perceber essa reação da minha mãe após a Lavínia ter saído da nossa casa e nós termos que assumir essas tarefas. Ela batia na gente e usava um cordão de ferro e uma vara de marmelo, era com isso que a gente apanhava dela, e eu me lembro uma vez que nós tínhamos que chamá-la de senhora; senhor e senhora era obrigatório. Eu deveria ter uns sete anos, sete para oito anos, se não me falha a memória, inocentemente... Eu não me lembro direito o que eu fiz, e na tentativa de me justificar com ela, eu a chamei de “você”, levei um tapa na boca e saí correndo, chorando. Eu me lembro que ela pediu para que eu voltasse e falou: “Você não apanha agora, mas quando voltar você vai apanhar”. E o nosso quintal era imenso para nós na época, então eu devia ser muito pequena mesmo, porque o quintal parecia muito grande. Eu entrei no quintal para me esconder no quintal, aí ela mandou minha irmã – que era um ano mais velha do que eu – me cercar de um lado e ela do outro, como se eu fosse um animal acuado, não tinha como escapar. Então eu sofri isso, essa é uma lembrança forte que ficou, eu fui apanhada para poder apanhar. E nós recebíamos... Quando ela batia era cordão de ferro e vara de marmelo. Bom, além de assumir as atividades da casa... Porque gerava muito conflito entre eu e minha irmã, ela era um ano mais velha, e na época ela tinha um gênio assim... Ela me dominava em todos os sentidos, ela fazia valer a vontade dela, e eu era muito retraída, muito fechada, tímida, e a minha irmã muito extrovertida, muito alegre, muito comunicativa, eu ficava à sombra dela, e ela soube tirar proveito disso durante muito tempo, sabe?

 

P/1 – Você tinha uma irmã mais nova também, né?

 

R – Eu tenho uma irmã mais nova, mas a diferença de idade não permitia muito a gente brincar, se misturar, era mais a Kátia mesmo, que era essa um ano mais velha. Bom, além da responsabilidade dentro da casa, a cobrança no sentido de ir bem na escola, no estudo, passou a ser maior, ela cobrava mais, e eu acredito também pelo fato dela ter a separação fez com que ela ficasse assim, excessivamente preocupada – e com razão – em relação a gente. Me pareceu que aí ela percebeu que ela tinha filhos para educar. De repente, ela deve ter percebido assim, no susto, aí nós estávamos com oito, nove anos, então ela foi muito crítica, era uma coisa muito forte nela, além do autoritarismo. Muito, excessivamente crítica, e é até hoje, só que hoje a situação é diferente. E muito controladora... Eu me lembro, pulando um pouquinho mais para a frente, no começo da adolescência, como fui uma criança muito reservada, muito introvertida, tímida, a forma que eu encontrei para entrar em contato comigo de uma forma mais tranquila foi a escrita, então eu busquei a escrita. Eu escrevia, comecei a escrever diário, então toda aquela raiva contida da minha mãe ia através da escrita. Era registrado, todo o meu mundo interno estava ali. Mas eu confiava nela até um dia que eu a peguei lendo o meu diário, isso foi uma violação que até a pouco tempo estava na... Não havia sido perdoado, e foi tão forte para mim que eu peguei os diários que tinha e queimei.

 

P/1 – Você queimou todos?

 

R – Queimei, porque... E não usei mais a escrita nesse sentido, aí eu passei a ter correspondentes, depois da adolescência... No período da adolescência como eu gostava de escrever! Toda pessoa que eu conhecia, ou alguma pessoa que me abria esse canal para a escrita, eu me correspondia com ela durante muitos anos. Até, acho, que meus 19 anos, ou até 18 anos eu usei muito a escrita através da correspondência. Eu tive muitos correspondentes, porque também, as cartas que chegavam antes da minha maior idade eu tinha que mostrar para ela, ela tinha que ler as cartas, então eu não tinha nem essa privacidade. As que eu podia esconder, que ela não estava presente a hora que o carteiro entregava... Porque interior era assim, nós recebíamos a carta direto, ia o carteiro, batia na porta, entregava a carta. Então quando eu recebia carta era uma alegria, porque ela não sabia que eu tinha recebido, aí eu procurava esconder, mas do contrário não. Então você falou das responsabilidades, era isso, a parte doméstica, depois ela muito exigente em cima da gente, exigindo de a gente realmente se dar bem na escola.

 

P/1 – Como vocês se viraram financeiramente já que seu pai... Por sinal, o que o seu pai fazia? Eu não perguntei.

 

R – Então, o meu pai conheceu minha mãe na época da construção de Brasília, eu sei disso porque eles foram morar lá depois, assim que eles casaram. Foram para lá, ele foi trabalhar na construção de Brasília, então ele estava trabalhando ali na construção – eu acredito que foi na pavimentação da entrada da cidade, alguma coisa assim – e ela o conheceu ali.

 

P/1 – E o que ele era?

 

R – Era operário de alguma construtora, na época ele era operário. Ele é gaúcho... Aí depois eu sei um pouco da história deles. Eles se casaram e foram para Brasília, lá minha mãe ficou morando num tipo de tenda ou barraca dos operários, então imagina, ela casou com 15 anos, era adolescente mesmo, uma criança, se for considerar a época. E foi para lá uma criança que tinha tudo, foi tirada dessa situação para morar no meio de operários sem nenhuma infraestrutura. Ela não aguentou, ela não tinha estrutura para isso, ela poderia até ter ou criar, tem pessoas que criam essa estrutura interna numa situação dessa, ela não conseguiu criar isso, e até hoje não conseguiu, ela é dependente até hoje de alguém. Então não deu outra, meu avô, como patriarca que era, entrou em contato, ela disse das dificuldades que estava passando e meu avô mandou alguém buscá-los: “Venham para cá que eu vou sustentar vocês”, aí o meu pai voltou de Brasília e o meu avô ofereceu um caminhão para ele trabalhar como motorista, que não deu certo. Depois ofereceu para ele trabalhar dentro da oficina mecânica e não deu certo, mas o meu pai tinha uma profissão: ele era fotógrafo. Ele queria exercer essa profissão, aí o meu avô ofereceu um cômodo do lado do posto, não tinha fotógrafo na cidade e ele tinha tudo para prosperar. Ali ele montou a cabine fotográfica dele, aí eu tenho lembranças dele trabalhando com as fotos, que eram pintadas a mão... As fotos coloridas eram coloridas à mão, e depois...

 

P/1 – Você chegou a estar com ele, fazendo assim...

 

R – Cheguei. Eu tenho inclusive fotos, vou deixar registrado aqui, é tão forte esse bloqueio da infância que depois da falência do meu avô que nós... Chegou ao ponto de vender tudo, tudo. Então a família que o acompanhou, morando junto, era a gente. Nós fomos morando assim, em casa de aluguel, com muita frequência, até ir diminuindo cada vez mais a condição da casa. Em uma das que nós fomos morar, nós fomos morar no porão, que era uma casa de assoalho. Nessa época, nesse momento eu já sustentava a casa e tal.

 

P/1 – Você tinha quantos anos, mais ou menos?

 

R – Bom, que eu comecei a assumir despesa de casa com meu avô – minha avó morando junto – eu tinha 17 anos, com 17 anos eu pagava tudo na casa, meu avô entrava com uma parcela, mas era mínima. O fato que hoje me prova o quanto eu tentei me distanciar da infância, foi que todas as fotos que o meu pai tirou da gente – e foram muitas, preto e branco e algumas coloridas por ele – eu deixei num baú nesse porão de uma das casas que a gente morou, e quando nós saímos dessa casa eu esqueci esse baú. Soube depois, graças a Deus, que um tio meu resgatou e tomou posse de tudo, e as fotos estão com ele. Então são muitas fotos da nossa infância, e tem fotos ali coloridas à mão. E é um tio que tem assim, uma participação forte, pesada na minha vida, que eu preciso resolver, porque está pendente ainda, e tem a ver com a minha infância, quem é que está com as provas da minha infância? É ele, eu tenho que ir até ele, então eu pretendo ainda recuperar essas fotos, sabe? Uma coisa que eu devo a mim, mas são fotos... Todas as que estão ali foram tiradas pelo meu pai, muitas fotos históricas mesmo de Extrema, foram tiradas por ele. Só que aos olhos do meu avô e de toda a família daquela sociedade mineira provinciana, ele não tinha futuro com aquilo, como é que podia ele ter um sogro próspero e tudo mais. Mas logo depois da separação ele veio embora para São Paulo, então ele tinha uma profissão bonita até.

 

P/1 – Você falou, quando a gente estava preenchendo as fichas aqui, que você foi, com dez anos, trabalhar como empregada doméstica.

