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História

Nas batidas da Tom Maior

História de: Marcos dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/10/2012

Sinopse

Nesta entrevista, o sambista Marcos dos Santos nos conta sua trajetória no mundo do samba. Desde menino sempre teve afinidade e uma paixão muito grande pelo samba. Em 1969, desfilou pela primeira vez na Camisa Verde e Branco. Mais tarde, com alguns colegas, fundou a Escola de Samba Tom Maior. 

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História completa

 

P/1 – Então vamos lá seu Marcos, nós vamos começar a entrevista falando qual o seu nome, local e data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Marcos dos Santos, nasci em São Paulo, bairro da Vila Matilde, em doze de julho de 1948.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais e dos seus avós.

 

R – Meu pai era Geraldo dos Santos, minha mãe Maria da Conceição Rezende dos Santos. Minha avó materna era Rosalina Gabriela de Jesus, meu avô paterno eu não conheci, não cheguei a conhecê-lo, não sei o nome. Meu avô materno era Tobias Rezende, minha avó materna também não conheci e não sei o nome, só sei que era uma índia.

 

P/1 – Qual a atividade profissional dos seus pais e, se o senhor lembrar, dos seus avós?

 

R – A minha avó materna tinha uma pensão no bairro do Tatuapé, durante muitos anos. E meu avô. Não sei a profissão dele não, porque eu também não o conheci – meu avô materno. Meu avô paterno também não cheguei a conhecer, então não sei a profissão. E a avó materna também não.

 

P/1 – E a profissão de seus pais?

 

R – Meu pai é armador de construção civil, minha mãe é auxiliar de enfermagem.

 

P/1 – O senhor lembra-se da origem da sua família, de onde eles vieram?

 

R – A minha família, tanto do lado paterno, quanto do lado materno, vieram de Minas, acabaram se conhecendo aqui em São Paulo. Mas [de] toda a minha família, a primeira geração de paulistas sou eu, minha irmã, os primos da nossa idade. Mas todos os antepassados nossos vieram de Minas.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho uma irmã.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Lígia.

 

P/1 – Nós vamos um pouquinho pra sua infância, pra ver o que o senhor lembra-se da sua infância. A rua, o bairro que o senhor morava. O que o senhor pode nos contar sobre isso?

 

R – O primeiro lugar que me lembro é na Rua Evair, no Tatuapé. Lembro-me desse lugar. Esse lugar foi onde eu comecei a gostar de música. Eu era muito criança, mas eu lembro que cantava muito, gostava de música. Já era uma pensão, uma pensão enorme. Eu morava com a minha avó. Depois nós mudamos pra Rua Tuiuti, também no Tatuapé e também uma pensão. Também lá foi legal, foi lá que eu fiz a primeira comunhão, aprendi a jogar bola.

 

P/1 – Essa pensão o senhor morava com seus avós aqui em São Paulo. Como era a família na época?

 

R – Isso, a minha avó e o... Não é meu avô. A história é a seguinte: a minha avó fugiu de Minas com um soldado. Quando ela veio de Minas, ela fugiu de Minas com um soldado. Passou pro Rio de Janeiro, caiu no samba lá, depois vieram pra São Paulo e montaram essa pensão. Então a gente o tratava como avô, mas na verdade ele não era o avô.

 

P/1 – Por que ela fugiu?

 

R – Ah, coisas da vida. Fugiu assim. A história eles nunca contaram direito pra gente. Tanto é que o meu avô verdadeiro não conheci, e pouco se falava dele.

 

P/1 – Tinha alguma lenda assim?

 

R – Coisas de amor, coisas de amor.

 

P/1 – Nessa pensão o senhor morou com seus pais, com a sua irmã?

 

R – Não, morei com minha avó.

 

P/1 – Quem tinha mais da família nessa casa?

 

R – Da família não. Da família, só a minha avó e meu avô. De vez em quando chegavam algumas pessoas de Minas, o pessoal que chegava de Minas, parentes e tal, iam pra lá. Que estavam chegando a São Paulo iam pra lá, porque era pensão, sempre tinha espaço. Ficavam até se ajeitar. Ficavam por pouco tempo. Mas parente mesmo era a minha avó e esse meu avô.

 

P/1 – E como era esse dia a dia seu na pensão? Acontecia alguma coisa diferente? O que o senhor se lembra dessa época?

 

R – Não, não lembro nada de especial. Eu sempre fui muito quietinho, brincava.

 

P/1 – E as brincadeiras?

 

R – As duas pensões tinham quintais enormes, então a gente brincava muito. A minha avó sempre plantou coisas, eu também gostava de mexer na terra, plantar.

 

P/1 – E o senhor não se lembra das brincadeiras que o senhor fazia com os coleguinhas?

 

R – Era mais futebol mesmo. Tentava jogar futebol.

 

P/1 – E quando o senhor iniciou seus estudos.

 

R – Comecei no Externato São Vicente, na Penha, eu acho que em 1954.

 

P/1 – O senhor lembra um pouquinho dessa escola?

 

R – Era um colégio de freiras – era não, é – que existe ali perto do Largo do Rosário, na Penha. Externato São Vicente. Lá foi a primeira escola que eu fui. Eu já fui pro primeiro ano, né, não fui no pré-primário. Foi a primeira escola.

 

P/1 – E o senhor lembra dos amigos? Da professora?

 

R – Não, não lembro.

 

P/1 – Alguma professora especial.

 

R – Eram freiras, né, mas eu não me lembro.

 

P/1 – O senhor ficou nessa escola até que ano?

 

R – Um ano.

 

P/1 – Qual foi depois a outra escola que o senhor foi?

 

R – Fui pro Colégio Fernão Dias, na Avenida Celso Garcia, é um colégio particular.

 

P/1 – E o senhor ficou quanto tempo nessa escola?

 

R – Um ano.

 

P/1 – Também.

 

R – Aí logo em seguida, eu mudei para a zona Leste. Aí nós viemos morar definitivamente com a minha mãe.

 

P/1 – Então conta um pouquinho essa trajetória de mudança de bairro, como é que foi isso?

 

R – Não, porque assim que eu nasci meu pai e minha mãe se separaram. Então minha mãe foi à luta, foi estudar, foi no Hospital das Clínicas pra trabalhar. E a gente ficou com nossa avó até ela ter condições de assumir a gente. Aí ela montou uma casa e nós viemos morar com ela. A gente sabia sempre que a gente estava morando provisoriamente. Minha avó sempre falava: vocês vão morar com sua mãe até ela ter condições. E aí a gente mudou, isso em 1958, em 1958 em vim pra Zona Leste, e voltei pra Zona Oeste faz cinco anos. Minha vida toda foi aqui na Zona Oeste.

 

P/1 – Conta um pouquinho desse tempo aí, quando o senhor voltou a morar com a sua mãe, como foi esse retorno.

 

R – Foi legal. Eu lembro que nós fomos estudar no Colégio Rodrigues Alves, na Avenida Paulista. Também um ano; meu primário cada ano foi...

 

P/1 – Cada ano em uma escola.

 

R – Aí me formei no Godofredo Furtado, no quarto ano. Nós moramos inicialmente na Avenida Paulista, que a minha mãe trabalhava numa clínica,  numa casa de fundos, aí depois ela alugou um sobrado, aqui na Teodoro Sampaio, moramos um pouco. Isso em 1958, em 1958 nós morávamos aqui na Teodoro. Eu lembro mais ou menos por causa de Copa do Mundo, minhas referências. Depois nós viemos pra Vila Madalena, e aí eu fazia admissão, ginásio. Não é o Maximiliano, não, o Maximiliano veio depois. Mas é um colégio aqui na Rua Moras, aqui na Vila Madalena, na parte debaixo. Então, ali eu fiz admissão ao ginásio e aqui começou a segunda fase muito legal da minha vida, aí comecei, é, estava chegando a adolescência e começou bailinho, entendeu? Começou, tinha ensaio escondido de escola de samba. Até então, a história é muito... Eu sempre tive assim fissura por escola de samba. Eu lembro que as primeiras referências que eu tive de escola de samba – é que minha mãe sempre leu muito, ela comprava a revista O Cruzeiro – eu via aquelas fotografias de carnaval e gostava. Não sabia o porquê, mas gostava.

 

P/1 – Se interessava.

