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História

Não me dobrei nem com a medula partida

História de: Anna Paula Feminella
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/01/2021

Sinopse

Infância em Florianópolis. Primeiro trabalho aos 14 anos. Graduação em Educação Física. Atuação como professora na rede municipal. Movimento sindical. Acidente que a deixa paraplégica. Gravidez.

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História completa

O acidente aconteceu em novembro na minha casa, eu era casada. A gente pediu para um pedreiro construir uma coluna de tijolo, cimento e ferragem e essa coluna serviria para botar o chuveiro de beira de piscina. Havia uma piscina, e também pedimos para colocar o gancho da rede. A gente não percebeu que esse pedreiro não colocou a ferragem, a que consolidaria a coluna, ele só botou cimento e tijolo.

O meu marido estava inaugurando a rede, estava deitado, quando eu botei uma perna para subir na rede junto com ele, por trás de mim (eu não caí da rede), veio a coluna e me soterrou, 150 quilos ficaram em cima de mim.

Eu era bastante forte, consegui me segurar assim e a lesão aconteceu só no final da medula, se não, ela podia ter sido mais grave. Até deu um créquezinho aqui na cervical, que me deixaria tetraplégica, mas então no final de 2003, recém dirigente sindical liberada, eu me tornei paraplégica.

Meu corpo todo se alterou a partir dessa experiência do acidente, então eu tinha pernas musculosas e o braço não era tanto assim, era normal. Mas as minhas pernas afinaram de repente, eu ganhei 10 quilos na cadeira de rodas, eu comecei a trabalhar no Sindicato, eu ficava 14 horas no sindicato trabalhando. Eu mergulhei na relação de trabalho para não me ver nessa nova condição.

Quando eu me acidentei, como eu tive que fazer uma cirurgia nas costas bastante importante e não tinha movimento das pernas, inclusive um pedaço do meu quadril, o osso do meu quadril serviu para recompor uma vértebra quebrada, eu me sentia uma mulher que tinha cabeça e braços, e todo o resto estava paralisado, né.

Então, o dia seguinte da cirurgia eu pensei assim: “Eu já tive depressão, se eu entrar em depressão vai ser pior pra mim e pior para todo mundo que tá ao meu redor”. Diante disso, desde o primeiro dia após o acidente eu comecei a tomar antidepressivo, para poder ter força.  

Após três meses e fui pro Sarah Kubitschek, hospital destinado ao atendimento de pessoas com problemas locomotores, foi um impacto mais forte. Porque a princípio, no início, os médicos não dizem que é definitiva a situação, os médicos fazem a cirurgia e dizem assim: “Vamos ver se desincha o edema na sua medula, né?”, então não é uma coisa que eles podem dizer: “Olha, você não vai andar pro resto da vida”.

Mas no Sarah é um impacto concreto, eles se reúnem e fazem boas vindas com a equipe, fazem uma roda de conversa, eles dizem assim: “Você se apresenta, diz qual o seu objetivo aqui no hospital, mas não adianta dizer que quer voltar a andar, porque a gente não vai garantir nada disso”. Então já era tipo: “Você não vai sair daqui andando”, né? Então era bastante impactante.

Quando eu saí do hospital, comecei a ficar na cadeira de rodas e encontrar as pessoas na rua, no trabalho, e as pessoas olharem pra mim e quererem chorar, era muito difícil.

[Encontrei] muitas pessoas que não me viam há muito tempo e não tinham sabido do meu acidente, [duas foram bem marcantes para mim]. Assim que eu comecei ir pra rua, na cadeira de rodas, uma chegou pra mim: “Anna! Sai disso aí menina, deixa de brincadeira!”, achando que era brincadeira minha a experiência de andar na cadeira de rodas, como uma aventura nova minha, até contar pra ela a história e ela ficar toda emotiva. E a mãe de uma outra amiga também disse: “O que que você aprontou agora, né Anna? (risos) A menina sapeca!”  

Eu tinha uma amiga que ela era do Mato Grosso e ela foi vítima de uma tentativa de feminicídio aos 17 anos, então ela era ainda bastante jovem, bem mais nova que eu e estava há mais tempo na cadeira de rodas. Então ela contava a história do ex-namorado que atirou nela no meio da rua, ela se fingiu de morta e ele se matou. Ela sobreviveu mas ficou paraplégica.

Ela já tinha experiências sexuais, então ela mostrava pra gente as melhores posições, então tinha uma descoberta nova, uma aventura nova.

No final de semana, a gente tinha a liberdade de sair do Sarah, a gente ia para barzinho, saíam três cadeirantes em um táxi só, então a gente fazia vivências de outra perspectiva. Mas não foi fácil, foi tipo… Ser uma mulher padrão gostosona pra uma coitada, isso abalava bastante, me abalou bastante.

Eu me separei um ano e meio depois do acidente. Em 2011, eu conheci o meu atual marido, em 2012 a gente casou, em 2012 também nasceu a minha filha. Eu tenho uma filha de oito anos.

Outra emoção muito grande de viver a deficiência foi viver a gravidez numa cadeira de rodas, então, foi bem depois né? Mas foi bastante intenso. Quando eu comecei a namorar meu atual marido, ele dizia assim: “Olha, eu sou para casar e eu quero ter filho”, já chegou dizendo assim, né! Eu: “Ah, quem sabe a gente adota”, eu nunca tinha pensado sinceramente em ter filho, eu tive o acidente com 31 anos, né?

Quando eu conheci meu marido eu tinha 38, então pra mim parecia uma coisa meio difícil de caber, acabou que a Emiliana, minha filha, nasceu quando eu já tinha 39 anos. Foi um momento muito dramático da minha vida, ver um ser tão frágil dependendo dos meus cuidados, foi uma emoção ao mesmo tempo maravilhosa, mas também que teve um impacto psicológico bastante grande.

A gente vive numa cultura que descrimina as pessoas com deficiência, se gente não reflete sobre o assunto, a gente vai na onda e essa onda é de uma cultura capacitista. É uma pauta que a gente aprende todos os dias porque a deficiência não é igual, não é vivida igual para ninguém, ainda temos muito uma perspectiva caritativa da deficiência, de entender o outro em desigualdade, “o coitado”, da pena.

A necessidade, eu tive que entrar na pauta para perceber que a gente tem que falar sobre isso e isso não é nos vitimizar, é dizer “Olha, nós não queremos ser vistos como pessoas usuárias de serviços de saúde somente, nós queremos lazer, transporte, nós queremos ter emprego como qualquer outra pessoa”.

Eu gostaria de viver num país com menos desigualdades sociais, com menos discriminações, onde as pessoas se respeitassem, onde o pensar diferente não fosse ofensivo a ninguém, onde a gente vivesse numa democracia e com acesso, com igualdade de direitos de fato, onde esses direitos que foram conquistados arduamente, que estão presentes lá na nossa constituição, eles sejam exercidos por todos.

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