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História

“não plantou, não sai e não tem”

História de: Olivar Fontenelle de Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Camocim – CE. Família francesa. Petrópolis – RJ. Empresa familiar. Comércio. Revolução Espanhola. Caridade. Aracruz Celulose. Acionista. Preocupação ambiental. Meio ambiente. Plantação familiar.  

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História completa

R/1 – Olha, fala alto porque eu ouço pouco.

 

P/1 – Ta.

 

P/? – É Olivar.

 

P/1 – Aé, Olivar. Ta ok.  

 

P/1 – Quer gravar de novo a claquete?

 

P/? – Não, não.

 

P/? – Gravando. 

 

P/1 – Boa tarde seu Olivar... Boa tarde.

 

R/1 – Boa tarde.

 

P/1 – Eu gostaria que o senhor dissesse pra gente o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R/1 –Você quer o nome completo?

 

P/1 – Isso.

 

R/1 –Olivar Fontenelle de Araújo, com dois ‘éles’.

 

P/1 – Onde o senhor nasceu?

 

R/1 – Em Camocim, Ceará. 

 

P/1 – Que data?

 

R/1 – 26 de julho de 1908.

 

P/1 – Certo, qual é o nome dos pais do senhor?

 

R/1 – Como?

 

P/1 – O nome dos pais do senhor?

 

R/1 –José Adonias de Araújo, o nome não é pouco comum, não, e a mãe Rosa Fontenelle de Araújo.

 

P/1 – E dos seus avós?

 

R/1 –Como?

 

P/1 – O nome dos seus avós?

 

R/1 – (inaudível) Araújo era o nome do meu pai... quer dizer, meu avô e o outro era Fontenelle, que veio... Esse nome francês, porque ele era francês e foi pra Viçosa. Daí veio a família Fontenelle e depois se espalhou muito lá...  

 

P/1 – Viçosa é no Ceará?

 

R/1 –...E depois se espalhou muito, entende...

 

P/1 – E qual era a atividade dos seus pais? Atividade profissional dos seus pais?

 

R/1 –Eram comerciante. 

 

P/1 – O seu pai?

 

R/1 –É, exportava muito mercadoria, principalmente para a Inglaterra, algodão, a madeira, tudo. E ele tinha uma inclinação com madeira porque ele tinha uma serraria no Amazonas, e daí vem a minha inclinação também por madeiras. Porque eu gosto muito, a variedade, é muito interessante. Quando a gente vê só uma parte, só um pedaço, não tem nada de interessante, mas quando a senhora ver... Eu por exemplo, tive no Amazonas e aprendi uma a porção de coisas, entende. Aprendi até, de um francês que estava lá, entende, pegando uma pequena árvore que tinha na Guiana Francesa e já tinha acabado e já estava do lado brasileiro, daí ele extraia um perfume francês, porque ele pegava as raízes e mandava tudo pra França. Eu trouxe até um vidrinho aqui, mas não continuei. A coisa mais perfeita que tem é ir lá... Acabaram na Guiana Francesa e vieram pegar no lado brasileiro. Eu estive ainda com esse rapaz, até ele montou lá uma pequena... ele extraia aquele suco e... 

 

P/1 – Interessante.

 

R/1 – ... e mandava pra Guiana Francesa. 

 

P/1 – Legal. O senhor tem irmãos?

 

R/1 – Tenho o que?

 

P/1 – O senhor tem irmãos... irmãos?

 

R/1 – Tenho. Agora tenho, só... não, todos morreram. 

 

P/1 – O senhor tinha quantos irmãos?

 

R/1 – Netos eu tenho uma porção. 

 

P/1 – Certo. Irmãos o senhor tinha quantos?

 

R/1 – Mais alto do que eu, mais baixo do que eu (risos). E netinha, Bisneta. Mas irmão não tenho, não. 

 

P/1 – Certo. Mas quantos eram os seus irmãos, o número?

 

R/1 –Quantos eram?

 

P/1 – Não, quantos eram o número dos seus irmãos?

 

R/1 – Oito. 

 

P/1 – Oito?

 

P/2 – Certo. O senhor lembra o lugar onde você morava na infância? Descreva um pouco o seu bairro onde você morava na sua infância. 

 

R/1 – Um pouco do meu pai?

