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História

"Não quis ser, apenas fui"

História de: Luiz Antônio de Brito
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Luiz Antonio é poeta. Cresceu na Barra Funda e sua infância está ligada ao bairro. Brincava muito na rua e era o queridinho das professoras na escola. Após formar-se no Ensino Médio, que fez técnico em Contabilidade, saiu de casa e morou na rua por um tempo, dormindo cada dia na casa de um amigo. Porém nunca deixou de trabalhar, sempre mudando de função. Com vinte anos anos volta para casa, e pouco tempo depois se casa. Depois de ter sido taxista, office boy, motorista particular, dono de oficina, ter ocupado cargos na área de contabilidade em algumas empresas, hoje é mestre de obras. Porém sempre escreveu muito, sendo a poesia a sua fiel companheira durante todos os anos de sua vida. 

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História completa

P/1 – Vamos lá? Luiz, você pode falar o seu nome completo, local e data de nascimento?


R – Meu nome é Luiz Antônio de Brito, eu nasci na Barra Funda, no número 417 da Lopes Chaves, em 22 de dezembro de 1947.


P/1 – Seus pais são da Barra Funda?


R – Meus pais vieram de Franca. Minha mãe era italiana e meu pai mineiro.


P/1 – Você sabe como eles se conheceram?


R – Eles se conheceram em uma fazenda em Franca. Na cidade de Franca.


P/1 – Porque sua mãe morava lá, seu pai. Como é que era?


R – Moravam os dois lá. Moravam em uma fazenda, lá, não que moravam, meu pai era feitor, pegava pequenas glebas para plantar e minha mãe era filha de imigrantes que vieram para fazer a vida no Brasil.


P/1 – Aí eles se conheceram lá?


R – Sim.


P/1 – E ficaram morando em Franca?


R – Ficaram morando em Franca. Meus dois irmãos mais velhos nasceram em Franca.


P/1 – Como é que é o nome dos seus irmãos?


R – Nair Rodrigues, hoje, porque ela mudou de sobrenome e José de Brito.


P/1 – E porque é que eles decidiram sair de Franca para vir para São Paulo?


R – Foi a época da guerra, meu pai ficou com medo, e foi para o “interiorzão”. Ele perdeu o emprego e aí depois quando voltou, ele não tinha mais emprego, veio para São Paulo. Aí foi trabalhar de motorista.


P/1 – Seus avós são de lá, também de Franca?


R – Não, meus avós maternos eram italianos da Calábria e o meu pai, o meus avós paternos eram de Resende, divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais. Não sei como é que eles chegaram em Franca e eles se conheceram. Era quase improvável a união entre os dois, porque minha mãe era branca que nem leite, meu pai negrão que nem carvão. Então naquele tempo, era quase improvável isso, não sei como é que foi que deu certo deles se casarem. Mas meu pai era muito, meu pai usa terno de linho branco, passado todos os dias. O negrão era metido, viu (risos). Era muito metido mesmo.


P/1 – Aí ele perdeu o emprego?


R – Lá, né, perdeu a gleba de terra que ele tinha para cuidar e aí vieram para São Paulo. Passaram uma necessidade.


P/1 – E porque ele escolheu São Paulo? Eles escolheram São Paulo?


R – Porque era uma terra que naquele tempo era a terra da possibilidade. Todo mundo falava que São Paulo vinha aqui, tipo achava dinheiro na rua, né. Vieram e passaram uma necessidade. Eu nasci em um porão lá na Rua Lopes Chaves, lá no fundão.


P/1 – Mas aí eles foram para a Lopes Chaves?


R – Foram.


P/1 – De cara para a Lopes Chaves?


R – De cara.


P/1 – E porque é que eles escolheram a Lopes Chaves?


R – Eu acho que foi a Lopes Chaves que escolheu eles. Eles vieram, acho que tinha algum conhecimento, algum conhecido que disse para eles virem e eles foram morar lá no fundo, no porão no fundo da Lopes Chaves. Foi lá que eu nasci.


P/1 – Seu pai, sua mãe, seus dois irmãos. Sua mãe veio grávida, ou ela engravidou aqui?


R – Três irmãos já. Já tinha o Carlos que também tinha nascido aqui. Quando eu nasci, o Carlos também já tinha nascido na Lopes Chaves.


P/1 – E era o que, um cômodo, dois?


R – Olha, isso eu não sei, mas eu acho que eram dois cômodos. Eles tinham muita mania na Barra Funda, eu morei na Barra Funda em outra casa, no fundo das casas compridas, tinha a garagem que era o lugar coberto do carro, então eles faziam mais um cômodo apenso à garagem, e alugava um cômodo e mais um banheiro. Ficavam umas casinhas boas para a complementação de renda, né.


P/1 – E aí você nasceu e ficou nesse cômodo quanto tempo?


R – Ah, até...


P/1 – Com quantos anos?


R – Depois dali nós fomos para onde eu moro hoje, Casa Verde Alta, depois fomos para Vila Brasilândia, morar na casa da minha irmã, que ela tinha uma casa em cima e uma casa em baixo. E depois voltamos para a Barra Funda quando eu tinha dez anos e ficamos até os meus quinze anos de idade na Barra Funda.


P/1 – Dessa casa, dessas que você morou, qual é que você lembra mais?


R – Eu acho que o período que eu lembro mais é na Barra Funda, dos dez aos quinze anos, porque foi um dos períodos mais gostosos da minha vida.


P/1 – Como é que era a Barra Funda nesse momento?


R – Não tinha intermodal ainda, eu morava em frente, na Tomás Edison, aonde é a intermodal hoje, e lá tinha três campos de futebol. Então eu morava ali, era maravilhoso, quando não eu estava na escola, eu estava no campo de futebol. A gente aprendeu tanta coisa ali, porque ali era um espaço reservado às crianças, reservado aos moleques. A gente jogava bola, a gente aprendia. Eu me lembro que a gente foi assistir Davi e Golias, e quando nós voltamos, aquela funda que ele matou o Golias, nós fabricamos uma, precisa ver que arma poderosa era aquela. A gente acertava na trave, do meio do campo, a pontaria que a gente tinha. Empinava pipa, era maravilhoso. Foi uma época maravilhosa.


P/1 – Como é que era na sua casa? Quem é que exercia a autoridade? Seu pai ou a sua mãe?


R – Não, meu pai era doente. Quem exercia a autoridade era o meu irmão, o Carlos, que sempre foi o chefe da família. É ele quem faz tudo, é ele quem cria tudo. Até hoje ele comanda, ele está com setenta anos e até hoje quem comanda é ele. Ele que fez o inventário da nossa casa depois que minha mãe faleceu, ele que faz tudo. Ele sempre teve bons empregos, sempre esteve em contato com as pessoas mais influentes e pessoas de um status maior, então ele aprendeu muito mais do que a gente. E desde cedo ele trabalhou na Votorantim com o patrão do meu pai e já teve contato com essas pessoas e foi aprendendo muito mais rápido e com muito mais facilidade do que a gente. Embora ele não tenha estudo, ele é uma pessoa muito esclarecida.


P/1 – Seu pai era doente?


R – Meu pai ficou doente muito cedo, teve o primeiro derrame muito cedo. Ele teve quatro derrames, morreu com sessenta e dois anos de idade, com quarenta e dois quilos.


P/1 – Nossa. Mas ele parou de trabalhar?


R – Parou, se aposentou.


P/1 – Aqui ele trabalhava com o que?


R – Aqui em São Paulo? Motorista. Ele era motorista particular. Eu me lembro que eu sentia um orgulho quando ele vinha de carro em casa, porque nossa, carro era um negócio. Quando a gente via um carro… Eu fiquei doente, ele me levou no Hospital das Clínicas de carro, nossa, eu contei para todo mundo, eu andei de carro. Imagina, a gente era pobre, ele ganhava salário mínimo, a minha mãe ganhava salário mínimo trabalhando na fábrica de corda Permaje, na Barra Funda.


P/1 – E quem ficava com vocês? Os irmãos?


R – Os irmãos mais velhos. Eu com dez anos cozinhava e tomava conta da casa. Dez anos de idade. Queimei muito feijão (risos).


P/1 – Com quantos anos você entrou na escola?


R – Eu entrei na escola, naquele tempo não se entrava na escola com sete anos. Eu fiz sete anos no fim do ano, que eu faço em dezembro e entrei no próximo ano, na sequência, né. Eu omiti uma coisa, nós moramos na Brasilândia durante esse tempo, e os três primeiros anos de escolaridade eu fiz na Brasilândia. Aí depois eu fui para o Dom Pedro II.


P/1 – No Parque Dom Pedro?


R – Não, aqui na Barra Funda, que era um dos melhores colégios que existia ali no bairro. Tanto é que quando eu entrei no ginásio, o primeiro ano era uma repetição do que eles deram no quinto ano no Dom Pedro II. Era muito bom, era uma luta para entrar naquele colégio, precisava tipo fazer um vestibularzinho para mostrar que era capaz. Era um dos melhores colégios de São Paulo.


P/1 – Da época da escola da Brasilândia você lembra?


R – Lembro muito pouco dos sete aos dez anos.


P/1 – O que você lembra?


R – Eu lembro que tinha um moleque que me cercava no caminho, me batia todos os dias (risos), até um dia que eu falei: “Não, chega, não vou apanhar mais não”. Jogava meus livros, meus cadernos no barro, eu me lembro o nome dele até hoje, o Vadinho. Um dia eu encarei ele, falei: “Não chega, você não vai mais não”.


P/1 – E porque é que ele te batia?


R – Gostava de bater nos moleques. Pegava os moleques mais fracos e oh! Até hoje existe essas coisas, os moleques mais fortes batem nos moleques mais fracos sim. É que os moleques tem medo de contar porque seu o pai for lá, depois ele apanha outra vez do moleque.


P/1 – E vem cá, você lembra de alguma professora, você gostava de ir para a escola?


R – Olha, tem uma professora, a dona Teresinha, é a que chamou a atenção. Ela sentava, e cruzava as pernas de lado assim, e naquele tempo era um negócio muito. Você ver perna de mulher naquele tempo era um negócio, pelo amor de Deus, né. E todo mundo amassava as folhas de caderno e ia jogar no lixo para ver a perna. E ela não ligava, a dona Teresinha não estava nem aí. Agora, o que marcou mais mesmo foi a do quinto ano, dona Maria Abud da Silva.


P/1 – Mas aí já era no Dom Pedro?


R – É, no Dom Pedro. A dona Teresinha também era do Dom Pedro, só que ela era substituta. E a dona Maria Abud da Silva porque ela gostava de mim demais. Ela era uma professora brava, muito brava. E ela ensinava mesmo, você tinha que aprender com ela. E ela gostava muito de mim, porque todo dia depois da aula, eu ficava com ela lá e levava as coisas dela. Ela: “Britinho, você fica”. E eu levava as coisas, eu era o queridinho da professora. Eu tenho uma foto em casa muito engraçadinha, nós estávamos tirando fotografia, tinha um menino que chamava Jesus, e ela estava lá tirando as fotografias, ela falou assim: “Você não aí Jesus, porque você é muito feio”. Aí virou para mim que eu era o queridinho, né, que eu também era feio, ela virou para mim e falou assim “Você pode rir Britinho, que você é muito bonitinho”. Foi a primeira mulher que eu acho que me chamou de bonitinho. Hoje eu vejo porque, bonitinho é o feio ajeitadinho. Mas foi uma professora que marcou demais. Ela tomava as coisas do aluno, e no fim da aula dava para mim, que eu era muito pobre. Bolas eles levavam, e não podia levar. Eles levavam as coisas, ela tomava e dava para mim. Falava: “Não fala para ninguém não, leva para casa”. Muito gostoso. Ela marcou. Até um dia desses, eu passei por lá onde ela morava para ver se ela ainda era viva, mas eu acho que não, ela já tinha naquela época cinquenta anos, eu era menino, porque as professoras naquele tempo não eram jovens. Todas elas já tinham um pouco mais de idade, né, elas eram mais, ela tinha aquela coisa de mãezona brava e ela danada, batia, dava reguada.


P/1 – Você chegou a tomar reguada?


R – Eu não, eu era queridinho dela.


P/1 – Mas ela dava?


