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Nascer ao Sul, nascer na Fronteira…

História de: Zélia Fajardini
Autor: Zélia Fajardini
Publicado em: 18/11/2014

Sinopse

Nasci em uma cidade de fronteira, segundo gostam de dizer alguns: “A mais irmã das fronteiras.” Alguns hábitos peculiares do “meu Sul” e alguns acontecimentos neste lugar do mundo conformaram profundamente meu modo de ser.

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História completa

Nascer ao Sul, nascer na fronteira…

O lugar...

Nasci em uma cidade de fronteira, segundo gostam de dizer alguns: “A mais irmã das fronteiras.” Santana do Livramento, Sant’Ana do Livramento, situada na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. As terras onde está Santana foram habitadas por índios Charruas e Minuanos, desde aproximadamente 10 mil anos até o extermínio dos Charrua por espanhóis. Depois chegaram os jesuítas espanhóis, os espanhóis e – não sei em que sequência – imigrantes portugueses, italianos e sírio-libaneses. Não sei muito sobre a ocupação do “lado Uruguaio”, na cidade de Rivera, situada ao norte do país. É possível que outrora a grande região dos Pampas tenha sido habitada por tribos irmãs. Os últimos charruas foram assassinados por Fructuoso Rivera, em uma emboscada, em 1931.

Alguns hábitos peculiares do “meu Sul” e alguns acontecimentos neste lugar do mundo conformaram profundamente meu modo de ser. A roda (ou a qualidade de ser circular) Um dos principais deles foi o chimarrão, não apenas o gosto amargo, mas, principalmente, o ritual que, quando menina – e ainda sem tomá-lo junto aos adultos – sempre observei encantada. Dava-se da seguinte forma, sempre entremeada de silêncios: uma roda. Mais de um já é uma roda, porque, pela tradição, que é “lei”, o chimarrão sempre circula. Passada a tua vez vais esperar até que todos que estão na roda tenham a sua vez até voltar a tua. Não se sai da roda sem avisar. Quando alguém quer sair da roda, depois de terminar a sua vez, fazendo “roncar o chimarrão”, agradece. E assim, em uma igualdade irmanada, a cuia roda de mão em mão. E então a mágica do bem… caso chegasse algum vivente – e assim eram nominados os que chegavam, e dos quais ainda não se conhecia o nome, e muitas vezes mesmo que se conhecesse, pois ser vivente igualava a todos – meu Avô, ou meu Pai, ou o adulto “maior” da roda dizia: “Te aprochega vivente!”.

E a pessoa entrava na roda, na sua hora ganhava o chimarrão e aos poucos a história se desdobrava. Vivente chegado, aprochegado e fazendo parte da roda, assim principiava a história. Principiava e prosseguia. Lembro agora que alguns, mesmo convidados, não se aprochegavam, e, então, eram recebidos na porteira, de onde, depois de prosear, uma prosa geralmente curta, partiam ou se decidiam a chegar.

A fronteira (ou as linhas divisórias)...

E eis que então, em algum dia de minha adolescência, estava sentada na Praça dos Cachorros (praça que já não mais existe), na linha divisória.

Sentei e coloquei um pé no Uruguai e um pé no Brasil e, de repente, em um lampejo de girar o mundo, dei-me conta de que as linhas divisórias não existem, de que as fronteiras não existem, de que nós as inventamos, de que elas são imaginárias. Isso foi um algo, provavelmente, inexplicável em meu ser adolescente. Mesmo sem ter todas as palavras para descrever, entendi a unidade da humanidade e do existir.

Judeus-Cristãos-Árabes (ou irmanadas)...

E, de novo em minha adolescência, cruzando o Parque Internacional, provavelmente em algum momento de 1980, estávamos eu, Helena e Aicha de braços dados, andando pela rua. Éramos três jovens adolescentes, eu vinha de uma família de tradição Católica-Cristã, meu pai chegou a ser seminarista; Aicha era de uma familia árabe, muçulmana e Helena era Judia. Preparávamo-nos para seguir em frente, vestibular, faculdade… Mundo gigante...

Aicha morava em uma casa cheia de tapetes e detalhes culturais árabes e um cheiro maravilhoso que me marcou para sempre e pelo qual procurei durante muitos anos. Aos meus ouvidos soava como Marramia. Nunca pensei que não voltaríamos a nos encontrar e que sairia atrás daquele cheiro. Supunha eu que era algo como Mahamia… Chá preto com uma ervinha pequena, esbranquiçada, que, muitos anos depois, uma aluna de minha irmã nos concederia um tanto. Minha irmã dava aulas a uma menina árabe e então, ao encontrá-la, ansiosa perguntei, tentando reproduzir o som da palavra: Marramia… Sim, disse ela, sua família sempre colhia na Jordânia e trazia suprimento para o Brasil. Chá preto, quente, com maramia e muito açucar… (levei aproximadamente 30 anos para reencontrar aquele precioso cheiro).

Helena era Judia, uns olhos verdes gigantes, sardas no rosto e pernas muito diferentes. Anos depois, morando em Porto Alegre, eu leria em um poema de um amigo sobre o bairro Judeu de Porto Alegre: havia meninas de longas e estranhas pernas… Em 1980 estourou o conflito Irã-Iraque, setembro de 1980. Por algum motivo, talvez pelos olhos que nossa história propiciou serem ainda virgens de guerras, talvez porque a infância e a adolescência sejam naturalmente mais próximas da bondade, ou talvez simplesmente porque a guerra é mesmo um HORROR, ou porque familiares da Aicha moravam na região, essa guerra nos doía. Nesse dia, caminhando abraçadas, passos determinados e dançantes, cabeças erguidas, eu no meio e cada uma das meninas de um lado, dando-nos conta de nossa condição peculiar, uma judia, uma cristã e uma muçulmana, decidimos: Não faríamos Guerra.

Depois compreendi, pelo lado paterno meu Avó era Sírio e minha Avó tinha ascendência espanhola, e por isso apesar da tradição católica na família de meu pai, havia um tanto de influência árabe. Pela parte de minha mãe, por parte do pai dela, tive um bisavô índio e uma bisavó inglesa. Por alguns anos ainda recebi notícias de Helena. Helena sempre me enviava os melhores primeiros beijos que recebi a distância. Suas cartas sempre finalizavam com coisas como: “Beijos Pão com Manteiga”.

Um dia, Helena me escreveu dizendo que ia para um Kibutz, nunca mais soube dela. Aisha fez engenharia química, mas como nem sempre as mulheres árabes conseguem desenvolver suas vidas de modo autônomo, não sei como ou onde ela está. Nunca mais a encontrei. Ter nascido ao Sul, nessa fronteira dividida por quase nenhuma barreira física e integrada por um parque, onde visitantes podem passar de um país para o outro sem nem se darem conta de que assim o fizeram e vivenciar, entre outras, essas três experiências, me fez acreditar ainda mais na igualdade essencial de todos os seres humanos e culturas, e na necessária convivência pacífica dentro e entre as fronteiras e linhas divisórias que estabelecemos. Sim, esse lugar de encontro entre os dois países é também chamado de “Fronteira da Paz”.

Assim seja. Gratidão ao “meu Sul”, aos meus Pais que possibilitaram-acolheram que eu convivesse com diferentes e gratidão às diferenças que nos humanizam. Obrigada aos índios Charrua, às rodas de chimarrão; aos lampejos de aprendizado e às amigas Aicha e Helena, parte da diversidade que me faz e faz nosso País.

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