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História

Não tinha medo, vergonha, nada

História de: Adélia Prates
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/05/2022

Sinopse

Pai de ascendência negra e indígena. Meningite com estupor. O gato Lorisvaldo. Volta a andar com dificuldades. Brigas dos pais e separação. Ida para a Bahia. Trabalho de doméstica na infância. Dispensa da patroa cheia enquanto a sua família passava necessidade. Sem salário. Mantimentos para a família. Pagando pelos mantimentos. Histórias dos avôs: escravidão e Lampião. Morte do avô. Casamento do primo e vestido da vizinha. Patroa abusiva e abuso da mãe. Vinda para SP. Bullying na escola. Quase fome. Plantação de algodão. Cozinheira em Higienópolis. Estudo. Casamento e filhos. De Santana pro Grajaú. Vestido de noiva e vestido para mãe. Perda da bebê. Construção da casa no Grajaú. Reunindo-se com outros moradores para conseguir infraestrutura para o bairro. Curso de Manicure no Senac. Articulação com a igreja católica e o Clube de Mães. Melhoria da padaria e do transporte. Luta por educação. Loteamento dos terrenos. Organização da luta pelos direitos sociais, liderado pelas mulheres. Construção da Creche do Jardim Somara. Padre Luiz. A luta contra a carestia. Ocupação da creche. Fundação da Casa de Cultura do Grajaú. Reforma da Escola Jacó. Luta pela sinalização. Expansão para outras regiões do Brasil. Diretas já. Atualmente o foco é lutar pela saúde e contra a violência à mulher. 

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História completa

P/1 - Dona Adélia, a primeira pergunta é sempre muito complicada. Qual é o seu nome completo? Onde você nasceu e que dia foi, por favor?

 

R - Adélia Silva Prates, nasci 20/01/1947. Em Valparaíso, estado de São Paulo. 

 

P/1 - E qual é o nome da sua mãe?

 

R - Ana Silva Prates. Meu pai, Derli José da Silva. 

 

P/1 - E a sua mãe vem de onde? 

 

R - Minha mãe é baiana do Caculé, com muita honra.

 

P/1 - Onde fica essa cidade dela, dona Adélia? 

 

R - Bahia. Eu fiquei sabendo agora que Caculé é a única cidade brasileira que não tem analfabeto. Fiquei sabendo por uma professora de história amiga minha. 

 

P/1 - E ela veio para cá quando? Por que você sabe disso, ela te contou?

 

R - É uma história da minha vida assim. Ela conheceu o meu pai, e ela estava noiva de outro namorado, depois ela desistiu para casar com meu pai, e minha avó não queria o casamento, porque a família do meu pai era uma família indígena com negro, porco criado no que no terreiro, eu não estava nem aí que as galinhas eram dentro de casa, que os porquinhos entravam dentro de casa. Então era considerada uma família porca, suja. E o namorado que minha mãe namorava, era a família de classe média, diferente, tudo limpo, tudo organizado, tudo bonitinho, era fogão de cimento, na casa do meu pai era fogão de barro. Mesmo assim diz que meu pai era um moço muito bonito; era não, é. Tenho uma foto dele, mas não deu para trazer que eu estou no Grajaú. Meu pai casou com a minha mãe, minha mãe ficou grávida, teve minha irmã, ficou lá e só voltou quando a minha irmã tinha quase 03 anos, ela é quase 04 anos mais velha do que eu. Daí meu pai veio embora, arrumou o serviço aqui, fala arrendatário, a pessoa que mora em uma cidade e vai para outra, meu pai veio morar em Lins, depois nasceu minha irmã, meu pai foi para Bahia de novo e nasceu meu irmão lá. Ele voltou novamente para cá, foi morar em Birigui, aí nasceu meu irmão. Porque o arrendatário não para, eles arrendam a terra, trabalha, depois que acaba o serviço, às vezes fica 02 anos, 03. A gente foi morar em uma chácara de um japonês que tinha de tudo, já tinha meus irmãos, dois nasceram na Bahia e os outros nasceram em São Paulo, um em Birigui, outro em Lins e Valparaíso. 

 

P/1 - E quantos irmãos você tem?

 

R - Éramos em 07 irmãos, nasceram 03 na Bahia. Quando o meu pai estava com a minha irmã pequena com uns 03, 04 anos eles brigavam de se matar. Mas brigavam, brigavam… Minha mãe ciumenta, meu pai é ciumento. Era um ciúme danado. Um dia disse que dá briga deles e eu saí e fui brincar no terreiro, a gente fala terreiro, diz que eu peguei um monte de pauzinho, comecei pegar a secadinha no chão, pegar o ossinho falando que era as bichinho, eles falaram “cadê a Adélia?”. Foi ver eu estava com uma febre muito alta, me levaram para dentro e eu já não fiquei em pé, não andava, já não estava falando, eles pegaram e me levaram para o médico, eles falaram que eu estava com paralisia infantil. Mas como não tinha conhecimento da paralisia infantil, eles falavam meningite com estupor, por causa do frio da madrugada. O que significa, eu nunca procurei muito. Meningite eu fiquei sabendo depois, agora estupor segundo eles, a pessoa está com o corpo quente, por exemplo, você levanta da cama, eu tenho isso até hoje, essa cultura, “não pisa no chão frio, a mulher fica barriguda, o homem fica resfriado, fica doente”, a gente tem isso, não pisar no chão frio, no cimento, porque na terra não teria problema pisar, minha avó, a mãe do meu pai falava. A gente ficou morando lá em Lins, nessa chácara um tempão. Muito gostosa a chácara. Tinha de tudo, a gente vivia mais de fruta do que de comida, saía no meio do mato para pegar, foi muito boa a vida da gente. 

 

P/1 - Então vocês brincavam muito em Lins, brincavam do que?

 

R - A gente brincava. Mas a nossa brincadeira era de boneca de pano que minha avó fazia, boneca de milho, cabelo de milho, tinha boneca de toda cor, tinha cabelo preto, tinha loiro, tinha ruivo. Hoje eu vejo essas menininhas novas pintando o cabelo de rosa. Então eu me lembro muito da minha infância, eu acho até legal isso daí. Minha infância foi assim na roça, de quebrar as espigas de milho para brincar, mesmo que eles brigavam com a gente, mas a gente fazia isso, a gente subia em cima das árvores, parreira de uva, de maracujá. Quando minha mãe brigava que ia bater na gente, brigar comigo, eu subia na parreira de maracujá, deitava lá e ficava bem quietinha. Hoje eu vejo que tem tanto bicho, naquele tempo a gente não tinha medo de nada, deitava lá com meu gato, meu gato chamava Lorisvaldo, muito bonito o meu gato, era muito lindo, grandão. Eu andava com ele para cima e para baixo. Depois, com quase 07 anos, eu voltei a andar, não muito bem, mas eu voltei. Eles falaram que levou para benzer, mas na verdade esse senhor fazia massagem nas pernas, terapia, diz que era fraqueza nos músculos. Eu comecei a tomar leite de cabra, me deram leite de égua, de jumenta, eu tomei leite de tudo para voltar a andar, e muita ervas, muito chá de erva, eu era uma criança muito levada mesmo, não era de brigar, porque eu tinha meu gato Lorisvaldo, eu brincava com ele para cima e para baixo, em todo lugar que eu ia levava meu gato. Hoje eu fico pensando, será que eu era um pouco autista com o meu gato? Eu não sei. 

 

P/1 - E como é que ele era? Que cor que ele era? 

 

R - Meu gato era muito bonito, ele era listrado de branco e preto. Muito lindo. E aí meus pais, na briga que eles fizeram para se matar mesmo, pegava o facão para matar minha mãe. Eu lembro, ele pegava travesseiro, e eu defendia meu pai, minha irmã defendia a minha mãe, era assim. Meu pai se apegava muito a mim e a outro irmão mais novo, porque meus 02 irmãos mais velhos ficavam do lado da minha mãe. E a gente era muito criança, a gente lá sabia, hoje talvez eu fosse diferente. Em uma das brigas, a minha tia, a irmã do meu pai, não. Na brincadeira minha avó fazia, cozinhava coco macaúba. Macaúba vocês conhecem? É um coquinho assim, e a casca dele é bem dura, a gente quebrava ele e fazia rosário, terço e comia, quebrava assim, e ele meio verde, a minha avó cozinhava no fogão de lenha, a mãe do meu pai, depois descascava ele, quebrava e comia. Nós brincávamos de casinha, fazia comida de verdade nas panelinhas de barro que minha avó ensinou a gente fazer, do meu pai. Então, antes disso na separação, depois dessa separação é nessa brincadeira toda, meu pai e minha mãe brigavam muito, a minha avó não se conformava de tanta briga. A mãe do meu pai era muito legal mesmo, e as bonequinhas de pano que ela fazia pra gente. Só que o japonês dono da chácara, elas tinham boneca de verdade, aquelas bonecas bonitas, grandes, elas brincavam com a gente do mesmo jeito, e a gente não fazia diferença nem com a boneca, ela falava, “quer brincar com a minha”? Eu falava, “Não. Vocês querem brincar com a nossa?”. “Queremos”. “Então, está bom”. A gente brincava com as nossas bruxinhas mesmo de pano que minha avó fazia, cada uma mais linda do que outra, às vezes ela fazia de pano preto, rostinho, a boquinha vermelha, muito linda. E ela fazia muito tricô e crochê também. Daí, na separação, a gente, principalmente eu, sentimos muita falta do meu pai. Aí minha mãe foi para Tupi Paulista. Chegou em Tupi Paulista, a minha avó estava lá, fui para Bahia, a mãe da minha mãe, chegou na Bahia estava minha avó, a mãe do meu pai todo mundo lá.

 

P/1 - Vocês foram todos pra Bahia?

 

R - Fomos para Bahia de novo, a gente foi para uma cidadezinha que chamava Jacaré, que é o município de Caculé, a Lagoa dos Jacaré era muito bonito lá. Quando chegou lá, a minha avó não aceitou minha mãe. Ela falou assim, “você vem para cá com esses cão, se vira, porque você casou com quem você quis, você sabia que ele não prestava”! Mas não é que ele não prestava, era o jeito dele, ele era muito bonito. A minha avó não aceitou, a gente voltou para São Paulo. Meu avô falou, “eu não vou deixar minha filha aqui com tantos filhos, com esse monte de filhos”. Aí a gente ficou com o meu avô. Meu avô chamava Mané de Félix da capoeira, porque as terras do meu avô chamava capoeira, tinha muito embu, muita coisa. Naquele tempo que a gente foi para Bahia, eu fui trabalhar em casa de família com 07 anos, mesmo não andando direito, eu não podendo andar direito, mas eu fui trabalhar em uma casa e cuidar de um menino. O que ela fazia? Eu sentava e ficava cuidando dele sentadinha na cama, brincando com ele, e essa mulher, dona Sebastiana, era muito conhecida na cidade, era família de condições, a gente continuou pobre, mas com apoio do meu avô, naquele tempo, eu não sei se vocês ouvia falar, mas torrava café na Bahia e colocava o açúcar, torrava café na panela e quando o café estava quase torrado colocava rapadura no café. Aqui em São Paulo, a gente era acostumado, lá em Lins com café moído, açúcar de monte, açúcar de cristal, era bastante açúcar, que meu pai trabalhava em uma usina, então a gente misturava, eu até apanhava porque eu gostava de farinha com açúcar, eu pegava açúcar cristal e misturava, subia no jirau. Sabe o que é jirau? Jirau é uma coisa assim de madeira, eles guardavam as compras tudo lá em cima, tudo, toucinho, a gente chamava de pano de toucinho, meu pai na época matava o porco, salgava tudo e punha assim, pendurava dentro de dispensa, tudo lá em cima, e as coisas que não eram penduradas, as carnes, as coisa era no jirau. Eu era danada, eu pegava tanto para mim como dava para os outros e apanhava. 

 

P/1 - Seu avô, sua avó contava história para vocês? 

