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História

Não há barreiras onde há vontade

História de: Osvaldo Rodrigues da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Frutalense da zona rural, aos 18 anos decidiu se aventurar pela área urbana da cidade. Voltou a estudar e arranjou o primeiro emprego, como frentista. Conciliando trabalho e estudos, viu na CTBC a oportunidade de progredir, e, através de seu olhar sobre a Companhia, narra sua história. Pensando na responsabilidade social da empresa, esse “fazer conexão entre as pessoas”, se recorda do desenvolvimento da Companhia e diz que não há barreiras que possam impedir a vontade das pessoas.

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História completa

P/1 - Bom dia, senhor Osvaldo. Eu gostaria, por favor, que, para que nós começássemos essa conversa, o senhor nos dissesse o seu nome completo, o seu local e data de nascimento.

 

R - O meu nome é Osvaldo Rodrigues da Silva, nasci em Frutal, Minas Gerais, na zona rural, dia 28 de maio de 1948.

 

P/1 - O nome dos seus pais, senhor Osvaldo?

 

R - O meu pai se chamava Gerônimo Rodrigues de Souza, e minha mãe Orozina Alves de Souza, ambos de Frutal.

 

P/1 - O senhor conheceu seus avós?

 

R - Apenas o meu avô paterno que eu não conheci, conheci os outros sim.

 

P/1 - Como era o nome deles?

 

R - A minha avó paterna era Laudelina, nós a chamávamos de Vó Ludica, e Laudelina Maria de Jesus. E os avós maternos eram Antônio Alves Borges e Laurinda Silva.

 

P/1 - A sua família era originária mesmo de Frutal ou foi para lá migrando? O senhor tem alguma informação sobre isso?

 

R - Eu tentei levantar as raízes da família, tentar descobrir de onde veio, [mas] eu não consegui muitas informações. Foi um pouco tarde que eu fui correr atrás do assunto, busquei isso a questão de uns dois meses atrás. Então as informações que eu tenho são sempre que eles todos... Todas as pessoas que temos notícia viveram e nasceram ali naquela mesma região, em Frutal. Sempre na zona rural de Frutal. 

 

P/1 - Qual era a atividade de seu pai?

 

R - Meu pai era agricultor.

 

P/1 - E plantava o que?

 

R - Sempre cultivando arroz, milho, feijão, mais esse tipo de cultura, que naquela época era cultura de subsistência.

 

P/1 - Em uma terra própria, arrendada...

 

R - Inicialmente em propriedade própria, depois, com o tempo, ele já passou... Perdeu a propriedade por venda, por mudar para a cidade e depois continuou trabalhando em terras de terceiros como meeiro.

 

P/1 - A sua infância foi passada, portanto, nessa...

 

R - Sim. Minha infância foi desde criança ajudando meu pai na lida, com agricultura, e depois só na... Após adolescência, já na idade de jovem é que eu comecei. Voltei a estudar, fiz o primeiro grau e aí que eu deixei essa atividade de agricultura.

 

P/1 - Era uma fazenda, um sítio, uma...

 

R - Nós tínhamos uma fazenda no município de Frutal, entre a cidade de Frutal, município de Frutal, e município de Itapagipe. Depois, nós mudamos para a cidade de Frutal e trabalhávamos em propriedades próximas mesmo da cidade, propriedade de terceiros.

 

P/1 - Como é que era essa casa da fazenda, essa casa da sua infância?

 

R - Uma casa muito singela, típica daquela época mesmo. Casa com esteios de mourões de madeira, às vezes alguma parte até que nós chamávamos de pau a pique, fechados com paus roliços e rejuntado com lama, com... Era uma mistura de... Não sei se de esterco de vaca, com... Para você fazer um taipo, e cobria aquela parede. Então era uma casa muito singela.

 

P/1 - Certo. O senhor tem...

 

R - _________ na porta, bem junto, bem próximo. Mais galpões, alguma coisa desse sentido.

 

P /1 - O senhor tem irmãos?

 

R - Tenho quatro irmãs.

 

P/1 - Certo. E vocês cinco se dividiam assim, em alguns afazeres domésticos, tinham obrigações na casa? Como é que era o cotidiano dessa casa?

 

R - Os afazeres da casa sim, minhas irmãs compartilhavam, embora meu pai tenha se casado duas vezes – eu sou o filho do segundo casamento. Do primeiro casamento, minhas irmãs, por serem um pouco mais velhas do que eu, já tinham se casado quando eu já me entendia bem por gente. Então as atividades da casa ficaram mais com a minha mãe e as outras duas irmãs.

