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"Não nasci sabendo fazer nada, tenho que aprender"

História de: Francisco Cruz Loyola
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

O entrevistado Francisco Cruz Loyola passou a infância em Sobral cercado de tradições e costumes locais, relembra que o grande passatempo dos jovens eram as festas da cidade. Conta sobre a migração para o Rio de Janeiro com apenas 14 anos e como encontrou seu primeiro emprego em um restaurante. Transitou entre diferentes funções em restaurantes e bares, mas exerceu a profissão de garçom a maior parte do tempo e hoje narra a vasta experiência que adquiriu ao longo dos anos.

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História completa

O meu nome é Francisco Cruz Loyola, nasci em 1º de setembro de 1948, em Sobral, no Ceará. Meu pai tinha fazenda, nós tínhamos sítio, fazenda, morávamos em Sobral e íamos para a fazenda fazer os trabalhos de agricultura.

Nossa Fazenda chamava-se Caiçara, e outra, distante, chamava-se Rasteira, o nome das Fazendas. Essa Caiçara é a que a gente mais cultivava. Tinha o gado, plantações, usina, aquele negócio todo. Inclusive, quando dava uma seca, aquilo se deteriorava muito, porque lá tinha muita seca de vez em quando. Plantava milho, feijão, algodão. Colhia muita Oiticica, na época era uma das fontes de renda que a gente tinha. Milho, algodão, feijão, arroz, plantava tudo.

A gente tinha uma moça que ensinava a gente dentro de casa, pra começar, porque eram poucas escolas que tinha, então tinha uma moça que ia ensinando a gente, ia alfabetizando a gente dentro de casa. Depois, dali é que a gente ia saindo para uma escola. E outra... Tanto é que a gente não chegou a fazer curso superior nenhum, porque tinha que dividir entre uma coisa e outra, e naquela época a gente achava que se alfabetizando já estava bom, porque eram poucos que conseguiam se alfabetizar, a maioria não sabia nada, realmente, nem escrever o nome. E a gente, devido à época, se alfabetizando já achava que estava bom. O que falta pra gente, hoje, o que vem acarretar problemas na vida da gente hoje, né.

Festa da roça a gente ia muito. Inclusive na fazenda de casa tinha um senhor que se chamava senhor Raimundo, que fazia o cabelo, o barbeiro, que cortava o cabelo da gente. Então a minha mãe, preocupada, chegava o final de semana ela levava ele lá pra casa, pra ele nos levar pra festa. Ele ficava na festa com a gente até a hora que a íamos... A gente com 13, 14 anos, mas já vinha da festa quase de manhã, dançava a noite todinha na roça, e ele levava e trazia a gente.

A gente ia pra festa, começava a dançar ali, começava de olho na menina, aquele negócio todo, aí tirava pra dançar, e ali começava. Às vezes a gente arrumava três, quatro paqueras, porque os pais chegavam com a menina, a gente começava a namorar e tal, aí a gente ia levar ela em casa, voltava pra festa, chegava, arrumava outra, estava na hora de ir embora, voltava com a outra. Era muito engraçado, muito gozado, realmente. A infância da gente era essa, mas valia, era muito válido, pra gente era a única coisa que tinha.

Lá em casa era uma família muito grande, e quando a minha mãe casou a segunda vez − eu era muito garotinho −, foi um casamento contra a família toda. Eu não, eu sempre... Por incrível que pareça eu queria ver se harmonizava alguma coisa, porque uma vez que ela queria casar, paciência. E aquele negócio de herança, negócio de fazendas, os outros filhos não queriam aceitar.

Inclusive foi um casamento praticamente escondido que minha mãe fez. Eles foram pra uma Igreja lá no Trapiá, arrumaram um juiz, casaram lá. Quando vieram os dois, ninguém sabia de nada, aí começou, teve um infernozinho na vida da gente. Mas não é que o cara fosse má pessoa, absolutamente, ele não era má pessoa, o Geraldo Leite. Agora, é aquele negócio um pouco ganancioso, entendeu? Ali começou a desmantelar a vida da gente bastante, porque os filhos mais velhos não aceitavam e queriam a fazenda e queriam não sei o que. O que minha mãe fez? Deu uma fazenda pros filhos e ficou com a outra. Mas acontece que eles não queriam, eles achavam que eram donos de tudo, e começaram a fazer besteira. Vendeu um pedaço pra cá, vendeu uma casa pra lá, vendeu uma coisa, aí começou umas brigazinhas. Começaram umas briguinhas e eu não me sentia bem, aí quando foi um dia eu disse “mãe, eu vou embora”, “não, não faz isso, tu ainda é o único que a gente não discute”, eu falei “não, eu vou embora, não dá mais para segurar”. Eu tinha 14 anos, mas eu sentia que o negócio era complicado. Aí aquele negócio, eu vendi uma vaca que eu tinha, cada filho tinha umas vacas, eu deixei algumas lá e vendi, aí comprei a passagem, apanhei o ônibus e vim embora.

