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História

Não tenho medo de ser eu mesma

Sinopse

Edna é uma contadora de histórias nata. Se denomina uma artista-capim, cresce sem adubo, sem poda, selvagem e invisível ao olho das pessoas. Edna lembra dos divertidos momentos da infância e de como foi fisgada pela literatura e pela ilustração, de como foi de menina convidada a se retirar do colégio de freiras até ser a careta da turma. Revelada o tempo na Europa sem ver o tempo passar de tão mergulhada que estava nos quadros. Uma paixão que ficou 22 anos adormecida, mas acordou como tsunami sacudindo a sua vida,trazendo 40 aquarelas por semana e tantos empreendimentos até ter exposição em museu, mas agora é sua vida que é obra no Museu da Pessoa.

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História completa

As primeiras lembranças que eu tenho é de eu estar completamente suja de Terra, eu gostava de brincar com a terra, com o meu irmão naquela São Paulo dos anos 70, a rua era uma extensão de nosso quintal. Por outro lado, enquanto toda criança odeia ler, eu amava literatura, desde biografia, poesia do século XIX, eu simplesmente amava ler, amava as ilustrações também, eu ficava tentando relacionar da onde a pessoa tinha relacionado o conteúdo escrito pra criar aquela imagem, da onde aquilo vinha? Os livros eram o meu portal pro mundo, foi o símbolo da liberdade, pois eu sou uma pessoa que não tem medo de ser eu mesma.

A história dos meus pais parece conto de literatura, o meu pai de família italiana foi parar no Paraná numa cidade chamada Cambará, foi ser produtor de café. O pai do meu pai faleceu quando ele tinha 12 anos, a minha vó Florinda, italiana, ela teve 11 filhos o meu pai o caçula, quando o meu vô morreu ela veio pra São Paulo morar no Jaraguá. A família da minha mãe, o pai é descendente de espanhol e a mãe descendente de português e eles numa cidade em Pernambuco chamada Araripina e meu vô casou com a irmã da minha vó, mas ela faleceu no parto, quando passou um tempo ele foi e pediu a mão da irmã mais nova, o seu sogro aceitou, eles tiveram 13 filhos, a minha mãe foi a décima terceira, eles vieram morar em São Paulo no Pq São Domingos, tanto o meu pai quanto a minha mãe foram trabalhar numa empresa chamada GC Lever, lá eles se conheceram e tiveram três filhos, minha irmã, meu irmão e eu.

O meu pai era essa pessoa que parece ter um holofote de tanta luz. Quando meu pai morreu eu estava fazendo uma matéria na faculdade chamada "Contos dos Anos 2000" e a gente teve que escrever um conto fictício autoral, e eu contei os 50 dias de UTI do meu pai como se eu conseguisse tirar ele todo dia do leito de UTI e leva-lo para os dias da nossa infância para praia quando a gente jogava rede no mar. O meu pai quando ele olha pra você e fala "Vem!" Você não pensava duas vezes, você ia. Mas a melhor qualidade do meu pai é que ele compreendia as pessoas distintivamente. Por exemplo, minha irmã só tirava 10 na escola quando ela aparecia com um 8, ele ia e interrogava "ei o que aconteceu com você?" Se meu irmão aparecesse raspando na média tirando 6,5 ele ia e comemorava com ele. Por que? Ele sabia o que cada um podia dar. A gente tinha aula de tudo, o que você pedisse de aula ele dava: Piano, flauta, inglês, o que você pedisse de aula ele dava, se era brinquedo, roupa, não, mas aula sim. E minha irmã era super perfeccionista tocava tudo, mas era tão perfeccionista que quando ele chamava alguém para tocar, esse alguém era eu, mesmo errando, mesmo sendo um estrupício, chamava eu, porque mesmo sem tocar Bach, Chopin, eu me soltava mesmo tocando tudo errado..

Minha turma era tão horrível que quando chegou no fim do oitavo, 2/3 das meninas foram convidadas a não fazer matrícula. Escola de freira né? Realmente a gente tocava o regaço do começo ao fim do ano. Então eu fui pro colégio do meu irmão, o Rio Branco, era tranquilo, flexível,podia cabular... E o que eu descubro? Que quem era a careta da turma era eu. Eu fui do super rebelde até a careta e quando terminei o ensino médio, eu estava muito afim de fazer Artes Plásticas, e minha família super desestimulou, falou que artes plásticas não era profissão, era hobby! A família de uma amiga me chamou pra ir para Europa com eles. E lá enlouqueci com a a arte, eu pernoitava em museu, se perguntavam quantas vezes você foi no Louvre essa semana, eu falava 3,vivia dentro de museu. Porque a pintura é um diálogo com o mundo perfeito, eu descolo dessa realidade, me concentro na composição de cores, na pincelada, na harmonização das formas, vejo a elaboração narrativa que o pintor como ele criou aquilo. E quando tô na frente de um Van Gogh ou Monet, a pegada é mais bruta, minha alma inteira se rasga.