R – Dava, opa. Os meninos que facilitavam ela, pah, na mão. E eu era muito quietinho, eu era muito tímido, muito introvertido. Eu era bom na escrita, elas liam o que eu escrevia antes dela ler, ela lia para a classe antes de eu escrever. Eu gostava de fazer dissertação e eu olhava um quadro, tinha um nome, como é que e me esqueci agora, e daquele quadro eu fazia uma história. E depois durante...


P/1 – Apresentava a imagem, né, um exercício que tinha, eles apresentavam a imagem e você tinha que fazer a narrativa da cena?


R – É. Isso, uma narrativa. Me fugiu agora.


P/1 – E você fazia, você gostava?


R – Eu adorava fazer, desde pequeno.


P/1 – Com quantos anos você já fazia?


R – Ah, era uns dez anos, doze. Dez, onze anos. Já gostava de fazer isso.


P/1 – Você lembra de alguma?


R – Não lembro. Eu lembro do primeiro filme que eu assisti, que eu fiquei impressionado: “Meu Melhor Amigo”. Era um do Walt Disney, era um cachorro que ele, que era o melhor amigo dele e um lobo. Vai defender o mocinho, e o lobo morde ele e estava louco e ele é obrigado a matar o cachorro no fim. Nossa, que dor ele matar o cachorro que já tinha salvado ele várias vezes. Coisa difícil né? Mas foi uma lição que ficou para sempre, eu nunca mais esqueci.


P/1 – Você viu no cinema?


R – Vi no cinema.


P/1 – Qual cinema?


R – Cine Paris, na Barra Funda. Barra do Tibagi, eu morava na Barra Funda, né, e um negócio gozado, meu irmão ia primeiro assistir o filme para ver se era bom para eu assistir. Primeiro ele ia assistir, aí voltava, agora você vai assistir o filme. Era um negócio interessante, vê como se tomava conta dos irmãos mais novos e se tomava conta da família nesse tempo.


P/1 – Foi a primeira vez que você foi no cinema?


R – Não, eu antes assisti “Os Bárbaros Invadem a Terra”, é um filme que se hoje eu assistisse, eu acho que eu ia dar muita risada. Um filme muito caricato, dos bárbaros invadindo a Terra, do planeta Marte, né, aquela coisa toda. Mas a gente, na Barra Funda a gente andava muito de bicicleta, a gente se divertia demais, jogava muita bola, jogava muito taco, aquele de bater, né, nossa foi a melhor fase da minha vida. Foi muito gostoso, muito gostoso mesmo.


P/1 – Você teve algum tipo de formação religiosa?


R – Só agora. Ah, bom, quando a gente morava na Barra Funda, a gente fez a primeira comunhão e teve que estudar, fazer todo o cursinho...


P/1 – Catecismo?


R – E depois a gente começou a jogar bola na igreja da Consolação e o padre obrigava a gente assistir a missa para poder jogar bola na igreja, lá na quadra. Os padres são danados, mas foi bom. Eu vim estudar Teologia agora, fazer quatro anos em Teologia há poucos anos. Eu achei interessante, muito interessante.


P/1 – Aí seus pais trabalhavam, você cozinhava?


R – Eu já cozinhava e o Carlos já trabalhava, com quinze anos ele já trabalhava. Mas eu queimava muita comida.


P/1 – É mesmo?


R – Nossa.


P/1 – Porque você se distraia?


R – Ah, eu era completamente distraído. Eu era avoado demais. Eu vivia no mundo dos sonhos, vivia em um mundo paralelo...


P/1 – O que é que você ficava pensando?


R – Sei lá, eu não sei o que se passava na minha cabeça. Quando eu ia no campo às vezes, meu apelido era soneca. Mas eu acho que eu tinha uma fraqueza, eu tinha aquelas manchas na pele, eu acho que eu tinha uma fraqueza muito grande e eu acho que isso me dava um certo desânimo da vida, né. A gente, quando um pai ganha salário mínimo, e a mãe ganha um salário mínimo, a gente fica sabendo o que é passar necessidade na vida. Nós nunca passamos necessidade de comer, mas pagava aluguel e tinha que fazer compra para comer, o negócio era feio, viu. Calça, o Britão passava para o Carlos e o Carlos passava para mim e não importava como ficava não, era do jeito que ficar está bom (risos). Os “calçãozão” que usava no tempo que ia no campo, era aquele calção feito de saco que passava cândida, entendeu, ficava aqueles calçãozão largo assim. E às vezes a gente entrava no lago que tinha lá para nadar e sujava o calção, tome-lhe. Ah, esqueci de uma coisa muito interessante, tinha uma ferraria na Barra Funda, que eles compravam sacas de milho para cuidar das pombas, para dar para as pombas comer. Que as pombas eram limpas naquele tempo, não eram que nem as de hoje. E meu pai, não tinha proteína, só comia frango quando roubava um frango. Meu pai armava uma arapuca no quintal e pegava quatro, cinco pombinhas toda semana, dia sim dia não, e falava para a gente: “Não mata as fêmeas, só os machos”. As fêmeas você solta que é para criar mais, né. Ele acabou quase com as pombas do homem lá da serraria, acho que ele falou: “Tão sumindo minhas pombas”. Ele falava para mim, depenava e falava para mim: “Leva longe, solta lá no meio para ninguém descobrir que nós estamos comendo”. E dava uma panelada de coisa, de carne. Era a única proteína que a gente comia. O negócio era feio. Era gostoso mas ao mesmo tempo era bravo, quando nós construímos essa casa aqui que nós moramos hoje, nós fomos para lá sem porta e sem janela.


P/1 – Essa casa, diz na Barra Funda?


R – Não, essa casa hoje, nós moramos lá na Casa Verde Alta.


P/1 – Ah, na Casa Verde.


R – Eu moro nessa casa até hoje e não tinha porta nem janela. Olha, no tempo de frio, e o frio não era que nem hoje, era um frio úmido, um frio que tinha uma neblina e minha mãe botou umas cortinas na janela, mas não tinha quem aguentasse dormir (risos). E cobria a gente, botava jornal no meio da coisa de cobertor, era um negócio feio, viu. Mas a gente está aí, tudo deu gente, todo mundo se criou, todo mundo está bem, minhas filhas graças a Deus as duas fizeram faculdade. Uma fez, uma está fazendo e uma não quis fazer. Quer dizer, foi um grande avanço. A minha irmã, as filhas fizeram faculdade, meu irmão os dois filhos fizeram faculdade. Quer dizer, foi um avanço. A gente conseguiu sair do nada para uma situação razoável.


P/1 – Quando o seu teve o primeiro derrame, depois ele parou de trabalhar?


R – Parou.


P/1 – Com quantos anos?


R – Ah, ele era novo.


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Olha, quando o meu pai faleceu eu tinha vinte e um anos.


P/1 – Ah, já era grande.


R – E ele ficou doente eu era bem novo ainda.


P/1 – E você começou trabalhar fora com quantos anos?


R – Com quatorze para quinze anos.


P/1 – Você foi fazer o que?


R – Fui trabalhar de office boy e eu era avoado, a minha mãe dizia: “Não vou deixar você trabalhar de office boy, você vai ser atropelado”. Nunca fui atropelado, não. Nunca me roubaram, nada. Você sabe uma coisa gozada, uma coisa interessante? Eu ia no Banco do Povo na 15 de Novembro e sacava o pagamento da empresa e trazia dentro de uma malinha preta? Nunca fui assaltado. Você vai fazer isso hoje? Eu trazia o pagamento de uma empresa de trezentos empregados dentro de uma pastinha preta. Nunca falaram para eu pegar um táxi. Eu ia para o Anhangabaú, pegava o ônibus e ia para a Barra Funda, que era onde tinha a empresa. Nunca fui assaltado.


P/1 – Com o salário de todo mundo?


R – Com o salário de todo mundo, que era envelopado e entregue, não tinha cheque, não tinha, e ajudava a envelopar tudo dentro do escritório e aí era pago o salário para as pessoas, com aquele dinheiro que trazia do banco. Banco do Povo, eu me lembro até hoje.


P/1 – E você trabalhava e estudava?


R – Trabalhava e estudava, fazia o ginásio ali na Liceu Marechal Deodoro, que acho que hoje é Uni, não é Uninove, a Uninove é aqui. É Uni não sei o que, eu esqueci o que é que é. É uma faculdade agora, na Avenida Rudge. Ia a pé e voltava a pé todo dia.


P/1 – Para quem é que você trabalhava com office boy?


R – Novolit, uma empresa muito boa.


P/1 – Do que é que é?


R – Me ensinou muita coisa. É de plásticos. Trabalhava com tampa de perfumes, todos esse tipo de embalagem plásticas. Para a Bozzano.


P/1 – Quanto tempo você ficou lá?


R – Dois anos e pouco. Dois anos e meio mais ou menos.


P/1 – E porque você saiu?


R – Ah, fui para uma empresa melhor. Aí eu já estava me formando, estava fazendo técnico em Contabilidade, estava me formando, apareceu uma oportunidade melhor, fui trabalhar com uma pessoa que até hoje eu não me esqueço o nome também, José Pedro das Neves. Um homem que me mostrou muita coisa, meu deu muito carinho. Uma pessoa que eu ficava com a chave do escritório e eu era um rapaz que não tinha muito juízo e assim mesmo ele confiava. Dormia no escritório, porque para ir para casa era difícil, e era na Barra Funda, na Lopes Chaves o escritório, quase esquina com a Brigadeiro Galvão. Eu dormia na sala dele, tinha um sofá gostoso, volta e meia ele chegava eu estava dormindo. Tomava banho lá, tinha roupa lá, era muito engraçado. Trabalhei lá quase três anos. Ele me adorava. E eu de vez em quando dava umas sumidas, que eu era muito engraçado, eu fui para Águas de Lindóia uma vez, fiquei um mês lá. Quando eu voltei ele falou: “O que é que houve?”, eu falei assim: “Ah, estava muito gostoso lá e eu fiquei. Peço demissão?” Ele falou “Não, pega a sua pasta e vai trabalhar”.


P/1 – Com quem você ficou um mês lá?


R – Ah, cheguei na cidade, duzentas mulheres tinha na cidade, nem um homem. Os homens saiam tudo da cidade e ia trabalhar fora. Imagina, era o paraíso (risos). Falei: “Eu estou no paraíso e não estou sabendo”.


P/1 – Mas porque você decidiu? Você foi por isso ou não? Você foi fazer o que lá?


R – Não, quando eu fui, eu fui passear. O meu irmão era construtor, ele estava construindo uma ponte lá que liga Lindóinha à Águas de Lindóia, e eu fui lá. Cheguei lá encontrei um paraíso. Chegava de tarde, assim, cinco horas da tarde, as meninas iam tudo para a praça. E alguém chegava novo, nossa, homem novo na cidade. Fiquei um mês, um mês e meio eu fiquei. Não queria vir embora não. Meu irmão precisou me tocar de lá.


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Acho que eu tinha uns dezenove anos mais ou menos, dezoito, dezenove.


P/1 – E aí você já tinha se formado no técnico em Contabilidade?


R – Já estava formado já.


P/1 – O técnico em Contabilidade você fez aonde?


R – No Liceu Marechal Deodoro.


P/1 – Ah, tá.


R – Muito gostoso lá estudar também. Um detalhe importante é que as meninas eram separadas dos meninos, tinha uma grade no meio. Os meninos ficavam de um lado, as meninas do outro. Você vê como os tempos mudaram, né?


P/1 – E porque você escolheu fazer técnico em Contabilidade?


R – Eu não escolhi, o técnico em Contabilidade me escolheu. Porque a gente não tinha muitas opções, o que dava para pagar era o Liceu Marechal Deodoro.


P/1 – Ah, porque era pago?


R – Era pago. E eu fui fazer o Liceu Marechal Deodoro. Todos os meninos iam ali da Barra Funda, a gente ia junto, voltava junto. Não tinha muita opção não. Ali na Barra Funda a gente estava, o Liceu era um dos únicos que dava condições para as pessoas mais pobres fazer um curso mais avançado.


P/1 – E aí depois dessa empresa, essa que o amigo falou depois de Águas de Lindóia?


R – Aí eu fiquei, eu andei uns tempos pulando de empresa em empresa, aí fiquei meio perdido no tempo. Fiquei meio errante. Meu irmão mais velho era vida torta que só.


P/1 – Vida torta em que sentido?


