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História

Não ter medo de errar e não desistir nunca

História de: Cristiane Donizete da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2021

Sinopse

Cristiane fala sobre sua infância, quando já demonstrava encantamento pelos livros. A família é muito importante em sua trajetória, principalmente sua mãe, que ficou viúva quando Cristiane ainda era jovem, e sua tia, que deu apoio às duas ao longo da vida. Já adulta, Cristiane trabalhou no mercado editorial, inicialmente no segmento de jornais. Atualmente é empreendedora e possui sua própria editora, a Soul, além de ter escrito um livro infanto-juvenil que aborda o racismo com base na história de sua mãe.  

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História completa

Eu tive um professor que confundiu minha cabeça, mas da forma boa. Ele dava aula de filosofia e de história. Ele colocou tanta dúvida em minha cabeça, dúvidas boas, que ele se tornou inesquecível. Porque eu pensava, eu questionava. Eu lembro que me tornei uma chata, porque questionava tudo e todo mundo. A partir desse momento houve uma ruptura, porque me falavam alguma coisa e eu ficava: “será que é?”.

Meu pai trabalhava na Zona Cerealista. A Lux fez uma campanha: vinha um fardo com um pacote de sabonete e um romance dentro, desses bem água com açúcar. Lembro que meu pai trouxe um fardo de sabonete e em cada caixinha de sabonete vinha um romance. Como tinha estourado, eu peguei o primeiro romance para ler, devia ter uns doze, treze anos. Eu devorei aquele livro. Eu li o primeiro, gostei, abri todos os outros para ler e meu pai foi obrigado a ficar com os sabonetes, por conta da minha intromissão de rasgar embalagem. Depois não parei mais, eu li minha vida inteira. Eu acho que não tem um dia da minha vida que eu não leia. Por isso que os livros entraram na minha vida dessa forma tão forte.

Quando eu entrei na faculdade eu já era uma trintona. Foi um mundo de novidades para mim. Eu me achei ali; tinha uma professora que me incentivou muito a escrever, ela gostava muito da minha linha de escrita e me valorizava e apoiava muito. Lembro que um dos exercícios em sala ela falou: “Cris, você escreve tão bem. Tem um canal chamado Recanto das Letras; vai lá, começa a escrever, deixa as pessoas conhecerem seus textos”. E eu fiz isso e me espantei quando coloquei meu texto e teve trezentas leituras, eu falei: “Uau!”. Isso era gratificante. Aí passou um tempo, as pessoas me mandando mensagem: “Cris, escreve de novo”, e aí o texto tinha mil leituras; era fantástico.

Até que um dia uma amiga me procurou para fazer um livro. Estava fazendo o centenário que a família dela tinha vindo do Japão para o Brasil. E ela quis fazer um livro onde contava um pouquinho a história da família. Eu fazia jornal, tinha uma editora aberta, mas nunca pensei em fazer um livro. Eu fiz esse livro para ela com carinho para ela entregar na festa, cada convidado teve um livro. Foi uma edição praticamente caseira.

Tempos depois entrei em uma editora que fazia livros. E aí me apaixonei pelo mundo editorial e entrei de cabeça nesse universo. Eu comecei a conhecer autores, escritores, revisores, capistas, diagramadores... E aí recebia um livro, um original, como a gente chama, um diamante bruto, muitos escritos em caderno; e eu entregava um livro pronto. Passei a fazer parte do processo dos sonhos, porque escrever um livro tem a ver com essa coisa de sonho, realização pessoal. Aí eu me apaixonei. Foi um caminho sem volta. Eu posso dizer hoje, aos 50 anos, que eu me achei, que literalmente esse é o meu universo. É o que eu amo fazer, é o que eu gosto realmente de fazer.

Abrir a Soul foi o maior empreendedorismo que eu poderia fazer, porque estava com outra cabeça, outra visão, muito mais preparada. Acho que nesse caso foi o empreendedorismo puro. Foi uma coisa pensada para acontecer. Eu até então não tinha pensado, mas a partir do momento que eu construí esta ideia, eu não voltei atrás. Foi como se minha mente se abrisse como um paraquedas e depois não desse mais para fechar.

