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História

Nas ondas de Bibita

História de: Marcelo Ferro Vasconcelos Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2013

Sinopse

Pais separados, foi criado por seu avós. Avô rígido, teve que manter a linha durante a infância. Quando adolescente, envolveu-se com grupos de valores diferentes dos seus. Internato em Pernambuco. Volta a Fortaleza. História com esposa e filhos. Interesse pelo surfe. Trabalho e empreendedorismo no surfe.  Muita história para contar sobre as vivências no surfe.

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História completa

P/1 – Bom, eu queria que você me dissesse o seu nome, o local do seu nascimento e a data.

 

R – Meu nome é Marcelo Ferro Vasconcelos Alves, mais conhecido como Marcelo Bibita. Eu sou natural de Fortaleza, Ceará, nasci no dia 14 de julho de 1964.

 

P/1 – E seus pais? O nome dos seus pais?

 

R – Meu pai se chama Francisco Guilherme Vasconcelos Alves, minha mãe Alda Clécia Ferro Vasconcelos Alves.

 

P/1 – Eles são do Ceará?

 

R – Ambos nascidos aqui em Fortaleza.

 

P/1 – A sua família, os seus avós?

 

R – Na verdade, eu fui criado pelos meus avós paternos, todos aqui também de Fortaleza, a família toda aqui de Fortaleza, que era General Raimundo Alves e Maria Náurea Vasconcelos Alves, são meus avós com muito carinho, que Deus os tenha.

 

P/1 – E os seus avós maternos?

 

R – Meus avós maternos, eu conheci só a minha avó. O meu avô, quando eu nasci, ele já havia falecido. Que era a dona Geralda Magalhães, que também já se foi.

 

P/2 – Por que você foi criado pelos seus avós?

 

R – Bom, meu pai casou muito novo com a minha mãe, daí naquela época eles ficaram algum tempo, eram quatro filhos, eu sou o segundo de uma linhagem de quatro. E aí a coisa ficou meio apertada. Tem uma música do Renato Russo que é: “você vai ser o que seu pai é quando você crescer”. Uma coisa dessas. Então, hoje, eu até compreendo mais. Na época, um pouco mais difícil. Mas as coisas não eram tão fáceis, então ele ficou com o filho mais novo, a minha irmã ficou com a minha mãe, e eu e meu irmão, que éramos os mais velhos, ficamos com os meus avós. Que eu até, puxa, eu acho o maior barato, que hoje eu trato o meu pai como meu irmão e a minha mãe como a minha irmã. Então ficou legal, meus tios são meus irmãos, só cresceu a família, foi muito legal. Por mim, não teve nenhum problema, foi alucinante ter sido criado pelo meu avô e minha avó.

 

P/1 – E eles trabalhavam? Com o quê?

 

R – Meu avô já era aposentado, ele era general do exército, tal. Também foi, vamos dizer, um pouquinho “osso”, porque ele era muito rígido, na época a gente ainda tinha umas palmatórias, ficar de castigo de joelho. Mas ninguém reclamava, não. Levava umas lapadas, mas, puxa, eu sabia que no final era tudo uma coisa boa, ele não tinha aquela maldade, não, ele queria botar a gente na linha. Eu devo muito, assim, a ele, o caráter, saber o que é seu é seu, o que é dele é dele, então esse tipo de coisa ele me ensinou muito. Talvez se tivesse... mas tudo bem, nada que eu esteja inteirinho, muito obrigado, só tenho a agradecer o que eu aprendi. Tinha minha avó sempre pra dar uma aliviada.

 

P/2 – E tua avó fazia o quê?

 

R – A minha avó era a matriarca da família. Ele era o homem assim, “pá”, te botava, mas ela mandava em todo mundo. A última palavra lá dentro era a dele: “Sim, senhora.” Que era “osso”, verdade. A dona Náurea era uma figuraça.

 

P/1 – E apesar de os seus irmãos morarem com pessoas diferentes, vocês mantinham contato?

 

R – Todos. Todos. Todos. A minha avó era matriarca e assim, o vovô era o cara, vamos dizer assim, ele era o cara, mas ela... Por exemplo, meu pai, duas vezes por semana tinha que almoçar lá em casa, os outros tios, todo mundo passava lá em casa pra almoçar. Lá era a “Casa Grande”. Tá? Vamos dizer assim, era a casa grande. Todo mundo que morava em Fortaleza, que eram muitos filhos, eram... Bom, só a minha tia que não morava, morava fora. Então todo dia, todo mundo ia almoçar lá, tinha aquele encontro, menos os que eram casados por ali não almoçavam. Meu avô, mesmo sendo aposentado, ele ficou durante um tempo como diretor da CEASA, que era o centro de abastecimento. Então, quando ele vinha, a gente trazia... Pô, o carro era lotado de frutas. Quando chegava, tinha aquele ritual: “Separa a fruta do Marcelo, separa a fruta do Beto, separa a fruta do Quico, separa a fruta do Ari.” Então tinha uns quatro, todo mundo tinha um quinhão. Era muito engraçado o jeito que ele fazia a coisa. Era todo mundo embaixo daquela asa dele, era bem legal. Então, a gente sempre conviveu bem pra caramba, nunca teve problema, os meus irmãos eu estava sempre vendo. Sempre tinha festa, final de semana sempre estava todo mundo em casa, era um almoço, alguma coisa. Então, com a família nunca foi separada, sempre foi muito junta, apesar dessa... vamos dizer... separação dos irmãos, mas a gente sempre teve muito contato.

 

P/2 – Você disse que, na verdade, seus pais se separaram por uma questão de dificuldade financeira.

 

R – Não. Não. Não. 

 

P/2 – Não?

 

R – Foi papo de relação mesmo.

 

P/2 – Ah, tá.

 

R – Foi. Quando eu falo assim, a minha mãe ficou... Lógico, a minha mãe casou de novo, tal, mas sempre tivemos um bom relacionamento, ninguém brigou assim de não querer falar com ninguém, não, todo mundo fala com todo mundo. Só não deu certo, não deu certo.

 

P/2 – E teu pai fazia o quê?

 

R – Meu pai é administrador. Administrador de empresa e também técnico em informática. Ele trabalhou no DNOCS [Departamento Nacional de Obras Contra as Secas] durante muito tempo, ele é professor hoje da Universidade Federal da... da Unifor, que é uma das universidades aqui de Fortaleza. É geógrafo também. É um cara bacana, tranquilo, hoje está aposentado, só dando uma malhadinha, tal. Que eu digo: “Pô, ‘véi’, tá bem, hein?”.

 

P/1 – E a sua mãe trabalhava com o quê?

 

R – A minha mãe era professora, professora de colégio público. Uma batalhadora, sempre correndo atrás das coisas dela. Tomou conta da minha irmã pra caramba, adotou mais uma menininha lá que é a nossa irmã do coração, hoje em dia já é profissional de Educação Física. Está lá. A gente mora aqui em Fortaleza, pelo menos uma vez na semana a gente está lá com ela também. É uma figuraça. Se conhecerem a dona Alda, vocês vão morrer de rir, é outra figuraça.

 

P/1 – Então, a sua infância foi toda na casa dos seus avós junto com essa grande família?

 

R – É. Com a grande família, tudo tranquilo.

 

P/1 – E como era a sua infância, as suas brincadeiras, a sua casa?

 

R – Bom, eu não tenho muito que reclamar. Eu tive uma infância, vamos dizer assim, bem servida devido à condição do meu avô. Ele tinha uma condição boa, tal, então, por exemplo, férias a gente ia até Recife, que era essa minha tia que morava lá, pra brincar lá com os primos. Aqui a gente tinha uma casa aqui na Barra do Ceará, do outro lado da Barra, então final de semana ia todo mundo curtir aqui do lado. Foi brincadeira, pega-pega, arraiá, vira-peão, sabe? De vez em quando era reclamação da vizinha porque a gente quebrou as vidraças de um, porque a gente estava subindo em cima da casa do outro. Era essa história, não tinha problema, vamos dizer, como hoje assim, é muito problema com droga, essas coisas, naquela época não tinha isso, cara. Você podia andar à vontade. O moleque estava correndo na rua, ninguém estava correndo atrás de ti porque “tu estava” pilhando as coisas dos outros. Você andava no muro das casas, não tinha nem vidro, cara. Os muros eram só o muro baixinho, você andava na casa dos vizinhos. Eu conhecia o quarteirão da minha casa inteiro pelos muros. Eu ia pra lá, ia comer um caju ali, uma carambola no outro lado: “Ô, tem goiaba lá na casa de Fulano!” A gente já tinha uma ganguezinha, mas era uma gangue bacana. Então foi uma infância tranquila. Até... Bom, a transição, eu não tive problema da transição de moleque pra, vamos dizer assim, mais adolescente, não. Vamos chegar ao surfe?

 

P/2 – Não. Calma lá.

 

R – Ainda não?

 

P/2 – Vamos voltar um pouquinho.

 

R – Então, volta. Ainda estou na minha infância. Puxa, legal. É muita coisa lá atrás ainda.

 

P/2 – Deixe-me te perguntar uma coisa.

 

R – É muita coisa lá de trás ainda.

 

P/2 – Marcelo, deixe-me te perguntar uma coisa.

 

R – Olha, lembra que eu tenho 49 anos, é muito tempo atrás, gente.

 

P/2 – É [risos].

 

R – [risos].

 

P/2 – Mas Marcelo, deixe-me te falar uma coisa. Você comentou um pouco dessa casa, que tinham rituais, vocês eram obrigados a almoçar todos juntos. Onde era essa casa? Qual era o bairro? Conta um pouquinho, assim, que horário você estudava, qual era o ritual da casa?

 

R – Você vai me fazer... Tudo bem, eu vou dizer, esse ritual eu vou falar. É o seguinte, eu morava na João Cordeiro, a João Cordeiro é no centro da Aldeota, perto da Praia de Iracema. E eu estudava no Colégio General Osório, que ficava também a uns quatro quarteirões lá da minha casa. O ritual de estudo era o seguinte, de manhã ia pra escola, à tarde estava liberado, ficava à vontade. Mas quando eram seis e meia, meu avô botava a redinha dele lá na varanda, tinha um quadro negro, e meu amigo, era: “Cadê o livro, moleque?” E tome matemática até umas horas. Ainda bem que eu faço umas contas boas hoje. Era Matemática, Português, ele fazia questão de todo dia ter essa aula com a gente. Eu não sei com que ele arranjava tanta paciência, gente. Agora, a gente sofria também, eu e o Guilherme, que é o meu irmão, meu irmão que é mais velho que eu, todo dia a gente tinha aula com ele, todo dia, todo dia, todo dia. Eram pelo menos duas horas de revisão das coisas. E o resto do dia a gente tirava pra curtir mesmo, mas o nosso estudo era esse, sempre foi muito rígido com isso, então tipo assim, de sete até umas nove da noite era estudo, todo dia a gente tinha essa parada. Aí, por exemplo, quando eu fiquei mais garotão, tipo, 14 anos, que eu queria fazer inglês, ele disse: “Não, cara, você quer fazer?” Eu tentei o CCAA [Centro de Cultura Anglo Americana], tentei o Yázigi, mas era aquele: duas horas de aula por semana, ou então na terça e na quinta, que nunca funcionam. Aí, eu fui atrás do IBEU [Instituto Brasil - Estados Unidos], ele: “Não, vai fazer o curso direito.” Então, eu tinha duas horas por dia no IBEU. Então, a minha outra obrigação era essa, era ir lá para o IBEU, fazia as duas horas, quando era noite, aula com ele. E aí eu tive essa sequência até quando ele não aguentou. Quando ele não aguentou mais, ele disse: “Tá, vai embora, que vocês já estão feitos.”

 

P/1 – Mas no colégio você era bom aluno, bagunceiro?

 

R – Não, eu sempre fui da turma lá do fundão, mas nunca fui também de reprovar. Entendeu? De reprovar, não. Mas eu não era de ficar ali na frente. Por exemplo, na aula eu gosto de prestar atenção, porque como eu não estudava em casa, assim, só tinha essa revisão, mas eu mesmo de sentar, ver outras matérias, por exemplo, ele não dominava Física, Química, essas coisas, ele era mais a Matemática, que é o que ele gostava. Então esses eu sentava e prestava atenção. Durante a aula eu presto atenção. Agora, assim, depois de ficar estudando mesmo, não era muito a minha praia, sabe?


P/1 – Algum professor, alguma disciplina que você gostava mais?

 

R – O professor Saraiva. Nessa era do Colégio Equipe, até hoje eu lembro, era professor de Matemática. Que o Saraiva, pô, inclusive eu o botei pra ser surfista. Era um professor de Matemática muito gente boa, mora na Praia de Iracema ainda até hoje, é um cara que foi muito importante, porque ele conseguia me mostrar Matemática de uma maneira divertida, e o vovô nem sempre conseguia! E ele era um cara que me fazia... Então como eu tinha muita base pelo vovô, e ele me mostrava o lado legal de você ver a Matemática. Então, o Saraiva pra mim foi um cara que foi nota dez. Valeu, Saraiva. Obrigadão, hein?

 

P/2 – Fale-me uma coisa, como ele te mostrava a Matemática?

 

R – Era a maneira, a didática. A didática que ele colocava as coisas. Por exemplo, se eu for somar: “Quanto é 93 dividido por dois?” – eu te pergunto. Você vai se confundir um pouco. Mas 90 dividido por dois são 45, três divididos por dois é um e meio, 45 com um e meio dão 46 e meio. Entendeu? Ele fazia, ele me mostrava uma maneira mais fácil de eu ver a Matemática funcionando. Não era, tipo assim, em vez de eu levar aquela porrada, o cara vinha: “Não, vamos por aqui.” Ele me ensinou esses caminhos. Eu uso a Matemática em tudo hoje. Eu vejo que tem vários caminhos pra eu ir pra aquele lugar, eu não preciso ir de uma vez pra chegar ali. Uma vez aconteceu uma coisa muito doida, eu fui pra Amazônia e o nosso barco virou durante uma pororoca, depois eu te conto essa história, e eu estava no meio do rio, o Rio Araguari deve ter uns três quilômetros de largura. Naquele momento, eu estava sem a prancha, que a prancha eu tinha deixado com o piloto, que estava meio que se afogando, e fui chegar à margem, como eu tinha nadado muito tempo. Esqueci-me da parte da natação, que a gente tinha também natação lá. Daí, pra chegar à margem, que era longe pra caramba, eu olhei pra aquela margem, falei: “Vou nadar.” E eu não chegava, não chegava, e comecei a me desesperar, porque era... foi a primeira vez que eu tinha ido lá. Aí, eu comecei a me lembrar da história da Matemática: “Se eu dividir, eu consigo chegar lá”. Em vez de o meu objetivo ser a margem, eu comecei a ter objetivos divididos em mururés. Mururés são as plantinhas. Então eu queria chegar a dez metros: eu ia de dez, em dez, em dez, cheguei à margem. Entendeu? Acabou o meu desespero por conta disso. Então a Matemática é importante também nisso. Divida que você chega.

 

P/2 – Você falou um pouquinho pra gente dessa coisa das brincadeiras, que você... Eu queria que você falasse um pouco, de manhã você ia pra escola, à tarde você brincava, com quem você brincava? Você tinha o hábito de ir à praia? Com quem você ia? Fale um pouquinho dessa sua fase.

 

R – Tem as fases. Quando você é molequinho, até uns, sei lá, uns dez anos, você não pode sair do terreiro, é ali no quarteirão mesmo, tal. Quando você passou dos 12 anos, que aí começou a onda de skate, a gente já se aventurava ali na Rui Barbosa, que já eram seis quadras de casa, era um universo eu andar seis quarteirões pra ir pra lá pra descer as ladeiras lá da Rui Barbosa. Já conseguia ir até a praia ali, brincava um pouquinho, mas não tinha amizade muito com a galera, sempre aquela ali. Até foi chegando aí os... sei lá, 14 anos, aí pronto, aí você já é homem, invocado, macho!

 

P/1 – Você tinha um melhor amigo? Uma pessoa bem próxima? Da gangue?