Eu sempre conheci algumas pessoas que de lá vinham pro Rio de Janeiro. Voltavam, realmente voltavam, mas eu não entendia por que, e eu queria entender por que vinham e voltavam, então é por isso, eu queria saber. Cheguei aqui e comecei a ver por que eles voltavam: era saudade. Aquela coisa que a gente tinha lá, aquela liberdade que a gente não podia ter aqui, que lá a gente era livre, era solto, à vontade, aqui não, prendia bem mais a gente. Você tem que ter uma responsabilidade diferente, longe da família tinha que tratar por si mesmo. 

 

Eu nem sabia que bairro existia. Cheguei... Não tinha rodoviária, cheguei no campo de São Cristóvão. Desci com a mala na mão e fiquei lá à toa, sem saber o que fazer. Eu disse “e agora, vou fazer o que?”. Sabe o que eu trouxe de documento? O certificado que eu queria me alistar, mas não consegui me alistar lá em Sobral, porque eu era novo demais. Aí eu consegui tirar uma identidade, que eu tenho até hoje, com 13 anos eu tirei identidade, que é a mesma que eu tenho até hoje.

 

 Só cheguei com isso aqui. Quando eu cheguei fui pra um lado e não vi nada de... “E agora?”. Aí fiquei com aquela mala na mão, tomei um banho, fui numa pensão, dormi, amanheci no outro dia e saí por aí, sem saber... E a minha preocupação era saber como é que eu ia voltar pra onde eu estava. Fiquei por ali e tal, fui pra pensão, aí não tinha mais o que fazer. O que eu fiz? Eu disse “embora eu não...” − pra minha mãe eu disse que tinha dinheiro pra voltar – “e eu não vou.”. Peguei a mala e fui pra São Paulo, meu irmão! Quando eu cheguei em São Paulo, aí é que eu vi a coisa feia mesmo.

 

Cheguei em São Paulo de noite, 19:00 horas da noite, aquela confusão toda. Desci na rodoviária: “e agora?”. Outra vez com a mala na mão de novo. Aí tinha um cara engraxando sapato, eu nunca tinha engraxado sapato assim, eu falei pra ele assim “meu irmão, eu estou chegando aqui agora, o que eu faço? Onde é que eu posso dormir aqui?”. Ele disse “a pensão da Dona Filó, chamava-se Filó, lá tem uma senhora que tem uma pensão, chama-se Filó, lá dá pra dormir barato.” O cara me levou, podia ser um pilantra. Fui, cheguei lá, dormi, paguei uma mixariazinha, dormi, passei o dia... Passei, depois, dias. Não tinha nada, peguei o ônibus de volta, em três dias eu estava de volta.

Voltei pro Rio. Sentei na praça Tiradentes com o jornal na mão, aí fiquei, olhei de um lado para o outro. Não tinha nada, o dinheiro já estava acabando. Fui no... Não sei o que era ali, um barzinho, eu sei que tinha pão. Comprei uma bisnaga e comi ali, “o que eu vou fazer aqui agora?”. Pensei, pensei. Peguei a mala, saí e fui lá no Restaurante “Cha, cha, cha”, foi aí que eu comecei.

Cheguei lá, entrei com a mala na mão, olhei e perguntei “quem é o dono?” Aí tinha um senhor sentado lá, ele disse “aquele, senhor Manolo”. Quando cheguei lá “Senhor Manolo, eu estou precisando trabalhar”. Ele disse “trabalhar?”, eu disse “é”. Ele perguntou “você sabe fazer alguma coisa?” Eu disse “não, não sei fazer nada,” eu disse logo, “não sei fazer nada”. Ele disse “você está onde?”, eu disse “estou aqui, na rua”, “e você mora onde?” “não moro em lugar nenhum. Eu cheguei do Norte, não tenho onde morar, fiquei por aí e ninguém quer me dar emprego”. Ele disse “você tem documento?” “Não, só tenho identidade”, aí ele disse, “mas se você não sabe fazer nada, como é que eu vou botar você pra trabalhar aqui?” Eu disse pra ele “eu aprendo, não nasci sabendo fazer nada, tenho que aprender”, ele disse “sabe que você foi muito sincero...” − ele falou assim mesmo − “você foi muito sincero, pode vir trabalhar, pega tua mala e bota lá em cima”. Isso era mais ou menos 10:00 horas. Ele disse “16:00 horas começa o outro expediente”. Aí ele chamou o cozinheiro, o senhor Pedro, que morava lá em Olinda: “dá almoço a ele aí”. Me deu almoço, aí eu almocei. 