R – Ele é muito mulherengo. E ele tomava conta, acho que foi a época que mais dei trabalho para a minha família. Ele trabalhava na boca, como porteiro de hotel. Imagine que eu comecei a ir para lá, saí de casa, fui uns tempos viver na rua, e aí eu dei um trabalho do caramba.


P/1 – O que é que é viver na rua?


R – Ah, assim, saí de casa e não tinha morada, um dia dormia lá, outro dia dormia em outro lugar, uns amigos tudo tortos, um dia comia, outro dia não comia. Mas foi uma época boa da minha vida.


P/1 – Porque você decidiu sair de casa?


R – Minha mãe era muito possessiva, minha mãe era muito mandona. Ela mandava e não queria saber de nada. E eu era muito livre, muito solto, eu não gostava de estar preso lá, então nessa época foi um negócio muito difícil. Mas não entrei em nada, não entrei em droga, não me meti em confusão, tinha uns amigos lá que eram da pesada. Para ter uma ideia, um o apelido era Paulinho Tiroteio, outro era Vicentão. Eram uns negócios meio bravos. Mas eu nunca me envolvi com nada errado não. Era muito medroso também, tinha muito medo de me envolver com coisa que não tinha nada a ver comigo. Me envolvi com muitas mulheres, isso eu adorava, eu sempre gostei de mulher. Continuo gostando até hoje.


P/1 – Mas você ia morar na casa das namoradas?


R – Ué, tive uma menina que chegou do Paraná e ela tinha, é uma história até um tanto… Tinha uma vizinha dela lá que vendia as meninas para um cara, dava um negócio para as meninas dormirem, tipo um boa noite Cinderela. E ela tentou se matar depois que aconteceu isso lá. Ela tem a marca de um punhal no peito. E aí veio para São Paulo, e a gente passou seis ou sete meses juntos. Arrumei um emprego para ela na Kibon, aí voltei a trabalhar de novo e a gente foi morar junto durante um tempo. Quase enlouqueci minha família.


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Uns dezenove anos, foi a época mais turbulenta da minha vida, dos dezesseis aos dezenove anos.


P/1 – Com dezesseis você saiu de casa?


R – Saí, com dezesseis.


P/1 – E você vivia com que dinheiro?


R – Eu trabalhava, era a época que eu trabalhava nessa, como se diz, no escritório de contabilidade. Trabalhava, estudava, ia para a cidade depois e ficava lá para a cidade. Peguei um reumatismo, de andar de madrugada, depois quando eu voltei para cá, fiquei uns seis meses andando todo torto. Eu tinha um amigo que tinha comprado uma Vespa naquele tempo, você está com sono né?


P/1 – Não, eu ia espirrar.


R – Uma Vespa, oh a loucura do cara.


P/1 – Eu estou com alergia.


R – “Me ensina a andar de Vespa”. Ele falou: “Não ensino, mas a chave está aqui, se você quiser aprender vai andar sozinho”. E eu andando lá em plena cidade de Vespa, nunca tinha andado de Vespa na minha vida. Oh a loucura.


P/1 – Mas eu não entendi, você ficava andando de madrugada pela cidade? Era farra? Era?


R – É que vocês não conheceram a madrugada há tantos anos, era uma loucura só. A madrugada sempre foi uma coisa assim que as pessoas que não conhecem a madrugada pensam que a madrugada é uma coisa: “Ah, não tem ninguém na rua”. Madrugada tem gente na rua, não gente boa, né, mas os bichos-grilos estão tudo solto aí.


P/1 – Que lugares que você frequentava na madrugada?


R – Ah, ali, nos piores lugares possíveis. Rio Branco, Santa Efigênia, Rua Aurora, os piores lugares. Era ali que a gente...


P/1 – Você fez bastante amizade na madrugada?


R – Tinha, muita amizade. Amizade assim, amizade de madrugada ninguém é seu amigo, assim, é turma, você se enturmava. O amigo meu mesmo foi o China, que deixava eu andar com a Vespa dele. Esse foi amigo, ele era faixa preta de judô, era amigo e protetor. Que ninguém se metia comigo porque eu era irmão do Britão e amigo do China. Então eu fui muito protegido nesse ponto, né, nunca ninguém se meteu comigo.


P/1 – E você ficava indo em o que? Bar? No que?


R – A gente ficava junto com as mulheres. Claro que era, ali era o foco. Eu não posso contar muita coisa mais (risos). Só posso ir até aí.


P/1 – E você disse que gostava de escrever, você escrevia?


R – Nessa época parei.


P/1 – Mas antes você escrevia?


R – Escrevia até uma certa, mas perdi todos esses escritos.


P/1 – Você tinha um caderno? Como é que você fazia?


R – Tinha, escrevia nos cadernos da escola, de contabilidade. Sempre escrevi. e uma coisa muito gozada, é que eu sempre fui o queridinho das professoras. Gozado não é? Sempre era chamado de Britinho. Não sei se elas achavam eu doce, o que é que era, menos os professores. E agora escrever, escrevi durante toda a vida. Teve uma época na minha vida, eu acho que quando eu me casei, que eu não escrevi muito durante uns tempos. Escrevi muito para a minha mulher quando nós éramos solteiros, e depois eu cismei que eu queria ficar rico. Vou trabalhar muito e vou ganhar dinheiro e vou ficar rico. Mas não teve jeito. Nunca ganhei dinheiro para ficar rico. Trabalhava que nem um doido e nunca fiquei. Eu parei de escrever nesse tempo, aí eu voltei a escrever só aos quarenta anos de idade, mais ou menos. Teve uma passagem de uma coisa que eu esqueci, que foi um período bom da minha vida, que eu gostei de uma menina, construí uma casa por causa dela. Para casar com ela. E depois peguei ela dentro do carro com outro cara.


P/1 – Quando foi isso? Quantos anos você tinha?


R – Ah, era novo. Foi no período acho, quando eu voltei para casa dos vinte e um aos vinte e três anos.


P/1 – Ah, porque daí você parou com a noite, voltou para casa?


R – Voltei. Meu irmão foi me buscar, o Carlos. Que é o chefe da família. Mas o terreno eu tinha comprado com ele antes, quando eu tinha uns dezessete anos de idade mais ou menos, teve uma época que eu ganhei dinheiro nesse escritório de contabilidade, e compramos um terreno juntos. E depois quando eu conheci essa menina, eu construí uma casa para casar com ela. Muito interessante. Me apaixonei loucamente, meu cunhado falava que, vou falar o português claro, se precisar cortar, depois corta. Que eu comia um caminhão de merda e depois lambia as tábuas por causa dela. Gostava muito. Gozado é que eu vi ela outro dia descendo, ela era uma mulher tão interessante, tão sensual, que eu vi ela depois de quarenta e...


P/1 – Tantos anos.


R – Quarenta e poucos anos descendo uma rua lá perto de casa, por trás eu falei, é ela. Ela tinha um jeito de andar, que eu nunca vi mulher nenhuma. Impressionante. Eu fui passando devagarinho de carro, assim, eu falei, será que eu estou enganado? Aí ela olhou para mim assim e “Oi Luiz, tudo bem?” Paramos e conversamos durante quarenta minutos. Ela falou, “Que furo que eu dei com você hein?” Falei, “Fazer o que, é o destino”.


P/1 – O que é que ela fez?


R – Peguei ela com outro cara em um carro.


P/1 – E você construindo a casa, estava pronta?


R – Estava pronta, já estava em pé, não estava acabada. Estava em pé.


P/1 – E aí você ficou arrasado?


R – E aí que eu andei meio, olha, eu acho que eu nunca chorei tanto na minha vida. Era uma noite de Ano Novo. E peguei por puro acaso, eu passei na casa dela, perguntei para a mãe dela, “Cadê Maria?” Ela falou, “Olha, foi na casa da amiga lá embaixo na, é uma rua que tem ali, travessa da Rua Zilda”. Eu falei, “Ah, eu vou descer lá, eu subo com ela”. Aí desci, entrei na rua lá, era escuro, não tinha luz ainda, não tinha iluminação. Eu ia passando assim, eu ouvi alguém falar, “Ô Luiz, para com isso”. Eu falei assim, “Oh, os caras vem aprontar bem perto de onde a gente conhece as pessoas”, pensei que estavam me chamando. Olhei dentro do carro, o nome do cara que estava com ela era Luiz, olha que coisa. Estava falando Luiz para ele, não Luiz para mim.


P/1 – E aí, você foi falar com ela?


R – Não, não voltei. Não voltei mais a falar com ela.


P/1 – Mas ela viu que você viu?


R – Viu.


P/1 – E aí?


R – Eu era uma pessoa assim, que nessa época não contava muito com a vida, não tinha muito, aquela coisa de quando você é jovem, o que vier eu pego? Eu tinha vivido na rua, eu tinha aprendido. Ela falou, “Sai fora”, e o cara saiu. Se eu estou armado na hora, eu acho que eu tinha feito uma arte. Mas não estava. Eles sumiram, eu vim ver ela seis meses depois. Aquela noite eu chorei a noite inteirinha. Nunca chorei tanto na minha vida. A noite inteirinha chorando. E eu tinha mania de ir na casa da minha tia no primeiro dia do ano, né, porque eles falam que um homem quando chega na casa de alguém no primeiro dia, dá sorte. Então eu sempre ia na casa dela depois. Fiquei chorando na porta da casa dela a noite inteirinha. Ali esperando amanhecer. Eu acho que eu estava com os olhos deste tamanho, quando ela abriu a porta. “Entra moleque, o que é que está acontecendo?”. Falei nada não. Aí eu contei para a minha, eu tinha uma prima que a gente tinha uma coisa muito forte, assim, uma ligação muito forte, e era muito gozado que ela era, minha tia era casada com um espanhol, imagina ela era uma loirona, e minha mãe era casada com um negrão. Então a gente saía abraçada, a turma falava assim, “Está bem de namorada hein?” Eu falava, “Minha prima”. “Para, olha para você e olha para ela. Como assim sua prima?” E ela era minha prima, filha de espanhol com italiano. Muito engraçado, né. Mas a gente tinha uma ligação que, até hoje quando a gente fala pelo telefone...


P/1 – Aí o que é que aconteceu com a casa?


R – A casa está lá até hoje. Hoje a minha filha mora lá.


P/1 – Na casa que você construiu?


R – É. Minha filha é artista plástica, hoje eu desmembrei ela para cima, fiz dois andares, em cima é o ateliê dela, embaixo ela mora. Hoje está linda.


P/1 – Você tinha quantos anos aí?


R – Olha, quando eu terminei essa casa eu devia ter uns vinte e dois, vinte e três anos mais ou menos.


P/1 – Aí você estava morando na casa dos seus pais?


R – Estava. Estava morando na casa dos meus pais.


P/1 – E depois dessa época você foi fazer o que?


R – Bom, depois dessa época aí foi a época tranquila. Aí eu conheci minha mulher. Acho que com vinte e quatro anos. Aí ela me tranquilizou, me botou nos eixos.


P/1 – Como é que você conheceu a sua mulher?


R – Conheci ela em um baile na casa da minha tia, dessa minha tia. Em um dia de Ano Novo, que gozado né? No dia de Ano Novo sempre acontecia alguma coisa. Aí fui levar ela para casa, eu estava acostumado na rua assim, né, fui tentar beijar ela, ela não deixou eu beijar. Eu falei, “Aí que menina metida, nunca mais apareço aqui”. Não apareço? Dali quinze dias eu encontrei ela de novo, em um baile. Aí começamos a namorar, andamos de roda gigante, nunca mais, estamos até hoje, quarenta e um anos. Três filhas, dois netos e alguns percalços pelo caminho. Muitos, né? 


P/1 – Você estava trabalhando onde nessa época?


R – Olha, teve essa época que eu mudei muito de emprego, as firmas que eu fiquei muito firme mesmo foram a Aros, que era escritório de contabilidade, Novolit foi a minha primeira empresa e a Bom Clima que foi uma firma que eu fiquei mais tempo. Mas o resto foi um período de turbulência assim, ficava um pouco em uma, um pouco em outra, então eu não sei definir direito assim muito bem a sequência das empresas, mas essas três empresas foram as empresas que eu mais trabalhei, que eu mais tive tempo e fui bem tratado.


P/1 – Você fazia exatamente o que? Você cuidava do que?