 

R – Fui. Minha filha está com 13... Não que eu não necessite, mas eu não a colocaria aos dez anos para trabalhar. Se hoje você pega a minha filha com dez anos, eu considero criança, o que eu era então com dez anos? Era uma criança mesmo, e fui ser empregada doméstica, foi por pouco tempo.

 

P/1 – Continuou a estudar?

 

R – Sim, continuava. Trabalhava um período, eu não me lembro quanto tempo isso durou, mas lembro da experiência de encerar. Dez anos, encerar uma casa grande, encerar uma casa com joelho no chão mesmo, isso aí ficou marcado. Depois eu me lembro do primeiro emprego com registro mesmo, eu não tinha 14 anos ainda e eu estava em férias de escola, estava passeando numa cidade mais do interior de Minas e a minha irmã, que era um ano mais velha que eu, ela... Acho que ela acabou herdando isso da minha mãe, essa estrutura interna fraca para situações fortes da vida, ela tinha... A separação do meu pai, para ela, provocava... Quando a gente tinha que ver o meu pai nas visitas dele... Ah, depois da separação do meu pai, o meu pai procurou uma dessas religiões, não me lembro se era Adventista, só que ele se tornou na época um fanático, e isso era motivo de vergonha pra gente, principalmente para minha mãe. Então a minha irmã desenvolveu uma espécie de ataque, e cada vez que ela sabia que meu pai estava lá na cidade para ver a gente, ela entrava em desespero. Com isso ela foi sendo poupada de muitas coisas, ela não assumia as responsabilidades verdadeiramente, ela não assumia e passavam para mim, que era a mais nova e acabava assumindo. Então o meu primeiro emprego em carteira veio mais ou menos assim, tinham arrumado tudo. O meu avô foi vice-prefeito, ele atuou politicamente dentro da cidade de uma forma muito forte, e ele construiu uma escola lá. Olha, eu não tenho dados mais específicos que eu poderia dizer, mas a maior parte da escola foi construída com o dinheiro dele, e essa escola não recebeu o nome dele. Agora recentemente, há alguns anos atrás, outro prefeito que nem da cidade é, reconheceu isso, a importância histórica dele, construiu outra escola e deu o nome do meu avô para a escola, mas a escola que ele efetivamente construiu não tem o nome dele, tem o nome de outro político que não colocou um tijolo lá. Bom, voltando ao que eu estava falando... O que você perguntou?

 

P/1 – Eu estava falando dessa coisa de trabalho, desse primeiro registro teu...

 

R – Ah, do trabalho, exatamente. Eu não tinha 14 anos, eu estava em férias escolares e o meu tio foi me buscar dizendo que tinha arrumado um trabalho que era para ter sido da Kátia, mas a Kátia entrou em crise nervosa, então foram me buscar, e eu não tinha 14 anos, aí eu fui trabalhar, era um escritório de contabilidade de um proprietário do único supermercado da cidade também. Só que eu entrei para aprender a rotina de um escritório, mas logo em seguida ele me colocou ali na parte do supermercado, que trabalhávamos em três moças, eu tinha quatorze anos, e ali eu trabalhei ajudando a descarregar caminhões de mercadoria, eu me lembro disso, e a partir daí eu não parei mais de trabalhar.

 

P/1 - Você falou que com 17 anos a casa praticamente era você que assumia tudo. Nessa época você fazia o quê, com 17 anos?

 

R – Nessa época onde eu estava trabalhando? Acho que logo depois desse trabalho nesse supermercado – eu devo ter ficado uns dois anos – eu entrei também numa coisa trazida pelo meu avô, que foi o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Extrema. O meu avô, como político, conseguiu montar isso aí, e colocou a minha irmã mais velha, que já estava, na época, com 17 anos. Eu já estava com 16 para que ela pudesse trabalhar dentro do Sindicato, também não foi para frente, quem assumiu? Eu assumi, fui lá e assumi o Sindicato com 17 anos, então eu trabalhava, nessa época... A minha mãe nessa época trabalhava como costureira numa oficina de costura, então tinha os rendimentos dela, tinha um pouco do meu avô, e era o que eu ganhava também. Logo depois a Kátia, com 17 anos, não, 18, ela se casou. Ela viu que a situação, a tendência era ter que assumir cada vez mais responsabilidade, então exatamente no momento que mais precisava, ela casou, e eu me lembro que ela casou na ilusão que o atual marido dela era realmente rico e que ela poderia sair daquele barco furado, mas não foi bem aí a história dela. Aí eu fiquei com essa responsabilidade, era meu avô, minha avó, minha irmã mais nova... Porque eu e a minha mãe... Nessa época eu estava trabalhando no Sindicato, se não me engano, e o sonho do meu avô era ter uma neta professora. Então quando eu terminei o primeiro grau, a oitava série, havia em Extrema uma escola nova, tanto que eu fui da primeira turma... Não, eu fui da segunda turma formada nessa escola de segundo grau, que também foi trazida graças ao trabalho do meu tio, porque o meu tio foi prefeito na cidade e conseguiram a escola de segundo grau lá. Tinha o Curso de Magistério e o Curso de Contabilidade, por uma gratidão a ele eu acabei optando pelo Magistério, hoje eu não me arrependo, acho que foi uma opção correta, e então, com 18 anos eu me formei no Magistério. E o meu vestido de formatura a cor, o tecido, o modelo, foi ele que escolheu. Eu só fui ver na hora de experimentar o vestido, tamanha era a importância disso...

 

P/1 – Do seu avô?

 

R – Do meu avô. Teve uma prima, essa prima que eu estava aqui na casa dela, ela é um ano mais velha que eu, se formou como professora, mas não tinha a ligação afetiva que eu tinha com o meu avô, mas ele escolheu tudo, se não me engano eu devo ter entrado com ele como padrinho, eu não me lembro muito bem. Aí eu comecei a dar aulas, a partir dos 18 assumi a profissão de professora mesmo, aí fui dobrando o turno e tal...

 

P/1 – E assim, para uma adolescente estar trabalhando e tal, como é que ficava essa coisa de paquera, namoro?

 

R – Então, como eu disse, a minha irmã um ano mais velha, eu vivia à sombra dela, principalmente no período da adolescência. Ela se casou com 18 e eu tinha 17, então dos meus 13 aos 17 anos tive algumas paqueras? Tive. Tive algum namoro? Tive, mas sempre com muita timidez, porque a Kátia era a que sobressaía na turma. Porque tinha o grupo, mas as meninas e os meninos iam à procura da minha irmã na minha casa, eu não existia, e de vez em quando ela permitia que eu acompanhasse a turma dela, entendeu? Eu não consegui desenvolver devida a essa força dela diante de mim, mas era só nesse aspecto que ela tinha força mesmo. Aos 14 anos eu tive o meu primeiro namorado, não fui orientada em nada, as poucas informações... Não é nem informação, é orientação mesmo que os pais devem dar aos filhos quando percebem que eles estão descobrindo o outro lado afetivo, tem que ser dada toda a orientação necessária, toda. E o pouco que chegou até mim chegou através de leituras de livros tidos como proibidos, que nós líamos inocentemente e guardávamos debaixo do colchão, como se a mãe não fosse ver, ou então a gente recebia informações de... Não que elas não soubessem, mas das empregadas das nossas casas, entendeu? As nossas mães não tinham essa coragem de nos orientar, então a gente conversava com as empregadas sobre tal coisa: “Como é isso? Como é aquilo?” Então com 14 anos eu dei o meu primeiro beijo e fiquei desesperada, achei que estava grávida com 14 anos por causa de um beijo, porque eu não tinha essa informação com 14 anos. Minha menstruação quem me explicou o que era foi a empregada da minha avó, não foi minha mãe. Então a adolescência foi também tumultuada, e mais por um lado eu tive que assumir uma responsabilidade que seria reservada para um adulto. Muitos conflitos da própria infância, da separação, que estão sendo resolvidos de uns anos para cá... A adolescência eu diria que foi mais dolorosa... A infância eu tenho, apesar de não estar querendo trazer à tona, mas quando eu me lembro, me lembro com uma sensação de saudade, de saudosismo, como uma coisa gostosa. Como eu falei, o fato da gente não ter sofrido a influência da TV, de um monte de coisa, me permitiu ter uma infância, apesar de todo conflito, mas uma infância doce, dentro daquele contexto de cidade de interior, mas a adolescência foi conflitante para mim. Aí quando a minha irmã casou, com 18, eu dei o meu grito de independência com 17 (anos?), e aí minha mãe não segurou mais... Porque a minha irmã, mesmo na adolescência, nós tínhamos o horário para chegar em casa, a minha irmã namorava muito, muito, todas as pessoas que chegavam, os jovens, principalmente de Bragança que frequentavam Extrema – que era próximo –, esses grupinhos de adolescente que chegavam lá, a primeira pessoa que entrava em contato com eles era a minha irmã, todo mundo queria conhecer a Kátia, todo mundo queria ver a Kátia, ninguém sabia que eu era irmã dela ou, se conhecia, era a irmã da Kátia, não era a Vânia. Então a adolescência foi vivida à sombra da minha irmã, me satisfazendo assim, com o que sobrava dela, digamos assim, da amizade, da atenção, porque eu estava assumindo aquilo que era para ela assumir, na verdade, então socialmente ela tinha uma força, mas ali dentro não. Quando, na primeira oportunidade que ela viu, acho que ela não tem consciência disso, na primeira oportunidade ela foi, casou com 18. Com 17 conheceu esse rapaz, parecia que tinha uma família financeiramente estruturada, e a nossa estava indo pelo esgoto, então ela saiu de cena na minha adolescência, aí eu estava com 17 anos. Nós tínhamos esse horário de no máximo dez horas estar em casa, então o namoro dela se resumia ali na praça, não podia namorar no carro, era proibido namorar dentro do carro. Nós morávamos, ainda nessa época que ela namorou ele, na casa grande, meu avô não tinha vendido, foi a última a ser vendida, foi a sede dele. Nós morávamos nessa casa e tinha uma escadaria, uma varanda enorme na frente, então eles ficavam namorando ali naquela escada, e a janela do nosso quarto dava para essa escadaria, então quando passava desse horário a minha mãe já chamava. Isso aconteceu com ela com mais frequência: “Kátia, está na hora de entrar”, cada dois minutos que passasse a mais ela chamava, era bem controlado o horário. Ela casou com 18 e eu estava com 17, aí eu vim à tona, rompi todas as normas, todas as regras que ela impôs até então; para minha irmã e para mim, consequentemente também eu rompi, porque aos 17 eu adquiri uma força que ela não conhecia, se eu tinha responsabilidade de assumir a despesa de uma casa com três adultos, então eu tinha responsabilidade, tinha o direito também de levar minha vida para onde eu quisesse. Isso passava não de uma forma tão consciente como hoje, mas no fundo era isso que eu sentia, ou talvez até mesmo para desafiar tantos anos de sufoco. Sei que eu rompi tudo, rompi tudo e ela não conseguiu segurar. De certa forma eu até facilitei para a outra que veio atrás, e aí as coisas foram acontecendo.