 

R - Contava muita história. Eu tenho umas histórias da minha avó, a mãe do meu pai. Quando a gente ia passar na roça, o homem amarra, dá 03 nós na camisa, e a mulher 03 nós na saia para evitar que a cobra picasse a gente, chamando São Bento e amarrando os 03 nós, aí podia andar no meio do mato que a cobra não mordia a gente. Chegava na roça, a gente via tinha cobra atravessada, eu não tinha medo de nada e eu era uma criança que não tinha medo de nada, nada. Todo mundo, “olha a cobra”, eu não estava nem aí, pulava por cima da cobra e passava para o outro lado. Na Bahia, foi a mesma coisa também as histórias da minha avó. Minha avó contava umas histórias pra gente de príncipe, de princesa. Hoje quando eu vejo na televisão, eu lembro as histórias da minha avó que era do príncipe, da princesa. Ela fazia comidinha de verdade, pegava arroz, esse coco, cozinhava, o verde a gente fazia colar, o coco mucuri também usava muito, mas o macaúba era o mais usado. Tinha muito coco macaúba. A gente usava e ele é bem alto, mas a minha avó ensinava a gente tirar, pegava uma vara de bambu, colocava uns ganchinhos, uma latinha pequena, e a gente conseguia tirar o coco, às vezes até cortar. A minha infância, na época do meu pai, foi muito boa até aos 07 anos de idade. Na separação foi triste, porque eu me lembro da minha mãe e da minha tia, a gente pequeno, e minha mãe grávida da minha última minha irmã que nem conhecia meu pai, e a gente andando no meio do cafezal com aquelas roupa, foi muito triste, nunca me esqueço dessa época da infância. 

 

P/1 - Você reviu o seu pai depois ou não? 

 

R - Depois não, a gente ficou muito tempo sem ver meu pai. Depois eu te conto como que aconteceu. A minha mãe foi para Bahia, ela foi ser lavadeira, e eu fui trabalhar como doméstica. E na casa em que eu trabalhava, às vezes, tinha dia que não dava tempo de ir para casa, ficava muito escuro, passava no meio do cemitério, eu até cortava o pé no meio dos ossos do cemitério, mas eu não tinha medo de nada, limpava e acabou. Às vezes, eu colocava um pano no chão na casa da minha patroa e dormia no chão limpinho, alguém passava a mão na minha perna, levantava minha roupa, passava a mão no meu cabelo, mexia comigo, eu falava para minha patroa, ela falava assim que era o diabo, porque eu não tinha medo de nada, então o diabo vinha me provocar. Mas devia ser os filhos dela, eu só descobri isso quando eu estava com 19 anos, que eu guardava isso dentro de mim e não falei para ninguém. Quando eu estava com 19 anos eu vi uma tia e falei para ela, tia, eu tinha pesadelo, eu via bicho em cima da casa, eu via o meu gato depois da separação em cima do telhado sem poder descer, mas eles falavam que era o diabo e eu acreditava que era o diabo que vinha mexer comigo, pior que era. Morando lá com meu avô, eu trabalhando na casa de família, lá eu fazia comida, eu cuidava de 06 crianças. Depois dessa casa, eu fui cuidar mais de criança, eu já estava com 11 anos, eu fui cuidar de outra casa de família com um monte de criança pequena.

 

P/1 - Você não queria brincar nessa época com eles? Enquanto você cuidava dessas crianças. Como é que era?

 

R - Não dava tempo, eu colocava um banquinho, fazia comida no fogão de lenha e dava para as crianças. Porque minha patroa, eu não sei, ela tinha uma loja parece, não me lembro muito bem, um monte de filho. Nesta casa que eu trabalhei, eu tinha uns 11 anos, chegava no final do mê, a mulher não me dava dinheiro nenhum, eu não sabia que era final de mês, eu falava, “meu Deus, eu estou tanto tempo nessa casa, cadê o dinheiro que não vem?” Um dia eu falei, elas gostavam de fazer reunião na casa, reunião ampla, falava, contava história e tinha muita gente que ia contar história, cada dia ia uma contar história, moda de viola na casa, na varanda bem grandona, aquelas casas antigas, nunca me esqueço, ela não me deu dinheiro, aí eu fui na dispensa dela tinha de tudo. Cheguei na casa da minha mãe um dia, eu vou dormir, na casa da minha mãe não tinha nada, estava o fogão apagado, não tinha nada. Falei para minha irmã, “Bia, cadê a comida, não tem nada aqui?” Ela falou, “Adélia, não tem nada. Minha mãe até vai matar um frango, mas não tem isso, não tem aquilo, não tem arroz, não tem nada”. Voltei para casa da minha patroa, fui na dispensa e peguei um monte de coisa. Só que quando eu falo isso na palestra pra criançada, “não faça isso, hein!” Fui lá e peguei de tudo na dispensa, tudo que eu tinha direito, café, arroz, feijão, fava, banha, e passei na frente da varanda, já era de noite umas 10 horas, por aí. E eu fui com aquele peso todo para casa da minha mãe. Antes de sair, eu cheguei e falei: “olha, está vendo isso daqui? Eu fui lá na dispensa e peguei. Peguei, não roubei. Estou levando para minha casa, porque na minha mãe não tem nada para comer. Eu estou levando. E olha, tem mais viu? E se alguém daqui falar para minha mãe que eu peguei essas coisas aqui, aí eu acabo com a sua raça”. Eles tinham um pouco de medo de mim assim, criança rebelde, acho que ele me via como um bandido sei lá eu. Eu, “se falarem alguma coisa para minha mãe, vocês vão ver só, viu!” Fui, levei para a casa da minha mãe. Cheguei na casa da minha mãe tarde da noite, eu fui fazer comida ainda, foram comer. No dia seguinte, eu voltei para a casa da minha patroa, depois eu falei para ela, “dei para minha mãe, eu falei que foi a senhora que me deu, a senhora tem que falar que a senhora me deu, hein dona Mariazinha”, ela falou, “tudo bem”. Não deu outra, daqui a pouco chega meu avô e minha mãe lá na casa dela. “E aquelas coisas que a Adélia levou, hein?”. “A gente que deu”. Eu olhei bem para eles assim. Ela falou, “mas eu dei mesmo viu, Délia. Tudo bem, você está aqui, trabalha bem”. Eu falei, “está bom, só que daqui para frente eu quero o meu salário, eu quero o meu dinheiro”. Ela falou, “que salário, que dinheiro? Você é criança”. Eu falei, “mas estou trabalhando, eu ajudo matar porco, eu ajudo a capinar mato, eu ajudo fazer comida, eu cuido das crianças, eu faço o que vocês querem que eu faça”. Aí ela me deu um dinheiro, eu fui lá e perguntei para o meu primo que tinha bar, boteco, armazém, meu primo tinha venda, vendia de tudo. Eu perguntei para ele: “esse dinheiro dá para comprar alguma coisa?” Ele falou, “nem uma bala”. Nossa, eu voltei lá e falei: “a senhora não tem vergonha de dar um dinheiro para uma criança que não dá pra comprar nem uma bala? Eu quero o meu dinheiro, eu trabalhei!” Ela deu o meu dinheiro, eu perguntei para o meu primo que tinha a venda. “Esse dinheiro dá para comprar alguma coisa?” Falou, “nossa Adélia, como você conseguiu esse dinheiro? Dá para comprar um monte de coisa”. “Ah, está bom!” Cheguei lá, falei para ela, está aqui seu dinheiro das coisas que eu levei, estou pagando. Ela falou, “não precisa pagar”. “A senhora não me deu, eu peguei. Se a senhora me desse, eu não pagava, mas a senhora não me deu. Eu peguei. Eu não roubei. Eu peguei. Então está aqui ó, estou pagando. Meu primo falou que dá para pagar tudo que eu levei”. 

 

P/1 - Então você estava falando que você devolveu o dinheiro para pagar o que você tinha pego?

 

R - Eu paguei tudo que eu levei. Depois acho que ela deu dinheiro para minha mãe, se eu não me engano, mas eu não peguei. Eu falei, “não, eu fui e peguei as coisas, a senhora não me deu”. E a coisa que minha avó mais ensinou para gente é ser honesta. Continuei lá nesta casa uns tempos, depois eu saí e fui trabalhar em uma outra cidade que chama São Ibiassucê, na Bahia. Minhas tias e minhas primas ainda moram lá. Eu fui trabalhar em uma casa e eu já tinha uns 13 anos. Antes disso, meu avô morreu. Com a morte do meu avô, a gente acabou sofrendo mais ainda. Só que quando meu avô estava vivo ainda, o pai da minha mãe, era muito bom, ele também contava história. Ele era escravo, ele não tinha o dedinho da mão e muitas marcas no corpo, foi muito triste a morte do meu avô, e ele dormia em tarimba. Alguém sabe o que é tarimba? Então, tarimba é uma cama feita de couro de boi, todinha de couro de boi, e não põe colchão, meu avô não gostava de dormir, de colocarem colchão, ele dormia nessa tarimba, e era gostoso, até eu gostava de dormir com ele. Gostava muito do meu avô, ele era alto, tão bonito, negro, muito negro, muito bonito o meu avô, muito alto. 

 

P/1 - Ele morreu com quantos anos, dona Adélia? 

 

R - Eu tinha 12 anos, por aí. Ele ia fazer noventa anos. Se estivesse vivo, estaria com quantos anos? 200. Ele pescava, o que eu conheci com meu avô é assim. Eu não tinha medo de água, de nada. Hoje eu tenho tanto medo de água, não entro na água, nem no mar. E assim, tinha lagoa e eles plantavam um coentro, cebolinha, cheiro verde, coisa que ninguém lá plantava, a minha avó plantava, porque meu meus tios levavam a semente, estava aqui em São Paulo, meu pai também levava, e minha avó plantava, muito bonito na beira da lagoa, e a gente atravessava a lagoa andando com água aqui no pescoço e atravessava a ilha lá do outro lado. A ilha cheia de jacaré. Tanto de jacaré que tinha lá! E a gente não tinha medo de nada, jacaré pequenininho andando no meio da lagoa e a gente atravessando junto. Quando a lagoa enchia mesmo, a gente ia de canoa, era o meu avô que fazia, era feito de pau de mulungu, que é bem levinha. A gente ia de canoa.

 

P/1 - Ele contava histórias da época da escravidão para você? O que ele falava? 

 

R - Contava. Ele contava a história, como é que era pendurada no pau, pendurava eles no balde, mas depois ele recebeu alforria, os meus primos dizem que não sabem dessa história, mas eu sei. Diz que minha avó parece que ficou grávida com 13 anos, não sei se era do meu avô, acho que não era, acho que ela foi violentada pelo escravo, ela ficou grávida com 13 anos. Eles deram liberdade para o meu avô casar com a minha avó. Nasceu os meus dois tios, chamados Fidel e Fidelcino. O tio Fidelcino desapareceu. O tio Fidel, a gente conheceu e conviveu com ele lá em Junqueirópolis, tinha um sítio, eu vou ver se eu acho a foto do sítio e vejo um jeito de mandar para vocês. Só que é difícil que eu não sei mexer no celular. Meu avô casou com ela, registrou esses 02 filhos, teve mais um monte de filho com minha avó, esses meus 02 tios eram negros igual o meu avô mesmo, mas o que o meu avô falou foi isso, e uma tia também falou para mim. Meu avô contava as histórias de como era apanhar no lombo. A minha avó contava história do Lampião, que a casa da minha avó era grandona, era uns tijolos bonitos, queimados, eles tinham uma olaria, eles mesmo faziam os tijolos para fazer a casa da minha avó, a casa dos meus tios não era casa de sapé, pau a pique. A casa da minha avó era de alvenaria, que eles mesmo faziam. Tinha uma pedra grandona, saía na frente, ela falou que quando o Lampião chegou lá que ela estava grávida, tinha tido neném e estava picada de cobra. Aí o Lampião cuidou dela, a mãe da minha mãe contou isso, não é a mãe do meu pai mais. A mãe do meu pai não contava muita história de escravo. Ela contava mais história da natureza. E a mãe do meu pai não brigava muito com a gente não. Ela falou que quando o Lampião chegou lá ela estava picada de cobra, todo mundo foi embora e ela ficou. Lampião chegou, diz que ele falava, “ô de casa”, “ô de fora” e ela lá dentro tremendo de medo, eles respondiam, “ô, de dentro”, minha avó não podia nem responder, diz que ele chegou, curou a minha avó, deu remédio, passou na picada de cobra, minha avó ficou boa. Ele falou, “a gente não vai fazer nada com a senhora não, viu? Pode ficar sossegada, pode ficar aí”. Entrou na casa da minha avó e saiu. Não fizeram nada, a minha avó falou do Lampião na época. Eu não sei, minha avó falava.

 

P/1 - E quando seu avô morreu, você estava com quantos anos mais ou menos, 13?