R – Nessa empresa de escritório de contabilidade, ia nas firmas fazer a contabilidade das empresas. Que naquele tempo a gente ia nas empresas fazer. Tirava as notas fiscais, colocava nos livros, trazia dinheiro para pagar. Que as firmas mandavam todo dinheiro para o escritório para pagar, era INPS naquele tempo, nem era INSS. Para pagar ICM, nem sei se era ICM. Não, não era, era imposto sobre vendas e consignações, era o imposto daquele tempo. Que é o ICMS hoje. E o IPI já existia.


P/1 – E aí depois você foi para qual trabalho?


R – Quando eu me casei, com vinte e sete anos, eu entrei em uma empresa muito boa, era a Bracel, eu entrei como auxiliar de cobrança, e cheguei a encarregado do setor de cobrança, com várias pessoas, mas aquilo estava me matando, eu não estava conseguindo trabalhar com aquilo, e gostar daquilo. Embora eu tivesse um bom salário, já tinha o carro do ano naquele tempo, olha só, e eu larguei tudo e fui abrir uma oficina mecânica. Que eu era louco para ter uma oficina mecânica.


P/1 – Por quê?


R – Não sei, eu tinha uma fissura por oficina mecânica. Aí tive uma oficina mecânica durante quatro anos, trabalhei muito e não...


P/1 – Mas você tinha contato já? Sabia alguma coisa? Entendia?


R – Nada. Peguei amizade com um cara que era mecânico, e comecei a conversar com ele, ele falou assim, “Vamos abrir uma oficina?” Eu falei: “Mas é agora”. Pedi a conta na empresa, minha mulher: “Você é louco, você tem quase três anos de empresa, ganha bem para caramba”. “Não, eu vou me dar bem”. Trabalhava que nem louco, todo sujo, todo engraxado, sábado, domingo, feriado.


P/1 – Você? Mas você começou a arrumar carro? Você aprendeu?


R – Arrumava. Ah, não, aprendi o que eu podia aprender. Mas na realidade eu tinha as pessoas que faziam o serviço. E aí, olha, não ganhava quase nada, e trabalhava para caramba. Trabalhava muito e eles faziam as bobagens, e eu pagava as bobagens que eles faziam. Foi um período completamente... Depois eu comprei um táxi. E aí depois eu fui para a construção. Aí sim, na construção eu fiquei sossegado.


P/1 – Aí você fechou a oficina e foi ser taxista?


R – É.


P/1 – Como foi a experiência?


R – Nossa Senhora. E trabalhava de madrugada.


P/1 – Você conhecia a cidade, já?


R – Eu conhecia a madrugada, eu fui trabalhar de madrugada. Fui trabalhar ali na Major Sertório, na frente do La Licorne, duas boates famosas lá, La Licorne e o, como é que era o nome da outra? O La Licorne era uma boate que todos os artistas frequentavam. Frequentavam o La Licorne e o Vagão na Rua Augusta.


P/1 – O La Licorne é lá onde tem o teatro?


R – Isso, tinha um teatro um pouquinho antes. E tem o SESC logo na Doutor Vila Nova.


P/1 – SESC Vila Nova? Major Sertório, né? Naquela região?


R – Mas precisa ver as mulheres que trabalhavam no La Licorne, pelo amor de Deus. Só mulher de primeira linha.


P/1 – Você tem algum causo dessa época de taxista?


R – Hum hum.


P/1 – Não, alguma história assim que você lembra? Você fala, nossa isso me marcou?


R – Não, as histórias que a gente tem, é que a gente pegou muita amizade com as meninas, que tanto é que a gente fazia fiado para levar elas para casa. E elas são carentes, viu? Como são carentes. Coitadas. Era muita carência. E todas elas moravam ali, Ipiranga, Major Sertório mesmo, tudo naquelas imediações ali. São muito exploradas as mulheres da noite. São muito exploradas. Ou são exploradas por um gigolô, ou são exploradas pela… Tinha essa moça que era dona do La Licorne, ela chamava Laura, ela tinha um prédio de sete andares do lado do La Licorne, que ela só usava um andar para ela. O resto tudo vago. E ela tinha lá um, olha, se ela não tivesse lá, umas trinta mulheres mais ou menos, trinta e cinco mulheres. Os neguinhos vinham lá e gastavam trinta mil numa noite assim, vinte e cinco mil, trinta mil.


P/1 – Além das meninas, quem mais era teu passageiro?


R – Ali a gente pegou, carreguei o João Bosco naquele tempo, dentro do táxi. Carreguei o Gonzaguinha. Mas não cheguei a conversar com eles não. O Gonzaguinha até falou alguma coisa, mas o João Bosco era muito, assim, acima sabe? Estava muito acima da carne seca, ele ou se julgava sei lá. A Wilza Carla. A gente andou carregando um montão de artista assim. Mas o pessoal da noite é gente boa. A gente quando trabalha com esse pessoal da noite, você pode fazer fiado, que no outro dia ele te encontra e paga. Ele te procura para pagar. Uma coisa que nós fizemos naquele tempo, que nunca mais me esqueci na vida, foi que, na madrugada tinha muita gente folgada, e tinha ponto de táxi, então a gente estacionava tudo, ia comer na boate, que eles faziam para nós uma janta a preço de custo, era tipo assim um real hoje, só para os taxistas não ficarem sem jantar. E a gente ia jantar, não me lembro do nome dessa boate. E o cara veio e estacionou o carro novinho, e ali passava ônibus elétrico, prendeu três carros. O pessoal procura o cara, procura, cadê o cara? Sumiu. Os taxistas se uniram, colocaram o carro no meio da rua. Nós se unimos, fomos balançando e colocamos o carro no meio da rua, saímos e fomos embora. Falaram que o cara andou três dias armado lá, procurando a gente. Foi o primeiro show erótico que eu vi. Ah, Big Ben a boate.


P/1 – Big Ben?


R – Foi o primeiro show erótico que eu assisti. Sexo ao vivo no palco.


P/1 – No Big Ben? Quantos anos você tinha?


R – Ah, já...


P/1 – Ah, você já estava na praça?


R – Estava na praça, já tinha uns vinte e três anos mais ou menos, vinte e quatro.


P/1 – Seu primeiro show que você viu?


R – O primeiro show que eu vi.


P/1 – Como é que foi?


R – O cara falou que fazia treze shows por noite. A parceira dele, eles eram namorados. Faziam treze shows por noite. Aquela música “Je t’aime”. Enquanto rolava a música, eles faziam o show erótico no palco. Mas era um negócio fantástico.


P/1 – (risos)


R – Não, super profissional. Muito profissional. Os caras faziam um show profissional. Sabe, com ângulos, com aquela coisa toda, rolando assim, todo mundo olhando, falei, o cara é bom (risos). Primeiro show…


P/1 – Foi o primeiro, depois você foi em vários outros?


R – Ah, vi, outros lá mesmo. Eles deixavam a gente entrar, a gente tinha acesso na boate. A gente ia para a cozinha, a cozinha ficava lá no fundo. Eles só pediam uma coisa, que a gente passasse numa boa, de um em um, não fizesse nenhum tipo de coisa. Pessoal era super tranquilo, os motoristas de praça, a gente trabalhava com as mulheres a noite inteira, assim, tinha essa tranquilidade.


P/1 – Trabalhava como, levava para os lugares?


R – Isso, levava, trazia. Tinha cliente fixo. As mulheres mesmo, eram fixas da gente, elas escolhiam o taxista e elas queriam se abrir, queriam contar as mágoas, queriam falar que estavam longe da família, que era uma situação difícil, que era doloroso, sabe? A gente se comprazia, éramos os psicoterapeutas delas.


P/1 – Você já era casado? Ainda não, foi com vinte e sete, né, que você casou?


R – Não, era solteiro. É. Era solteiro, e a gente se doía demais com as situações delas. Tinham umas que sabiam como desenvolver a profissão, como se dar bem na profissão. Tinham umas que eram danadas, elas falavam “Estou juntando dinheiro para sair dessa vida. A hora que eu juntar dinheiro eu saio”. Profissional. Agora tinham outras que eram bobas. Caia nas mãos dos caras e davam dinheiro para os caras e não saiam nunca daquela situação.


P/1 – O carro era seu ou era de alguma frota?


R – Era carro de frota, a princípio. Depois um carro de um amigo. Eu caí, naquele tempo eu fiquei duro para caramba, pegava qualquer coisa para fazer.


P/1 – E depois do táxi você foi fazer o que? Já entrou para...?


R – Ah, o que é que eu fiz durante? Não, esse período do táxi, teve a oficina e o táxi. A oficina quando não dava, eu saia. Ah, o meu irmão tinha um táxi também e de vez em quando eu saia com o táxi dele, depois peguei táxi de frota, mas não dá para trabalhar com táxi de frota. Eu pelo menos nunca consegui, a diária é muito cara, gente. Eu quase morria para pagar a diária. E para levar algum para casa, como diz a música. Para ver que eu já fiz de tudo nessa vida, né, só não roubei e não matei.


P/1 – Aí você ficou com a oficina e com o táxi? E aí? Aí foi quando você casou depois disso?


R – E depois me casei, aí fiquei uns tempos trabalhando com a oficina e o táxi ainda.


P/1 – Mesmo casado?


R – Não, a oficina e o táxi foi depois que eu me casei. Que foi quando eu trabalhava na Bracel e sai do emprego, para me aventurar.


P/1 – Então você já estava casado?


R – Já estava casado.


P/1 – E a sua mulher sentia ciúmes de você? Ela sabia quem eram as passageiras?


R – Olha, foi um período tão conturbado, porque nós tivemos as três filhas logo em seguida.


P/1 – Nossa.


R – Era uma fora, uma dentro e uma no pensamento. Foi em sequência assim. Então ela vivia grávida e dormindo (risos). É uma loucura. Acho que se eu arrumasse uma amante ela não ficava sabendo. Vivia na rua, eu dormia na rua, às vezes dentro do táxi, porque eu trabalhava de dia, trabalhava de noite, vivia que nem zumbi. Mas gozado, contudo o que eu fiz na minha vida, eu nunca me deixei corromper, minha alma sempre continua naquela balada.


P/1 – Aquele mantra?


R – Aquele mantra. Eu nunca me deixei levar por. Quando eu convivi com essas mulheres, eu senti uma pena delas muito grande, eu sentia uma pena delas estarem em uma situação de penúria, porque aqui é uma situação de penúria. Gente, como é que uma mulher sai com um cara que ela não conhece por dinheiro, gente! Eu não consigo imaginar uma coisa dessas. Coisa triste.


P/1 – Aí você deixou o táxi porque era muito caro a frota?


R – Deus me livre, não dava para trabalhar com isso. Eu cheguei a comprar um táxi. Meu sogro era bom de grana, me emprestou uma grana uma época e eu comprei um táxi. Aí fui pagando para ele.


P/1 – E ele existe ainda esse táxi?


R – Não. Mandei para frente, vendi também. Nem tendo um táxi por conta, eu não conseguia pagar o táxi. Aí vendi, devolvi o que deu para devolver, fiquei devendo para ele um pouco. Mas ele tinha muita grana. Depois fui trabalhar com ele, ele tinha Casa do Norte.


P/1 – Que carro que era? O do táxi?


R – Era uma TL, viu. Quebrava para caramba, puta merda.


P/1 – Os dois, o da frota e o seu?


R – O da frota quebrava mais ainda.


P/1 – Era TL também?


R – Não, era um fusca. Mas também eu fazia umas artes com aquele fusca. Quando eu comecei a levar ele para lá, a gente é meio doido em uma época da vida, aí os caras começam a abusar de você, que eu ia lá e falava, troca esse carro, eu não aguento esse carro, fica mais quebrado do que inteiro. Eu me lembro uma vez que eu desci a Vila Pompéia, aquele morro que faz aquela volta lá, e atravessei o canteiro de tanta raiva. De madrugada eu atravessei o canteiro com o carro, falei, agora eu destruo esse carro, vocês vão ter que mandar buscar. Aí eles trocaram o carro. Me deram outro, era o 28, aí me deram o 39, aí o 39 não quebrava mais. Mas conheci umas coisas na praça que, aí, gozado, carreguei um cara um dia que era gerente da Philips, e nós estávamos conversando sobre mulher, sobre coisa, mulher na rua, não sei o que lá. Cara bonito, olhão verde, andei com ele desde o meio dia até cinco horas da tarde, falei, esse cara vai me dar um chapéu.


P/1 – Ele ia rodando, não parava?


