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História

Nasce um fotógrafo

História de: Egberto Marcio Nogueira de Medeiros e Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Egberto é um fotógrafo que adora contar histórias. Nascido na cidade de Santos e filho de um funcionário da Petrobras, na juventude militou nos movimentos católicos de esquerda naquela cidade. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Egberto conta como foi a sua vida escolar no Colégio Santista e o seu envolvimento com grupos de jovens católicos da Comunidade Eclesial de Base. Os conflitos com a mãe o fez mudar para São Paulo aos 17 anos, cidade que atraiu seu olhar para a fotografia. Ele relembra os tempos em que viveu na Ilha do Cardoso e em São Tomé das Letras, exercitando esse seu olhar fotográfico. Por fim, fala dos estudos de Ciências Sociais na PUC, sobre o seu envolvimento com a música e como a fotografia tornou-se o seu ganha-pão.

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História completa

Meu nome é Egberto Márcio Nogueira de Medeiros e Silva. Nasci em Santos, no dia 27 de abril de 1966.  Meus pais não são de Santos, são do interior de São Paulo. Eles são daquela região de São José do Rio Preto. Então meu pai, na verdade, é de Onda Verde, que é uma cidade pequenininha, até hoje é pequenininha, e minha mãe é de Nova Granada, que são cidades bem próximas de São José do Rio Preto. O nome da minha mãe é Arminda Nogueira de Medeiros e Silva e do meu pai é José Dimas de Aguiar de Medeiros e Silva. A história do meu pai e da minha mãe foi a seguinte. Meu pai estava meio se encontrando na vida. Apesar dele ser filho de fazendeiro, isso nunca se reverteu pra ele financeiramente, ele nunca teve grana. Fora ele não ter grana ele tem uma boa educação, isso é inegável, ele estudou em bons colégios particulares, mas isso não é que a vida dele estava garantida. Então ele estava procurando meio o que fazer. Ele cogitou até ir pra Legião Estrangeira. Ser militar da Legião Estrangeira. Foi quando meu tio Expedito falou: “Olha meu, não vai rolar. Não faça isso, é uma loucura aquilo lá”, demoveu ele da ideia. Ele prestou um concurso na Petrobras e conseguiu. Eu acho que foi pra área de Segurança, não era nem a área dele, na realidade, não era nem a área que ele estudou, porque ele estudou Economia. Ele conheceu minha mãe em São José do Rio Preto. Ele tinha um amigo em São José do Rio Preto que era casado com uma tia minha, se não me engano o Venâncio que era casado com a tia Cidinha. A minha mãe estava na casa de outra tia minha que chama Vandira. Todo mundo nessa família é incrível, todos se deram bem, ralando. A minha mãe estava na casa da tia Vandira se arrumando. E ele foi com esse amigo dele, chegou lá e viu. A minha mãe era uma menina. As fotos da minha mãe, todo mundo que vê fala: “Pô, como você era bonita”. Imagino que acho que ele se emocionou, não sei o que ele pensava na época, mas ele cresceu o olho. E chamou ela pra ir a um casamento. Falou: “Olha, vai ter um casamento, quer ir comigo?”, e foi assim que eles começaram a namorar. Como a Petrobras é em Cubatão, Refinaria Presidente Bernardes é em Cubatão, eles foram morar em Santos. A minha mãe começou a querer trabalhar, acho que por grana mesmo, eles queriam uma vida mais estável, mais estabilizada. Meu pai não devia ganhar muito porque era o começo da carreira dele dentro da Petrobras, ele trabalhou lá a vida inteira, ele trabalhou quase 40 anos na Petrobras. A minha mãe começou a trabalhar. Ela era esteticista.  

A minha família é muito católica, teve toda essa herança do catolicismo, e a gente ia muito à igreja, todo domingo a gente ia à igreja, tal. Essa história é legal, inclusive eu levei uma surra porque foi o seguinte, eu estava na igreja, a gente foi pra igreja, e sei lá porque das quantas eu e meu irmão começamos a dar risada, naquelas horas mais, sei lá, eucaristia, o cara levantando, momento que está todo mundo, aquela coisa de moleque, dois moleques rindo. Chegamos em casa, meu pai tirou a cinta: “O que é a igreja? É casa do senhor, então não pode!”. Ele pá! A gente tomou um couro mesmo. Enquanto eles iam pro Encontro de Casais com Cristo, eles tinham que levar os filhos. Meu irmão já era um pouco mais velho, tal, e eu estava naquela fase, estava com 12, 13 anos. Eles me levaram e falaram: “Tem um grupo de jovens aqui na igreja, Juventude Franciscana”. Em 1980 eu tinha 14. Então mais ou menos nessa época a ala progressista da igreja tinha feito um encontro em Puebla que era totalmente, vamos dizer assim, voltada para os pobres, com a ala progressista da igreja, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder Câmara, Frei Betto, toda aquela galera, estava aquela opção preferencial pelos pobres. Então a igreja era extremamente politizada. E foi com essa idade, com 13, 14 anos, até um pouco antes eu acho, que eu caí nesse grupo de jovens. Só que era um bando de comunista, o grupo de jovens da igreja católica em Santos, era uma esquerda aguerrida. A gente estava saindo da ditadura militar, a gente está falando de 78, 79, 80, 81, Santos era área de segurança nacional, não tinha eleição, era uma área de segurança. Você junta a questão do ser cristão, de você pensar no próximo, tal, que é a base do cristianismo, essa coisa de pensar no outro, amar ao próximo como a ti mesmo, e aquela coisa toda e se junta à política. A gente começou a fazer o quê? Comunidade Eclesial de Base, ir nas favelas, aquela coisa do militante. Minha família era extremamente conservadora e eu um comunistinha. Eu era o pivete da turma, porque na minha turma tinha gente com 20, 21, 18, estou falando dos jovens da igreja, Juventude Franciscana.