 

R – Me interessava. E aí na Vila Madalena, quando nós mudamos, estava acabando uma escola de samba, uma grande escola que teve aqui na Vila Madalena, chamava-se Coração de Bronze. Eu lembro que nós mudamos perto do carnaval, eu vi um ensaio dessa escola que desceu a Rua Fradique Coutinho, depois subiu. E essa escola é onde é o Maximiliano hoje, era essa escola. Ali atrás onde era o Max, era essa escola. E eu ficava louco: nossa, por que eu gosto tanto? Depois eu vi, descobri por que, coisas de família, né? Porque eu gostava tanto de escola de samba. E morei primeiro na Rua Wisard, depois morei na Rua Fidalga. Da Wisard a casa ameaçou cair nós mudamos pra Rua Galeano de Almeida na casa de uma avó minha, mas ficamos uns dois meses e voltamos. Aí morei na Fidalga esquina com a Wisard durante doze anos.

 

P/1 – Esse tempo o senhor já ia à escola também ali.

 

R – A escola de samba eu vi uma vez. E era o último ano dela. Foi o último, depois acabou. Então já estava assim, mas eu lembro que desceu ensaiando. Eu fiquei assim, mas vi da janela.

 

P/1 – Foi a primeira vez que o senhor viu.

 

R – Foi a primeira vez que eu vi uma escola de samba. Ensaio.

 

P/1 – E o senhor já estava estudando. Nessa época o senhor já tinha quantos anos mais ou menos?

 

R – Estudava. Em 1960? Em 60 eu tinha? Quarenta e oito. Doze?

 

P/1 – Eu sou ruim de contas.

 

R – Quarenta e oito pra 60; 60, 61.

 

P/1 – E o senhor estava na escola também ali e já frequentava o bairro.

 

R – O bairro ali. Porque eu conhecia basicamente as pessoas. Essa pessoa que veio depor aqui, a Maria Helena, nós nos conhecemos nessa época. Porque ela também é moradora antiga da Vila Madalena. Então ali que a gente começou a ter a vida social independente da família. A vida social de adolescente, bailinhos, tinha muito bailinho.

 

P/1 – E o senhor lembra-se daquela época dos bailinhos? Das músicas que tocavam?

 

R – Lembro, era muito ___, muita ___. Era muita música americana mesmo.

 

P/1 – Naquela época tinha muito assim, as pessoas tinham muitas turmas do bairro que se encontravam, faziam os bailinhos. O senhor participava dessas?

 

R – Completamente.

 

P/1 – Então conta um pouquinho pra gente.

 

R – A Vila Madalena era um bairro negro, era um bairro negro. Era um bairro assim de população 50% negro, 50% português. Entendeu? A coisa, em pouco tempo isso acabou. Então, a gente tinha feira de sábado, ainda tem a feira de sábado. A gente se encontrava na feira, a garotada: “Ah, hoje onde é o bailinho?”. Se não tinha aniversário: “Ah, então vamos fazer na casa do fulano!”. Sempre ali, na Vila. Ou na Mourato, ou na Fidalga, na Fidalga um pouco mais embaixo. Na Rua Harmonia, todos esses lugares eram casas de famílias negras e todo sábado tinha baile.

 

P/1 – E que tipo de música que eles tocavam? Ray Connif que o senhor falou.

 

R – Ray Connif, é...

 

P/1 – O senhor lembra de algumas músicas que ficaram marcadas?

 

R – Vou citar uma: La mer. La mer eu lembro, era a música que eu me apaixonava.

 

P/1 – Nessa época o senhor tinha namorada, como é que era?

 

R – Tinha as namoradinhas, não tinha, não se ficava.

 

P/1 – O namoro era mais sério. E o senhor lembra da primeira namorada, como é que foi?

 

R – Lembro, era a Marisa. A gente namorou um ano e meio. Também aqui da vila Madalena. Também na casa dela tinha os bailinhos.

 

P/1 – Ela estudava no mesmo colégio?

 

R – Não, eu a conheci nos bailinhos.

 

P/1 – Quanto tempo o senhor ficou estudando nesse colégio?

 

R – No Max? No Max eu entrei na primeira série e saí ao fim do colegial. No primário e até a admissão foi um ano em cada colégio. Eu inaugurei o colégio Maximiliano, fui a primeira turma do Colégio Maximiliano, e entrei na primeira série do ginásio. E fiquei até o terceiro ano clássico. Terminei o Clássico lá. Então fiz o ginásio e Clássico no Max. Que é uma das coisas que, quando eu venho na Vila, eu mais tenho saudades. Muitas saudades do Max.

 

P/1 – E a formatura, o senhor lembra como é que foi?

 

R – A formatura do ginásio foi muito legal. Teve baile, baile de formatura no clube Transatlântico. Baile de formatura mesmo. Ah, um detalhe curioso: como a minha irmã – a minha irmã sempre foi mais levada – então ela cabulava aula, não passava de ano. Tanto é que eu a alcancei, que ela sempre estava um ano à frente. A minha mãe resolveu estudar com a gente. Então a minha mãe fez o ginásio com a gente. Na formatura do ginásio a minha mãe era uma das formandas. Junto comigo. A minha irmã não, a minha irmã mesmo assim parou na terceira série. Agora depois de velha é que ela fez supletivo, está estudando, depois de velha.

 

P/1 – E a sua mãe frequentava então: os mesmos colegas ali, eram colegas dela também?

 

R – Não, tinha os colegas da escola. Mas na escola, no Max, não era a minha turma da Vila Madalena. O Max tinha muita gente de fora, né, e não era a mesma turma. Então a gente frequentava assim, pra estudar. Estudar, o pessoal ia estudar em casa. E no Clássico não teve formatura porque no Clássico, quando eu fui fazer o Clássico, eu tentei o Científico não aguentei, por causa de matemática, física, essas coisas. Fui fazer o Clássico, adorei. Foi na época da ditadura, então nós éramos rebeldes, a gente participava de movimento estudantil, fazia teatro, festival de música. E queríamos ser vanguarda. Então festa de formatura pra nós era a maior caretice, era coisa de burguês. Isso a classe toda. Porque o científico na época eram as exatas, o pessoal certinho. E o Clássico era o curso dos artistas, dos largados, dos boêmios, dos pseudo vanguardistas. Não teve festa de formatura, o científico teve festa, mas nós achávamos que era caretice, entendeu, festa de formatura. Terminaram as aulas, todo mundo passou, ninguém repetiu da nossa turma. Fomos pro bar e enchemos a cara.

 

P/1 – E essa turma? O senhor ainda encontra até hoje? São seus amigos?

 

R – Encontro, inclusive tem a que trabalha comigo na UESP [União das Escolas de Samba Paulistanas]. Encontro essas pessoas sim. Tem uma pessoa que eu não encontro que infelizmente faleceu. Foi uma pessoa muito importante na minha vida. A gente começou o clássico juntos. Conheci ele no Hospital das Clínicas, que eu trabalhei lá, fiz uma amizade assim. Embora a gente fosse da mesma idade, foi o cara que me deu uma consciência política. Foi com quem eu aprendi política, eu aprendi rebeldia.

 

 

P/1 – E esse tempo dessa turma, o senhor lembra-se de alguma coisa que aconteceu que ficou marcado pra você, nesse período todo da ditadura, da rebeldia? Você tem alguma passagem interessante?

 

R – Muita coisa boa aconteceu. Um fato marcante é essa história, de não ter festa de formatura, por decisão nossa, dos alunos.

 

P/1 – Nessa época o senhor não trabalhava ainda.

 

R – Estava trabalhando. Trabalhava no Hospital das Clínicas.

 

P/1 – Qual foi seu primeiro emprego?

 

R – No Hospital das Clínicas.

 

P/1 – O senhor no Hospital das Clínicas fazia qual atividade?

 

R – Eu trabalhava no Pronto Socorro como registrante. Era a pessoa que fazia a ficha das pessoas que entravam. Pra mim foi o emprego mais importante da minha vida, até hoje. Trabalhei lá durante cinco anos e eu aprendi muito, muita coisa de vida, de humanidade. Eu fui mandado embora porque o meu chefe maltratou uma pessoa e eu o mandei pro devido lugar na frente dessa pessoa. Mandado embora por desacato a chefia. E eu tenho orgulho que durante cinco anos eu não levantei a voz, eu não demorei pra atender. Durante cinco anos, todas as pessoas que eu atendi, foram atendidas com carinho e com atenção. Isso é uma coisa que é rara no serviço público. Eu tinha colegas assim, horríveis. Tinha colegas que... Tanto é que eu fui mandado embora que uma vez o meu chefe, uma senhora chegou o filho estava perdido, e tinha entrado uma criança desconhecida, sem documento. E era quase sete horas, sete horas encerrava o setor de informação que era em outro lugar. E ela chegou no balcão, ele falou: olha, tem que ser lá no registro. Ela foi lá no registro só que quando ela chegou lá estava fechado. Ela voltou e já claro que voltou nervosa. Principalmente porque quando ele a mandou ir lá ele falou: “Tem um moleque que entrou aí atropelado, mas a senhora tem que ir lá pra pegar a ficha”. Imagina, ela vai lá, cinco minutos, chegou lá, “Fechou”. “Aonde é?” A mulher voltou louca, com razão. Aí ele falou: “Volta amanhã”. Na hora que ele falou isso pra ela eu falei: “Não, eu vou atender a senhora”. “Você não vai atender”. “Vou atender”. Aí eu mandei ele pro devido lugar e atendi a senhora. E fui mandado embora.