 

R – Cara, melhor amigo sempre foi meu irmão. Ele sempre foi meu melhor amigo, sabe? Apesar de que ele queria mandar muito em mim. Mas era o meu melhor amigo, era o meu protetor, era o cara que... Eu tive um problema muito sério quando era molequinho, eu não sei o que foi que aconteceu, mas eu tinha uma fobia muito louca. Quando eu ia dormir, eu escutava algumas coisas, tudo me apavorava, não sei qual era essa história. E, por exemplo, a chuva, eu pensava que eram passos de pessoas. E eu pagava ao meu irmão 25 centavos, na época, pra dormir na rede com ele. Porque a gente não dormia “de cama”, dormia “de rede”. Então era uma rede aqui, outra ali. Até que meu avô disse: “Rapaz, não tem jeito.” Aí tinha uma porta, ele botou uma rede aqui, outra aqui do lado, eu dormia do lado, colado, dormia do lado dele. Qualquer coisa o maninho acordava. E ficava essa história. Aí teve uma salvadora: tia Cleide! Lembrei-me da tia Cleide. A tia Cleide foi dormir lá... Meu avô mandou buscar tia Cleide lá de Maranguape pra ela dar um jeito no Bibita, que o Bibita tava com esse problema aí, que não conseguia dormir, apavorado. Ela: “Eu vou lá”. Disse: “Vamos aqui.” A gente foi dormir no último quarto da casa, que era o que eu tinha mais medo. Ela: “Não, você vai dormir comigo.” Que era noitão, lá atrás. Aí botou a rede dela, a minha, e eu querendo dormir, com um medo danado. Ela disse: “Você está com medo?”. Eu digo: “Tia, a senhora tá escutando”. Aí ela: “O que é?”. Eu digo: “Olha”. Aí ela: “Pois vamos escutar. Levanta aí, vamos escutar.” Aí ela abriu a porta. Na sala da minha casa tinha um relógio antigo e o relógio fazia tique-taque, tique-taque, tique-taque. Aí ela: “Vamos ver quem é?” Aí eu: “Vamos, devagar!” Quando chegou lá, acendeu a luz: “Olha quem é ele.” Aí mostrou, era o relógio. O fantasma que me assombrou durante tanto tempo era o relógio da casa! E aí essa história... Essas coisas. A minha fobia acabou. Depois daquilo ali, ela disse: “Olha, no dia que você escutar qualquer coisa... Quem faz mal à gente são os vivos, os mortos não fazem mal. E se você tiver alguma dúvida, você clica aqui e se arme!” Desculpa. Então eu peguei essa técnica. Então quando eu sentia, eu olhava, mirava, antes de dormir eu sempre olhava onde estava o interruptor, então daí eu pulava lá e me armava. Tinha essa história de se armar, que era engraçada. Que era pra chamar o fantasma. Pronto. Hoje em dia, depois eu descobri que realmente os mortos não fazem mal a ninguém. 

 

P/1 – Que era o relógio.

 

R – Foi isso aí.

 

P/1 – E esse seu apelido?

 

R – Bibita. Engraçado...

 

P/1 – É desde pequeno?

 

R – Desde pequeno. Perto da minha casa tinha um circo. Aliás, um circo se instalou lá perto. Daí, tinha um palhaço que se chamava Biriba. O meu irmão era maior do que eu um pouquinho, mas foram lá para o circo, quando a gente voltou, ele começou a me zoar por causa do palhaço lá. Só que ele não sabia falar Biriba, não sei o quê, começou Bibita, Bibita. Bom, ficou o tal do Bibita até hoje. Hoje eu sou o Marcelo Bibita! Não tem jeito. Bom, a versão que eu sei até hoje foi disso aí, que veio dessa história desse circo que foi lá por casa, eu devia ter uns três anos. Desde que eu me entendo por gente que esse tal de Bibita está aqui.

 

P/2 – Marcelo, me fala uma coisa, você contou um pouquinho de como se deu sua infância, sua pré-adolescência. Quando você entrou na adolescência, você falou que com 14 anos você já virou um homem, o que você começou a fazer? Você estudava na mesma escola? Como se deu a relação com seu avô, com a sua avó?

 

R – Nessa época aí, em 1978, eu estava fazendo já a oitava série, o último ano do primeiro grau. Mas aí, você sabe, que naquela época também tinha um negócio... Tinha uma galera muito louca. Você sabe que ali era a época dos hippies, então foi uma época um pouquinho complicado, a gente se mete com algumas coisas, a molecada do colégio tinha um negócio de “dar um dois”, não sei o quê. E aí eu estava, quando eu fui ver, eu já era... Como era black trunk, tal, da parada, eu digo: “É, vamos ver como é isso aí, tal.” Comecei a experimentar, “dar uns doizinhos”. Mas isso lá em casa não cabia nunca. Daí o pessoal ficou naquela: “Rapaz, o Bibita está problema. Está problema”. Aí fazia uma mesa redonda: “O que a gente vai fazer com esse menino? Porque está problema. Está problema sério”. Aí me chamaram. Lá a mesa é grande, sabe? Sempre era... Parecia assim... O negócio funcionava mesmo. Ele ali na cabeceira da mesa, todo mundo ali, disse: “Olha, é o seguinte, nós temos um colégio ali em Pernambuco, esse colégio é bem bacana, colégio chamado... Na Suíça Nordestina, chamado Diocesano de Garanhuns. Por causa desse problema aí, você não quer dar um tempo daqui da galera e tal, e ir pra esse colégio?” Aí eu pensei, pensei, pensei. Agora também vi uma oportunidade de eu me livrar assim também um pouquinho daquele negócio de família, queria viver um pouquinho só. Aí fui para um colégio interno. Aceitei. Porque assim, o colégio, você só fica se você quiser. No dia que eu quiser e na hora que eu quiser ir embora, eu dizia: “Olha, eu vou embora e acabou.” Mas eu sempre fui consciente também do investimento que eu estava... Por isso eles perguntaram antes: “Você quer ir?” Porque havia um investimento pra me mandar pra Pernambuco, fazer um enxoval, “blá-blá-blá”, essas coisas todas. Aí eu aceitei e fui lá para o Colégio Diocesano de Garanhuns. Fui pra esse colégio interno. Foi 1980 e 1981. Eu cheguei lá no ano de 1980, passei o ano, tudo lá...

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – 1980 e 60 e... Tinha 16. Dezesseis anos, né? Dezesseis anos. Aí fui pra lá.

 

P/1 – E mudou muito?

 

R – Mudou. Mudou muito, porque eu fui morar só. Na verdade eram 160 alunos no colégio, mas de qualquer forma eu estava morando só. Foi uma oportunidade de eu viver por mim mesmo, sabe? Não tinha ninguém, eu tinha que fazer novas amizades, eu tinha que de repente... Eu tinha que achar um canto. Então eu cheguei lá, já tinham vários grupos formados: tinham os pernambucanos, tinham os piauienses, tinham os alagoanos, tinham os pernambucanos. E cada um tinha o seu canto. Tinham os alunos de Fernando de Noronha, que também eles, lá na frente eu recuperei esses caras. E aí os cearenses tinham... Acho que eram quatro. Três ou quatro só. Um era doido, era o mais louco de todos, que era o Lucianinho. Olha, pra você ver de tão louco, ele tocou fogo nele mesmo, o pobre. Foi. Depois já de grande eu soube que ele já era pirado, cara inteligente demais, mas pirou. O outro era o Diogo, que é dono do Hotel Diogo aqui, o Jairo Araripe, que é dono de um consultório, que dizer, era uma galera boa, sabe? Quando estava dando trabalho aqui, eles mandavam pra lá. E eu. Pronto, eram esses quatro aqui que eram os caras do Ceará. Mas o Lucianinho, quando eu cheguei, ele já estava lá, o Janjão também já estava lá. E eu era assim, eu fui fazer o primeiro ano do segundo grau. Eles não eram dessa sala, era um pouquinho mais... Assim, era do primeiro grau. Aí eu comecei a me juntar, eu me juntei com uma galera já mais velha. Eu sempre gostei de trabalhar com um pessoal mais velho, que tinha alguma coisa pra dizer mesmo. Aí me juntei com uns pernambucanos lá, fiquei durante esse ano muito aprendizado, você, pô, sofre também pra caramba, saudade da família, saudade daquilo tudo. O censor ali em cima de ti, te dando uma moral, uns caras que “tu” nunca viu. Uns caros meio truculentos pra caramba. Mas também foi legal. Uma experiência de vida muito válida, você aprender a se virar só e dar teu jeito, saber organizar tuas coisas, saber que se “tu der” mole ali, neguinho vai levar tuas coisas. Sabe? Não tem negócio de mamãe e papai ajeitar tuas coisas, sujou tua cama, “tu tem” que ajeitar, senão ela vai estar suja, “tu tem” que levar tua roupa pra lavanderia. Então, isso aí foi um aprendizado muito legal. Aí, eu passei o ano de 1980. Mas eu tinha um apoio em Recife, que é essa minha tia Ana. Então de dois em dois meses eu podia passar um final de semana lá com ela. Aí eu ia pra Recife. Também era legal, que tinham meus primos, que são, pô, os meus irmãos lá de Recife, os caras muito legais, o Márcio, o Cláudio, o Paulinho também. E aí eu ficava indo e vindo, indo e vindo, até que em 1981 eu tive... Eu também já estava meio de saco cheio com esse negócio de internato. Quando foi em junho de 1981, eu estava por lá, eu lembro que eu conheci... Vizinho ao internato tinha um cafezal e tinha uma casa, e nesse tempo eu acabei conhecendo uma menina vizinha, que era a Cássia. Quando era no sábado, eu fugia pelo cafezal e ia lá pra casa da Cássia. Ah, ficava lá ouvindo um som, ela chamava as amigas, e tinham mais uns três que fugiam pra lá. A gente ficava lá tomando um sorvetinho, pá, maior barato, as meninas querendo saber da vida da gente. Aí uma dessas o Luís, que era o censor, ficou me procurando lá no colégio, não achava de jeito nenhum, e eu lá. Quando eu fui voltando, os meninos: “Ei Ferro” – que lá só me chamavam de Ferro, lá ninguém sabia quem era o Bibita, era o Ferro – “Ferro, Ferro, o Luís está atrás de ti, não sei o quê”. Aí eu vim entrando, tinham uns pés de eucaliptos bem grandes assim, quando eu vim por trás, o Luís viu lá do outro lado, ele viu mesmo, sabe? Ele vinha e dizia: “Ferro.” Vinha escondendo por ali do lado. Aí, ele me pegou. E como já tinha acontecido um estresse muito grande com ele, inclusive assim, agressão que ele tinha feito comigo lá, ele também não chegou junto, ele só disse: “Vá para o castigo.” O castigo era ficar em pé durante não sei quanto tempo lá. E eu disse: “Rapaz, por que eu vou?” “Porque você estava fugindo”. Eu digo: “Não estava.” “Estava.” “Não estava.” “Estava.” “Não estava.” Eu disse que não estava. Menti mesmo, descaradamente. Aí [risos]....

 

P/2 – [risos].

 

R – Aí, ele disse: “Se você não for para o castigo, você vai falar com o padre”. Monsenhor Adelmar da Motta Valença, que Deus o tenha também, ele era duro, mas era gente boa. Aí me levou lá ao monsenhor, o monsenhor disse: “Você estava fugindo, né, Ferro?”. Eu digo: “Estava não”. Na cara de pau mesmo. Digo: “Estava não.” “Estava.” “Não estava.” “Estava.” “Não estava.” “Estava.” “Não estava.” “Lógico, se você não for para o castigo, você vai embora.” “Então vou embora.” Aí pronto, foi assim, também não teve muito cinema, não, foi eu mentir e disse que não queria, também já estava querendo ir embora, aí ele: “Então você vai embora.” Aí ligou lá pra casa, eu falei lá com vovô, ele: “Não, não, venha embora”. A galera já estava querendo que eu viesse, ninguém ficou com raiva, não. Aí o padre: “Não, você vai ficar aqui pra fazer suas provas e pode ir embora.” Aí pronto. Fiquei mais uma semana, fiz as provas, fizeram até uma sacanagem comigo, que na hora de ir embora me fizeram corredor polonês lá pra eu me despedir. Só me despedi do primeiro, comecei a chorar, levei tapa até o fim! Aí os meninos foram embora. Pronto, aí voltei pra Fortaleza. Quando eu voltei, aí realmente eu vim pra parte do surfe mesmo, vamos dizer assim. Porque nesse meio tempo eu comecei a surfar também ali pela Praia de Iracema, o Goiaba me vendeu uma prancha, que é um ícone da Praia de Iracema, o cara mais antigo do surfe lá, ou talvez um dos. E eu estava ali parado com o surfe, mas sempre ligado. Aí eu voltei. Era época daquela novela Água Viva. Dancin Days, Água Viva, uma coisa dessas. E tinha os windsurfs. Quando eu cheguei, o papai estava fazendo... Ele fazia hobie cat. Aí ele comprou um windsurf pra mim e para meu irmão. Então era bem legal, tal, a gente ia pra lagoa. Mas imagina você levar um windsurf pra praia todo dia. Meu, era um negócio de louco. Aí eu: “Quer saber de uma coisa? Eu vou fazer é o surfe.” Aí pulei para o surfe, comecei a surfar e conheci uma galera que tinha chegado de Aracaju, aí comecei realmente a ir para o surfe. Bom, aí continuei estudando, acho que nessa época aí eu estava com 18 anos, aí tive um romance muito louco, esse romance eu fugi com a menina, aí a gente ia casar, acabou que não casou, mas ela foi embora... Deixa-me lembrar como foi essa história. Não, tem uma filha de 28 anos nessa história, espere aí.

 

P/1 – Você a conheceu onde?

 

R – Essa menina? Aqui na Praia de Iracema. Ela tinha acabado de chegar, eram três irmãs: Ana Augusta, Djenane e Jéssica, que era essa... Era uma menina muito bonita, tal, chegou ali e a gente se conheceu, namorou. Pô, faz tempo, hein? Estou querendo lembrar aqui como foi. Bom, eu sei que a gente fugiu, foi pra Paracuru, um negócio de Lagoa Azul, sabe? Era a época do filme A Lagoa Azul, a gente queria um negócio daquele, foi bacana, hein? [risos].

 

P/2 – [risos].

 

R – Foi tudo que eu vi no Lagoa Azul a gente fez lá. Tudo. Tudo. Literalmente. Foi fantástico. Vixe, a atual aqui escutar isso, ela vai ficar muito bolada. Quando chegou, foi aquela confusão, não sei o quê, eu sei que ela foi embora, passaram uns dois anos, não sei o quê, voltou e a gente casou. Acho que foi isso aí. A gente casou. Aí casamos. No que casou... Que ela ficou grávida, aí casamos. Foi. Foi isso mesmo. Quando foi com seis meses que ela estava, ela teve um problema muito sério. Essa menina teve um câncer, foi uma mola hidatiforme, que é uma degeneração do óvulo, aí ela abortou, a gente foi para o hospital. Mas a gente já não se dava, porque ela viajou, voltou, a gente fez aquele rolo, não sei o quê, mas não tinha mais aquela paixão, já tinha acabado, ficou só, tipo assim, obrigação mesmo de fazer a história. E ela foi embora. Quando ela voltou, a gente fez isso aí, ela engravidou, aí eu digo: “Não, vamos assumir e vamos casar.”

 

P/1 – Mas vocês moravam juntos?

 

R – É, aí a gente foi morar no apartamento da mãe dela, que era a um quarteirão da minha casa. Daí quando teve esse problema, ela foi para o hospital, do hospital ela passou dois anos, fez radioterapia, quimioterapia, caiu cabelo, não sei o quê. A gente já estava um pouquinho separado, mas como aconteceu o negócio, a gente voltou e... Eu não ia deixar também a pessoa, né, cara? E a gente ficou e começou a se dar bem de novo. Eu sei que quando ela saiu do hospital, ela estava grávida de novo, da minha filha, hoje que tem 28 anos. Mas quando a Marcelinha nasceu, com cinco meses a gente se separou, cada um foi pra um lado. Ela casou de novo, teve mais uns filhos, está tudo certo.

 

P/2 – E ela era da onde? Você falou que ela viajava, ela não era daqui então?

 

R – É, ela não era daqui. A família dela era de Iguatu, aí vieram pra cá. O pai dela era gerente do Banco do Brasil e também viajando. Como aconteceu esse primeiro episódio com a gente, ele foi pra Patos, na Paraíba, então ela foi morar com o pai. Aí ficou lá um tempo e veio pra cá pra passar o final de semana e... Entendeu, né? Não precisa também entrar em detalhes.