 

Às 15:00 horas eu voltei, ele me deu o uniforme, aí ele “vai na copa aí”, eu disse “e agora, o que eu vou fazer?”. Eu não sabia fazer absolutamente nada, mas sabe o que é nada? Não tem nenhuma noção da coisa naquele restaurante, trabalhar mais ou menos. Chegou... Eu lembro como se fosse hoje, tinha um garçom chamado Manolo, que a gente chamava de “Vagareza”, que ele era devagar: “uma salada mista!” “eu sei lá que diabo é salada mista?” aí o senhor Pedro, que era o cozinheiro, disse “salada mista é isso, isso, vamos fazer”. Eu chamei o senhor Manolo: “eu não sei”, aí ele chamou o rapaz e disse “ó, você vai ensinar esse rapaz dois dias, se ele aprender ele continua”. Rapaz, esses dois dias... A necessidade era tão grande que eu aprendi tudo. Sinceramente, o que tinha ali eu aprendi tudo. Aí continuei, passei ainda um mês dormindo na pensão. Chegava na hora de fechar a casa os garçons queriam ir embora, cada um me dava 50 centavos pra lavar o chão pra eles, eu lavava e dormia na pensão com o dinheiro que eles me davam. Quando foi um dia, um cara que trabalhava lá, morava lá naquele morro de São José, em Madureira, “eu vou arrumar um quarto lá pra tu morar”. Eu fui lá. Meu irmão, lá em cima do morro não tinha água, não tinha luz. Fui para lá, saía daqui 00h00, chegava lá aquela cachorrada latindo de noite, aí eu entrava, fiquei lá um bocado de tempo. Fiquei no restaurante, aprendi a fazer salada, aprendi fazer tudo. 

Eu passei a fazer tudo, imediatamente passei a fazer tudo. Aí tinha um rapaz chamado Zé Baiano, que trabalhava na copa, na frente, ele estava esperando uma vaga de garçom há muito tempo. Quando foi um dia, abriu lá uma vaga de garçom, aí o Zé Maria disse que ia pra vaga de garçom. Eu não tinha especificação nenhuma, claro, não tinha nem direito, realmente. O Manolo, que era o dono do restaurante, chegou e disse “olha, você vai trabalhar de garçom”. Eu disse, “seu Manolo, mas o Zé está na frente”. Ele disse: “não interessa, nessa casa você vai trabalhar de garçom”. Aí esse rapaz aborreceu e foi até embora da casa, passei a trabalhar de garçom. Daí por diante eu tomei um fôlego.

 

Do Cha cha cha eu saí e fui acho que pro Guanabara, se não me engano. A diferença que eu senti é que o Cha cha cha era mais sofisticado. Lá era mais pauleira mesmo, comida mais barata, aquele negócio todo. Então o pessoal chegava pra comer e trabalhar de novo. Agora, o Cha cha cha já era mais sofisticado, já era à noite, aquele pessoal do cinema, o pessoal da noite, a namorada, o casal.

 

Eu saí do Guanabara, fui pra Erasmo Braga. Conheci um rapaz lá, aí eu conversei com seu Avelino e ele deixou eu ir, inclusive eu disse “o senhor não precisa me pagar nada”, aí eu saí do Guanabara e fui pro Erasmo Braga. Era o Lá do Rio. Sempre eu ficava um ano, dois anos, sempre mais de ano. Eu saía sempre através de outros colegas, “vai pra tal lugar, vai pra tal lugar”, porque por incrível que pareça, a diferença de hoje, você era requisitado pra trabalhar, eles percebiam que você era uma pessoa responsável, sempre te chamavam, você nunca precisava procurar emprego, sempre chamavam, eu tive essa sorte.

Fui para o Rosas em 1969, 70, por aí, mais ou menos isso. O restaurante Rosas é um restaurante que tinha um salão lá dentro e ali fora tinha um café, que vendia café moído na hora. Tinha uma maquinazinha de fazer café, inclusive vendia café feito uma barbaridade, e vendia café em meio quilo pro pessoal levar pra casa, moído na hora, ali.