Quando você tem uma missão e se vê realizando isso todos os dias é algo muito gratificante. Uma pessoa te procurar para produzir algo que é o sonho de vida dela. Você não tem ideia do que é fazer parte disso e entregar um livro para essa pessoa. Eu não estou falando de dinheiro, mas de realização, essa pessoa nunca mais te esquece. É como se você tivesse pegado ela pela mão e juntos caminhar um trecho. É muito impactante isso. Eu gosto demais. Então o que me fez vir a empreender foi justamente essa questão de ter autonomia de realizar esses sonhos. Ajudar nesses sonhos. Foi sensacional quando fiz meu primeiro livro com meu ISBN, com nosso registro do início ao fim. Hoje pego os livros e falo: "Não acredito que faço esses livros lindos”. É bom demais!

A minha mãe foi trabalhar na casa de uma família de coreanos e lá tinha um menininho. Ela não sabia que era negra; não era que não sabia, ela era negra, mas vivia tranquilamente junto com outras pessoas negras. Em certa ocasião chegaram familiares dessa família. E quando ela abriu a porta para eles, ela já notou um gelo, uma barreira. Eles falam a língua deles, não a da minha mãe, e o menininho, que adorava minha mãe, começou a falar tudo que acontecia para ela. Foi ali a constatação que minha mãe teve que a cor da pele dela seria um problema e ia encontrar dificuldades na vida dela. Ela tinha muito medo do que as pessoas pensariam dela, medo de andar desarrumada, com roupa mais simples. Para que as pessoas não pensassem mal dela. E o momento mais importante da minha vida, foi que eu, baseada nesse relato, escrevi um livro infantil. Contei sobre o racismo. No dia do lançamento do livro eu pude olhar para minha mãe e saber que a história dela não tinha sido em vão. Esse momento ruim virou algo que pode ajudar outras crianças; a ideia é combater o racismo, mostrar para crianças que o racismo machuca. Crianças não nascem racistas, com preconceitos, então a ideia foi essa: fazer um livro e ensinar às crianças o ensinamento que minha mãe passou, e que não se repita esse comportamento. Eu dei o ao livro o nome da minha mãe e da minha tia: Maria e Lia, ficou “Marilia”.

Sabe a coisa da representatividade? De uma criança olhar a salinha da casa dela, olhar na TV e ver a Maju à frente de um telejornal? Essa coisa de você se ver representado eu nunca tive. Tinha Laura Maria na TV, mas as que eu via ao meu redor, que tinham bons cargos, quase nunca eram negras. Eu sou uma pessoa que busquei as minhas oportunidades, então eu gostaria de criar oportunidades para outras pessoas. Eu gostaria que o governo desse oportunidades, um papel social para os negros. Eu tive oportunidade e aproveitei. O que a gente não tem, não vê, são essas pessoas tendo oportunidades. Então o que a gente precisa é pensar em gerar oportunidades.

O brasileiro é empreendedor por genética. O nome disso é luta. As pessoas veem perspectivas onde muitas outras não veem. Eu vejo as mulheres principalmente, porque as mulheres estão à frente de muitas coisas: de famílias, negócios... Elas não têm outra opção senão empreender. Só que muitas vezes fazer de forma desorganizada é ruim, você estagna. Quando você tem uma entidade que te orienta, a tua chance de ter sucesso é muito maior. Eu acho que um dos maiores aprendizados é não desistir, não ter vergonha de assumir os erros e analisar esses erros, porque eles aconteceram para que você aprenda com eles. O aprendizado maior é esse: não ter medo de errar e não desistir nunca. Você pode até dar uma pausa, mas você tem que voltar; tem que tentar. Eu tiro como base pessoas que começaram, que quebraram várias vezes e tem sucesso hoje por conta dessa persistência, dessa consistência de estar sempre ali tentando.

Fidelidade é uma coisa muito importante para mim, honestidade; você ter amor pela família. Você tendo essa coesão de honestidade, ter simpatia, não fazer para outras pessoas o que você não quer que faça com você, é um princípio que deveria reger o mundo. Você não vai ser um mau profissional, porque você não gosta de ser atendido por maus profissionais; você não quer ser uma péssima editora se não gosta de ter um atendimento péssimo. Se você se coloca sempre no lugar do outro, dificilmente vai fazer algo para prejudicar a outra pessoa. Então esses valores, se você tiver isso em mente, vai ter uma trajetória bacana.

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