 

P/2 – É!

 

P/1 – E a sua filha Marcela?

 

R – A minha filha é a Marcela Morena Cavalcante Alves.

 

P/1 – Ela mora hoje...

 

R – Ela mora hoje em Fortaleza, no mesmo bloco de apartamentos da minha mãe. A gente comprou apartamento agora, ela está morando lá no apartamento dela. A minha mãe mora aqui num e ela mora no outro. 

 

P/2 – E deixa-me te perguntar uma coisa, como a sua avó ficou com essa história? Porque você era novo ainda e estava estudando ainda quando começou.

 

R – É, atrapalhou bastante, ele ficou muito “pê” da vida: “Como ‘tu é’ responsável desse jeito?” Mas apesar dessa, vamos dizer, rigidez, ele sempre respeitou o meu espaço, sabe? Como homem, ele sempre me respeitou, ele sempre soube... Ele tentou da melhor maneira me colocar no caminho certo, mas assim, você é você, você sabe o que faz. Entendeu? E quando chegou a certa idade, ele dava os esporros dele, mas sempre dizendo: “Cara, olha o que você está fazendo”. É como hoje, eu trato o meu filho desse jeito. Assim, não precisa bater, essas coisas, a gente não precisa, mas eu sempre falo pra ele: “Olha, cara, está aqui o caminho, é esse aqui. ‘Tu está’ vendo, tem exemplo.” Então ele sempre colocou assim: “Quer fazer? Faz. Tá aqui a condição. Vai lá”. E pronto, é isso aí. Ele sempre levou desse jeito, o que ele pôde ajudar, ele ajudou, mas era “independentes e harmônicos”, tipo os três poderes, não tem um papo desse?

 

P/2 – E me fala uma coisa, quando ela engravidou, você era muito novo, e aí como você fez pra sustentar a casa?

 

P/1 – Você trabalhava?

 

R – Pois é. Aí como ficou? A dona Valdíria, que era a mãe dela... Cada personagem vem chegando. A dona Valdíria era meio louca. A mais louca de todo mundo era a dona Valdíria. Então a casa dela era a casa da dona Valdíria [risos]. Eu era casado com a Jéssica, o meu primo era casado com a irmã dela. Ainda tinha essa. Ah, o meu parceirão também era o Miguel Ângelo. Nessa época eu tinha um parceiro, que aí meu irmão já era mais velho, já não queria andar comigo, tal, quem andava comigo era o Miguel Ângelo, que era esse meu primo, tanto que a gente atuava de dupla. Quando a gente viu essas duas meninas lá, ele pegou a irmã, a do olhinho verde, eu peguei a morena, do olho moreno. E a gente andava, pá. Acabou que os dois também casaram na mesma época, os dois têm filhos também do mesmo jeito e os dois também se separaram, todo mundo do mesmo... Parece que a novela já estava escrita antes. Então a gente andava junto ali. Como sustentava? Bom, a mãe dela tinha uma grana, que bancava lá a casa. Eu não trabalhava, na verdade. Trabalhava assim, foi aí que eu comecei a montar uma oficina de prancha dentro do apartamento da minha sogra.

 

P/1 – Nossa!

 

R – Imagina o vizinho como não está? Uma molecada, e só tinha maluco, naquela época todo mundo era doido. Aquela história de ir lá para o internato não adiantou nada.

 

P/2 – Voltou…

 

P/1 – E voltou, voltou tudo.

 

R – Não adiantou nada. Só completou. Lá tinha mais do que aqui fora. Aí aquela história. Pronto. Essa época era muito louca, não tinha... Quer dizer, a violência era pouca, mas a fumaça era grande. Então todo mundo era louco, todo mundo pá, era maior astral. Aí a gente vivia mesmo paz e amor, curtição, era pegar onda, não sei o quê. Não tinha obrigação mesmo, não. E outra coisa, se você não fosse assim, você não era da turma. Colava. Hoje em dia se o cara “der um dois” ali no meio da galera, “Ê, rapaz, esse bicho aí está...”. Mas naquela época você era ovelha negra se você não usasse. Entendeu? Tinha esse lado também. Antigamente tinha até um ditado que dizia: “Nem todo maconheiro é surfista, mas todo maconheiro é surfista.” Era uma coisa dessa aí. Pegava mal? Pegava, até pode ser, mas fazia parte. A gente fazia aquilo ali, mas era o astral, não sei, fazia parte da cultura.

 

P/1 – Da época.

 

R – Da época era aquilo ali que acontecia mesmo. E a gente foi indo, foi indo, cada um foi fazendo suas coisas. Eu continuei no estudo. A maioria dos amigos ali, a galera, quem se meteu com a droga e foi mais pesado, com a liberdade da palavra, se fodeu mesmo. Talvez eu por ter esse apoio de casa, sempre tive o receio de chegar com alguma coisa a mais e tal. Teve uma época muito forte também, que aí começou a moda de tomar injetável e não sei o quê, começaram a aparecer umas drogas pesadas, essas coisas. E eu graças a Deus não me meti com isso. Eu sempre achei: “Pô, cara, isso aí não é legal, não tem a ver.” O surfe também me salvou isso, porque o esporte não me permitia. Então eu era de uma galerinha, mas não era daquela galera pesada da minha rua. Sabe? Aquela rapaziada era pesada mesmo. Então eu ia ali e eu era o Bibitinha: “Ah, o cara do surfe, o astral.” Eu estava sempre saindo ali na tangente. E aí as coisas foram fluindo. Apesar de atrapalhar um pouquinho, a memória até hoje ainda falha um pouquinho, mas era eu um cara que sempre permeava todos os ambientes na boa.

 

P/1 – Conta mais sobre essa fábrica, essa primeira fábrica no apartamento.

 

R – Pronto. Vamos pra fábrica. Eu queria fazer uma prancha, não tinha grana, daí eu comprei uma prancha, acho que era Riquinho, Riquinho, que inclusive era o Ricardo Studart, um dos maiores construtores aqui de Fortaleza, Riquinho da Ricardo Studart. Ele fazia prancha, esse cara. Pois é, se ele fazia prancha e chegou a ser construtor e tal, eu digo: “Ô, rapaz, é por aqui que eu vou.” Aí fizemos lá, começamos a consertar prancha. Tinha um quartinho, aquele último quarto, o quarto da empregada, que a gente tem no apartamento antigo, lembra? Era lá, quartinho. Então ia lá, começou a fazer conserto, emendava prancha velha, descascava shape, tal. Até que a gente viu que aquele espaço não dava. A vizinhança reclamava, a briga era grande, quem tinha que me salvar? Vovô. Então a casa do vovô era uma casa grande, tinha um quintal gigante, digo: “Vamos pra lá. Vamos montar.” Aí veio um rapaz lá de Natal, o Jairo, Jairo Queimado, ele tinha o corpo, 90% do corpo dele foi queimado quando era moleque, por um acidente com álcool, parece que o irmão, não sei o quê, fez uma coisa, tocou fogo, ele pegou fogo o corpo inteiro, fez 24 cirurgias. E era um cara que era, pô, aliás, até hoje, um cara muito bom de coração. E o pessoal tinha meio que receio com ele, porque imagina o cara com 90% do corpo queimado como era, e um olho cego. Posso contar, abrir só uma aspazinha desse olho cego?

 

P/1 – Tá.

 

R – Eu disse: “Jairão, pô, cara, caralho, tu todo queimado e ainda perdeu um olho.” “Não, Bibita, não foi assim, não”. Eu digo: “E como foi?” “Rapaz, isso aqui foi eu brincando com meu irmão, ele deu flechada no meu olho!” [risos]. Eu digo: “Puta que pariu. Caralho. Jairão, ‘tu queimou-se’ todinho, miserável, o cara ainda furou o teu olho” [risos]. Cara, se você visse o doce que o cara era. Eu: “Meu irmão, eu não sei que coisa que ‘tu fez’ na outra vida, mas ‘tu era’ muito ruim, desgraçado.” Vocês têm que gravar a vida desse cara, pelo amor de Deus. Jairão, viu? Jairo Morais, o nome dele. É lá de Natal. E o Jairão foi um cara que me ensinou muito a parte de prancha, porque ele trabalhava com o Ronaldo Barreto, que é um dos maiores shapers do Nordeste, o cara que fazia as melhores pranchas. Ainda hoje ele tem a rádio, Radical Surfboards. E o Jairo trabalhava com ele. Aí o Jairão veio aqui para o Ceará e ficou lá em casa. A oficina era grande, que era o quartinho que era do meu tio, do tio Marcelo, lá atrás. O tio Marcelo casou e tal, foi pra outro canto e aquele quarto ficou ali. “Opa, é ali que a gente vai se instalar.” Aí começamos a fazer as pranchas, foi a primeira prancha do Pinball. Ainda lembro. Opa, estou melhorando. A prancha do Pinball. Fizemos a prancha surfboard. Daí essa ponte foi a primeira prancha assim, que eu disse: “Essa aqui é uma prancha de verdade.” Que antes era só meia-boca. Aí teve uma essência com meu primo Carlinhos, tal, também, mais ou menos, mas essa tinha cara de radical. Bom, aí foi, começamos a fazer, aí eu digo: “Vamos montar uma marca.” Aí criou a Aqualoucos, que era o símbolo da anarquia com uma onda por trás, era lindo. Mas o meu avô não gostava. Já pensou? A casa do general, Aqualoucos. Só tem doido. Ele ficava louco da vida!

 

P/1 – Tinha que negociar.

 

R – Ele ficava mordido demais. O general ficava mordido demais. Ele aceitava, mas era daquele jeito. Aí a lixadeira era emprestada de um, de outro. Mas você vê como ele apoiava, porque assim, ele gostava da gente mesmo, porque tinha um negócio de uma lixadeira que eu pegava emprestada de um camarada, uma lixadeira industrial. Aí aconteceu um episódio de um dos caras que era o dono da lixadeira ir buscar essa lixadeira. E o meu tio embirrava comigo, sabe? O meu tio mais novo, vamos dizer, que é cirurgião plástico, o Alberto Vasconcelos. Ele implicava com a galera, que ele ficava incomodado com aquele movimento. Aí esse cara foi buscar a lixadeira, ele não deixou o cara entrar e rolou um clima desagradável. Porque eu te disse, que era como se fossem os irmãos. Mais velhos, mas eram irmãos. Só que eu já era maiorzinho também, já era maiorzinho e dei uma peitada no meu tio: “Pô, vai te foder e tal.” E meu avô vendo aquela confusão: “Por quê? O que está acontecendo?” “Ah, porque o rapaz ia entrar, não sei o quê, não sei o quê.” Disse: “Quem é o problema?” “A lixadeira”. Quando chegou de tarde, eu cheguei, estava lá a lixadeira novinha. Aí a fábrica...

 

P/1 – Deslanchou.

 

R – Deslanchou, porque faltava essa lixadeira. Quer dizer, a briga do meu tio foi muito boa, ao final das contas a gente ganhou uma lixadeira top e acabou a briga.

 

P/1 – E qual foi o nome que ficou?

 

R – Aqualoucos.

 

P/1 – Ah, ficou?

 

R – Não teve jeito. É Aqualoucos mesmo. Eu… também com o nome, Aqualoucos, Aqualoucos. Mas foi o tempo passando, o Aqualoucos era muito legal, conhecia muita gente também, aí a galera tava lá sempre querendo comprar uma prancha, ou mesmo ir lá pra conversar, pra trocar uma ideia, tinha uma siriguela lá atrás que era sempre cheio de frutas pra todo mundo. E a gente tava ali, naquela, até que com o passar do tempo eu conheci outra galera, que é essa que veio de Aracaju. Esses caras eram muito profissionais também e me propuseram uma sociedade numa outra fábrica. Essa sociedade era... Aí seria já o nome dessa outra prancha, que seria Promar. Mas veja a diferença: Promar, Aqualoucos. Né? Apesar de eu ter essa birra, mas eu sempre tive respeito lá com meu avô. Eu digo: Promar soa muito melhor que Aqualoucos. Apesar de eu gostar muito de uma coisa, mas, pô, vamos também... Aí eu mudei, fui para o nome dos caras. Ô, ele ficou tão feliz.

 

P/2 – [risos].

 

R – Ficou felicíssimo. Colou. Na casa dele tinha uma placa Promar, não tinha mais Aqualoucos. Aí foi uma época muito boa, muito boa mesmo, porque aí eu realmente fui aprender como se trabalhava profissionalmente com pranchas. Porque antes era Aqualoucos mesmo. Vamos lá. Tinham algumas coisas, porque eles já foram lá, prestaram serviço. Aí quando chegou pra Promar, não. Aí era pra ser o líder de mercado. Era realmente fazer prancha de surfe. Na qualidade que você vê hoje, a gente fazia há 15 anos atrás, a gente já fazia nessa qualidade mesmo, porque tínhamos pessoas especializadas fazendo as pranchas. Aí chegamos ao topo do Ceará, de sermos os melhores mesmo aqui da... Tinha o Fabiano Dias, que até hoje faz prancha, que é um cara que eu respeito muito, um cara super profissional, que ele se sentiu ameaçado até, porque a gente brigou mesmo, pau a pau, ali no mercado, éramos nivelados com eles, com os melhores em nível de Nordeste. O que chegasse aqui, chegava e fazia prancha, aí, era muita prancha mesmo. Pra época, a gente fazia... Chegamos a 30 pranchas, 40 pranchas por mês. Pra gente era muita coisa. Fábrica pequenininha era muita coisa. Até que as coisas começaram a crescer tanto, tomaram uma dimensão, e um dos sócios... Quer dizer, na verdade eu fiz negócio, o Hermano, que era laminador. Eu fazia o shape e o outro era laminador. E tinha o irmão dele, que era corretor de imóveis, também era shaper, mas tinha abandonado mesmo a oficina, por isso que ele me chamou. Aí, Demóstenes parece que não estava se dando muito bem lá no negócio dos imóveis, ele correu pra... Foi lá e disse: “Olha, eu quero espaço aqui porque eu vou shapar. Não tá dando e eu vou shapar aqui”. Assim, a gente tinha as encomendas, que já eram nossas, mas ele chegou e começou a se impor, começou a se impor, começou a dizer: “Porra, a casa é minha.” Na época, a gente já estava fazendo isso na casa dele. Lá na minha casa eu tinha parado um pouco, fui para outro lado. Aí ele começou afastar, afastar, e por uma besteira lá ele já aproveitou e disse: “Olha, meu irmão, você está fora da parada.” Eu falei: “Porra, brother, depois que a gente faz o nome, faz tudo.” “Não, você está fora”. Eu: “Tá legal. Tô fora? Beleza”. Aí bati a porta. E como eu tinha uma clientela bacana, a galera já considerava mesmo, eu fui pra casa e montei a Ícaro. No outro dia eu montei a Ícaro, naquela onde era a oficina. Já não era mais Aqualoucos, não era Promar, agora era Ícaro Surfboard. Beleza. Montei, nessa época eu já tinha uma condição bem melhor, meu maquinário, a maior parte do maquinário era meu, que eu levei pra lá, e montei. Com três meses o irmão dele chegou lá em casa, batendo, pedindo emprego, que a Promar tinha quebrado, porque o cara pensava que os clientes eram dele lá, só que quem fazia o barulho basicamente era eu. O competidor, o cara que ia pra todos os lugares, fazia a zoada, tal, era quem trazia os clientes. E ele não entendia isso. Ele em vez de repartir, ele quis pra ele só. Infelizmente aconteceu essa história mesmo, foi meio triste pra eles. Aí o Hermano, que era meu sócio, veio pra lá e eu: “Não, tudo bem, venha pra cá, só que vai ser meu funcionário.” Deixou de ser sócio pra ser meu funcionário. Mas você sabe que as coisas, elas... Quando acontece isso, o teu coração já não fica do mesmo jeito, você já não vai mais na vibe. Pô, você está numa vibe, numa onda legal pra caramba, e acontece uma coisa dessas, você não vai mais trabalhar legal. Aí eu desgostei mesmo com prancha, a gente já perdeu aquele... O top da parada a gente já perdeu, de ser top, a gente já caiu pra segunda linha ali. E aí pra voltar pra recuperar aquele tempo perdido. Foi uma época também meio complicada na minha vida com outras coisas, particulares mesmo. Eu disse: “Não, cara, não dá mais, não.” Isso eu já estava casado de novo, com essa minha outra esposa, que eu já estou casado há 20 anos. Vinte? Acho que são 21. É muito tempo, né? Não, 20... O Ícaro tem 21. Vinte e um anos. Eu já estava casado com a Giovana. Aí eu disse: “Cara, não dá, não. Não vou mais fazer isso, não. Não dá mais.” Aí comecei a fazer eventos, também dentro do surfe. A gente começou a fazer uma revista de surfe também, que chama... Eu só lembrei porque eu vi a revista ali. Eu comecei a trabalhar como vendedor de anúncio de revista. Eu escrevo e vendo os anúncios, porque aí eu aproveitava, eu vendia o anúncio, e como eu escrevia, eu também colocava meus amigos. Entendeu? Fazia aquele networking bem bacana, a revista servia como um portfólio pra tudo isso aí, contava as histórias, eu podia viajar, porque eu tava com um veículo de comunicação forte. E começou a pororoca também. Eu acho que eu já passei. A pororoca já tinha começado nessa época aí. Eu estava finalizando a Ícaro e começou com a pororoca. Acho que anos 2000... 1998. Foi. 1998 foi a primeira vez que eu fui. Em 1999 eu comecei a ir... É outro ciclo que surgiu pra lá. Aí eu comecei a desanimar daqui, comecei a ir pra lá.