Cheguei lá, eu nem sabia que eles tinham aberto o restaurante, e botaram lá dois gerentes, o seu José de dia e o seu Manuel de noite. Eles estavam numa dificuldade terrível, e não me falaram nada da dificuldade, essa eu fui enganado. Aí ele foi, sei lá, por intermédio de quem, foi lá me chamar, perguntando se eu não queria trabalhar com ele, senhor Manuel Coelho. Eu digo “não”, “se você for trabalhar comigo você vai ser gerente”, eu digo, “não, o senhor já não tem gerente lá?”, ele disse “tenho”. Eu sei que ele conversou comigo, eu terminei, conversou inclusive com o outro patrão, aí eu fui pra lá. Chegou lá eu comecei trabalhar com o seu Manuel de noite. Eu comecei... Fiquei preocupado, porque não queria prejudicar ninguém. Aí é que eu fui saber que a casa estava em dificuldade porque não estava deixando lucro, não estava deixando aquele negócio todo. Eu digo “olha aonde eu vim me meter, aonde eu vim me meter”.

 

Eu tive mais dor de cabeça, sabe por quê? O homem botou um cargo rígido em cima de mim, ele pegou, me botou como gerente lá, e como responsável total da casa antiga, carta pro ministério do trabalho dizendo que eu era gerente geral de lá. Quando tinha gente mais antiga, eu tinha que assinar carteira de funcionário, tinha que demitir, admitir. Ele deixou tudo em cima de mim, então eu realmente peguei uma responsabilidade muito grande, porque além disso, o que aconteceu? Ele tinha o Rosas, depois ele abriu o Angrense, abriu o Pico do Galeto, e disse “agora você vai ser gerente das casas todas”.

Você tem que modificar totalmente uma coisa da outra. Você deixa de ser comandado para comandar, e é difícil. Você precisa modificar muitas coisas, primeiro pra você sentir o que passou sendo comandado e muitas coisas que não deveria ter acontecido com você, você não fazer com os outros, desnecessário. Porque pra comandar você tem que saber fazer, mas tem muitas coisas que o cara comanda e não há necessidade dele humilhar, dele menosprezar, não há necessidade disso, é simplesmente saber respeitar a pessoa que está trabalhando, porque se você respeita o funcionário, ele vai te respeitar sempre. Isso não adianta, isso é a coisa mais certa do mundo.

Eu era gerente da casa, com essa pinta toda, aí tinha duas funcionárias que moravam exatamente no Catumbi, moravam... Elas alugavam um quarto na casa da avó da minha mulher. Quando foi um domingo, ela estava de folga e passou lá no restaurante com a minha mulher, era neta da senhoria dela, aí eu conheci ela “essa aqui é neta da senhoria que eu alugo lá”. Comecei a conversar. Menina, muito menininha, 15 anos, tanto é que eu sou mais velho que ela... 14 anos de diferença. Começamos conversar, conversar, aí começamos o namoro, mas o que acontece − veja só o preconceito −, por ela ser escura e a mãe dela, na realidade, uma pessoa muito humilde, muito pobre... E essa menina que trabalhava comigo era cearense também, se apavorou, “tu não vai ficar com essa garota, né?”, eu digo “ué, por quê?”, “você vai ficar com essa neguinha?”, eu disse “qual é o problema?”. Começou o preconceito. Aí eu digo, “não é possível”, “não, agora eu estou me sentindo culpada de você estar namorando.” “culpada por quê? Qual o problema de ficar com a garota?”, aí ficou aquele negócio, e eu namorando com ela.

Ficou esse negócio, eu namorando minha mulher e vem outra garota e diz “tu não pode se casar com ela”. Eu: “mas por que não posso, ela não é mulher e eu homem?”. Mas era preconceito, eu percebia que era preconceito, pois eu disse “é com ela que eu vou ficar”, aí o que fizeram, arrumaram uma loira bonita, mas uma loiraça. Eu disse “não, a minha namorada é essa”, e logo eu me sentia culpado, porque a menina era menor de idade, era uma garota, fui primeiro namorado dela. Arrumaram uma loira bonita, levaram lá pra namorar comigo, aquele negócio todo, eu disse “olha, é o seguinte, você é uma garota muito bonita, mas não adianta te iludir, a minha namorada é ela. Se vocês aceitarem ou não, a minha namorada é ela”. O que aconteceu? Terminou que eu acabei casando realmente com ela, hoje meu primeiro filho já tem 23 anos.