 

P/1 – E como é que foi esse rompimento? O que te abriu, o que...

 

R – Eu me lembro de uma conversa com a minha mãe. Nós estávamos na cozinha dessa casa grande e nós tínhamos um fogão à lenha, que era a casa da minha avó, linda a minha avó. Tinha o fogão a gás, mas a minha avó cozinhava no fogão a lenha, e nós morávamos com ela. Eu me lembro que essa conversa aconteceu ali, em volta do fogão a lenha, acho que o meu pai havia estado naquela semana e a Kátia teve a crise de nervo. A minha mãe fez o seguinte comentário: “Feliz é a Vânia, que não sofre com nada”, aí foi a primeira vez que eu dei uma resposta, que eu rompi a primeira barreira com ela, foi aí, foi verbal. Eu falei para ela assim: “Olha, se mostrar preocupada com alguma coisa é ter ataque e babar por aí, então eu, a partir de agora, vou começar a ter também” – e a chamei de “você” – “Se você acha que só quem treme, quem baba, quem enrola a língua, quem prende a mão que é nervosa, que se sente nervosa e preocupada com as coisas da vida, então eu vou passar a fazer isso, quem sabe você vai achar que eu sinto alguma coisa”. A partir daí ela não conseguiu me segurou mais, eu tomei consciência da minha força, só que foi de uma forma violenta para mim. Se foi para ela, para mim foi pior ainda, porque as conseqüências foram traumáticas também, então com dezoito a... O meu irmão, nessa época, eu acho que ele já estava estudando em Itajubá, então ele vinha, e eu sei que no momento...

 

P/1 – Seu irmão era mais velho, né?

 

R – É, era mais velho.

 

P/1 – E ele também ajudava na casa? Já trabalhava?

 

R – O meu irmão era completamente ausente, sempre esteve ausente, durante todo esse processo. Pelo contrário, a gente teve um período em que eu e a minha irmã mais nova, que estava trabalhando e me ajudando a manter a casa, teve um momento da vida dele, ele estudando, fazendo faculdade e nós tivemos que mantê-lo financeiramente. Nós, que éramos mais novas que ele. Então ele não participou, não viu nada acontecer, ele não viu nada, ele vinha de vez em quando. Foi o primeiro neto de todo esse clã, então usufruiu da época das vacas gordas, vamos dizer assim, ter o primeiro neto fazendo faculdade, e ele se saiu muito bem na faculdade, e isso era uma questão de orgulho para o meu avô... Então ele esteve ausente o tempo inteiro. Participou de um período da infância, mas o engraçado é que eu não citei, né? Mas nesse período nosso, da adolescência, que houve toda essa falência do meu avô, não, ele vinha de vez em quando, final de semana. Hoje ele assume a profissão dele como músico, então na época que ele estava entrando nessa área o violão era o mundo dele, ele ficava horas, quando vinha, trancado no quarto, até que quando ele saiu, saiu tocando, e a gente não sabia como ele tinha aprendido. Tinha um professor de música que era muito amigo da gente, mas ele aprendeu em tempo recorde, mas por quê? Ele concentrou toda energia dele ali, ele não participou de nada, não viu a gente se transformar em mulher e nada, não participou de nada, participava à longa distância, quando vinha achava no direito, mas sempre distante. Bom, e esse primeiro rompimento com a minha mãe foi verbal, quando eu me dei conta... Com 18 anos tudo aquilo que era regra para minha irmã eu fazia o contrário, onze horas eu estava saindo de casa com 18 anos, então tudo foi contestado, e infelizmente, não sei se posso dizer infelizmente, mas a minha mãe não teve força para segurar esse rompante mesmo. Aí tinha esse professor de música que era muito amigo, e como eu gosto muito de música, também nós formamos um grupo, éramos verdadeiros boêmios mesmo. Aos 18 anos a minha vida era sair tipo onze horas da noite, mas o que havia ali era a reunião de amigos, de pessoas que eram apaixonadas por música, pela noite, e a gente atravessava a madrugada e fazia serenatas, sabe? Isso que eu passei a viver aos 18 anos, assim, dona do meu nariz. Eu chegava a hora que eu queria e não prestava contas, minha mãe nem sabia, às vezes, onde eu estava. E namorando muito, minha avó falava para mim “Você não namora sapo porque não sabe o que é macho e o que é fêmea”, de tanto que eu namorava. Eu trocava de namorado a cada quarto, cinco meses, não me prendia a nenhum. E aí, aos 19 anos é que houve outro fato de muita importância. Eu estava dando aula em Itapeva e inquieta, muito inquieta, sempre querendo conhecer mais coisas e tal, mas não conhecia a sexualidade ainda, não conhecia o sexo... Aliás, foi aos 19 anos, pelo fato de eu não ter recebido orientação e informação, acabei buscando, encontrando uma situação que hoje eu não desejo para minha filha e não desejo para pessoa... Nenhuma mulher, acho que deve ser preparado para isso também. Eu passei a noite fora, e quando eu cheguei em casa, era como se estivesse escrito em néon na minha cara, então eu não tinha passado... Eu me lembro que quando eu saía para essas noitadas, acho que ela sabia que eu não corria, entre aspas, tanto risco, né? Estava com o meu irmão, os músicos, esses amigos. A gente ficava ali naquela coisinha de cidade de interior mesmo, sentada na calçada, tomando uma aguardente – não era nem cerveja – mesmo e conversando, no máximo que eu chegava em casa era três da manhã, mas passar a noite e chegar de manhã, passar a noite e chegar com o dia claro eu não tinha feito isso ainda, e então foi aos 19 anos, e foi de uma maneira traumática, também por falta de orientação. A partir daí eu vivi sete anos... Foi em 78, né? Dezenove anos que eu tive a minha primeira relação sexual, e aí, ao chegar em casa dia claro minha mãe estava lá, e nessa época a gente já estava morando numa casa que havia sido construída no fundo do quintal da minha tia, para que a minha avó, meu avô e eu morássemos e a minha mãe e minha irmã juntas. Quando eu cheguei lá, tinha que passar pela lateral da casa da minha tia para a gente... E minha mãe estava lá, ela me olhou, entendeu, e nada foi falado. Entendeu o que tinha acontecido e nada foi falado. Daquela manhã em diante... E eu querendo entender o que estava acontecendo comigo, eu precisava falar com ela. Aí ela entrou num processo de me ignorar dentro de casa, e eu tive acho que uns sete ou dez dias que eu consegui suportar isso, estar com ela dentro da casa e ela não falar comigo, não era nem só não falar, era não olhar mesmo, então depois de muito tempo eu voltei à escrita aí eu me comuniquei com ela escrevendo. Escrevi uma carta, nem na carta foi dito o que tinha realmente acontecido, mas ela sabia, e eu tinha dito que eu ainda não fazia ideia do que tinha acontecido comigo, mas que eu não achava que era uma coisa assim tão cruel ao ponto de merecer aquela indiferença dela. E eu não sabia que mal que eu estava fazendo a ela ao ponto dela não falar, não olhar, sequer olhar para mim. Nessa carta eu coloquei que eu não ia suportar aquela situação, então eu ia dar um prazo para ela, se dentro de uma semana nós não voltássemos a falar, eu estaria saindo da vida deles. E quem era o arrimo da família era eu, então eu disse a ela que ia sair, se o que eu tinha feito merecia aquilo como punição. Eu preferiria que ela tivesse me batido na cara, tivesse me expulsado de casa, mas não estivesse agindo daquela maneira comigo. Mas já que ela não tinha coragem de fazer isso, eu mesma faria, eu tomaria essa decisão e iria embora. Se o que eu estava fazendo estava provocando tamanho sofrimento nela, então eu cairia fora. Deixei a carta no travesseiro dela, três dias depois ela voltou a falar comigo, mas nunca foi falado do que aconteceu, e hoje eu posso falar disso com essa consciência que eu tenho, de que os sete anos que eu passei críticos... Eu marquei aqui sete anos, porque foi exatamente o tempo... Eu não tinha me dado conta de que eram sete anos, nessa uma hora que eu fiquei te esperando acabei fazendo uma cronologia e acabei me punindo e inconscientemente. Eu procurei uma punição, ela deixou marcado em mim que eu merecia uma punição, e eu não sabia o por quê.  E ela não tinha dado essa punição, então nós continuamos a viver juntas sem nunca tocar nesse assunto, e durante sete anos eu procurei a punição através... Por ter conhecido o sexo, acabei me punindo pelo sexo. Como? De forma indiscriminada, e ela assistindo isso sem falar nada.

