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História

Não peço, só agradeço a Deus

História de: Ana Lúcia Morais Monteiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2022

Sinopse

História da infância na comunidade do Machadinho. Vivencia de várias fases da sua vida e participação nas tradições daquela época, como por exemplo: festas religiosas! A contribuição com os seus pais na realização de atividades domésticas e a sua admiração pela sua mãe por lutar para o sustento dos seus filhos, fazendo colchões de capim, vendendo frutas no centro da cidade e trabalhando no garimpo, tirando dessas atividades a subsistência da família. Morte do pai. Remédios caseiros. Garimpo na prainha. O Machadinho hoje.

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História completa

P/1 - Por gentileza, seu nome completo, sua data de nascimento e onde a senhora nasceu?

 

R -  Ana Lucia Moraes Monteiro, 14/04/55, nasci em Paracatu, Minas Gerais.

 

P/1 -  E qual o nome dos seus pais?

 

R -  José Moraes Lima e minha mãe, Louise Teixeira de Melo.

 

P/1 -  Seus pais nasceram em Paracatu também?

 

R -  Também.

 

P/1 -  Os seus pais trabalhavam com o quê?

 

R -  Lavoura. No tempo dele, era na roça

 

P/1 - Na época que a senhora nasceu, em que região de Paracatu vocês estavam?

 

R -  Eu nasci, eu acho que na Fazenda Pereirinha.

 

P/2 -  Que é no município de Paracatu.

 

P/1 -  A senhora tem irmãos?

 

R -  Uma irmã e um irmão.

 

P/1 -  Quais os nomes deles?

 

R -  A minha irmã Maria Lúcia e o meu irmão, Antônio Lúcio.

 

P/1 -  A senhora passou sua infância na Fazenda Pereirinha?

 

R -  É que os meus pais trabalhavam lá. Um tempo depois, não foi muito, com os meus sete anos, a gente morava aqui perto depois da rodovia.

 

P/1 -  Seus pais trabalhavam com lavoura de quê?

 

R -  Era empregado na fazenda, tirava leite e cuidava do que tinha. Eu era pequenininha também, não sei…

 

P/1 -  Não tem nenhuma lembrança dessa época?

R -  Não, eu nasci lá, eu não tenho certeza, mas com os meus 4, 5 anos eu já tinha vindo, então não tenho lembrança.

 

P/1 -  Lembra de alguma coisa de quando chegou na cidade?

 

R -  Para te falar a verdade, eu não tenho lembrança, lembro porque depois eu voltei, porque era bem pertinho, voltamos lá. Mas lembrança do tempo que eu estava lá, não.

 

P/1 -  O que você fazia nessa época? Você tinha que ajudar nos afazeres de casa?

 

R -  Nos meus 7 anos, a gente ia para escola, eu estudava lá no Serafim, chegava em casa, almoçava, dava a vasilha para minha mãe, que era bem pouquinha e depois ia brincar.  Eu chegava em casa, varria debaixo de uma arvorezinha e dizia que era professora, repetia tudo que aprendi lá.

 

P/1 - Você gostava do que via lá na escola e ia brincar depois disso?

 

R -  Eu fazia isso do prezinho ao 1º ano. Porque estudava lá no Dom Serafim, aí chegava da escola, almoçava, lavava as vasilhas, se tinha alguma coisa para fazer lá dentro de casa, que era bem pequeno, e depois ia brincar. Eu tinha loucura, o que a professora fazia lá, eu dizia que tinha alunos também e conversava ali estudando.

 

P/1 - Você lembra como era a escola?

 

R -  Do primeiro não, do segundo ano já lembranças poucas, não tenho muitas. Quando eu passei para o segundo ano, já estudava no Tenista.

 

P/1 -  Era muito distante do lugar onde você morava? Como você ia para escola?

 

R -  No primeiro ano, quando eu estudava no Dom Serafim, para você ver a distância que era, era depois da BR-040 que eu morava

 

P/2 -  Praticamente cortava a cidade, né?

 

R - Cortava a cidade, até hoje eu paro assim, e fico admirada, ia com alguns coleguinhas, mas como que a gente podia ir daquela distância? E graças a Deus era um tempo bom, porque não tinha violência, mas era bem longe. Não sei se você sabe onde é Dom Serafim? Era para lá de onde eu morava.

 

P/1 -  Ia esse grupo de crianças a pé?

 

R -  A gente ia e voltava de pé.

 

P/1 -  Mas ia algum adulto com vocês?

 

R -  Não.

 

P/1 -  E as crianças, quando estava fazendo bagunça, dava briga, não acontecia umas coisas assim?

 

R -  No tempo que a gente morou lá, eu acho que a gente teve briguinha um dia, vindo da escola com alguns coleguinhas, e pronto, nunca, nunca. Era um tempo muito feliz

 

P/1 -  E na escola gostava de estudar?

 

R -  Sempre gostei

 

P/1 -  Ia bem na escola?

 

R -  Estudar, eu sempre gostei

 

P/1 - E das professoras, tem alguma que você lembre?

 

R -  Eu tinha a dona Anaum, aliás, é dona Ana Rosa, que era filha de Dona Anaum,  acho que aqui no Tenista tinha a Dona Fernanda Cacilda, não sei se foi no Tenista ou no Serafim, tem algumas… eu não estou lembrada. Ana Rosa eu lembro muito bem, tinha Dona Terezinha também .

 

P/1 - Nessa época seus pais não estavam mais lá na fazenda?

 

R -  Nessa época, a gente morava lá. Aí depois da BR lá em cima eu com os meus 9 anos, meu pai adoeceu, foi para Belo Horizonte, ficou dois anos. Aí já ficou só eu e minha mãe e minha irmã, porque o meu irmão nasceu depois que o meu pai voltou, depois de 2 anos.

