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Não sou mais um número

História de: Júlio Lins
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Júlio relata seu trajeto trabalhando em plataformas petroleiras desde o final de 1980. Conta sobre o companheirismo com os colegas de profissão e como, apesar disso, sente a solidão e o impacto das noites sem dormir por não poder voltar para casa ao final do expediente. Seu refúgio é o pôr do sol visto da plataforma que, conforme o próprio Júlio, é uma coisa linda. Relata o avanço das relações interpessoais no trabalho, onde as ações truculentas foram substituídas pela ajuda mútua. Hoje, Júlio não é mais um número.

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História completa

Memória Petrobrás 

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Júlio Lins

Entrevistado por Miriam Polares

Garoupa, 26 de janeiro de 2005 

Código UNBC 06

Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha

Revisado por Izadora Telles

 

P – Boa tarde, Júlio. 


R – Boa tarde. 


P – Você pode falar pra gente o seu nome completo, o local e data de nascimento?


R – Júlio Lins de Albuquerque Filho. Eu nasci no Rio de Janeiro, no dia 28 de janeiro de 1959. 


P – E conta pra gente como foi, quando e como foi a tua entrada na Petrobrás. 


R – Eu trabalhava numa empresa contratada, McLaren. E no ano de 1986 foi aberto um concurso. Eu estava aqui desde 1985. Desde 1985 eu estava já em Macaé. Eu fiz esse concurso, passei e trabalho até hoje na Petrobrás. Isso foi em 1987 que eu entrei, dia 7 de julho de 1987. 


P – Então conta um pouquinho da tua trajetória na Petrobrás. 


R – Eu entrei na Petrobrás pra exercer a função de programador de serviço de caldeiraria no flotel Song Star, que hoje foi transformado em plataforma, a SS29. Estava prestando serviço na plataforma de Penia 1 (?). Depois essa plataforma foi deslocada pra Cherne 1, e depois disso eu passei um período na Dimancepli (?), que era meu setor de origem. 


P – Como que chamava?


R – Dimancepli. Serviços complementares. Envolve caldeiraria, instrumentação, instrumentação não, caldeiraria, montagem de andaimes, pintura. Eu passei um tempo ali. Logo depois eu fui transferido pro CEPROM [Consultoria e Treinamento em Engenharia], que fazia o planejamento de parada de produção das plataformas semi submersíveis, plataformas SS. Porque as plataformas fixas eram de competência de um outro setor que trabalhava com o flotel, que já tinha saído o Song Star, mas continua o Ceifrasmili (?). E eu fiquei nesse setor, no CEPROM, durante alguns anos, fazendo paradas de produção em diversas plataformas SS, principalmente na área sul. Logo depois foi criada a GEICOM, que era Gerência de Serviços Complementares, que envolvia parte de construção e montagem, desculpe, gerência de construção e montagem. E eu fiquei alguns anos ali fazendo uma assessoria ao gerente desse setor, que era o Paulo César Silva. E depois retornei para as atividades de parada de produção num grupo formado pela GEICOM. E quando houve a mudança das gerências, houve uma reavaliação da gerência da Petrobrás, foram criados núcleos independentes pra cada ativo. E eu fui designado pro ativo Nordeste, onde estou até agora. 


P – E você fica o tempo todo aqui, não?


R – Não. Eu exerço a função de coordenador de paradas do Pólo Nordeste. Atualmente eu estou ficando mais aqui em Garoupa, mas eu tenho atividades tanto na sede quanto nos canteiros das empresas contratadas, fazendo contato com empresas, tentando novas tecnologias e passando algum tempo embarcado também.


P – Explica o quê que é esse teu trabalho. 


R – Eu coordeno um grupo feito de elementos da contratada, da Techint, no caso, agora, pra reunir recursos e planejar as paradas de produção. Nós pegamos uma carteira de serviços emitida pela empresa, pela plataforma, de serviço que ela precisa e que só podem ser executados com a planta parada, sem produzir. E nós fazemos um planejamento em cima dessa carteira. Então juntamos todos os elementos, recursos materiais, pessoal, pra poder executar. É marcado um prazo pela gerência, uma data e um prazo. Nós temos que nos adequar e executar o serviço. 


