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História

Não troco o certo pelo duvidoso

História de: Luiz Francisco Xavier
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Luiz Francisco Xavier, nascido em Nazaré da Mata, é o caçula de um vigia ferroviário e que tinha o sonho de ser telegrafista. Quatro de seus seis irmãos foram também ferroviários, inclusive, foi um de seus irmãos mais velhos quem o ensinou o código morse. Luiz conta sobre sua infância em Nazaré e Paudalho, em uma casa em que quase tudo se cultivava e criava, fala também das brincadeiras e festas da região. Trabalhou muitos anos em estações em várias funções, em especial a de telegrafista e a de contador, em sua entrevista conta sobre o funcionamento das estações, sua vontade de sempre melhorar, as greves dos ferroviários e muitos causos e conflitos que marcaram sua carreira, mas que nunca o fizeram deixar de ser um exemplo de ética e de organização.

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História completa

P/1 – Então, senhor Luiz, obrigada por ter vindo. Eu gostaria de começar a entrevista com o senhor nos dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Luiz Francisco Xavier. Local de nascimento, Nazaré da Mata. O que mais?

 

P/1 – A data?

 

R – 20 de março de 1931.

 

P/1 – O nome dos seus pais, senhor Luiz?

 

R – Manoel Francisco Xavier e Maria José da Silva.

 

P/1 – Seu pai fazia o quê?

 

R – Ferroviário.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Prendas domésticas.

 

P/1 – Cuidava da casa.

 

R – Cuidava da casa, era costureira, era tudo. Naquela época, não tinha esse babado não. Hoje em dia costureira está tudo...

 

P/1 – (riso) E o senhor conheceu os seus avôs?

 

R – Conheci.

 

P/1 – O senhor lembra o nome deles?

 

R – O meu avô era Manoel também.

 

P/1 – Pai do seu pai?

 

R – Pai do meu pai. De parte de mãe não conheci não.

 

P/1 – O senhor lembra o que eles faziam de atividade?

 

R – O meu avô era agricultor.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho ou tinha?

 

P/1 – O senhor tinha irmãos quando o senhor era jovem?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Quantos irmãos, senhor Luiz?

 

R – Seis.

 

P/1 – E o senhor é qual dessa...?

 

R – O caçula.

 

P/1 – O caçulinha? Então, foi paparicado?

 

R – Tudo na mãozinha no fim do mês, etc e tal. Quando eu via que não dava mais para estar esperando, tinha um que dava. Sempre tem um que tem mais condições, que era tudo empregado. Às vezes, davam, na época, mil réis. O que tinha menos condições dava dois mil réis. Eu ficava por aqui: “Vou arranjar logo um emprego que é melhor.” Com catorze para quinze anos entrei para...

 

P/1 – O seu pai era ferroviário lá em Nazaré da Mata...

 

R – Ele foi em Nazaré da Mata, em diversos locais. Ele trabalhou na Estação do Brum, trabalhou em Nazaré mesmo e trabalhou em Recife.

 

P/1 – E ele fazia o quê?

 

R – Era vigilante, ou vigia, na época.

 

P/1 – Vocês acompanhavam o seu pai quando ele mudava de estação?

 

R – Não. A gente só mudou mesmo depois que ele veio para Recife. Ele quis se aproximar mais do local de trabalho. Nazaré já era mais distante, só tinha uma condução. O caso de Pau d’Alho tinha mais trem, nas horas de folga, ele vinha.

 

P/1 – O senhor passou a sua infância lá em Nazaré da Mata?

 

R – Parte. Até onze anos, mais ou menos.

 

P/1 – Como é que era Nazaré da Mata, quando o senhor era criança?

 

R – Nazaré, na época, era uma das principais cidades do estado, tinha em média duzentos engenhos. Tinha usina, duas usinas ou eram três. E funcionava mais na área de açúcar. Na época, chamava açúcar bruto. Agora é mascavo, não sei, inventaram um bocado de nome. Mas era feito no engenho. Carregava nos carros de boi, naquela época não tinha caminhão, era carro de boi, levava para a estação, armazenava na estação, que a maioria das estações tinha armazéns. Armazenava e de lá transpunha para os vagões da antiga Great Western of Brasil Railway. Era na época da Great Western.

 

P/1 – O senhor era menino, o senhor via essa movimentação na cidade?

 

R – Via, eu acompanhava isso tudo. Sempre fui muito curioso, tudo queria olhar, esse negócio. Tudo isso. Nazaré, eu acho que, na época, tinha quatro bancos: tinha a Caixa Econômica, tinha Banco do Brasil, tinha o Banco do Povo, e tinha um banco fuleiro que tinha lá, Caixa. Tinha hospitais, tinha colégios. Meu irmão formou-se lá no Colégio Santa Cristina. E tinha colégio de meninos, o Colégio São José, tinha outro colégio de moças que era o colégio de irmãs de caridade, não sei o quê. A cidade na época tinha um poder aquisitivo bom.

 

P/1 – O senhor estudou lá também, até onze anos...?

 

R – O começo foi. O primário foi lá.

 

P/1 – O senhor lembra da sua primeira escola, Senhor Luiz?

 

R – Lembro da primeira escola. A professora era Estelina. Estelina Mendes não sei de quê. Não estou mais lembrado não. A última vez que eu a vi, ainda era viva, há uns vinte anos quase, eu fui lá visitá-la. É muito raro? Não é raro não, é normal, eu acho. O que vou fazer? Fui até com a minha irmã e de lá a gente foi no colégio que ela se formou, etc., depois voltamos. Nunca mais fui lá.

 

P/1 – Isso o senhor diz em Nazaré, onde o senhor passou a sua infância?

 

R – Foi.

 

P/1 – E a sua casa? Era grande? Como era a sua casa?

 

R - A casa naquela época era grande, tinha dois, três quartos, sala, corredor, sala de jantar, cozinha, banheiro. Um quintal grande. Na época, se criava muito, se plantava muito. Meu pai gostava muito da agricultura, da origem dele. Vivia com uma tia em casa. Ele gostava muito de agricultura. Nas horas vagas, ele estava no roçado.

 

P/1 – Ah, que bom! Essa tia era irmã do seu pai?

 

R – Irmã do meu pai. Praticamente, tinha quase tudo em casa. Tinha porco, tinha galinha, tinha peru, tinha pato, tinha bode. No fim do ano, aquela corriola da classe mais ou menos se juntava, comprava um boi, ou alguém criava, aí matava no fim de ano aquele boi, e distribuía com aquela corriola. Eu, na época, menino, a gente ia tudo atrás das bexigas do boi, para botar na bola de couro, que a gente não podia comprar, que era caro, a gente fazia da bexiga o que chama hoje câmara de ar. Era aquela cachorrada de menino, com bola.

 

P/1 – Era o que mais vocês brincavam, de bola?

 

R – De bola, de burrego...

 

P/1 – De burrego? O que é burrego?

 

R – É um negócio que tem uma viga, botava outra no sentido horizontal, sentava um do lado do outro, e rodava. O burrego é esse.

 

P/1 – E o que tinha que fazer? Derrubar alguém?

 

R – Derrubar não. Era ficar bêbado! Ficava rodando, rodando feito um negócio!

 

P/1 – (riso) Aí saía...

 

R – Bêbado. Era burrego. Tinha aquele balanço antigamente, balançava, quem balançasse mais alto era campeão, aquele negócio, nas mangueiras.

 

P/1 – Uma infância mais ou menos divertida. Hoje em dia, a gente não vê mais isso. Fora programa de jogar carta, jogar aquelas bolas de... Como é aquele negócio de jogar? Academia, que a gente chama, para ganhar castanha. Jogava para ganhar castanha. Quando botasse o número maior, menor.

 

P/1 – Então brincou bastante?

 

R – Brinquei, brinquei.

 

P/1 – Como é que era, na sua casa, o cotidiano? Vocês acordavam, iam para a escola, tinha alguma tarefa para fazer em casa?

 

R – O começo da minha escola foi praticamente em casa. Que a minha irmã era professora. Muito cocorote, levei muito cocorote. Mas as primeiras letras, quando eu fui para a escola, eu já fui tendo noção das coisas. A carta de ABC e a tabuada, tinha que decorar aquelas frases todas: “Não sei o que comeu pimenta, comeu araçá.” Um negócio que tinha na carta de ABC. Hoje em dia eu não sei como é que está o estudo, o ensino. Minha filha mesmo é professora e ela sofre. Ela gosta do negócio mais ou menos certo. Mas o negócio está tudo errado, o método, para facilitar, para isso, para aquilo. Ela não é de facilitar. Puxou quase a mim.

 

P/1 – E senhor Luiz, vocês iam, vocês crianças iam com o seu pai para a estação?

 

R – Não, eu...

 

P/1 – Ele não levava?