 

P/1 – Depois desse emprego?

 

R – Depois desse emprego eu trabalhei na TELESP, depois trabalhei na USP, depois da USP eu fui pra Bahia, morei em Salvador.

 

P/1 – O senhor morou em Salvador? Então conta um pouquinho esse tempo em Salvador.

 

R – De Salvador?

 

P/1 – É. Porque eu ia fazer 30 anos, estava acabando meu primeiro casamento, estava com crise existencial, né. Eu tirei férias na USP, vou fazer meus 30 anos – que era um sonho conhecer Salvador – falei: vou pra lá. Mas só que eu não tava legal de cabeça aí eu acabei ficando lá um ano e oito meses. Pedi as contas pelo correio. Mandei uma carta me demitindo da USP pelo correio.

 

P/1 – E o quê o senhor fazia lá?

 

R – Eu fiz tudo. Eu comecei vendendo pipa de isopor, aviãozinho de isopor na praia. Eu fiquei numa pensão, nessa pensão ficou uma pessoa que vendia isso. E eu me apresentei pra ele e falei: “Eu estou com vontade de ficar na Bahia, mas preciso arrumar alguma coisa pra fazer, que o meu dinheiro vai acabar. Me leva pra vender com você”. Ele: “Não, não, não, nunca trabalhei com ninguém”. Mas aí de manhã quando ele saiu pra trabalhar, ele me chamou: “Vamos lá paulista, vou te dar essa”. Aí foi minha primeira ocupação lá. Depois conheci uma paulista lá que tinha um instituto de pesquisa, aí fui trabalhar fazendo pesquisa. Depois eu prestei concurso na Telebahia e fui trabalhar na Telebahia. Depois de seis meses que eu estava em salvador, eu já fui pra Telebahia. E depois vim embora.

 

P/1 – E por que o senhor veio embora?

 

R – Pra casar de novo.

 

P/1 – O senhor não contou ainda do seu primeiro casamento. Como é que foi? A sua esposa, como o senhor a conheceu?

 

R – O meu primeiro casamento, eu acabei até com a história da Tom Maior. Eu comecei no samba em 1968 assistindo os ensaios da Camisa Verde, em 1969 eu desfilei pela primeira vez no cordão Camisa Verde; em 1970 foi criado lá na Barra Funda a primeira roda de samba de São Paulo, que era no São Paulo Chic, que foi a primeira roda de samba que se tem notícia. Então ficava um conjunto, tem uma foto aí do conjunto, o conjunto tocando no palco e o pessoal dançando. Foi quando teve a invasão, e eu sou um dos responsáveis por isso, porque inclusive Aníbal, esse grande amigo meu que faleceu, trabalhava na USP e a gente divulgou isso na USP. Então, virou a coqueluche de São Paulo essa roda de samba. A grande maioria era pessoal da USP, os alunos da USP. E eu conheci minha mulher e a família dela nesse salão. Eu trabalhava na coordenação do salão, ainda não tocava. Eu ficava coordenando o salão quando precisava. E aí eu a conheci e começamos a namorar. Na época minha mãe queria mudar, queria não, ela mudou pra um bairro longe, e eu não quis ir, aí eu fui morar com o Hélio, um dos fundadores, que era marido da Maria Helena. Ele tinha um conjunto, que eu acabei entrando depois, e tinha uma espécie de república que moravam os sambistas, a rapaziada do conjunto. Aí eu fui morar lá.

 

P/1 – Isso era aonde? Em que bairro?

 

R – Na Barra Funda. Rua Brigadeiro Galvão. E lá a gente, somente eu e o Aníbal, sempre revolucionários: Ah, legal, o presidente é ditador, não sei o quê. O presidente da escola de samba, na época cordão, “Vamos fundar uma escola de samba”. O Hélio: “Vamos lá, vamos fundar”. Aí nós fundamos a escola de samba e a primeira sede foi na minha casa. Porque foi uma coisa que foi assim: não pode ser na Barra Funda. “Tem que ser aonde?”. “Oh, na Zona Oeste não tem nenhuma, então vamos fazer lá” “Mas aonde?” “Vamos casar Elisinha? A gente faz a sede na nossa casa”. Daí alugamos uma casa aqui na Cristiano Viana, casamos e foi a primeira sede da Tom Maior .

 

P/1 – Me conta um pouco mais sobre isso. Foi na sua casa?

 

R – Foi na minha casa.

 

P/1 – E como aconteciam as reuniões na sua casa.

 

R – Não, o pessoal ia lá, se reunia. Quando nós viemos pra cá coincidentemente estava surgindo uma escola de garotos aqui na Vila da Madalena, que era Acadêmicos da Vila Madalena. Coincidência. Ai nós falamos: “Vamos juntar com essa moçada”. Que, inclusive, alguns eram amigos meus aqui da Vila Madalena. “Vamos juntar, vamos juntar”. Fizemos várias reuniões e aí o impasse estava no nome, porque nós já tínhamos escolhido o nome, era Tom Maior. E eles não queriam.  Surgiu esse impasse. Aí eles se juntaram com um outro bloco que tinha ali na praça Benedito Calixto, que se chamava Boca da Bruxa. Era um bloco de embalo, não desfilava oficialmente, nada. E fundaram a Pérola Negra, que é aqui. Então, em fevereiro nós fundamos a Tom Maior e em setembro eles fundaram a Pérola Negra.

 

P/1 – Você lembra de que ano?

 

R – 1973.

 

P/1 – Aí o senhor estava casado com ela, não tinha filhos na época? Como é que era?

 

R – Não tinha filhos. Aí a gente continuou juntos, armamos uma sede maior, na Oscar Freire, aí a gente se separou.

 

P/1 – Ela foi uma das fundadoras, então, com o senhor?

 

R – Uma das fundadoras. Ela, a Maria

 

P/1 – Então os fundadores foram: o senhor?

 

R – Eu, o Hélio, a Maria Helena, a Maira Elisa, o Aníbal, a Célia. Quem mais? A irmã da Maria Elisa, a Virgínia. A Dinha; era uma turma grande. Quem mais? Era assim: um grupo de universitários, um grupo da Vila Madalena e um grupo da Barra Funda. Eram três grupos que se juntaram e fundaram o Tom Maior.

 

P/1 – E como foi esse início? Como vocês começaram as primeiras?

 

R – Foi tranquilo, porque o Hélio que era o presidente, ele já era conhecido, era já consagrado do samba, era diretor da Camisa Verde. Então ele conseguiu os primeiros instrumentos financiados e nós começamos a ensaiar. Mas a gente tinha na cabeça uma coisa que valeu a pena. Porque a gente tinha a seguinte coisa na cabeça: não vamos trazer ninguém da Camisa Verde, nem de outra escola. Vamos pegar aqui – na época ali na Oscar Freire tinha muito cortiço – vamos pegar a rapaziada daqui. Então nós conseguimos desfilar o primeiro ano com pessoas só do Tom Maior. Porque a gente já tinha essa consciência que era necessário fazer a escola. Não só desfilar, mas fazer uma escola. Entendeu? Isso foi muito importante porque existe até hoje. Na época a gente, isso acontece ainda e na época já acontecia: quando aparecia uma escola pequena, vinha uma grande e, no caso na época foi a Mocidade Alegre, sondar. “Olha, vocês não querem? A gente põe uma ala aí, vocês põem o pessoal de vocês lá, vocês desfilam com a gente, e a gente manda uma ala pra vocês”. E nós não aceitamos. Isso acontece até hoje, quando surge uma escola nova sempre vai uma grande pra trazer componente em troca de algumas coisas. Mas isso nós batemos o pé. Batemos pé. Isso é um fato muito importante na história do Tom Maior.

 

P/1 – Que vocês não deixaram que outras escolas tomassem conta. E vocês foram continuando assim, os primeiros sambas. Como foi essa coisa da formação? O que foi ocorrendo?

 

R – Bem, a Tom Maior sempre, sempre não, teve um período muito longo de turbulência política. No primeiro desfile nossos ensaios estavam fantásticos, inclusive nós mesmos não acreditávamos.

 

P/1 – E vocês ensaiavam aonde? Na sua casa?