 

P/1 - E a que cabia o senhor na ajuda que o senhor dava a seu pai na lida? O que o senhor fazia?

 

R - Levar comida para o meu pai e seus ajudantes. Às vezes, naquela época, a agricultura era pouco mecanizada. Era segurar na rédea do cavalo e guiá-lo para puxar as ferramentas para plantar, para carpir. Então era mais esse tipo de atividade... Suporte às operações dele (risos).

 

P/1 - Suporte às operações é bom. Como é foi essa mudança para Frutal? Quer dizer, que cidade era essa no momento em que o senhor muda para lá?

 

R - É uma cidade bem pequena. Como a gente vinha da zona rural e não tinha condições de estudar – não existiam escolas na zona rural –, meu pai não gostaria que a gente fosse criado como ele, que não teve oportunidade de escola, então ele resolveu vender a propriedade e mudar para essa cidade, e lá ele investiu nessa pequena chácara que não dava rentabilidade nenhuma. Era uma cidade muito pequena, e a gente fez só até o primário. Os quatro anos do primeiro grau, depois eu parei também, porque as condições de ginasial na cidade... Não tinha o que tinha... Era escola particular, um ginásio das freiras, e nós não tínhamos condições financeiras para pagar o curso. Então eu parei de estudar. Só voltei a estudar em 1966, aí já com 18 anos de idade, deixei de ajudar meu pai e fui para a cidade. Fui me dedicar a tentar um emprego e trabalhar na cidade.

 

P/1 - Ainda em Frutal?

 

R - Ainda em Frutal.

 

P/1 – Certo, e...

 

R - Houve uma época aí que nós moramos em Planura, estudava à noite, trabalhava durante o dia.                                                                                                                                                                                                                                        

 

P/1 - Embora, sendo um filho temporão, digamos assim, como é que o garoto Osvaldo se divertia? Quer dizer, além do trabalho, tudo mais, como é que eram suas brincadeiras? Como é que o garoto se divertia?

 

R - Eram brincadeiras bem simples, brincadeiras de criança, de tentar fabricar seus próprios brinquedos. Primeiro porque naquela época a diversidade de brinquedos para se adquirir era pequena, de custo alto para quem não tinha recursos, né? Então os brinquedos eram gerados por nós mesmos. O grupinho de crianças da redondeza, os vizinhos brincando, elaboravam seus próprios brinquedos, como soltar... Nós chamávamos de pipa ou de papagaio; rodar pião, jogar biloca ou bolinha de gude, brinquedos dessa natureza. Ou do pique esconde, do corre aqui esconde ali, brincadeiras desse tipo. Joguinho, timinho de bola, coisas bem típicas mesmo daquela época.

 

P/1 - Essa primeira escola de Frutal, que lembrança o senhor tem dela?

 

R - Foram duas escolas. O primeiro ano eu fiz em uma escola recém-fundada, que funcionava em um casarão antigo, bem velho, mas foi a base para depois passar para um grupo melhor, mais estruturado. Mas era um grupo que hoje já não existe mais, já foi demolido, existe o nome. No local, construíram um novo prédio, mas eu tenho uma imagem de um prédio antigo, de construção. Talvez, por eu não entender de arte, mas talvez um pouco barroca. Era um prédio bonito. Tenho boas recordações, porque era alto, tinha um porão onde a gente, às vezes, nos momentos de intervalo de aula, entrava lá dentro para apanhar alguma coisa que alguém deixava passar pelo assoalho de tábua, como lápis, borracha, alguma coisa pequena assim, que a gente se divertia.

 

P/1 - Alguma professora ou professor que tivesse marcado o senhor?

 

R - Não, para mim foram todos importantes. Eu não consigo nem me lembrar o nome de muitos deles, apenas da primeira professora, que foi a professora Carminha, que não me lembro nem o sobrenome, ou que eu tenha guardado qualquer imagem dela. Eu lembro que era uma moça, razoavelmente jovem, loira, bonita, mas não guardei mais recordações.

 

P/1 - Certo. Nesse período que o senhor ficou fora da escola, ainda em Frutal, continuou ajudando seu pai nessa pequena granja, é isso?

 

R - Sim, trabalhava nessa pequena chácara onde a gente cultivava café, que não era produtivo. Também, nós não tínhamos conhecimento nenhum para lidar com o café. Depois desistiu e foi trabalhar na lavoura, terra, propriedade de terceiros como meeiro plantando, cultivando arroz e milho.