 

P/1 - De forma indiscriminada você quer dizer que...

 

R – Que eu não pensava duas vezes em me entregar para uma pessoa, não havia esse cuidado. Acho que até para entender melhor tem um fato (choro)... Esse processo de sete anos de autopunição eu acho que tem todo um começo lá trás. Quando eu tinha nove anos... Eu sofri uma tentativa de estupro do meu tio (pausa) dentro da minha casa, no quarto da minha mãe...

 

P/1 – Esse que está com as suas fotos?

 

R – Não. A minha mãe soube disso e não fez nada (choro). Eu contei para ela e mais uma vez ela fingiu que nada tinha acontecido. A vida hoje já cobrou isso desse tio, cobrou com uma dor bem maior, mas acho que ele nem sabe que foi cobrança, consequência da atitude dele (pausa e choro). Então eu passei por sete anos e tentei me punir pelo sexo de forma indiscriminada, sempre me violentando.

 

P/1 - Nessa época... Normalmente a gente não costuma fazer esse tipo de intervenção, só vou fazer porque a gente tem uma idade parecida e tal, e nessa época da sua juventude, foi uma época dos 18, mais ou menos, 78, 79 mais ou menos, 85 por aí, foi uma época que a juventude se deu a liberdade, como em todo o mundo, era uma coisa muito fácil e muito aceita, pelo menos a gente tinha todos os amigos que faziam a mesma coisa, então era uma coisa também mais fácil, né?

 

R – Cidade grande, né?

 

P/1 – A gente tem entrevistado algumas pessoas que também... Que essa coisa a parece de uma forma normal, é uma coisa que faz parte da geração, entendeu?

 

R – É, mas eu não via, eu não tinha esse foco voltado para isso, eu estava dentro do meu processo ali, né? Era muito mais... Tinha muito mais a ver com o que eu tinha vivido na minha adolescência do que realmente o que estava acontecendo em termos de sociedade, de liberação e tudo mais. Eu acabei entrando nisso sem saber que eu estava entrando no meio disso, aí consequentemente...  Quando eu vi realmente que a coisa estava acontecendo fora também, eu já estava... Já tinha ido além do que eu poderia permitir, do que eu poderia permitir, do que seria considerado saudável. Eu tinha ido além e então houve assim, um processo de muita culpa e muito medo, foram os sentimentos mais fortes, muita culpa e muito medo, fui movida por isso mesmo, porque hoje eu tenho essa consciência desse sentimento, mas na época era assim, o fato de eu ter tido, de eu ter descoberto o sexo, devia ser uma coisa muito horrorosa para provocar aquela reação na minha mãe. Então eu merecia, e isso foi incutido, eu vivi esse processo durante sete anos, e aí cheguei ao fundo do poço, ou seja, ali não dá mais para passar, cheguei...

 

P/1 – E nessa época você era professora?

 

R – Professora. Eu conseguia manter uma vida, eu tinha essa liberdade dentro da cidade, e as pessoas, como dizia minha mãe, o fato de eu ser, de eu ter desenvolvido essa reação de agredir até antes de ser agredida, eu não temia ninguém, eu era destemida mesmo, e não enxergava ninguém também, não enxergava a mim, como poderia enxergar alguém? Fui percebendo que as pessoas foram se afastando de mim e no meio desse processo, não era um processo que afetava só a mim. De repente as pessoas não estavam se aproximando de mim e cheguei ao fundo do poço mesmo, mas eu conseguia manter essa... É que durante esse processo... Esse processo não aconteceu tanto dentro de Extrema, dentro da minha cidade, porque eu saía com certa frequência, então se realmente isso era conhecido da comunidade ali, isso não chegava até mim, porque as pessoas tinham medo de se aproximar de mim, e era exatamente isso que minha mãe me falava “As pessoas têm medo de você”, porque eu não levava roupa suja para casa. Eu cresci ouvindo dela que primeiro eu era forte e desenvolvi isso, esse comportamento, então eu me tornei muito agressiva com as pessoas, comigo, e consequentemente com as pessoas. Cheguei ao fundo do poço, aí eu tive que ajoelhar e rezar, literalmente, e pedir que a minha vida tinha que dar uma guinada de 360 graus, mas eu não sabia como. Nessa época, em 84, fim de oitenta e quatro, eu tentei veementemente ir para trabalhar com os índios na área de alfabetização. Tudo, tudo eu tinha tudo para ir, pessoa que estava lá dentro para me colocar, mas a minha mãe fez reza brava para eu não ir, e dizem que pedido de mãe é atendido imediatamente (risos), e eu não consegui ir. Bom, não vou para o Amazonas, então eu vou para Porto Alegre. De Porto Alegre são os meus familiares paternos, minha avó paterna, tias... Escrevi para minha tia de Porto Alegre e fui para o Sul, eu falei já que você está torcendo e fazendo de tudo para que eu não saia daqui, então nessa época eu morava com ela... Ah, e nesse meio tempo, tudo acontecendo, a minha irmã mais nova engravida e casa, foi uma catástrofe na vida da minha mãe. Bom, mas ela casou, né? Ela casou e passado alguns anos foi quando eu decidi ir para o Sul, para Porto Alegre, e deixei a minha mãe sozinha, nessa época morava apenas eu e ela e fui para o Sul. Eu não cheguei a ficar três meses lá em Porto Alegre, e antes de ir eu tinha chegado no estágio final do poço mesmo, então eu tinha que sair dali, Extrema representava esses sete anos, e eu tinha que sair dali. Eu tinha que procurar outra, me procurar em outras partes. Não achei, mas achei uma outra coisa, antes de ir eu fui à Belo Horizonte, onde mora meu irmão, e foi lá que eu ajoelhei e rezei, pedi que essa transformação viesse, porque eu não conseguia enxergar a minha vida além daquilo ali. Mas não fazia ideia do que seria, Porto Alegre foi apenas um canal de fuga, eu sabia que era temporário, mas não sabia o que eu iria encontrar lá... Mas fui, arrumei as coisas, deixei minha mãe sozinha e fui para lá.

 

P/1 - Isso você tinha quantos anos?