 

R – Não, não levava não. Meu pai, na época, que ele trabalhava de noite... De dia, ia para o roçado, era um sitio que ele alugava. Minha mãe era quem costurava para a gente. Não me lembro se ela costurava para fora também. Mas eu penso que ela costurava. E minhas irmãs estudavam, meus outros irmãos estudavam. Quando chegaram à idade mais ou menos adulta, foram trabalhar. Tem o problema também da casa de farinha. Fim de semana, que era alugada. O dono da casa de farinha alugava. Aqueles produtores de mandioca iam processar o negócio nessa casa de farinha, eu ia também, que eu era menino. Todo mundo ia, minha mãe, minha tia, meu pai às vezes, meus irmãos, que estavam em casa de folga. Aí iam fazer farinha, eu via como era feito beiju, como era feito beiju de coco, como era feita a farinha. Tudo ali eu ficava só de olhar.

 

P/1 – Era uma mandioca que plantava no seu quintal, de casa...

 

R – No sítio.

 

P/1 – Ah, que interessante. No sítio. E aí levava...

 

R – Em casa era negócio doméstico, galinha, esse negócio, frutas, verduras, esse negócio tudo tinha.

 

P/1 – Sei. E levava nessa casa, processava e, depois, levava a farinha, que bacana, senhor Luiz!

 

R – Farinha para vender e deixava para casa também, para o consumo.

 

P/1 – E a comida lá da sua casa, era sua mãe que fazia?

 

R – Era minha mãe que fazia. Minha mãe, com uma tia.

 

P/1 – O que elas faziam de gostoso?

 

R – De gostoso era feijão e arroz. Feijão com arroz, de vez em quando saía uma panelada, que eles chamavam na época...

 

P/1 – Panelada tinha o quê? Tinha galinha, ou era...?

 

R – Panelada era carne de boi, carne de coisa, com verdura, que misturava o negócio. Muitas coisas eu não comia não. Até hoje eu não como.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – O quiabo e o maxixe, eu dizia na época que o quiabo era catarro e o maxixe era cuspe. Desde essa época de menino que eu não como, até hoje. Quiabada, como se come um troço daquele eu não sei. Tinha mungunzá, tudo se fazia em casa, na época. Arroz doce. Criação de porcos que, às vezes, eu acompanhava, para levar lá para o barrão. Sei lá, cachaça, um troço lá. Leva as porcas para lá, fazer o ato lá, etc. Havia a criação, a ninhada. E dessa ninhada, vendia, apurava um dinheirinho. E quando matava um macho, aí fazia linguiça, fazia carne de sol de porco, toucinho, banha.

 

P/1 – Tudo em casa?

 

R – No quintal.

 

P/1 – Tudo do quintal. Que beleza.

 

R – Galinha não se comprava.

 

P/1 – Ovo...

 

R – Porco não se comprava. Ovo não se comprava. Verdura. Hoje em dia está tudo cheio de mato. Antigamente, os cacos eram feitos com coentro, com cebolinha, com isso, com aquilo. Pé de tomate. Hoje em dia, não vê nada disso. O povo só quer criar espinho e mato dentro de casa. A gente fica sem saber para onde é que esse mundo vai. Eu não sei.

 

P/1 – E senhor Luiz, o senhor falou do Natal, que tinha a história do boi. Tinha outra festa que fosse importante, fora o Natal?

 

R – Tinha o Natal e tinha o negócio de São José, de novena. Tem o negócio de novena.

 

P/1 – Sei. Em março, pertinho do seu aniversário?

 

R – Perto de lá, na rua, esse pessoal comemorava novena, eu não sei de que santo era, eu não entendia negócio de santo. A gente via aquilo, cheio de lanterna, aquele negócio, aquele altar bem arrumado. Não sei se era São José, São João, não sei. Eu sei que o São João era muito animado, São Pedro também. A festa máxima de lá era Nossa Senhora da Conceição. 8 de dezembro, né? Aí era festaça, lá era Nossa Senhora da Conceição. E tinha o 13 de maio, que tinha uma negra lá que chamavam de Mãe Dinda e o povo a reverenciava. Uma vez eu fui e fiquei perdido, aí me encontraram depois lá não sei onde, chorando. Um conhecido me encontrou e me levou aonde estava a minha tia, que era muito devota. Minha tia, minha irmã, minha mãe era mais ou menos. Minha tia e minha irmã eram muito devotas. O carnaval era animado também.

 

P/1 – Tinha bastante festa até, não é?

 

R – Tinha. 

 

P/1 – Fazia o quê? Quermesse na rua?

 

R – Não se falava em negócio de quermesse naquela época.

 

P/1 – Não? E como é que era?

 

R – As festas eram normais. Negócio de festa particular, se tinha, a gente não tomava parte. A não ser da classe lá de cima. Não sei. A minha professora mesmo, que era da classe lá de cima, meu padrinho também era...

 

P/1 – Mas vocês iam nessas festas de rua?

 

R – Ah, nas de rua, íamos.

 

P/1 – Então, o senhor fez o primário em Nazaré da Mata, depois vocês mudaram para Recife? O senhor terminou o primário em Recife?

 

R – Não, eu terminei o primário em Paudalho.

 

P/1 – Ah, vocês mudaram antes?

 

R – Em Paudalho, eu cheguei em Paudalho com dez anos, mais ou menos, e fiz parece que o terceiro ou quarto ano.

 

P/1 – Paudalho era menorzinha que Nazaré?

 

R – Era menorzinha. Era do tamanho de São Lourenço. Na área só tinha mesmo Nazaré, Timbaúba, Limoeiro, Carpina, Surubim. Eram as maiores. O resto tudo era pequena.

 

P/1 – Mas a casa de Paudalho também era boa?

 

R – Era boa.

 

P/1 – Mas não tinha tanta coisa? Ou tinha também?

 

R – Tinha não.

 

P/1 – Criação já não tinha mais?

 

R – Tinha. Tinha criação. O velho sempre gostou de agricultura, sempre teve. Agora o problema é que hoje em dia não existe mais isso.

 

P/1 – E de Paudalho foi que vocês vieram a Recife?

 

R – Não, eles continuaram lá em Paudalho. Eu fugi para trabalhar.

 

P/1 – Fugiu, senhor Luiz? Como assim o senhor fugiu?

 

R – Fugi não, modo de dizer. Fugi de lá, daquela área ali.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha quando o senhor saiu de lá?

 

R – Catorze anos.

 

P/1 – Catorze anos? Foi quando o senhor decidiu que já tinha que ter o seu dinheiro?

 

R – Antes eu já estava meio invocado com esse negócio. Um dava mais, o outro dava menos. Quem podia mais, dava menos, quem podia menos, dava mais. Eu já estava por aqui, eu disse: “Eu quero trabalhar de qualquer jeito.” Aquele negócio de estação, meu irmão era telegrafista da estação. Aí fui me adaptando melhor e pratiquei lá. Quando vim para Paudalho continuei e me aproveitaram lá.

 

P/1 – O seu irmão levava o senhor então para a estação e o ensinou a mexer com o telégrafo?

 

R – Primeiro ele deu o alfabeto para eu decorar. Depois que eu decorei o alfabeto, foi que ele me levou. Antes não.

 

P/1 – O senhor treinava em casa então?

 

R – Decorava o alfabeto morse em casa. Quando eu fui para lá já sabia decorado. Então, bater no manipulador, no caso, eu já sabia, já dava para fazer alguma coisa.

 

P/1 – Sei. Isso com catorze anos?

 

R – Catorze anos.

 

P/1 – Com catorze anos, então, o senhor começou nessa função. Foi contratado, senhor Luiz, como é que foi?

 

R – Isso era de graça. A gente era praticante. Aprendiz, no caso. Eu passei um ano, dois anos quase. Depois em Paudalho foi que veio a oportunidade, que eu comecei a trabalhar, com quinze anos. Aí de quinze até me aposentar, não parei mais.

 

P/1 – Foi um concurso, não? Como o senhor ingressou?

 

R – Foi um teste. O inspetor da época, que ia para lá, quando era para ser aproveitado, era indicado. Fulano, sicrano, aqueles que se sobressaíam mais, eram convidados para ir lá, quando tinha vaga. Lá ele era também da área, que ele era telegrafista, chefe da estação. Chegou a inspetor. E sabia de tudo. Aí fazia o teste lá, aí mandava.

 

P/1 – Quer dizer que o seu pai e o seu irmão... Mais alguém da família foi ferroviário, senhor Luiz?

 

R – Tive três irmãos ferroviários. Quase quatro. Porque o outro, o que era motorista abandonou, trabalhava na Oficina de Jaboatão, mas não se aguentou lá. Foram quatro ferroviários, comigo cinco.

 

P/1 – O seu pai vigia. Aí o seu irmão como chamava, que era o telegrafista?

 

R – Severino.

 

P/1 – Severino telegrafista, depois quem mais?

 

R – Tinha o Otávio, Manuel, e eu.

 

P/1 – O Otávio fazia o quê?

 

R – Era vigia.

 

P/1 – Vigia também, como o seu pai. E o Manuel?

 

R – O Manuel era manobreiro.

 

P/1 – Manobreiro. E o senhor que acabou, entrou como telegrafista, não é, senhor Luiz?