P – E esse tempo que você está trabalhando aqui, você tem alguma história interessante, marcante, alguma coisa pra contar aí pra gente?


R – Olha, é um pouco difícil. Eu fui chamado muito em cima da hora e, no momento, estamos aí com quase, na parada, pra acontecer, e está um pouco tumultuado. Então, no momento, assim, não me vem à memória. Eu sei que eu tenho diversas histórias, especialmente envolvendo a parada de produção, que sempre tem alguma coisa acontecendo, sempre tem um aprendizado. Mas, no momento, não me vem à mente. Talvez se tivesse um pouco mais de tempo.


P – E uma curiosidade, um causo, não lembra de nenhum?


R – Não me vem à memória. É muito difícil. Porque no nosso foco de parada, nós temos uma exigência muito grande porque envolve um grande risco de segurança, envolve muitas pessoas alocadas na plataforma. E o nosso foco é, primeiro, segurança, mas nós temos que atender os prazos porque nós temos um lucro cessante quando estamos em parada de produção. E acontece. Tem centenas de casos, mas, realmente, eu não consigo lembrar de nenhum no momento, assim, alguma coisa que foi marcante. Eu até já pensei com outros companheiros, nossos do grupo de parada, de escrever um livro, porque existem vários momentos que deveriam ser guardados como curiosidade e como aprendizado. 


P – Passar adiante.


R – É. 


P – Você falou que você é sindicalizado, né?


R – Sou. 


P – Mas nunca teve nenhum cargo?


R – Não. 


P – Esse projeto é uma parceria da Petrobrás com o Sindicato dos Petroleiros de São Paulo. O quê que você acha dessa parceria?


R – Olha, eu acho muito importante que haja essa parceria do sindicato com a empresa, até mesmo para mudar o enfoque que nós temos hoje de que o sindicato é inimigo da empresa e a empresa é inimiga do sindicato. Pelo menos a meu ver, isso já vem de muitos anos. Está na raiz até de formação da história dos sindicatos no mundo, onde sempre houve essa briga. E se, no momento, como nós estamos vivendo agora, que nós temos um presidente que já foi sindicalista, e há essa abertura, nós temos que aproveitar. Temos que aproveitar e todos esses momentos são importantes pra que nós façamos essa parceria, e não uma guerra de interesses. 


P – O quê que é a Petrobrás pra você?


R – Olha, a Petrobrás não é, não foi o meu primeiro emprego. Eu já havia trabalhado em outras empresas, até mesmo em plataformas. Trabalhei quase dois anos em plataforma através dessa outra empresa. E a Petrobrás, pra mim, foi um excelente aprendizado. Eu aprendi muita coisa. Eu tenho uma relação de amizades enorme. No nosso grupo, o grupo Petrobrás, o grupo de petroleiros, petroleiros que eu digo, não é só aqueles que são da empresa, não, são todos aqueles que trabalham junto com a gente, nós temos uma relação de cumplicidade, uma relação de companheirismo muito grande, em plataforma principalmente. Eu tenho um exemplo, que eu fiz um embarque uma vez na plataforma de P21, e eu não subi com o grupo. Eu fiz um primeiro embarque sozinho pra fazer uma avaliação dos serviços. E eu entrei em depressão porque a plataforma era pequena, poucas pessoas, e você não tinha contato humano porque as pessoas jantavam, almoçavam, iam pro camarote ou iam dormir. Ninguém se reunia num cinema, não havia ninguém na sala de jogos. Eu costumo, eu durmo pouquíssimo. O pessoal até brinca dizendo que o Júlio não dorme. Eu já passei na parada de Pargo, eu passei exatamente três dias sem dormir. Três dias sem tirar o macacão, sem entrar no camarote. Três dias. E, normalmente, eu vou dormir duas, três, quatro horas da manhã. E acordar no outro dia, no máximo oito horas eu já estou em pé de novo. Que eu não sigo, enquanto tem planejamento, eu não tenho uma escala, não tem que seguir uma escala. Então eu mesmo faço o meu horário. Mas é sempre assim. Então, talvez seria até uma curiosidade, uma brincadeira que o pessoal diz que o Júlio não dorme. Que eles vão dormir 10, 11 horas, eu estou ali. Quando eles chegam lá oito horas da manhã estão me vendo de novo na área. “Você não dorme não, cara?” Eu vi muito isso, eu vi bastante. Então, nessa plataforma de P21, eu não tive isso. Eu entrei em depressão. E uma outra vez em que eu fui escalado pra cobrir as férias de um companheiro nosso na plataforma de Carapeba 1. Eu nunca tinha vindo pro Pólo Nordeste na época, e eu não tinha nenhum referencial. Isso pra mim é importantíssimo. Eu preciso muito desse contato humano, eu preciso muito me sentir, ter amigos perto de mim. E quando eu fui escalado pra embarcar, eu fiquei preocupado porque eu não conhecia ninguém na área. Não tinha nenhum ponto referencial. E eu, já naquela noite, eu já estava entrando em depressão. Quando o helicóptero estava se aproximando da plataforma, que eu olhei pro heliponto, eu vi um comissário da empresa de Carataleta (?), se não me engano, que tinha sido um companheiro nosso, no flotel. Naquele momento eu já relaxei. Eu preciso muito do contato humano, eu preciso muito de um referencial porque eu falo muito e sei ouvir também. Então eu preciso ter essa correlação. E a Petrobrás me ensinou muito isso. Quando eu trabalhava em outras empresas, você cumpria o seu horário, das sete horas da manhã até as cinco da tarde. Final de semana, você não tem contato. E aqui em plataforma você não tem isso porque aqui é a nossa segunda casa, não tem jeito. Às vezes, a gente passa muito mais tempo numa plataforma do que em casa. E essa cumplicidade é importante, eu acho. 