 

R – Vinte e seis anos, aí eu rompi com ela e fui, pedi um afastamento de dois anos na escola... Eu sei que nessa época a minha fama em Extrema não era das melhores, claro, e fui para lá, mas minha mãe não sabia quem era a minha tia e não sabe até hoje. Fiquei no apartamento da minha tia, e na primeira semana nós saímos, fomos a uma boate e eu conheci o Ciro, o pai da minha filha, então ainda estava naquele processo, porque na primeira semana que eu o conheci eu saí, e foi preciso apenas uma vez para minha filha existir. Mas eu me apaixonei por ele. Bom, eu acho que me apaixonaria por qualquer um que passasse do jeito que eu estava, mas me apaixonei por ele, e durante os dois meses que eu fiquei lá, acreditei piamente e tal. Aí grávida... Mas não foi assim, exatamente assim. Quando eu saí de Extrema, rompi um namoro de uns cinco meses, e a última semana que nós estivemos juntos nós não tivemos o cuidado de nos prevenir, então quando eu saí de Extrema, eu achava que estava grávida ou poderia estar a caminho de ficar, e em Porto Alegre, conhecendo o Ciro... Olha só o que eu criei para mim, como se não bastasse sete anos... Eu acabei criando mais um processo, e me apaixonei por ele e tal, fiquei dois meses e meio lá. Voltei para Extrema grávida e aí, para todos os efeitos, dentro de Extrema o pai era do Sul, mas a princípio, quando ela, a Eleni... Não vou falar quando ela nasceu. Durante a minha gravidez eu nunca estive tão bem comigo como durante o período da gravidez, e quando eu voltei do Sul minha mãe já tinha ido morar com essa minha irmã mais nova que tinha tido um filho, então minha mãe cuidava do Diogo. Minha mãe estava para mudar, porque ela ainda estava na casa onde eu a deixei, e o meu cunhado havia construído um cômodo para ela na casa dele, então isso já estava encaminhado. Quando eu voltei do Sul foi assim, uma questão de dias ela foi morar com a minha irmã, só que antes disso eu tinha que contar a ela que eu estava grávida, foi uma das cenas... Olha, eu acho que nem depois do que eu vi quando houve a briga lá dos meus oito anos entre o pessoal lá, o meu avô, o meu tio... Acho que uma das cenas mais horrorosas que eu vi foi a reação da minha mãe quando eu disse que estava grávida, aí só acelerou o processo dela ir morar com a minha irmã. Mas a gravidez foi exatamente esse elemento transformador, a gravidez e a minha filha... Eu me lembro que quando eu liguei aqui, eu falei assim... Cristo divide a história da humanidade em antes e depois, e eu falei, a minha filha divide a minha história, ela marca exatamente isso, entendeu? Eu acho que agora até... Eu acredito que a minha intenção de estar aqui é exatamente para que ela conheça isso, porque revelar isso para ela olhando nos olhos, eu acho que não vai ter tanta veracidade, ou talvez eu não tenha tanta coragem, então é melhor que ela ouça isso, que ela saiba da importância. A princípio eu não tinha dúvida da paternidade dela, mas eu criei uma situação mental para não aceitar o pai dela, porque eu me apaixonei, e com 26 anos, com tudo que eu havia passado, meu currículo sexual pode se considerar assim... Eu achava que eu sabia alguma coisa e eu não sabia nada de nada, e me envolvi numa história assim tão comum e não vi o óbvio... Ele era casado, na época omitiu esse fato, e quando ele soube que eu poderia estar grávida, ele estava em Porto Alegre, e ele foi para a Argentina − porque ele é argentino − e não voltou. Aí soube por um amigo comum lá que ele tinha uma família, e eu estava grávida. Eu havia escrito duas ou três cartas, mandei para ele e ele não respondeu. Eu desempregada, procurando emprego ainda, porque eu estava lá com a minha tia. E eu tinha um cargo de professora na minha cidade, eu podia voltar e reassumir. Entre ficar lá e não saber o que fazer e voltar para minha cidade, enfrentar a minha mãe e toda a sociedade e assumir a minha gravidez... Eu criei que a Eleni seria a filha do namorado que eu havia deixado lá, mas quando ela nasceu e foi colocada na minha barriga e eu a vi, não tive dúvidas que ela era filha do Ciro, mas isso nunca foi dito para ela, durante dez anos isso nunca foi dito para ninguém, aí todo mundo achava que ela era filha desse namorado. Eu cheguei ao ponto de abrir um processo de reconhecimento, e claro que não deu certo, submeti a minha filha e a mim à coleta de sangue por duas ou três vezes. Deu negativo a primeira, deu negativo a segunda, deu negativo a terceira e eu querendo recusar aquilo que eu já sabia... Foi através dela mesma que eu consegui trazer isso à tona, de dez para onze anos. Ela começou a questionar quem era o pai, e aí, com onze anos incompletos, ela conheceu o pai. Outra história: e eu tenho uma amiga que diz “você tem que contar essa história ou escrever um livro”, e eu falo, está bom, ela conheceu o pai, o pai veio, reconheceu como filha, e vai para quatro anos que ela o conhece. Mas quando a Eleni nasceu, está provado aí que toda mulher passa pelo período pós-parto... Tem a depressão pós-parto, a minha durou três anos, acho de três a quatro anos. Eu não sei qual o período normal, mas a minha deve ter durado uns quatro anos. Mas nada, eu estou apenas conseguindo falar aquilo que meu coração permite, que minha mente permite, que suporta ainda, que está vindo à tona e que não causa muita dor. Mas nada, nenhuma experiência que eu possa ter vivido antes da minha gravidez, antes da Eleni, nenhuma experiência, nenhuma de alguém que eu conheça ou que tenham vivenciado, nenhuma eu consigo equiparar a esse poder de transformação que a minha filha operou em mim. Então os três primeiros anos de vida dela, tirando o período da gravidez, eu vivi assim num total... Numa hibernação mesmo, porque eu fiquei hibernando afetivamente durante três anos e tentando enxergar aquele ser na minha frente. Hoje ela está com quase 14 anos, e hoje eu reconheço a necessidade de que ela conheça essa história também para poder ter uma compreensão maior. Mas nenhuma experiência, acho que por mais dolorosa que possa ter vivido, nenhuma vai dar essa dimensão, esse prazer de ter... Eu gostaria de ter tido assim, uma orientação até mesmo um curso de como ser mãe, para que eu pudesse ter evitado algumas passagens de sofrimento que ela passou. E aí por três anos eu fiquei absolutamente sozinha, sozinha; sozinha afetivamente, em contato com essa irmã mais nova que morava lá na época, e a minha mãe, que morava com ela. Esse tempo eu fiquei assim... Como eu estava sozinha e precisava de afeto, vivi muito colada a essa irmã mais nova, meu cunhado e indiretamente com a minha mãe. Mas a minha mãe só foi aceitar a minha filha efetivamente quando ela tinha cinco, seis anos. Como eu disse, a cena que eu assisti quando eu contei para ela da minha gravidez foi muito violenta, ela levou tempo para aceitar. Se ela considerou a gravidez da minha irmã mais nova, a caçula que casou direitinho, conforme todo mundo espera, ela considerou uma traição imperdoável eu, com 26 anos, solteira, sem condições de casar, era mais... Tinha uma extensão maior, né? Ela não aceitou mesmo a minha filha durante alguns anos, só foi ter essa aceitação quando a Eleni tinha uns seis anos. Os três primeiros anos eu vivi com ela trabalhando na escola...

 

P/1 – Você estava em Extrema?

 