 

P/1 - Seu pai foi trabalhar lá? 

 

R -  Quando ele voltou, a gente morou lá só mais um pouquinho. Aí comprou um lugarzinho perto, já encostado na BR, do lado, aqui perto do Colina. Só que era bem encostado na pista, casinha está lá até hoje, que outras pessoas compraram. E o meu pai já mexia com carroça, já não era aquela saúde, ele gostava de fazer dinheiro, chamava Catira, comprava um cavalo bem fraquinho, daqui a pouco cuidava dele e tornava vender. Depois desse tempo, com os meus 15 anos, eu já fui para Brasília trabalhar, fui para Anápolis, trabalhei também.

 

P/1 -   Nessa época que seu pai morou fora, sua mãe ficou fazendo o quê aqui na cidade, ela trabalhava?

 

R - Tirava ouro. Lá no lugar onde a gente morava, era uma chacarinha pequenininha, que tinha pé de caju, mãe levantava cedinho, pegava aqueles caju bonitinho e levava lá no hospital para vender.

 

P/1 -  Como é que era essa história do garimpo?

 

R -  Era tudo isso. Por exemplo, ela saía cedinho, pegava a fruta que tivesse, levava, geralmente o caju, vendia lá no hospital. E o dinheirinho que dava, a gente sobrevivia. Tirava ouro, naquela região de cima no Machadinho, que os pais deles moravam lá, na região do seu Liu, que os pais deles tinham uma fazendinha lá, ela ia naquele lugar, arrancava capim e as pessoas compravam para colocar no colchão, minha mãe arrancava, trazia esse capim para vender.

 

P/1 -  Tinha um sustento com isso?

 

R -  Graças a Deus, tinha pessoas às vezes, tinha um parente que ajudava, alguma coisa, igual no tempo de hoje, ia pessoas que levava alguma coisa para gente e era uma vida... Eu sempre falo assim: existe muita fome aí, eu sempre falo para minha irmã, a gente sempre foi pobrezinho, mas nunca passamos fome. A minha mãe era aquela mulher guerreira, trabalhadora e com isso foi uma infância maravilhosa…

 

P/2 -  Ela sempre lutava pelo sustento da família?

 

R - Mulher lutadora mesmo.

 

P/1 -  Como que era o Machadinho nessa época aí?

 

R -  Era os pais da minha mãe que eram donos daquilo ali.

 

P/1 -  Os pais da sua mãe eram quilombolas?

 

R -  Eu acho que quilombola já é a parte do meu pai.

 

P/1 -  Então conta primeiro da mãe depois a gente volta para o pai.

 

R -  Depois que eu fui crescendo, já estava na fase dos 10 anos, estava entendendo direito. Meus avós já não tinha mais, já era o meu tio que morava lá, que cuidava lá. Minha mãe com meu pai tinha um lugarzinho deles, seu ranchinho lá e plantava, era disso que sobrevivia

 

P/1 -  E antes dos seus avós já tinha gente da família lá?

 

R -  Meus avós, eu tenho impressão que já eram os donos dali,  eu nunca perguntei essa coisa direitinho, porque eu com os meus 10 anos, 11 anos, acho que a minha vó morreu e morava aqui na rua Olegário Maciel, mas só que ela já não estava lá, os filhos que ficaram no Machadinho.

 

P/1 - Esses avós que vocês está contando são os avós por parte de mãe?

 

R - De mãe.

 

P/1 -  E de pai?

 

R - Descendência do meu pai que são os Quilombolas.

 

P/1 - Onde estava a família do seu pai nessa história?

 

R - Meu avô, eu tive contato com ele, mas ele já moravam em outro lugar, em outra região. Não tive muito contato de pequena, 18 anos que meu avô ficou um tempo com a gente em casa, que ela estava bem mais velha, foi isso. No tempo do meu pai, o meu pai ia lá, mas eles moravam em uma fazenda, não sei que fazenda era. E o meu avô ia na casa de tia Neizinha, que era a fazenda lá perto da casa de Siliane. Você conheceu meu avô, não conheceu Siliane? 

 

P/2 - Sim!

 

P/1 - Ele que era quilombola? A família toda do seu pai era Quilombola. Você teve um pouco menos de contato com eles?

 

R - De criança, eu não tive tanto contato.

 

P/2 - Só depois que você cresceu?

 

R - Depois, com os meus 15 anos que eu fui ter mais contato com eles, porque era distante, a gente morava num lugar…

 

P/1 - Sua avó já tinha falecido nessa época?

 

R - Já! Ela eu não conheci. Ela morreu bem cedo, eu acho que o meu pai nem tinha se casado ainda. Ela, eu não conheci.

 

P/1 - E os seus pais, você sabe como eles se conheceram?

 

R - Não.

 

P/1 - Com 15, 16 você foi trabalhar. Você largou os estudos?

 

R - Eu só tirei meu diploma primário, com 11 anos já tinha saído da escola.

 

P/1 - Você saiu para trabalhar?

 

R - Não foi totalmente para trabalhar. Acontece hoje isso, mas hoje ainda, você vai estuda um tempo, e se seus pais… e para estudar ...você deixa para lá. Eu me arrependi depois, se eu tivesse estudado, talvez hoje… tá bom demais, mas podia ser outra coisa.

 

P/1 - Você não estava estudando, mas estava fazendo bastante coisa.

 

R - Depois que eu saí da escola, com meus 11 anos, eu já tinha saído da escola, já tinha terminado. Aí minha mãe continuava lá fazendo as coisinhas. Eu trabalhava em casa mesmo. Depois, com meus 15 anos, minha prima chamou “vamos para Brasília, tem uma pessoa querendo dar trabalho”. Aí eu fui, fiquei lá um tempo, acho que uns 2 anos, mas vindo visitar meus pais. Depois eu fui para Anápolis, trabalhei lá uns 3 anos.