 

R - É, mas antes do meu avô morrer foi uma comédia. Eu trabalhava em uma casa lá na cidade de Ibiassucê, era uma pensão, fala hotel aqui, é pensão. E lá a gente tinha fartura, porque eu trabalhava e a minha patroa me dava roupa bonita, vestido bonito. Uma vez ela me deu um vestido vermelho de lonita todo enfeitado de sianinha branca. Muito bonito o meu vestido. Meu primo ia casar, veio de São Paulo, ela me deu um tecido para fazer o vestido. Ele era de seda e as bolinhas pretas. Muito bonito o tecido. Cheguei lá, minha mãe falou “ó, vamos fazer esse vestido para Bia que ela é mais velha do que você, e ela não pode trabalhar que ela tem que cuidar dos irmãos. Então eu vou fazer esse vestido para ela porque ela já é mocinha”. Minha mãe fez esse vestido para minha irmã. Eu não tinha roupa para ir no casamento. Ela falou “você não vai no casamento porque você não tem roupa”. Fez o vestido para minha irmã. Minha irmã lembra disso ainda até hoje. Minha vizinha, amiga, falou assim, “você não vai no casamento”? Falei, “eu não, não tenho roupa. Como que eu vou?” Ela falou, “eu te empresto”. Ela me emprestou o vestido. Só que eu era muito magrinha, feia, cabelo muito comprido, porque meu pai não deixava cortar cabelo, minha mãe também conservou aquilo. Um vestido feio, horrível, tudo de pontada assim, para ela ficava bom, para mim, horrível. O meu avô andava pela estrada e eu no meio do mato andando, cheio de cobra-cipó, ela é da cor do cipó, é bem fininha, meu avô, “menina”, quase que eu pegava nas cobras, cobra-cipó só percebia a cabeça, meu avô percebeu que eu estava andando no meio do mato escondida para ir no casamento. Aí meu avô pegou, deu um jeito e ficou para trás eu fui com ele. Chegou lá no casamento. Foi todo mundo de caminhão, foi para o sítio porque a noiva era do sítio, e meu primo era daqui de São Paulo. Eu fui de carroça. Não fui nem no caminhão, porque o caminhão era jardineira, tinha furo, tinha muita gente no casamento. E lá eles matavam boi inteiro, fazia um buracão assim no chão, pegava aquela carne e assava dentro daquele monte de brasa, aquela carninha cortando, depois iam pondo na mesa. Meu primo, o noivo, sabia que eu estava lá. Mas nem a noiva, nem minha mãe, nem minhas irmãs, ninguém sabia que eu estava lá, meus irmãos, ninguém. Na hora do almoço, meu primo deixou um lugarzinho, uma cadeira do lado da noiva dele, estava um assento, e falou, “não, essa cadeira já tem gente aqui, não vai sentar aqui”, era para eu sentar. Quando estava todo mundo comendo, senta eu lá na mesa. A minha mãe só faltou…, a minha irmã, todo mundo olhou para mim. Antes disso eu cheguei lá, fiquei embaixo da cama escondida vendo a noiva se arrumar. Essa foi uma comédia que aconteceu na minha vida. 

 

P/1 - O que sua mãe falou pra você depois?

 

R - Nós continuamos lá. Quando ainda meu avô era vivo, eu fui trabalhar em uma casa que a mulher judiava de mim, odiava, quebrava as coisas, falava que era o diabo. Amarrava as coisas, quebrava xícara, amarrava as xícaras, falava que era o diabo que ia à noite. Pegava os cachos de uva, jogava. E a minha mãe, tadinha, foi violentada, ficou grávida de uma filha, eles não assumiram a filha da minha mãe. Minha mãe não sabia de nada. Ela foi muito criticada. Sofreu muito por isso. Minha avó, a família inteira achava que minha mãe era prostituta. Ela falou que não, ela lavava roupa na casa e esse cara era rico, violentou ela, ela ficou grávida, ela falou para ele que o filho era dele, mas ele falou que não, naquele tempo eu não podia assumir. Depois que a minha irmã cresceu, depois de tudo, diz que ele falou que assumiria minha irmã. Eu fui trabalhar nessa casa, eu não sabia que a mulher era mulher desse homem. Então, eles judiavam. Eles me trancaram dentro de um quarto escuro, eu gostava de ir à missa, tiravam a chave, por exemplo, eu colocava imagens de Nossa Senhora na mesinha, no dia seguinte, estava virada ou quebrada. Eles falavam que era o diabo que quebrava, tudo o que eu passei na infância foi isso. Minha infância depois foi muito dura, eu não fui na escola, minha irmã foi, meus irmão foram, eu não, porque eu tinha que trabalhar. Nessa casa eu sofri muito, meu avô ainda estava vivo e soube, foi e me tirou de lá. Minha mãe falou” filha, eu não mandei você para lá. Você que quis ir trabalhar lá. Eu não sabia de nada. Minha mãe também não falou porque, eu descobri tudo depois também, quando eu já estava com 19 anos , antes eu não sabia de nada. 

 

P/1 - Isso tudo que você passou na Bahia ainda? 

 

R - Não, na Bahia foi muito horrível minha vida, porque a gente aqui de São Paulo chega lá viver a vida deles, eles não viviam mal, mas a gente não tinha os costume de lá. Nessa outra cidade que eu fui morar nessa pensão, a gente no dia seguinte levantava cedinho, eu e a filha dela, a filha dela era mais velha do que eu, chamava Dora. Sabe o que a gente fazia? A gente ia para outra lagoa, lá em Ibiassucê. Eu cuidava de duas crianças pequenas, fazia uma cerca bem grande, as duas crianças lá dentro e a gente ia tomar banho na lagoa sem roupa, sem nada. A gente não estava nem aí, entrava na lagoa, tomava banho, para mãe dela não descobrir ele pegava um pedacinho de pau e batia o cabelo assim para secar, meu cabelo era comprido, ai meu Deus, até que esse cabelo secasse… Um dia, a mãe dela descobriu e falou, “eu podia pegar vocês duas, mas dar uma pisa, matar vocês duas”, mas ela não bateu, conversou com a gente, não deixou mais, observava se a gente saía de manhã com as crianças. A gente brincava de morta, deitava, cobria com o lençol branco, acendia um monte de vela em volta. A minha infância não foi legal. Acho que minha adolescência, minha infância eu achei boa até conviver com meu pai, mesmo com meu avô, mesmo trabalhando, mesmo ter que torrar café, colocar rapadura, que eu não sei porquê que fazia isso, qual objetivo, ou se era a cultura, o que era, eu não sei, socava no pilão o café.

 

P/1 - Você se casou nessa época? 

 

R - Não. Depois eu vim para São Paulo com meu tio, quando meu avô morreu, o irmão mais velho da minha mãe, meu padrinho. E a minha mãe tadinha veio de pau de arara com meus irmãos, chegou aqui, ficou na imigração. Eu até quero ir lá ver se o nome delas estão lá. Minha mãe ficou na imigração com meus irmãos até que arrumasse um jeito para passagem de trem, levaram eles para minha cidade que tinha trem ainda. Acho que na época ainda era Maria Fumaça. 

 

P/1 - Eles foram para Valparaíso?

 

R - Não, foram para Junqueirópolis.

 

P/1 - Você tinha quantos anos, você se lembra mais ou menos?

 

R - Quando a minha mãe veio, eu fiquei um tempo na minha tia e eu já tinha 16 anos. Eu fui para uma escola antes disso. Eu cheguei na escola, as crianças falavam comigo, “Cruzeiro do Sul, maior da escola é tu”, eu fiquei com vergonha e não fui mais. Eu tinha vergonha e não fui mais para a escola. Hoje é bullying, aquilo já era em Junqueirópolis. 

 

P/1 - Mas isso é porque você era aluna maior da escola, é isso? 

 

R - É porque eu era bem grande e gorda, então as crianças começaram a mexer comigo. Nesse tempo que eu vim com meu tio, eu fui para Monte Castelo, na cidadezinha pequenininha, e meu tio tinha um sítio lá chamado Gleba Seca, era muito gostoso, mas eu não era feliz, porque eu sabia como estava a minha mãe, como que vivia, minha mãe ficou doente, ficou internada aqui na Santa Casa. Cada um de nós fomos para uma casa. Até que minha mãe voltou, catou todos os filhos, juntou todo mundo, mas a gente passou muita dificuldade, não chegava a passar totalmente fome, porque no interior a gente vai, cata milho ou abóbora, melão, melancia, manga, fruta, a gente comia. O mais difícil era feijão, o arroz também que a gente colhia, comprava o arroz a granel e levava na máquina. Em Junqueirópolis meus irmãos foram trabalhar na máquina de arroz, de beneficiar arroz, meus 02 irmãos, e minha mãe foi catar café. Sabe o que é catar café? Deve ter na internet, você deve achar, era uma máquina que elas vão mexendo assim com o pé, aí tem uma lona, elas vão catando o café ruim, separando todo tipo de café, o café inteiro, o café bandinha, o café isso, o café aquilo, e o café melhor ficava inteiro na esteira era para exportar. Hoje a máquina faz tudo, mas meu irmão trabalhou lá e minha mãe trabalhava nisso, eu não aceitei trabalhar nessa máquina não, continuei em casa. 

 

P/1 - Continuou nas casas dos outros. É isso? Você continuou trabalhando em casa?

 

R - Eu trabalhava na roça de ralear algodão. Ela também trabalhou. A gente planta o algodão e tem que ralear, ele cai muita semente, a gente tinha que tirar e deixar os pés. Por exemplo, caía 10 pezinhos, só podia deixar 03, se não o algodão crescia muito junto e não dá o algodão, é baixinho assim, alinhando o algodão, catando. Chacoalhando amendoim, colhendo feijão aí põe em um terreirão, batia o feijão, cambão. Vocês conhecem o cambão? Cambão era usado para bater nos escravos. Meu avô falava e eu nem sabia o que era, quando eu vim pra São Paulo a gente tinha o Cambão, rodava assim e batia o feijão no terreiro. Depois melhorou, a gente alugou uma casa em Junqueirópolis, eu fui morar e trabalhar em casa de família, meus irmão começaram a trabalhar nessa máquina, depois ele casou, eu não casei, eu continuei ajudando minha mãe, minha família, depois eu cismei que queria vir para São Paulo. Naquele tempo com 16 anos, as pessoas falavam, “se ela for para São Paulo, menor, vai para praça vai ser prostituta”, aí eu fiquei até completar 19 anos e vim para cá. Só que lá na minha cidade tinha muita prostituta, mas a gente fala puta, falava "mulher à toa", tadinha das mulheres. Aí eu não tinha medo, eu não tinha vergonha, nada. Elas me encontravam assim, “Adélia, vai buscar uma charrete para mim”? Eu ia buscar a charrete para ela. Aquelas que tinham mais dinheiro, falavam: "Adélia, vai lá buscar um motorista e um chofer para mim". Eu ia. A minha mãe, “pelo amor de Deus, você não pode estar se misturando com essas mulheres, você não pode”. “Dona Ana, olha Adélia. Adélia estava com a pior mulher, a Chaguinha. A senhora deixa?”. Ela falou: "adianta eu proibir? Deixa ela, deixa para lá!" Eu não tinha vergonha, não tinha medo, não tinha nada. Sempre andei, ajudava elas, pegava a charrete para elas irem no médico, ia junto com elas. Depois elas desciam para casa delas com os homens, iam embora, eu só fui descobrir tudo isso, o que era isso, quando eu estava com 17 anos, eu andei pra caramba. Eu ia fazer 18 anos, 19, quando eu conversei com a minha tia, e ela falou para mim que era isso que acontecia. 

 

P/1 - Agora por que você botou na cabeça a ideia de ir para São Paulo? O que tinha aqui? 