 

R – E terminei técnico em contabilidade, mas não davam o valor ao pessoal da estação. A meu entender, deviam aproveitar, até para o escritório de inspetoria, de tráfego, o pessoal de estação porque tinha noção de tudo que funcionava. Na área de despacho, mercadoria de bagagem e mercadoria de carga. Entendia de bilhetagem, tinha o bilheteiro. Tinha o outro que circundava desse negócio de manobra, caixa de manobra, esse negócio todo. Tudo isso esse pessoal de estação... Os códigos, material de telegrama, telegrama de serviço, telegrama mútuo, que era telegrama com o correio, tinha o telegrama próprio, que era o telegrama das estações. Tudo isso o chefe da estação sabia. Então, um cara desses era para ser aproveitado lá nesses locais, que eles só faziam um serviço e mal. Eu sempre era revoltado com isso. Quando eu tive uma oportunidade, fiz uma força para sair. Eu digo: “Eu quero descansar também, não vou ficar a vida toda aqui.” Aí, houve uma oportunidade... Uma encrenca que teve lá, eu fiz a comunicação de um filho de um chefe, eu era ajudante, chefe ajudante, e o cara era o chefe. O chefe tinha um filho, esse filho, aproveitaram para colocá-lo no quadro, para trabalhar de qualquer coisa, servente, guarda-chaves, etc. e tal. Na ocasião, eu estava trabalhando à noite, como agente noturno, o cara deixou um trem parar no poste-sinal, no caso, que antes das estações tinha o poste-sinal, e o trem só podia entrar se tivesse o sinal verde. No vermelho, o cara era avisado que vinha o trem tal, virava o sinal, ele entrava. Ele deixou no vermelho, o trem ficou lá parado, mais de meia hora, ou quase uma hora. Demorou, demorou, o condutor do trem chegou na estação, mais ou menos trezentos a quatrocentos metros, a pé. O trem está parado lá, no poste, assim, assim, assim, não tem ninguém que dê entrada. Aí ele: “O que foi que houve? Fulano não está lá não?” Olhei pela tabela, pela escala, telefonei, atendeu um cara que não era o dito cujo. Aí ele: “Bem, então, tem um estranho lá.” Fui lá, que era a mais ou menos uns duzentos metros, levei um auxiliar, de serviços gerais. Cheguei lá: “Quem é você, rapaz?” “Eu sou o primo de fulano” “Por que primo de fulano? Quem foi que mandou, que determinou para você vir para cá?” “Foi o pai de fulano.” Eu digo: “Você é particular? É até um crime. Vai embora e diga ao seu tio que o filho dele está afastado.” Deixei logo homologado e dei a entrada no trem. No dia seguinte, foi a maior bagunça do mundo, porque a política lá na época, João Goulart. Eu não era dele, mas também não era de cá. Eu era mais ou menos divisor. O que estava certo estava certo. O que não estivesse certo, eu dizia logo. Mas era mais de oposição, no caso. Aí me deram férias, sem ter direito. Eu tinha lá a comunicação que eu fiz, a comunicação por escrito e passei um telegrama de serviço. Na época, a gente tinha o telegrama de serviço. No telegrama de serviço, eu pedi um inquérito administrativo. Fizeram o inquérito, a comissão de inquérito, tudo, mas eles sabiam o resultado. Pedi só para garantir: “Bem, como vai ficar?” Deram-me férias, antes do tempo, tentei procurar um meio para sair de lá. Depois das férias, eu fui a um rapaz que trabalhava em São Lourenço, que era chefe lá da contadoria, ele gostava muito de mim, etc. e tal, a gente viajava no trem: “Eu vou lhe requisitar para lá.” Requisitou.

 

P/1 – Mas antes da gente chegar aí, eu fiquei sem entender algumas coisas. O senhor ficou como telegrafista em Paudalho. De Paudalho o senhor foi para onde?

 

R – Eu fui para Pirassirica, ou Santa Rita, ou Mussuré, porque na época ninguém... Eu sei que na época era Pirassirica.

 

P/1 – E depois?

 

R – Eu voltei para assumir Jaboatão.

 

P/1 – Jaboatão. Sempre como telegrafista?

 

R – É, como telegrafista.

 

P/1 – Depois?

 

R – Depois me deram o chute lá, porque tinha gente mais antiga lá e eu era novato. Colocaram um efetivo lá, aí me jogaram para um inferno, que tinha em Werneck.

 

P/1 – E Werneck era ruim?

 

R – Era. Tinha três linhas, um movimento desgraçado. Nos primeiros dias, eu era capaz de chorar.

 

P/1 – É?

 

R – Ôxe.

 

P/1 – O que fazia o telegrafista, Senhor Luiz?

 

R – Dava licença aos trens, através do código morse e registrava tudo, avisava o guariteiro, que era o guarda-chaves, para dar entrada no trem: “Pediu licença o trem tal.” Inicial. Que quando dava a partida da outra estação, a gente avisava para ele: “O trem tal partiu. Coloca-o na linha tal.” Que lá tinha quatro ou cinco linhas. Era um pátio ferroviário grande.

 

P/1 – Em Werneck?

 

R – É. Na principal, na plataforma principal, tinha quatro linhas, mais ou menos. Tinha a principal, tinha a segunda, que era cruzamento de trem, de passageiro, o resto tudo era negócio de carga. O trem, bota na linha tal, quando tinha linha. Quando não tinha, a gente tinha que se virar para arranjar linha para colocar o trem, porque tinha que guardar de qualquer jeito. Aproveitavam-se outras linhas, que eram em triângulo. Vinha trem de Recife para Boa Viagem, Cabo; de Tejipió também para o Cabo e de Recife para Jaboatão. Então, ficava o triângulo. A gente arranjava um meio, se não tivesse vagas nas principais, que era tudo cheio de vagões de carga e as duas principais eram para trem de passageiro; então, a gente passava direto em uma dessas linhas secundárias. Mas tinha linha lá que a gente se virava, botava por lá.

 

P/1 – O senhor ajudava então a achar esse lugar para...?

 

R – Tinha gente para isso.

 

P/1 – Mas o senhor acompanhava?

 

R – O telegrafista colocava. Depois que o bicho chegava, não era mais problema meu. Chegou, não era mais problema meu, era problema do responsável pela movimentação dos vagões. Chamava compositor, mas era chefe da estação também, esse era quem tomava conta de tudo: formava trem, distribuía trem, separava trem. Quanto estava pronto, ele chegava lá na estação: “Fulano, pede licença para o trem tal.” Pedia licença através do telégrafo, na estação, para a estação seguinte e seguia o dia todinho assim.

 

P/1 – Vamos continuar a nossa listinha de estações. Depois de Werneck, o senhor foi para onde?

 

R – Fui para Contadoria.

 

P/1 – Aí foi quando aconteceu o problema? Em Werneck aconteceu o problema?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor falou em João Goulart, era o que? Anos 1960?

 

R – O pai dele era do pessoal grevista da época, era da corriola. Eu era mais à esquerda... Mais à esquerda não, mais ao centro. Que a esquerda naquela época já existia, como existe hoje. Mas era mais o centro. Quando estava certo, estava; quando não estava, o primeiro que dava tapa era eu. Aí eu fui para a Contadoria.

 

P/1 – A Contadoria que era já em Recife?

 

R – Em Recife, na cidade.

 

P/1 – Nessas estações todas nas quais o senhor trabalhou, o senhor já disse que em Werneck era bastante trabalho...

 

R – Era o inferno! Era o inferno, ninguém descansava não. Era suar mesmo e eram doze horas de serviço.

 

P/1 – Isso que eu ia perguntar, o período era de doze horas? Que hora o senhor entrava e saía?

 

R – Das 6 às 6. Das 6 às 18.

 

P/1 – Todos os dias?

 

R – Com horário de almoço, uma hora de almoço, duas horas, dependendo do chefe de plantão.

 

P/1 – Era turno, senhor Luiz? Descansava sábado e domingo, não?

 

R – Não. Descansava, tinha uma folga na semana.

 

P/1 – Então eram seis dias, com uma folga na semana?

 

R – Uma folga na semana.

 

P/1 – Era muito pesado mesmo, não é?

 

R – Que era, era. A gente não tinha meio de reduzir esse horário. Porque em Recife eram oito horas. As outras repartições todas eram oito horas. Mas na estação eram doze. Mas a gente precisava também.

 

P/1 – Além de Werneck, alguma outra que o senhor pudesse contar alguma característica? A de Jaboatão era mais tranquila?

 

R – Era mais tranquila, porque só tinha uma linha, para lá e para cá. Uma linha, um trem, uma estação de um lado, uma estação ao norte, outra no sul.

 

P/1 – Aquela que fazia o triângulo?

 

R – Não, essa não, essa era mais distante. A que fazia triângulo era Tejipió, mais próxima. Jaboatão era mais distante, uns quinze quilômetros depois.

 

P/1 – Paudalho era tranquila?

 

R – Era. Interior, uns dez trens por dia só, entre carga e passageiro, em Paudalho. Em Nazaré, já diminuía, porque tinha trem que entrava para Limoeiro, não entrava para Nazaré.