 

P/1 - Nessa época você trabalhava em casa de família? Como era essa época?

 

R - Era novinha, eu sempre fui uma pessoa responsável. Igual estou te falando, chegava da escola, brincava, fazia alguma coisa que tinha para fazer, estudava. Sempre aquela vidinha boa, pacata. Antes da gente ir para Brasília, meu tio Joca, morava em uma fazenda e tinha as festas de São João. A gente saía uma turma de meninas, mocinhas de 15 anos, e ia lá para essa fazenda de pé. Você chegou a ir ali em cima, onde tem o Jockey? Pra lá, bem para lá, a gente ia de pé ali. Ia, tinha a festa e no outro dia você vinha embora, que era lá na casa do tio, sempre era isso ai, essa vida boa. Também tinha muita festa no Machadinho, o pessoal do Machadinho fazia muita festa, tinha as datas de festas e sempre a gente estava.

 

P/1 - Que festa do Machadinho você lembra?

 

R - Eles faziam Festa de Santa Cruz, tinha festa de… Eram pessoas devotas, que tinha tudo, num ano você tinha umas 3 festas, não estou lembrada mais.

 

P/1 - Mas era festa grande?

 

R - Aquela festa que reunia todo mundo, os vizinhos. Eles eram aquelas pessoas, que era uma região pequena, mas que tinha vários vizinhos perto. Tudo familiar, aí tinha essas festas. Tinha também as pessoas que moravam na cidade, os outros conhecidos, era maravilhoso.

 

P/2 - Eram festas religiosas?

 

R - Festas religiosas. Primeiro tinha suas ladainhas e depois eram os comes e bebes, e dançava a noite toda.

 

P/1 - De comes e bebes, o que tinha na época?

 

R - Delícia, pão de queijo. Todas as coisas, bolo de fubá, bolo de trigo, bolo de… todos os tipos de biscoito. Faziam jantares, quase tipo Festa de Reis. Porque de primeiro, as pessoas… era muita fartura. Eu não sei se você já foi em Festa de Reis? Porque é muita fartura. Muita comida, muita coisa. Esses pão de queijo, Paracatu tem o título do melhor pão de queijo e talvez naquela época o pão de queijo ainda era… porque você partia era queijo mesmo, aquela coisa, era muito bom.

 

P/1 - Quem montava isso era a comunidade?

 

R - Eles lá mesmo, as pessoas. Por exemplo, tinha a casa da dona Julia, também são parentes meus, a dona Maricota, tem vários outros lá perto, todo mundo fazia. Eu não posso te falar que era apenas um que se responsabilizava por tudo e era festa grande, muitas pessoas, maravilhoso.

 

P/1 - Nessa época você ia só para a festa?

 

R - A festa. Eu sempre falo assim, eu fui uma pessoa… desde os meus 11 anos eu saia para dançar, hoje em dia não, você tem um filho, uma filha de 11 anos, nem pode, vão, mas nem pode. Eu não, desde bem novinha dançava, mas só aproveitava o que era bom, não era…

 

P/1 - Era para dançar mesmo, para curtir?

 

R - Só para curtir. Achava bonito, achava com aquilo ali, todo mundo, família, amigos, conhecidos…

 

P/2 - Era uma infância saudável…

 

R - Saudável. Hoje os jovens, eu acredito que aproveitam muito, mas não é do ritmo da gente.

 

P/1 - Dançava o que?

 

R - Forró, aquela dancinha.

 

P/1 - Ia gente tocar?

 

R - Era ao vivo, sanfona, violão, era bom demais.

 

P/1 -  E essa festa ia até que horas?

 

R - Às vezes, ficava até o dia amanhecer.

 

P/1 - Você ficava até o dia amanhecer ou você ia embora cedo?

 

R - Como era casa de família, se eu tivesse ido com parente, primo, que tivesse vindo embora antes, a gente vinha também. Se não, você podia vir depois, quando o dia amanhecia. Até porque não era tão longe, podia vir até de pé.

 

P/1 - Aí quando não era a pé vocês vinham de quê?

 

R - De cavalo, carroça. Carro de boi não, porque não tinha. O meu tio lá bem pertinho, tinha carro de boi que a gente ia, era desse jeito.

 

P/1 - A folia já era aqui?

 

R - Não, a folia era em lugares mais distantes, pra lá não tinha folia.

 

P/1 - Explica isso para mim, por favor?

 

R - A folia já era com meus 20, 20 e tantos. Eu já fui na festa de Reis 2 vezes, na casa dos avós de Siliane, tinha Festa de Reis e também na casa dela já teve. Mas aí, quando a gente ia, era na casa da vó dela, tia Neizinha, que é a minha tia. Às vezes a gente saía a turma de cavalo ou de carro e ia para a Festa de Reis, que era bem mais distante, pra lá, para outro lugar, quando não era na casa da minha tia.

 

P/1 - Vocês saiam com o pessoal de galope?

 

R - De galope. A gente ia na serra de cavalo.

 

P/1 - E você participou também dessa época?

 

R - Fui em algumas festas. Festas de Reis eu fui muito pouco, mas fui em umas duas, era muita aglomeração de gente, aí você já não fica à vontade. Umas duas mais ou menos, fora as da casa de tia Neizinha e na casa de Delvi só fui uma vez.

 

P/1 - Eu sei que na folia de Reis o pessoal oferece a comida. Parava no lugar, pedia pouso e comia as comidas, eram boa as comidas?

 

R - A festa de Reis é coisa de mais, é muita coisa, hoje eu não sei, que dizer, é, porque toda vida festa de Reis é muita coisa, muita comida, muito doce, é tudo fartura mesmo. Come, vai aquele tanto de gente e depois você ainda vê as pessoas que vão, que estão lá vendo, as vezes a maioria da comida é jogada fora, porque é muita fartura.