 

R – Na rua.

 

P/1 – Na rua.

 

R – Ali na Cristiano Viana, na Amália de Noronha. A gente ficava desfilando por ali. Quando a gente mudou pra Oscar Freire tinha a feira moderna na Oscar Freire, que era uma feira coberta. Hoje onde é a estação do metro. Ali na Avenida Sumaré, ali tinha uma feira coberta, a gente ensaiava lá também. Antes do primeiro desfile teve o primeiro racha na Tom Maior. Que o Hélio que era o chefe do conjunto, e era o presidente, apareceu uma viagem pra Argentina pro conjunto. Aí ele veio propor o seguinte: vamos adiar pro ano que vem o desfile porque tem essa viagem que o conjunto não pode perder. Eu falei: “Espera aí! Não tem cabimento a gente ter mobilizado toda essa rapaziada. Agora chegar pra eles e falar: não tem mais, só o ano que vem? Não se esqueça que é na minha casa!”. “Não, não, não”. Aí eu fiz uma reunião, só eu e ele. “Ó Hélio, eu não vou. Mesmo que isso custe sair do conjunto, mas eu vou por o samba na rua”.

 

P/1 – Isso o senhor já estava no conjunto. O senhor tocava o quê?

 

R – Eu tocava cuíca.

 

P/1 – Mas era um conjunto dentro da escola?

 

R – Não. Esse conjunto nasceu na Barra Funda, no Camisa Verde.

 

P/1 – Antes da escola.

 

R – Antes da escola. Tem uma foto, essa foto é antes da escola.

 

P/1 – É no tempo que o senhor foi pra Camisa Verde, que o senhor conheceu a sua esposa lá.

 

R – Lá no salão. Na roda de samba. Eu ainda não tocava no conjunto. Minha mãe foi morar longe, não lembro aonde, eu fui morar nessa casa. E nessa casa eles ensaiavam, e o cara que tocava cuíca tinha saído do conjunto, eu peguei e comecei a tocar. O Hélio falou: você leva jeito. Eu comecei a tocar, e ensaia, ensaia, ensaia. Depois de alguns meses eu já estreei.

 

P/1 – Como era o nome do conjunto?

 

R – Chip, samba show.

 

P/1 – E vocês faziam apresentações aonde?

 

R – Nós éramos fixos do programa do Sílvio Santos às quintas-feiras e aos domingos, a gente tocava junto com a orquestra. E fazíamos shows assim. Foi antes dos Originais do Samba, o nosso conjunto. Aliás, tinha os Originais no Rio de Janeiro e nós aqui. Então todo grande show de samba que tinha. Por exemplo, nessa foto a gente estava se preparando porque ia ter um show do Paulinho da Viola, do Garitão e nós acompanhávamos. O Garitão trazia os grandes sambistas, e quem era chamado pra acompanhar era esse conjunto.

 

P/1 – Nesse tempo o senhor não trabalhava?

 

R – Aí eu parei. Eu vivia do conjunto. Aí eu saia do conjunto. Porque aí nós fizemos um trato, eu falei: “mesmo que isso custe eu sair do conjunto, mas a gente tem que por o samba na rua”. Ele falou: “Eu não vou por o samba na rua mesmo que isso custe eu sair da escola”. Então tá tudo certo: ele saiu da escola e eu saí do conjunto. Aí a minha cunhada, irmã da Maria Elisa, assumiu a presidência.

 

P/1 – E o resto do conjunto foi pra Buenos Aires.

 

R – O resto do conjunto foi pra Buenos Aires. Então o pessoal da Barra Funda não chegou a desfilar. Igual a Maria Helena, chegou a fundar. O pessoal da Barra Funda se retirou. Ficou o pessoal da USP, minha esposa com os estudantes; e o pessoal da Vila Madalena, que era eu,___. E desfilamos, fomos segundo colocados. Para o primeiro ano!

 

P/1 – Isso o senhor lembra o ano que foi?

 

R – Setenta e quatro. Foi nosso primeiro desfile e tiramos o segundo lugar. O primeiro ano de desfile, segundo lugar, só tinham três grupos de escola de samba, e o primeiro lugar foi a Pérola Negra. Uma rivalidade saudável, né? Mas é, existe uma rivalidade. Primeiro lugar foi a Pérola Negra, em segundo lugar nós. Aí subiram as duas pro segundo grupo. No segundo ano a Pérola Negra tirou em primeiro e nós em terceiro. Aí subiram pro primeiro grupo. Ai nós ficamos mais um ano no segundo. No terceiro ano, aí nós subimos pro primeiro, nos encontramos com a Pérola de novo. A Pérola durou mais no primeiro grupo, estamos lá subindo e descendo. Aí uma história: a cada ano mudava-se o presidente da Tom Maior. Não ganhava o carnaval caia o presidente. Eu fui duas vezes presidente da Tom Maior. Tive duas oportunidades.

 

P/1 – O senhor foi o fundador e quais as outras funções que o senhor fazia na Tom Maior? Porque tinha que ter várias outras atividades também, né?

 

R – Não, tinha uma diretoria. A primeira diretoria foi desfeita antes do primeiro desfile, aí entrou outra diretoria. E a presidente era a minha cunhada, a Virgínia, eu era diretor geral. Então, fazia tudo, era na minha casa, né, fazia tudo. Ajudava a fazer fantasia, organizar ensaios. A parte administrativa em geral.

 

P/1 – E como era financiada a escola?

 

R – A escola teve uma verba inicial pra desfile, para o primeiro desfile. Antes, assim, cada um dava um pouco pra manter os instrumentos. Quando chegou o primeiro carnaval teve uma verba – que tem, né – da Secretaria de Turismo, e a gente conseguiu por a escola na avenida. E depois a gente foi subindo. Ela passou muita dificuldade, já esteve muito endividada, entendeu? Na verdade o Tom Maior está assim estável, vamos dizer, estável, há uns oito anos. Que ela conseguiu uma estabilidade inclusive financeira, né? Ter casa, ter quadra. Que a gente sempre foi da rua, sempre tivemos muito problema com vizinhança. Muitas vezes a polícia parou nossos ensaios, levava a gente pra delegacia. Muitas vezes, muitas vezes. Principalmente porque o bairro tinha poucos cortiços, e os poucos cortiços foram acabando, e a classe média chegando. O que está fazendo uma escola de samba aqui no Sumaré? Um bairro quase nobre. Aí nós fizemos uma experiência, fomos embora pro Campo Limpo, mudamos pro Campo Limpo. E lá no Campo Limpo apareceu um outro problema: o pessoal do Campo Limpo querer tirar a escola da gente. Ingenuamente, principalmente eu, achei que era normal, uma vez que a gente estava no bairro. Foi a época que eu entrei em parafuso, separei, fui embora pra Bahia. Quando eu fui embora pra Bahia a Tom Maior estava aqui no Campo Limpo. Quando eu voltei o pessoal do Sumaré tinha ido lá buscar, tinha voltado por Sumaré. Ficou dois anos no Campo Limpo.

 

P/1 – Na época que o senhor não estava aqui em São Paulo quem ficou e presidente? Quem comandava a escola?

 

R – Quando eu saí estava o senhor José Lemos, que era um líder aqui do Campo Limpo. E quando eu voltei era o Rui, ambos falecidos. O Rui era aqui do Sumaré, era um militar da PM, também gostava muito, estava desde o começo na Tom Maior. Ele e um grupo daqui trouxeram de volta pra Sumaré. Aí do Sumaré, fizeram a Avenida Paulo VI, nós ficamos um tempão lá embaixo da Avenida Paulo VI. Despejaram a gente, aí nós fomos pra rua. Ensaiava na Avenida Sumaré, aqui perto do Viaduto Paulo VI. Depois nós fomos ensaiar na Avenida Sumaré, depois do metro, do lado direito, num terreno. Onde tinha um terreno a gente invadia pra ensaiar. Mas sempre durava muito pouco, porque a vizinhança não suportava. Mas a gente não varava a noite, mas era um bairro impróprio. Primeiro lugar que deu uma certa estabilidade foi aqui na Doutor Arnaldo, que a gente alugou ali. Mas ali era alugado, entendeu, acabou que ficou devendo muito aluguel, fomos despejados. Voltamos pra rua por um ano, aí depois alugamos um galpão na rua Butantã, era uma fábrica velha, ficamos um ano. Aí começamos a ensaiar aonde era o projeto equilíbrio, enquanto esse galpão ia entrar em reforma. Que apareceu um benemérito aí, um patrono. Ele se interessou, negociou com o projeto equilíbrio, abandonou o galpão aqui. Aí ele arrendou por dez anos e entregou pro Tom Maior, aí um outro grupo que apareceu, eu não sei direito, não sei essa parte, só sei que tem um grupo que banca lá. Só sei que o Tom Maior tá estável.