 

P/1 – É... não, do lugar onde você morava na sua infância.

 

R/1 – O que?

 

P/1 – Quando o senhor era criança, onde o senhor morava?

 

R/1 – Camocim.

 

P/1 – Como era o lugar onde você morava, o bairro?

 

R/1 – Era muito agradável porque todo o piso era de pedrinha da praia, compreende? O outro lado já era areia, mas ali não tinha calçamento, porque o calçamento era dessa pedrinha da praia, entende? 

 

P/1 – Que legal. 

 

R/1 – Meu pai construiu a igreja lá, a igreja Budista e eu construí um colégio pra criança, entende?

 

P/1 – Que legal.

 

R/1 – Para criança. Eu dei um pouco pras freiras, compreende? Tinha um grupo aqui que vivia até em minhas custas. Elas por exemplo estavam além de São Paulo um pouco. Elas pediam roupa, mandava minha secretária tirar e comprar... Cearense, uma francesa e outra brasileira, entende? A francesa era professora de matemática do maior colégio católico de Porto Alegre, compreende? E tinha uma brasileira da minha terra que depois eu tive que ajudar... Afinal, ajudei essas três, quatro freiras, entende, o tempo todo até elas construírem uma igreja lá no norte do Brasil. Porque eu mandava os aparelhos e como tinha havido uma greve de pilotos, estavam com a greve lá no centro do Brasil, ela aproveitava o piloto que estava lá e fazia isso e isso, compreende? Quer dizer, aproveitava a folga desse piloto. Depois o piloto foi chamado a atenção, o que que ele fazia com essas voltas? Era carregando coisas pras freiras. 

 

P/1 – Certo. E descreva um pouquinho...

 

R/1 – Eu tenho três... três benção do Papa e uma eu recebi dele pessoalmente. 

 

P/1 – Nossa.

 

R/1 – Em Roma, entende.

 

P/2 – Uau. Que legal. 

 

P/1 – Descreva seu Olivar, a casa onde o senhor morava. Como que era a casa quando o senhor morava quando criança?

 

R/1 – Era a melhor casa da cidade, entende. Meu pai tinha (inaudível) então foi construída por um espanhol. A frente por exemplo era grade, depois vinha a madeira, porque como ele entrou na política, e naquele tempo a política era violenta, às vezes quando ameaçavam qualquer coisa, se fechava toda a parte da frente. Porque naquele tempo a coisa era meio quente... 

 

P/1 – Certo.

 

R/1 – E meu pai se meteu... tinha recursos, vinha da América, daquele... você viu aquele filme Bang Bang do lado da América, vinha aqueles... vinha de lá até o Maranhão. No Maranhão tiravam (inaudível) gosta de animais, porque aí tinha o controle oficial, compreende. E lá eu... quem abria… Nós viajávamos ãs vezes pra montanha, nós tínhamos 40, 50 homens nos acompanhando.

 

P/1 – Certo.

 

R/1 – Tudo a cavalo. Porque meu pai tinha uma guarnição grande porque ele tinha navios, então esse pessoal lá, antigamente trabalhava com lenha, não tinha carvão, então lenha tinha que cortar, carregar. Então quando não tinha o que fazer…

 

P/1 – Fazer isso.

 

R/1 – Mas olha, adorava tudo, toda essa vida, entende?

 

P/1 – E como é que...

 

R/1 –Adorei.

 

P/1 – Certo. Como era o cotidiano na sua casa...?

 

R/1 – Sempre gostei de aventura. 

 

P/2 – Ah que legal. 

 

R/1 – Sempre. Quebrei o braço duas vezes, arrebentei a vista uma vez porque lá era carbureto, entende, e quem tratava era um senhor, já de idoso. Era um pouco distante da sala, e ele, foi na hora de... voltou o carbureto, começou a ferver. Ele tinha esquecido o fósforo, foi buscar, mas eu arranjei um fósforo, eu era pequeno, estourou no meu rosto, passei um mês só olhando baixo.  

 

P/2 – Seu Olivar...

 

R/1 – Eu era muito levado.

 

P/1 – Eu imagino...

 

R/1 – Eu fiquei embaixo de uma locomotiva de propósito, pra ver como era, entende?

 

P/1 – Como eram suas brincadeiras favoritas?

 

R/1 – Heim?