 

P/1 - A pessoa que recebe, pelo o que o pessoal estava contando para a gente, falando que o pessoal sai pelos lugares que eles vão pedir pouso, e o pessoal que está lá vai montar a festa, vai fazer a comida. Às vezes o pessoal que está lá não tem noção da quantidade de gente que vem, e aí faz uma quantidade grandona de comida, como você está contando.

 

R - Porque antes da própria festa, existe os pousos, mas mesmo assim, acredito que é milagre mesmo, porque eu nunca ouvi dizer que uma dessas festas que haja fartura.

 

P/2 - A gente vê relato de pessoas que além de comer, ainda levam para casa.

 

R - Nossas festas, toda vida foi assim, você vai e quando você vai embora, todas as pessoas que estão lá vão levar para casa. Na festa que não é de Reis, que é comida também, os biscoitos todo mundo leva para casa, e é muita coisa.

 

P/1 - Ainda saí de lá com a marmitinha?

 

R - Pronta para levar, ainda tem isso.

 

P/1 - Agora parou um pouquinho por causa da COVID?

 

R - Esse ano não teve. Que agora é bem mais próximo, né Siliane?

 

P/2 - Sim. Talvez no próximo ano vamos ter.

 

P/1 - E depois dessa época que você foi trabalhar fora?

 

R - Depois eu vim embora. Já vim para Paracatu, aí eu fiquei um tempo com os meu país lá, depois logo casei, aí mudei para a roça.

 

P/1 - Seus pais continuaram na cidade nessa época?

 

R - É! Eu casei, meu pai morreu em 92, eu casei em 83.

 

P/1 - Quase uns 10 anos.

 

R - Há quase 10 anos. Eu casei, fui para roça, ficamos lá, quando o meu filho ia fazer 7 anos, a gente veio morar aqui, meu marido construiu uns 3 cômodos aqui,  a gente veio.

 

P/1 - Que essa casa onde você está agora?

 

R - Que é essa casa que era para não pagar aluguel. Aí eu vim, fiquei com os meus meninos aqui, com o meu menino. Chilinho ficou ainda lá um tempo. Aí depois, nas férias eu ia, tinha feriado, coisa assim, eu ia. Depois disso, eu fiquei aqui, meu pai já tinha falecido, morreu em 92, foi quando Fabiola nasceu, nós já ficamos aqui. Depois nós ficamos um tempo aqui, quando os meus meninos estavam… Thiago já estava no 2º ano, a gente mudou para uma roça que tinha escola. E aí nesse intervalo, a gente foi, os meninos estudaram lá na roça, nessa fazenda lá perto, estudou lá, esqueci o nome. 

 

P/1 - Nesse momento que você casou, foi para roça com o seu marido, você ainda não tinha filhos?

 

R - Quando meu filho estava com 7 anos, que tinha que vim para estudar, que eu mudei para cá.

 

P/1 - Mas nessa época que você ficou lá na roça, você e o marido, vocês trabalhavam com o quê?

 

R - Ele era empregado, tinha patrão. Meu marido fazia tudo, era lavoura, trator, tudo que você pensava que precisava fazer ele faz. Se era lavoura, lavoura, se era trator, trator. O que tinha na fazenda era ele que cuidava, do trator ao gado, tudo.

 

P/1 - E você nessa história?

 

R - Eu era privilegiada, quando eu casei, eu vou falar para você, que eu tinha que capinar, não. Eu ficava em casa, cuidava dos meus filhos, tinha pessoas trabalhando. E cuidava da casa, para fazer comida se tinha pessoas trabalhando, era responsável por isso aí. Falar que eu ia para a roça capinar, isso aí não. Ele trabalhava e eu era responsável por dentro de casa, fazia o que precisava fazer dentro de casa. Por exemplo, se tirasse um leite, precisasse fazer um queijo, eu fazia, é isso. Coisa da casa, eu não tinha que trabalhar lá para ganhar o meu dinheiro, não era isso.

 

P/2 - Não era um trabalho bruto.

 

R - Não! O trabalho era dele.

 

P/1 - O marido que tinha mais esse trabalho.

 

R - Se tinha pessoas que estavam trabalhando, sempre tinha, a comida, cuidar da casa, isso aí.

 

P/1 - Mas a casa era de vocês?

 

R - Não, era do patrão.

 

P/1 - Por isso até que vocês queriam sair de lá, porque aquele lugar não era de vocês.

 

R - Não, veio porque lá não tinha escola e o meu filho precisava de escola. Aí foi que ele trabalhando lá já construiu aqui para a gente uns 3 cômodos primeiro e eu fiquei aqui para o meu menino ir para a escola.

 

P/1 - Ele usou o dinheiro do trabalho dele de lá para ir montando aos poucos a casinha aqui.

 

R - Aquele pensamento, não precisar de pagar aluguel.

 

P/1 - Bom, entendi, muito bom. Vocês fizeram com calma, mas foram fazendo as coisas.

 

R - Aos pouquinhos, depois… na medida do possível, pouquinho.

 

P/1 - Mas uma época ele continuou lá trabalhando.

 

R - Lá trabalhando e depois, ele saiu desse, acho que nós ficamos lá 11 anos. Aí também, porque ele sempre gostou, já empregou em outro lugar, e nesse lugar que ele já foi trabalhar, já era que tinha uma escola perto, aí eu já fui de mudada e a casa ficou aqui. Eu já fui para lá e os meninos já foram estudar na escola rural.

 

P/1 - E aí a casa ficou aqui parada um tempo, ficou sem ninguém morar na casa?

 

R - Aí depois um menino alugou. Esse tempo todo que nós ficamos lá, ficou aqui alugado.

 

P/1 - Bom, porque como aqui está alugado tinha a renda da casa.

 

R - É! Bem pequenininha.