 

P/1 – O senhor participa?

 

R – Não, eu, até minha história na UESP.

 

P/1 – Como foi essa sua entrada na UESP?

 

R – A UESP é a União das Escolas de Samba Paulistanas, hoje existe a União, que cuida dos grupos menores; e tem a Liga que cuida da elite. E eu ia representar a Tom Maior nas reuniões, que a Tom Maior era da UESP. Ia representar a Tom Maior. Em 1986 a Leia, que hoje é presidente, foi trabalhar como secretária, recepcionista, secretária. E a gente pegou amizade,  tinha eventos e ela começou a me colocar nos eventos da UESP: feijoada, ___ bandeira. Aí eu comecei. No carnaval ela me colocava pra trabalhar também, pra organizar carnaval de bairro, pra organizar o desfile. Aí teve o racha da Liga, as grandes escolas; rachou por causa da Rede Globo, isso é verdade.

 

P/1 – Então conta um pouquinho pra gente. Como aconteceu esse racha com as escolas?

 

R – Aconteceu o seguinte: a UESP era a única entidade. Tanto é que todas as escolas de samba que existiram na cidade de samba passaram pela UESP. Todas. Tem um pequeno número que está lá na Liga. Mas, esse pequeno número, todos passaram pela UESP.

 

P/1 – Não existia a Liga ainda, só existia a UESP?

 

R – Só existia a UESP. Em 1986 a Globo resolveu investir no carnaval de São Paulo e foi negociar na UESP. A UESP naquela época tinha 120 escolas de samba filiadas, tinha carnaval em oito bairros. Fora a Avenida Tiradentes. E a Globo quis negociar, a primeira coisa: mudar o calendário. Porque o nosso grande carnaval era domingo, o grande carnaval da UESP. Domingo de carnaval tinha os blocos, começava as três da tarde; aí emendava de domingo pra segunda o grupo um – que hoje é chamado especial – e superlotava a arquibancada, a Avenida Tiradentes, as barraquinhas. Era uma festa mesmo. A Globo tinha que tirar o domingo porque o domingo tinha o Rio, e eles quiseram mudar pra sábado. Aí tinha que mexer em todo o calendário da UESP. Então, quem desfilava de sábado era o terceiro grupo. O terceiro grupo tinha que ir para a segunda, quer dizer, mexia com todo o calendário. E o presidente da UESP naquela época não teve jogo de cintura. Porque ele deixou as pequenas escolas, que não iam ser focalizadas pela Globo, elas queriam uma compensação também, só pra mudar de dia de desfile. Eu achava que não tinha. A minha opinião era essa, inclusive da Tom Maior: quem tem que ganhar o dinheiro da transmissão são as escolas que vão aparecer na televisão, não tem essa de compensação. Aí surgiu o impasse.

 

 

P/1 – Porque a televisão pagava um valor?

 

R – Paga até hoje.

 

P/1 – Pra cada escola de samba?

 

R – É, mixaria. É uma vergonha o que eles pagam, uma vergonha mesmo. Aí o que eles fizeram? Fundaram a Liga das Escolas de Samba. As dez escolas do grupo Um fundaram a Liga da Escolas de Samba, independente. Aí a Globo chegou e falou: é muito melhor negociar com dez do que negociar com 120. E por isso que rachou. Agora, ultimamente está tendo até um movimento, porque eles também, não deu certo ali, tem um movimento de uma volta pra UESP. A UESP hoje é uma entidade muitíssimo respeitada.

Continuando a história, vou voltar. Como é que eu cheguei na UESP? Comecei a ir nesses eventos, produção de carnaval, coordenação de carnaval, eventos feitos durante o ano. Quando tinha campanha pra presidente – a Leia então já era uma pessoa muito importante dentro da UESP, como secretária – entrava diretoria, saia diretoria e ela se mantinha como secretária executiva. Era a pessoa que tinha tudo na mão. E sempre que tinha eleição, campanha eleitoral ela me chamava pra discutir: “ó Marcos, tem tal e tal presidente. O que você acha? Quem a gente vai apoiar?”. E a gente tinha uma certa força, até que chegou um ano que a Leia me chamou e falou: “Ô Marcos, vai ter eleição, o Robson vai sair, quem vai o ano que vem?”. Eu falei: “Você” “Você tá maluco?” “Você, você; chega de eleger os outros, vamos montar uma chapa”. Montamos uma chapa e ganhamos. Ela está há três mandatos lá. Ela fez um mandato absolutamente revolucionário, transparente. Ela fez uma primeira reforma na UESP. Dessa reforma ela adicionou o espaço de Centro da Memória e Documentação do Samba. Ela fez uma reforma na UESP. Teve o primeiro carnaval. Antes de chegar o segundo carnaval, ela fez uma reforma na UESP que, ela ficou fechada, quando reabriu o pessoal foi lá e falou: “Não, não é possível! De onde você tirou dinheiro pra fazer isso?” ela falou: “Da onde eu tirei? Tirei dinheiro da verba, por que?”. A UESP retém 5% da verba de cada escola pra administração. Você pergunta para os outros que passaram porque eles não fizeram. Porque olha, não tem mais dívida. Ela pagou todas as dívidas, – nós pegamos a UESP endividada – fez uma mega reforma. No dia da inauguração nós já tínhamos talão de cheques de novo, não tinha mais. A UESP estava assim, recuperada. Ela deu um status pra UESP, hoje, sem dúvida a entidade mais séria do carnaval de São Paulo. A ponto de ano retrasado a Liga teve a verba bloqueada. Teve problema de dívida, o juiz decretou que quando saísse a verba o Anhembi tinha que reter essa verba e passar para o credor. E a Leia, ingenuamente, com dó falou: “Não, então eu retiro. Retiro da UESP e retiro da Liga, e repasso pra Liga”. Ela foi parar na polícia. E o ano passado, de novo, eles não puderam retirar; o ano passado cada escola negociou um contrato com o Anhembi. Eles vieram falar com a Lea e ela falou: “Não, agora vocês se virem. Eu não vou mais correr esse risco”. E eles estão assim inadimplentes, ao ponto que a UESP. Então, qualquer coisa que se procure fazer. A gente está com um projeto de tombamento do samba de São Paulo, quem vai tocar isso? A primeira coisa que eles falaram, uma das coisas que eles falaram: “Olha, vai rolar muita grana. Tem que estar com a documentação, tudo em ordem”. Então, só pode ser a UESP.

 

P/1 – E o senhor que está coordenando esse projeto?

 

R – Eu estou coordenando esse projeto.

 

P/1 – Não foi duro largar a Tom Maior, que você trabalhou desde a fundação?

 

R – Não, a Tom Maior foi pra Liga. Nesse meio tempo a Tom Maior subiu e foi pra Liga. Aí eu tive que resolver. Mas aí não estava muito, não era nem diretor da UESP, mas já estava muito envolvido com a UESP. Eu não fui pra Liga com a Tom Maior, eu fiquei. Entendeu? A minha escola é da Liga e eu sou da UESP. E acho que foi a melhor coisa porque principalmente depois de começar esse projeto de memória, não imagino largar da UESP de jeito nenhum. E com o tempo eu vinha no Tom Maior, ensaiava as baianas. Na época do carnaval ensaiava e desfilava com as baianas.

 

P/1 – O senhor sempre teve participação na Tom Maior paralelamente.

 

R – Sempre tive. Paralelamente. Não como diretoria, me afastei da diretoria. Já tinha sido vice-presidente por pouco tempo na UESP; um presidente maluco, eu e a Leia ficamos de diretores tampões assim, saímos. E quando eu virei vice-presidente da UESP eu achei que eticamente eu devia sair da diretoria da Tom Maior, porque a Tom Maior era filiada à UESP. Aí não voltei mais a ser filiado à Tom Maior, e virei diretor da UESP, aí saí da diretoria pra assumir o centro de documentação. Mas todo ano eu vinha quinze dias, no mês de carnaval, ensaiava as baianas, comprava minha roupa e desfilava. Esse ano foi, quer dizer, o ano passado foi o último, porque esse ano eu parei, eu não vou mais na Tom Maior, não vou mais lá.

 

P/1 – Por que? Aconteceu alguma coisa?

 

R – Aconteceu.

 

P/1 – O senhor pode contar ou não?