 

P/1 – Só passava.

 

R – Reduzia.

 

P/1 – E aquela outra que o senhor falou, que eram três nomes, juntas...?

 

R – Ali era Pirassirica. O nome era Pirassirica. Porque antes era Santa Rita, depois mudaram, não sei por que, política, sei lá. Mudaram para Mussuré, depois de Mussuré, mudaram para essa Pirassirica, que eu não sei nem o sentido, a tradução disso eu não sei.

 

P/1 – E essa também era mais tranquila?

 

R – Era tranquila, era igual a Paudalho. Essa área, depois de Carpina até São Lourenço, era mais tranquila.

 

P/1 – Aí o senhor já veio para a Controladoria. Isso o senhor estava o que, com uns trinta anos?

 

R – Contadoria.

 

P/1 – Contadoria. O senhor já tinha uns trinta anos? Por que se foi no ano 1960...

 

R – Foi no ano 1964, mais ou menos. Eu estava com...

 

P/1 – Antes do golpe militar, então? Ou depois?

 

R – Foi nesse meio. Mas foi antes. Foi antes do golpe, porque aí ninguém mandava mais, não é? Em 1962, passei um ano na Contadoria, mais ou menos um ano, 1963. Foi mais ou menos isso, em 1963.

 

P/1 – O senhor estava com uns trinta anos?

 

R – É, 1960, trinta com trinta... Uns trinta anos mais ou menos.

 

P/1 – Aí, saiu de ser telegrafista para a Contadoria. Foi muito diferente, senhor Luiz?

 

R – Foi, porque lá eram oito horas, abaixaram quatro. Ia fazer só um serviço, conferir mapa de bilhete, que a gente fazia lá na estação. Então, ia conferir, ticar aquilo tudinho. Se estivesse certo dava o tique, que não estivesse, extraía a folha de emenda, que a gente dizia, a diferença debitava ao chefe da estação. O que a gente já fazia lá na estação, isso e mais alguma coisa, na Contadoria, só fazia isso.

 

P/1 – Que bom, hein?

 

R – Aí, foi o céu.

 

P/1 – Quer dizer que na estação todo mundo fazia tudo?

 

R – Tudo. Ainda, às vezes, trabalhava até de guarda-chaves. O guarda-chaves adoeceu, caiu, quebrou, a gente ia, virava a agulha, pronto.

 

P/1 – O que é o guarda-chaves?

 

R – Aquele que abre, que dá entrada para o trem, que fecha e abre aquela agulha para entrar o trem, para mudar de direção o trem.

 

P/1 – Então, na estação fazia tudo, e aí o senhor foi para lá. Como era esse negócio? A estação emitia o bilhete e o que ela mandava, um relatório?

 

R – Fazia o mapa, recolhia o dinheiro diário. O bilheteiro vendia o bilhete, arrecadava o dinheiro, fazia o mapa, entregava o dinheiro ao chefe. Na semana, tinha um mapa semanal daqueles mapas diários. A gente fazia também.

 

P/1 – Isso é o que ia para lá?

 

R – Tudo ia para lá.

 

P/1 – Tudo ia para lá? O diário e o semanal também?

 

R – O semanal era a semana, né?

 

P/1 – O senhor tinha que conferir...

 

R – Lá, eu conferia.

 

P/1 – Se tivesse alguma diferença, quem pagava era o chefe da estação?

 

R – O chefe da estação porque cobrou errado, fez o serviço errado. Errado não, porque ele não podia errar, porque o bilhete tinha o preço fixo. Então, não podia errar. Agora, no mapa, se estivesse errado, no caso, era o bilheteiro. O bilheteiro que errava, o telegrafista que fazia o telegrama, cuidava da área telegráfica, telegrama de serviço, etc. Se estivesse errado, a emenda ia para o chefe e o chefe distribuía para quem era o responsável na verdade. Se fosse despachante, de carga ou de bagagem, ia para o despachante.

 

P/1 – O dinheiro todo ficava com o chefe da estação?

 

R – Com o chefe.

 

P/1 – Mas, senhor Luiz e se ele quisesse roubar o dinheiro?

 

R – Ah, e tinha gente que, por incrível que pareça, roubava.

 

P/1 – Imagino que sim. Muitos roubaram, senhor Luiz?

 

R – Roubaram, muitos foram demitidos. Na época era muito...

 

P/1 – Era muito dinheiro.

 

R – Ainda tinha o mapa semanal, o mapa de bilhete semanal e o mapa mensal. Agora, já pensou isso, com três trechos, com três troncos de linha, Norte, Centro e Sul, dois, quatro, seis mapas por mês, desse tamanho o bicho, que pegava as estações todinhas...

 

P/1 – Era feito à mão?

 

R – À mão. Não tinha nem...

 

P/1 – Nem cabia aquele papel em máquina, não é, senhor Luiz?

 

R – Era tudo número, número, número...

 

P/1 – Quer dizer que vinha de todas as entradas de dinheiro. Quer dizer, não só bilhete, mas as outras funções...

 

R – Telegramas, despacho...

 

P/1 – Despacho... Nossa, muito dinheiro, hein?

 

R – Ainda tinham arrecadações extras. Que a gente comprava uma coisa, uns trilhos, comprava não sei o quê. Tinha um documento lá, parece que era T-46, que dava o recibo. Para quem ia passar telegrama, a gente dava o recibo. Essas vendas extras que mandavam recolher na estação, a gente extraía um recibo daqueles e dava.

 

P/1 – O senhor casou, namorou? Como era a sua vida fora do trabalho? Tinha tempo de namorar, paquerar as meninas?

 

R – Posso dizer mesmo?

 

P/1 – Pode, lógico. Desde que a sua esposa... O senhor é casado ainda, ela vai assistir a entrevista.

 

R – Ôxe! Vai passar aonde? Diga lá para eu desligar o canal. (Risos)

 

P/1 – Como é que foi então isso, senhor Luiz?

 

R – Não, era normal, eu sempre fui metódico. Eu não gostava de muita safadeza. Até naquela época que tinha esse negócio burlesco. Eu ia para lá, as mulheres todas mostrando o bumbum, mostrando o seio, o que eu ia fazer num lugar desses? Era me irritar, porque não podia puxar nenhuma daquelas para resolver meus problemas. Então, eu sempre fui prático, ia para um lugar que acontecesse. A não ser isso, namorar? Namorei um bocado, saí escolhendo, escolhendo, escolhendo, ao final estava com uma, com duas, fui pesar, fui pesando, pesando... Aí, surgiu uma que me amarrou até hoje.

 

P/1 – Como ela chama, senhor Luiz?

 

R – Dona Mariete. 

 

P/1 – E o senhor casou com ela quando?

 

R – Em 1955.

 

P/1 – 1955. Então, ela te acompanhou bastante nessa sua vida, não é?

 

R – É, com muita, como é que se diz, disposição, porque eu sou meio chato, chato mesmo. Sempre fui. É assim: isso é certo, certo. Se for errado, não conte comigo.

 

P/1 – E ela mudou também com o senhor, nessas suas andanças?

 

R – Eu escolhi muito bem, eu acho que escolhi muito bem. Estou satisfeito até hoje, não tenho o que dizer não. Criei três filhos, todos os três já estão casados, por conta própria. Agora só quem está aporrinhando são os netos.

 

P/1 – São muitos, Senhor Luiz?

 

R – São oito.

 

P/1 – Oito netos?

 

R - Três filhos, oito netos.

 

P/1 – Que bom, não é?

 

R – É.

 

P/1 – Muito bom, construir uma família.

 

R – É.

 

P/1 – O senhor estava lá na Contadoria. O senhor ficou um ano, foi isso?

 

R – Passei um ano.

 

P/1 – E aí, de lá, o senhor foi para onde?

 

R – Houve uma vaga na Inspetoria do Setor Diesel em Werneck, que é justamente o centro ferroviário. Aí, o chefe de lá era filho de um chefe de estação conhecido meu: “Eu vou falar com fulano para te requisitar para lá.” Falaram, deu-se a vaga nesse local, aí mandaram eu me apresentar lá.

 

P/1 – Lá, na Inspetoria.

 

R – Inspetoria Diesel, Setor Diesel. Tinham duas Inspetorias, tinha a Inspetoria de Manutenção e a Inspetoria de Recuperação. Tem dois tipos de oficinas. Uma fazia a manutenção, e a outra fazia a reparação. Eu fui para a Inspetoria de Manutenção, fiquei lá no escritório...

 

P/1 – Isso em Werneck?