 

P/1 - Vocês voltaram para a roça e você continuou cuidando da casa?

 

R - A mesma coisa.

 

P/1 - Ficou quanto tempo lá, nessa segunda ida para a roça?

 

R - Nessa segunda ida, já foi outro tanto. Fomos para essa ali que é do lado de Contagem, lá acho que ficamos 5 anos. Depois de lá, o patrão vendeu essa lá e já comprou outra perto da lagoa, nós ficamos de novo, acho que mais 5 ou 6 anos. Aí já foi para outra escola.

 

P/1 - Mas os meninos conseguiram estudar tudo?

 

R - Nós mudamos de lá, já transferiu, já passou para cá, escola da lagoa. Quando os meninos saíram de lá, já saíram na 5º série. Eu já vim embora para cá com eles. Ele continuou, foi para outra fazenda do mesmo patrão, ficou mais uma ano. E eu fiquei aqui com os meninos, porque já estudavam aqui.

 

P/1 - Nessa casa? Daí nunca mais saiu daqui?

 

R - Não. Eu já falei que não vou mais para a roça, porque era um vuco vuco, vai pra lá, vem para cá, puxado de mais. Porque quando você mora no lugar que você é empregado, por exemplo, maravilhoso, não tenho que falar de nada, muito bom, aquela fartura de tudo. Mas quando você cuida de coisa dos outros, por exemplo, você planta uma árvore, você quer ver o fruto dela e quando está na época dela dá o fruto, você já muda para outro lugar. Então eu falei assim: a mesma coisa, é melhor você comer um pouquinho mais diferente no seu, do que muito bom dos outros, entendeu? É melhor você cuidar do seu, do que você cuidar…

 

P/1 - Pode ser uma coisa incrível, mas é do outro.

 

R - É lógico que você não está trabalhando a toa, mesmo assim, é igual eu estou te falando, você planta uma árvore você quer ver o fruto dela, talvez quando ela está perto de dar o fruto, você já não vê, você vai mudar para outro lugar, então é melhor você cuidar do seu.

 

P/1 - Qual a diferença dessa vida de roça e de cidade pra você?

 

R -  Eu amo a roça, é bom demais, é paz, é tudo de bom, não vou falar para morar, para morar não. Para morar eu não quero, porque na roça, principalmente se for um lugar longe do outro, eu tenho muito medo, medo de chuva. Hoje em dia, até nas próprias roças está violento, mas podendo ir lá, o que você me chamar para fazer na roça, eu sei também.

 

P/1 - E que hoje você prefere ir só para passear?

 

R - Até porque para morar… eu prefiro aqui agora.

 

P/1 - Acostumou com essa vida da cidade?

 

R - É bom, mas a gente vive lá e cá, tem parente que mora, você sempre está indo. Mas eu prefiro ficar aqui, até porque hoje, eu já tenho coisa na comunidade.

 

P/1 - Você contou que se envolveu com a comunidade. Me conta esse pedaço da história?

 

R - Toda vida eu participei de igreja, mas eu passei um tempão sem isso. Depois que eu mudei para cá a primeira vez, uma amiga minha me chamou para fazer experiência de oração, eu fui e a partir daí, eu não parei. Depois que eu fiz uma experiência de oração, dessa época para cá, todo natal, eu participava da novena de natal, passo nas casas. Logo depois da experiência, eu fiquei um pouquinho aqui, depois eu fui para a roça. Aí na roça onde eu fui, também fazia a novena de natal, rezava o terço uma vez na semana nas casas perto. Depois que eu vim para cá, já fiquei definitivo aqui, aí eu participava um pouco nas comunidades, aí me chamaram para fazer parte da liturgia. Aí hoje eu faço parte da liturgia no São Brás e São Camilo. Antes da pandemia a gente tinha toda quinta-feira, 2h a gente ia lá para frente da igreja São Brás, fazia adoração ao Santíssimo. Toda primeira segunda do mês a gente rezava as Marias, algumas mulheres, que quisessem participar. Depois agora com a pandemia a gente parou, mas eu continuo ainda participando das missas.

 

P/1 - E como é a comunidade aqui? Tem bastante gente, as pessoas continuam frequentando?

 

R - Na pandemia parou, nas comunidades pequenas, só teve na central mesmo, na Nossa Senhora Aparecida, com distanciamento, algumas poucas pessoas. Teve época, no ano passado mesmo não teve durante o ano todo, acho que nem teve. Hoje que amenizou está voltando. Agora nesses últimos anos que eu estou participando mais, sempre era assim, missa, agora não.

 

P/2 - Agora faz parte da equipe litúrgica.

 

R - Já faço parte da equipe litúrgica, na comunidade São Brás, no domingo, e na São Camilo é na quinta-feira, que é hoje.

 

P/1 - Então já está envolvida e tem a responsabilidade do trabalho comunitário.

 

R - Eu, por exemplo, a liturgia  que já é decidido mesmo, decisiva. No São Brás eu faço no primeiro domingo do mês e na São Camilo e na terceira quinta, que é a minha parte da liturgia, isso aí já é responsabilidade mesmo.

 

P/1 - Você acha que as pessoas ainda têm essa relação com a igreja, era como no passado?

 

R - Eu acho que as pessoas têm muito entrosamento. Eu participo mais esses dias, às vezes eu vou numa missa quando tem em lugar diferente, mas hoje a gente tem muito envolvimento, jovens, igual Siliane mesmo. Tem a parte catequista, é muita coisa que tem, muita coisa, acho que não tem um dia que fica sem ter participação na igreja, principalmente na Nossa Senhora Aparecida, né Siliane?

 

P/2 - Mas empenhados na parte religiosa antigamente ou hoje? 