 

P/1 – Mas você foi por conta da revista ou por conta...

 

R – Não. A pororoca é uma história bem particular. Pode contar essa história da pororoca como foi?

 

P/1 – Claro.

 

P/2 – Claro. Claro. Claro.

 

R – A pororoca foi bacana. A pororoca foi no tempo da Aqualoucos. Eu estava lá na fábrica, tal, porque quando a gente fala, parece que é rápido, mas aquele tempo da Aqualoucos foi um tempo longo, muitas coisas aconteceram. Eu estava na... lá na Aqualoucos e chegou um cara, dois caras lá de Belém: um é o Maurício Vital, que é o Maurição, que faleceu o ano passado, e o Noélio Sobrinho. Aí eles chegaram lá pra fazer uma prancha e me apresentando lá o Noélio, aí eu digo: “Noélio, ‘tu já ouviu’ falar na pororoca?” Aí ele disse: “Claro que eu já ouvi”. Porque eu tinha visto uma matéria do Amaral Neto, o repórter, em 1975, mostrando a onda do Rio Araguari, em preto e branco ainda. E naquela época, foi quando eu comecei a pegar onda, em 1975, 1976. E eu disse: “Aquela ali dá pra surfar.” Então aquilo ficou na minha memória, mas na minha mente ali guardada. Quando ele chegou lá, acho que 1985, dez anos depois, eu perguntei pra ele sobre essa história de pororoca. Aí ele: “Não, está tudo certo.” O Noélio até hoje é meu irmãozão, vocês vão já chegar nele. Aí ele: “Já, pô, já fomos lá, não sei o quê.” Só que ele nunca tinha ido, era só conversa dele. Mas ele também tinha a mesma vontade, porque ele parece que tinha visto alguma coisa com essa pororoca. Não sei se por conta do que eu falei, ou se porque ele também já tinha essa ideia, ele também começou a se preocupar com a pororoca. Aí os anos foram se passando, ele tinha um jornal também, era o Jornal Alternativo Eventos, ele vinha lá de Belém vender anúncio aqui no Ceará, o cara também empreendedor pra caramba. Aí, quando foi em 1998 ele me liga. Olha quanto tempo, depois de 13 anos. Isso a gente de vez em quando se comunicava, não sei o quê. Mas em 1998 ele me liga: “Olha...”. Ai, desculpa. Em 1997. Em 1997 eu era técnico de surfe da Maresia aqui, uma empresa muito grande de surfe, eu era o técnico. Nessa época, o que eu estava fazendo da vida era isso: sendo técnico de surfe, eu ganhava como técnico. Aí ele me ligou e disse: “Bibita, vai rolar uma pororoca lá no Rio Araguari.” Eu digo: “É mesmo?” “É.” “Como a gente faz?” “Cara, é o seguinte, ninguém surfou a pororoca, nós vamos pela primeira vez surfar a pororoca no Brasil e custa R$ 2,5 mil.” Digamos mil dólares hoje. Era mais ou menos o custo. Aí era pra eu pedir o patrocínio na Maresia. Aí sentei lá na mesa, nessa época o Maninho e o Adriano, que são os donos, ainda não eram tão ricos, então a gente... todo mundo almoçava junto, eu, ele, o Grega, o Fred Serra, a galera sentava, todo mundo almoçava no mesmo canto ali. Aí eu falei: “Olha, rapaziada, tem essa oportunidade de a gente botar no Fantástico a pororoca do Rio Araguari.” E os caras: “‘Tu é’ doido, rapaz? ‘Tu vai’ morrer”. Eu disse: “Rapaz, olha, a gente vai, não tem problema, me dê o dinheiro e me dê um papel pra eu assinar, que eu assino, se eu morrer, é problema meu, mas deixa a gente ir, cara, que a gente vai lá.” “Não, que ‘tu vai’ morrer, que é isso?”. Eu digo: “Cara, não faça isso, não. Está tudo esquematizado pra gente ir.” Aí chorei no pé do ouvido dos caras: “Pelo amor de Deus, nãnãnãnã”. Não fizeram. Um mês depois aparece o Fantástico, o Guga Arruda e Eraldo Gueiros na pororoca. Esse projeto que a gente vende, deixou com o cara da REP para o cara arranjar o patrocínio lá da realidade do Pará, aí os caras foram e tiraram até o Noélio da fita e foram eles. Aí a gente: “Puta!”. Quando a gente viu, quase chorou, né, velho? Vendo lá no Fantástico, eu lá olhando para o Maninho: “Pô, viu aí o que vocês fizeram?” “Ah, nem morreu.” Pô, ficamos tristes pra caramba, sabe? Mesmo ficando triste, tudo na vida tem dois lados: você pode ficar triste, botar o rabinho entre as pernas e ir embora, e se decepcionar; ou você ver que aquilo é o que você quer e aproveitar de alguma forma. Então quando foi no outro ano, em 1998, o Noélio me liga e disse: “Olha, estou fazendo o primeiro evento de pororoca aqui no Rio Capim, São Domingos do Capim, venha pra cá?” Aí eu fui bater em São Domingos do Capim, primeiro campeonato de surfe na pororoca e o primeiro circuito brasileiro de surfe na pororoca. Aí fui pra lá e quando eu cheguei, eu: “Caralho, esse Noélio é louco!” A cidade tinha na época acho que umas 6… 7 mil pessoas. No dia que eu cheguei, o festival da pororoca tinha mais de 20 mil pessoas. A beira rio assim era lotada de gente, todo mundo... Ele fez um bagulho tão grande, porque como no ano passado tinha saído... Aí a gente aproveitou. Não apareceu a pororoca? Quando apareceu no Fantástico, São Domingos do Capim já era conhecido como a cidade da terra da pororoca, então o prefeito disse: “Porra, os caras lá do Amapá fizeram...”. Aí ele chegou lá e: “Olha, é aqui que é a terra da pororoca, é aqui que vai ser o enxame.” Aí o Pará inteiro se mobilizou pra isso. Quando eu cheguei, eu não acreditei, eu: “Cara, o que é isso?”. Sabe? Tinha helicóptero, tinha barco de todo jeito que você podia imaginar, era uma coisa absurda. Eu digo: “Cara, que legal!” Então a gente ia pra surfar a pororoca. Eu pensava que surfar a pororoca, era surfar a pororoca. Não, surfar a pororoca é caçar a pororoca. A pororoca é um dragão encantado, eu sempre falo. Por quê? Olha só, imagina a situação, a primeira vez que a gente vai, a gente entrou no rio, mais ou menos uma hora de voadeira, que são aquelas lanchas potentes, pra chegar um pico chamado Bujaru, e eu olhava, dizia: “Pô, quando vem essa onda?” O rio subia, subia, subia. O cara: “É aqui mesmo, fica aí de boa.” Do nada, do nada, você começa a escutar rrronrrronrrron, aquele movimento das águas, eu digo: “Que porra é essa?” Cara, do nada ele sai de dentro da... Aqui está liso, ele sai, faz uuurrr, começa tufando assim, o rio vai subindo assim, aí ele faz vuuu, aí monta, monta assim, aí vem aquela espuma dum lado para o outro... vaarrr. Aí, caraca, dum lado para o outro do rio vem aquele negocinho. Então tem aquelas ilhotas, ele vai emendando, subindo assim por cima das ilhotas, o que está muito alto ele não vai, ele vai pela borda lambendo aqui a borda. Então a gente diz que é um dragão mesmo, um dragão encantado, porque atrás vem assim, uma centena de ondas, uma atrás da outra, como se fossem as corcovas do dragão, então blóblóbló. Eu: “Caraca!” Aí todo mundo com as lanchas pra um lado para o outro, para o outro, para o outro, todo mundo correndo atrás pra pegar a onda. E a onda estava do outro lado, o dragão estava do outro lado. Aí eu digo: “Vai, vai, vai, vai, vai”. Mas a gente demorou a se posicionar pra chegar lá ao pico. Quando o rio... Na parte seca do rio a onda quebra, na parte funda ele não quebra. Então na parte seca o dragão aparece, na parte funda ele some. Então ele vem aqui, quando a gente chegou lá, ele puff, passou por baixo do barco, eu: “Cara, cadê essa onda, cara?”. Ficou todo mundo assim: “Porra, que onde é essa?”. Aí ela sumiu, mas a gente via que ela tava passando por baixo da gente, dava pra ver, pela margem você vê o movimento da água. “Bora, bora, bora, bora. Acelera, acelera, acelera, acelera!” E a gente aqui passou por cima da cabeça dele e ficou aqui na frente. Lá na frente tem o Igarapé dos Paus. Aí eu já estava manjando bem a parada. Não é assim, não, moleque. Dessa vez não vou perder, não. Daí ela se formou de novo. Quando ela formou, eu digo: “Agora vai!” Da lancha mesmo eu pulei, já remei desesperado e consegui pegar a onda. Aí já vim surfando, tinha nessa mesma onda não só eu, tinha uns caras de caiaque, era um festival, gente pra todo lado, noutras lanchas. Imagina assim, 20 embarcações na frente da pororoca. A onda vindo aqui, 20 embarcações, e todo mundo pulando, correndo, cada um querendo pegar a sua onda. Aí a gente fez. A onda era curtinha, porque São Domingos do Capim é uma onda pequena, mas é muito legal! A gente fez ali, sei lá, uns dois, três minutinhos de onda. Aí mais na frente... Porque assim, ela quebrou aqui, parou, sumiu, aí quebra aqui, mergulha de novo, você não vê, só vê aquele negocinho na margem, por isso que eu digo que é caça, onde é que ela está, onde ela não está, onde ela está. “Está ali, está não sei o quê.” Parece negócio de doido mesmo. A gente vai, vai, aí andou, sei lá, uns 20 minutos, ela começou a formar de novo. No que ela formou, tinha uma bateria, porque os caras já sabiam o lugar, tinha uma bateria. Bateria é onde os competidores ficam, que era o Ricardo Tatuí, que foi campeão brasileiro de surfe, um cara super conceituado, e o Lucinho Lima, que foi top do circuito brasileiro de surfe profissional durante muito tempo, eles estavam naquela margem esperando a onda, que ela ia quebrar lá, porque os caras já tinham dito: “Olha, é aqui que ela quebra.” Meu, aconteceu uma cena, que ela está... Não sei se vocês conseguem essa cena, mas ela está no Jornal Nacional. Um barco de mais ou menos uns 20 metros vinha acompanhando também esse cortejo, sabe? E o barco que vinha assim, por cima da onda, de repente a pororoca pegou esse barco e ele não conseguia mais sair da correnteza. E tinha uma curva, e aqui era a ilha, o barco tinha que sair, só que ele não saiu, cara. Os caras estavam bem aqui, ele primeiro quase que atropela os caras, já foi quase tragédia mesmo. Quando a gente viu o navio entrando dentro da floresta, o navio entrou literalmente dentro da floresta, eu não acreditei. Aí você vê assim, todo mundo indo pra popa do barco, pulando do barco, e o barco entrando na floresta. Isso foi... Tem lá no Jornal Nacional, pode ver, São Domingos do Capim, Jornal Nacional. Caraca, foi muito doido. Aí eu fui, comecei a respeitar, eu digo: “Olha...”. A onda era pequenininha. E eu: “Ah, surfistão, já pegou onda grande, isso não tem força”. Quando eu vi o que ela fez num barco daquele, aí que eu fui ter a dimensão do que é a força da pororoca. Naquele dia fui o primeiro e logo pra dizer: “Olha, se liga, viu, ‘véi’? Que aqui não é brincadeira, não”. Então esse barco foi e graças a Deus ninguém morreu. E a gente continuou o cortejo. Aí já chegou a São Domingos do Capim. Que São Domingos, nesta cidade tem um padre, tem uma estátua de um santo com a mão assim, que é pra parar a pororoca, que ele dizia que ela ia invadir a cidade. “Seu padre, vê se tira aquele negócio, que esse ano não deu foi nada.” [risos]. Que eu fui lá esse ano, estava tão fraquinha que ela parou. Mas a gente passou por lá, tinha um pessoal na frente da cidade, que a pororoca bateu lá, mas pequenininha. Aí tinha mais outro lugar, que chama Toi, que é onde ficava também muita gente. Bom, finalizando aqui, a primeira experiência foi essa de pororoca. Isso foi o começo. Depois fui para o Arquipélago do Marajó. Dali mesmo eu já não voltei pra Fortaleza. Que o Noélio falou: “Olha, cara, vai ter a pororoca de...”. É por isso que eu falo, que eu fico logo de quatro meses, que quando eu quero vir embora, ele: “Não, tem a outra, tem a outra, tem outra.” Então a gente esperou 15 dias pra outra pororoca, que seria no Arquipélago do Marajó, no arrozal, que fica entre a... Acho que é Ilha das Pacas. Não, Caviana e Cavianinha, são duas ilhas lá. Aí fomos pra essa pororoca. E aí, gente, Ilhas das Pacas, Caviana, Ciriaca, Papo Amarelo, Limão, Lobato, o próprio Marajó, Canal do Perigoso, Canal do Inferno, Combo, Araguari, isso aí, menina, é tudo que a gente anda surfando hoje em dia.

 

P/1 – E onde vocês dormiam? Vocês ficavam...

 

R – No barco.

 

P/1 – No barco?

 

R – É. Aí é um barco mãe, o barco vai com aquelas centenas de redes, a gente aluga um barco daqueles e fica nas redes. Depois se vocês quiserem, eu tenho até umas imagens, alguma coisa dessa aí se quiser ilustrar. 

 

P/2 – Deixe-me só perguntar uma coisa pra você. Qual é a diferença entre surfar no rio, numa pororoca, e no mar?

 

R – Começa que...

 

P/2 – A técnica é diferente? O que é?