 

P/1 – Quais eram as brincadeiras suas favoritas na infância? Brincadeira, o que o senhor gostava de brincar na infância?

 

R/1 – Ah bom, brincadeira tinha por exemplo de noite tirar o cabo do guarda-chuva... guarda-chuva não, vassoura e saia correndo, depois um batia no outro, tal… (risos)... Olhe dona, quebrei o braço duas vezes, entende? Estourei o rosto uma vez, entende? 

 

P/1 – Nossa.

 

R/1 – Fiquei lá, tive uma... eu mergulhava muito alto, profundo, com um senhor mais velho do que eu, entende, ele mergulhava de um modo e eu mergulhava do outro. Quando voltava (inaudível)... 

 

P/1 – Nossa.

 

R/1 – Como é que se diz... meio afogado né.

 

P/2 – Seu Olivar... 

 

R/1 –Eu sempre fui muito levado. 

 

P/2 – Eu sei, agora me conta um pouquinho quando foi que o senhor começou a estudar? 

 

R/1 – Muito cedo, foi no Liceu Francês com a idade, acho, oito ou nove anos. 

 

P/1 – Isso lá no Ceará ou aqui no Rio?

 

R/1 – Não, aqui. Petrópolis. 

 

P/1 – Petrópolis.

 

R/1 – Petrópolis.

 

P/1 – Sim, conta um pouquinho...

 

R/1 – Desse colégio luso-brasileiro...

 

P/1 – Como é que era essa escola? Conta um pouquinho como era. 

 

R/1 – Era um grande colégio, tinha quase 800 alunos e muita gente, se estava, desaparecendo agora, começou aula lá. Engenheiro célebre e tudo isso, estudaram lá no começo também, que era o melhor colégio que tinha. E nós tínhamos... eu tinha quatro irmãs no colégio... Que tinha lá no colégio, então elas ficavam lá e nós tínhamos direito a ir uma vez por semana para visitá-la e quando chegava lá, todo mundo nos gozava, todo mundo nos gozava, todas aquelas moças nos gozavam. Como aquela fada do botão de ouro. Quinta-feira lavava, limpava os sapatos todos e limpavam os botões dourados, toda quinta-feira e recebia mil réis, uma pratinha de mil réis pra comprar bala.

 

P/2 – Que legal, agora quais são assim... o que o senhor guarda de marcante, quais são as suas lembranças mais marcantes nesse seu período no colégio aí em Petrópolis?

 

R/1 – Como é?

 

P/2 – Quais são as lembranças mais marcantes que o senhor tem desse período aí da escola?

 

R/1 – Não estou entendendo bem.

 

P/1 – O que que o senhor se lembra como muito importante do tempo da escola, coisas que aconteceram no tempo da escola? 

 

R/1 – Bom na escola?

 

P/1 – Isso, coisas assim importantes.

 

R/1 –Bom, eu por exemplo, nesse colégio, eu prefiro repetir porque o português, porque naquele tempo não tinha máquina de escrever, era tudo... e naturalmente português tinha uma caligrafia que era uma maravilha e era o que eu me dedicava mais, compreende?



P/1 – Ah tá. 

 

R/1 – Porque eu gostava daquela... ele escrevia muito bem, porque naquele tempo não tinha impressão, a impressão era na mão mesmo. 

 

P/2 – Certo. 

 

R/1 – Olha, eu estive na Espanha durante a revolução, na primeira semana mataram sete padres na cidadezinha onde eu estava.

 

P/1 – Em que ano isso?

 

R/1 – Heim?

 

P/1 – Em que ano?

 

R/1 – Em que? Ano? 

 

P/1 – É.

 

R/1 –Olha rapaz, eu estava casado... não sei, uns vinte e tantos anos, entende. Assisti uma parte da revolução da Espanha.

 

P/1 – Já estava casado..

 

P/2 – É a guerra civil espanhola de 36.

 

R/1 – E era pra valer lá heim, o pessoal lá é mau. E só não vou debaixo da água.

 

P/2 – O seu Olivar...

 

R/1 – Eu andei em todo tipo de avião, adorava o Concorde, que era o mais violento, era o que nós tomávamos com mais... entende?

 

P/1 – Quando o senhor veio do Ceará pro Rio de Janeiro, o senhor veio... 