 

R – Em Werneck. Fui transferido para lá, fiquei lá por um tempo, fui aproveitado lá no negócio, problema de dinheiro nada, só o extraordinário. Fui indicado para assessorar o chefe de sessão, o chefe do escritório, no caso. Porque eu tinha o mau costume de querer ser organizado, só isso. Onde eu chegava, eu fazia, projetava um negócio, bolava um negócio que simplificasse o negócio. Eu simplifiquei muita coisa nessa Inspetoria, aí me indicaram para fazer um curso de Apuração de Custo Industrial, lá no Setor de Mecânica, em Jaboatão. Lá, a oficina geral era em Jaboatão, tinha oficina de tudo lá. Eu passei uns três meses lá e vim instalar essa apuração de custo industrial. Eu terminei lá, eu e mais uns de outras oficinas, de outros setores e fui instalar lá em Werneck, no caso, onde tinha sido transferido. Comecei a fazer o serviço, dentro das normas que controlavam a hora de saída, de chegada, esse negócio, essas coisas. A apuração industrial era justamente a despesa da manutenção, a despesa da reparação, material, pessoal e diversa. Eu bolava esse negócio, através de documentação, tinha ordem de serviço para tudo, tudo que fizesse tinha que ter uma ordem. Criei um outro sistema de pedido de material, para distinguir a parte Diesel da parte geral, criei o outro pedido material, que era L5, aí, criei esse L5-D, que representava o pedido de material para o Setor Diesel. Controlava, apurava tudo e mandava tudo para Jaboatão. Jaboatão é que tinha o centro... No fim do mês saía, despesa de locomotiva por locomotiva, tudo ali, material, pessoal, diverso. Mas houve uma confusão, que vieram os três rapazes de Jaboatão, não sei se veio estagiar comigo ou não, veio aprender lá. De Jaboatão, de lá do centro, onde eu aprendi, eles vieram para cá. Eu removi tudo. O sistema tudo do inglês ainda, eu digo: “Está tudo errado aqui no meu entender. Vamos...” Até o pessoal de lá ficaram com raiva de mim. Porque eu criei um sistema que tinha cara lá que passava a semana todinha numa máquina, tabulando os quadros. Aí eu digo: “Não. Não vou aceitar isso não.” Aí eu bolei, fiz os croquis, tinha um engenheiro lá que trabalhava no material, e trabalhava lá também. Aí eu: “Doutor, acontece isso, isso, isso e isso. E eu quero isso aqui. Porque esse serviço aqui é muito demorado e só faz mesmo atrapalhar. E eu quero um negócio rápido.” E existia já nessa época, chamava mecanizada. Era máquina antiga, aí botava lá, ela: “Shhhiiii.” Colocava o resultado todinho, no mapa, feito à mão, em máquina de datilografia. Mas deixa para lá. Aí o resultado é que...

 

P/1 – O engenheiro gostou...?

 

R – Do serviço, e mandou. Ele gostava. Depois que ele foi para lá, ele quis me levar para trabalhar lá com ele.

 

P/1 – Quem era, senhor Luiz? O senhor lembra o nome?

 

R – Era Romero Gomes da Silva Bastos. Ele: “Vamos para lá!”, não sei o quê. “Não, doutor, não quero não.” “Mas rapaz!” “Não quero não.” Porque eu já vim de lá, eu não gosto de trabalhar em zona. Naquela época era zona. O ambiente não é para mim, e eu não gosto.

 

P/1 – Esse lá era aonde, para onde ele foi? Onde era?

 

R – O Departamento de Material, que era lá no dito local que só tinha gente boa, né? Era zona, né? Mulheres fáceis, aí eu não quis. Já vim de lá, passei um ano lá, sabia o ambiente todo, não quero. Ainda tinha o problema do transporte, eu trabalhando aqui, pertinho de casa, ia a pé se quisesse, para ir para lá, pegar ônibus, pegar trem. Naquela época, no trem, o cara andava até em cima dos carros. Aí, eu não aceitei. “Então, me indica outra pessoa.” Eu indiquei, mas o cara também não aceitou. Tempos depois, o cara era chefe de setor, o cara o qual queria me levar foi chefe de setor. Mas é a vida, né?

 

P/1 – É lógico.

 

R – O resultado é que, nesse caso, eu tive uma desinteligência lá, porque eu falei dos três rapazes que vieram para cá. Um deles tomou banho na hora do expediente e eu não sabia. Ele era, esqueci como é que a gente chamava antigamente. Era provisório. Chamava lá G-5. Todo mês fazia a requisição para o pagamento dele, não era efetivo. E o engenheiro me chamou, eu fui, era outro engenheiro, não adianta dizer o nome dele não, porque o cara está muito alto: “Fulano, eu estou sabendo aqui que fulano tomou o banho no horário do expediente.” Eu olhei assim, pensei logo: “Isso deve ter sido alguém lá de Jaboatão.” Ele disse: “Quais são as medidas que você vai tomar?” “Eu não vou tomar nenhuma. Eu acho que é mentira. Não aconteceu isso.” “Mas aconteceu.” Eu digo: “Bem, vamos fazer o seguinte. Eu não gosto de trabalhar, só venho aqui quando os senhores me chamam. Agora tem gente aqui que só vive aqui. E no lugar que gente desse tipo tem mais valor que uma pessoa que não vive frequentando o ambiente, eu não trabalho.” “Não, não sei o que... Eu vou colocar você...” “Não, não bote não. Eu vou voltar para a minha repartição de origem, eu não quero continuar mais aqui. Isso aqui não dá para mim.” Aí voltei para a minha repartição de origem, fui para a Inspetoria de Tráfego novamente, voltei para Recife. Depois de um certo tempo, um desses que trabalhava lá, que era o chefe das oficinas gerais, estava como chefão do Setor de Operações, era o diretor de operações. Era diretor de operações, diretor de administração, diretor superintendente. Ele era diretor de operações. Eu falei com ele, eu o conhecia: “A minha situação é essa, essa e essa.” Eu me apresentei na minha repartição de origem, que era o tráfego, que até então não tinha sido alterada a minha função, continuei como tráfego. Porque o tutu era maior, então deixa para lá. A essa altura já estava como fiscal de tráfego ferroviário, foi subindo. Controlador de tráfego, controlador de movimento, chefe de estação, que era agente de estação, controlador de movimento, aí fiscal. Aí, fiz para inspetor também. Aí eu digo: “Não quero ficar como tráfego, não.” Que o administrativo era lá embaixo, o rapaz a quem eu fui me apresentar era subchefe do tráfego. O dito cujo lá atrás que indiretamente foi dispensado, aquele caso do trem que parou, etc. e tal. Era engenheiro.

 

P/1 – O sobrinho do chefe da estação?

 

R – O sobrinho não...

 

P/1 – O filho?

 

R – O filho que falhou porque ele deixou o outro no lugar, era subchefe do tráfego. Um colega lá, que trabalhava no setor dele, disse: “Olha, Xavier, a situação é essa: fulano vai te botar para Paquevira.” Aí, eu disse um bocado de coisas que eu não devia ter dito, mas disse um bocado de coisa lá. Aí ele disse: “Te vira.” “Eu vou me virar. Eu não quero voltar para esta estação.” Aí falei com o vice-diretor de operações. “Rapaz...” “Não, eu não quero trabalhar com ele não. Na área que ele estiver, eu quero sair da linha de tiro dele.” Aí me colocou no Setor Comercial. Eu trabalhei lá uns dois anos no Setor Comercial, no Setor Rodo-Ferroviário do Departamento Comercial. Passei lá uns dois anos ainda ou foram três. Depois, houve uma vaga lá para o Setor de Contabilidade, no Departamento de Finanças e eu fui, eu já era técnico em Contabilidade, era formado, aí fiquei lá até me aposentar.

 

P/1 – O senhor se aposentou em que data?

 

R – Em 1977.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho. Lá onde era a Contadoria, onde ficava esse prédio?

 

R – Ficava na Rua Mariz e Barros.

 

P/1 – Em Recife?

 

R – Em Recife.

 

P/1 – Tinha bastante gente nesse prédio?

 

R – Tinha. Tinha mais de cem pessoas. Quem cuidava de arrecadação, quem fazia Receita, na época era Receita, Inspetoria da Receita, todo dinheiro que arrecadava nas estações ia para a Tesouraria e a papelada ia para lá, a antiga Receita, que tomava conta da Receita todinha. Agora o dinheiro ia para a Tesouraria, que era tipo Inspetoria também.

 

P/1 – O senhor pegou a época da Great Western of Brazil Railway, quando o senhor entrou e, depois, pegou a mudança para a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA). Como é que foi esse período, senhor Luiz? Conta para a gente.

 

R – Teve a vantagem salarial só, no meu entender. De organização...

 

P/1 – Piorou?

 

R – Eu acho.

 

P/1 – Os ingleses eram mais organizados?