Eu entrei no colégio marista no pré-primário. Eu entrei lá menino, eu tinha seis anos, que era a idade normal de entrar na pré-escola. Veio o primeiro ano, o colégio marista nessa época era um colégio autoritário mesmo, a coisa bem do uniforme, hino nacional, educação moral e cívica, aquela coisa tensa. Tinha os irmãos maristas, Irmão tal, Irmão não sei o quê e tal, aquela coisa, fila pra entrar, sinal. Fiquei até o terceiro colegial. Como eu saí de Santos muito cedo, com 17 anos eu vim morar em São Paulo, vim trabalhar em São Paulo. Eu já trabalhava em Santos. Como eu precisava de grana, de ter minha grana, usar um determinado estilo de roupa, fazer um determinado tipo de programa, ouvir uma música e eu queria fazer minhas coisas, ter meus discos.  Eu tinha uma coisa muito política, eu gostava muito de fazer política, mas não falava: “Eu quero ser político”, mas eu queria fazer alguma coisa relacionada à sociedade, queria melhorar a vida da sociedade, queria melhorar as coisas, queria ajudar as pessoas, fazer alguma coisa pelo coletivo, vamos falar assim, isso era uma coisa bem presente na minha vida.  Em Santos uma das militâncias era o movimento ecológico, porque Cubatão era um inferno, e é um inferno até hoje. Estão acabando, a poluição era tanta que as crianças nasciam sem cérebro, tinha essa coisa de nascer sem cérebro. Então tinha Feira de Ciências na escola e meu projeto era contar a história das crianças que nasceram sem cérebro.  O meu pai foi chamado na escola: “Pô, o seu filho está vendendo, na porta da escola Tribuna da Base Operária”. Era engraçado isso, era engraçado mesmo. E não era que ele não gostava pelo fato de eu ser de esquerda, acho que ele tinha até uma certa preocupação. Tinha sumido tanta gente, morrido tanta gente, ele sabia dessas coisas, na época da ditadura. E a gente estava saindo da ditadura, 78 era ditadura ainda, então, estava dentro dela. Obviamente já tinha uma abertura, já tinha um relax, ela já tinha se destendido, a ditadura já estava mais relaxada, digamos assim, não estava reprimindo tanto, não estava matando as pessoas, mas ainda era perigoso, na cabeça dos meus pais era uma coisa perigosa. Então eles reprimiram muito isso em mim: “Não seja assim, não faça isso. Pelo amor de Deus!”. Eu lembro uma vez meu pai entrou no meu quarto porque eu tinha pegado a camisa do Guevara e tirado um xerox, assim, e eu mandei fazer, sei lá, 30 xerox, e botei os 30 na parede, eu fiz um, sei lá, o primeiro lambe-lambe da história da minha vida, eu botei aqueles 30 Guevaras na parede. Em um acesso de raiva ele entrou no quarto. Eu lembro do meu pai assim, que nem um gato, arrancando tudo.

Em Santos, trabalhei como feirante lá . Eu cheguei pro cara e falei: “Quero trabalhar”. E eu acho que os meus pais, pela história de vida deles, eles nunca desestimularam. Eu fui pra feira, eu trabalhei na quitanda. Eu trabalhei também numa quitanda. Fiz pesquisa de mercado, até que eu arrumei um trabalho no Bradesco. Eu devia ter 16 anos. Naquele tempo admitiam você trabalhar mais cedo em instituições desse porte.  Eu comecei como escriturário. Naquele tempo não tinha computador, era tudo ficha de compensação, ficha do cliente com assinatura do cliente, pra checar no caixa. Quando eu vim pra São Paulo, eu vim trabalhando no Bradesco. Quando eu saí de casa eu já tinha emprego, não é que eu estava: “Vou procurar o que eu faço”.  Sai de casa por causa de conflitos com a minha mãe, com meu pai, tal. Teve várias situações que me levaram a sair. Mas uma coisa que eu lembro, não sei se é legal falar, mas minha mãe quebrou todos os meus discos. Foi uma cisão. Isso já está perdoado, está tudo resolvido. Mas naquela época isso foi muito grave, foi muito pesado. Eu já tinha na cabeça que era legal vir pra São Paulo pra trabalhar, pra estudar, pra evoluir. A primeira vez que eu vim pra São Paulo, na verdade quem me acolheu em São Paulo foi um casal chamado Paulo e Lourdes, que era um casal que trabalhava comigo lá naquele grupo de jovens que eu comentei. Os dois comunistas, só que jovens assim, eles tinham acabado de casar. E eles moravam no Jabaquara. E ali eles me receberam, eles falaram: “Bem, você vai vir pra São Paulo, conseguiu a transferência do seu emprego?” “Consegui” “Então vem ficar na nossa casa, nós temos um quarto lá pra você, é um apartamento de dois quartos”. Hoje ele é Vice-Presidente da Associação Brasileira de Arquitetura, arquiteto conhecido, professor na USP. Ela super militante do movimento feminino, tal. São dois formadores de opinião de grande peso, são meus amigos até hoje, a gente até se reaproximou mais de uns anos pra cá. Eles são ótimos. E eles me receberam: “Vem pra casa, fica em casa”. E ali eu fiquei nos primeiros tempos.