 

R/1 – Ah, agora espera aí que... é um bocado difícil.

 

P/1 – Certo. Quando o senhor veio do Ceará para o Rio de Janeiro, o senhor veio pra que aqui no Rio de Janeiro, morar no Rio de Janeiro?

 

R/1 – Meu pai vinha se mudar, ficar aqui, trabalhar aqui, montar o escritório e nós no colégio.

 

P/1 – Certo. 

 

R/1 – Aí nós fomos pro Liceu Francês.

 

P/1 – Certo. Aí depois do Liceu Francês o senhor começou a trabalhar com o pai do senhor?

 

R/1 – Meu pai, eu sempre trabalhei com ele, depois é que passei pra casa Sloper. 

 

P/1 – Certo.

 

R/1 – Mas sempre trabalhei com ele.

 

P/1 – Certo. E o que o senhor fazia na casa Sloper?

 

R/1 – (Risos) Fazia de tudo.

 

P/1 – Tudo né?

 

R/1 – De tudo.

 

P/1 – O senhor passou muitos anos lá?

 

R/1 – Por exemplo, eu também me dedicava a uma sucursal, porque cada uma se dedicava a uma sucursal. Então tinha que atender os pedidos, e pedido era calcinha de mulher, era saia, era vestido, era gola, tudo, não tinha discussão. Tinha até (inaudível), compreende?

 

P/1 – Certo.

 

R/1 – Olha, eu fui condecorado pelo ministério da guerra por causa dessas quatro irmãs de caridade, porque eu... Elas estavam em São Paulo, mas não tinham nada e a minha secretária hoje... Então eu recebia carta dela pedindo as coisa, eu dava a secretária: “Está aqui, atende tudo isso. Calcinha, tudo, tudo, manda pras irmãs.” (risos).  

 

P/1 – Está certo.

 

R/1 –Ela escrevia para mim mas eu dava tudo à Célia e a Célia mandava pra elas, entende. Essa foi formidável: uma me convidou pra ser padrinho dela, fui condecorado pelo (inaudíel) azul, entende. Eu fui lá oito horas da manhã pra assistir o batismo, condecoração. A outra francesa que estava muito doente, ia ser removida pra França mas ela tinha muito pavor, porque diz ela que: “Na França, eles mandam para aqueles lugares muito nebulosos.”, onde não se vê nada e essa coisa toda, é muito triste, ela preferia morrer aqui. (inaudível) ele pagou todas as despesas.  

 

P/2 – Seu Olivar... 

 

R/1 – É, fazia... eu construí uma sala de crianças, só a senhora vendo, é tudo pequenino assim. Construíram só um pátio do prédio, a outra parte não construíram. E estava muito sol, eu mandei fazer e botei lá e mandaram a fotografia, 300 crianças. 

 

P/1 – Certo.

 

P/2 – O senhor fez faculdade?

 

R/1 – Eu construí a igreja de Santa Tereza, mas quem pagou foi meu sogro. 

 

P/1 – Seu Olivar, o senhor fez faculdade?

 

R/1 – Heim?

 

P/1 – O senhor estudou na faculdade?

 

R/1 – Estudei, no Liceu Francês. 

 

P/2 – Depois do Liceu, onde o senhor estudou? 

 

R/1 – Não, eu só estudei no Liceu Francês. 

 

P/2 – Muito bem, então o senhor foi pra casa Sloper e ficou trabalhando…?

 

R/1 –Fiquei trabalhando lá tudo.

 

P/2 – E quando é que o senhor conheceu a Aracruz?

 

R/1 – Ah, eu sempre tive simpatia por árvore, sempre, desde garoto gostava de... desde quando fui criado lá e quando eu entrei, depois com o (inaudível) que era muito amigo, que era... amos nisso, entende, me levou, aí eu conheci esse pessoal. Eu hoje tenho uma plantação, e olhe, é uma das maiores riquezas do Brasil. 

 

P/1 – O senhor foi um dos fundadores da Aracruz não foi?

 

R/1 – Heim?

 

P/1 – O senhor foi um dos fundadores da Aracruz não foi?

 

R/1 – Não, eu não fui fundador. Fundador foram eles que tinham dinheiro. Colaborei em certas coisas.

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente como é que foi...