 

P/1 - E o seu trabalho junto com seu pai, nessa época, já era um pouco mais pesado?

 

R - Sim. Aí já fui assumindo as mesmas tarefas que executavam os outros trabalhadores adultos, como carpir, trabalhar com as ferramentas puxadas por animais.

 

P/1 - Como é que era um dia típico nessa época que o senhor trabalhava com seu pai na granja?

 

R - Levantar bem cedo.

 

P/1 - Que horas?

 

R - Ali, por volta das cinco e 30, seis horas. Ou eu ia mais cedo para o trabalho e meu pai mais tarde com a comida, ou... A gente se revezava. Outras vezes eu ia mais tarde, esperava o almoço e ia levando para o trabalho. Trabalhava até por volta de cinco, seis horas da tarde, mais ou menos, sempre. Ia de bicicleta ou a cavalo para o trabalho, porque a distância não era muito perto também.

 

P/1 - Como é que era o café da manhã?

 

R - Era simplesmente o café. Às vezes, quando... Raramente um pãozinho, ou um leite, ou bolo que a mãe preparava em casa. Mas não tinha... Não tinha o que hoje a facilidade que nós temos de tomar um café melhor.

 

P/1 - E o almoço, como é que era?

 

R - O almoço também era aquela comida bem caseira da época, sem muita opção. Era um arroz com feijão e mais uma ou duas misturas que você variava ali, entre carne de porco, carne bovina ou carne de frango, alguma coisa nesse sentido. E por levar comida quente para o trabalho era impossível levar alguma salada. Às vezes era um ovo misturado, alguma coisa dessa natureza.

 

P/1 - Certo. Esse momento em que o senhor ou seu pai... Eu gostaria que o senhor definisse isso para nós, opta por: “Não, esse garoto vai ter que estudar.” O senhor já tinha 18 anos, né? E como é que foi isso, como é que isso de deu?

 

R - Sucedeu mais, eu creio... Creio não, estou seguro disso, que a primeira preocupação dos meus pais... Minha mãe em especial, e meu pai achando que, da forma como nós estávamos indo, nós não estávamos adquirindo bens. Pelo contrário, estávamos perdendo os poucos que a gente já tinha e que não haveria futuro daquela forma. Então existia um desejo deles que eu voltasse a estudar. E uma das minhas irmãs que residia em Frutal tinha uma condição um pouco melhor, insistiu e me levou para a casa dela, onde eu fiquei um ano e meio até conseguir trabalho, e meus pais mudaram para Frutal. Eu, então, continuei estudando ali.

 

P/1 - Qual foi o seu primeiro trabalho?

 

R - O meu primeiro trabalho foi trabalhar como frentista em um posto de gasolina.

 

P/1 - Lá em Frutal?

 

R - Lá em Frutal mesmo.

 

P/1 - Trabalhava e estudava?

 

R - Trabalhava das seis e 30 às... Nos dias que tinha aula até as 17 e 30, com uma folga, um domingo de folga por mês. Era única folga que a gente tinha, ganhando um salário mínimo.

 

P/1 - E estudava que horas?

 

R - Estudava das 19 horas... Acho que começava às 19 horas até às 23 horas, onze e qualquer coisa. Qualquer coisa da noite, não me lembro bem o horário que terminava, mas esse era o horário que a gente tinha para ir para a aula. Agora, estudar tinha que arrumar um tempo dentro do próprio horário de trabalho. Algum tempo que tivesse uma folgazinha, pegava o caderno e dava uma folheada para poder acompanhar as matérias e ter condições de fazer prova.

 

P/1 - Certo. E esse processo foi se desenrolando até quando?

 

R - Até 1969, quando eu terminei o ginasial. Eu ainda continuava no posto de gasolina. Eu passei a fazer o curso técnico de contabilidade, também trabalhando no mesmo local. Em 1970 eu tive a oportunidade de entrar na CTBC, aí eu tinha mais tempo para estudar. Por exemplo, trabalhava no sábado até meio dia e tinha o sábado à tarde, o domingo, todos eles eram folga, a gente podia estudar. Então eu terminei meu curso de contabilidade já trabalhando na CTBC.

 

P/1 - Como é que foi esse contato? Quer dizer, como é que o senhor se aproximou da CTBC?