P – Então fala um pouco dessas características que você está falando, dessa vida, da depressão. Porque é uma vida muito diferente, né? Esse tempo que vocês passam aqui. Fala um pouco dessa questão de viver em plataforma. 


R – Tem um momento que ele é crucial em quem trabalha embarcado. É quando chega a tardinha, que o sol está se pondo. Eu particularmente gosto muito de assistir o pôr do sol visto da plataforma, que é uma coisa linda. Eu paro várias vezes, quando eu lembro, assim, pô, vejo a hora, eu corro pra ver o pôr do sol, que eu acho uma coisa linda. É nesse momento que costuma bater uma depressão. Eu acho que acontece com muita gente aqui dentro porque é aquele momento que você está acostumado a sair do trabalho e ir pra casa e ver a família. E nesse momento começam a sumir as pessoas. Por mais que fique alguém, começam a desaparecer, começam a aparecer, assim, você se sente sozinho. Então é um momento importante. Um momento importante, não, um momento que dá, que causa essa depressão na gente. Isso é normal, mesmo tendo os amigos, mesmo tendo todo esse companheirismo aqui no local que eu estou embarcando em Garoupa, desde 2002 fazendo parada de produção. Ia fazer 2003, que não ocorreu. Em 2004 fizemos o planejamento pra executar agora em 2005. Então nós fizemos amizades com o pessoal em todos os níveis. E isso também é muito importante em plataforma porque numa empresa você dificilmente você vê o chefe. Você dificilmente dá atenção àquela pessoa que te serve o café. Dificilmente você conversa com o garçom, dificilmente você conversa com o cozinheiro ou com o homem de área. E aqui não. Aqui você tem que conviver. Você conviver é inerente. Você não tem pra onde ir. Então você sempre esbarrando com alguém e você conversa. Aqui as conversas, as pessoas, os relacionamentos, são de igual pra igual. Aqui não tem chefe, aqui não tem subalterno. Aqui existe uma responsabilidade e, vamos dizer assim, muito de hierarquia, eu não vejo aqui em plataforma. No início havia. Quando eu entrei, quando eu comecei a embarcar aqui, em 1984, 1985, havia essa disparidade, essa hierarquia, essa escala de poder. Havia pessoas que tinham um cargo mais elevado e que eram truculentas, eram pessoas que não tinham respeito pelo ser humano. Isso mudou, mas muito, muito, mas muito mesmo. Hoje as pessoas são parceiras, a palavra seria essa, parceiros. Porque aqui a gente sabe que se houver um acidente e alguém cair no mar, a mão que vai ser estendida pra resgatar, você vai perguntar: “Você é chefe ou você é peão? Você é da Petrobrás ou é de contratada?” Não. O cara que está do teu lado, que está ali durante o seu trabalho, se você se sentir mal, é o cara que vai te dar o apoio. Se você passar mal à noite lá no seu camarote, são os seus companheiros que trabalharam o dia inteiro com você é que vão perceber, que vão te dar um primeiro socorro. Isso já aconteceu. Eu estava na plataforma de P9, um companheiro nosso teve um, começou a passar mal, passar mal, passar mal, e estava parecendo que ele estava com alguma coisa como se fosse uma apendicite. Aí eu saí pra chamar um enfermeiro, ficou um outro companheiro nosso dando uma atenção a ele. Nós voltamos, aí foi feito todo um trabalho. O enfermeiro levou e tal, ficamos acompanhando, ajudamos o enfermeiro lá com ele, e no final das contas não era apendicite. Ele estava com uma crise renal. Então é essa relação que eu preciso. Acho que essa falta que me causa essa depressão quando eu me sinto sozinho, que aqui não acontece ou que agora não acontece, ou quando eu estou envolvido com o pessoal não acontece. 