 

R/1 –A senhora quer ver alguma coisa? Vou contar, isso é meio cômico, mas vou contar. A Aracruz estava construindo pro lado de cá, digamos e aqui tinha uma vila, uma cidadezinha baiana, entente, e eu saia do Rio e ia pra lá, porque de lá eu ia ver a construção da Aracruz tanto por ali. E um dia eu fui de gravata, colarinho, chapéu, tudo de um lado... é uma certa distância do... e tem uma vilazinha lá e eu estava olhando, e olhando, vira-se um senhor e diz: “O senhor é daqui?”, eu digo: “Não, porque?” “Porque o senhor está bem vestido aí, de chapéu, vão logo pensar que o senhor é fiscal” (risos) (inaudível) ... podia disfarçar e vinha pra cá... (inaudível) foi embora.

 

P/1 –Certo. E conta um pouquinho como foi esse primeiro momento de contato com a Aracruz florestal, as primeiras plantações. Conta um pouquinho pra gente essa história. 

 

R/1 – Foi por intermédio do Eliezer. Eliezer é que criou a Aracruz (inaudível) pra dar uma idéia, eu sou o sétimo acionista da Aracruz... da Aracruz não, da Vale do Rio Doce...

 

P/1 – Sim.

 

R/1 – Compreende? Pequeno, não quer dizer (inaudível) pequeno, mas porque o Eliezer era já metido nesse negócio tudo, depois veio o...

 

P/2 – E como foi... como foi assim a sua... porque o senhor resolveu?  

 

R/2 – (inaudível). 

 

P/2 – É, isso. 

 

R/1 – Eu nem me lembro, foi em tanta parte. Eu me encontrava com ele na Suíça, me encontrava na Inglaterra, me encontrava... Eu não posso dizer bem como começou, ele é um grande amigo e um grande brasileiro. 

 

P/2– E porque o senhor resolveu investir na Aracruz?

 

R/1 – Porque eu tinha um pouco de dinheiro, eu digo: “Aplicar aqui.”, porque eu tinha confiança. O Brasil é uma das coisas, que pra  (inaudível) do Brasil é madeira, se não acabarem com ela, compreende? (inaudível) planta, planta, planta, morre um, planta outro, tira um, volta outro. E eu tenho plantado lá numa pequena propriedade com o meu... como é o meu... 

 

P/? – Neto? 

 

R/1 – Neto, entende. Ele que toma conta dessa... de uma parte. Estava muito satisfeito e eu acho que vai ser muito interessante. Porque o Brasil é um país pra isso, tem muita terra. Agora estão acabando no Amazonas, estão botando a baixo, mas quem bota abaixo muito lá são os estrangeiros que vem, porque o país é isso, mas aqui tudo é cercado de mar e então esse pessoal vem tirar do lado de fora do oceano, compreende? Mas o governo não está tomando providência. 

 

P/1 – Entendo. E assim, quais são as suas atividades na Aracruz como acionista? O senhor vai lá algum momento? Como que o senhor intervém na Aracruz?

 

R/1 – Como que era o negócio?

 

P/1 – Como que é a sua relação com a Aracruz? O que que o senhor faz lá? O senhor vai só pra reuniões? Como que é as suas atividades como acionista, quais são?

 

R/1 – Eu não entendi bem. Eu sou acionista e como eu, há vários. Há outro esquema, que são os donos verdadeiros, como Lorence e a família dele, Eliezer e tudo. Eu sou acionista mas não...

 

P/1 – O senhor... como acionista o senhor tem alguma atividade, tem que ir lá na Aracruz pra alguma...?

 

R/1 –Tenho, quando há assembléia, eu tenho que ir lá, entende? E incentivo no que eu posso. 

 

P/1 – Certo. 

 

R/1 – Compreende? Porque eu sou 100% a favor da natureza, compreende?

 

P/1 – Certo. Aí o senhor intervém com opiniões, é isso?  

 

R/1 – Sabem do que eu sou a favor. Agora por exemplo, deram uma queixa contra... que não devia plantar, mas tudo aí é gente que queria dinheiro.

 

P/1 – O senhor planta? O senhor planta?

 

R/1 – Planto, até batata. 

 

P/1 – Não?

 

R/1 – Planto sim. Olhe, (inaudível) carregado do café...

 

P/1 – Tá certo.