R – Estava em Extrema, trabalhando na escola. Aí os anjos colocaram... Quando a Eleni tinha quatro meses, colocaram uma pessoa na nossa vida que é uma prima de segundo grau, o nome dela é Cinira, casada com o Felício e mora em Extrema. É aquele ser que veio ao mundo para ser mãe, e a Eleni entrou na vida deles com quatro meses de idade, enquanto eu dava aula. Então os três meses de licença eu cuidei dela e a minha irmã mais nova me ajudando, daí em diante eu tive que assumir o cargo como professora e encontrei a Cinira, com quatro meses a Eleni entrou na vida deles. Eu trabalhava, pagava para ela cuidar da Eleni e a Eleni ficava na casa deles, então todo esse processo de infância da Eleni quem participou diretamente foi a Cinira, a minha cota de paciência eu deixava com as crianças na escola, eu chegava em casa, tinha que cuidar da casa, tinha que cuidar dela, então nunca sobrou paciência suficiente para ela, mas a providência divina tratou de suprir muito bem com a Cinira, que é uma mãe. É um dos seres que... Eu tive a felicidade de conhecer algumas pessoas que têm a capacidade do amor incondicional, e essa pessoa tem, tanto que dois anos depois dela cuidando da minha filha, ela falou: “Olha, agora não precisa pagar mais nada para gente não, porque sua filha faz parte da nossa família” e com três anos ela viu como eu estava e falou: “Deixa a sua filha aqui e vai cuidar da sua vida, reestruturar a sua vida, e quando você tiver condição, você vem buscá-la” porque os três primeiros anos eu fiquei muito perdida, porque a gravidez é um processo, a gravidez não, a maternidade, em princípio, ao mesmo tempo que é uma experiência única, ela é assustadora a princípio, e eu não sabia como lidar com aquilo, durante os três primeiros anos eu não sabia. A Eleni acabou sofrendo essas conseqüências dessa falta de jeito de ser mãe, mas ela foi compensada pela Cinira. Depois de três anos aí a gente se separou, ela tinha três aninhos, eu vim para Bragança e ela ficou na casa da Cinira, nós ficamos três anos separadas. Eu vim para Bragança e pedi a exoneração do meu cargo de professora, resolvi virar a página lá e vim para Bragança tentar um outro trabalho, enfim, começar do zero, e a Eleni ficou lá, os dois primeiros anos ela ficou com a Cinira e teve tudo, muito mais do que casa e o que é necessário. Foi a atenção, o afeto, o carinho, esse amor incondicional, porque ela sabia que a qualquer hora eu iria buscar a Eleni. E eu fiquei esses dois anos andando em círculos... Engraçado que as coisas pareciam que não saiam do lugar, sabe? Até que uma pessoa que cruzou o meu caminho me falou que... Me chamou a atenção quanto a isso e falou: “Você está andando em círculos, porque você está sem a sua filha, é ela que é a sua bússola é ela que vai dirigir você”, e essa pessoa tinha... Nossa, coberta de razão, foi assim, um momento de muita sabedoria, passou na minha vida, falou isso e foi embora. E alguém também assoprou no ouvido e no coração da minha mãe que eu precisava de ajuda, mas mesmo assim ela não teve ainda coragem de chegar para mim e oferecer. Ela morava com a minha irmã, a minha irmã que a sustenta e ela pediu para o meu sobrinho que convidasse a Eleni para vir morar com eles em Bragança. Eu morava... Nesses dois anos eu cheguei a morar em pensão, em hotel, a dividir casa com algumas moças, até que eu consegui realmente me estabelecer num lugar e ter realmente condições de trazer a Eleni. Nesse tempo ela saiu de Extrema e veio morar na casa da minha irmã em Bragança, porque os dois primeiros anos que nós ficamos separadas a gente se via poucas vezes. E de Bragança a Extrema são vinte e oito quilômetros, mas eu muitas vezes não tinha o dinheiro para passagem, então ou eu pegava carona ou eu ficava sem vê-la nesses dois primeiros anos. Aí que a minha mãe pediu para o Diego − que é o meu sobrinho − e o Diego veio e falou comigo. Ela me veio com uns seis aninhos, veio de Extrema para Bragança e ficou morando um ano na casa da minha irmã, aí a gente se via todo dia, mas foi só depois de um ano é que realmente eu estava em condições de ter uma casa, uma vida e tal. Foi em 93.

 

P/1 – E aí você estava trabalhando com o quê?

 

R – Eu trabalhei, quando eu fui para Bragança... A princípio eu fui trabalhar em salão, paralela à profissão como professora, eu acabei desenvolvendo, nesse tempo... Eu me esqueci de relatar: voltando lá na minha adolescência, na faixa dos meus 14 anos eu comecei a trabalhar em salão, e a partir dos 14 anos aprendi todo o trabalho de um salão, como cabeleireira, manicure... Então quando eu vim para Bragança, vim atrás dessa profissão, porque era final de ano e eu sabia dessa necessidade, eu entrei em Bragança dentro dessa área primeiro e depois eu trabalhei dentro do setor administrativo, trabalhei no Yázigi, trabalhei como secretária, depois trabalhei numa corretora de seguros de carro e até que eu prestei o concurso municipal, passei e voltei à atividade de cabeleireira há uns quatro anos, e estou com um projeto agora, para o ano que vem, da gente colocar um centro mesmo lá em Bragança. E então eu fiquei trabalhando paralelamente a profissão, eu tenho o salão dentro da minha casa durante o dia e à noite eu dou aula. Tem quatro anos que eu sou funcionária municipal, e aí sim estabelecendo um certo grau de segurança dá para você... Quando eu consegui trazer a Eleni que eu percebi realmente que as coisas saíram daquele circulo, aí as coisas maiores, as oportunidades foram aparecendo, e aquela pessoa que passou na minha vida estava certa, “A sua filha é que é sua bússola” é, e ela tinha razão.

 

P/1 – Você falou que num determinado momento aí você passou por São Paulo?

 

R – Foi.

 

P/1 – Fale um pouquinho dessa época?

 

R – Nós ficamos aqui quase dois anos, acho que é um ano e nove meses, uma coisa assim.

 

P/1 – Você e sua filha?

 

R – Não, não tinha a minha filha ainda.

 

P/1 – Ah, foi antes?

 

R – Foi antes de acontecer, por isso que eu te falei, foi dentro daquele período de sete anos. Dentro desses sete anos, eu não fiquei sete anos consecutivos em Extrema. Quando eu vim para São Paulo, vim sozinha e logo em seguida veio a minha irmã mais nova, e eu fui...  Nós buscamos a minha mãe, nós moramos em Guarulhos e depois moramos na Freguesia do Ó... Não, a princípio nós moramos em Santana, ficamos no apartamento de um casal amigo lá, aí quando nós fomos buscar minha mãe nós já fomos morar em Guarulhos, não primeiro na Freguesia e depois Guarulhos. Então eu trabalhava numa empresa gráfica aqui de segunda à sexta e no sábado trabalhava no salão. A minha irmã trabalhava também, essa mais nova, e a minha mãe também trabalhava numa oficina de costura, mas o tempo que minha mãe trabalhava ela reclamava muito do cansaço; enfrentar oito horas sentada numa máquina de costura não é fácil, eu sei que as coisas foram encaminhando de tal maneira em relação a isso que eu fui desenvolvendo uma forma, eu e a Keila, até um ponto que nós... Quando saímos daqui de São Paulo e saímos para Extrema, não permitimos que a minha mãe trabalhasse mais, e foi um grande erro, então a partir daí ela não voltou mais à atividade de costureira dela. Nós ficamos esse um ano e dez meses aqui em São Paulo, e muita coisa dentro desse período crítico desses sete anos que eu estava vivendo esse processo de autoflagelação, vivia aqui em São Paulo. Achei assim, uma experiência, acho necessária, eu aconselho viver em São Paulo nem que seja por dois anos principalmente, porque é um processo de transformação também, porque São Paulo é assim, aqui você tem que trabalhar pela sua sobrevivência muito mais do que em outro lugar, me parece. Mas eu tive oportunidade de conhecer pessoas muito solidárias aqui, mesmo nesse um ano e dez meses, eu encontrei certo grau de solidariedade de pessoas muito maior que no interior, engraçado, mas teve isso aqui.

 

P/1 – A cidade te recebeu melhor aqui?

 

R – É, as pessoas sim, eu acho que tem a ver com o que eu carregava dentro de mim mesma, então a minha cidade representava a pior coisa que eu podia querer. São Paulo tem esse lado que todo mundo conhece de crueldade, mas para mim não tinha essa conotação na época, eu entrei no ritmo da vida aqui sem muita dificuldade, sabe? Me adaptei.

 

P/1 – Foi aqui que você começou a fazer Letras?

 

R – Não, não, Letras eu fiz lá, morando em Extrema mesmo, dando aula lá em Extrema, aí nós fizemos a faculdade lá em Ouro Fino e fui um tempo em Extrema ainda. Aqui eu não tinha condições, não tinha, porque era eu e a minha irmã, e o que a minha mãe ganhava era pouco, não dava. A gente até que passou a morar... Quando nós saímos da Freguesia do Ó e viemos para Guarulhos a gente teve amparo, morávamos do lado de uns primos da minha mãe, a gente recebeu mais atenção aqui do que na nossa própria cidade, mas foi um período de luta aqui em São Paulo, a luta pela sobrevivência, não teve tempo de germinar mais nada aqui, porque mais uma vez eu acabei decidindo a nossa vida em função de outra pessoa, que era minha irmã mais velha. Nós estávamos instaladas aqui, morando relativamente bem, trabalhando, enfim, a vida estava tomando o seu curso, e essa minha irmã mais velha foi que de alguma forma desencadeou o nosso retorno para Extrema. Levou tempo para que eu assumisse a minha vida por inteiro, e devo isso à minha filha também, à presença dela mesmo, porque eu percebi recentemente o quanto eu estive sempre vivendo em função de alguém. Se não era desde o comecinho lá do meu avô, minha mãe, minha irmã mais nova, meu irmão... Houve um processo assim, de assumir e de resolver a situação de outras pessoas da família. Nós voltamos em consequência disso.

 

P/1 - Bom deixa eu só... Tem uma coisa nessa entrevista que eu não entendi, não apareceu a informação. É sobre o teu avô, que era uma pessoa muito rica e de repente pareceu assim que ele perdeu tudo, né? Como é que ele perdeu todas as coisas? Como ele entrou num processo de falência assim?