Eu ia trabalhar de transporte público, ia do Jabaquara pra trabalhar no centro, porque eu trabalhava na agência do Bradesco mais punk rock, que era a Agência Nova Central. Eu tinha bastante tempo porque pra ir trabalhar levava uma hora e tanto, pra voltar mais uma hora e tanto, morando no Jabaquara. Então eu tinha essa relação com a cidade. A primeira câmera foi uma do meu pai, uma Olympus Trip, uma câmera boa até, que é uma câmera portátil. Filme, pequenininha. E eu comecei a tirar foto. Tirava foto, sei lá, das coisas. Começava a tirar umas fotos da praia. Aliás foi minha primeira máquina aqui em São Paulo, inclusive, eu trouxe ela comigo. Tirava foto dessa coisa da cidade oprimida, foram minhas primeiras imagens, não que tenham sido as primeiras fotos.  Antes eu tinha tido uma fase que eu dei uma despirocada, então eu fui morar na praia, lá na Ilha do Cardoso, mendigo mesmo, abandonei tudo. Eu estava tendo esses conflitos, tal, acho que foi pouco antes, acho que foi tudo meio junto, um pouco antes de eu vir pra São Paulo, e antes um pouquinho de trabalhar no Bradesco. Isso, acho que foi com uns 15, 16 anos, eu fui morar na praia, na Ilha do Cardoso. E não tinha, eu morava numa caixa d’água, sabe aquelas caixas d’água de barco, que é grande. Morava ali. Era aquele papo que curtia a natureza. Teve essa fase e teve uma outra que eu tive em São Tomé das Letras, também morei em São Tomé das Letras uns três meses, numa casa invadida que era atrás da Pedra da Bruxa; tinha uma casa abandonada lá, a gente invadiu a casa, eu e um grupo de amigos e moramos lá acho que uns três meses. Um dia eu me peguei roubando um queijo e começou a cair as fichas. Até que eu fui trabalhar, não dava pra viver assim, de brisa. A máquina sempre me acompanhou. Uma maquininha pequenininha, a Olympus Trip. Eu tirava umas fotos, São Tomé é lindo, eu ficava tirando foto, maravilhoso. Minas Gerais, cachoeira. Comecei a ter essa compreensão estética mesmo, de ver as coisas, de querer produzir fotos.

Eu entrei na faculdade na época que eu estava no banco. Fiz Sociologia na PUC. Acho que foi 85. Fui até o terceiro ano e abandonei.  Porque eu comecei a trabalhar como fotógrafo, comecei a trabalhar como fotojornalista, comecei a ganhar grana, larguei tudo, larguei faculdade e tal. Mas antes, fui à luta. Foi uma coisa meio autodidata, de pegar e tirar, pegar e fazer.  Eu saí dessa casa do casal e fui morar em uma república de uns amigos meus de Santos, uma turma da pesada, digamos assim, era todo mundo heavy metal, gostava de AC/DC. Tocava punk. Porque quando eu vim pra São Paulo eu absorvi muito essa cultura punk, gostava e gosto até hoje. Na verdade eu adoro punk rock, não que seja só isso, mas eu gosto de jazz, de blues, de tudo, mas eu gosto da energia do negócio, da dança, do lance dessa coisa uaaaa que o punk tem, o Ramones, o Sex Pistols e várias bandas maravilhosas que têm, eu estou citando as mais famosas. Mas assim, São Paulo já tinha esse movimento forte. Depois fui morar num apartamento na Rua Avanhandava.  Eu morava sozinho. Já tinha saído do Bradesco. Eu saí do Bradesco, não teve conflito nenhum, não teve problema nenhum, até pelo contrário, como funcionário os caras me adoravam: “Pô, você é um dos caras mais competentes”.. E foi que eu comecei a cair na fotografia, comecei a fazer esse trabalho. Eu fotografei o Lula, fotografei Erundina, comecei a fotografar os políticos. Eles iam lá falar, eles iam não sei o quê, ou tinha greve não sei pra onde, eu comecei por conta própria. Eu trabalhava como Pesquisa de Mercado, que também é uma coisa que tem a ver com Sociologia, então, eles iam na faculdade oferecer.

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