 

R/1 – Meu neto.

 

P/1 – Seu neto.

 

R/1 –Aquele café mais delicado, cheio de complicação. Tem que viajar, tem que estudar, tem que... é muito diferente de plantar uma... você pega aí uma madeira qualquer pra plantar. 

 

P/1 – Certo.

 

P/2 – O senhor lembra do canteiro de obras da Aracruz?

 

R/1 –Que o que?

 

P/2 – Na fábrica, do canteiro de obras da fábrica da Aracruz, você se lembra?

 

P/1 – Do início da construção, o senhor se lembra da fábrica? 

 

R/1 – Me lembro, perfeitamente. 

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente.

 

R/1 – Eu fui lá várias vezes, eu fui lá várias vezes. De dia andava lá e dava uma ajuda no que podia. Uma que eu fiz por exemplo, foi trazer da Europa um... não é líquido não, mas é um... uma espécie de nuvem, que a senhora tem que botar no território para poder subir, crescer determinadas árvores. 

 

P/? – É a bio-carregação? 

 

R/1 – E eu trouxe dentro de um Concorde, compreende?

 

P/2 – Como é que o senhor chegava lá na fábrica da Aracruz?

 

R/1 – Como?

 

P/2 – Como é que o senhor chegava lá?

 

R/1 –Ah, eu nunca vou sozinho, combino com alguém...

 

P/2 – Não, naquela época, no início. 

 

R/1 – Heim?

 

P/1 – No início.

 

P/2 – Quando a... Quando a Aracruz foi criada, como o senhor chegava lá?

 

R/1 – Eliezer. Que o Eliezer era mais ou menos...

 

P/2 – Mas como que era o acesso... é isso que você quer saber?

 

R/1 –Entende, e o Eliezer foi um dos criadores da...

 

P/2 – Mas como é que era o acesso à fábrica, você chegava o que, por helicóptero, carro, como é que é?

 

R/1 – O que?

 

P/2 – O senhor ia como? Como é que era o seu acesso?

 

R/1 – De automóvel.

 

P/2 – De automóvel?

 

R/1 – É. 

 

P/1 – Certo. E o senhor planta na região do norte do Espírito Santo?

 

P/? – Montanha.

 

R/1 – Como é?

 

P/1 – A região que o senhor planta é...

 

R/1 – É pinheiro, é, é. 

 

P/? – Pedra Azul. 

 

R/1 – Primeiro lugar é pra uva. 

 

P/1 – Sim.

 

R/1 – E o outro é para...

 

P/? – Café. 

 

R/1 – Uva mesmo. E ele trata também da zona de madeira de lei, compreende?

 

P/1 – Certo.

 

R/1 –Tem madeira de lei que nós podemos ter aqui e a América não tem, é difícil. Acho que eu já falei bastante, até demais.

 

P/1 – Pode continuar seu...

 

P/2 – Como era o...

 

R/1 – Olha, eu só digo uma coisa, eu conheço o Brasil todinho, de ponta a outra, com índio, sem indio, entende. Uma vez fiz uma viagem com três oficiais americanos que fugiram da Europa... Fugiram não, saíram do fim da guerra, vieram pra cá. Minha senhora e três... e quatro coronéis, eu fiz o Brasil todo com eles, entende? Fomos levar algumas malas cheias de remédios que um padre tinha conseguido em São Paulo das fábricas, mas era tão longe, acima do Acre, acima... lá na... que ninguém ia. E esses americanos se prontificaram e convidaram a mim e a minha senhora ir até lá dar (inaudível). 

 

P/2 – Tinha índios na Aracruz? 

 

R/1 – Tinha o que?

 

P/2 –Índios na Aracruz? Tinha índios na Aracruz? 

 

R/1 – Tinha o que?

 

P/1 – Índios, índio? 

 

R/1 – Cinto?

 

P/1 – Índios, índios.

 

R/1 –Índios?

 

P/1 – Isso.

 

R/1 – Não, na Aracruz mesmo não. Mas na fábrica lá perto de alguns índios, mas já são civilizados. 

 

P/2 – Mas o senhor se lembra, quando começou a Aracruz?

 

R/1 – Há como me lembro, eu ia lá muito.

 

P/2 – E via os índios? O senhor tem alguma história com os índios? 