 

R – A abordagem é diferente. Na pororoca você está ali e vai ter uma onda por dia. Uma onda por dia. É um tsunami controlado, vamos dizer assim, controlado, ou pelo menos ele vem dentro daquela calha do rio, aquele tsunami que ele... Uma pororoca, ela consegue andar, por exemplo, de São Domingos para o Oceano, eu acho que dá mais de 100 quilômetros, então a força que vem do mar chega a 100 quilômetros. Deixe-me te dizer aqui, a água do rio é mais pesada, tem menos sal, ela é mais pesada, então tem que ser uma prancha um pouquinho mais grossa. Outra coisa, quando você está surfando, o fluxo do rio ainda continua levando para o mar, e o mar vem por cima. Então quando você está nessa parte aqui, digamos, que a gente chama o bow, no côncavo da onda, aí você tem uma velocidade boa, mas se você chegar no flat, ela vai e te puxa pra trás. Então você tem que estar sempre controlando, porque quando você chega aqui, ela te freia e te volta, te freia e volta. Se você está andando na parede, é tranquilo. Deixe-me ver aqui outra coisa de diferença assim. Tem essas diferenças da abordagem, tem a eternidade. A pororoca é eterna, sabe? Tem alguns lugares que você fica meia hora numa onda, uma hora numa onda. Se você tiver perna, você fica indefinidamente, porque você anda, por exemplo, no Rio Araguari, da foz do rio até a Ilha da Princesa, se você for na onda o tempo todo, é 1h15. Se você aguentar ficar. Agora, também a onda, às vezes, o que eu falei, tem uma hora que ela fica, afunda, tem hora que fica rasa, tem hora que... A pororoca se divide em três pedaços: tem a miragem, tem o Deus nos acuda [risos], e tem o XYZ, vamos dizer assim. O XYZ é o canto massa, onde você vai pegar a onda no ponto certo, você vai aproveitar bastante. O Deus nos acuda é quando você está dentro da espuma. Imagina uma espuma quase desse tamanho assim, numa lama preta, preta, preta, ela te puxando, faz blum. Sabe? E eu te falei do rio, né? Então você na espuma, a onda te puxa assim e te joga de novo, te joga, te joga. Então isso aqui você vem pra dentro da espuma, e a espuma quando chega lá em cima, ela te cospe pra lá. A gente chama Deus nos acuda, porque é um Deus nos acuda. Porque você agarrando assim, aí engole, aí a água vai até pelos olhos, pelo ouvido, todo canto que você imaginar, você engole lama. É o tal do Deus nos acuda. E a miragem é você entrar no canto errado. Você vê a onda linda, maravilhosa, vai remar pra ali, e... a onda foi embora. Porra, miragem.

 

P/2 – [risos].

 

R – Vai sofrendo.

 

P/1 – Foi você que botou esses nomes?

 

R – É. Esses aí são... Porque já foram muitos, acontecem de: “Pô, isso é miragem, cara”. O Deus nos acuda é um Deus nos acuda. O longboard, meu primeiro longboard, eu o amassei todinho assim, de tanto... Porque eu estava com medo de cair, eu não sabia o que ia acontecer. Lá no Araguari. Porque foi nessa que virou o barco, que eu fiquei perdido lá. Eu já sabia o que ia acontecer. Está vendo? No dia seguinte aconteceu aquilo.

 

P/1 – Era isso que eu ia perguntar.

 

R – Mas no primeiro dia eu agarrei tanto que eu amassei a prancha.

 

P/1 – Era isso que eu ia perguntar. Você já passou algum susto?

 

R – Uh! Ah, meu Deus. Esse aí foi eu acho que talvez o... O primeiro foi o mais punk, porque a gente foi... Olha, a gente foi o São Domingos, aí de São Domingos a gente foi pra Ilha do Marajó. Na Ilha do Marajó, a gente encontrou com o pessoal do departamento de turismo do Amapá, que era a dona Sônia Canto, a diretora do departamento de turismo, uma pessoa dez, nota dez assim, a Soninha. E ela foi pra ver o potencial turístico da pororoca na época. Era ano 1999. Isso aí já foi no ano seguinte, foi em 1999. Aí ela viu o negócio, disse: “Poxa, que legal!” A gente tem aquela do Rio Araguari, que foi essa que saiu no Fantástico, aí estava eu, Sérgio Laus, o Fábio Paradise, o Rosana Bossa e o Nil Faria daqui. E aí, a gente... uma trip pra lá e conversou com o pessoal do departamento de turismo, eles conseguiram um barco mãe e uma voadeira pra gente ir e desbravar isso aí. Na época, a gente ainda não conhecia os caminhos mais fáceis, então a gente saiu pelo Rio Amazonas, circundou por fora do oceano e entrou pelo Rio Congo. Cara, foi uma odisseia pra chegar a esse lugar. Mas só abrindo um parêntese, antes de chegar a esse Rio Congo, a gente teve que passar na Igaçaba, na Igaçaba pra pegar um barco da polícia ambiental, porque a gente só tinha uma lancha, e precisava de duas. A gente foi lá porque... É Renê o nome do sargento. “Sargento Renê, o major da polícia ambiental disse que a gente podia pegar a lancha aqui.” Ele: “Rapaz”. “Mas a gente veio pensando no piloto.” Ele: “Não, eu não vou, não. Se vocês quiserem, vocês vão só, eu não vou de jeito nenhum.” Aí ele liberou a viatura. Imagina a gente com uma viatura da polícia. Fomos com a viatura. Ora, não fomos. Fomos que fomos. A gente queria era a lancha, a gente tinha que ir. Aí deixamos o barco lá, o barco mãe, entramos pelo Rio Congo, do Rio Congo a gente saiu para o oceano e entrou no Rio Araguari. Se vocês virem no mapa, tem que ser muito louco, é lá no fim do mundo mesmo. Entramos pelo oceano, uma maresia maluca, a gente quase virando as lanchas do cara lá. Entramos sem conhecer nada, saber nada mesmo, a gente só tinha visto aquelas imagens. Aí fomos, tinha uma casa de vaqueiro, de búfalo lá, que lá tem muito búfalo, eu disse: “Vamos nos hospedar aqui.” Aí ficamos por lá. Primeiro dia, até era de manhã cedo, estava uma chuva muito forte, o pessoal que ia filmar não quis ir, falou: “Não, ninguém vai filmar porque está chovendo.” Aí fomos só eu, o Nil e o Lega, e o Serginho Laus. Aí a gente foi lá para o canto chamado Bom Amigo, que é uma comunidade, pegamos uma onda linda, linda, linda, linda, foram 30 minutos de onda perfeita. A chuva começou, mas do meio para o final só sol. Eu digo: “Ô, meu Deus, cadê o cinegrafista, que não está ninguém?”. Ninguém viu, mas tudo bem. Só o Nil que viu. No dia seguinte a gente foi fazer essa mesma coisa e disse: “Olha, agora, vamos lá.” Aí foi todo mundo: cinegrafista, fotógrafo. Que era a Rosana, que era cinegrafista; o Fábio Paradise, que era o fotógrafo. Bota na lancha, vamos lá. Daí a gente chegou lá no mesmo cantinho, que a gente não precisava ir, era só no retão da Princesa. Que está ali, meu irmão, começou, começou uma chuvinha, tal. Mas aí parou a chuva, pegando uma onda linda, maravilhosa, e tome foto pra lá, foto pra cá, tá tátá, tá tátá. Isso eu estava surfando, eu aqui, o Serginho aqui. Aí quando a gente olhou, eu disse: “Que é aquilo ali, meu irmão?” A lancha dos caras topou num banco de areia e travou. Quando eu já vi, foi a pororoca, blum, por cima daquela ali. Eita! Mas não virou a lancha. Ela estava assim, ela cobriu aqui. Eu digo: “Alagou!” Aí eu me preocupei com o Lega, que tava na outra lancha, que era essa lancha da polícia florestal. Aí quando eu olhei, o Lega acontece a mesma coisa, quase na frente da gente assim, só que o Lega tentou virar a lancha pra ficar de frente, pra ver se ele conseguia virar. Quando ele faz isso, foi pior ainda, que a pororoca o pegou de lado. Aí deu ali, puft, puf, puf, foi caco de Lega pra todo mundo, a lancha puff. Meu amigo, eu sei que quando eu vi... Ainda bem que ele estava com colete, quando eu vi, ele estava boiando. E a gente aqui surfando na onda e olhando aqui pra trás o que estava acontecendo. Eu digo: “Pô, Serginho, vamos ajudar os caras”. Pulamos da onda e... Né? Passando assim pra chegar aos caras. O Serginho foi para o outro lado, para os meninos, que era mais perto da margem; e eu fui para o Lega. Quando eu cheguei lá no Lega, o Lega assim apavorado, eu digo: “Caraca, calma, cara”. E aqui conversando com ele, mas dava pra eu ver a lancha lá. Eu: “Lega, fica aqui na minha prancha que eu vou nadando lá, daqui a pouco a gente vem te buscar.” Confiando que eu nadava muito e que ali era perto. Eu acreditei, olhei ali: “Não, está perto”. Só que as distâncias, elas enganam muito lá na Amazônia, sabe? “Tu pensa” que é perto, mas é muito longe. A correnteza, você imagina que o tsunami está te levando, então o rio vai ficando umas partes mais largas. E eu botei o Lega lá e comecei a nadar. Eu dei umas cinco, dez nadadas, aí eu fui entender por que a água é pesada. Imagina? A água pesa, cara. Eu estava com o capacete azul, que com medo de bater alguma coisa, eu estava de capacete. E nadar, nadar, nadar, nadar, de repente eu olhei: “Cadê o Lega?”. Já não via mais. No que eu olhei pra lá: “Cadê os caras?”. Aí eu não via mais ninguém ali, nem ninguém ali, e eu no meio do rio, e eu: “Meu Deus do céu, e agora? O que eu estou fazendo aqui? Que besteira foi essa que eu fiz?” Meu, e a correnteza me levava com tudo, e eu remava, nadava, nadava, nadava, e nada de chegar. E esses caras, eu não via mais ninguém. Eu queria chegar a uma margem, pelo menos chegar a uma margem. E nadei, e nadei, nadei. Aí foi essa história que eu digo: “Não adianta ‘tu nadar’ ali, não”. Eu dividi os “coisos” pra ir por mururé em mururé. Eu sei que depois de, sei lá, uns 40 minutos que eu estava nadando, eu consegui ver um pessoal andando, mas era caboclo da região, sabe nadando? E esse capacete eu jogava pra cima pra ver se alguém me via pra me salvar, e ninguém me salvava. E jogava pra cima, e nada, e nada, e nada. Eu sei que esse sufoco demorou mais ou menos ainda uma hora. Eu consegui chegar lá com uma hora e meia nadando, ou mais. E olha o sufoco, o rio, eu estava no meio do rio, eu tinha que tangenciar pra chegar aqui, porque a correnteza estava levando. Quando eu olhei, ele ia fazer uma curva, ou seja, se eu não toco aqui, eu ia voltar para o meio do rio. Meu, mas era um sufoco. Eu estava nadando a favor da correnteza, nessa hora eu comecei a nadar contra a correnteza e chegando pra margem. Eu nunca nadei tanto na minha vida. Graças a Deus aquelas aulas de natação durante tantos anos serviram. Porque eu nadei, cara, eu nadei muito, mas nadei muito. E o medo de chegar a uma margem que não fosse limpa, porque lá tem muito jacaré também. Pô, naquela época ali eu não sabia o que tinha, cara, eu remei demais com medo de piranha, jacaré, pirarara, sucuri. E eu, meu Deus, e toma remar, remar, remar, remei, remei, remei, nadei, nadei, nadei, quando eu cheguei à borda assim da lama, que é um barrancão assim, que eu peguei, eu digo: “Meu Deus do céu”. Pulei, caí aqui na coisa. Fiquei lá deitado, beijei o chão e tudo [risos].

 

P/2 – [risos].

 

R – Aí estou lá deitado, nunca esqueço essa cena que estava deitado, e tinham vários cavalos pastando, sabe? Cavalo bem bonito assim. E eles viram aquela coisa saindo do rio, aquele negócio, capacete azul, sei lá se eles vêem cor, mas foi aquela coisa estranha, eu deitei e fiquei assim. Quando eu olhei pra cima, parecia assim, um bocado de gelo, pois os cavalos não vinham olhar de perto o que era? E aí eu não me mexi, fiquei só olhando. Aí eles me olham assim, tipo, uns dois metros de mim eles chegaram, ficaram uns dois metros. Tudo olhando, e eu: “Meu Deus, são meus anjos que me salvaram!” Ao levantar, correram tudinho por lá. Até que levantei, fiquei cabreiro, aí fui lembrando onde estava a casa, que a casa era o mais... Olha, a casa aqui, o rio assim, a gente foi com a lancha pra lá, a correnteza ia trazer pra cá. O tanto que a gente andou foi tanto que foi praticamente o mesmo tanto que desceu o rio, então tinha que vir até aqui. E assim, pra chegar lá, primeiro que é tudo alagado, muito alagado e muito difícil de andar, então eu andava na beira do rio, bem coladinho. E muito búfalo também. E o búfalo lá é selvagem, cara. Se você for ver como são os búfalos lá, eles são perigosos. Aí eu, caraca, velho, morrendo de medo dos búfalos também, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, não tem onde escapar. Aí tome andar, andar, andar, andar, andar, andar, aí olhando para os búfalos, eu fui pegar um pau. Cara, o negócio é tão louco lá, tinha assim, um pedaço de pau assim, um tronco de madeira, que eu peguei, que eu apertei, o tronco fez vuuu, parecia uma esponja. Encharcou. Com o tempo os paus se dissolvem, cara. Falei: “Isso aqui não adianta, não.” Aí eu continuei com a prancha, aliás, vim andando, estava sem prancha assim pela beira, digo: “Qualquer coisa eu pulo pra dentro d’água. Se vierem ou não vierem.” Andei, andei, até que eu cheguei à casa. Quando cheguei à casa, não tinha ninguém, digo: “Cadê os caras?” Não tinha chegado nenhum. Espera, espera, espera, espera, espera, quando foi, sei lá, mais uns 20 minutos, eu escutei o barulho do motor, eu digo: “Olha os caras!” Aí eles chegaram. Conseguiram botar o motor pra funcionar, esse que vinha de cá só alagou, tinha perdido só a tampa do motor. Aí eu disse: “Cadê a galera? Cadê a galera? Rapaz, cadê o Lega?” “Pô, o Lega está para o outro lado.” “Como a gente faz? A gente tem que ir embora.” “E cadê a lancha?” “Rapaz, a lancha foi para o fundo. Sumiu a lancha”. Aliás, só um detalhe: por que eu não fiquei com o Lega? Eu acho que foi por causa disso. Porque o que sobrou da lancha foi só o tanque de gasolina, que ficou boiando, aí eu entreguei o tanque pra ele, com a prancha, ele a botou em cima e ficaram boiando ele, a prancha e o tanque. Aí a gente: “Pô, cadê o Lega?”. Eu digo: “Vivo ele deve estar. Deve estar boiando aí em algum canto!” Aí: “Pois vamos procurar”. Aí o pessoal entrou, ficou ali, aí saímos eu e o... Quem era o cara que estava comigo? Ai, meu Deus. Márcio. O Márcio Pinheiro, que era o piloto da outra lancha. Aí: “Márcio, vamos procurar o cara, meu irmão. Vamos procurar!” A gente saiu, e isso, na Amazônia toda hora chove, aí tome chuva, porque uma hora começou a chover, escureceu tudo, a gente procurou, procurou: “Lega, Lega, Lega”. Nada. Nada. Nada. Aí voltamos. Rapaz, e cadê esse cara? Aí ficamos por ali pensando na vida o que a gente ia fazer. Primeiro, que a gente tinha uma bronca com a polícia, que o barco da polícia a gente perdeu. A gente tinha perdido o barco. Cadê o barco? Quando a gente escuta um pô pôpô, tututututu: “Gente, o que é isso?” O Lega chegou do outro lado do rio, um caboclo da região o encontrou lá e o trouxe até aonde a gente estava, veio trazer. Eu digo: “Ô, Lega”. Dei um abraço, e estava tudo bem. E da lancha, sobrou o tanque de gasolina. Bom, bota todo mundo dentro dessa voadeira, que ainda bem que era maior, e fomos voltar, acabou a expedição. A máquina fotográfica foi pra dentro d’água, e a gente: “Será que tem um filme, cara? Será que a gente perdeu as fotos? Será que a gente perdeu as fotos e tal?” Porque a nossa preocupação, na verdade, era ao menos ganhar as fotos. Já que aconteceu aquilo tudo, e não tivesse um registro. Fomos embora. Chegou lá ao posto policial, que o Renê olhou, disse... Já botou a mão na cabeça: “Cadê minha lancha? Cadê minha lancha? Cadê minha lancha? Cadê minha lancha?”. Aí eu falei: “Pô, Renê, é o seguinte, aconteceu uma tragédia aí com a gente, infelizmente só sobrou isso.” Aí entreguei o tanque, ele: “Puxa, e agora, cara? O que a gente vai fazer?”. Eu disse: “Rapaz, eu não sei. Aconteceu, né.” Aí ele: “Não, é o seguinte, aconteceu”. Ele também não... Ele disse: “Rapaz, eu não posso fazer nada. O que a gente pode fazer é o seguinte, nós vamos agora até a Vila Progresso, lá a gente vai fazer um inquérito de polícia militar, vocês vão assinar, porque vocês assinaram aqui se responsabilizando pelo material, e lá a gente comunica por rádio com Macapá.” Aí fomos, teve lá os trâmites e tal, fizemos tudo direitinho, quando chegou a Macapá, a dona Sônia estava com a mão na cabeça: “Meu Deus, ainda bem que vocês estão vivos!” O que foi? Porque tinha acontecido um acidente nesse mesmo final de semana, ou nessa mesma época lá, e morreram várias pessoas porque o barco virou. E aqui em Fortaleza todo mundo pensou que eu tinha morrido nesse naufrágio. Por coincidência, a gente também naufragou. Aí ela: “Meu Deus! Não, vocês estão vivos? Está todo mundo bem?” Eu falei: “Olha, dona Sônia, aconteceu isso aqui com a lancha e tal.” Aí a gente foi lá ao batalhão, falamos com o capitão, e eu… ele disse: “Não, a gente assume.” Aí eles assumiram lá a lancha. No outro dia a Sônia botou a gente falou: “Vamos embora.” [risos]. Aí quando a gente foi ver as fotos, salvaram. Mesmo chamuscadas. Aí preparamos várias matérias pra revista, pra site, pra tudo. E mandamos o release com o relatório de tudo, ela ficou amarradona, apesar de a gente ter perdido, mas a gente conseguiu dar um bom retorno pra essa matéria, pra essa expedição. No ano seguinte a gente voltou lá. E já de novo... Aí já tinha mudado o governo, aí quando a gente chegou lá pra pedir esse apoio, disse: “Rapaz, é o seguinte, ano passado aconteceu um negócio aí, o pessoal pediu uma lancha, perderam”. Eu digo: “Foi mesmo, velho? Nem sabia” – eu falei. Eu sei que, no final das contas, o Noélio me chamou de novo, disse: “Marcelo, eu vou precisar de você aqui pra direção de prova.” E eu comecei a trabalhar como diretor de provas do circuito brasileiro de surfe na pororoca. E graças a Deus esse ano nós fizemos o 14º campeonato de surfe na pororoca, foi um sucesso. Fizemos o terceiro brasileiro de bodyboard, fizemos já vários encontros, e a coisa está andando. Hoje nós somos a Associação Brasileira de Surfe na Pororoca com bastantes histórias.