R – Ia rodando, ia entrando, chegou uma hora na Avenida Paulista eu falei, “Meu, deixa paga essa corrida porque uma hora você…”. “Não, pode ficar sossegado, pegou, tirou e me deu o cartão”. Aí eu falei, “Ah, tudo bem, então, entrou lá, eu falei, seja o que Deus quiser”. Então aí voltou, terminamos o serviço e a gente vinha falando sobre mulher, sobre isso, sobre aquilo, ele começou com umas conversas fiadas.


P/1 – Tipo o quê?


R – Cantando na cara dura.


P/1 – Ah, te cantando?


R – Eu falei: “Você está brincando, né?” Falei para ele. Me lembro até hoje. Falei: “Você está brincando, está de brincadeira, né?” Aí ele falou: “Não, não estou de brincadeira não”. Falei: “Bom, mas você estava falando agora mesmo de mulher, não sei o que”. “Eu gosto de mulher, mas também gosto de dar os meus pulos por fora”. Falei: “Mas não vai ser comigo não. Eu gosto mesmo é de mulher, eu gosto do cheiro de mulher, eu gosto de tudo de mulher. Só de mulher, de mais nada. Sou louco por mulher”, falei para ele. Ele desceu, olha, naquela época a corrida deu dez não sei o que, que nem me lembro mais. Me deu treze. Entregou e falou: “Se você mudar de ideia”. Falei: “Não, não vou mudar, pode ficar sossegado. Não vai ter mudança de ideia”. 


P/1 – E você ficava sempre nessa região do Centro?


R – Eu sempre gostei de trabalhar na região do Centro. É mais gostoso de trabalhar, você está mais localizado, né, mas pegava umas corridas para a Penha. Uma vez peguei uma corrida de madrugada, uma moça chorando, eu falei, deve estar indo para o hospital aqui perto, né, Vila Nhocuné. Você sabe onde fica isso? Depois do Ipiranga, lá. Depois do Ipiranga, ainda você entra de quebrada umas dez ruas e depois entrava em umas ruas sem asfalto. Eu não sabia nem sair de lá depois.


P/1 – Nhocuné?


R – Nhocuné. Nunca me esqueci, pelo amor de Deus.


P/1 – E escrever?


R – Aí eu voltei, aos quarenta anos eu voltei a escrever.


P/1 – Então vamos voltar, aí você saiu, você comprou o seu táxi próprio, também não deu?


R – Aí foi uma fase em que eu trabalhei com táxi, com o meu sogro, a minha sogra morreu nessa época, porque a minha sogra morreu muito cedo. E minha sogra ajudava o meu sogro, que ele abria cinco horas da manhã e fechava dez horas da noite. Aí fomos morar lá junto com o meu sogro, na casa dele, porque cinco horas da manhã para vir... Aí eu fiquei um longo período lá trabalhando com ele.


P/1 – O quê é que você fazia?


R – Balcão. Trabalhava no balcão.


P/1 – Fazia de tudo?


R – Trabalhava no balcão. Aí depois que eu tive um período gostoso na minha vida, fui trabalhar numa agência de publicidade, aqui na Vila Mariana, que trezentas mulheres trabalhavam na agência. A gente trabalhava só com mulher, levando para lá, levando para cá. Aquela lá foi uma época gostosa da minha vida. Ganhei dinheiro.


P/1 – Como é que você foi parar na agência?


R – Por intermédio de um amigo. Eu cheguei lá fazendo, tinha um serviço lá de, eu estava em uma pior, que eu sempre estive em uma pior na minha vida, financeiramente. Chegamos lá, tinha um serviço que se colocava cavalete no fim de semana na rua, e dava um bom dinheiro. E acabei ficando de confiança dos homens lá, aí comecei a fazer tudo, fazia um faz-tudo. Mas trabalhava lá. E era nesse lugar aí que a gente vivia dormindo, porque eu trabalhava de noite e de dia. Sexta, sábado e domingo a gente trabalhava de noite e de dia. Então não tinha jeito, a gente vivia dormindo no volante, não sei como nunca bati o carro. Foi uma época gostosa, uma época que a gente trabalhou muito e nessa época eu tinha voltado a escrever.


P/1 – Mas você mandava dinheiro para os seus pais?


R – Não, meus pais, minha mãe nessa época já era aposentada, meu pai já era morto e eles viviam aqui em São Paulo já, na casa que nós tínhamos construído ali. Nós não, que eu naquela época carreguei uns baldes de areia, eu era novo ainda. Era novinho.


P/1 – Aí em que momento você volta a escrever?


R – Aos quarenta anos, quando eu entrei nessa agência de publicidade. Que aí eu tinha tempo, como eu estava...


P/1 – Você foi fazer o que? Na agência você foi fazer, é?


R – A gente, era uma agência que colocava cavalete na rua para venda de imóveis, e a gente fazia cobrança, e levava as meninas para os pontos determinados para elas trabalhar nos estandes, trabalhar na rua. Então foi um tempo muito gostoso de trabalhar. E comecei a escrever, que lá a gente tinha muito, era um burburinho muito forte, e a gente tinha tempo, vivia dentro do carro, esperava um, esperava outro, aí comecei a escrever direto, sem parar. Eu comecei a fazer agenda, eu tenho umas dezoito agendas.


P/1 – Você escrevia em agenda?


R – É, tenho umas dezoito agendas mais ou menos escritas. Uns livros eu trouxe, uns livros que são uns projetos atuais, mas nesse tempo aí, eu tenho umas oito mil frases catalogadas, que eu catalogava frases, escrevia, escrevia sobre...


P/1 – Mas, isso que eu ia perguntar, que tipo de coisas você escreve? É conto? É narrativa?


R – Não, nessa época era a poesia pura, assim, a poesia mais lírica. Sempre foi voltada para mulher a poesia, eu sempre escrevi voltado para mulher. E agora não, agora eu estou escrevendo de uma maneira mais diferente e mais complicada. Eu compreendo que é um negócio até muito mais complicado de entender e de ler, tem determinados momentos que eu tenho até explicar do que se trata.


P/1 – Mas o que é? Uma espécie de conto?


R – É uma escrita sem conjunção, sem preposição e sem artigo. Onde as palavras quase que se explicam e é um acróstico escrito. Não é um acróstico só da primeira letra. É um acróstico que tem uma frase escrita. E esse acróstico, essa frase casa com o tema, ou não, aliás é o tema casa com o nome da poesia, escrevi, fugiu o nome e ele se fecha em si. Depois mostro, você vai ter oportunidade de ver.


P/1 – Tem alguma coisa que você trouxe?


R – Tem. Tem muita coisa.


P/1 – Dá para você ler para a gente?


P/2 – Lê uma de mulher.


P/1 – Deixa ele escolher.


R – Ai caramba, cadê o óculos.


P/1 – Lê a que você gosta. Tem dessa época?


R – Dessa época, tenho escrito em casa, mas não tenho aqui, não trouxe. É muita coisa.


P/1 – Queria ler dessa época.


R – Olha, para ler vou ter que pegar daqui, porque essas novas assim não são para leitura, são mais para a gente se envolver com elas, né.


P/1 – E o desenho você faz também?


R – Não, esse desenho é de um amigo. Que desenha muito, o Eduardo Rosa.


P/1 – E você já tem algum livro publicado?


R – Eu participei de duas coletâneas, Diversos. No Parque da Água Branca. Tinha duas turmas de poesia, nós participamos de duas coletâneas lá. Também não trouxe. Eu ia trazer e esqueci. Olha, essa é muito lírica, vou ler até por uma questão de que a outra não dá, não se explica por si própria, assim, eu lendo, né. 

Quando eu mergulhei no seu oceano 

não imaginei a profundeza, nem a força da corrente 

não quis ser, apenas fui.

Levado pela incerteza do momento 

semente que germina, fruto do acalanto, 

chão que estremece, quando a paixão acontece, 

e o ser enlouquece,

padece de incertezas, glórias e desastres, 

carece de presença, 

sofre com a anuência do creio mas duvido, 

vibra com a força do vou mas não sei quando, 

calei.

 E diante da força que mobiliza mas não oprime, 

me afoguei na imensidão dos desastres anunciados. 

As minhas coisas são mais para você ler e mais para você sentir. Quando você lê, você se aprofunda melhor naquilo que eu, não são para ser declamadas as coisas que eu escrevo.


P/1 – Bonito. Aí você voltou a escrever?


R – Uhum. E aí não parei mais. Daí para frente, quando eu comecei a frequentar Alceu de Amoroso Lima, que é a biblioteca, conheci a Jéssica. E aí, daí para frente fomos para a Casa das Rosas também e começamos a fazer oficina, foi aonde eu cheguei no ponto que estou hoje escrevendo. Eu estou tentando escrever um romance, já comecei. Tenho já muito material, estou tentando ver se eu consigo tocar um romance em frente.


P/1 – E aí você começou a escrever e trabalhar?


R – Espera aí que eu preciso me, foi muita informação, de repente.


P/1 – É porque a gente vai voltando. A faculdade de Teologia você foi fazer quando?


R – Ah, sim. Fiz foi há uns seis, sete anos mais ou menos, que eu fiz, não é faculdade, é um curso de Teologia, que eu fiz com uma pessoa que sabe muito de bíblia, sabe muito, ela não tem formação acadêmica, mas sabe tudo. Tudo o que você perguntar ela sabe, de Teologia, né. Então eu gostei muito de fazer curso com ela, é minha cunhada. Chama-se Clarisse.


P/1 – Mas porque é que te deu essa vontade de fazer esse curso? Porque é que você foi fazer?


R – Eu tive nesse meio período, quando eu trabalhava nessa agência, eu tive um carro roubado e passei por um trauma muito forte, foi assalto a mão armada, foi um negócio muito forte na minha vida. E eu tive, como é que é essa doença aí que quase mata a gente, mas parece que a gente não está doente?


P/1 – Síndrome do Pânico.


R – Síndrome do Pânico, eu fiquei um desastre. Passei por um desastre. E comecei a me tratar nessa casa, que se chama Casa Reencontro. E comecei a fazer esse curso, mais por necessidade do que propriamente por querer aprender alguma coisa. E acabei gostando, acabei ficando, e foi um negócio muito gostoso na minha vida, foi um negócio muito prático, me ensinou muita coisa. Foi, eu não vou dizer que perdi o medo da morte, eu tenho um medo doido de morrer, não sei por que, eu sou muito apegado a vida, pelas pessoas que eu conheço. Por tantas pessoas que eu gosto e que eu desconfio que gostam de mim com a mesma intensidade. Talvez por isso eu tenha medo de morrer. Porque eu não sei como é que vai ser lá do outro lado, a turma fala que é bom. Sei lá, do lado de cá eu estou com tanta pessoa que eu gosto, sei lá se o lado de lá como é que vai ser. E a depressão, eu tive essa depressão e acabei. Nesse meio tempo ainda teve uma coisa ainda que eu tive, antes de entrar na, eu tive uma distribuidora de frango.


P/1 – Nossa.


R – Durante três anos. Me dei bem, ganhei muito dinheiro nesse tempo.


P/1 – E porque você decidiu fazer distribuidora de frango, como é que aconteceu?


R – Eu sempre sou jogado por acaso nas coisas. Eu conheço alguém, “Olha, eu estou vendendo frango, está dando certo para caramba”. E eu acabei entrando em uma empresa, fui conhecer o abatedouro lá no Paraná, voltei louco. Aí trabalhei para ele durante dois anos mais ou menos, vendendo. E foi nessa época que veio o Plano Cruzado. E aí eles demitiram sessenta e cinco vendedores e eu fui junto. Ficaram só dois. E aí abri uma distribuidora. Aí ganhei dinheiro, foi aquela época que a carne, quem conseguia frango, carne, vendia por qualquer preço. Ganhei muito dinheiro nessa época.


P/1 – Mas era o quê? Distribuidora de?


R – De frangos.


P/1 – De frango.


R – Frango, cortes de frango, frango inteiro. O frango vinha do Sul.


P/1 – Mas você entendia do negócio?


R – Olha, eu fui conhecer o abatedor.


P/1 – Foi lá conhecer? E era só seu?