 

R/1 – Eu conheço e gostava de ir lá ver o crescimento da fábrica.

 

P/2 – Isso, isso, fala.

 

P/1 – Pode contar.

 

P/2 – Pode contar.

 

R/1 – Andava com... principalmente o senhor Leopoldo que comprava muito... terras, compreende? Isso eu fazia.

 

P/1 – Certo, e quais são as lembranças mais marcantes do senhor no seu tempo lá na Aracruz?

 

R/1 –Como?

 

P/1 – Quais são as lembranças mais marcantes pro senhor nesse período do início da Aracruz, do seu envolvimento. 

 

R/1 – Como é que ela disse?

 

P/1 – Alguma coisa marcante. Alguma coisa que o senhor guarde de importante? 

 

R/1 – Guardo de importante do que?

 

P/1 – O que o senhor acha e considera importante da sua trajetória na Aracruz, algum fato.

 

R/1 – Já tiveram vários. 

 

P/1 – Conta um pouquinho, pode contar. 

 

R/1 – Não, foi mudando. Eu apenas... não sou um técnico, eu vou lá como colaborador e sou acionista e tenho interesse em tudo isso, mas não sou agarrado a empregado lá dentro não.

 

P/1 – Certo. 

 

R/1 – Eu vou pedir pra ser (risos)...

 

P/1 – Agora o senhor tem algum causo, alguma história interessante que o senhor considera, dessa convivência com a Aracruz? Com acionistas, com os outros acionistas ou...

 

R/1 –Se eu considero o que?

 

P/1 – O senhor considera interessante algum causo, algum fato marcante, alguma coisa engraçada... da sua convivência?  

 

R/1 – Eu acho que é uma coisa extremamente boa para o país, excelente. Toda América não está comprando do Brasil?  

 

P/2 – Porque que é importante? Porque? 

 

R/1 – Porque não tem. Agora a nossa mercadoria é melhor do que a deles, para o que eles querem, pra casa, essas coisas, e nós temos muito, entende? Mas eles tem a madeira mais dura e outras... estão cortando, fazendo. Mas nós temos que suprir todo esse pessoal porque nós estamos plantando ao mesmo tempo. Eu sou um dos plantadores, bota aí, planta pra...

 

P/1 – O senhor produz aquela madeira Lyptus? O senhor fornece, produz... móveis tipo Lyptus, aquele projeto Lyptus?

 

P/2 – Fornece para Lyptus? Fornece?

 

R/1 – O que?

 

P/1 – O senhor fornece madeira pra Lyptus, aquela fábrica de madeiras da Aracruz... de móveis da Aracruz? Fornece?

 

R/1 – Madeira para...?

 

P/1 – Lyptus, aquela fábrica de móveis da Aracruz.

 

R/1 – Ah sim. São eles mesmos lá que produzem.

 

P/1 – Sim, mas o senhor fornece madeira?

 

R/1 – Forneço. Se pega o meu tipo, se não pega outro, compreende?

 

P/1 – Entendo.

 

P/2 – O senhor se lembra da construção do porto de Aracruz? 

 

R/1 – Eu me lembro vagamente porque era longe, não era todo dia que ia lá, entende?

 

P/2 – Entendo.

 

R/1 – Eu me lembro quando começaram, o doutor Eliezer a lançar a companhia, entende, ninguém acreditava. Quer dizer, a companhia, a Vale do Rio Doce, ninguém acreditava. Eu, com mais cinco pessoas no prédio que tem ainda na avenida e cada um: “Quer quantas ações?” “Tanto, tanto.” Tinha um velhinho que chegava com um pacote de papel: “Pra quem é isso o velho?” “ Pro meu netinho.” Hoje quem… (inaudível) quem teve lá, é acionista, eu sou, mas fui um dos primeiros. 

 

P/1 – Certo. Com que freqüência o senhor ia lá na Aracruz?

 

R/1 –Com o que?

 

P/1 – Com que freqüência o senhor vai ou ia na Aracruz? 

 

R/1 – Quando me convidam ou quando eu quero visitar qualquer coisa, eu peço licença. Outra coisa, eu não tenho nada a ver com os negócios dela.

 

P/1 – O senhor foi apresentado ao senhor Erlim Lorence pelo Elezer, seu Eliezer, doutor Eliezer, não é isso?