E quando eu voltei pro Brasil eu fiz uma amiga, e descobri que o vô dela era pintor. E a gente ia visitar ele na casa dele, e antigamente era assim o artista se fazía fazendo. E ele me botava pra fazer e ia dando os toques, assim sem eu saber ele já estava me ensinando. Quando eu falei que queria estudar artes plásticas só faltaram me botar pra fora de casa. Mas então eu me resignei, fui estudar administração e trabalhar na área de crédito e risco, onde eu explorava totalmente esse meu lado, fui buscar coisas dentro dessa realidade de administração algo que me motivasse e me movesse pra eu ser feliz, e eu fiquei 22 anos nessa área. E eu reparei que eu tinha um espírito de liderança, logo no meu primeiro trabalho eu já era chefe dos estagiários, eu falava sempre pro meu líder, eu quero aprender que você faz pra quando tiver a oportunidade crescer e passar meu espaço pra alguém também. A arte ficou adormecida, mas meu espírito selvagem, espontâneo e livre não, sempre estava acordado

A gente tem que ser uma pessoa boa todo dia, viver com propósito e honestidade, pois o que tiver que ser será, pois a vida tem caminhos de fato misteriosos...Eu conheci esse moço num barzinho, dei um número de telefone pra ele, e ele me ligava 3 x por dia e todo dia. Mas eu falava pra ele não investir em mim que eu ai me mudar para o Chile, ele então me fez uma proposta, a gente sai uma vez e eu te prometo que se você falar pra não me ligar mais, eu nunca mais te encho o saco. Nós fomos a um restaurante, ele falou que ia ao banheiro, quando eu vi ele virou e me tascou um beijo de cinema. Ele não é o pai biológico do meu filho, meu filho chama ele de pai, ele é de fato o pai do meu filho. Desde aquele beijo estamos juntos até hoje.

Ser mãe é um portal né? Eu grávida entrava na banheira para ouvir não só o meu coração, mas o coração do meu filho dentro da banheira, batendo como um tambor. E sempre tivermos uma conexão, depois quando eu pintei o cabelo de rosa, eu falei pro meu filho que ia pintar o meu cabelo de rosa., ele falou que não podia pintar que não era adolescente. Depois quando eu cheguei e pintei, meu filho ficou olhando intrigado, questionando, mas eu falei que o cabelo era meu né? Aí ele olhou e disse que realmente combinava demais. Mas esse episódio, não foi uma pintura de cabelo, foi um mergulho na piscina da autoestima, ela não cresceu 100%, ela cresceu 1 milhão por cento. Eu gostaria que toda mulher encontrasse essa conexão motivacional que eu encontrei.

A arte ficou adormecida 22 anos, mas ela então despertou. Ela não veio em ondas, ela veio em tsunamis, numa onde de pintar 30, 40 aquarelas por semana. Eu entrei na faculdade de letras, e descobri que podia estudar ilustração. E foi assim 20 anos em 2. Eu era uma avalanche, estava com a ciência que tinha perdido muitos anos na minha vida, mas então eu ia utilizar os conhecimentos que eu tinha em administração pra poder me projetar aonde eu estaria, em 1, em 2 em 5 anos, em 5 anos eu queria estar com uma exposição em um museu, e dito e feito. dentro do Museu Casa Guilherme de Almeida eu lanço a minha exposição com 14 aquarelas, era uma exposição pra durar 1 mês e agora não tem mais data pra acabar. Eu comecei a postar meus trens no Instagram e então comecei a ser chamada pra estar em um monte de lugar, diversas revistas, blogs e até exposições que eu já nem sei mais aonde eu tinha sido publicada.

Eu no começo só gostava de fazer retrato, era retratista de carteirinha, essas expressões humanas eu gostava muito. Mas depois do falecimento do meu pai, no começo de 2018 eu falei pro meu marido que eu queria viajar, e eu tive aqueles nirvanas artísticos, eu vi uma imagem que me arrebatou, era o capim dos pampas. Eu entrei no meio daquele capim, tudo molhado, mas eu ia chegando perto daquele capim de 2 a 3 metros de altura, e a partir daquele momento eu virei a artista capim. Eu agora pinto capim, sol de capim, céu de capim, o mar é capim, o capim é capim, tudo é capim, tudo na minha arte mudou e as pessoas me mandam fotos de capim, eu virei referência de capim, capim dos pampas. O capim é uma planta marginal, que cresce selvagem, sem adubo, sem poda, sem cuidado e que pra maioria das pessoas é invisível, portanto, eu sou o capim dos pampas.

O artista plástico é uma quarentena eterna. Eu montei um grupinho no whatsapp fazendo coisas juntas, criei um grupo chamado "Artrilha", de artistas fora dessas amarras e se transformou em um grande portal pro artista plástico onde lá se compartilham os trabalhos, as pessoas mandam editais, oportunidades de trabalho, curso gratuito, tudo que acontece no mundo das artes aparece por lá. Isso cresceu ainda mais Mas então o que aconteceu? Começou a pandemia... E aí foi quebra pra tudo quanto é lado, quem ia comprar quadro nessa situação meu amigo? Aí eu tive um surto de lives, depois abri uma revista digital reunindo vários artistas, e moral da história: Estou virando editora. Minha vida é assim, as coisas começam, se multiplicam e potencializam e chegam em lugares que nem sei mais, pois afinal, eu sou uma pessoa que não tem medo de ser eu mesma.

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