R – Era meu e trabalhava, a princípio trabalhei com sócios, o senhor Irineu e depois fiquei sozinho no negócio. Mas, olha, o frango, do mesmo jeito que ele traz tudo, ele leva tudo. Eu comecei a ganhar dinheiro que nem louco e a gastar dinheiro que nem louco. Porque quando eu ganho muito dinheiro, eu gasto muito dinheiro. E quando eu vi, o frango me levou tudo embora também.


P/1 – Porque o frango te levou embora?


R – Começou a cair, a margem de lucro e eu achava que ia voltar a margem de lucro. Quando eu vi estava devendo vinte mil para o frigorífico.


P/1 – Nossa.


R – Dei um carro, dei vídeo, dei máquina fotográfica para pagar. E ainda fiquei devendo um dinheiro, que fui pagando para ele aos poucos.


P/1 – Nossa.


R – Mas eu não me arrependi de nada que eu fiz na vida, é um negócio muito gozado, tudo foi aprendizado, tudo fez parte de um aprendizado. E depois, aí entrei na construção, nesse meio tempo, depois que sai da coisa. Porque eu sou de uma família de construtor. E nesses meios períodos, trabalhei na construção. Trabalhava, saía, voltava.


P/1 – Mas fazia especificamente o que na construção?


R – Aí eu fazia mesmo jogo bruto. Aí eu trabalhava de ajudante, trabalhava de pedreiro. Depois quando eu fui trabalhar por conta, mesmo, na construção, aí fui ser mestre de obras. Aí eu fazia o que eu gostava, mas aprendi a fazer tudo. Hoje eu construo uma casa, você me entrega o terreno bruto, eu entrego ela pronta.


P/1 – E que é uma coisa que já vem da sua história lá atrás?


R – Já vem no DNA, né? Ajudei a construir a minha, ajudei a construir a da minha mãe. Ajudei entre aspas, estive ali presente, né. E a gente foi indo, e hoje eu estou aí, graças a Deus, na construção, estou bem, estou tranquilo, consigo ganhar meu pão de cada dia, minhas filhas estão todas tranquilas também. Tranquilas entre aspas, estão trabalhando, cada uma exerce a sua vida, né, ninguém tem dinheiro sobrando, mas também não falta.


P/1 – E continua casado?


R – Continuo casado.


P/1 – E na construção, o que é que você fez, assim, uma coisa que tenha te marcado?


R – Uma coisa que tenha me marcado? Assim como? Ruim ou boa?


P/1 – Ruim ou boa. Conta uma ruim e conta uma boa.


R – Olha, uma coisa ruim que eu fiz, foi que quando eu comecei a trabalhar com isso, eu tinha que aceitar muito serviço que eu não queria fazer. E aparecia muito serviço de trabalhar com esgoto. Eu odiava trabalhar com esgoto. Eu me lembro até uma época que eu fui abrir uma tampa de esgoto, ele estava entupido, e a tampa escapou, e aquilo espirrou tudo em mim, eu falei, “Nunca mais vou trabalhar com essa porcaria”. Foi a pior imagem que eu já tive. E a melhor imagem, eu acho que foi, quando a gente entrega um serviço, assim, o pessoal olha para o serviço e fala: “Nossa, ficou muito lindo”. Então eu acho que essa é a melhor imagem que a gente tem, quando a gente entrega um serviço, eu fiz várias lojas, reformei várias lojas, inclusive uma loja que a minha filha trabalhava, Lonei, e quando terminava às vezes, ela falava: “Nossa, ficou maravilhoso”. Então, essas são coisas que a gente nunca mais esquece. Eu andei fazendo para essa loja, andei fazendo no fim de ano umas mensagens de Natal, que eu tenho guardado, e ficaram muito boas. Eu pensei que eu ia ingressar até nesse ramo, eu falei, “eu estou mudando de ramo de novo”. Mas não deu certo, acabei não ganhando dinheiro com isso e quando a gente não ganha dinheiro, a gente acaba não fazendo mais. Tenho guardado como lembrança, mas não.


P/1 – Em que momento que você teve filhos?


R – Logo em seguida que eu me casei, um ano e meio depois. Aí foi na sequência. Minhas filhas tem trinta e seis, trinta e cinco e trinta e quatro.


P/1 – Trinta e seis, trinta e cinco e  trinta e quatro?


R – É.


P/1 – Como é que é o nome delas?


R – Paula, Renata e Fernanda.


P/1 – Qual é que é a mais velha?


R – A Paula.


P/1 – Depois vem a Renata, depois vem a Fernanda. Você já falou na ordem?


R – Falei na ordem.


P/1 – E as três moram com você?


R – Não, as três moram perto de casa. Uma mora em frente, a outra mora dois quarteirões, a outra mora três quarteirões.


P/1 – Todas moram sozinhas? Já se sustentam?


R – Moram. Já. Moram com os maridos.


P/1 – A sua mulher faz o que?


R – Minha mulher faz uma coisa que ela não precisava fazer e ela gosta de fazer. Ela tomava conta, sempre tomou conta de famílias, assim, uma espécie de governanta. Onde ela cozinha, onde ela só não faz a limpeza, mas faz o geral, coordena. E ela tinha parado de trabalhar já, não estava trabalhando mais. Aí o filho de uma das mulheres que ela trabalhou, chamou ela. Falou: “Pô, eu precisava de alguém, que esteve comigo desde pequeno, que eu não confio muito de trazer alguém para dentro da minha casa, que não seja a coisa”. Aí ela foi trabalhar com o Fernando, que ela viu desde pequenininho. Que agora ele vai casar em junho e está vivendo com a namorada nessa casa. Então ele deu carta branca para ela: “Você entra a hora que você quiser, sai a hora que você quiser”. Que ela falou, “Eu não quero mais trabalhar”. Ela falou, você vem, trabalha no horário que você quiser, e vai embora. Te pago um bom salário só para você vir tomar conta da minha casa numa boa. E ela tá no céu, está bem, ele trata ela com carinho, dá presente. Eu falei, que eu estou com ciúmes. Ele é gente boa para caramba.


P/1 – Ele é legal?


R – Ele é filho do diretor geral da Setin, construtora. E eles são uma família de italianos, então eles fazem muito serviço. Ela faz muita comida italiana para eles, porque bebem que só. Bebem e fumam que só. Bebem vinho e fumam que no fim de semana fica forrado lá de garrafa de vinho e de ponta de cigarro. Novos tempos. Mas são gente boa, viu? A gente conheceu muita gente boa. Ainda tive um período da minha vida que eu esqueci, que a minha vida é uma turbulência, eu só trabalhei de motorista particular um tempo.


P/1 – É mesmo? Que ano?


R – Ah, antes de entrar na agência.


P/1 – De quem que era?


R – Eu trabalhava com uma família, família Rossi.


P/1 – Rossi?


R – Do Brás. Eles têm uma imobiliária grande lá. E estava no céu. Eles me tratavam com carinho, os meninos gostavam de mim. O menino e as meninas, mas gostavam de mim que queriam que eu subisse pelo elevador social, não queriam que eu subisse pelo elevador de serviço. A gente comia a mesma comida, na hora da comida. Eu recebi uma oferta para ganhar três vezes mais do que eu ganhava.


P/1 – Em outro lugar?


R – Chamei o senhor Agnelo e falei: “Cara, três vezes mais é muito dinheiro”. A mulher chamou eu lá, me tratou com aquela coisa, mulher era uma praga. A mulher era uma praga, imagina uma praga? Consegui trabalhar dois meses para ela.


P/1 – O que é que ela fazia?


R – Olha, você não é capaz de acreditar. Eu acho que no tempo da escravidão, alguém não tratava alguém tão mal que nem ela me tratava. Uma tal de dona Ruth.


P/1 – O que é que ela fazia? 


R – Ela tratava todo mundo assim. Não é que me tratava assim.


P/1 – Era dela?


R – Ela fazia umas coisas, mas vou citar só uma, eu levei ela uma vez na Clodomiro Amazonas para ela fazer compra. Ali não tem lugar para estacionar e ela queria que eu arrumasse lugar para estacionar em cada loja que ela entrasse, e depois tirasse o coiso e achasse outro lugar para estacionar, sem botar cartão de Zona Azul. E eu posso dizer que eu sou, e não vou dizer que sou fudido, porque senão vocês vão ter que cortar. Mas eu consegui fazer o que ela queria e não desagradar a mulher. Ela ia no Sírio Libanês, que ela dava serviço lá no Sírio, serviço voluntário, e eu não podia parar o carro, eu tinha que ficar andando com o carro, esperando ela e olhando para a porta a hora que ela aparecia para pegar ela na porta. Ela não deixava eu ficar dentro do carro, quando o carro estava parado.


P/1 – Por quê?


R – Não sei. Talvez eu pergunte para ela um dia.


P/1 – Você nunca mais encontrou com ela?


R – Deus me livre, nem quero ver. Ela é irmã de um, eu nem posso falar de quem, eu citei o nome mas isso ela não pode fazer nada contra mim. Eu nem posso falar, que ela é a irmã de um cara muito famoso aqui de São Paulo.


P/1 – De São Paulo?


R – Ela é de uma família muito tradicional. O irmão dela até pouco tempo foi fundador e diretor de uma casa muito famosa, que tinha um simbolozinho, uma criança rindo (risos).


P/1 – Você, hoje o seu cotidiano, o que é que você faz hoje?


R – Hoje o meu cotidiano, eu nunca estive numa maré tão coiso. Trabalho, conheço gente interessante, só trabalho para que eu gosto, não sou obrigado, posso escolher graças a Deus, tenho uma clientela que dá para eu escolher. Se alguém me maltratar, olha tanto é que nas casas que eu trabalho eles me dão a mão, os cafés da manhã, para mim e para o meu ajudante e café da tarde. E põe suco lá para a gente tomar. Para ter uma ideia dos clientes. A gente não precisa sair para almoçar, o pessoal trata a gente com muito carinho, todo mundo já sabe. Quando a gente vai trabalhar em outro lugar, o que indicou, já falou, olha, o pessoal está acostumado a trabalhar assim. Então a gente vai e fala, pode ficar sossegado, que a gente faz o almoço para você.


P/1 – Mas você faz de tudo? O que você faz?


R – Faço de tudo. Eu falei, me entrega a chave no chão, me entrega o terreno no chão, que eu entrego a casa pronta.


P/1 – E pequenas coisas também?


R – Faço tudo.


P/1 – Tipo um chão?


R – Faço tudo, já assento o piso. Tudo. Eu odeio mexer com eletricidade, meu ajudante fez um curso de eletricidade, ele mexe com elétrica. Para não precisar chamar ninguém de fora.


P/1 – Tem alguma história para contar de alguma obra que você fez? De alguma que tenha te marcado?


R – Não, tem histórias de obra que eu abandonei.


P/1 – Vou te levar para a minha casa.


R – Quando eu entrei para trabalhar no quarto da pessoa, tinha um observatório para fora, por isso que eu me sentia olhado.


P/1 – Tinha uma câmera?


R – Não, não era uma câmera. Era um lugar para se olhar a olho nu mesmo. Um tipo de uma pessoa voyeur.


P/1 – Na luneta lá?


R – Pô, eu estou trabalhando a vontade, em um lugar a vontade, fica chato eu ser observado, porque e se eu faço alguma coisa, eu não estou acostumado a fazer nenhum tipo de coisa assim, me coçar, me coisar. Mas e se eu faço qualquer tipo de coisa assim que fica meio desagradável, né? Porque se você sabe que você está sozinho, às vezes você até comete algum deslize. Não é normal, eu não faço isso. Mas eu trabalho muito nas casas das pessoas e aprendi que você tem que estar constantemente se vigiando, até para espirrar você precisa espirrar com educação. Em qualquer lugar que você estiver. Então você não se sente nunca sozinho, você está sempre. E aí eu acabei brigando com a mulher. Ela começou com umas gracinhas lá, eu tinha dado um bom orçamento para fazer o serviço dela e só tinha pegado uma parte, eu briguei, não fiz mais, catei minhas ferramentas e falei, vou embora. Não vou trabalhar mais. Peguei e fui embora.


P/1 – Conta causos de obras? Você podia falar algumas histórias?