 

R - Eu falava que eu ia para São Paulo para fazer tudo que eu não podia fazer no interior. Só que as pessoas levavam para maldade, mas aquilo que eu fazia no interior era ajudar a minha mãe. Eu vim para São Paulo, meus primos são do Guarujá, minha irmã casou e também veio para o Guarujá, minha irmã mais velha. No Guarujá eu conheci uma prima, e eu fui ajudar a minha prima em uma casa de família. Cheguei lá nessa casa de família estava precisando de uma cozinheira. A minha prima, a mulher do meu primo falou: "Adélia, ela está precisando de cozinheira". Eu falei, "eu não posso trabalhar de cozinheira, eu não sei ler". Ela falou: "olha, eu vou fazer um livro para você, um caderno para você, vou por receita tudo por número você conhece?" Falei, "conheço". “Então você faz, macarrão é número, tudo número um. Arroz e feijão você sabe fazer?”. Ela me ensinou a fazer algumas coisas que ela aprendeu lá, foi no Natal. Ela falou: "lá eles fazem tudo isso, tá?" Aí eu fiz, era número, quando acabou a receita eu falei, "bom, agora eu não posso mais cozinhar porque acabou a receita". Eu me arrumei, falei para minha patroa, "eu vou embora". Minha patroa, “por que você vai embora, Adélia”? Eu falei, "porque eu não sei ler e acabou a receita, acabou até onde eu sei fazer". Eu não sabia, estava escrito também, mas a mãe dela era velhinha me ajudava, só que era mais por números. Depois meus patrões mudaram para Higienópolis, lá não deu para estudar. Eu trabalhei 05 anos nesta casa, morava lá. 

 

P/1 - Você morou em Higienópolis também, você acompanhou eles?

 

R - Na rua Pernambuco, 74, e no Pacaembu, na rua Itaguaba, com o mesmo patrão. Não dava para estudar, eu conversando com as meninas na rua, ela falou: "Adélia, tem um colégio de freira ali, Colégio Santa Zita, ela defende as empregadas domésticas e lá pode estudar". Eu fui lá, me matriculei. Minha patroa, "aqui não dá para você estudar, porque meu marido chega tarde do banco". Era dono do banco, “chega tarde e não dá”. Eu saí desta casa depois de 05 anos, fui morar em uma casa de família americana, apartamento pequeno. Ela falou: "só que não tem lugar para dormir. É um quartinho bem pequenininho, tinha uma caminha pequena". Falei, "mas eu tenho que dormir porque eu não posso pagar pensão e nem aluguel", que eu mandava o dinheiro tudo para minha mãe, eu fui morar nesta casa.

 

P/1 - Onde que era essa outra casa? 

 

R - Era na rua Alagoas, 74, Higienópolis. Essa minha patroa me deixou estudar. Nesse Colégio Casa de Santa Zita. Não.

 

P/1 - Isso era o quê, nos anos 70 já mais ou menos, você tinha 20 e tantos anos?

 

R - Lá eu aprendi a cozinhar, culinária. Eu aprendi a fazer trabalhos manuais, tricô, crochê. E o domingo não tinha para onde ir, então eu ia para lá, a gente ia para lá aprender, a irmã Cândida, a irmã Maria José, e uma senhora que tinha lá que me ensinou culinária, minha professora de alfabetização, era alfabetização de adulto, MOBRAL. Eu aprendi ler, mas foi difícil, porque o que as criança faz no prézinho eu estava fazendo, eu já namorava e me desesperei porque queria casar e assinar meu nome, não queria pôr o dedo. Eu casei, fui morar em Santana. Em Santana nasceu o meu primeiro filho, ficou muito doente, a gente pagava o hospital, meu marido ganhava bem na época, mas a gente pagava o hospital lá na Vila Matilde, depois não pode pagar mais, tive meu segundo filho, mas a gente comprou o terreno no Grajaú, solteira, nós dois éramos solteiro, era só mato, não tinha casa, tinham 03 casa, tinham as casas em cima, do lado.

 

P/1 - Eu posso só voltar em uma coisa que vai ser importante para gente? Na sua alfabetização, o que você se lembra mais dessa casa, das irmãs, você se lembra como eram as aulas?

 

R - Lembro. Sabe onde era? Ao lado da cúria metropolitana, lá na avenida Higienópolis. Nas férias a gente fazia curso no Colégio Sion, de graça, que era para gente não ficar parada, as irmãs se ensinavam, tudo católico os colégio ali, as irmãs arrumavam para gente. Nessa Casa de Santa Zita, elas faziam serviço social para Mogi das Cruzes. Eu não sei o que elas tinham em Mogi das Cruzes, acho que ela tinha uma entidade, que ainda tem a foto da minha professora de alfabetização. Se eu achar eu posso dar para vocês. Eu acho que é importante.

 

P/1 - E você se lembra como é que era, como é que ela ensinava vocês, como é que eram as aulas?

 

R - Era uma cartilha Caminho Suave. Alguém já ouviu falar? Então, a gente aprendeu falar, por exemplo, eu aprendi falar circunflexo, por causa da Caminho Suave, porque escrevia X, eu falava isso, a gente aprendeu na cartilha Caminho Suave e os livro, meus livros eu tinha guardado, um tempo depois acabou desaparecendo não sei como, porque a gente morava em uma casa muito pobre no Grajaú e acabou molhando. Ela ensinava, ela pegava na minha mão, então às alunas pegavam, as que sabia mais uma ajudava a outra, mas eu aprendi a ler e escrever. Chegou na 4ª, eu casei, fui morar em Santana na avenida Zumkeller. 

 

P/1 - No seu casamento você assinou o seu nome?

 

R - Assinei meu nome, mas eu fui casar lá em Junqueirópolis. Por que eu fui casar em Junqueirópolis? Aqui em São Paulo, minha patroa me deu um vestido muito chique, eu fui escolher na rua São Caetano, mas eu comprei um vestido tão barato, o tecido é tão vagabundinho, chamava Volta ao Mundo, porque eu queria que sobrasse o dinheiro que a minha patroa me deu, para comprar o vestido da minha mãe para ir no casamento, então eu comprei o vestido da minha mãe, meus patrões falaram, meu ex-patrão do interior falou: "dona Ana está mais bonita do que a noiva!" Fui casar lá, não porque eu queria casar lá, por causa da sociedade, minha mãe era da família, minha mãe era prostituta, minha mãe tinha largado o marido, era mulher largada, não era nem separada. Eu fui casar lá só para mostrar pra eles que minha mãe tinha dignidade, que os seus filhos mais velhos, todos os filhos da minha mãe casaram. E todas que casou, nenhuma se deu tão bem. Por isso que eu acho que casamento é compromisso com a sociedade.

 

P/1 - Antes de perguntar um pouco mais do seu marido, etc. Me fala um pouco como é que era São Paulo nessa época que você estava lá em Higienópolis. Como é que foi as primeiras vezes que você andou no centro?

 

R - Era tão engraçado, porque eu pegava o ônibus pelo número, tinha vez que eu ia parar na Lapa. Meu chefe falou: “nossa, você vai para onde?” “Eu vou para o Pacaembu andar”. “Menina, entra aqui, vai. Eu te levo”. Às vezes era tarde da noite, eu ficava no colo lá com as freiras. Saía, às vezes. Se eu queria sair para casa das minhas amigas, eu tinha amiga na Casa Verde, tinha amiga que morava na zona leste, e às vezes eu ia na casa delas, quando eu voltava as vezes pegava ônibus errado. Uma vez eu fui para minha cidade. Natal e Ano Novo eu trabalhava. Toda Páscoa eu ia para casa da minha mãe. Quando eu cheguei na estação, o carro bateu no outro. Eles chamaram a polícia, chegaram a polícia, e falou para mim, “você veio do interior”? Eu falei, “foi”. Aqui em São Paulo é assim quando o carro bate no outro e tem passageiro, quem tem que pagar é você”, que eu ia pegar o táxi, “é você porque você ia pegar o táxi”, eu falei, “não vou pagar nada, eu não tenho dinheiro, como que eu vou pagar?”. “Como que você vai embora”? Eu falei, “meu patrão paga lá”. Eles falaram, “mas aqui você tem que pagar”. Eu falei, “não tenho que pagar coisíssima nenhuma”. A polícia chegou e falou assim, “é verdade, você tem que pagar”. Eu falei, “está bom, eu falo para o meu patrão, ele faz boletim de ocorrência e paga para vocês”. Aí eles deixaram, sumiu todo mundo, eles me enrolaram, tudo certo, mas era difícil minha quem não sabe ler. Eu sempre falo para o jovem, “gente, estuda”. Eu fiz de tudo para os meus filhos. Eu falei, “até o antigo colegial, a gente dava apoio para os meus filhos. Depois do colegial, vocês vão pagar e fazer faculdade que é para vocês dar valor”. Eles fizeram faculdade por conta deles. 

 

P/1 - E como é que você conheceu o seu marido? 

 

R - Em uma construção ao lado da casa da minha patroa, trabalhando de pedreiro.

 

P/1 - Você andava por lá e ele viu você? 

 

R - Os pedreiros falavam, “nossa, essa moça indo lá não liga para ninguém”, “mas também vocês ficam mexendo com ela, tem que conversar sério, ela não gosta de bagunça”. Eu conheci ele, casei, fui morar em Santana, na Voluntários da Pátria. Depois a família dele vieram todos e se enfiaram na minha casa, ficou lá aquele monte de gente, e tudo que eu fazia não estava bom.

 

P/1 - No Grajaú? 

 

R - Não, em Santana, na Voluntários da Pátria, quando eu casei com meu marido. Um dia eu me arrumei bem arrumada, coloquei um vestido, fiz a barra do meu vestido bem curtinha, botei batom, me arrumei toda, coloquei um salto, era um domingo estavam todos eles lá. "Onde você vai”? Vou ser puta na rua Aurora. Ele falou: “você é louca?”. Ele saiu rapidinho, arrumou um quarto e cozinha e a gente mudou. Nisso eu fiquei grávida, perdi minha filha. Fui para Santa Casa do centro, chegou lá ela pensou que eu tinha feito aborto, judiaram de mim pra caramba, precisou ele entrar e falar que era meu marido, que a gente era casado, até certidão de casamento teve que apresentar, se não eles acharam que eu tinha feito aborto, eles faziam muito aborto naquela época, fazem ainda.

 

P/1 - Porque acharam, você estava sangrando, estava machucada, o que aconteceu? Por que acharam que já havia sido o aborto? Como é que foi a situação?

 

R - Eu acho que todo mundo que fazia aborto ia para lá. Ia fazer 05 meses, era uma menina, meu marido entrou lá, falou: “sou casado, minha mulher, o que aconteceu com o neném?” Ela falou: “ela perdeu o bebê mesmo!” Só que hoje com 05 meses já faz até enterro, naquele tempo ninguém sabia o que que era.

 

P/1 - Me fala o nome do seu marido?

 

R - Ex-marido agora. Luís Leite de Queiroz. 

 

P/1 - Queria te perguntar agora sobre esse seu casamento com esse primeiro marido. Vocês tinham comprado um terreno então no Grajaú?

 

R - É, a gente se conheceu, ele trabalhava em uma construção ao lado da casa da minha patroa. Depois de 03 anos a gente casou, porque eu queria assinar meu nome, então fui para escola primeiro, falei para ele que eu ia casar no interior, mostrar para o povo lá do interior que minha mãe tinha dignidade, e para família, que os filhos da minha mãe todos casaram, não porque a gente tinha que casar, não era meu objetivo. Quando eu conheci ele, fazia 12 anos que ele não via os pais dele. Eu falei para ele: “eu não vou casar com você porque eu não sei o que você fez lá no norte, só depois que você for lá e voltar”. Ele foi, voltou e descobriu que a família dele estava quase toda aqui em São Paulo, os irmãos. A gente casou. Eu casei lá na minha cidade de Junqueirópolis, que eu morava lá, que eu saí, praticamente criada lá. Aliás, nem sei onde eu fui criada, tanto tempo. Morava em Santana, em Santana a gente pagava aluguel, depois saiu dessa casa que morava, alugou um quarto e cozinha, mas é bem bonitinho, arrumadinho tudo, nesse quarto e cozinha nasceram meus 02 filhos. A gente falou, vamos fazer lá no Grajaú, mas a gente não vai morar lá não, porque lá é muito longe, é mato, mas a gente não tinha condições de pagar aluguel ou construir outra casa. Ele falou: “que tal a gente comprar um apartamento?” Eu falei: “não, vou morar no meu terreno, criar as crianças igual eu fui criada no meio da terra para eles sentirem”. Eu fui morar no Grajaú. Meu filho mais velho tinha 02 anos, e o mais novo 1 ano e 08 meses. 

 

P/1 - Qual é o nome dos seus filhos, dona Adélia, para registrar?

 

R - Ricardo Prates Queiroz e Flávio são os dois mais velhos e depois o Mauro nasceu no Grajaú. Tem 41, vai fazer 42 anos. Ricardo, vai fazer 48, tem 47 anos.

 

P/1 - Como é que foi construir essa casa?