 

R – Bom, primeiro foi porque ele tem três filhos e ele criou esses três filhos, aliás, cinco, minha tia, minha mãe e de homens três. Ele criou esses filhos sob total dependência dele, então ele construiu todo o império e monopolizou o poder de administração, apenas ele mandava, apenas ele decidia, e os filhos pouca interferência, pouca participação em qualquer decisão. Conforme o tempo foi passando e ele envelhecendo, os filhos foram tendo mais... Mas não que ele tivesse dado isso ou que ele tivesse ensinado os filhos a administrarem, e pouco foi falado disso também, eu acho tão... Quanta coisa a gente pode aprender se conhecer a história dos pais da gente, né? Como a história aconteceu realmente... Se omite, e o pouco que eu sei, ou foi erro... Eu vejo mais como erro administrativo mesmo, por ele não ter dividido o poder de administração, ele tinha que delegar poderes para os outros três filhos e não, ele tentou controlar sozinho, e junto a isso, paralelo a isso, não tinha uma compreensão do momento econômico, político que o país estava vivendo, mas eu acredito que isso deva ter influenciado também, porque a dívida dele, o que o levou, foi a dívida com a Petrobrás, o fornecimento de gasolina. Mas existe também uma história da comunidade e eu não sei... Como é pessoal, não sei até que ponto isso é verdade, que ele jogava e também tinha  o envolvimento de uma outra mulher na história, então aí já é uma outra história, existe o... Eu acho assim, a falha administrativa dele e também essa questão pessoal que eu desconheço até que ponto, até onde isso é verdade... O que ele fez: ele tinha uma frota de caminhões de transporte, tinha esse único posto de gasolina ali que fornecia para a cidade e ficou... Durante muitos anos era ele, uma loja de autopeças mais a oficina mecânica e construiu e fora as casas, os bens que ele tinha. A dívida, na época, quando começou o processo de falência ele me chamou, apesar de eu ter uns 15 anos, 16 anos, ele me chamou para ajudá-lo a fazer um levantamento do que ele tinha de dívidas e também o que ele tinha a receber, porque era um processo... Cidade de interior nós recebíamos o pão, o padeiro deixava o pão na área da nossa casa, você não ia comprar o pão na padaria de manhã, vinha o padeiro na charrete e deixava o pão dentro do saquinho quentinho assim. O carteiro entregava carta nas nossas mãos... Então o meu avô vendia gasolina fiado, vendia peças de caminhões e de carros fiado, marcava como se marcava em caderneta desses Empórios de interior para pagar no final do mês, só que quando a gente... Eu e meu tio começamos a fazer o levantamento disso, era impressionante o montante que ele tinha a receber, eram pessoas que estavam em débito com ele há três, quatro, cinco anos de fornecimento de gasolina. Erro administrativo, por quê? Na época eu não tinha essa visão, mas enfim, fizemos o levantamento, e ao invés dele ver o que tinha de dívida e vendesse nem que fosse todo o patrimônio dele, mas quitasse tudo... E até onde eu sei também, me parece que ele foi vendendo propriedades aos poucos para pagar os juros da dívida, aí quando ele percebeu era tarde demais, ele literalmente ficou com uma mão na frente e outra atrás. Eu vi aquele homem que para mim era como esses antigos coronéis da época do Brasil Império, era assim que eu via o meu avô, e eu o vi chegar assim num ponto de pedir, de bater na porta daqueles que ele considerava amigos, uma contribuição, fosse em dinheiro... Ele pediu e nós tivemos que fazer uma lista com o nome das pessoas que ele considerava amigos, pessoas essas até que ele havia fornecido combustível durante anos, fiado. Foi feita uma lista para que ele conseguisse material para construir essa casa no fundo da casa da minha tia e eu assisti isso de perto, porque eu era a neta mais próxima a ele, e a cena que mais me marcou... E ele sofreu dois derrames e ficou paralisado do lado direito, ele tinha que caminhar com uma muleta, e muitas vezes eu o levei até a praça, isso depois já do processo da falência, para ele ficar sentado lá na praça tomando sol, e ele falava: “Daqui a uma hora você volta para me buscar”, mas a cena... Se não era o meu tio, era eu que fazia a barba nele por causa da paralisação. Mas uma das cenas que mais me marcou e que ninguém da família soube: uma dessas idas até a praça, de levar e sentar, ele me pediu que o levasse à igreja. Eu nunca tinha visto o meu avô entrar numa igreja. Eu o levei até o altar e nunca tinha visto o meu avô se ajoelhar (pausa), ele ajoelhou e ficou um tempo lá. Coincidência ou não, nesse momento entrou um pássaro e ficou sobrevoando entre a gente, sobre a cabeça da gente, e ele ficou um tempo lá. Isso marcou bastante também, por ter visto ele tão poderoso e de repente ver todo esse... É um filme mesmo que está passando ali e você vê toda essa transformação, né? Não durou muito tempo, logo veio a falecer, aí dois anos depois a minha avó também faleceu, mas o meu avô é uma figura muito presente ainda nas minhas atitudes na minha vida, ele e a minha avó, afetivamente a minha avó, e ele é a referência paternal mesmo, visto que eu convivi poucos anos com o meu pai.

 

P/1 – Então você falou de algumas coisas que ... Você falou de 69 do homem chegar na lua, de algumas coisa assim, que te marcaram. Tem algumas outras coisas, fatos que te marcaram?

 

R – Fatos? Tem Tancredo...

 

P/1 – Você acompanhou assim a história do Tancredo?

 

R – Pela televisão de certa forma sim, me chocou bastante, e a morte de Elis Regina foi uma das coisas que...

 

P/1 – Aproveitando o nome da Elis Regina, já que você tinha um grupo musical, quais as músicas, os cantores, os compositores que tiveram algum significado para você? E se tem até hoje...

 

R – Então a minha referência musical surgiu daí mesmo, desse grupo que tinha esse amigo, o Negão, que é músico, professor de música. Basicamente, fundamentalmente, era MPB, nós não permitíamos ouvir outra coisa que não fosse isso. É Chico, Caetano, e voltando às raízes também, a gente procurava muito Noel, Pixinguinha... Mas basicamente era Vinicius de Morais com Toquinho, a nata mesmo da MPB aquela época da Tropicália. Caetano, Gil, a gente respirava isso nessas noites que a gente passava ouvindo música, violão. A gente ouvia fundamentalmente música genuinamente brasileira, não tinha entrada para outra não.

 

P/1 – E pelo visto eram músicas com conteúdo político...

 

R – Com certeza.

 

P/1 – Tinha alguma participação política? Algum envolvimento de alguma forma?

 

R – Não tive mais, porque eu assisti de camarote o meu avô participar de política, não só ele como cidadão contribuiu diretamente com construção de benefícios para a cidade, como a escola, o sindicato que acabou, não sei ainda se está em funcionamento. Depois o meu tio participando da política também, então eu procurava me manter distante devido a tudo que eu assistia dentro do movimento político do interior. Mas depois, trabalhando como professora, eu tive oportunidades de ir até Belo Horizonte e participar de alguns movimentos dos professores. Fui até lá, até onde a coisa estava acontecendo mesmo, e me lembro de uma vez ter participado de um movimento em Belo Horizonte, a gente foi... Trouxemos informações quentes, e quando eu volto para a escola, na hora do cafezinho dos professores eu fui passando, e a diretora não tinha se dado conta que eu era um elemento que poderia, entre aspas, provocar alguma coisa ali. Mas o pessoal do interior nesse sentido é muito pacato, não vai aderir a um movimento que está surgindo lá em Belo Horizonte. Fora isso eu trabalhei diretamente, pelo fato de ter trabalhado no Sindicato, então tive oportunidade também de ir a Belo Horizonte, de conhecer a Federação dos Agricultores de Minas e de fazer um curso lá. Eu tinha o quê? Dezesseis ou 17 anos eu estava lá fazendo isso, conhecendo a realidade dos pequenos produtores do Estado de Minas. Fiquei trabalhando, trabalhei também na Emater, que é esse órgão de assistência rural, e foi através da Emater que eu pude fazer o curso lá. Eu tive um contato maior com essas duas realidades: como professora, conhecendo a realidade da postura política das educadoras que já estão aposentadas ou que estão querendo se aposentar, então ficar quieta, é melhor ficar quietinha, e depois conheci também o lado dos agricultores, né? Trabalhado por trás da máquina administrativa, mas assim, participação efetiva em algum movimento assim não me lembro não.

 

P/1 – Nesses anos todos como educadora, quais as mudanças que você percebeu na educação? Quer dizer, na educação propriamente dita não, na escola?