 

R – Ôxe, eram organizados. Vou dar uma ideia. Na época tinham três troncos ferroviários, Norte, Centro e Sul. Quem era do sul, trabalhava no centro, quem era do centro, trabalhava no sul, e vice-versa. A não ser com a aquiescência da pessoa. Em cada estação, na época, não sei se era em cada estação, mas entre duas e três, tinha uma casa de turma. Casa de turma era daquele pessoal que faz a reparação, olha o trecho todo, daquela área, olha todo dia. Tinha casa de turma. Em determinado trecho, pelo menos desse trecho que eu conheço, tinha de quatro, de seis em seis estações, tinha um caixa d’água. Tinha um burro, tinha uma barragenzinha, até no sertão, no fim, tinha barragem para alimentar as locomotivas com água. Hoje, eu vejo o povo tudo reclamando água. Por que não tem água? Porque ninguém barra as vias navegáveis, as vias que tem água, aquífera, não tem. Nessa época, ainda tinha isso, buscava água para a caixa e a caixa alimentava as locomotivas. Chegaram essas locomotivas a diesel que reduziu mais o negócio, porque não precisava de tanta água, que a velocidade delas é maior. Mas a organização era outra. A fiscalização na estação, na época, era todo mês. Tinha fiscais dos fiscais. Pegava o trem no meio do caminho, parava, às vezes, o trem, entrava para fiscalizar os fiscais. Hoje em dia, o que a gente tem? Se for fiscal, se cumprir com a obrigação não pode, que a polícia está metida, se for fiscal piorou. Esses caras não estão fazendo mais nada hoje, porque não pode fiscalizar. Se for fiscalizar, vai embora.

 

P/1 – Senhor Luiz, o senhor estava contando para a gente lá fora esse momento onde tudo era Maria-Fumaça e entra a Locomotiva a Diesel. Isso foi mais ou menos em que época? Foi anos de 1950, senhor Luiz? O senhor lembra?

 

R – Foi mais ou menos nos anos de 1950, por aí. Entre 1950 e 1955, por aí.

 

P/1 – Começou a trocar a Maria-Fumaça pela a diesel e teve que reestruturar, não é isso, Senhor Luiz? Quer dizer, havia toda uma estrutura de materiais, de fiscalização, de manutenção, voltada para a máquina a vapor que teve que mudar para a diesel.

 

R – Não, continuou a mesma área, a parte Diesel e a parte Vapor.

 

P/1 – Ficou junto?

 

R – Ficou junto.

 

P/1 – Mas as manutenções eram...?

 

R – Tinham oficinas de manutenção e reparação para os dois lados.

 

P/1 – Separadas.

 

R – Separadas.

 

P/1 – O resto é tudo igual?

 

R – Quando extinguiram, definitivamente, as Marias-Fumaça, foi que desapareceram esses focos de manutenções, de reparos que não tinham mais razão de ser, ficaram só as Diesel.

 

P/1 – E manteve uma movimentação grande? O pessoal aceitou bem?

 

R – Aceitou. Porque tinha que aceitar, era imposição dos maiores e era mais prático, mais moderno. Mas eu não acho que a estrutura que tinha continuou por muito tempo até a transformação geral que agora bagunçou tudo. A última estação que foi inaugurada foi Salgueiro, aqui na Linha Tronco Centro. Na Norte, houve ligações até com São Luis do Maranhão, saíam trens, vagões de carga de São Luis do Maranhão para o Rio Grande do Sul. Bitola métrica, onde tinha bitola larga, ele enveredava por outra via, ia por Minas Gerais, até o Rio Grande do Sul que era bitola métrica também. Mas no leste, Rio de Janeiro, São Paulo, era bitola de 1,60m. É outro erro que eu achei que fizeram, que ainda continua.

 

P/1 – Essas diferenças de bitola, não é, Senhor Luiz?

 

R – É. Todo mundo partiu de métrica para 1,44m, que é a standard. No mundo todo é 1,44m. Então, a fábrica faz para o mundo todo 1,44m. Aí chega a senhora lá, batendo nos peitos: “Eu quero de 1,60m.” Vai ficar por quanto isso?

 

P/1 – Pois é. Vai ficar mais caro!

 

R – Estão continuando 1,60m. O metrô é 1,60m. O do Rio eu não sei. Aquela Central do Brasil é 1,60m, a antiga Ferrovia Paulista S/A (Fepasa) é 1,60m, a Leopoldina era 1m, fica juntinho da Central, mas é 1m. Lá para São Paulo eu não sei. Eu sei que parece que a Paulista é 1,60m. Tinham outras por ali, a Santos–Jundiaí, que eu não sei a metragem...

 

P/1 – A Santos–Jundiaí era o sistema inglês, 1,44m.

 

R – 1,44.

 

P/1 – Essa eu sei. (riso)

 

R – A Centro-Oeste ia até a Bolívia, eu não sei a bitola também. Mas eu acho que era 1,44, porque ela ia até Corumbá, rasgava por ali. Tinha São Luis do Maranhão – Rio Grande do Sul, bitola métrica, ia por dentro. Cortava por ali, ia sair lá. Evitava o centro do Rio, São Paulo, passava pelos arredores e saía lá. Agora, a gente não tem mais ligação ferroviária nem no estado de Pernambuco, que há dez anos que a cheia levou uma parte, ali para o lado de Catende e continua do mesmo jeito. Estão falando aí nessa Companhia Ferroviário do Nordeste (CFN), agora já mudou para...

 

P/1 – Transnordestina...

 

R – Transnordestina, eu não sei, disseram que é mil e tantos quilômetros, de lá do Ceará para cá, no porto de Suape. Mas dizem que, se muito fizeram, fizeram cem quilômetros, que não saiu do Ceará ainda. Já faz mais de dez anos. Aqui faz mais de dez anos que o rio levou tudo. Mas ele está falando que vai ligar por Suape, vai enveredar por Bahia. Eu não sei, a gente fica sem noção da coisa, querendo ser nacionalista, patriota, mas não pode.

 

P/1 – É difícil. Senhor Luiz, o senhor não participou de greve, de nada?

 

R – Eu participei.

 

P/1 – É? Conta aí, como foi?

 

R – Ah, era “Está em greve?” “Está em greve”. “É certo ou é errado?” Se era certo, se eu via que era mais ou menos... Se fosse normal, certo, eu entrava na jogada.

 

P/1 – A categoria era forte, senhor Luiz, dos ferroviários?

 

R – Era forte, na área de oficina era forte. Na área de Oficina, era coesão grande. Mas na área espalhada por aí, Estação, Via Permanente...

 

P/1 – Escritório...

 

R – Escritório piorou. Escritório era tudo um bando de... Não quero nem dizer o nome.

 

P/1 – Mas o pessoal da Oficina, então, é que...

 

R – Quem segurava o barco, era o pessoal da Oficina. Tinha Jaboatão que era considerada como Moscou. A Oficina de Jaboatão, que era a potência, era considerada como Moscou. Lá faziam até, fizeram na época da Guerra, peças de canhão, depois, destruíram tudo.

 

P/1 – O pessoal era do Partido Comunista, então?

 

R – A grande maioria era. Onde tinha oficina era.

 

P/1 – Mas o senhor nunca se filiou a partido nenhum?

 

R – Não, eu era nacionalista. Agora eu queria o que era certo e o que era errado, o que era errado, eu já estava fora. Mas o que era certo... Quer fundar a União dos Ferroviários. Estava certo? Está bom. Sindicato dos trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Nordeste (SINDFER-NE), estava certo? Estava. Entrou em greve? Entrou. Então, eu apoio se for certo. Se não for... Na época, que eu fui até diretor, passei um ano na União dos Ferroviários, resultado, preparei tudinho, paguei todo débito que encontramos. Ainda foi até com aquele negócio que bota... Resultado: organizei tudo, paguei todos os débitos. Quando paguei todos os débitos, eu digo “Agora vamos partir agora para...” Porque eu era o tesoureiro, cheque era comigo, antes era com o presidente. O cheque era comigo, com o tesoureiro. Quando terminou de pagar todos os débitos do comércio, eu digo: “Vamos partir agora para comprar uma sede.” Época de eleição, eleição... Aí, a chapa nossa perdeu por cinco votos.

 

P/1 – Cinco votos!

 

R – O cara que assumiu comprou uma Kombi, não sei se existe ainda, nunca mais nem olhei.

 

P/1 – Que época foi essa que o senhor foi da União dos Ferroviários, o senhor lembra? Agora mais recente?

 

R – Foi na época da Revolução.

 

P/1 – Da Revolução? É o que eu ia lhe perguntar. Como é que foi? Teve algum problema, intervenção?

 

R – Não houve intervenção, porque na época o cara de lá queria mudar. Queria mudar, que ele era uma espécie de ditador, né? Então, ele era eleito. E na época o poder político influiu para tirar a direção. A Junta Governativa. O nome era Junta Governativa e me colocaram como reboque.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Nesse ano passei lá...

 

P/1 – No Sindicato, não. Na União?

 

R – Na União. Eu queria fazer a junção para evitar essa dualidade de comando, disputa, disso, daquilo. Quis juntar, mas o trabalho deu n’água, me afastei. Perdemos a eleição, acabou-se. O cara que pegou o dinheiro não queria descer, na época, para ver se tínhamos uma sede própria. Comprou uma Kombi. O que eu ia fazer? O que eu quero mais com o órgão de classe? Quebrar a cabeça, o cara que vem, tudo é doutor.

 

P/1 – Senhor Luiz, o senhor se aposentou, mas o senhor se afastou? Ou não? Continuou, na trajetória na Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN)?