 

R – Aconteceu que eu não tive roupa. Simplesmente isso. Não tive roupa pra desfilar. Não que eu – eu sempre paguei – mas ficou um jogo de empurra: “Não, fala com fulano”, “Não, ainda não tenho desenho”, “Não, não é comigo!” Entendeu? Eu vim direto um mês e meio aí. Até uma semana antes do carnaval me mandaram falar com um tal de Rogério, que eu não sabia. “Como é que é Rogério, a fantasia?” “Ah, não é comigo! É com o coordenador das baianas na avenida”. Eu falei: “Espera aí, o coordenador das baianas na avenida sou eu! Eu que saio com as baianas”. “Não, não é mais você. Você que é o Marcos? Não é mais você. Você vai falar com esse cara assim, assim”. Aí eu virei as costas e fui embora. Não tem cabimento! Eu tenho alguma importância nessa escola, né?

 

P/1 – Das pessoas que fundaram a Tom Maior muitas continuam lá? Algumas continuam ou já saíram?

 

R – Todas. Eu era o último remanescente.

 

P/1 – Você acha que houve uma mudança assim na escola?

 

R – É teve. É porque virou assim uma – eles dizem que é profissional – eu acho que meramente comercial. E ___ escola de embalo, e eu sou uma pessoa muito chata, entendeu? Eu preservo alguns fundamentos do samba, preservo mesmo. Eu sou contra a invasão da classe média na escola de samba. Eu me lembro que quando eu olhava essas revistas, quando criança, eu me lembro que uma das coisas que me atraia era a sensualidade. Eu tenho isso bem claro, mas hoje virou pornografia. Não sei se vocês estão entendendo. O desfile da escola de samba virou uma coisa, não é uma sensualidade da dança. Porque na época não tinha mulher pelada. Que eu via na revista não era mulher pelada, eram cabrochas com saia dançando. Mas eu lembro tinha um lance de sensualidade que eu sentia. Aliás, foi a primeira vez que eu senti negócio foi olhando essas fotos. Então eu acho que a escola de samba, a música, o samba, a dança, tem uma sensualidade sadia. E hoje virou qualquer coisa. Hoje a mulher desfila pelada assim. Por que a mulher tem que sair pelada? Pelada mesmo. Não é com... Algumas até sem se maquiar. Por quê? Não samba. Se fosse uma sambista! Mas é uma famosa, paga pra sair, entendeu? Paga bem. A Globo impõe – e isso tenho prova – a Globo impõe o artista que vai sair na escola. Entendeu? A escola paga esse artista – eu tenho prova disso. Se perguntar para o presidente ele vai negar. Mas eu tenho uma prova contundente dessa história, é uma história que eu quero contar também. No meio do caminho da minha vida eu tinha saído, o que aconteceu? Tinha acabado meu segundo casamento, aí estava desempregado também. Uma vez eu fui na casa de uma – hoje ela está na Itália – a Edna, que fazia fantasia pra shows de mulatas. E ela falou: “Você é de escola de samba?” Foi uma amiga dela que me levou: “Vamos conhecer a Edna!”. “É eu preciso fazer umas armações de arame. Você trabalha em barracão?” “Eu trabalho em barra também”. “Nunca peguei em arame”. E ela é uma pessoa muito chata, inconveniente. “Não, você vai fazer”. “Edna, você vai me desculpa, eu trabalho em barracão, mas com arame eu nunca lidei”. Ela disse: “Não, você vai fazer”. Ela foi lá, pegou o modelo. Porque o cara que fazia pra ela tinha sumido. Ela pegou o modelo de um porta seio, trouxe e falou: “Isso aí é fácil fazer” “Não sei nem por onde começar”. Ela pegou o arame, a fita crepe. “Você vai fazer – primeira vez que eu vi essa mulher – você vai fazer senão você não vai sair daqui. E você é capaz de fazer”. Aí eu, bom. “Ah, essa mulher! Eu não vou sair daqui!” Aí eu fiz. No outro dia a pessoa que tinha encomendado foi lá, ela ligou pra mim, queria mais seis. Falei: “Mais seis!”. “É”. “Mas, estava certo?”. “Certinho”. Coisa sobrenatural, né? Aí ela falou: “Precisa fazer umas cabeças”. “Aí você já abusou, né? Cabeça já é!”. Ela trouxe uma cabeça, desmontou e falou: “Ó, presta atenção”. Desmontou. “Agora faz!”. “Eu não vou fazer, Edna, não vou fazer”. E eu fiz, quando ela entregou a pessoa encomendou mais seis. Aí eu falei: Mas onde, onde que eu aprendi? Eu aprendi isso sabe onde? Vendo meu pai dobrar ferro como armador, que eu ia levar, ele trabalhava em obras perto de casa e eu ia levar marmita pra ele e ficava olhando ele trabalhar com alicate dobrando os ferros. Isso depois de muitos anos. Aí eu me tornei o melhor de São Paulo. Coisa maluca! Eu vivi disso muito tempo. De fazer armação. Aí aprendi a fazer costeira, a fazer vários tipos de cabeça. Inventei umas técnicas que só eu domino.

 

P/1 – Armação pra manequim?

 

R – Não, armação pra fantasia. Tem porta seio, tem cabeça, tem ombreira, tem costeira. Tudo isso é uma armação de arame, depois você decora. Mas tem uma armação de arame. Então eu me tornei especialista nisso. Uma das coisas mais loucas da minha vida.

 

P/1 – E o senhor fez isso em que época?

 

R – Comecei em 1990. fiquei até 1997 fazendo isso.

 

P/1 – Pra quais escolas de samba?

 

R – Principalmente pra show. Prá show, pra essas meninas que viajam pra fazer show na Japão. E a Edna já foi sambista, já foi rainha de bateria. Então ela tem um relacionamento muito grande, já teve grupo de samba, grupo de mulata. Ela também dá aula de dança, aí as meninas iam ter aulas lá. E essa era a minha clientela.

 

P/1 – E o senhor também desenhava?

 

R – Não desenho nada. Eu vou fazendo, é louco. Esse é um dos grandes sustos da minha vida. Como é que do nada comecei a fazer isso? E gostei. Parei quando fui eleito diretor da UESO. Porque aí não tinha mais tempo, né? Mas eu fazia pra Rosas de Ouro, pra Vai Vai, pra Tom Maior. Pra Tom Maior. Chego um dia na quadra tá lá no mural: “Luiza Tomé vai desfilar na Tom Maior e vai trazer oito seguranças”. Fui falar com o presidente: “Presidente, qual é essa? Luiza Tomé com oito seguranças pra quê? Você ainda põe no mural! Você está orgulhoso disso? Por que ela tem que trazer oito seguranças pra desfilar na escola de samba?” “Não, é que ela não sabe direito”. “Como é isso aí?” “Não, foi a Globo que indicou”. Ele falou: a Globo que indica quem vai sair. Esse menino que sofreu acidente, Gerson Brenner, foi indicado pela Globo, desfilou na Tom Maior. A Luiza Tomé. Adriana Bombom, que é hoje rainha da bateria. Só que a Adriana Bombom teve uma coisa legal. Ela se apaixonou pela escola. Então hoje ela paga pra sair. E aí ele veio falar comigo. Eu fazia a roupa das meninas da frente da bateria. A rainha da bateria, a princesa, a rainha mirim. Ela ia sair de musa da bateria. Eu falei: “Marcos, quanto você vai pagar pra essa mulher?” “Doze mil”. “Mas por que a Globo não paga?”. “Não, a Globo indica, entendeu, a artista vai lá à escola de samba e fala o cachê. Eu falei: “Qual a vantagem, Marcos? Qual a vantagem disso?” “Não, porque dá visibilidade pra escola, dá mídia”. “Mídia dou eu, mídia dá você, dá a Gisele, a Cristina, o Paraná. Nós somos os artistas, se toca. Larga a mão de ser bobo”. Mas não é só ele, é a maioria das escolas. Ele pediu pra eu fazer a fantasia dela. “Marcos dá pra você fazer, trouxe o desenho, a armação da fantasia?”. Eu tava fazendo o das meninas assim: eu fazia a armação, a gente saia, comprava, se cotizava comprava as plumas, as lantejoulas, entendeu? A Edna fazia – porque eu não costurava – a Edna fazia a tanga, e elas, a gente sentava e fazia junto. Isso a corte da minha escola. Aí ele falou: “Marcos dá pra você fazer a fantasia da Luiza Tomé?”. Falei: “Pô, claro que dá, meu”. É tá, então precisa comprar o material. Falei: “Não, espera ai, isso tem preço”. “Quanto você quer?”. “Quero seis mil”. “O quê?” “Eu quero seis mil pra fazer a fantasia dela”. Que aí, desses seis mil eu faço o das meninas daqui. “Onde já se viu!” “Que onde já se viu?” Entendeu? E aí aconteceu a coisa mais horrível. É claro que ele deve ter pedido pra outra pessoa fazer, mas eu acho que eu pedi pouco. Ela tá ganhando doze mil! Vou ganhar seis mil pra fazer a fantasia dela, né? Muito justo. Acabei não fazendo. Aí chegou na avenida, eu saí atrás da bateria, as baianas. Na frente da bateria vem a nossa corte, na frente da nossa corte o mestre sala e porta bandeira. E ela vinha na nossa corte. As meninas __. E eu estou andando com a, eu cheguei a vê-la na concentração, eu falei: essa mulher tá chapada. Tive a impressão. “Tenho a impressão que essa mulher tá chapada!” Aí eu estou andando, a ala das baianas, aí a bateria na minha frente começa a fazer assim, pender, sabe? Ficar pendente? Um lado da bateria parou o outro andou. “O que está acontecendo?”. Aí fui lá: na frente da bateria estava a senhora Luiza Tomé, linda maravilhosa, parada, semibêbada, dançando. Dançando, não – que ela não sabia nem andar no ritmo – se apresentando pra televisão, pros fotógrafos. O diretor de bateria em pânico, entendeu? Porque uma parte da bateria já estava atropelando o mestre sala e porta bandeira e ela lá, desfilando. Os diretores de harmonia da escola tudo babando com a Luiza Tomé. Aí eu cheguei lá e falei: “Luiza, vem aqui. Aqui tem muita gente perto de você; eu vou te colocar num lugar que você vai ficar isolada. Assim que passar a ala das baianas você fala comigo, tá?” Ela falou: “Tá”. “Então encosta aqui, deixa a bateria passar e daqui a pouco”. Mas ela sabe o que é ala de baiana? Ela não tem noção! Ela encostou e ficou esperando eu chamá-la pra voltar pro desfile. A escola acabou de desfilar e ela estava encostada lá, esperando.