O Bar Luiz, quando eu cheguei lá, era uma casa que era uma loucura, realmente. Trabalhava feito uma loucura, era um pouco desorganizada, mas trabalhava demais. Eu acho que a desorganização era pelo fato de trabalhar tanto. Trabalhava muito, mas muito, muito mesmo. A gente entrou lá, comecei a trabalhar inclusive de dia lá no Bar Luiz. Quem faz sanduíche são os garçons, quem faz salada de batata são os garçons, quem faz o bolo são os garçons, tudo lá é feito pelos garçons, tudo. O cozinheiro só bota pra fora as comidas, se mandar ele fazer alguma coisa daquelas, por incrível que pareça, ele não sabe, que tudo é feito pelos garçons.

Tem cliente que chega, se a mesa estiver ocupada ele disfarça, dá uma volta por ali... O cliente chega, senta, não pede, você tem que saber o que ele quer, tem que botar o que ele quer, inclusive esses fregueses mais antigos chegam na mesa... Está acostumado a ser servido muito tempo, ele faz questão de não pedir nada, você tem que levar o que ele quer, saber mais ou menos o que ele já aceita.

O Bar Luiz tem uma carreira de mesinha no canto, uma de mesas menores, mesas maiores no meio e uma de mesa média lá na outra ponta, então aquelas mesas da ponta, escorada na parede, toda vez... Não permitimos que o freguês sentasse atrapalhando a outra mesa. Chega, senta um do lado do outro do outro, dou uma cadeira, ele bota. O Nino batista, quando era governador do Rio de Janeiro, quando o Brizola saiu, que foi se candidatar, ele ficou como governador. Chegou lá, sentou e botou a cadeira do lado. Eu disse “doutor, o senhor poderia botar a cadeira do outro lado que está atrapalhando”, “você sabe quem eu sou?” “sei, inclusive ajudei a lhe eleger” (risos), “e como é que você manda eu sair?” eu digo: “porque o senhor é uma pessoa comum como outra qualquer, ou o senhor não é? Por que o senhor se acha melhor que todo mundo? Está certo o senhor é governador, a gente tem que respeitar, mas pra eu respeitar o senhor, primeiro o senhor me respeite”. Ele foi na caixa reclamar, chegou lá o Jaime disse  “olha, se o senhor quiser insistir e sentar o senhor senta, mas o garçom está certo, não pode fazer isso não”. Ele saiu de uma mesa pequena e foi pra grande, eu disse “agora o senhor fica à vontade do jeito que o senhor quiser”.

Olha, o cliente mala, que você disse, ele já chega querendo botar banca. A primeira coisa que... Ele chega querendo passar por cima de ti já: “estou aqui, tenho que ser atendido da maneira que eu quero”. Tudo bem, só que quando chega no final, é um problema. “Ah! Porque não devia ser isso, assim, assim, está me cobrando muito caro”. Não é nada disso “não, porque eu frequento tal lugar e não é assim...” “mas aqui é assim, o sistema da casa é esse, se eu for lá pro outro lugar que você está falando, vou te atender da mesma maneira que é lá”. É preciso que você saiba neutralizar, senão você vai arrumar confusão, isso não tem dúvida. E normalmente o cara... Chega três, quatro, na mesa, que não vai pagar a conta. Exige tudo, quer saber tudo. Enquanto aquele que vai pagar não quer saber de nada, quer comer e beber e se divertir, o cara que não vai pagar a conta sempre está dando uma cutucada.

 

Eu fiz tudo na vida e continuo fazendo pra que meus filhos não pensem nesse ramo que eu vivo, porque é difícil. Você às vezes pensa que é fácil, mas é difícil. Eu não sei se o meu filho iria aguentar o que eu tenho aguentado pra seguir nesse ramo. Porque eu conheço muita gente que tentou pensando que era mole e não é, não dá pra coisa, não é por aí, não tem como lutar com... Porque você luta com todo tipo de público que existir, você pega o mau caráter, pega uma pessoa civilizada, pega o bicheiro. Sempre tem alguém diferente, então você tem que saber neutralizar todos os tratamentos.

Eu acho que se eu não tivesse entrado nesse ramo, talvez tivesse sido melhor pra mim. Agora, em termos de família não, em termos de família a pessoa não pode exigir mais do que eu tenho com minha família. tenho dois filhos, uma mulher maravilhosa, dois filhos que são uma beleza. Meu filho tem 23 anos, não fuma, não bebe, não me dá trabalho, não me dá preocupação em termos de eu me preocupar por que ele vai sair, então eu acho que até aí eu não teria do que reclamar.

 

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