 

R - É hoje, eu acho assim, porque o pouco daquele tempo que você participava, talvez eu não reparasse, mas hoje eu acho assim que as pessoas estão muito, até porque é igual eles aqui, é responsável por isso aqui, você tem que estar lá, tem que chegar antes. Padre Rodrigo fala assim: olha gente, que está na liturgia tem que chegar pelo menos uma meia hora antes, para você não fazer de qualquer maneira, prestar atenção naquilo que você vai fazer. Porque tudo que você vai fazer, se você sintoniza sai muito mais bem feito, não é verdade?

 

P/1 - Como o pessoal mais antigo lidava com a religião?

 

R - Não acho não, até porque no meu tempo de criança, que eu lembro, a única igreja que tinha, que eu participava mesmo, era a Matriz de Santo Antônio.

 

P/1 - E para ir na missa tinha que ir até a Matriz?

 

R - Ir até a Matriz. Para fazer catequese, 1ª comunhão, era lá na matriz, eu fiz minha 1ª comunhão foi lá. Ai esse tempo passou, já não ia.

 

P/1 - Mas os pais, os tios, os avós, esse povo todo que estava lá próximo de vocês, eles frequentavam?

 

R - Essa parte já não era assim não. Devido a isso, era muito longe. Pra católica não ia.

 

P/2 - Não tinha tantas atividades naquela época.

 

R - Não tinha tantas atividades. Igual hoje fala, já não foi no meu tempo, mas que o padre fazia a missa virado de costas para a comunidade. Hoje existe muito mais participação das crianças, encontro de jovens. Sei que tem vários encontros, se envolvem.

 

P/1 - As pessoas antigamente eram religiosas, mas a igreja não era perto e elas tinham responsabilidade com outro monte de coisas. E agora na cidade tem igreja em todo lugar as pessoas acabam se envolvendo um pouquinho mais. Como era a época do garimpo na prainha?

 

R - Eu lavei roupa na prainha. Eu lavava roupa de umas 8 pessoas. O que é a importância da roupa que você lavava na praia? A gente estendia a roupa limpinha. Hoje você tem a máquina, tem o tanque, mas não é a mesma coisa. A gente esfregava a roupa, aí na hora que você esfregava ela, deixava quarar, tinha o prazer de ver aquela roupa limpinha, mas também você colocava na água, e simplesmente era um enxaguada só, e pronto, já ia embora para casa. A máquina você tem aquele processo, vai e vai, essa é a vantagem da prainha.

 

P/1 - Nessa época que você lavava roupa na prainha você tinha quantos anos?

 

R - De 18 até 22, 23 anos, eu lavei roupa na prainha. Outra coisa, meu pai era uma pessoa muito doente. Eu fiquei em Anápolis até uns 17 anos, aí que eu vim, a gente morava ali, que era dos meninos lá, cuidava dos meninos, e ele tinha aqui, aí o meu pai era muito doente, eu era a mais velha, e eu tinha um pai maravilhoso, tinha aquele cuidado especial, aí eu saia, ele vinha para cá, que ele tinha comprado aqui, ele vinha para fazer alguma coisa aqui, às vezes pegava a enxada e eu vinha atrás dele aqui, ele chegava aqui eu ajudava ele, ele tava capinando aqui, eu capinava, era desse tipo. Onde ele ia, eu sempre estava lá preocupada, para ele não vir sozinho, eu vinha junto com ele.

 

P/1 - Que doença seu pai tinha?

 

R - Sofrendo do pulmão. De repente, deu tuberculose e ficou 2 anos em Belo Horizonte sem a gente ver ele, apenas uma pessoa da família foi lá ver ele, tio Antônio, que é avô de Siliane, foi em Belo Horizonte para visitar ele. Aí ele veio, mas ficou aquela pessoa que qualquer exercício que ele fizesse, ficava cansado. E era aquela pessoa, como trabalhou a vida toda, não tinha paciência, esse povo de primeira era assim, aquele povo que não tinha preguiça mesmo. Aí se ele fizesse algum exercício, depois disso ele mexia com a carroça, pegava uma lenha, vendia para a gente mesmo, e era assim, não podia ficar fazendo exercício…

 

P/2 - Porque ele ficou com sequelas por causa do problema.

 

R - Ficou com sequelas.

 

P/1 - Mas mesmo com sequelas continuou trabalhando?

 

R - Trabalhando, não aguentava. Eu ficava em cima, com medo…

 

P/1 - Dele se esforçar demais…

 

R - Quando saía para algum lugar, de passar mal.

 

P/1 - Mas ele ainda durou muitos anos?

 

R - Dourou. Meu pai morreu em 92.

 

P/1 - E essa época que ele foi para Belo Horizonte foi o que?

 

R - Na época, eu estava com 9 anos.

 

P/1 - Foi uma época mais antiga.

 

R - Teve sequela, passava mal, qualquer coisa que fizesse um esforço, se enfezasse, era muito problemático.

 

P/1 - Aí ele faleceu e ficou sua mãe sozinha em casa na época?

 

R - Eles tinham a casa deles aqui, aí eu já vim da roça, minha mãe ficou morando aqui comigo. Depois, eu tornei a mudar para outra roça, ela foi morar com a minha outra irmã.

 

P/1 - Vocês foram cuidando dela?

 

R - Cuidando. Minha mãe morreu com 91 anos, ela só parou na fase dos 90. O tempo todo ela saía, tinha um sobrinho ali que estava sentindo alguma coisa, ela ia levar uma coisa para ele, levava um remédio para o outro, foi assim, a vida toda, só parou mesmo com 90, que ela não estava mais aguentando, já sentiu mesmo.

 

P/1 - Ela levava remédio de farmácia ou remédio que ela fazia? 