A briga que eu arrumei com a escola!

 

P/1 – Isso foi há quanto tempo?

 

R – Isso foi em 2002.

 

P/1 – Faz pouco tempo. De lá para cá o senhor ainda continua.

 

R – Continuei, agora só esse ano que deu essa coisa lá e eu não quero ir mais não. Eu acho que eu não, é da idade não, eu não quero estátua, não quero nada. Eu só quero ser tratado como qualquer sambista, com respeito. Que eu vou lá prá. E a minha escola tem que me respeitar. Eu falei pro presidente na avenida: “Cara, você devia mandar a minha fantasia em casa!”. Ele falou: “Você é presunçoso”. Eu falei: “Eu sou, você devia mandar a minha fantasia em casa. Como eu acho que as pessoas que te sucederem aqui, quando você estiver na velha guarda da escola, as pessoas tem que te tratar com respeito”. É pra falar de coisa triste!

 

P/1 – E hoje o senhor na UESP? Conta um pouco desse projeto seu.

 

R – Então na UESP eu fui diretor por dois mandatos, diretor secretário. E ao mesmo tempo interessado pelo Centro de Documentação. Mas tinha o Max inicialmente. Depois o Max saiu, aí o Caio que era Office-boy,  começou a trabalhar com o Max, aí ficou tomando conta sozinho. Quando teve a última eleição há dois anos atrás eu falei: eu não quero mais fazer parte da diretoria, eu quero ir pro centro de memória e documentação, e fui pra lá. E a gente tá tocando vários projetos; já fizemos muita coisa. Está organizado, entendeu, está organizadinho, mas precariamente. Acondicionamento, não é refrigerado, poeira pura. Temos dois equipamentos só, dois computadores. Mas o nosso projeto que vai sair, se Deus quiser, este ano, é a digitalização, ambientação, equipamento pra poder atender mais pessoas com mais eficiência, mais conforto, mais informações. Porque com esse dinheiro a gente tem muito acervo de samba espalhado por aí. Cada pessoa que eu converso diz: “Tenho isso, tenho isso”.

 

P/1 – As pessoas que vão levar para o senhor?

 

R – É, o acervo inicial da UESP era de documentos gerados pela UESP, que eram resultados de carnaval, ficha técnica, samba enredo. E isso estava meio que abandonado. Esse era nosso fundo inicial. E aí, com a história de ser fundado o Centro de Documentação e Memória, algumas pessoas começaram a doar coisas. Quem tinha foi doando. Hoje o acervo está enorme. Aí, além dos documentos da UESP que são gerados anualmente, carnaval e tal; teve doação de livro, teve um professor da USP. Essas revistas o Cruzeiro. Teve um carnavalesco que disse: Ó, tem umas revistas lá de 1954. Falei: “Você está brincando!”. Doou pra gente. Então tem muita coisa. Têm muitos discos, sambas-enredo antigos, discos antigos. Discos atuais também. Não é um museu, é um acervo. Todo dia entra alguma coisa que vai ficando na memória.

 

P/1 – Você indo lá você fica com saudade do samba que você viveu?

 

R – Não, eu não tenho saudade. Eu estou vivendo o samba. Eu estou vivendo o samba de uma maneira que não poderia ser melhor. Faz falta. Esse ano eu vou pra avenida. Eu fui. Eu vou lá, eu tenho que ir lá. Na avenida eu vou na concentração da Tom Maior. Foi um baque, foi duro, foi muito duro. É claro, isso é muito gostoso. Embora o formato de hoje não me atraia mesmo. Mas é gostoso você passar com a sua escola. Embora não concorde com o formato, com o visual do ___ novo, entendeu? Visual global que se fala, né, tem que ser carro alto, caro alegórico, fantasia.

 

P/1 – Fica então em função da televisão?

 

R – Ah, sim. O visual quem escolhe são os da televisão. Em função da televisão mudou-se o visual. Contruiu-se o sambódromo no Rio, que é uma coisa alta. Tem muitos trabalhos sobre isso. A gente tem muita coisa lá, comprovadamente. O visual não só mudou como ele tem mais importância do que qualquer coisa. O visual é mais importante que o samba enredo, é mais importante que a bateria, é mais importante que a ala das baianas. É mais importante que o mestre sala e porta bandeira. É mais importante. Por que? Porque é um espetáculo de televisão. Então se a gente entrar cantando tango na avenida pra Globo tanto faz. O importante é que tenha as mulheres peladas, tenha os carros grandões, entendeu? Os efeitos especiais.

 

P/1 – E os sambistas antigos, como veem isso?

 

R – Ah, eles resistem, né? Resistem, tem uma coisa que você falou. A gente tem uma resistência muito grande, tem um sonho, entendeu? De que a gente fosse resgatar, retomar. Aqui em São Paulo tem muita gente que sonha. Que não é possível. Um dia, como é consumo – o que é consumido acaba – um dia vai acabar. Esse formato vai acabar. Um dia não vai interessar mais pra Globo. Ou a Globo vai à falência, não sei. Mas um dia vai pintar outra coisa. Carnaval vai ficar lá em São Paulo.

 

P/1 – Então hoje a tradição das escolas de samba não tão mais.

 

R – Existem alguns setores. Na velha guarda, na ala das baianas, porta bandeira. Alguns setores aonde os negros podem, tem uma história.

 

P/1 – Mas por quê? Tem essa discriminação?

 

R – Não tem uma seleção natural, custa caro. Então, tem uma coisa que você fala. Hoje tem a cota da escola de samba. Você assiste carnaval pela televisão? O presidente não grita lá? “Tem quinhentas fantasias para a comunidade!” Isso é cota. Não é cota? Quinhentas pessoas num elenco de quatro mil! Quinhentas tem direito, o resto tem que. Porque a comunidade não tem dinheiro, nem pra pagar fantasia. O sambista mesmo, o sambista pobre. Ele não tem grana pra pagar fantasia e nem pra assistir o desfile. Quarenta reais o ingresso mais barato. Na época que eu comecei, na Avenida Tiradentes, ia a família inteira: pai, mãe, vó, tio sobrinho. A família inteira na arquibancada. O público que desfilava era o público mesmo que estava assistindo. As pessoas iam pra assistir os filhos, o pai desfilando. Era a comunidade do samba que estava na avenida e na arquibancada. Hoje não está em nenhum desses lugares. O que fazer? Abandonar, não. Eu não acho que eu abandonei. Não é que eu abandonei o desfile da escola de samba. É que eu tive a felicidade de no memento certo da minha vida estar trabalhando com uma possibilidade de resgate, que é a memória.

 

P/1 – Você no começo tinha falado que a vontade de seguir a escola pela primeira vez era uma coisa de família já.