 

P/2 – Você organizava, mas você também participava do campeonato?

 

R – Não. Não. O primeiro evento que a gente fez lá, eu só fiz a quebra de recorde. Mas aí eu não podia mais participar, porque como eu sou da organização, como eu vou participar e organizar? Fica meio complicado. Tanto que quando o... Por exemplo, o Ícaro, que é meu filho, quando ele vai, eu já não participo da comissão técnica, eu fico só pra organizar barco, quem vai na lancha e tal. O julgamento eu não faço. Então hoje em dia eu faço é direção de prova mesmo. Eu sempre digo que o meu trabalho é o mais fácil de todos. Sabe qual é o meu trabalho? É assim, você bota os atletas e jogam. Se por acaso um tiver morrendo afogado, quem tem que ir buscar o cara sou eu. Sabe? Quando está na confusão, diz: “Bibita”. Então o meu trabalho é fazer o resgate dos atletas. É botar e resgatar os atletas. Soltar na hora certa, resgatar e fazer com que o campeonato aconteça durante aquele tempo. Porque a gente tem, por exemplo, oito baterias, o campeonato tem uma onda. Eu tenho que dividir aquela onda, tem que ter tempo de eu soltar o atleta, dá tempo para o juiz julgar. Por exemplo, a primeira fase acontece isso, mas eu tenho que recolher aqueles que caíram, saber quem ganhou a bateria, pra lá na frente eu colocá-lo de novo. Porque a bola não espera, então eu tenho que terminar o campeonato. Então a logística é muito louca, mas graças a Deus, a gente tem conseguido fazer isso até hoje sem nenhum problema.

 

P/1 – E qual é a média de participante no campeonato?

 

R – Devido a essas particularidades, são oito convidados. São oito atletas convidados. É homem a homem, bateria homem a homem. Então, por exemplo, eu solto dois aqui nessa onda, eles têm direito a surfar cinco minutos. Durante cinco minutos eles fazem a apresentação deles. Depois de cinco minutos, eu solto a outra bateria, aí eles têm cinco minutos. Depois de cinco minutos, eu solto a outra. Então são quatro baterias na primeira fase. São 20 minutos, então a onda tem que ter no mínimo 20 minutos. Imagina uma onda de 20 minutos. São 15 segundos aqui. No mar, lá, são 20 minutos. Então às vezes a onda dá aqui naquele canto, mas não tem essa continuidade toda, a gente tem que passar pra outra bancada, aí tem que passar pra outro dia. É complicado, mas se faz.

 

P/2 – Você me falou que você... Você foi vice-campeão brasileiro?

 

R – Isso.

 

P/2 – Isso aconteceu quando?

 

R – Ano passado. Ano passado eu... Assim, de pranchinha eu fui campeão cearense. E no pranchão eu estava no circuito brasileiro de pranchão. No pranchão eu fiquei em segundo na categoria dos másteres, que é acima de 45 anos. E aqui no Ceará, eu fui campeão cearense também nessa categoria, acima de 45. Mas eu passei por todas as categorias, desde... Na minha época não tinha mirim, nem iniciante, não, era todo mundo junto, que é 1983, que eu comecei a competir mesmo. Mas ainda fui campeão cearense amador algumas vezes, campeão do Nordeste três vezes com pranchinha, quatro vezes de pranchinha, três vezes de longboard, vice-campeão brasileiro duas vezes. Mas ano que vem eu vou ser campeão brasileiro, não se preocupa. Duas vezes na trave, está fogo, hein?

 

P/1 – Deixe-me retomar um pouco. Então você já estava trabalhando com o surfe.

 

R – Com o surfe.

 

P/1 – Estava no técnico da Maresia?

 

R – Não tem jeito. Meu, sempre eu estou trabalhando com surfe de algum jeito.

 

P/1 – Já era casado?

 

R – Já era casado.

 

P/1 – Já tinha filhos?

 

R – Já tinha filhos. Ah, pronto, agora que eu lembrei como eu ganhava o dinheiro. Eu fui funcionário da prefeitura, da Suape. Em 1985, eu fui funcionário da Suape, que era a época da Maria Luiza. Então eu trabalhava na prefeitura, na central de informação de alvará de funcionamento, dava entrada nos alvarás. Inclusive, o dono da Maresia trabalhava comigo lá na época. Pra você ver como era, em 1984, 1985, essa época eu trabalhava mesmo. Tinha emprego fixo, gente. Era. Assinava ponto. Depois também eu trabalhei no Beach Park, implantei uma escola de surfe lá, trabalhei três anos. Dentro do hotel, do Resort Beach Park. O Adriano Medeiros era o gerente social, e ele queria colocar uma escola de surfe. O Diego Azevedo, que é um parceiro meu, competia de kneeboard, foi campeão brasileiro, ele me chamou e disse: “Bibita, o Adriano me contatou, queria montar uma escola de surfe lá. E ‘tu não quer’ me ajudar e tal pra gente fazer o projeto?” A gente preparou o projeto, fomos lá e aí instituímos essa... Vamos dizer, concretizamos o projeto e ele contratou a gente pra trabalhar. Eu passei três anos trabalhando lá como instrutor de surfe. Eu era o gerente, o instrutor, e tudo lá no Beach Park. Mas também você não tinha feriado, não tinha nada, só tinha uma folga na terça-feira. Mas o Adriano sabia da história da pororoca, e quando era pororoca, ele: “Não, vai.” Quando era um campeonato, ele: “Vai.” Então também era meio meu patrocinador. Mas nas férias ele: “Não.” Nas férias era travado.

 

P/1 – E a mãe do Ícaro, como você a conheceu?

 

R – A mãe do Ícaro... A mãe era noiva e estava pra casar, aí o tio dela morava... Essa oficina que a gente tinha lá na... Que já era... Que era na João Cordeiro... Deixe-me ver como era nessa época. Era lá na casa do meu avô, lá atrás, então tinha uma vila, e o tio dela era um pintor, que era o Cirino, Daguiar Cirino. Ele fazia uns quadros bem de frente. A vida é cheia de coincidência, né? Então a porta dele era aqui, a porta da minha oficina era aqui. E ela vinha pra cá. E o cunhado dela, que era surfista, não tinha o que fazer, levou pra conhecer a oficina. Só que eu não sabia que ela namorava o irmão dele, só sabia que ela estava lá. Pô, eu vi aquela morena bonita e tal dando mole, digo: “Oi, boa tarde.” Daí a gente se conheceu e acabou que acabou o noivado, e quem casou fui eu. Foi isso aí.

 

P/1 – E como você conheceu o projeto aqui da cooperativa? Como você chegou aqui?

 

R – Como eu cheguei aqui... É o seguinte, como eu havia falado antes, o Valdir Freitas foi um cara que... Assim, eu conheço o Valdir desde a época que ele fazia cestinha. Ele surfava bem pra caramba, ainda surfa bem pra caramba, e ele trabalhava ali na Pereira Filgueiras, que é assim, eu moro na João Cordeiro, Pereira Filgueiras e Tenente Benévolo. Então a gente sempre da mesma área. Ele morava entre a minha casa e a casa da Giovana, a minha esposa. Então eu sempre passava por ali e ouvia, tal, ele estava trabalhando, fazendo umas cestinhas, fazendo uns artesanatos alucinantes de vime. E aí não sei qual foi, ele começou a fazer prancha por conta própria e me pediu uns toques a respeito de shape. Como a minha oficina era uma das mais estruturadas que tinha na região, ele pegou alguns toques, algumas coisas. E foi na época que eu estava acabando a minha fábrica. E algumas coisas, alguns materiais eu deixava com ele, inclusive a minha plaina, lixadeira que estava até hoje ali, eram as que ele herdou do meu material. Como eu não estava, digo: “Não, libera pra galera também.” Aí, ele me fez alguns convites algumas vezes. Primeiro porque como ele começou a fazer algumas pranchas e eu tinha alguns clientes antigos, esses clientes queriam que eu fizesse. Então, eu ia lá ao Valdir: “Seu Valdir, faz aqui.” Então eu ficava ali em cima: “Olha, eu quero assim, assim, assim, assado”. O Clésio sofria muito comigo, que ele dizia assim: “Porra, lá vem o Bibita.” Os caras se escondiam: “O cara é muito chato!” Mas é porque assim, eu puxava muito na qualidade pra poder entregar aquelas mesmas pranchas que eu entregava antes. Por exemplo, ficava uma bolhinha e eles ficavam muito puto, que eu falava assim... Tinha às vezes uma bolhinha desse tamanho, eu falava: “Meu irmão, isso aqui cabe um fusca aqui dentro, cara!” Aí eles punham o nome do fusca. A bolha era desse tamanho, mas fazia diferença no acabamento. Eu dizia: “Meu irmão, aqui cabe um fusca, não está vendo, não? E esse aqui cabe uma Kombi!” Eles ficavam loucos. Mas ficava sempre naquela, supervisionando e tal, e tal. E ele viu que aquela minha chatice também tinha um lado bacana, que era da qualidade, tal. Aí ele me convidou primeiro pra ministrar um curso de shape lá pra escolinha da ALESP, que é do Pirambu. Aí eu fui lá, preparei o material de shape, tal, como seria pra passar didaticamente pra molecada, que seria mais fácil. Aí fiz essa parte, fiz esse curso. Depois, o Fábio Galvão, que é uma pessoa muito importante pra essa associação e pra cá também, que foi um dos caras que articulou as coisas, me chamou de novo e disse: “Olha, Marcelo, a gente tem a Escolinha do Mero, que é o Marquinho, faz parte, tal, e eu gostaria que você ministrasse um curso de shape lá para o pessoal. É um projeto do governo do estado, e tem... você tem que trazer tudo bem certinho, o cronograma, a carga horária, blá-blá-blá, tudo certinho, o seu planejamento de aula.” Eu digo: “Beleza.” E aí fiz. Foram 100 horas/aula muito bem aproveitadas. Pra mim foi muito bom também, porque eu me envolvi mais com a comunidade, que eu não conhecia bem a galera aqui da Praia do Mero, que é entre a Leste e aonde a gente está, que também faz parte com o Nonato e o Marquinho, como eu havia falado. E aí, foi rolando esse envolvimento. Quando eu soube do projeto, o Valdir disse: “Porra, Bibita, você não gostaria de participar com a gente? Porque eu acho que você tem alguma contribuição pra dar para o projeto, na parte assim, o teu conhecimento.” Eu tenho um conhecimento muito bom com o pessoal da mídia. Eu faço eventos, então como eu faço eventos, eu tenho uma assessoria de imprensa já bem legal, que é o Jorge Noronha que faz todo o trabalho. E devido a esse trabalho de muitos anos, eu tenho conhecimento nas fábricas, tenho um bom relacionamento com todos os shapers do Ceará, com todos os fornecedores, conheço o dono da Teccel, que já foi meu patrocinador também. Então por essas facilidades, talvez por isso também, pela amizade que eu tenho com ele, ele disse: “Pô, cara, não quer vir participar?” Isso há quase três anos, onde muitas pessoas aqui da própria região não acreditaram e também não quiseram, porque você pensa que não, mas nós... Eu vou dizer, investi muito tempo aqui de cursos, de reuniões, de paciência com a galera, eles terem paciência comigo, eu ter paciência com eles, a gente aprender a conviver com pessoas que eu nunca tinha visto na minha vida, pessoas muito diferentes, muito diferentes mesmo. E você sabe que aqui todo mundo é dono. Cooperativismo é isso, todo mundo é dono. Então a gente tem que se adequar à maneira daquela pessoa, e às vezes, eu achava que não era muito correto e não sei o quê, porque eu... Na verdade, hoje eu... Assim, que eu fugi um pouquinho o assunto, de como chegou, mas... Eu vou voltar pra lá, tá? Depois eu falo sobre isso daí. Tá?

 

P/2 – Não, tudo bem. Pode ir.

 

P/1 – Pode.

 

R – Não, então, hoje eu vejo o que é o tal do cooperativismo. Depois que entrou, depois desses dois anos e pouco que a gente está aí, uma das coisas que eu aprendi mais, cara, é que a gente tem que ser muito maleável, tem que ser bambu verde. Você tem estar com vento para um lado, para o outro, mas você não pode perder a sua rigidez, a sua essência. Entendeu? O bambu é forte, mas ele é maleável, e isso é o mais importante. O que a gente tem aprendido aqui, eu tenho aprendido assim, ser um carvalho é muito legal, mas ser um bambu é eu acho que é mais, porque o carvalho é mais parado, o bambu você se balança, você se adapta, e aí você aprende, você aprende muito. Por exemplo, se tem uma árvore ali na frente que está cobrindo o meu sol, eu consigo fazer a curva. O carvalho vem e estoura; ele não. Então é isso que a gente aprende aqui. E eu vejo também assim, uma oportunidade de vida muito grande. Essa minha oportunidade... Aquela minha fábrica, que eu sempre quis que ela crescesse, que ela se desenvolvesse, mas era eu só que tinha que estar correndo atrás de tudo, a responsabilidade era minha, o investimento era meu, era eu que tinha que estar com tudo, eu não tinha com quem dividir essa responsabilidade. E pra eu chegar a ser profissional, não assim... Profissional no metier, no assunto prancha, eu acho que cheguei. Mas na parte organizacional, na parte legal, eu não conseguia, era muito difícil, eu tinha que ter mais apoio. Às vezes, eu até queria colocar a culpa no pai, eu dizia: “Pô, pai, se tu viesse aqui pra dentro, você já ia me ajudar.”. Isso era com o meu pai, que era o meu irmão, que eu sempre considerei meu pai, e considero até hoje, um cara muito legal, um cara organizado, que a única coisa que eu não consegui herdar dele foi essa organização. Meu Deus, foi da minha mãe, mamãe. Eu disse pra você que a minha mãe é maior barato. Aí quando chegando esse lado aqui, nós temos pessoas diferentes, e tem pessoas que têm essa organização que eu não tenho. Tem uns caras “cricri”, o que eu já não sou, que eu sou meio aberto com as coisas, mas também sou “cricri” noutras coisas. Lembram-se do fusca? Mas tem uns caras que... Então essa mescla dessas pessoas talvez que venham a dar o tempero pra dar certo, sabe? Eu acho que assim, é um novo experimento na minha vida, que eu sempre falo que se eu experimentar, eu gosto de experimentar as coisas, mas esse aqui talvez seja o que mais eu venha a interagir e me dá um retorno de vida profissional. Que tudo que eu fiz aí fora pode ser que eu tenha um lugar pra eu usar, de uma vez só. O próprio inglês que eu aprendi, a escultura. Porque quando você trabalha com escultura... no que eu trabalhava, eu aproveitava o material, então tem a parte social. Na parte da escolinha, como eu trabalhei com escolinha, eu tenho alguma coisa pra passar pra uma galera. Então todos os vetores que eu vivi, eles convergem num ponto só, que seria esse. E eu acho que aqui vai ser muito legal, e a Coopsurf é essa junção.