 

R - Caseiro. Assim, igual, eu tive um primo que morava na outra rua, ele teve derrame. Ela pegava esses remédios caseiros que ela sabia e levava. Tinha outra pessoa que estava doente ali, outro parente, ela ia e levava. Ela era assim, ela ficou o tempo todo trabalhando, fazendo as coisas, em casa, às vezes ela falava: vou lavar as vasilhas. “Não mãe, não precisa”. Depois eu falava: se a senhora quiser lavar para não ficar parada. Ela não parava, o tempo todo.

 

P/1 - E esses remédios que você está contando era ela que fazia?

 

R - É! Sabia que o remédio era bom, fazia o chá e levava, ia visitar, ficava um tempo fazendo companhia, desse jeito.

 

P/1 - E aprendeu essa coisa de fazer os remédios com quem?

 

R - A maioria, inclusive eu mesmo sou assim, sou muito de remédio caseiro, se eu tiver sentindo uma dor eu prefiro tomar, se eu sei que esse remédio é bom para dor, eu prefiro ele do que tomar dipirona, tomar uma paracetamol. Então parece que a gente tem aquela descendência. Tem vários remédios que você faz, que serve para várias coisas.

 

P/2 - Que não precisa comprar na farmácia.

 

R - Meu filho, teve uma época que ele teve um acidente de moto, ele rachou a rótula do joelho, que eu fazia? Ficou uns dias, fez cirurgia aí veio para casa, todos os dias pegava folha de algodão, mastruz, folha santa, eu batia esses remédios, todos os dias eu dava para ele meio copo, depois que eu coava, eu pegava…

 

P/1 - Aquele líquido que sobrava.

 

R - As coisas da folha, aí colocava um pouco de sal, vinagre, e colocava aquele cataplasma em cima do joelho, em cima da cirurgia. Quando teve o tempo dele fazer revisão, os médicos fizeram revisão, depois de 4 meses, ele foi, o médico ficou admirado, porque não teve uma secreção e com 4 meses o médico foi tornar rever, o médico mandou ele dobrar o joelho, ele ficou admirado, como que ele não teve nada.

 

P/1 - Tinha cicatrizado o lugar e estava bem melhor.

 

R - Não deu secreção nenhuma, não teve problema nenhum, não teve inflamação. Então, eu acredito muito nesses remédios, a gente é descendente. 

 

P/2 - Vai passando de pai para filho.

 

P/1 - Sua mãe fazia isso, provavelmente seus avós também faziam isso, aí vai passando esse conhecimento. Igual a senhora falou, prefere tomar o chá…

 

R - Eu prefiro mesmo. Já ouviu aquela palavra na bíblia, que está lá em Ezequiel, fala assim: que Deus deu a árvore, os frutos para comer e as folhas para remédio, acredita nisso?

 

P/1 - Isso tem uma relação com a sua cultura, essa cultura dos antepassados, da mãe, da vó, da bisavó, a gente nem sabe de onde isso veio né?

 

R - Nem sabe de onde veio.

 

P/1 - Foi passando, passando e funciona até hoje.

 

R - E no seu jardinzinho você tem alguns remédios que você ainda usa, chazinho, alguma coisa assim?

 

R - Tenho. Eu sempre tenho o poejo, tenho hortelã, tem vários tipos de hortelã, esse que é nascente, a traçagem, essas coisas são remédios caseiros, mastruz. Eu sou muito de ouvir rádio, se tem uma coisa que eu não gosto de ficar é sem rádio. Então tem esses programas de rádio, agora você nem tem, mas tem um programa de rádio que fala de remédio, coisas assim, eu sempre estou ouvindo. Eu já ouvi eles dizerem que quem tem problema de bronquite se tomar todo dia um sumuzinho de mastruz com mel, uma colherzinha, você vai curar. Então, tem vários remédios.

 

P/2 - É uma coisa simples que traz resultado.

 

R - Simples, natural. Por exemplo, o químico vai te fazer bem para uma coisa, mas prejudica a outra, e esse não.

 

P/1 - Tem esse conhecimento do passado, tem o rádio que te ensina umas coisas novas.

 

R - Eu gosto dessas coisas, Globo Repórter, eu gosto de assistir todos, sempre tem alguma coisa. Aquela parte da comida eu sempre gosto de ouvir, tô sempre com um caderninho para anotar.

 

P/1 - O povo hoje ainda se interessa, tenta buscar esse conhecimento? 

 

R - Muitos se interessam, tem muitos. Outros já nem se quer gosta de falar de remédios caseiros. Tem pessoas da família que não acreditam mesmo e quando não acredita, não adianta.

 

P/1 - Por que você acha que as pessoas não quer falar?

 

R - Porque tem gente que não gosta, não acredita. Acredita mesmo só na farmácia.

 

P/1 - Como era a prainha antes e como é agora?

 

R - Já tem muito tempo e eu nem voltei mais nessa prainha. Sei que agora quando chove dá água lá, mas ninguém nem pode usar, porque acho que agora tem até coisa de esgoto que jogam lá, não tenho certeza, mas tenho impressão que é, não posso falar que já vi, mas acho que sim.

 

P/1 - Nem daria para fazer nada lá.

 

R - Agora não, mas essa prainha ficava cheia de mulheres. Era mulheres, era jovem, todo mundo.

 

P/1 - Nessa época você falou que também fez um pouco de garimpo…

 

R - De tirar o ouro na bateia, porque minha mãe fazia, tirava, com os meus 10 anos. Mas aí eu tirava, mas era bem pouquinho, tem aquele negócio, tudo que o seu pai faz você quer fazer, e aí era isso.

 

P/1 - E a mãe faz isso também? Ela tirava na bateia?

 

R - A minha mãe na bateia.

 

P/1 - E achava ouro?

 

R - Tinha vez que ela falava assim, porque ouro é grama que se fala. Às vezes tirava uma grama, só que naquela época, uma grama, como tudo também dava para alguma coisa. Algum dia ela ia e tirava.