 

R – Então, isso é. Eu não sabia, eu vi essa revista. Eu me lembro, que a gente morava no Tatuapé, eu criança ainda. Escutava de longe a batucada. No primeiro ano que a Tom Maior desfilou, nós desfilamos na São João e depois nós desfilamos lá em Santo Amaro. Aí um tio meu, que morava em Santo amaro, estava na corda lá e me chamou. Falou, “Meu, você está realizando o sonho do seu pai!”. Eu falei: “Como assim?” “Seu pai era de escola de samba” “Não brinca” “O sonho de seu pai era por uma escola de samba na rua”. E isso a minha família me escondeu, nunca me falou. Diziam que o papai era um grande bailarino, um grande boêmio, mulherengo pra caramba. O rei da gafieira. Mas nunca falavam em escola de samba. Nunca falavam. Então é uma coisa maluca, a história do arame também. E olha, eu não convivi muito com meu pai, quando eu morava com a minha avó, meu pai estava pela gandaia da vida. Viajava muito, ele trabalhava pra uma empresa, eu fazia obras pelo Brasil. A gente conviveu muito pouco, mas essa convivência foi muito legal. Mas mesmo ele, ele não falava, a gente conversava outras coisas.

 

R – [pausa] Ele tem seis anos.

 

P/1 – Seis?

 

R – E ele sai dirigindo mesmo. Não é que ele saia, ele super concentrado. Então esse ano, por exemplo, tinha uma evolução, movimento da bateria que a bateria ia fazendo assim, uma coluna aqui, uma coluna ali. E ele ficava numa dessas colunas. Quer dizer, é um negócio muito rápido. Também ele não, é um negócio muito rápido, ele só tinha que ficar assim. Até aparelhar de novo, aí meu sobrinho retomava.

 

P/1 – O resto da família inteira acabou realizando o sonho de seu pai, né?

 

R – É.

 

P/1 – E os seus casamentos, conta um pouco. O senhor foi casado várias vezes.

 

R – Casado não, nunca fui casado oficialmente. Tive três esposas.

 

P/1 – Atualmente?

 

R – Nenhuma.

 

P/1 – Todas ligadas ao samba?

 

R – Não. Maria Elisa foi pro samba por minha causa, a Cíntia não era do samba, a conheci na USP, ela trabalhava na USP. E a Neuza também não era do samba. Eu morei com essas três, exatamente quatro anos com cada uma. Não sei porque. Quatro anos parece que é a cota de paciência das mulheres comigo.

 

P/1 – E quais são as suas principais lições de vida durante a sua trajetória? O que o senhor traz de aprendizado de vida.

 

R – De aprendizado, é ligado ao samba. O samba enquanto cultura é uma cosia muito séria, a cultura brasileira é uma coisa muito séria. Conviver em grupo é uma coisa muito boa. Respeitar as pessoas, aprender com as pessoas, ensinar as pessoas. Essa coisa eu aprendi tudo com a escola de samba. O respeito, a vontade de aprender, a vontade de ensinar. E o meu maior lema: o samba é ciência. Isso é um samba do João Nogueira, que fala, o samba é ciência e com consciência, só ter paciência que eu chego até lá. Eu gosto desse samba há muito tempo. Esse samba deve ter uns 30 anos. E agora eu estou tendo a felicidade de na prática comprovar: o samba é ciência. O ano que vem o carnaval da UESP vai ter um tema central: os 120 anos da abolição. Nós chamamos abolição inacabada. Mas esse título é interno, por enquanto, por causa de patrocinador e essas coisas. Então, por enquanto é 120 anos de abolição, mas na verdade é 120 anos de abolição inacabada. Pra tanto, todas as escolas de samba vão falar sobre cultura negra. Cultura negra enquanto forma de resistência. Enquanto forma de afirmação. E como é uma parte de enredo, essas coisas, caiu pra eu começar a organizar isso. Eu organizei o seminário, eu comecei a procurar pessoas, eu consegui oito palestrantes, sambistas negros, o que tem menos, tem mestrado na área de samba. Uma coisa maluca. Então existem hoje muitos cientistas interessados. O samba hoje é encarado pelos sambistas como ciência. Antropologicamente, socialmente, geograficamente. Tem uma menina fazendo um trabalho fantástico de geografia social. Está fazendo mestrado em geografia social. Ela está pesquisando lá no Centro de Documentação e Memória. Um trabalho fantástico, o samba como transformador da localidade que ele está instalado.

 

P/1 – O senhor tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de falar?

 

R – Eu cheguei a, fui funcionário público, cheguei a trabalhar em agencia. Agencia também foi uma coisa maluca. Aí eu aprendi criatividade no samba. Eu fui trabalhar numa agencia de propaganda, uma grande agencia, a Jarbas, como datilografo temporário, daí eu saí de lá um ano e meio depois como gerente de mídia. Tudo isso por causa de um sambista que também é publicitário e falou: “Ó, você tem que entrar na mídia, você leva jeito, você tem”. Eu queria falar de um cara, a quem eu devo tudo, que se chama Talismã. Talismã é um dos maiores gênios do carnaval brasileiro. Ele era carioca, radicado aqui em São Paulo, e que foi o cara que, um dia chegou pra mim e falou o que eu ia ser no samba. Ele falou pra mim o que eu ia ser. Ele falou, você não fica tocando cuíca, querendo dançar, essas coisas, você é pensador do samba. Ele me falou isso em 1972. Ele falou: “você é pensador do samba”. Eu fui conversar com ele por causa da invasão dos intelectuais no samba. Eu falei: “Tô preocupado, tá tendo essa invasão”. Ele falou: “Intelectual é você”. Ele falou isso. É o cara que me inspira, como todo sambista, morreu na pior, muito pouco conhecido. Digo que ele era gênio porque ele era antes da figura carnavalesco. Na época não existia essa figura que hoje manda no carnaval. Só que o Talismã, ele imaginava um enredo, aí ele escrevia o enredo. Ele imaginava a fantasia, aí ele desenhava a fantasia. Ele imaginava o carro alegórico aí ele fazia, confeccionava a fantasia. Ia lá nos carros alegóricos e confeccionava, fazia a escultura. E de quebra compunha o samba. Hoje ele seria consagradíssimo: carnavalesco. Na época não existia esse termo. Ele me ensinou também serenidade. Foi a pessoa mais serena que eu conheci. Fantástica. Eu me emociono quando falo dele, o grande Talismã.

 

P/1 – Tem mais alguma pessoa?

 

R – No samba é ele. Claro, eu tive grandes mestres, ___, Geraldo Filme. São grandes mestres. Tive a felicidade de conviver com grandes mestres, mas pra mim é o Talismã, sem dúvida.

 

P/1 – O senhor chegou a compor?

 

R – Não, não sou compositor.

 

P/1 – Nem de brincadeira?

 

R – Uma das frustrações que tenho. Não saber compor. Cantar a gente canta. Tocar também toco, alguns instrumentos. Mas compor nunca. E ao contrário de meu pai, sou um péssimo bailarino.

 

P/1 – Não samba?

 

R – Samba ainda engano. Meu pai era bailarino de gafieira.

 

P/1 – E hoje em dia você ainda toca cuíca?

 

R – Não, não toco mais não. Toco de brincadeira na roda. Tem uma coisa que eu também estou muito contente porque existem hoje muitos jovens fazendo samba de qualidade. Teve um período muito ruim. Tinha samba enredo e esses grupos também criados pela televisão, foi a Globo, foi uma das ações da Globo que deu certo ao contrário. Porque teve a lambada, precisa aproveitar alguma coisa. Eles começaram a inventar esses grupos de pagode na televisão. E isso despertou na juventude negra a vontade de ir pra televisão, e aí de fazer samba, de tocar samba. Eu me lembro que quando eu era criança eu morava ali na Pompéia, no reduto do rock, via pra cima e pra baixo jovem andando com guitarra. Hoje você vê jovem andando pra cima e pra baixo com cavaquinho na mão. É uma coisa que eu sempre sonhei na vida. O jovem está estudando música. O Caio se formou tocando sax, se formou em percussão, está estudando canto. E não é só ele, há muitos grupos de jovens fazendo samba de qualidade. Não é qualquer samba, não é esse samba da televisão, “catinguelês” da vida.

 

P/1 – Como senhor se sente ao dar esse depoimento para o Museu da Pessoa?

 

R – Feliz. É muito bom falar e saber que vai fiar registrado, isso é muito legal. E a gente fala, fala, ficando registrado, entendeu? Eu tenho alguns sonhos. Talvez daqui há 50 anos eu ficando __: “Pô, o cara realizou o sonho dele”. Pra mim é de extrema importância e emoção poder falar o que eu penso, quem eu sou.

 

P/1 – Então em nome do Museu da Pessoa nós agradecemos.

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