 

R/1 – Não, eu representava eu mesmo, o doutor Eliezer (inaudível) ele. 

 

P/1 – Não, mas o senhor conheceu o seu Erlim pelo intermédio do doutor Eliezer. 

 

R/1 – O doutor Eliezer é um amigo de muitos anos. Me encontrei na Europa, estive com ele na Alemanha, na Suíça, entende?

 

P/1 – Entendo. 

 

R/1 – Foi ele o grande iniciador dessas coisas aí. 

 

P/1 – Certo.

 

R/1 –Entende? Que antigamente ninguém acreditava. É como a Vale do Rio Doce, ideia dele. Tanto que eu sou o sétimo acionista, que (inaudível) quantidade. Quantidade é assim, lá em baixo, mas sétima em ordem numérica. 

 

P/2 – Certo, o senhor ainda exporta madeira ainda?

 

R/1 – (risos) inaudível. 

 

P/? – Exporta peças de madeira?

 

R/1 – Olhe, é o melhor bem...

 

P/2 – Exporta peças de madeira?

 

R/1 – O Brasil tem condições de suprir madeira pra todo o mundo, a questão é só plantar e não destruir, compreende? Porque andou uma turma lá querendo destruir tudo porque queria dinheiro, entende? 

 

P/2 – Tem mais alguma pergunta Cida?

 

P/1 - (inaudível). 

 

P/2 – Certo, o seu Olivar, a gente já está encerrando a sua entrevista e a gente gostaria de saber se o senhor gostaria de dizer mais alguma coisa que a gente não perguntou pro senhor... 

 

P/1 – Sobre a Aracruz.

 

P/2 – Sobre a Aracruz, isso. 

 

R/1 – Gostaria, tem uma prova disso?

 

P/1 – Não, eu digo se o senhor gostaria de falar mais alguma coisa sobre a Aracruz que a gente não perguntou pro senhor? 

 

R/1 – Não, eu acho que eu já falei bastante. Eu acho que é uma companhia excepcional, muito útil ao país. Se ele não fizer isso, quem é que vai fazer? O caboclo que faz... não, tem que fazer em grande escala. E a prova é que está vendendo pra todo mundo. Todo mundo está vindo comprar. Eu fui uma vez a um país na... lá tem Noruega, Suécia, Dinamarca, e tem um outro... 

 

P/1 – Finlândia.  

 

R/1 – Cheguei lá, vim num hotel bonito e o senhor disse: “Sabe, essa madeira é toda brasileira.”

 

P/1 – Nossa.

 

R/1 – Toda veio do Espírito Santo. Ele fez tudo, tudo, tudo com madeira brasileira. 

 

P/1 – Ah que legal. 

 

R/1 – E quando nós fomos a Portugal, lá não tinha nada de madeira pra tirar, um pouquinho assim, no Brasil tem e é só plantar que nasce. 

 

P/1 – Com certeza. Então olha, o que o senhor achou de dar entrevista pro projeto Memória Aracruz? O que o senhor achou de dar essa entrevista para o projeto?

 

R/1 –Como?

 

P/1 – O  que que o senhor achou de dar essa entrevista pro Projeto Memória?

 

R/1 – Pros meus netos?

 

P/1 –Não. O que o senhor achou de ter dado essa entrevista hoje aqui? O que o senhor achou? 

 

R/1 – Achei muito bem, eu acho que faz muito bem porque tem que botar na cabeça do povo que o negócio é esse, não plantou, não sai e não tem, é ou não é?

 

P/1 – É.

 

P/2 – É. 

 

R/1 –Olhe, eu trabalho desde criança dona, desde criança, estou com 91 anos e trabalho, sabe disso, é ou não é?

 

P/? – 95. 

 

R/1 –Eles não conferem a idade porque...

 

P/? –Eu não trabalho. 

 

R/1 – Ele está me seguindo. Pronto.

 

P/1 – Esta certo.

 

R/1 – O que você queria mais?

 

P/1 – Está certo. Seu Olivar, muito obrigada pelo senhor...

 

R/1 –Foi um prazer.

 

P/1 –Foi um prazer. 

 

R/1 – Desculpe por ter dito muita bobagem. 

 

P/1 – Não, imagina, é só tirar o fone.



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