 

R – Eu fui participar dessa Associação. Porque a maioria, tem grande parte aí que não quer ter um apoio, a gente tem que ter um apoio aqui, político ou não, representativo da classe ou não, tem que ter um apoio. E o sindicato acabou-se. E, se a gente ficar só, a gente vai resolver os problemas no Rio, em Brasília, com quem? Com equipe aqui que vai ser recrutada na rua? Tem que ter uma Associação para isso, mas muita gente não entende assim. É que dois terços dos aposentados não contribuem. Paraíba e Maceió, que são menores, é quase a metade daqui, eles lá contribuem mais do que os daqui.

 

P/1 – Quantos são, mais ou menos?

 

R – É uns trezentos e pouco.

 

P/1 – Puxa, bastante.

 

R – Era para ter mil.

 

P/1 – É?

 

R – É. Era para ter mil.

 

P/1 – Tem mais ou menos mil aposentados por aqui?

 

R – Ôxe, tem muito mais. Tem uma média, eu acho, de uns seis mil.

 

P/1 – É? Puxa vida. A Associação podia ser mais forte, não é?

 

R – Ah, aí...

 

P/1 – Aí é outra história, né?

 

R – É outra história, vai mexer muito...

 

P/1 – Senhor Luiz, diz para mim, o que o senhor mais gostou de fazer, nesses anos todos de trabalho na Rede, na Great Western?

 

R – Eu gostava muito da área de estação, mas o horário, na época, não dava. Mas da Contabilidade, eu gostei muito, apesar dos percalços que teve. Trabalhei uns seis bureaus. Plano de contas, não sei o que, cada um tinha uma seção, um setor para conferir: “Pá, pá, pá.” E conferia. Quando eu olho e tinha um erro, devolvia, o cara consertava. “Doutor, não sei o quê!” Aí ia lá o chefe... “Eu estou dando o plano de contas. Não é esse? Não é para cumprir isso aqui?” No dia seguinte, eu estava em outro bureau. Andei em quatro bureaus por causa disso. No fim, me colocaram para copiar o diário para a ficha do computador. Mas aí não tinha nada com código, nada e nada. Era só copiar de um no outro. Mas eu conferia, se deu certo, deu. Se não desse eu saía, tinha problema. Continuava o sistema, o mesmo ponto de vista. Continua até hoje.

 

P/1 – Isso foi o que o senhor mais gostou? Quer dizer, na estação, que devia ser bastante animada neste sentido, bastante coisa na Contabilidade. E o que o senhor menos gostou de fazer?

 

R – O que eu menos gostei de fazer foi trabalhar na estação, no setor de Composição de Trens.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque andava muito.

 

P/1 – A pé?

 

R – A pé! Conferir os carros quando chegavam, conferir quando saía, fazia a ficha de viagem e corria, às vezes, porque tinha que correr. Às vezes, uma locomotiva dava uma pancada em um carro, o carro ia correndo bater no outro. A gente ficava tudo em atividade mesmo.

 

P/1 – Isso era perigoso, não era? Correr no meio dos trilhos?

 

R – Não, no meio não. Eu corria num lugar que não tinha trem! (riso) Não, tinha espaço entre um e outro! Agora, perigoso era a manobra. Nesse local, tinham duas máquinas de manobra. Uma de prontidão para fazer três e outra para manobrar o dia todinho e à noite, para fazer recomposições. Chegava, desmanchava tudinho, colocava cada um no seu lugar etc. e tal, para seguir para os locais: norte, centro e sul. Agora, quando uma locomotiva de manobra dava uma pancada no carro e o cara não engatava na hora – que na época era engate normal, depois foi que veio o tal de “mão de amigo” que segurava, antes não tinha – o carro saía linha abaixo. Tinha que cuidar, correr, para evitar um acidente que, às vezes, tinha um trem de passageiro chegando, tinha um do lado de cá, tinha outro do lado de cá. O lugar mais cabuloso que eu trabalhei, foi esse.

 

P/1 – Lá em Werneck?

 

R – Em Werneck. Pelo menos um bocado de tempo eu passei nesse lugar. Depois, era só tirar folga, aliás, férias.

 

P/1 – E o que o senhor mais aprendeu?

 

R – Mais aprendi?

 

P/1 – O que mais aprendeu nesses anos todos? Para a sua vida.

 

R – A ser besta. A ser idiota.

 

P/1 – O senhor aprendeu a ser besta?

 

R – Aprendi a ser besta, porque não acompanhei a vida dos aproveitadores e estou até hoje sacrificado. Fiz concurso quando saí, já aposentado, para o Banco de Habitação. Tirei no meio do caminho, por ali. Não foi lá em cima nem lá embaixo. Os que, ficaram no meio, foram destinados a Paraíba, Natal e Alagoas. Paraíba é que ficava mais perto, quilometragem menor. Tudo certo, no dia que eu fui me apresentar, receber a ajuda de custo, esses negócios, transporte, tudo: “Não precisa, o pessoal fica aqui, eu vou trabalhar lá. Eu vou toda semana para lá, não tem problema.” Aí, tem um Telex: “Só pode assumir se renunciar à aposentadoria.” Aí não dava.

 

P/1 – Aí não dava, né?

 

R – Ainda cutuquei por aí, fiz uns testes, mas era tudo nessa base, dois salários. Eu tinha mais do que isso. Digo: “Não me serve, não. Tem assim de gente que está precisando mais do que eu.” Aí eu disse: “Sabe de uma coisa? Eu não vou trabalhar para ninguém.” O ganha-pãozinho que eu tinha, que na época eu fazia o imposto de renda, dessa raça conhecida toda, etc. e tal, rendia alguma coisa. Aí, chegou o maestro, computador, e também acabou.

 

P/2 – Eu queria perguntar para o senhor como é que o trem era recebido nas estações, enquanto o senhor trabalhava lá, nas estações? Se tinha comércio, a movimentação...

 

R – Comércio, pelo menos lá, em Werneck, não. Na Estação Recife, também não. Mas no interior tinha, comércio de vendedor de pipoca, de amendoim, de água. No interior, por aqui não tinha não, comércio nenhum não. Aqui era o povo querendo um lugarzinho para se sentar, mas na época, de manhã e de noite, no horário do rush, Virgem Maria, tinha gente que ia na locomotiva!

 

P/1 – Era bem cheio?

 

R – Andava três quilômetros, mais ou menos, dois, três quilômetros para chegar na estação, porque na época não tinha tanto ônibus assim, transporte particular era para quem era rico. Então, vinha tudo para o trem. Nós tínhamos os trens subúrbios, era um lá, outro cá, para Jaboatão, até 22h30 tinha trem. De cinco e pouco às 22h30min. Tinha para o Cabo de Santo Agostinho, ele chegava de manhã e saía de noite. Para São Lourenço, tinha também o trem, quase no mesmo horário, com a diferença de minutos. Agora tinha, no Norte, tinha trem de Natal, trem da Paraíba...

 

R – Eu, há pouco, uns dois anos quase, eu vi uma reportagem de um trem que sai de lá, para Moscou. Parece que sete mil e tantos quilômetros. Neve, deserto, tudo que não presta tinha no trecho, até o cara fazendo vodka apareceu. Derretia o gelo, botava lá um fermento, transformava em vodka. Eu queria aprender, mas não consegui. Sete mil e tantos quilômetros de ferrovia ainda continua existindo. Eu era menino, já se falava nisso. Aquela do Oceano Pacífico... Oeste-Leste dos Estados Unidos, e muitas outras por aí. O mundo todo deu prioridade ao que? À ferrovia. O mundo todo! Menos o Brasil.

 

P/1 – Engraçado é que todo mundo tem essa consciência. O senhor já viu alguém falar mal da ferrovia?

 

R – Mas o governo fala.

 

P/1 – Mas as pessoas gostam de trem, se tem trem elas vão usar. Agora, o governo, vários governos, não é? Isso é que é curioso.

 

R – Vários, não é de hoje só, não. Começaram a destruir a ferrovia. Depois, o governo tomou conta.

 

P/1 – O senhor achou bom privatizar?

 

R – Em partes, muita coisa eu acho que foi favorável à população. A telefonia foi.

 

P/1 – Não, mas eu digo a ferrovia.

 

R – A ferrovia não foi. Porque quem foi que assumiu? Quem foi?

 

P/1 – Aquele consórcio da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), com a Vale do Rio Doce, o Bradesco.

 

R – Agora que faz dez anos, não chegou nem a cem quilômetros. Ou foi cem ou dez quilômetros, eu não sei. Esse trecho nosso aqui, Recife-Maceió, houve aquela cheia há dez anos, arrancou tudo e até hoje está tudo derivado.

 

P/2 – O senhor estava contando dos trens de longa distâncias para Paraíba. O senhor chegou a fazer alguma dessas viagens longas?

 

R – Eu, quando entrava de férias, sempre saía, para aprender o trecho, esse negócio. Mas eu fui para Natal, com um colega, tudo, na brincadeira, etc. e tal, chegou em Itabaiana, eu lhe disse: “Eu não aguento mais não.” “Mas rapaz...” “Não, daqui eu vou voltar.” “Mas rapaz...” “Nada, rapaz, vou voltar daqui.” E voltei.