 

R – Olha, eu tive oportunidade de trabalhar desde o nível de criança de seis anos, e eu passei por todas as séries, lecionando até o terceiro colegial, que seria a terceira série do segundo grau. Atualmente, há quatro anos eu alfabetizo jovens adultos, e é no mínimo frustrante o que se vê hoje, como educadora é frustrante, é tanta coisa por se fazer, e ainda esbarra em questões que já poderiam ter sido resolvidas, mas estão aí ainda pendentes. Alguém disse, escreveu, que o Magistério só existe ainda porque existem os fortes dentro dele, mas não são só os fortes, existem os acomodados. Eu acho que a maior parte até mesmo é dos acomodados, entendeu? Porque os fortes acabam criando outro caminho, vão em busca de outro caminho, mas hoje eu já não vou mais atrás disso, então tive oportunidade de me afastar da educação, acabei voltando e agora estou nela por opção mesmo. Mas um dos elementos é o comportamento humano, eu tive o ano passado a oportunidade de pegar uma substituição de quarta série, e eu fiquei horrorizada em ver o que está acontecendo em sala de aula em termos de comportamento humano...

 

P/1 – Dos alunos?

 

R – Exatamente, dos alunos, mas por trás dos alunos tem toda uma questão administrativa e pedagógica que contribui para isso. Hoje o professor foi colocado numa posição, sabe? Ele não está mais, como que eu poderia colocar... Talvez pela própria classe não ter trabalhado em manter o respeito que havia, ou socialmente isso foi degradando a profissão e a própria pessoa mesmo do professor dentro da sala. Então ele é um elemento a mais ali dentro da máquina da Educação no Brasil. Tem aqueles, claro, que trabalham, mas eu não sei, o que eu vejo na minha realidade ali parece que é a maioria assim, cai no comodismo e enfim, em termos da Educação voltada para a criança é o comportamento. Atualmente eu trabalho com jovens e adultos, há quatro anos, e agora, atualmente, eu tomei consciência da importância e do poder que eu tenho na minha mão diante deles, o poder da informação mesmo. Eu não vou dar nenhuma bandeira para eles carregarem, mas eu posso informá-los, e aí vai depender do que cada um carrega dentro de si. E falta exatamente isso, porque o maior número de professores acomodados dentro da situação... Porque é um emprego aparentemente fácil, estar lá por conveniência ou por vários fatores que contribuem para que eles continuem lá e não procurem outra coisa na vida... Sabe, fica naquela situação de mesmice, tanto que ontem assisti um fato, vindo para cá, com a minha filha. A gente saiu, passamos diante de uma escola, fiquei assustada e comentei esse fato com ela, ela viu, a gente refletiu sobre isso. Praticamente encerrou o ano letivo, e os alunos enceram antes mesmo do ano encerrar. Terminaram as avaliações bimestrais e pronto, eles vão embora e só voltam o ano que vem. Uma escola em que a gente estava passando em frente tem uma praça grande, muito bonita, ela estava todinha forrada com os cadernos que os alunos destruíram, mas aquilo ali pegava a praça inteirinha, a rua, porque o vento já tinha espalhado. Comportamentos assim e outros que a gente tem conhecimento. Quer dizer, não existe mais a valorização do próprio ensino, para que o ensino? Qual o papel fundamental da escola mesmo? Ela está cumprindo? Dentro do Estadual eu não vejo isso. Existem exceções? Claro que existem, não posso generalizar...    

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – Continuando, a gente estava falando um pouco mais sobre a sua vida profissional, e a sua vida profissional atual, de cabelereira?

 

R – Atualmente eu estou com projeto para o próximo ano, para dois mil... Montar, equipar mesmo, um centro de beleza ali dentro de Bragança. Há quatro anos eu retomei isso por uma necessidade, até mesmo necessidade de aumentar o orçamento, e acabei descobrindo que isso pode ser o meu caminho mesmo, não só como... O Magistério hoje, para mim... Hoje eu trabalho de uma forma, puramente por amor, não consigo me livrar disso, vemos dizer assim. Hoje eu tenho consciência do que eu falo quando estou diante da minha classe, mas projeto para prosperar financeiramente é essa área mesmo, de estética e beleza. Eu mantive isso como se fosse assim, um complemento do meu orçamento, até então, não tinha assumido de forma, “não, agora eu vou vestir a camisa e fazer alguma coisa por isso”, porque afinal de contas, eu tenho uma experiência acumulada nisso há quase vinte anos, não dá, simplesmente, para jogar para o alto. Eu falei “não, eu tenho que canalizar isso para alguma coisa”, aí estou eu e mais uma parceira, a gente vai, para o próximo ano, fazer uma coisa em caráter profissional mesmo, dentro disso. E o Magistério, se esse tomar um rumo maior, com certeza o Magistério vai ficar só na saudade. (risos)

 

P/1 – Então Vânia, eu queria... A gente já está encerrando aqui, eu queria saber o que você achou da experiência de contar um pouquinho da sua vida e...

 

R – Olha, eu acredito muito em uma dimensão espiritual, acredito muito nisso, tive experiências fortíssimas em relação a isso, então eu sei que eu não estou aqui, hoje, por coincidência ou por mero acaso. Não. E hoje eu tenho consciência, também, da minha participação mental disso, então de alguma forma, eu vinha buscando isso. Estar aqui hoje, falando, olhando para você e vendo, constatando esse trabalho de vocês é... Vem de encontro com aquilo que eu sabia que tinha mas não sabia o que era. (risos) E o mais importante é que me proporcionou um contato direto comigo, diante de uma pessoa e sabendo que isso vai ser ouvido por alguém. (riso) Acho que, antes de mais nada, vocês acabam, no trabalho de vocês, proporcionando –  (para?) quem consegue entrar no caminho de vocês −, acaba proporcionando uma espécie de cura, porque não é fora, está tudo dentro, mesmo. Poder se expor de uma forma... Se eu estivesse falando com você assim... Mas eu sei que vou virar as costas e não te ver mais, não compromete tanto. E parece que essa posição de falar não toma uma dimensão tão grande quanto ao fato de saber que isso vai estar registrado, que está sendo documentado. Se esse depoimento que, ainda assim, é curto, porque só vem à tona o que a mente e o coração permitem mesmo, ou o que precisa ser curado, então, antes de mais nada, acho que o trabalho de vocês oferece essa oportunidade de cura, porque se eu passo a ouvir minha história, deixo documentada como prova do que eu pude sentir das experiências que eu vivi, para mim, me dá um feedback de que eu estou bem, que estou indo no caminho certo. Eu acho que é a coragem de você olhar para trás, lembrar do que você viveu. Uma coragem maior ainda é você gravar isso (risos) e quem dera saber um dia que isso pode ter auxiliado, ajudado  alguém, de alguma forma. No momento assim, eu estou me sentindo privilegiada de estar aqui, e eu sei que ainda vou levar alguns dias para digerir isso (riso), mas eu sinto que só está fazendo bem, então tem que frutificar esse trabalho mesmo, porque se ele tem um objetivo bom, se é para o bem... Se a semente é boa, tende a dar bons frutos. Então eu estou bem, estou me sentindo encantada também por ter tido a oportunidade de conhecer o trabalho de vocês.

 

P/1 – E tem mais alguma coisa assim, que você não falou, que você acha... Você gostaria de falar mais alguma coisinha, ainda?

 

R – Tem, eu gostaria de registrar a... Eu acabei entrando muito em um processo assim, de falar mais dos meus sentimentos, da minha dor, alguma coisa assim. Mas, nesses 40 anos − que eu fiz questão de comemorar, convidando algumas pessoas específicas −, me dei o direito de recomeçar, e vi que a gente encontra amigos, então hoje eu tenho também uma percepção muito mais ampla do valor, realmente, que tem os amigos na nossa vida. Enquanto eu estava vivendo muito dentro de mim, não pude perceber isso, só fui perceber quando as pessoas se afastaram. Hoje eu vejo que... E quero registrar a presença muito forte durante um período, como amiga, da minha irmã, a Keila, que é a mais nova. Hoje, por questões de mudança de cidade, também, a gente está afastada, mas se ela teve o coração grande para amparar minha filha, com certeza tem um bom coração. E a outra pessoa, uma amiga também, a Iraci, essa é amiga mesmo. Então eu acredito que precisa ficar registrado a importância disso, de a gente aprender, realmente, a conquistar, cultivar, preservar amizades. O coração fala pela gente, vai falar quem é importante ou não. Mas depois que você passa por um processo, você consegue enxergar, assim, meio que distante do que você passou, a gente percebe a presença das pessoas. E nos momentos de intensa dor, sempre teve alguém, sempre teve alguém. E assim como é importante os amigos, o quanto é importante, então, a gente conseguir ser amigo também de alguém, estar presente na vida de alguém de uma forma assim, amorosa, carinhosa, atenciosa. É isso.

 

P/1 – Bom, Vânia, agradeço em nome do Museu da Pessoa e bom, pelo jeito foi boa a experiência para você.

 

R – Foi.

 

P/1 – Legal.

 

                                                                                            ne, ele estudando, fazendo faculdade manter a casa vida, enta ce                                                                                             

 

 

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