 

R - A gente fez um quarto e cozinha, eu tenho foto do lado da casa, acho que ainda tenho. Disse que eu ia invadir a casa, a gente chegou lá estava tudo cheio de sujeira, pessoal estava. Falei para ele, eu vou mudar para minha casa, não vou ficar pagando aluguel. A família dele também se envolvia muito na minha vida. O pai falava que tinha que casar com mulher nortista, casou com mulher paulista, que mandava no marido. Um dia eu falei para minha vizinha, “olha, eu tenho o depósito, Eu não vou devolver para senhora, a senhora me deixa o depósito. Eu vou pagar um caminhão, vou embora”. Paguei um caminhão, fui embora para o Grajaú, eu e meus 02 filhos. Eles gritavam, “ô mãe, eu não quero ir para o Grajaú, eu quero voltar para Santana”. Não tinha porta, não tinha janela, tinha um buraco lá, não tinha vaso sanitário, não tinha nada. Quando mudamos, furou um poço. O poço quando não dava água porque era muito alto, a casa era muito alta, não dava água. Ele tinha uma irmã que morava em São José, eu ia lavar roupa lá na São José, mas depois umas vizinha emprestou água, outra emprestou luz e eu continuei morando ali. Depois ele fez o piso. Naquele tempo, usava vermelhão, colocou cimento, depois colocou vermelhão, encerava, passava escovão, sabe o que é escovão? Então é um negócio assim de passar pano no chão e dar brilho. O chão que era uma beleza. Grajaú não tinha água, luz, não tinha nada. A gente se reunia cada dia em uma casa, para ver como que a gente ia fazer para conseguir água, luz, asfalto e moradia para quem não tinha moradia. Nossa primeira luta foi para luz e água encanada. A água veio para quem morava lá embaixo, minha casa lá em cima não subia água, tinha que colocar uma mangueira para subir a água lá para cima. 

 

P/1 - Que rua que você mora ou morava na época? 

 

R - Era antiga Estrada do Bororé. Hoje Belmira Marin, o Conjunto do BNH também era o Conjunto dos Bororé, hoje é Brigadeiro Faria Lima. Tiraram toda a nossa cultura, e para quem sabe o Bororé era os índios, os Boró que está em extinção, agora só tem no Mato Grosso. 

 

P/1 - Eles fizeram BNH lá essa época também, ou já tinha?

 

R - O BNH era o Conjunto Bororé, e a Belmira Marin, na certidão de nascimento do meu filho, ele nasceu na Estrada do Bororé.

 

P/1 - Então a primeira reivindicação foi a luz e depois a água?

 

R - É porque é diferente o lugar por luz, água, saneamento básico. A gente juntava todo mundo, fazia junto com a igreja. Primeiro eu cheguei e procurei um lugar para me organizar, que eu fiz manicure no SENAC, eu pedi para minha professora que eu queria fazer um curso, mas para ensinar as mulheres do bairro que eu morava muito pobre, e que eu iria ensinar profissão para elas do jeito que eu aprendi com dificuldade. A minha professora falou onde ficava a Grajaú? Naquele tempo não tinha celular, ela foi olhar no guia e falou, “menina do céu, isso não existe. É zona rural lá, é roça”. Falei, “é”. Lá era considerado zona rural, por isso que não tinha água, nem luz, nem nada. A gente batalhou para conseguir luz, veio a luz, aí depois a gente batalhou para vir água, veio a água, a gente foi e denunciava a padaria, chamava padaria Boa Sorte. Essa padaria fazia um pão horrível, um mau cheiro, fossa corria assim ó, você entrava na padaria cheia de mosca, aquele pão horrível, eu fazia pão para minha casa, meus filhos comerem. Eu só tinha os 02, não tinha o Mauro. A gente começou a lutar na igreja, no Clube de Mães. A gente foi na Martins Fontes, não sei o que era lá, acho que alguma coisa de agricultura, levamos o pãozinho e falamos “olha, a gente veio trazer o pão que estão vendendo lá na padaria para você dar para os filhos de vocês, porque nós não vamos dar para os nossos”. Rapidinho a vigilância sanitária foi lá e fez o Franklin reformar todinha a padaria, e fazia o melhor pão talvez do bairro, só tinha a padaria lá embaixo, a Rainha do Grajaú lá em cima, e a de lá fazia pão melhor, mas a gente não queria ir lá. A gente queria comprar pão ali. Eu coloquei meus filhos na EMEI que se chama EMEI Castro Alves, fica atrás do João de Deus. Só que tinha um ônibus chamava Sete de Setembro tudo quebrado, a gente subia nele cheio de buraco o assoalho, não tinha os bancos, tudo rasgado, tinha um da CMTC que era bom, mas era uma vez na vida e outra na morte que passava, e ia para o centro da cidade. Demorava muito. Eu trabalhava em Higienópolis de manhã, de faxineira, na mesma casa, e de tarde eu fazia unha das mesmas pessoas. Eu vinha, passava ali na Praça Roosevelt, tinha o único Pão de Açúcar ali, passava lá, comprava pão, comida para os meus 02 filhos e levava para lá. Meu marido trabalhava de pedreiro. A gente combinava, e meus filhos ficavam o dia todo na escolinha. Quando a gente vinha, eu descia da CMTC e não tinha como ir para casa. A gente ia a pé para casa, as crianças adoravam ir para casa. Não sei se vocês lembram, naquele tempo eles usavam uniforme, era short vermelhinho e camiseta branca, a gente ia comendo milho assado, doce, e eles iam brincando com os passarinhos. Depois que eu consegui para levar eles de ônibus, eles não queriam, também o ônibus era horrível, dava até medo cair. Depois eu fiquei grávida, nós começamos a luta por educação, creche,  escola. A gente recomeçou fazer uma pesquisa. (Como as crianças viviam). A gente viu que as crianças não tomavam leite, porque era considerado grande criança de 02 anos, criança às vezes muito queimada, porque a mãe trabalhava deixava eles às vezes sem comer deitadinho, tinha muita desnutrição, as crianças ficavam mais internadas com desnutrição, de fome, do que doente. Um pessoal de fora, era Ermínia Maricato, resolveu falar, que ela é engenheira e foi lutar por loteamento, não loteamento clandestino, era para ir lotear as favelas, muitas favelas a gente conseguiu que fosse urbanizada. Foi um pessoal de fora para lá, que era o Nabil, foi ensinar as mulheres como trabalhar, como construir a própria casa, mas aí já tinha a associação, nós entramos no Clube de Mães. A gente começou achar que nós mulheres queria mais do que só fazer tricô e crochê, bordar pano, nós queríamos saber mais quem nós éramos, levaram livrinhos para nós, para igreja, uns livrinhos, o Ministério Público prenderam os livros porque a ditadura, os livrinho estavam escrito assim, (será que eu quero sexo, será que esse sexo que é meu? Será que eu quero ser mãe?). Esse livro que saiu eles recolheram tudo. Na igreja, a gente estava discutindo o direito das mulheres, direito de como a gente ia fazer. Só que como era a ditadura, a gente deitava no chão do salão em cima da igreja, e o padre Luiz deixava a gente fazer isso, era a única igreja que deixava a gente fazer isso, porque as outras não deixavam, só o padre Luiz. Ele deitava no chão e fazia um negocinho e colocava as crianças do outro lado deitadas em um colchão, porque se a polícia passava lá, a ditadura, eles passavam com uns carro tudo quebrado, aquelas Kombi antiga quebrada para ir olhando tudo com a lanterna para ver se via alguma coisa. Então a gente fazia tudo no escuro, porque se acendesse as luzes eles iam lá e podia matar todo mundo. Algumas mulheres da igreja começaram achar que não era aquilo que a gente queria, e elas queriam discutir a igreja, o problema da igreja, sua religião. Isso não, nós queremos mais. Algumas mulheres de fora que eram a Samira, a Teresa Everardo, a Marta e várias mulheres, foi um pessoal do PCdoB. A gente alugou uma casa, um salãozinho embaixo na Belmira, era uma coisinha pequenininha, quase não tinha nem porta para fechar, na hora de ir no banheiro o pessoal tinha que atravessar a rua e ir lá na minha casa na Belmira, porque não tinha banheiro lá. Uma doava um ovo, um copo de farinha de trigo, outra levava, cada uma levava. “Quem vai trazer farinha de trigo? Quem vai levar ovos? Quem vai trazer limão para fazer o suco, quem vai trazer o açúcar?” E assim a gente começou a fazer a luta pelos direitos sociais, não tinha o PT, o pessoal do PCdoB passou um slide para nós e quem mandava eram as mulheres. Nossa gente, se nós mandávamos, porque a gente perdeu esse direito? 

 

P/1 - Mandava uma época antes? 

 

R - Mandava, a mulher que decidia tudo, que fazia. “Então nós também podemos decidir, vamos lá”. “O que vocês querem no bairro”? Aí nós falamos “queremos luz, água, telefone, escola, creche, asfalto. Queremos no Grajaú tudo que tem nos outros bairros”. Ele falou: “como que vocês vão fazer?”. “Depois a gente vai ver”. Começou a lutar pelos direitos das mulheres. Depois o pessoal chegou e falou: “o Lula quer fundar um partido, mas a gente ainda não sabe a sigla! Então talvez vou na dúvida do PT. A gente não sabe a sigla do partido, talvez vai ser Partido dos Trabalhadores, sigla PT”. Aí para não ficar junto com o PCdoB, que era muito discriminação com o partido comunista, que não foi muito diferente do PT esta perseguição, a gente falou: “quando começou a discutir o partido, os maridos começou a falar “nossa está vendo, eu não falei para vocês que estão usando vocês. Nós fomos no centro comunitário na favela no Alto da Alegria, que fica atrás do BNH, hoje em dia nasceu a ZR que eles falam, pensa que ZR é zona de risco, não é, ZR porque era zona rural ali. Lá tinha horta, em Grajaú ia caminhão comprar verduras lá em cima na ZR. Era tudo horta. Que não é zona de risco, é zona rural. E aí, até hoje tinha o nome de ZR. Era mato também, tudo horta do japonês. Hoje o terreno é tudo baldio. Então a gente tinha muita verdura, legume, a gente nem saía para comprar nada fora. A gente viu que não tinha escola, não tinha creche, só tinha o Teodomiro, Joaquim Bento porque era no BNH, e uma creche no Joaquim Bento, também que era no BNH, que era a Brigadeiro Faria Lima, mas nem estava funcionando direito, nenhum conjunto nem nada. Nessa pesquisa a gente via que não tinha creche, nós fomos na Secretaria do Bem Estar Social, Erundina era assistente social na época, não era do PT. A Erundina andava depois nos bairro com a gente, aquelas botonas andando com a gente nos bairros para ver o local, Grajaú só tinha água, barro, lama e mato. A gente falou que queria creche para as crianças. O secretário ali na prefeitura perguntou, o que aquelas velhinhas estavam fazendo ali? Ela falou: “porque daqui para frente eu quero ir para rua com elas, não quero cuidar de neto. Então meus netos tem que ficar na creche”. Elas falavam por conta delas, a gente nem orientava, vinha de dentro, era no final dos anos 70. A gente tinha um terreno lá, estava escrito futura creche, nós falamos “e aquele terreno lá? A futura creche. A gente quer a creche”, “mas não pode, porque lá é rio”. “Não, é creche. Então nós vamos levantar barraco lá”. Ele falou: “não é para não fazer favela. Então a partir de amanhã a gente vai fazer a favela lá, aí começaram a creche Somara. Minha primeira creche, da nossa luta que nós construímos foi lá na creche Somara. 

 

P/1 - Eu posso só voltar um pouquinho antes de você continuar? Quando você falou que teve as primeiras lutas pela luz, pela água, por exemplo, para quem que vocês iam reclamar, aonde que vocês iam, com quem que vocês falavam para demandar? Como é que eram as autoridades da época lá?

 

R - A gente ia na Sabesp que era na cidade. Eu nem me lembro onde era. Santa Marta tinha alguma coisa da Sabesp, mas a gente não ia, ia na secretaria. Naquele tempo, a Sabesp não era terceirizada, pertencia à Secretaria, acho que a Secretaria do Bem Estar não sei qual secretaria que pertencia a SABESP. Nos anos 60, me lembro. A Eletropaulo eu sei que era Light, na Secretaria do Bem Estar Social, a gente ia no Ministério Público se não tivesse, mas a gente fazia sabe o quê? Passeata, a gente juntava todo mundo e fazia caminhada, ia todo mundo a pé. “Queremos água, queremos luz, queremos água, queremos luz”. Até que eles conseguiram por luz e água. A creche, a gente ia na Secretaria do Bem Estar Social. A Escola, a gente ia na Secretaria da Educação, que antes acho que era no mesmo lugar hoje lá na República. 