 

P/1 – Então você participou desde o início...

 

R – Isso.

 

P/1 – Da construção, participou das reuniões?

 

R – Isso.

 

P/1 – Entendeu, viu como era o projeto, conheceu pessoas… O que... [corte no áudio].

 

P/2 – Então, Marcelo, pelo que você nos contou, é assim, você foi convidado a participar, tal, mas você sabe como aconteceu a estruturação do projeto em conjunto, como isso se deu, quem foi convidado, como entrou a Camargo Corrêa, como entrou o BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Social], como entraram esses parceiros? Então, conta um pouquinho pra gente como se estruturou o projeto pra ser construído de uma forma conjunta.

 

R – Bom, é o seguinte, eu vou dar a minha versão, tá? Essa é a versão... o que eu entendo que aconteceu. Todas as obras que são feitas a nível público e que são feitas por uma entidade privada, elas têm um dever social. Nem todos fazem isso, mas aquelas que têm realmente comprometimento com o que fazem, elas têm a responsabilidade social. E nisso, que é essa Construtora, que é a Camargo Corrêa, ela veio fazer a Vila do Mar e pra dar essa resposta dentro... Se eu não me engano, eles têm um Instituto, aliás, se eu não me engano não, eles têm um Instituto, esse Instituto se preocupa justamente com essa responsabilidade social, que seria o retorno pra comunidade do que eles ganharam. Então eles fizeram um levantamento, isso foi bem legal, porque não foi uma coisa que foi imposta, esse: “Eu quero aquilo.”.Isso aqui não aconteceu porque a Camargo Corrêa quis, é porque a Camargo Corrêa fez um levantamento com todas as lideranças comunitárias da região do Grande Pirambu, e nessa reunião ela encara uma atividade que poderia vir a transformar de uma forma legal o bairro. O que seria? Então indicaram o surfe. Essa é a história que eu sei que aconteceu. Quem bancaria seria o Banco Nacional do Desenvolvimento Social e Camargo Corrêa junto com a Marquise, alguma coisa dessa. Bom, e aí foi feito esse levantamento, tal, e passaram pra duas entidades aqui da região: o Mero, que é aquela escolinha lá que foi com o Nonato; e a outra da ALESP, que era o Valdir Freitas. Eles dois disseram: “Olha, são 21 pessoas pra se montar uma cooperativa. Vocês vão convidar a galera da área.” Então foram convidados todos os fabricantes, pequenos fabricantes da região. Todos que trabalhavam foram convidados, mas por algum motivo alguns não acreditaram que realmente fosse verdade. Quem ia acreditar? Pô, os caras vão te dar uma fábrica de prancha, vão te dar oportunidade de vida, “tu vai” viver bem se tu participar disso daí. Não é todo mundo que acredita, não. É difícil você acreditar. Então muitos simplesmente: “Não.” Outros entraram, participaram das reuniões e se chatearam porque tinham que estar na reunião, porque eles tinham que discutir a vida futura. Porque tudo na vida tem um esforço, cara, nada é de graça. E eles não entendiam isso e achavam que tinha… vim pra turma. Então os caras não queriam nem... Assim, alguns não queriam nem se sentar ali, escutar como seria a coisa. Porque demanda, é isso que eu estou dizendo. De certa forma, quem não entendesse o projeto, ficava: “Pô, meu irmão, é muito difícil.” Sabe? Porque todo dia tinha uma reunião. Nós tínhamos que fazer plano estratégico, plano de trabalho, plano de não sei o quê, como seria aquilo, como a gente ia montar, quem queria pra qual lugar. Olha, você tem que fazer um curso de convivência ali. Ia para o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], ia para o Sescoop [Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo], às vezes, o cara não tinha grana pra ir, tinha que trabalhar pra poder sobreviver. São dois anos e meio, não é um dia. Então muitos desistiram pelo caminho. E aí, na verdade, eu não entrei no início do início, por isso que eu falo um pouquinho na dúvida. Eu entrei já com dois meses que já estavam acontecendo essas reuniões. Por quê? Porque muita gente desistia e a gente não conseguia formar o quadro. E aí, por acaso, eu estava prestando um serviço lá na ALESP, que era de shape, e aí o Valdir disse: “Marcelo, puxa cara, a gente tem que completar o quadro e você é um cara que poderia somar muito. Você tem tempo?” Eu digo: “Cara, tempo é meu sempre. Deixa comigo. É legal?” Ele disse: “Porra, Marcelo, é legal!” Porque eu já vi outros projetos, e nos outros projetos eu não sentia muito a segurança, ou que era uma coisa... Apesar de que funcionaram, mas não funcionaram... Mas aí quando ele me mostrou as credenciais, que ele disse: “Olha, quem está aqui é este, este, este, este e este. Dizendo de novo, Camargo Corrêa, BNDES, Sebrae e Sescoop”. Eu falei: “Ah, meu amigo, essa árvore aí dá fruto. Essa árvore aí dá sombra. Esse aí não é brincadeira, não. Isso é sério.” Apesar de eu ser um brincalhão, não sei o quê, mas eu sou um pai de família, cara, eu tenho três filhos, eu tenho minhas contas pra pagar, entendeu? Então eu não vou trabalhando também... Não tenho mais tempo pra brincar, porque eu tenho que trabalhar e sério, numa coisa que seja séria, que realmente dê um... Eu digo: “Estou dentro, cara. Estou dentro se for pra ajudar”. E aí a gente começou a fazer um trabalho mesmo de conscientização de quem estava dentro, de saber o que era o projeto. E aí fui caminhando com todo mundo. Algumas horas também, não vou dizer que fui 100% em todas as reuniões, não fui porque tinha outras coisas pra fazer. Mas quando foi agora já com um ano pra cá, um ano e meio pra cá, aí eu digo: “Cara, é pra dentro, porque pra andar, a gente tem que estar junto.” Eu vi que o barco tinha que todo mundo remar. A gente já viu que... Eu cheguei aqui, tinha um terreno. Mas o cara disse: “É esse terreno.” Quando eu vi o terreno, eu digo: “Opa!” Cara, agora o bicho pegou, porque a gente saiu do mundo das ideias para o mundo... Aquela história do Platão, o mundo das ideias, o mundo real. Agora realmente a gente vai pra ver o que a coisa acontece. Então começou e todo mundo... Aí eu: “Estou dentro”.

 

P/2 – Marcelo, me fala uma coisa, você falou que no começo foram eleitas algumas associações da comunidade...

 

R – Isso.

 

P/2 – Pra tocar o projeto. Quem eram essas lideranças aqui?

 

R – As lideranças eram da Associação da Leste/Oeste e a da Associação do Mero. Foram essas duas que foram as... Porque assim, o que tem que ter? Uma associação atuante. Existiam alguns núcleos que não eram atuantes, que não eram legais, não estavam legalizados, não tinham, vamos dizer, uma sede, não tinham uma atividade constante. Entendeu? Que faziam alguma coisa. Por exemplo, o César, o César faz parte da nossa cooperativa, ele tinha de fato, mas não tinha de direito. Pronto, vamos falar assim legalmente. Ele trabalhava de fato, mas não trabalhava de direito, porque ele tinha a escolinha dele, aliás, tem até hoje, e somente essas duas eram legalizadas, tinham todos os requisitos, pré-requisitos. Então por isso eles dois ficaram encarregados de chamar as outras entidades. Tanto que nós temos desde o começo ao fim do Pirambu, que a Leste/Oeste lá é o começo, e o Cesinha é a última, a última escola. Entendeu? Então vieram todos. Todos foram convocados. Isso é o que aconteceu.

 

P/2 – E me diz uma coisa, nessas discussões participavam as pessoas que foram convidadas, ou seja, essas 21 pessoas que formaram a comunidade, o pessoal da Camargo Corrêa participava, da construtora, do Instituto Camargo Corrêa, o pessoal do BNDES, e quem mais eles acoplaram? Que outros parceiros eles trouxeram pra ajudar a colocar o projeto em pé? 

 

R – Bom, a gente tem que ver em alguns ângulos, tá? Por exemplo, na parte econômica, isso aí fica por parte mesmo do BNDES e o Instituto Camargo Corrêa, que nos apoiam na distribuição ou alocação dos recursos. Eles que alocam, tanto que a gente trabalha direto com o cívico, que é a Fabiana e o... O Sérgio faz a parte de projetos, e o Gustavo Gurgel que é o nosso... É o cara ali de frente com a gente direto. Eles que fazem essa parte pra gente também não estar desperdiçando, não haver desperdício dos recursos. O Sebrae está dando as capacitações na parte de organização, no geral, administrativo. O Sescoop trabalha na parte do cooperativismo, porque eu acho que essa relação humana é uma das mais complicadas e complexas. Porque as outras são números, essa é humana. Então essa daí, assim, eu queria até falar aqui da Lili, que foi o último curso, o último curso, que, pô, ela botou a cereja no bolo, ela dava: “Olha, você preste atenção...” Mas era engraçado, porque todo mundo já tinha escutado isso, a gente já sabia que tinha que... E chegou ela meio mãezona assim, disse: “Olha, não é por aí.” Deu uns puxões de orelha, que quando a gente saiu de lá, saiu todo mundo: “Puxa!”. 

 

P/1 – Qual era o curso?

 

R – O curso do Sebrae, qual foi o curso? Foi convivência, não foi? Cara foi muito legal, mas muito legal mesmo. E a gente não conseguiu fazer o exercício. Porque o exercício era assim, eram duas turmas, a gente ia montar uma empresa. Cada um ia montar uma empresa, uma equipe ia montar uma empresa, outra equipe ia montar uma empresa. E acabou que uma ficou meio adiantada, a outra não ficou, não sei o quê, mas a gente não lembrou que se a gente tivesse feito um negócio feito entre nós, por mais que essa aqui chegou a 95%, que foi a minha, papo sério, o outro chegou a 60%, mas nenhum dos dois chegou a 100%. Então ninguém ganhou, pô. Todo mundo perdeu. Então essa última foi assim, uma tapa de pelica em todo mundo. Pô, daí não adianta, cara. Ou todo mundo se ajuda, ou vai todo mundo para o brejo. E foi muito legal, sabe? Que no final a gente começou assim, um a olhar para o outro. Porque existem desgastes durante esse processo, cada um tem sua personalidade, tal, e a gente desgastava um pouco, porque pra conviver. Pô, casou, você se desgasta com a sua esposa, você se desgasta com seu irmão, imagina com pessoas que você não tem nenhum relacionamento assim mais... Então foi muito legal. E engraçado, esse curso foi no Sebrae, mas o Sescoop já vinha batendo, que o Sescoop é justamente da parte cooperativa, ele vinha batendo bastante. Aí o que a gente ainda procura? Os outros parceiros, voltando para o assunto da parceria. Nós precisamos de alguns parceiros técnicos especializados no produto prancha de surfe, que está havendo ainda um problema com a gente, não sei se interessa pra isso, mas, por exemplo, a gente tem uma máquina, ela é uma máquina que foi caríssima, mas a gente comprou a máquina e o técnico da máquina veio, mas o software a gente não... Hoje, quando vocês foram me ver ali, eu estou estudando pelo manual. Ainda bem que como eu tenho conhecimento do shape, eu já sei o que é, não vai ter muito, mas a gente precisava de uma pessoa, um facilitador, vamos dizer, um facilitador naquilo ali. Técnica em laminação de epóxi, que é outra... A gente faz prancha, essas aqui todas são de poliéster, que vocês estão vendo aqui atrás, mas tem pranchas feitas de isopor, que é EPS [Poliestireno Expandido]. O revestimento do EPS é diferente desse, esse aqui é resina poliéster, a outra é epóxi. Então a gente não tem um especialista aqui. Até porque o nosso bairro não faz prancha de EPS, porque a prancha de EPS é muito cara. Enquanto uma prancha dessa custa R$ 600, o EPS vai pra R$ 900. Então a gente não ia ter, pelo menos ele não tinha ninguém pra comprar EPS. Então por que eu vou me especializar em EPS se eu não trabalho com EPS? Quem trabalha com EPS é o Dias. Lembram-se do Dias, que eu falava que era companheiro lá, ele faz prancha de EPS. O César da Flora faz EPS, o Cléber Lobão trabalha com EPS, mas a gente aqui não trabalhava. Então a gente precisa de uma qualificação maior, uma capacitação. Aí entra aquela história dos conhecimentos. Eu conheço o Tim, que é o melhor de todos laminadores, eu cheguei lá pra ele: “Olha, a gente quer que você vá lá laminar.” Ele: “Não, Marcelo, está na boa, eu vou lá de boa.” Então ele cobrou um valor. Só que o Sebrae não tem como pagar a capacitação, porque não está dentro dos quadros dele. Aí fica complicado. É assim, eles estão capacitando a gente, mas não conseguem capacitar o cerne da questão. Entendeu? Ou pelo menos uma parte dela, porque a administrativa é importantíssima. Bom, isso aí é uma das coisas que a gente faz. Então a gente tem que ter essas outras pessoas que foram contatadas pra pintura, pra essas coisas. Outra, o pessoal da comunidade... É Femocop [Federação do Movimento Comunitário do Pirambu], né, o nome, Marcos? É Femocop, seu José Preto. Tem algumas lideranças aqui do bairro que a gente também tem procurado. Por quê? Porque se sabe que um empreendimento dessa envergadura aqui, todo mundo fica com os olhos em cima, quer saber o que veio, como veio, o que de bom vai trazer. Então, e a gente está fazendo esse contato com esse pessoal pra justamente colocar escolinha pra funcionar aqui, uma nova escola, pra gente poder dar o nosso retorno também, porque nós como empresários, que nós nos transformamos em empresários, cooperados, mas empresários, porque de qualquer forma, isso aqui é promoção de renda para as famílias que estão trabalhando. A gente também, como a Camargo Corrêa, teve uma responsabilidade social. Nós também temos que ter uma responsabilidade social. Não é isso? Então, a gente está já trabalhando. Eu tenho contato com o Élcio Batista, que foi meu professor da universidade, professor de Sociologia, hoje é o secretário de juventude da prefeitura, eu tive com ele, inclusive ele veio ontem aqui pra inauguração. Aí eu falei com o Élcio: “Élcio, puxa, me ajuda, cara. O que a gente pode fazer?” Ele disse: “Marcelo, você chegou na hora certa.” Está vendo como é bom. Eu digo: “Qual foi?”. Ele disse: “É o seguinte, a gente está com alguns projetos e dentro desses projetos a gente vai otimizar algumas escolas que estão precisando, que é a da Praia do Futuro, que é a Mais Surf, não sei o quê. E vocês lá?” Eu digo: “Não, a gente está do zero”. Ele: “Não, não tem problema. Veja lá o que vocês precisam, porque além da estrutura física que a gente pode vir ajudá-lo, nós temos o Cuca, que fica a um quilômetro daqui e o Cuca está totalmente à disposição de vocês. Então vocês podem dar aulas de natação lá, nós temos um auditório pra 200 pessoas, sala de cinema, tudo de audiovisual nós temos lá.” Então nós ganhamos um grande parceiro. E aí a escolinha já vai pra gente poder passar pra comunidade: “Olha, gente, os seus filhos estão aqui, estão seguros e a gente vai levar pra lugares seguros”. Isso que está acontecendo em nível de parceria.