P – Bacana. Se tem uma coisa que acha que já ajuda nessa coisa de todo mundo ser igual porque já tem a coisa do uniforme. Todos têm o uniforme igual, então não tem a roupa mais bacana, né?


R – Não tem um cara de macacão e outro de terno. Aqui é todo mundo de macacão. Eu até vi umas fotografias, uma da gravação dessa novela, que eu não assisto novela, mas vi as fotografias. Aí tinha um ator descendo de uma plataforma de terno e gravata. Eu achei aquilo ridículo. Eu falei: “Gente, não é a realidade.” Aí havia dois seguranças do lado dele descendo as escadas numa plataforma, de terno. Acho que é o Marcos Paulo, se não me engano, descendo na plataforma. E não existe, não é a nossa realidade aqui. Não é a nossa realidade. 


P – É, bacana. Então tem mais alguma coisa que você queira falar pra gente?


R – Eu gostaria de lembrar, estou até enrolando um pouquinho pra ver se eu consigo lembrar de algum fato que eu pudesse enriquecer essa entrevista de vocês, mas, infelizmente, vocês nos pegaram de surpresa. Fui praticamente recolhido na área, o rapaz me chamou: “Vamos lá pra dar uma entrevista”. E eu vim pra cá e não tive tempo nem de pensar, não sei. Realmente eu não sabia qual era o foco dessa conversa. Fui surpreendido. 


P – Então eu só queria, pra gente terminar, que você falasse o quê que você acha desse Projeto Memória Petrobrás, e a gente está trabalhando especificamente hoje aqui o Memória dos Trabalhadores Petrobrás. O quê que você acha do projeto? O quê que você acha de ter participado dele?


R – Olha, dificilmente eu sou voluntário pra algum tipo de coisa que foge um pouco do trabalho porque eu me envolvo demais com o meu trabalho, por isso até que eu fico até muito mais tarde trabalhando. Eu me envolvo muito. Mas eu acho que é importante. Existe uma coisa que é importante. Tem uma fotografia aqui de Garoupa, em vários documentos, vários folders da Petrobrás, aparece essa fotografia. Ela foi tirada aqui no heliponto. Tem mais ou menos umas oito pessoas que vêm caminhando no heliponto, e foi fotografado pra fazer uma ilustração de um trabalho desse. E algumas daquelas pessoas ainda estão trabalhando aqui em Garoupa, um outro é meu concunhado. Então acho interessante você ter essa relação, você não ser simplesmente um número, como na época da truculência, nós éramos. Eu era apenas um número. O outro lá era apenas um número. Hoje nós somos reconhecidos como pessoas. Hoje existe o Júlio Lins, não existe a matrícula do Júlio Lins. Existe a parte de RH [Recursos Humanos] que é aquela coisa que vai funcionar, mas no trabalho em si, nós, quando somos chamados pra um tipo de trabalho desse, nós nos sentimos parte da coisa, e não mais um. 


P – Bacana. Então obrigada, Júlio, pelo depoimento. 



-- FINAL DA ENTREVISTA--

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