 

P/1 - E como é que vocês eram recebidos, geralmente? Como é que recebiam vocês?

 

R - Como ia muita gente, geralmente entrava uma comissão para discutirem, a comissão com o padre, o pessoal, e ficava outro grupo cantando e organizando. A gente cantava, cantava (como pode peixe vivo), cada música, (criança toma banho na água fria). Depois da Sabesp, a gente ficava, “como pode as criança estudar no escuro sem luz?”. A gente estava sempre usando as criança. Depois a gente foi lutar por moradia, “como pode as pessoa viver sem comida e sem moradia?”. O Hospital do Grajaú era pra ser ali onde é o conjunto das Nações, estava tudo pronto. Foi até celebrado uma missa lá. Daí lutava por hospital, creche, escola, só tinha o Zona Sul e a Santa Casa. A gente tinha que levar as crianças no Zona Sul quando ficavam doentes, ou então como eu tinha aprendido muita erva com a minha avó, mãe do meu pai. Quando as crianças tinham diarreia, por exemplo, eu catava o matinho que chama mentrasto, mas aqui em São Paulo é chamado de erva de São João, aquilo lá é ótimo para diarreia, eu pegava e fazia para os meus filhos, e quando ele vinha na casa, de outro lugar, falava, “eu dei isso para o meu filho. Tem que guardar para o seu?” “Ah, tenho”. Quando levava, amanhecia o dia chegava no Zona Sul, Zona Sul falou: “ele não está mais desidratado não, pode ir para casa”. A gente já tinha cuidado em casa com o mato.

 

P/1 - Me conta uma coisa, como é que era essa relação com a igreja? Como vocês começaram a ser amigos de padre da paróquia? Como é que se deu essa aliança?

 

R - Porque a gente começou a ir à missa. Chegava o dia da primeira comunhão, as crianças lá eram muito pobres, a mãe não tinha que fazer nada. Tinha que fazer alguma coisa, a gente juntava todo mundo, homem, mulher, todo mundo e fazia um bingo, arrecadava dinheiro e fazia festinha da primeira comunhão no salão da igreja, fazia bolo, salgado. Por exemplo, eu sei fazer de tudo, torta salgada, quibe, eu fazia muito para as crianças. Quando eu mudei aqui para o Grajaú, meus 02 filhos não se conformavam da gente estar aqui, então eu levava eles para brincar lá no Horto Florestal, do Grajaú lá. Eu fazia de tudo, eu comecei a levar as crianças das outras também. Porque o zoológico é pago, a gente às vezes não tinha dinheiro para pagar. Então a gente conseguiu uma vez por mês, levava um domingo as crianças pobres para não pagar o zoológico. Então o que a gente fez? Depois dessa luta por transporte, a gente conseguiu o ônibus melhor, a CMTC melhorou os ônibus. Depois saiu essa empresa, veio outra, veio a água, veio a luz. A gente conseguiu a escola, que é a Carlos de Moraes Andrade, tinha a Teodomiro, a gente conseguiu que eles reformassem, fizesse uma escola melhor, era muito ruim, precária, no começo era até de madeira, que é Municipal, agora é uma escola ótima. Depois o que eles fizeram? A Jacó ficou abandonada. Que é do lado da Carlos de Moraes. Eles falaram que não podiam construir duas escolas juntos. Nós falamos, pode sim. Então de dia ficavam os cavalos do Zé Baiano, de noite ficava os cavalo, de dia juntava o grupo de mães e ia limpar a escola para as crianças estudarem, e era fibra, caia nas crianças, dava coceira, a parede era metal, dava choque, a gente lutou muito pela construção da Jacó.

 

P/1 - Qual foi o papel da igreja na luta dos padres? Você falou do padre Luiz por exemplo.

 

R - Padre Luiz era um batalhador pelos direitos sociais, contra a ditadura, padre Luiz batalhou muito junto com os pobres, moradia tudo, batalhou muito.

 

P/1 - Como é que ele era?

 

R - O Padre Luiz era um um padre ótimo. Ele é um padre ótimo. Hoje está aposentado, mas foi para uma ilha aí que eu esqueci o nome, um lugar bem pobre, ele levantou o Clube das Mães. O mesmo que nós fazíamos aqui ele ensinou para essas mulheres lá no clube, nesse lugar bem pobre também. Foi para o Ceará também ensinou para a mulherada o trabalho lá que a gente fazia aqui, só que o trabalho da gente acabou sendo independente, porque como vem mulher de fora participar, eles falavam que estava ensinando sexo livre para nós, para as mulheres pobrezinhas do Grajaú que não sabiam nada. Nesse salãozinho que a gente alugou, que eu falei para vocês, enquanto a gente estava discutindo, um grupo de pessoas brincava com as crianças, corrida de saco, corrida de colher. E nós, um grupo de mulheres, ficamos na discussão. Quando acabava tudo nesse salãozinho, a gente ia comer aquilo que a gente tinha feito, e dar para as crianças também, juntava muita mulher, cada uma mais humilde do que a outra, mais pobre do que a outra. 

 

P/1 - E ele falava com vocês sobre a ditadura, o que vocês pensavam sobre isso? Sobre estar no governo militar?

 

R - A gente sentiu na pele, isso daí a gente sentia. Por exemplo, a gente apoiava as greve dos metalúrgicos, que na ditadura sofreu muito, quem acolhia muito o pessoal da greve era a igreja, capela lá do Socorro, na Igreja do Socorro. As outras igrejas por exemplo, que eu tinha contato é a igreja Nossa Senhora Aparecida, a gente arrecadava comida, alimentos e ia levar para o pessoal da greve. Teve uma vez que teve greve geral, não sei se vocês se lembram, mas já devem ter visto falar. A gente entrava nos ônibus e falava, “olha, você está vendo o preço do feijão, o preço do arroz, você está vendo? A gente é obrigado a ir nesse caminhão da Cobal que vem aqui no BNH vender essas comida, obrigando a gente comer soja, obrigando a gente comer isso, nós temos que comer comida de verdade, vamos comer soja que é saudável, mas não obrigado”, queria comprar as coisas não tinha nada nas prateleira. Vocês não lembram disso, esse caminhão da Cobal. Esse caminhão enorme, a carretona ficava lá no BNH, e a gente ia lá comprar as coisas, porque não tinha onde comprar, não tinha o que comer na época da ditadura. E a gente não podia nem sequer brigar muito, porque a polícia vinha. Então quem ia mais para os lugares eram as mulheres e crianças. Que aí a polícia barrava um pouquinho. Isso também não quer dizer que livrava, tinha muitas mulheres lá que foram presas. Eu não cheguei a ser presa. Só pegaram no meu braço, machucava, mas não cheguei a ser presa, antes dos anos 80.

 

P/1 - E a polícia era um problema lá no bairro, eles tratavam mal as pessoas ou não?

 

R - Nossa, se soubesse que estava discutindo política, meu Deus do céu, muito mal, era grave para eles na ditadura. Depois que a gente discutiu na igreja, é lugar escondido e que a gente podia prejudicar a igreja, que nós alugamos aquele salãozinho, eles atacavam a gente de outro jeito. Por exemplo, colocava fogo nos barracos, derrubaram onde estava construindo favela, e falou que era feio porque era de madeira, tanto que a gente juntava com o pessoal rapidinho e fazia de alvenaria, rapidinho para as pessoas entrarem para não me derrubarem. 

 

P/1 - Eles tacavam fogo?

 

R - Tacavam fogo nos barracos, jogava a pessoa fora, fazia despejo das pessoas. Quando a gente começou a lutar por educação e creche, perguntava como que a gente fazia os panfletos. Primeiro a gente fazia da mão mesmo, quem ia, fazia, colocava carbono e a gente distribuía. Depois veio mimeógrafo, a gente rodava, mas às vezes saía péssimo, cada uma levava dinheiro, juntava e elas compravam o papel sulfite para gente. Às vezes a gente pedia nas lojas, doava. Natal e Ano Novo lá na minha rua, na rua de cima, a gente fazia festa comunitária para as crianças que nunca tinham visto Natal, tudo isso. A gente fazia no final dos anos 70 para 80. 

 

P/1 - Vocês faziam passeata no centro também de São Paulo contra a carestia?

 

R - Depois começou a luta da carestia. A luta da carestia a gente ia bater panela na cidade, na praça da Sé, ia muita gente de todos os bairros. A gente ia bater, cada uma levava panela, e as panelas batendo. “Como pode o peixe vivo viver fora d'água fria? Como pode a criançada estudar sem comer nada? Como poderei viver, como poderei viver? Dia e noite, noite dia com a panela vazia!” A gente ia cantando na Praça da Sé e de olho na polícia, se a polícia chegasse ali era na época da ditadura, sempre lutando pelo direito das mulheres, sempre. A gente começou nos anos 80, já estava formando o PT mesmo, inaugurou o núcleo do PT do Grajaú que era muito forte, muito bom, e no núcleo eu descobri que eu estava grávida, não bebia nem caipirinha, eu bebi tanta caipirinha aí descobri que eu estava grávida do meu filho caçula que tem 41 anos, o Mauro. O pessoal falou assim, “aqui é petéia” depois veio ele, aí o dia que o Lula foi em casa ele era pequenininho, acho que devia ter uns 08 meses, ele cantava “PT Lula piti papai”. Aí ele ficou com o apelido de Piti. Está até hoje, chamam ele. Mauro Piti.

 

P/1 - O Lula foi na tua casa, foi visitar? 

 