 

P/1 – Quanto tempo demorava, senhor Luiz, para Natal?

 

R – Para Natal é seis horas, mais ou menos.

 

P/1 – E Itabaiana deu o que? Metade?

 

R – Mais ou menos umas duas horas, três horas. Da outra vez, fui para Maceió. Chegou em Paquevira, eu disse: “Aqui eu fico.” Outra vez fui para a Central, Estrada de Ferro, a Linha Centro. Quando chegou em São Caetano, eu fiquei, depois de Caruaru, eu já estava agoniado. Aí, voltei no trem seguinte. Maceió a mesmo coisa, no trem de Garanhuns, eu voltei, no Sul. Na Norte, de Itabaiana, eu fui no misto, aquela época era Itabaiana e voltei. Eu não gostava muito de andar de trem não.

 

P/1 – Vocês não pagavam passagem, né?

 

R – Não. Aí, não gostava não. Agora mesmo, para viajar mesmo, esse negócio de ônibus... Um dia eu fiz uma viagem para Paulo Afonso, eu não repito mais. É chão, que a gente só vê um negócio assim, chão... Noite e dia, para que? Para ver a cachoeira de Paulo Afonso. Cheguei lá, só entrei porque fui com a mulher, foi a viagem de 25 anos de casado. Quando eu olhei assim... Ôxe, quando eu olhei assim para a parede, tudo escorrendo água, lodo, aquele negócio, eu digo: “Meu Deus do Céu!” Aí, eu fui lá, embaixo, olhar as máquinas, etc. e tal. Pedindo para verificar o negócio e sair logo. Eu não queria ficar ali. Saímos, fomos para Xingó. Xingó é uma maravilha. Muita arte, modernidade. Mas eu vou fazer mais aquilo, olhar mais o quê? Nada. O povo vai por lazer. Por lazer eu não vou mais, já fui, não vou mais. Cheguei no Rio de Janeiro no pé do Cristo, de carro. A gente passando por dentro da nuvem, no pé do Cristo. “Eu vou entrar nessa porcaria, rapaz? Do jardim aqui mesmo eu volto! Vá que eu não vou não!”

 

P/1 – Senhor Luiz, o que significou para o senhor trabalhar na ferrovia? Foi importante?

 

R – Eu tinha o sonho de ser telegrafista. Fui, nesse caminho, até 1962, que eu trabalhei em estação. De 1946 a 1962, 16 anos. Eu gostava da área, acontece que tem muita coisa, muita responsabilidade e o horário não dava para eu continuar. Eu não podia fazer nada, que era só trabalhar e descansar. Fui para o exército, fui colocado. Um bocado de cabra safado lá, meus colegas, que foram tudo comigo: “É do interior”. “Mas eu sou do interior também.” “Você é do interior, mas a sua residência, seu domicílio, é no Recife.” Aí me convocaram. O resto foi tudo dispensado, porque era do interior. “Está bom.” Fiquei lá, aguentando o barco. Aquelas exigências, aquele negócio que eu nunca fiz. Aprendi, lá no exército, aquilo que os filhos devem saber. É por isso que eu digo, é um ensinamento ótimo, um ótimo professor é o exército, porque ensina o que o cara deve ser. Agora segue o caminho errado porque quer. O que eu nunca fiz, eu fiz lá. Até aí está bom, fiz o curso de cabo, rádio operador, no caso, mexer com radiografia, a minha área. Eu e mais dois colegas, que entendiam de telegrafia. Fiz o curso de Graduado, para ter direito a se tivesse vaga, qualquer coisa a gente entrava para ser sargento. Fiz o curso de Aplicação de Graduado. Mas acontece que o regime lá é um regime que na época era triste. O cara tinha que andar fardado, não podia ir na frente em nenhuma condução, tinha que ir lá para trás. Se chegasse um oficial superior, tinha que ceder lugar. Não podia andar a paisana. Eu digo: “Rapaz, isso não é vida.” Aí foi lá e foi cá, foi lá e foi cá, chegou a época do, como é que se diz? Da exclusão de...

 

P/1 – De dar baixa?

 

R – De dar baixa. “Xavier.” O capitão gostava de mim, que eu ajudava lá o sargento. “Você não vai?” “Vou não” “Por quê?” “Porque não dá para eu ficar aqui. Eu tenho quase certeza que se eu continuar aqui, com um mês, eu vou ser excluído.” “Mas você...” “Não, é isso mesmo que eu estou pensando, não vou mudar não, porque daqui para lá eu só vou ter barreira. Eu estou aguentando até aqui, porque tem certos termos que a gente não pode dizer. Mas não estou aguentando até meu tempo, quando der meu tempo acabou-se.” Teve um colega que ficou e o outro foi na minha onda. O outro era provisório. O outro tinha sido demitido, mas ficou. Eu o ajudei, aprendi, ele aprendeu muito comigo, que ele era telefonista. Eu sei que ele ficou. Esse colega que tinha capacidade, mas era provisório, era de safra, que a gente chamava, foi na minha onda. Eu disse: “Mas rapaz, fica aí que você é provisório. Eu sou efetivo, mas você é provisório. Fica porque é melhor para você. Eu, quando eu voltar, eu tenho o meu lugar. Mas e você não vai ter.” “Não, que eu não quero.” Bom, eu saí. Aí saí de lá, o salário era, me lembro como se fosse hoje, 1,440. O que era, parece que era cruzeiro, mil réis, não sei, parece que era cruzeiro. Aí, me reapresentei, para ganhar 860. Olha a economia. O cara dava um grito, eu dava dois. Dava um pontapé, eu dava dois. Não tinha... Do peão ao... Ninguém tinha nada comigo. Por isso que eu saía de um, ia para outro, de um ia para outro...

 

P/1 – Mas foi bom, não foi?

 

R – É, foi bom porque consegui aprender mais coisa.

 

P/1 – É isso aí.

 

R – E o colega meu foi para a polícia. Esculhambava com a polícia, que só a gota. Aí eu encontrei com ele: “Eu estou em Custódia.” “Mas rapaz, tu esculhambavas tanto o Meganha e agora é Meganha.” Sargento lá, com quatro fitas, tem uma propriedade lá em Custódia. E o outro ficou.

 

P/1 – Ficou?

 

R – Ficou. Encontrei com ele, ele já era major.

 

P/1 – Olha, que bom! Ainda bem que ele seguiu seu conselho!

 

R – Meu não. Eu não dei conselho, não, porque opinar assim é chato. Mas eu disse: “Você está arrancando o toco por aí.” Chega um negócio aqui, cabo, um curso de sargento, no caso era Aplicação de Graduado, e lá você está na boa, rapaz. Chega lá, requer a escola, para ficar logo seguro e pronto, rapaz. Eu só sei que eu não fiquei por isso. Não dava mesmo. Eu não dou para ser militar. O cara diz assim: “Isso aqui é madeira.” Eu não vou dizer que é madeira. Eu não digo. Porque o seu superior tem que dizer: “Não, isso aqui é plástico ou qualquer coisa.” Agora confirmar não. Eu não vou ficar num lugar desses, que eu sei que eu vou quebrar a cabeça mais adiante.

 

P/1 – Senhor Luiz, o que o senhor acha da ideia do projeto de contar a memória da Rede, a memória de vocês, ferroviários, por meio das pessoas? O que o senhor acha dessa ideia?

 

R – É ótima ideia. É melhor do que um burocrata que não sabe de coisa nenhuma, que não viveu, não vivenciou nada, não sabe nem o que é ferrovia, e lá dentro está mandando. É melhor do que a história contada através dele. Melhor pegar de um ou outro assim. Agora dá um premiozinho, assim, para esse pessoal que estão dando essas entrevistas.

 

P/1 – Ah, isso depois tem que ver. E o senhor gostou de dar entrevista?

 

R – Gostei.

 

P/1 – É?

 

R – Aliás, me incentivaram... “Mas, rapaz, e lá tu vais fazer o que?” “Vou falar o que sei.” Só não entro em política, nem religião, nem futebol, para não ter aborrecimento, nem falar com gente burra, porque me dói. Eu fico calado também, não vou reclamar. Não digo nada. Estou me afastando desse povo. Não posso mudar a cabeça de ninguém. O cara é aposentado, se aposenta. O governo contrata esse homem, tirando o lugar do filho dele e do neto. Certo? Sempre fui favorável a que não houvesse isso. Mas há. E são milhares, milhões. Agora um cara desse pode falar do governo? Não pode. Aí vem falar esse assunto comigo, o que eu vou dizer para ele?

 

P/1 – Mas o senhor gostou de bater papo aqui com a gente?

 

R – Ah, gostei. Muito.

 

P/1 – Então está bom.

 

R – Na próxima que tiver, fale na área de política que eu vou dizer um bocado de coisas.

 

P/1 – Aí nós vamos embora.

 

R – (riso)

 

P/1 – Senhor Luiz, muito obrigada por ter comparecido. Em nome do Museu da Pessoa e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a gente agradece muito a sua presença. Obrigada, senhor Luiz.

 

R – Obrigado também.

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