R – Essa é uma das histórias, mas tem muita coisa. Eu sou muito sistemático, eu sou uma pessoa que nem eu falei, eu trato bem para caramba, com toda educação, com todo carinho, pego meu carro, vou buscar coisas, mas não me trate com desrespeito, que é um negócio que eu não aprendi a suportar. Se você me tratar com desrespeito, passar por mim, eu já falo, então eu acho que não está dando para a gente trabalhar junto. Eu não tenho essa coisa de suportar esse tipo de atitude. Eu não suporto. Se eu chegasse aqui por exemplo, vocês me tratassem friamente, falasse para mim, é porque vai ser assim, não sei o que lá, eu pegava as minhas coisas e ia embora. Eu não sei, ou eu sou bem acolhido e me comporto da melhor maneira, de uma maneira tranquila, eu só sei ficar tranquilo quando alguém me acolhe bem. Eu só sei ser assim, não adianta, isso é de mim. Não adianta, está dentro de mim. Então em qualquer lugar que eu chego, eu quero tratar bem e quero ser bem tratado.


P/1 – Vem cá e você trabalha nas casas e escreve ao mesmo tempo? Depois? Como você concilia as duas coisas?


R – Olha, quando eu estou fazendo pintura em algum lugar, dá para conciliar as duas coisas. Quando não, só de noite. Eu sempre digo uma coisa e a gente estuda isso lá nas oficinas, escrever é 90% de transpiração e 10% de expiração. Então eu leio muito, teve épocas aí de eu estar lendo dois, três livros juntos e faço um resumo de todos os livros que eu leio, escrevo e de vez em quando rememoro aquilo que eu escrevi. Dou uma olhada naquilo que eu escrevi. Agora eu estou lendo três livros, estou lendo um best seller aí que e como é que é? É o último livro lançado. Para título eu sou terrível gente. Um cara conversa com Deus. Como é que é o nome? Por isso que eu anoto tudo.


P/1 – Tudo bem.


R – Estou lendo mais dois livros. Estou lendo o Jack London, tem sido um dos meus autores prediletos, porque a minha filha lê muito o Jack London e eu tenho lido porque ele é um historiador fantástico. Ele tem uns livros que quem nunca leu e lê, fica apaixonado. E ele viveu em um época de 1870 à 1912. Ele era um visionário. Ele escrevia coisas que hoje são atuais. Lê o Chamado da Floresta. Ele tem contos também que são maravilhosos. Todos os livros deles são maravilhosos. Todos os que eu já li, eu acho que já li uns seis. Que quando eu começo a ler, é que nem eu fiz com o Charles Bukowski, li uma porrada de uma vez só. O poeta maldito. Então quando eu pego, eu pego para, porque minha filha é viciada em livro, ela tem uma estante lá que acho que pega metade dessa parede aí tudo. Ela vai nos lugares, não pode levar cartão de crédito, que ela fica louca. Ela e o namorado, o namorado que mora com ela, né, agora já é namorido.


P/1 – E essa oficina foi a primeira oficina de escrita que você fez?


R – A Alceu de Amoroso Lima foi.


P/1 – O que é que é lá? Quando é que foi?


R – Cinco, seis anos atrás.


P/2 – Dois mil e sete.


R – Não, dois mil e seis.


P/2 – É.


P/1 – Aí você entrou nessa oficina, quanto tempo durou? Como é que foi?


R – Foi, uns três meses? Me ajuda aí que isso eu não vou lembrar.


P/1 – Deixa.


P/2 – Foram dois anos.


R – Ah, é. Durou muito tempo. Lá eles dão ótimas oficinas.


P/1 – Mas oficina do que? De poesia? Texto?


R – Oficina de texto, a Karen que dava. A Karen que hoje é diretora da Casa Guilherme de Almeida. Com ela e com o senhor...


P/2 – Com a dona Neusa?


R – Não, não. Senhor...


P/2 – Charles.


R – Charles. Os dois eram bala junto.


P/1 – Era quantas vezes por semana?


R – Uma vez só. Uma vez por semana.


P/1 – Durante dois anos?


R – Mais ou menos. A gente desenvolveu cada artigo interessante, cada conto. Muito bom.


P/1 – E aí você escreve com qual regularidade hoje?


R – Hoje eu escrevo com uma regularidade de manhã, de tarde e de noite. Se você ver o quanto tem escrito aí, você vai ver quanta coisa eu escrevo. Eu escrevo com muita regularidade, porque eu não só escrevo as poesias, como estou tentando ter material para escrever o romance que já comecei.


P/1 – Sobre o que é que é o romance?


R – É um romance contemporâneo. Falando de tudo que nós estamos vivendo. Falando de políticos. Eu quero fazer uma mistureba de tudo isso. Falando da falta de segurança e principalmente de como são os romances hoje em dia. Como eram e como são. Fazer uma espécie de uma meia comparação, né. O meu dentista já ficou preocupado, vai ter personagens, porque eu falei para ele que personagens são pessoas catadas da vida real. Aí ele, vai ter personagem? Ele é fantástico, eu preciso falar dele. Eu tenho coisa com ele há dez anos, ele faz serviço para mim, eu faço serviço para ele. Nós trocamos serviço. Tocou com o Vinícius, toca um violão doido. Um dos melhores dentistas que eu já conheci.


P/1 – Como é o nome dele?


R – Eu chamo ele de Adinho, que é o apelido dele. E o nome dele é… E agora, vou lembrar o nome dele? Antevaldo, doutor, caramba, como é que é o nome? Eu chamava ele de doutor, ele falou “Porra eu sou seu amigo!”. Adinho, eu não vou lembrar. É Adinho. Ele vai saber que eu estou falando dele. Ele tem um consultório na Cândido Espinheira, ali, travessa da Cardoso de Almeida, e ele trata de artistas, muitos artistas ali. E ele é uma pessoa formidável, uma das melhores pessoas que eu já conheci na minha vida. Uma vez nós tivemos um coiso, que ele desde o começo ele fala que eu era amigo dele, e eu falei para ele: “Eu nunca fui amigo de gente rica. Quando a pessoa é rica ele não tem amigos, amizade com gente pobre”. Isso logo no começo, ele adorou essa minha falta de respeito, por assim dizer. Falou, “Qualquer um diria para mim, não sou seu amigo, você já vem com essa conversa”. E hoje nós se tornamos amigos para caramba. Ele deixa a chave da casa dele comigo, eu almoço com ele quando vou para lá. E um dia eu reclamei para ele, né, há uns anos que ele mandava servir o almoço para mim, a empregada servir, mas nunca esperava eu para almoçar. E eu falei para a empregada dele, “Eu almoço, mas isso é uma falta de consideração, que ele me disse que é meu amigo, e ao invés de almoçar comigo, ele almoça antes e depois manda servir o almoço para mim. Eu agradeço ele por mandar servir o almoço para mim, mas não vem me dizer que é meu amigo”. Aí quando eu estou trabalhando lá, ele fala, “Vem almoçar comigo. Para de trabalhar e vem almoçar comigo”. Falei, “Eu exijo consideração”. Ele deu risada. Falei, “Porque eu gosto de você”. Aí a gente brinca, porque a gente tem a mesma idade, né, eu falo, “Eu posso até dizer que te amo, porque nós estamos na mesma idade e já não tem mais aquela coisa, eu posso te beijar, posso te abraçar, posso dizer que te amo.” Entre nós já não tem mais essa coisa. Nós estamos bem definidos. Bem tranquilo. Ele dá risada. Mas uma das coisas que ele, tocou com Baden, com o Vinicius, com Toquinho.


P/1 – De quando você começou a escrever lá atrás, e agora você retomou, o que é que te levou a parar? E o que é que te levou a retomar?


R – Não, eu parei nessa fase aí dos vinte e seis aos quarenta anos, porque eu queria ficar rico. Trabalhei que nem um louco tentando ganhar dinheiro. Eu queria chegar junto com o dinheiro, mesmo. Em algumas épocas tive, ganhei, em outras épocas não consegui ganhar nem para comer, estava difícil até para comer. Mas mesmo a oficina, teve época que eu estourei a boca, teve época que viajava todo fim de semana para o litoral, estourei mesmo. Em tudo o que eu fiz teve altos e baixos. Teve época que eu estourei e teve época que eu... Eu sempre fui um descobridor de como ganhar dinheiro, gozado, né, mas eu torrava tudo, nunca soube, dinheiro nunca tinha morada no meu banco. Só agora eu estou sabendo controlar o dinheiro, gozado, né? Hoje, você vê, o carro que eu comprei agora, comprei a vista. Eu agora sei catar o dinheiro, eu não tenho conta em banco. Eu sei catar o dinheiro, chegar em casa e guardar, esse não é para gastar. Nunca aprendi isso. Vim muito pobre, de uma infância muito pobre, e quando você vem muito pobre, toda vez que você vê dinheiro no bolso, você fala: “Eu quero torrar esse dinheiro, quero gastar tudo”. Você não tem aquela cultura de saber poupar, sabe? De saber segurar o dinheiro. Ah, eu me sentia, “eu estou com dinheiro no bolso gente, vamos em um restaurante”, eu não sabia. Hoje não, espera aí, peguei mil, vou gastar duzentos em um fim de semana, cento e cinquenta. Mas o resto eu vou guardar. Mesmo porque de vez em quando precisa dar uma ajuda para as filhas, de vez em quando sabe?


P/1 – A sua esposa trabalha?


R – Trabalha, falei agora lá. É uma espécie de governanta do Fernando na casa dele. Mas não tem hora, chega, sai, entra de manhã.


P/1 – Não, eu não peguei esse pedaço, eu estava aqui?


R – Gravou, estava.


P/1 – Mas ela continua?


R – Continua, está trabalhando.


P/1 – Ah, isso que eu ia falar, hoje, ela continua lá?


R – Ela continua. Se a minha mulher ficar em casa ela enlouquece. Eu não aguento ela quando ela está em casa. Gente, se eu pus o chinelo de lado, ela tira o chinelo e põe lá no canto. Cadê meu chinelo? Ela tem mania de manter tudo, você assiste o Monk? Na televisão? Falo, larga o meu chinelo aí. Muito organizada, muito. Falo, para. Aí cara.


P/1 – E aí, só para completar, e o momento que você decide voltar a escrever?


R – Foi aos quarenta anos. E é uma história até que, não posso contar.


P/1 – Conta um pouco.


R – Não, não pode.


P/1 – Como é que foi que você falou assim, agora eu vou voltar a escrever?


R – Na agência, comecei conviver com muita mulher, trezentas mulheres tinham lá. A gente olhando tudo aquela mulherada, inspirava e eu comecei a escrever.


P/1 – Começou a escrever para elas?


R – Escrever não para elas, a respeito. Eu fiz uma poesia que quase me separou da minha mulher, né, está no livro.


P/1 – Nessa antologia?


R – É. Com o nome das mulheres que foram importantes na minha vida. E minha mulher queria que eu explicasse. Explica cada uma. Falei não, não vou explicar nada, se você quiser ler você lê. Nós andávamos mal, falei, isso vai ser a gota d’água. Essa vai ser para separar mesmo. Para botar uma tampa na panela. Não separou. Nós estamos juntos agora. Eu ainda não falei dos meus dois netos maravilhosos, preciso falar, porque se isso aparecer, eles vão me cobrar. A Carolina que está com oito anos de idade e o Caio que tem quinze anos. Duas pessoas maravilhosas, duas pessoinhas que moram no meu coração.


P/1 – São filhos de qual filha?


R – O Caio é filho da Paula e a Carolina César é filha da Renata. E a Fernanda que é artista plástica falou: “Nada de filhos, eu não tenho paciência para filhos. Se eu tiver um filho eu levo lá na sua casa e deixo lá para você tomar conta”. Eu falei “Eu não quero. Muito obrigado, eu quero ter neto na sua casa, não na minha”. Que eu já vou buscar minha neta todo dia na escola, até fico devendo para o meu neto, porque quem leva ele para escola é o outro avô dele. Leva e traz todo dia, com quinze anos, o pai dele e a mãe vão buscar, vai levar. Arrumou uma namorada, eu quero saber quem é essa menina que está namorando como diz as tias. Sabe aquelas tias que nem elefanta, que toma conta, fica ali tomando conta? Ah, foi muito engraçado. Como assim? Deixa o menino namorar. Não, nós queremos saber quem é essa menina. Falei, imagina a Carolina a hora que começar a namorar, né? Mas é muito engraçado, elas são muito tiazona. Todas elas davam presente para ele e levam coisa. Muito engraçado. E nós temos uma vida de família tradicional, gozado, só uma casou no civil e na igreja. Eu falo como é? Ah pai, a hora que tiver que acontecer, acontece. As outras duas, não. Por enquanto a gente está vivendo bem, deixa isso para lá vai. Eu falo, mas eu sou de uma família tradicional, todo mundo casava na igreja e no civil. Não, não, para, deixa assim mesmo. Foi muito engraçado.