R - Não,  foi ali na pracinha, mas eles iam reunir na minha casa, não tinha onde reunir o salão. Suplicy, Erundina. Sabe o que a gente fazia? Eles subiram na feira, compraram de tudo para comer, e a gente fazia, comunitário e comia. Na minha casa e na casa da Elita. Mas a Elita não quer participar de nada. Olímpio, o marido dela era um lutador, batalhador por moradia, foi um dos primeiros. Queria saúde, educação, cultura, a gente queria tudo. Quando começou a construir a escola, a creche, que melhorou, depois a gente queria a saúde, mas já foi no final dos anos 80, depois dos 90 anos já conseguiu o pronto-socorro Maria Antonieta no Grajaú. A escola Jacó estava precisando de reforma, não tinha como fazer uma construção com as crianças lá dentro. Aí tinha uma creche na frente que chamava K de 19, diz que era da saúde essa creche e estava prontinha, 06 meses a creche fechada, bonita, nós entramos, um grupo de mulheres e falamos para o segurança, “nós somos da comissão de luta por creche, nós queremos ver aqui quantas crianças cabem aqui dentro, porque nós já estamos selecionando as crianças”, aí o segurança deixou a gente entrar, nós pusemos o segurança para fora e ocupamos a creche. No dia seguinte nós fomos, na segunda-feira pegamos as crianças desta escola, o choque estava chegando lá, quem pôde levar a carteira levou, aí as crianças passaram. Não sei se vocês conhecem lá no Grajaú, a Jacob é desse lado assim, os maiores ia com as carteira e levava lá para crechinha. O que a gente pôde levar, a gente levou, panela grande, algumas carteiras, algumas crianças conseguiram levar. Depois avisaram o diretor, eram 05 horas da manhã o diretor chegou lá, “daqui não sai mais nada, nem professor, nem ninguém”. Nós conseguimos pegar alguns livros, conseguimos pegar algumas coisas das crianças e levamos para a creche, que não sabia se era a 1ª série, o que era. Nesse tempo nós tínhamos fundado a Casa da Cultura do Grajaú e eu não estava mais na casa da mulher não. A Casa da Cultura do Grajaú foi fundada exatamente para esse objetivo, porque sem uma entidade, a gente não tinha muito apoio, nem respeito. A gente conseguiu levar as crianças para lá. Acho que o Carlos Estevão era secretário da educação, a gente levou as crianças e a Globo foi lá, toda imprensa, a gente colocou um banco que pegamos do salão do PT e colocamos lá no chão, as crianças pequenas ficavam ajoelhadas e escrevendo no banco, e as crianças grandes do ginásio davam reforço para o 1º ano. As crianças do colegial que era do Beatriz Lopes, que lá no Grajaú não tinha colegial ainda, tinha só no Beatriz. Nós conseguimos inaugurar também o Samuel Wainer, nós pedimos que os alunos de lá do colegial todo convencido, ia dar aula para o ginásio. E a gente conseguiu. Nenhuma criança da escola Jacó naquele ano repetiu de ano, todas foram bem. Eles fizeram a escola Jacó em 11 meses, que nós obrigamos a construir. As mães da creche ficaram revoltadas contra a gente, brigar, xerife foi bater na gente, eles pegaram uma viatura puseram eu, a Tonha, uma vizinha nossa, e uma outra mulher na viatura e foi dar a volta lá no Cocaia só dava mato ali. A gente foi, levaram a gente para a 25ª em Parelheiros. Chegou lá e falou que não podia trazer a gente de volta porque a viatura estava quebrada. Uma delegada mais machista do que os homens. O chapéu na cabeça. Aí eu falei, “a senhora é ditadora, agora a senhora vai dar dinheiro pra gente ir embora”. Ela falou: “como?”. E eu falei “a senhora dando dinheiro?” Ele falou: eu não posso dar. Eu falei “tem que dar”. “Nós não podemos ir embora a pé daqui. E como que a gente vai pegar ônibus?” “A viatura quebrou, a senhora dá dinheiro pra gente”. Aí ela, deu na época 20 cruzeiros, 25 reais uma coisa assim. Nós chegamos no ônibus e falou, “motorista, a delegada deu dinheiro pra gente pegar o ônibus, porque eles quebraram a viatura pra gente não ir, mas a gente está com dinheiro aqui, só que nós não podemos pagar ônibus porque nós temos que comprar comida para os alunos”. Ele falou: “vocês são aquelas mulheres que eu vi hoje no SPTV lutando pelas crianças? Então pode passar vocês, não vão pagar nada. Fica tudo aqui na frente, e marmanjo passa para trás, elas vão ficar aí porque elas estão cansadas, passaram a noite toda lutando pelas crianças”. Aí fizemos comida para as crianças. Mas antes disso também, a gente falou para o Carlos Neder, que era secretário da saúde. “Nós não temos onde pôr as crianças. Diz que o Maria Antonieta era posto, vai ser construído um pronto-socorro desde a época do Covas, agora é você que está aqui. Você vai construir o pronto-socorro ou não? A gente quer um prazo, que dia você vai começar?”. “Não, mas não é assim”. “A gente vai logo, amanhã a gente vai levar as crianças para lá, vai transformar o posto de saúde em escola que está fechada, porque eles falaram que ia ser pronto socorro”. Aí o Neder mandou quebrar o posto de saúde e fizeram o pronto socorro Maria Antonieta do Grajaú.

 

P/1 - Você temia por acontecer alguma coisa com você, com seus filhos, com as companheiras ou não nessa época? 

 

R -Tinha muitas mulheres participando com a gente, não era só uma não.

 

P/1 - Mas você temia que acontecesse algo, você tinha medo que acontecesse algo?

 

R - Eu não. E quando as outras tinham medo, eu tomava a frente, colocava a mão na frente e não deixava. Por exemplo, para colocar aquele farol que tem lá embaixo perto da Carla de Moraes foi uma luta. Eles não podiam colocar porque não podiam colocar asfalto na Belmira Marin, na Bororé porque era estrada. Não podia colocar que era zona rural. Só que nós já tínhamos conseguido as duas escolas, já tinha conseguido creche, então já não era mais zona rural. A gente lutou para construir aquele farol. O que que a gente fez? A gente veio aqui em Pinheiros no DSV com um movimento de mulheres, sempre mulheres, veio umas 30 mulheres, nós falamos, “nós queremos que vocês coloquem sinalização lá embaixo, porque passou uma mulher lá que chamava Glória, o caminhão grande passou e arrancou o braço do menino dela, ela ficou com o braço na mão e nós ficamos muito revoltados, a criança foi esmagada”. A gente falou para eles, “olha vocês vão colocar lá ou não vai?” Só que não podia, à noite nós fomos para rua e quebramos o asfalto, só mulher, foi com machado, marreta e quebramos o asfalto todinho, uma vala. No dia seguinte a prefeitura fechou. De noite, nós abrimos mais 03. A prefeitura foi para fechar de novo, quando encostou o caminhão, esse meu filho mais velho que hoje tem 47 anos, “o moço não faz isso não, nossa mãe é doida. “Você tem coragem de enterrar a gente vivo, moço? Pelo amor de Deus, não faz isso”. Foi chegando criança, foi chegando gente, a gente falou: “daqui não passa um carro nem para lá nem para cá. Tinha aqueles malucos, ditadura, polícia passava, parecia que ia jogando, com aquelas armas assim para fora, ele só fazia assim rapidinho, aquele negócio fica magro, pequena, armava rapidinho para pôr medo na gente. Eu falava “não tenha medo, porque os filhos dele não estão morrendo aqui”. Eu fui na escola, já tinha a Carlos Moraes, depois na escola falei, “Janice, libera as crianças, a diretora era muito legal”. “Adélia, eu não posso fazer isso”. “Ah, você não pode?”. Chegamos em cada sala, “professora, libera as crianças?”.“Não”. “Está bom”. Então, cada mãe ia para uma sala, chegava lá pegava a mãozinha das crianças do prezinho, que foi a primeira escola que teve, 06 anos era lá, porque outra escola não tinha, nós pegamos cada criança, seguramos nas mãos, criança grande, todo mundo, cada uma se virou, segurou nas mão das crianças e levamos tudo para o meio da rua. Aí ele falou: “você não tem medo de matar crianças?” “Não, eles não vão matar crianças, eles estão matando as crianças na rua, na Belmira. Não vamos”. Aí a gente conseguiu aquela sinalização. Também foi no final dos anos 80. Acho que eu não tinha meu filho ainda, o mais novo, que tem 40 anos, só tinha os 02.

 

P/1 - E durante essa luta toda você trabalhando em casa, dos outros e fazendo manicure, é isso? 

 

R - Fazendo manicure. Fazia manicure também na minha casa. No domingo, tinha hora marcada. Tinha hora que fazer. 

 

P/1 - E indo e voltando de Higienópolis para o Grajaú, é isso?

 

R - Para o Grajaú. 

 

P/1 - E quanto tempo demorava nessa época para ir e voltar de ônibus?

 

R - Eu ia a pé de Higienópolis porque não tinha dinheiro para pagar condução, eu ia a pé da Higienópolis até a Praça da República. Na Praça da Bandeira parece que saía ônibus para o Grajaú. Acho que era, não era lá em cima ainda não. Eu pegava o único ônibus que ia para o Grajaú. A gente reivindicou também da CMTC na Secretaria de Transporte. 

 

P/1 - De quando você foi para o Grajaú, hoje você vê muita mudança, você falou claro de muita coisa. O que mais você vê, o que você acha?

 

R - Acho que veio o progresso, porque tem todos os bancos no Grajaú. Todas as lojas. As lojas que só tinham no centro da cidade, Pernambucanas, essas lojas de nome, não tinha no Grajaú. Hoje tem tudo. Hoje as pessoas só vão na cidade comprar as coisas se quiser, não precisa. Grajaú tem tudo, não precisa sair de lá para nada. Às vezes tem roupa que é até mais barato do que em Santo Amaro. Não tem necessidade de ir para lá. Principalmente, o Parque São Paulo, que ficou um bairro comercial bem valorizado. Lá para baixo da minha casa não, minha casa não tem muito valor, eles falam que é por causa da favela. 

 

P/1 - Só que tem uma coisa, tinham pessoas do bairro que não concordavam com a luta da senhora, das mulheres, tinha ou não tinha?

 

R - Mais os homens que não deixavam a vida das mulheres ir. Mas a gente ia na igreja e anunciava na missa. A gente pegava o microfone, pedia e falava na missa. Tinha pessoas da igreja às vezes, “aqui não é lugar para isso”, tirava até o microfone da mão da gente, as pessoas falavam, às vezes mulher mesmo, tinha mulher mais machona que homem, mas na luta ia homem e mulher, não era só mulher não. Agora a luta das mulheres da panela vazia foi mais mulher, nós conseguimos na luta das mulheres, nessa luta que a gente conseguiu Associação de mulheres do Grajaú. Aí nasceu a Associação, nasceu do movimento de moradia, movimento social, movimento popular. A Casa da Mulher deve ser assim, amparar todo mundo. Só que nós falamos Casa da Mulher, porque nós alugamos a sede, um japonês que era dono da casa e nós alugamos, a gente alugou no nome da Marta e eu fui fiadora. Na época não falei nem para o meu marido, porque nós tínhamos estrutura, então eu levei a escritura e assinei lá. Fui fiadora da casa e o japonês aceitou. Quando meu marido soube, “você é louca, nós podemos perder a casa”. “Já foi”. Teve a época que eles não pagaram a casa, eu quase perdi meu terreno, eu trabalhava dia e noite, e o dinheiro que trabalhava ajudava a casa, pagava a luz, água, pagava imposto, pagava tudo na casa, que todo mundo trabalhava. Depois a gente conseguiu o convênio com a prefeitura que pagava o curso de manicure e o dinheiro ficava para casa, meu. Agora as outras alunas, o dinheiro ficava metade para ela, metade para casa. Tinha confeitaria, tinha corte e costura, manicure, cabeleireira, tinham 13 cursos, crochê, pintura em tecido, tinha muita coisa na casa. Quando foi em 82, nós conseguimos comprar a sede, fizemos um projeto e compramos a sede. Para você ter ideia, eu era tão louca que quando meu filho estava com 04 meses precisava representar a casa em Porto Alegre, eu falei “gente, quem vai?” Ninguém queria ir. Aí a pessoa falou: “Délia só quem pode é você, mesmo porque para falar, para chegar lá é você, não tem outra pessoa não”. Eu fui para Porto Alegre, deixei meu filho com 04 meses em casa, uma das mulheres que luta com a gente tinha uma filha da mesma idade do meu filho. Hoje essa menina é freira. Aí ela amamentava a filha dela e ela ficou em casa amamentando o meu filho. E lá eu tirava o leite toda hora para não secar, fiquei 10 dias em Porto Alegre, e a Marta foi representar a associação lá em um congresso em Porto Alegre, que elas estavam fundando também um trabalho de mulheres e queriam nossa experiência. A gente já levou experiência para Pernambuco, para Garanhuns, para Goiânia, para vários lugares. 

 

P/1 - O que você acha que aconteceu no Grajaú nesses anos para juntar tantas mulheres guerreiras?

 

R - É a necessidade. A minha avó, mãe do meu pai, falava que a necessidade faz sapo pular. E é isso. Ela falou, sabe por que o sapo pula? Porque ele tem necessidade. É que minha avó era de descendência indígena, não gostava muito de sapo, não sei porquê, perguntei para ela. Por que Dindinha a senhora não gosta de sapo? Ela falou: “vou falar não”. 

 

P/1 - E quando acabou a ditadura em 85 você acha que melhorou a situação?

 

R - Olha, antes disso a gente foi para Brasília, oitocentas mulheres. E a gente ficou presa em Cristalina, nós ficamos lá com sede, com fome, cansada, viajar a noite toda e chegar lá em Brasília eles não deixaram a gente entrar. A polícia não deixou as mulheres entrarem. Aí o Suplicy foi lá falou que as mulher ia sim, o Suplicy conseguiu, mas foi engraçado porque eles colocaram, o batedor ia na frente, aquelas motos branca ia na frente, e os nossos ônibus ia atrás. Quando nós chegamos na Praça da Sé, entramos na Praça da Sé, o local onde apagaram as luzes. Nós fomos para Brasília direito das diretas já, direito ao voto, que para as mulheres foi uma conquista, e às diretas já, foi todo o Brasil.

 

P/1 - Eles apagaram as luzes para ninguém ver?

 

R - Apagaram as luzes da Praça da Sé. Ficamos todos no escuro, depois acenderam, mas a gente ficou uns 15 minutos no escuro.

 

P/1 - E nessa época você viu acabar a ditadura, então?