 

P/2 – Deixe-me perguntar, a estruturação do projeto, ela tinha, em contrapartida de vocês, fazer essa responsabilidade social junto à comunidade?

 

R – Isso.

 

P/2 – Isso era um pressuposto, né?

 

R – Isso.

 

P/2 – E me diz uma coisa, Marcelo, você olhando o projeto, depois de três anos aí, em termos daquela coisa da concepção, da estruturação do projeto, e agora a execução dele, o que trouxe esse projeto em termos de benefício para a comunidade?

 

R – Para a comunidade. Bom, eu não gosto de me chamar de rauli. O rauli é aquele cara que não é o pico e tá. Certo? Eu não me considero rauli, porque como eu falei, quando eu era moleque eu tinha uma casa aqui do outro lado da Barra, que é a um quilômetro daqui, eu não sou rauli, tá? Ensinei muita gente a pegar onda, inclusive um profissional do surfe chamado Dunga Neto, que é dos maiores surfistas aqui do Ceará, aprendeu comigo aqui do lado. Tive essa galera, trabalhei com o Mero, trabalhei com o outro, então eu não me considero rauli. Mas, vamos dizer, a comunidade se beneficia quando seu... Se você beijar meu filho, você já me beijou. Aqui a gente fala: quem beija meu filho, me beija. Então se a Camargo Corrêa beijou os moradores da região como o César, como o Valdir, como o Marquinho, como o Nonato, como o Lucinho, como o seu Régis, como o Clésio, ou seja, praticamente 99% deles, a comunidade ganha, porque na hora que um César está dentro desse projeto, a família dele ganha e todos os agregados dele ganham. Os alunos dele... Que ele é um multiplicador, ele tem 20 alunos. Aqueles 20 alunos vão se beneficiar. Esses 20 alunos têm 20 mães que estão com menos problemas, porque ele tá tomando conta daquelas crianças naquele momento. Ele está evitando que as crianças vão cair na droga. Está vindo para o surfe, porque o surfe naquela época você tinha que estar no meio do bagulhinho pra você estar na moda. Hoje, a moda é não usar nada. Graças a Deus o surfe hoje não tem droga. Entendeu? Poder ter, mas os competidores, a galera que realmente é envolvida com o surfe não tem. Eu vou com a delegação cearense daqui pra Pernambuco, pra Bahia, pra algum canto, que a gente vai no ônibus, cara, se o cara pensar em botar um back lá, não sei o quê, os caras piram, a molecada, todo mundo é sério. Sabe? Nós conseguimos mudar essa conduta. Não interessa pra gente isso. Desde a época de meio de 1990, eu participava... Não. Final dos anos 1980, que eu participava do Circuito Abrasa... Espere aí, desculpa. Não, no final dos anos 1990. É que são muitas décadas! No final dos anos 1990 nós tínhamos a Abrasa, Associação Brasileira de Surfe Amador, que o Marcos Conde era o presidente, o Vitinho Othman, esses caras, eles vieram com a história de Olimpíadas. Foi a melhor coisa do mundo, porque a gente sempre quis levar o surfe para as Olimpíadas. Ainda não conseguimos, mas naquela época botaram a semente das Olimpíadas e começaram a fazer o antidoping, entendeu? Então por conta desse antidoping, alguns atletas foram pegos no antidoping. E no que ele foi pego, ele não pôde viajar para os Estados Unidos, pra França. E isso, os outros vendo diziam: “Caraca, velho, vai que eu ganho a vaga e não posso ir.” Então os melhores não se meteram mais com droga, com maconha, com nada. E se os melhores não estão usando, os outros vão dizer: “Meu irmão, aquele cara é o top, se ele não usa, por que eu vou usar?”. Porque quem dava o mau exemplo era sempre o top. A galera doidona, os melhores eram os doidões. E hoje em dia não tem. Se você vir o Mineirinho, que é o líder do circuito mundial hoje em dia, que é patrocinado por uma marca cearense, sabe? O cara, meu irmão, é um exemplo. O moleque nunca botou um cigarro na boca, não precisou daquilo pra mostrar que era fera. Naquele passado distante, você tinha que tê-lo na boca, porque senão você não tinha vaga na molecada. E a gente conseguiu mudar. E isso, voltando para o assunto César, é isso que o surfe vai trazer pra essas famílias, vai livrar um bocado deles. Por quê? Porque a gente está aqui em cima do controle. Se ele usa, ou não usa, porque você sabe que essa é uma região de risco, aqui a gente mora numa área pesada. E eu acho que o surfe traz algumas coisas de cidadania, até porque cada escola a gente exige que ele esteja matriculado, a gente exige. E agora a galera tem aquela, tem que começar a pegar na mão e ver lá na escola se realmente está fazendo. E tem as palestras, que é uma coisa que eu sempre quis colocar. Eu falo porque eu usei, sabe, cara? Eu já fui muito louco. Graças a Deus eu não tomo nem uma cerveja. Se você for… eu não tomo nem uma cerveja. Tomava, mas chegou uma hora que eu disse: “Também, olha, meu irmão, nem cerveja eu quero.” Outro dia eu ganhei um campeonato, o Pena estava do meu lado, ele botou champanhe assim na minha boca, e puff. Aquela que não adianta nem tomar um gole. A raiva foi tão grande daquilo ali que eu digo: “Meu irmão, nem isso aí eu...”. Até confundi a cabeça, quando eu falei dessa história, me lembrar essas coisas. Desconcentrei [risos].

 

P/2 – [risos].

 

R – É muito complicado a gente falar assim da vida da gente.

 

P/2 – Agora, deixe-me te falar uma coisa.

 

R – Vai, passa. Sim, lembrei, lembrei. É por causa do neurônio, está vendo o que dá? Voltando, é uma das coisas que eu quero muito. Por que eu falei do cinema e do Cuca? A parte, quando eu falei do cinema, é porque uma das coisas que eu queria levar a criançada é o seguinte, menino nenhum gosta de estar falando: “Olha, menino, fumar maconha faz mal. Cheirar cocaína faz não sei o quê, isso faz mal”. Isso não adianta. Não adianta. Agora, se eu pegar um surfista profissional, que seja querido por todos, que conte uma história legal, levo-o lá no Cuca, o bota em cima do... Mostra que ele é uma pessoa de valor, que ele é um cara bacana, ele dá uma palestra de 15 minutos, mais de 15 já enche o saco, já enche o saco. E quando terminar, eu passo um filme maravilhoso de surfe, ele vai associar aquela imagem boa do cara, aquele momento de prazer, de uma maneira pró-ativa. É bem legal. E isso a gente quer colocar. Porque o moleque vai sair dali e o cara vai dando toque. Aquele que é por osmose, entra que você nem... Vem naturalmente. Pronto. Era isso.

 

P/2 – Deixe-me te perguntar uma coisa. Você falou da questão de como você vê como o projeto pôde trazer melhoria pra comunidade. Fora essa visão, o projeto trouxe outro tipo de melhoria, por exemplo, posto de saúde, outras escolas, ela trouxe uma melhoria da qualidade de vida?

 

R – Bom, eu não posso te falar do geral, mas o que nós, a Coopsurf, traz de melhoria? Primeiro, a valorização do espaço físico. De que forma? A sociabilidade maior. Nós estamos aí com projetos de limpeza da praia, então essa praia que era uma praia, vamos dizer, um pouco mais abandonada, ela vai ter um fluxo melhor. Nós vamos brigar agora pelo... É uma rede pluvial. Eu não gosto de... Às vezes a palavra pode ferir. Mas é uma rede pluvial que agora nesse momento ela se torna esgoto. Porque ela vem aqui e joga no mar, mas existem muitos esgotos clandestinos, caem dentro e poluem a praia. Como? A gente está nesse trabalho de melhoria da área, o que nós vamos fazer? Com esses alunos nós pretendemos fazer aquele trabalho de formiguinha, conscientizando, fazer algumas ações ali na frente e levando a molecada. Porque pra eu chegar lá, o cara não me conhece, ele pode ficar achando ruim, mas se é uma criança entregando um panfleto explicando a importância daquilo ali, que a gente não vai poluir, entendeu? Então esse trabalho é o trabalho que a gente vai fazer. Esse é o impacto que a gente precisa trazer positivamente pra região. As demais formas seriam: integração, por exemplo, aqui do lado tem o Instituto Lourdes Viana. Que eles já querem fazer algumas parcerias com a gente. Tem a Comunidade Quatro Varas. Então a gente pode trabalhar com capacitação, por exemplo, eu trabalho com shape, eu posso capacitar aqueles moleques ali. Eu trabalho com fibra de vidro, que eu já ministrei curso de escultura, mas o curso de escultura é uma técnica de fibra de vidro. Eu sempre disse, eu nunca ensinei ninguém a ser artista, eu ensinei a técnica de trabalhar com aquele material. Então a gente pode passar a técnica de conserto de prancha ali, conserto de buggy, conserto de cadeira, profissionalizar as outras comunidades. Então, nesse ponto, lógico que a gente está começando aqui, mas nós estamos abertos e temos essa gama de coisas a ofertar. Nossa cesta está cheia, a gente tem muita coisa pra ofertar e isso vai realmente interagir com a comunidade nesse aspecto.

 

P/2 – Você olhando para o projeto, qual a importância dessa parceria que vocês tiveram com a Camargo Corrêa?

 

R – A Camargo Corrêa, ontem eu fiz um discurso ali na abertura, e aí eu falei assim... bem, que o dia tinha amanhecido bem cinza, pra alguns poderia ser triste etc., mas que pra nós, cooperados, ia ser um dia de sol radiante, tal, porque a chuva vinha carregada de nuvens de esperança. Sabe? Que seriam as nuvens da Camargo Corrêa, que vieram pra encher o sertão da gente, que estava seco. Que os ventos do BNDES empurravam, impulsionavam o nosso negócio. Que o Sebrae ia nos ajudar a trabalhar a terra. E que o Sescoop ia dizer que o lavrador tinha que entender o outro. Então a gente fez uma parada bem... E é mais ou menos isso, a Camargo Corrêa veio como uma nuvem de coisas boas, uma chuva que precipitou sobre as cabeças e as almas da gente pra lavar a nossa vida, pra gente alavancar a vida de todo mundo. Então assim, a gente tem uma gratidão eterna, eu posso dizer isso. Que cada um de nós tem que agradecer sempre esse trabalho, esse auxílio que a Camargo Corrêa deu pra gente, para as nossas vidas. A importância, sei lá, se você tiver noção do mundo de algumas pessoas aqui antes desse projeto e depois desse projeto, vocês vão ver que daqui a cinco anos vocês vão dizer: “Puxa, gente, foi uma mãe que chegou à vida da gente, outra dona Náurea!” Quem escutou a história toda sabe da dona Náurea, que ela é minha avó.

 

P/2 – Deixe-me te falar uma coisa, pra ir finalizando... eu queria falar pra você, quais são suas expectativas para o futuro, quanto ao futuro?

 

R – Expectativa de futuro. Eu sou um pouco ambicioso, sabe? Como eu falei, eu não gosto de entrar só pra participar, eu gosto que o meu time ganhe mesmo. Eu vejo que a gente tem o melhor gramado, a gente tem a maior plateia, nós temos excelentes jogadores, eu não vou dizer os melhores, mas nós temos excelentes jogadores, temos um banco de reserva pronto pra aprender, e alguns bons técnicos. Fora isso, nós temos uma diretoria, fazendo aqui uma análise assim, nós temos uma diretoria que está ali de olho no que a gente está fazendo, pra gente não dar mole, porque por mais que a gente esteja... Quando a gente está no campo é uma coisa, quem está de fora está vendo melhor. Então nós temos toda a estrutura pra gente chegar lá. E chegar lá que eu digo é chegar ao topo, é não ser só Ceará, não ser só Fortaleza, nem Nordeste, é pra ser esse Brasil. E, se Deus quiser, daqui a cinco anos a gente vai exportar as pranchas da Coopsurf para o mundo inteiro. É isso aí. Como diz na Amazônia, é uma coisa que sai coração, que é tudo de bom que tem, sai do coração, entra no tubão e diz “auerauara”. É isso aí.

 

P/2 – Pra finalizar...

 

R – Agora é? Eu já finalizei com isso!

 

P/2 – Quais são as coisas...

 

R – Agora que está finalizando? [risos].

 

P/2 – Eu queria que você falasse um pouco como foi contar a sua história pra gente.

 

R – Como foi contar a minha história pra vocês... Eu digo uma coisa, foi muito legal, mas também mexeu um pouco nas particularidades e tal. Lógico que a gente escondeu umas aqui, porque também não dá. Mas ali foi só uma pontinha do iceberg. É. Mas foi muito legal. Eu sempre tive vontade assim. Eu acho que é antológico, todo mundo quer contar um pouco do que se viveu, aquele saudosismo, mas também é registrar um pouco do que a gente fez na vida. Eu fico agradecido. Eu não me sinto invadido, eu me sinto agradecido por vocês terem me dado essa oportunidade de contar um pouco do que é o Marcelo Bibita, como ele viveu, de onde ele veio, o que o... Ei, gente, espera aí que eu esqueci a Raiana Lopes, a minha filha, linda do coração, skatista, viu? Não pode esquecer o nome dela, não. Ave, minha nossa senhora, a Raiana Lopes. Obrigado, gente. Falou.

 

P/1 – Agora pode terminar.

 

R – Agora pode. Eita, eu me esquecer da “momô”, ela ia me matar, meu Deus, olha…

 

P/2 – Ela está com quantos anos?

 

R – Tem 17.

 

P/2 – Tem 17?

 

R – É. Deus me livre me esquecer do meu “momô”.

 

P/1 – Ela surfa?

 

R – Ela surfa, mas ela é skatista.

 

P/2 – Você tem quantos filhos? Você tem três?

 

R – Espera aí, gente, que vocês me deram um susto. Eu ia me esquecer dela. “Tu é” doido? “Tu é” doido?

 

P/2 – Quantos filhos você tem?

 

R – Eu tenho três.

 

P/2 – Três?

 

R – Tenho a Raianinha, que é a que tem 17, tem o Ícaro com 21 e tem a Marcela com 28.

 

P/2 – E o Ícaro é surfista?

 

R – É. Surfista profissional.

 

P/1 – Ele faz parte da cooperativa?

 

R – Não. Não, porque quando ele começou, ele ia fazer 18, aí não podia, não sei o quê. Ele também não tinha paciência, não. É outro. Eu chamei, ele não veio, não.

 

P/1 – Mas e hoje, você acha que ele se arrepende?

 

R – Não. Não. De jeito nenhum. Ele está fazendo a faculdade dele, está fazendo Administração, pega onda, faz a faculdade dele.

 

P/2 – Só pra aproveitar, eu vou voltar um pouquinho que eu me lembrei de uma coisa. Você estava fazendo faculdade de Publicidade?

 

R – É. Na verdade está parada, mas eu estava na sexto semestre.

 

P/2 – Que era o último ano?

 

R – Não.

 

P/2 – Teria mais um?

 

R – Tinha mais um ano. Eu tô louco pra terminar.

 

P/2 – E você entrou quando? Faz pouco tempo?

 

R – Ah, não. Bom, está vendo como eu contei só um pouquinho da história? Eu fiz Letras, eu entrei pra Letras em 1985. Está vendo? Eu era bom aluno. Na época, vestibular era vestibular mesmo. De lá eu fui pra Universidade Federal, fiz Geologia dois anos e meio, que eu conheci até o Gustavo Gurgel. Mas aí foi na época que eu casei, não sei o quê, não tinha tempo, ainda fiz dois anos e meio, aí abandonei a faculdade. Passei um tempo de longe. Depois voltei pra Fanor [Centro Universitário Fanor], aí comecei a fazer Publicidade. Aí foi a época em que morreram os meus avós, que eu morava ali com eles também. Aí a vida deu uma guinada pra um lado, para o outro, aí eu parei. Estou parado agora nesse momento. Mas sempre trabalho com publicidade de surfe, esses dias eu até volto, gente.

 

P/2 – Eu queria agradecer em nome do Museu da Pessoa e da Camargo Corrêa a sua participação. Foi muito legal pra gente. E muito obrigado por você ter contato um pouquinho da sua vida pra gente.

 

R – Pô, eu que agradeço. Não se esquece de falar da Raiana, hein?

 

P/1 – Está registrado.

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