P/1 – Olhando a sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa, você mudaria?


R – Acho que nada. Só guardava um pouquinho mais de dinheiro. A única coisa que eu falo, eu brinco, né, até uma coisa que a minha mulher me cobra assim, “você casava de novo?”. Não. Casamento é muito complicado. Eu agradeço a Deus por ter encontrado uma mulher tão boa, que eu não podia ter melhor até falo sempre para ela, não é jogar confete. E as minhas três filhas e meus dois netos. Amo eles de paixão, morro por causa deles. Mas eu não casaria de novo. Se eu olhasse a minha vida, talvez eu ia falar assim, não eu casar por causa das filhas, né, que ela me amam incondicionalmente. Nossa Senhora. É um amor muito violento, é um negócio assim de outras vidas, mas pelo casamento em si, não casaria. Eu falei isso uma vez para você, viver com uma pessoa numa casa é um negócio desgastante demais gente. Eu acordo de madrugada, eu quero ligar o som, ué, eu quero ir para a minha escrivaninha duas horas da manhã. Aí eu sou obrigado a pôr o fone de ouvido, não tenho essa liberdade. Eu gostaria de largar os meus livros tudo aberto em cima da mesa. Gostaria de deixar os meus escritos tudo jogado, eu tenho uma mesa assim de seis metros de comprimento e largar tudo jogado. Porque eu ponho uma palavra em um, escrevo no outro. E não posso, fica tudo fechado. Uma hora, caramba, isso aqui faz três meses que eu não ponho um nada nele. E não posso, porque a minha mulher fecha tudo, coisa tudo, colocar tudo na prateleira. Eu às vezes perco coisa, falo “Cadê?”. Sumiu. Vou achar lá, depois de seis meses. Que eu tenho uma biblioteca até razoável, né. Eu também sou um comprador de livro. Eu descubro esses brechós, esses lugares, vou lá, garimpar.


P/1 – Qual é que é seu maior sonho hoje?


R – Meu maior sonho? Seria ver minhas filhas muito bem de vida e publicar um livro. Eu tenho sonho e não é para ganhar dinheiro. É ver publicado um livro para as pessoas lerem o meu livro, falarem: “O cara escreveu um negócio que presta. Bom”. Tem conteúdo, é bom, ensinou alguma coisa para as pessoas. Foi bom para todo mundo que leu. Essa seria a minha maior ambição. Fora isso, continuar ganhando um dinheirinho para viver bem. Vou em uma pizzaria muito gostosa aqui, tem música ao vivo, poder ter dinheiro para ir nessa pizzaria pelo menos uma vez a cada quinze dias. Ter bons amigos, maravilhosos, tenho. Pessoas que eu amo. Eu tenho privilégio de conviver só com pessoas que eu amo, eu excluo as pessoas que não me amam e que eu não amo, já são automaticamente excluídas da minha vida. Não quero, não preciso. Por isso que eu tenho dificuldade, às vezes, de convivência. A turma falava, se eu não gosto de alguém, fica difícil eu conviver. Às vezes davam grandes brigas por causa disso. Não vou trabalhar para essa pessoa, não gostei. Pô, mas você vai ganhar dinheiro. Nessa fase da minha vida, eu vou me desgastar durante três meses por causa de dinheiro? Não vou. Por isso que hoje eu aprendi melhor a controlar a minha vida, porque eu controlando melhor a minha vida eu não tenho dívida. Não conta em banco, não tenho cartão de crédito. Eu gasto o que tenho no bolso. Só, e mais nada. Eu fiz as contas de quanto eu economizei não tendo conta em banco nos últimos tempos, oito mil reais. É mole? Sistemático? Sim, eu não gosto de ser roubado, os bancos roubam. Sinto muito, os bancos quando precisam de um dinheiro, eles pegam a sua conta corrente. O Bradesco, tem um milhão de contas correntes, ah, nós estamos precisando de seis milhões, vamos lançar seis reais em cada conta. Vocês sabem quantos vão reclamar? 999 mil não vão reclamar. Vai reclamar cinco ou dez. O resto eles arrecadam. A maioria nem olha no extrato bancário. Eles arrecadam seis milhões assim de um dia para o outro. Eu não quero ser roubado. Tudo o que eu chego para comprar eu chego com o dinheiro. Chego lá, quanto você me dá de desconto? Ah, não te dou desconto. Você não me dá desconto, eu não compro. Vou comprar em outro lugar. Não só não pago o juros, como ainda ganho um dinheiro em cima. Pode falar, “Pô, isso é arcaico”. Falo “Sim, é arcaico”. O dia que eu fui buscar meu carro eu fui com o dinheiro dentro da meia, no domingo. Olha só, cheguei lá, entrei na agência, na Ventuno, aí ele falou “Nós não recebemos dinheiro hoje”. Eu falei: “Olha meu amigo, eu não vou voltar para casa com esse dinheiro dentro da meia. Estou aqui dentro, estou me sentindo seguro, vou passar em outra agência, se eu encontrar um carro, vou comprar na outra agência”. “Ah, vem aqui dentro, o dinheiro está aí dentro mesmo?” “Tá.” “Então tira”. Tirou, contou. Abriu o cofre e colocou lá dentro do cofre, ué, não vou. Eu estou com o dinheiro, não é cheque. Então tá, contou tudo direitinho, guardou, já arrumou um lugar rapidinho para guardar. Ah, nós temos medo de assalto. Eu falei “Eu é que tenho que ter mais medo que eu que vou sair com esse dinheiro aí na rua. Alguém que ouviu eu falando aqui já vai sair na minha captura”, falei para ele. Mas é assim, tudo o que eu vou comprar, eu fui nas Casas Bahia comprar um vídeo, e eu prefiro comprar vídeo descartável, porque a gente usa uns tempos e não tem que ficar preocupado. Cheguei lá, já veio cento e cinquenta, vídeo, cento e oitenta o que eu queria. Chama o seu gerente. A vendedora disse: “Mas meu gerente não vai dar desconto. As Casas Bahia não dão desconto”. “Chama o seu gerente”. Chamou o gerente. Eu falei “Tenho cento e cinquenta aqui”. “Ah, mas não dá para fazer”. “Em dinheiro?” Aí ele: “Em dinheiro?” “E só tenho 150”. “Faz para ele vai”. Eu tinha ido lá, eu vi ele falando para um outro lá, compra a prazo, fica duzentos e quarenta. Gente, eu comprei por cento e cinquenta, o outro ia pagar duzentos e quarenta. O pessoal é louco. Só veio para pagar juros. Eu falo para minha mulher, não pague nada atrasado que eu não quero pagar um cruzeiro de juros.


P/1 – Britinho, o que você achou da experiência de dar esse depoimento aqui?


R – Olha, achei fascinante, gostei, gostei das pessoas que me fizeram as perguntas. Que me tiraram coisas que eu nem queria falar. E é gostoso, me senti à vontade. Me deixaram completamente a vontade. Adorei. Quando precisar, repito a dose. Espero que vocês cortem algumas coisas aí, que vocês acharem que pode dar algum problema na edição. Contei muita coisa íntima, que não era para contar.


P/1 – Qual a importância que você vê em dar esse depoimento?


R – Eu acho que quando a gente ouve depoimento de vida das pessoas e a gente dá um depoimento de vida, eu aproveito muito quando eu vejo depoimento de vida. Quando eu vejo as pessoas darem depoimento de vida, porque as pessoas sentem onde você errou. Ou fala, não, eu também quero errar assim, foi bom. Se o cara tá chegando feliz errando tudo isso nessa idade, é porque não foi tão ruim assim. Que eu acho que é errando que se aprende mesmo, não tem outro jeito não. Quem vem de uma família pobre, não tem pai rico, não tem pai comerciante, você tem que se aventurar e meter bronca. Eu poderia estar aposentado hoje, com salário de cinco, seis mil, se eu tivesse continuado na Bracel, era uma firma boa, sólida, tenho certeza que eu estaria bem até hoje, o cara me adorava. Sempre tive uma sorte, os patrões sempre gostaram de mim. Eu nunca pisava na bola. Meu negócio era o seguinte, fazer aquilo que eu, e sempre foi isso, você está me pagando para fazer uma coisa? Enquanto não estiver feito, bem feito, eu não largo. Posso estar tomando prejuízo, mas não largo. Então o pessoal gostava de mim mesmo. Eu podia estar, hoje mesmo, eu me proponho a pintar isto daqui, não está bom, eu vou demorar mais três dias do que aquilo que eu programei. Eu vou fazer até você falar, está perfeito. Do jeito que eu quero. Então as pessoas que são meus clientes, são clientes para toda a vida. A não ser que brigue comigo ou me trate mal. Que aí eu viro as costas, vou embora e falo: “Até logo meu amigo, escravidão já foi há trezentos e cinquenta anos, chega.”. Me trata com carinho, até uma passagem aí da Refinações de Milho Brasil que eu não contei, viu.


P/1 – Pode contar.


R – Que eu era novo ainda e fiz um teste na Refinações de Milho Brasil e eu era bom em teste, só que eu coloquei branco lá na ficha, porque eu sabia que tinha um preconceito do caramba naquele tempo. Aí o cara mandou um telegrama para mim, eu fui lá. Quando eu cheguei lá ele olhou para mim assim, falou, “vem aqui”, abriu a porta lá e mostrou lá para dentro. O que é que você vê aí? Você é um cara inteligente. Eu falei, “obrigado, até logo”. Me dispensou na cara dura. Preconceito, ah, também não tem preconceito no Brasil. Esse foi só um deles, ué. Muito sofri, gozado, sofri muito preconceito tanto do lado branco, quanto do lado negro. Eu fui conversar com uma negra uma vez, lindíssima, maravilhosa, era irmã gêmea, e ela falou para mim assim, eu não namoro com mulatos, mulatos são muito metidos. Quer dizer que eu sofri preconceito dos dois lados. Tanto de um lado, quanto de outro. Eu aprendi a conviver, assim como a maioria aprendeu a conviver com isso. Foi uma época onde os negros estavam dando a volta por cima. Hoje a gente pode até dizer, uma brincadeira que a gente faz com a minha neta, qual o homem mais veloz do mundo? Um negro. Qual a mulher mais linda do mundo? Uma negra. Qual o homem mais poderoso do mundo? Um negro. Qual o homem que, Martin Luther King. Nossa, tem negros na história aí que fizeram história. O Pelé eu não tenho muita afinidade não, porque o Pelé é muito covarde. Ele podia fazer muito pela raça negra e não fez nada. Mas é um homem que levou o nome do Brasil ao exterior e seja lá o que Deus quiser. Mas eu já vejo Gilberto Gil, fez muito mais do que o Pelé para mim.


P/1 – Você tem algum outro episódio de preconceito? Que você tenha passado?


R – Olha, eu apaguei muito esses episódios de preconceito que eu passei. Apaguei. Na Ultrafértil também não entrei e tenho certeza que não foi por mim. Foi por preconceito. Eu procurei grandes empresas, para entrar porque essas grandes empresas são sólidas e você consegue se manter ali dentro em um estágio que você não precisa aparecer tanto. Não precisa ser uma grande mente brilhante e se mantém ganhando um bom salário. Eu não era bobo nem nada, né, eu vou entrar em uma empresa grande. Depois desisti, vou não, isso daí só me enche o saco. Entrei nessa Bracel que faturava dois milhões por mês quando eu entrei, quando eu saí faturava trinta. Já era uma multinacional.


P/1 – Britinho, eu quero agradecer, sua presença aqui. Depoimento super bonito.


R – Eu é que agradeço a vocês terem me chamado, me deixado tanto a vontade e adorei. Pensei que ia ser bicho de sete cabeças, bicho-papão, estava com medo. Me deram até um chá de erva doce para tomar de manhã, uma amiga que está fazendo aniversário, eu fui na casa dela. Leva essa chazinho de erva doce e toma antes de ir para lá. Não precisou, cheguei aqui, me deixaram completamente a vontade. Agradeço muito o convite, espero que tenha sido de proveito para vocês também.


P/1 – Nossa, lindo. Obrigada.


R – Eu que agradeço.


P/2 – Obrigada.

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