 

R -  A gente foi para Diretas Já. Primeiro que a mulher não votava, então nós queríamos provar para eles que mulher também queria votar, e que queríamos a Diretas Já. E na nossa luta, a gente gritava também. “Diretas já”, e também a gente cantava. Depois nós fizemos boicote da carne do Grajaú, chegava no açougue, “olha a carne lá embaixo está bem mais barata não compra aqui não”. Aí o pessoal ia naquele açougue, a gente já tinha passado lá e tirado as carnes penduradas, e colocava cartaz, “aqui passou o movimento de mulher pela alimentação”. Então falou para os açougueiros, “você não vai vender a carne para nós?” Os açougueiros, “você está doida. Saíram as mulheres com buchão aqui, outras com os meninos no braço. Eu não vou fazer isso não. Deus me livre, chamei o frigorífico e recolheu todas as carnes”. Não vai vender, passava no outro açougue, porque tudo que a gente comprava no Grajaú era mais caro, porque dizia que era zona rural. Tudo. Aí nós fizemos isso, o boicote da carne, já tinha associação na época. Depois os açougueiros iam se reunir com a gente, que nós tínhamos razão, a gente cantava: “Não é contra o comerciante que a gente está lutando, é contra a inflação que aos poucos está nos matando”. E hoje está aí matando a gente, morrendo de fome e ninguém faz nada, o progresso como é que é.

 

P/1 - Você vê que tinha muita inflação nos anos 80, você viveu muito isso?

 

R - Teve muita, a gente viveu. Teve uma época que eu morava em Santana ainda, a gente comia só feijão preto porque não tinha dinheiro, não tinha onde comprar outra coisa, tinha dinheiro, mas não tinha onde comprar. Lá no Grajaú teve uma época que os mercados você olhava as prateleiras tudo vazia, não tinha nada, e tinha esse bendito caminhão da Cobal que ia vender pra gente. Por que não ia a comida para o mercado? Daí nós fomos para rua mesmo batalhar contra o caminhão da Cobal. A gente queria comida, comer a comida que a gente quisesse, posso até comer soja, mas não porque eles querem.

 

P/1 - Depois da ditadura, dona Adélia, quais as lutas que você se dedicou, está se dedicando agora. Como é que está?

 

R - Saúde. Nós estamos lutando muito pela saúde. Saúde porque o governo fechou o Hospital do Grajaú, agora a porta está fechada, queria acabar com a maternidade em Interlagos, o Zona Sul é porta fechada, só tem a Santa Casa que atende pronto socorro, fizeram Parelheiros, mas estava sendo especial de covid, mas Parelheiros é da prefeitura. A nossa para valer agora é saúde, sem saúde não tem comida, não tem casa, não tem nada, eu continuo na saúde.

 

P/1 - Conta pra gente como é ser mãe de três meninos? Como é que foi eles?

 

R - Quatro filhos. Depois ainda tive, em 83 nós tivemos a luta da violência contra a mulher, eu tive uma irmã assassinada pelo marido. Já estava grávida de 04 meses, era outro menino, eu dei uma entrevista, o Temer que era o secretário da segurança pública. Aí eu perguntei na Globo quanto o secretário de segurança pública ganhava por comissão de cada mulher assassinada. Ele mandou para ir uma comissão lá falar com ele. Nós conseguimos 10 ônibus. A gente era assim, era para ir, vamos todo mundo, não ia sozinha. A gente conseguiu depois, não lá, eu acho que é a única luta que não valeu até agora que está desse jeito, está valendo por causa da denúncia, é que agora mudou feminicidio, mas para mim é assassinato do mesmo jeito, só achou o nome mais bonitinho para eles, mas é assassinato, tem que deixar, nós que criamos filhos homens, educar para que eles respeitem as mulheres do jeito que elas são. Não tem que matar a mulher porque a mulher quer separar, porque a mulher, eu tenho direito. Antigamente os homens separavam e ninguém matava eles. Não é que nem mulher tem que matar homem, e nem homem tem que matar mulher. Direitos são iguais. 

 

P/1 - E os seus filhos estão como hoje? Estão bem, os seus filhos, estão crescidos?

 

R - Bem, são meus amigos, apoiam a minha luta, falam que eu sou batalhadora, eles são assim, até votam no PT, mas por causa da gente, mas são meio assim, “ah, mas o PT é radical… Ah, mãe, o PT isso…Ai mãe, vou votar vai.

 

P/1 - E os seus netos. Como é que são?

 

R - Tudo corintiano, a pequenininha, o pequenininho é tudo corintiano. Ainda não entende de partido, mas as minhas netas são todas revolucionárias. Todas as duas, tem uma que tem 04 anos, ela fala assim, “cala a boca, eu estou falando, me ouve primeiro”, ela fala, “cala a boca, fica quietinha aí, dona Adélia”. É isso, Grajaú é luta.

 

P/1 - E o que você está pensando? A gente conversou um pouco sobre isso fora, mas o que você pensa e sente sobre os tempos que a gente vive hoje? Você acha que a gente regrediu nesse mandato atual da presidência?

 

R - Eu acho que regrediu, o povo de hoje é muito mole. O governo faz o que quer, ninguém faz nada. Gente, olha o preço da carne, olha o preço da comida, o arroz chegou a quase 30 reais o pacote de 05 kg de arroz, e as pessoas não fazem nada. E eu não podia fazer nada, porque esse meu filho que era deficiente, não era meu filho biológico, era o filho da minha irmã que foi assassinada. Com 21 anos ele sofreu um acidente e ficou deficiente. Então eu não pude participar mais de quase nada, participo só da saúde, mas a igreja tem um papel fundamental, a igreja católica, das igrejas talvez não todas, mas a igreja católica ainda são as que mais batalham pelas pessoas carentes. Ainda é, eu acho. Eu mesmo quase não vou na igreja, porque eu não tenho como estar indo. Mas ainda é. Se as pessoas quiserem se organizar, está aí o boicote da carne. Então na luta do movimento da mulher pela alimentação, a gente conseguiu no Grajaú 12 mil litros de leite mais barato. Alguém se lembra disso? 12 mil litros de leite, cada pessoa tinha direito de pegar até 05 litros de leite ou mais, a gente conseguiu, vinha a garrafinha. Nossa, era uma fila enorme. O que a gente conseguiu com isso? Baixou o preço da carne no Grajaú, baixou o preço do leite. Grajaú voltou a ser cidade. A gente participou também, em Santo Amaro ia ter Plebiscito, nós participamos, as mulheres foram, não deixou, votou a favor, mas é melhor porque ter mais renda, mas a gente para ir na cidade também paga mais caro, a gente não quis, participou também do plebiscito de Santo Amaro, se o Grajaú já sofreu por ser zona rural, imagine livre.

 

P/1 - Dona Adélia, eu vou ter que infelizmente ir para as perguntas finais, pelo tempo da casa, são duas questões, a penúltima, então: Qual é o saldo, vamos dizer assim, que você faz desse período da ditadura para você no Grajaú, por exemplo? O que você pensa sobre esse período hoje quando você olha pro passado?

 

R - Às vezes eu fecho os olhos vendo essa guerra lá na fora do Brasil, quando eu vejo a polícia arrecadando aquele monte de arma, você fecha os olhos vê eles fazendo, porque eles pegavam era tão rápido, só faziam assim ó, e aquele era pequeno, de repente aquele negócio ficava grande, aquela arma enorme e eles apontaram pra gente, hoje eles tiram dos bandido, antigamente estava na mão dos militares. E agora, como os bandidos têm essas armas? Com que poder? Como que vai para mão dos bandidos isso daí? Deve ter algum jeito que vai para lá. Essa arma não foi para lá à toa. Como que foi? Eu fico pensando? Como pode ter tanta arma assim?

 

P/1 - Dona Adélia, tem alguma pergunta que eu não fiz, que você gostaria que eu fizesse, tem alguma coisa que você gostaria de falar antes da gente ir terminando?

 

R - Não, eu acho que vocês estão fazendo a história, é muito bom isso daí. Porque eu já tenho 75 anos, e tem pessoas que estão mudando até a Associação de Mulher, falando que a Casa da Mulher nasceu em 82. Na verdade não foi, foi no final dos anos 70. A partir do momento que nós alugamos a casa como Casa da Mulher, já era uma luta, elas não sabem disso, não se valoriza. E também eu acho que precisa valorizar também o ser humano, ser mais valorizado, tanto homem como mulher. Eu fui conselheira tutelar, fui diretora do SINDSEP, eu prestei um concurso para prefeitura, trabalhei, me aposentei como funcionária pública. Eu acho que tem que voltar o concurso público. Porque é a única chance que tem para melhorar a saúde é concurso público, porque se você entra em um concurso, o que você fala, eu vou trabalhar direito porque senão cai a sua letra, senão é transferido para outro lugar. Se você não tem valor, então você como funcionário público concursado, dá valor a você e ao seu trabalho. Eu acho que todo mundo tem que ser, todo serviço público tem que ser concursado, porque essas OS por aí é tudo enganação. Hoje mesmo me ligaram falando que em uma unidade de saúde tem um clínico atendendo criança, essa enfermeira me ligou e falou, “Délia, ele é clínico e está entendendo criança”. Eu não tenho coragem de mandar uma criança para ele. E outra coisa, ele está passando a medicação que não é para criança é para adulto, a dosagem. Você vê, as pessoas ligam na minha casa denunciando o que vai fazer, agora a gente leva ao conhecimento do movimento popular, eu aconselho o gestor, o conselho gestor vai batalhar, vai descobrir, acho que esse médico já nem está lá mais, quer dizer, ele não é clínico, não pode atender pediatra.

 

P/1 - Então, até hoje você está se movimentando?

 

R - Estou, mas agora vai ser presencial, e presencial para mim é difícil, tem lugar que não tem nem acesso para entrar, eu participava on-line, nunca deixei de participar das reuniões, é o SUS - Serviço Único de Saúde, não pode mudar. Olha, saúde, educação e cultura andam juntos. Eu costumo dizer que é o tripé, mas não é um tripé comum, é um tripé que segurava o tacho que fazia rapadura, o caldo da cana, então coloca no trapézio, coloca aquilo lá em cima, aquele caldo fervendo, fervendo e segurava. Então, é isso.

 

P/1 - Como é que foi contar um pouco da sua história pra gente hoje? 

 

R - Acho que é legal, sabe por quê? Eu já tenho 75 anos. Eu já não tenho saúde, não sei quanto tempo eu vou viver. E eu acho que é legal que a minha história, não a minha, história das mulheres do Grajaú. Eu não conto a minha história. Eu estou contando a história do meu bairro, do Grajaú. E quem está aqui não é a Adélia, é a representante do Grajaú, é o bairro do Grajaú, e sempre que vocês colocam, vocês coloquem que é o Grajaú que está na luta. Da Vilane participava com a gente também, era muita gente que participava, depois que eu passei no concurso da prefeitura, e aí minha irmã foi assassinada, eu comecei a lutar mais pelo direito da violência contra a mulher, e está pior, o que está matando mulher aí, Deus me livre, ou está matando mais ou está sendo mais divulgado, também tem isso. Naquele tempo não era todo mundo que tinha a coragem que a gente tinha, de ir para rua e falar da violência contra a mulher, hoje tem, está sendo divulgado, tem meios, e até vocês mesmo pode ser, pode estar falando para as mulheres. “Gente, vocês mulheres, o que leva vocês a aguentar tanta violência, mesmo quando as amigas de vocês ou alguma conversarem com vocês, puxa vida por que você não faça isso. É difícil? É”. Quando eu fui para divorciar, eu fui no advogado ele falou: “eu não vou te dar o divórcio, não vou assinar seu divórcio”. Porque na época eu não tinha emprego fixo. Então eu fiquei separada de casa, ele no quarto e eu na sala, 02 anos. Quando eu entrei na prefeitura que eu me efetivei, que demora 02 anos para se efetivar, eu falei, “agora chegou a minha vez”. Saí de casa, o problema é esse? Fica na casa, conheci um outro companheiro, casei entre aspas, não casei mais não. Já falei, casamento para mim é compromisso com a sociedade, o juiz não queria me dar pensão, porque eu não fui casada. “Por que que eu não casei”? Eu falei, “porque casamento para mim é compromisso com a sociedade”. Ele falou “quê?”. Falei “é, excelência, é isso mesmo. Quer dizer, se a mulher não é casada não pode batizar os filhos. Se ela não é casada não pode receber a pensão. Que é isso? Para com isso”. Aí eu acabei recebendo a minha pensão.

 

P/1 - Essas coisas mudaram um pouco hoje em dia, as leis, mas é isso. Eu agradeço você, dona Adélia. 

 

R - Eu espero que vocês gostem. 

 

P/1 - Eu amei. 



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