 

P/1 - Com esse dinheirinho do ouro também ajudava?

 

R - Ajudava! Ela sempre falava assim, não tiro nada de ouro.

 

P/1 - Aí todas essas gramas que achava vendia tudo.

 

R - Vendia. Depois que terminava lá, já vinha e já vendia

 

P/1 - Quando não podia mais o que fazia?

 

R - Era criança ainda, ela já largou, nem mexia mais.

 

P/1 - Quando proibiram ela já não estava mais…

 

R - Não, porque já tinha muito tempo. Até porque já tinha tempo. Na época que era ouro aqui, minha mãe já não mexia mais. Ela já estava bem mais coisa, aí não mexia mais.

 

P/1 - Como o Machadinho era no passado e como está agora?

 

R - Já tem muito tempo que não vou lá.

 

P/1 - Mas o que você lembra?

 

R - Era um lugar que tinha casa, eles mexiam nas plantações. Meu tio tinha um gadinho e só, era isso. Isso já foi o…e não voltei mais. Depois que eu casei não voltei mais lá.

 

P/1 - Mas o que te contaram hoje do Machadinho?

 

R - Não existe mais.

 

P/1 - Não existe mais nada?

 

R - Acredito que não, agora esse trecho ali é água. Tem lugar que é água e outros … não existe mais. Não existe mais nem estrada.

 

P/1 - Essas fazendas, esses lugares que era dos seus tios tá tudo alagado hoje?

 

R - Onde eles moraram, não existe mais. Por último esse aqui de cima, que não tem mais.

 

P/1 - E onde foi parar o povo do Machadinho?

 

R - Os que estavam lá, acho que compraram outros lugares, do lado dalí.

 

P/1 - Mas também Paracatu?

 

R - Bem perto. Parentes meus moram ali do lado da Contagem.

 

P/1 - Mas eles ainda moram próximos? Mas a comunidade não está mais junta?

 

R - Não. Eu não sei se todos que moravam lá se moram assim mais ou menos, porque eu fui na casa só de uma. Aí os outros acreditam que devem morar, mas não é tão próximo como era antes.

 

P/2 - Não existe mais comunidade. Ela existe, mas espalhada, as pessoas se dispersaram.

 

P/1 - E daquela época, dos costumes, o que você acha que ficou e o que você acha que foi embora?

 

R - Dos costumes? Por exemplo, não existem mais festas. Até porque já morreram quase todos, que faziam as festas mesmo já morreram. Tem uma só, eu chamo ela de Tuta, que era mulher do meu tio, que eles ainda moram lá, de vez em quando eles fazem, acho que alguma festa, mas não tem mais essas Festas de Reis. E eu também nunca fui lá, depois das festas.

 

P/1 - Também dispersou isso, a cultura também e muita gente saiu de lá e muita gente faleceu?

 

R - Aqueles mais antigos já faleceram todos.

 

P/1 - Dona Lucinha, a senhora teve algum sonho na vida, algum desejo?

 

R - Tinha uma época, meu pai doente, era difícil, eu falava: eu podia ganhar na loteria. Você nunca deve querer isso, e sabe porquê? Eu prestava atenção. Todas as vezes que eu desejava ganhar na loteria, parece que o problema aumentava mais. E aí hoje, eu tenho uma consciência, que o que você tem, você nunca deve falar… você tem direito de sonhar, lógico. Mas não assim, eu sou pobre queria ganhar isso para ficar rico, porque riqueza talvez não traz felicidade para as pessoas. Você precisa ser agradecido. Hoje eu agradeço e sinto, eu não sou aquela pessoa, falar aqui em casa, eu quero esse sofá, eu quero ter isso aqui, não! Eu não sou de pedir, eu quero isso. Eles vem, quando eu vejo já chegou com aquilo para mim, mas não que eu desejo. Eu sou uma pessoa assim, eu agradeço. Eu agradeço a Deus por tudo, eu já passei tantas coisas, a gente passou muitas coisas. Igual eu falei para você, pobre, mas não passei fome. Não sou aquela pessoa de desejar, eu queria ter isso, eu queria que minha casa fosse, não, ao contrário, eu agradeço a Deus, eu falo: meu Deus, minha casa é um ninho, mas é onde eu moro. Ponho minha cabeça no travesseiro tranquila da vida, vejo meus filhos, são uns meninos muito coisa, sabe? Acho eles uns meninos obedientes, trabalham. Eu falo para Deus, eu não posso pedir nada Senhor, tenho só que agradecer e fazer para os outros aquilo que você não faça por mim. Conviver em comunidade, você vai conhecendo a palavra de Deus, você não tem direito, a vida de todo mundo, porque Deus deu para a gente tudo, agora nós temos que saber como vamos levar ela. Você é uma pessoa que estuda, o seu estudo você vai levar para os outros, você vai expandir para os outros, fazer o bem para os outros. Siliane é aquela pessoa, eu admiro ela do jeito dela, dela ser pessoa, igual, se tem uma deficiência. Talvez aquela que tenha perfeito não faça e não é o que ela é. A gente tem direito de sonhar, mas se você agradecer muito mais, Deus te dá muito mais.

 

P/1 - O que a senhora achou de contar sua história para o Museu da Pessoa?

 

R - Eu achei bom. Porque às vezes na vida, você não fala tudo. Às vezes, você não existe mais, o seu filho, o seu neto, vai ver, vai saber. Talvez eu não tenha nem esse tempo de explicar para os meus filhos o que eu já fiz, tanta coisa que eu já fiz. Mas vai ser muito gratificante.

 

P/1 - O Museu da Pessoa, a Siliane, eu, a gente agradece muito que a senhora tenha aceitado contar a sua história de vida, a gente gostou muito. Muito obrigada!

 

P/2 - Perfeito!

 

R - Eu que agradeço.

 

 

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