 

R - A CTBC era bem próxima, o centro telefônico era bem próximo do local de trabalho no posto de gasolina, e o único veículo da CTBC que tinha na cidade se abastecia nesse posto que eu trabalhava. Fiquei conhecendo o gerente da época lá, Arquimedes Marquês, que certamente será também entrevistado, pessoa a quem eu devo muito. Foi um grande professor, pessoa que me ajudou a dar os primeiros passos dentro da CTBC. E ele me informou que existia uma vaga para encarregado de telefonista e encarregado de escritório. Eu, então, me candidatei. Prestei um teste junto com mais três candidatos e tive a felicidade de ter sido a pessoa selecionada.

 

P/1 - Como é que era esse teste? Em que ele consistia?

 

R - Era um teste de conhecimentos gerais e também teste de datilografia. Eu não me lembro muitas coisas, mas eu me lembro algumas coisas que perguntavam, como por exemplo: “Zulú, o que significava?” Era uma tribo ou era alguma coisa... Eu lembro assim, um teste de conhecimentos gerais, que era ligado mais com quem lia gibis, ou coisa dessa natureza. Poucas coisas eu lembro desse teste, mas foi bastante interessante. Tive uma entrevista com a Adelaide Vieira, que na época era a gerente de... Chamado, naquela época, de recursos humanos, ou departamento pessoal, e também com senhor Walter Machado, que era a pessoa responsável pela área de controladoria e faturamento da CTBC.

 

P/1 - E o senhor foi escolhido para atuar em Frutal?

 

R - Em Frutal mesmo, ser encarregado das telefonistas, aonde a gente controlava o quadro de revezamento de horários, de telefonistas, folgas. Observava o rendimento de cada uma delas, apoiava, controlava os... Cada ligação interurbana era feita em um bilhetezinho anotado à mão. Classificava esses bilhetes e colocava código das localidades e mandava aqui para Uberlândia para serem digitadas e gerar as contas telefônicas. Controlava o recebimento das contas telefônicas da cidade e algumas cidades vizinhas ali que faziam parte daquela pequena regional. Esse era, basicamente, o trabalho do escritório que eu fazia.

 

P/1 - Quantas telefonistas eram ali?

 

R - Creio que era alguma coisa em torno de oito telefonistas, por aí. Eu não estou bem recordado na época, faz bastante tempo. Talvez mais, umas 12 telefonistas, porque tinha folga e trabalhavam três por turno. Eram quatro turnos. Primeiro turno com três telefonistas, o segundo com mais três, depois mais duas e depois mais uma. Isso dava um total cerca de 12 telefonistas.

 

P/1 - Turno de seis horas, né?

 

R - Turno de seis horas.

 

P/1 - Certo. E esse era um momento ainda do... Que dizer, das ligações praticamente mecânicas. Havia pouca automatização nesse...

 

R - Não existia, praticamente, nenhuma automatização. As ligações locais eram feitas pelo sistema chamado Bateria Central, aonde o assinante tirava o telefone do gancho, ascendia uma lâmpada na mesa da telefonista indicando qual era o assinante. Ela o atendia e ele dizia que queria falar na casa de uma determinada pessoa. Ela, com a outra pedra, fazia a conexão. O interurbano ele chamava pela mesma forma: a telefonista atendia, registrava o pedido de ligação, ele desligava e esperava que a telefonista da mesa interurbano chamasse já com a ligação na linha. Isso demorava horas para conseguir uma ligação, e o sistema interurbano era feito... As chamadas eram feitas pelo sistema magnético.

 

P/1 - Magnético...

 

R - Ela tinha que dar sinal para chamar a localidade próxima que, normalmente, era... Nas ligações eram solicitadas apoio às telefonistas da CTB [Companhia Telefônica Brasileira] de Barretos para completar ligações para aquelas áreas ali, São Paulo e outras regiões fora dessa região nossa aqui, e o apoio pedido para Uberlândia para ligações, para localidades da nossa região.

 

P/1 - CTB, Companhia Telefônica Brasileira.

 

R - Companhia Telefônica Brasileira, canadense, controle canadense.

 

P/1 - Certo. E esse processo, quer dizer, o senhor fica em Frutal ainda convivendo com toda essa tecnologia que, na época também não era uma coisa tão desprezível assim, né?

 

R - Bem, não era. Pelo menos as pessoas podiam se comunicar, embora a cidade fosse pequena e o volume de telefones, naquela época lá, contava com... Acho que eram 540 telefones instalados. Uma boa parte era comercial, depois já estava em construção o prédio novo para instalação da central automática que começou a acontecer. Creio que, em 1971, começou a instalar a montagem da central telefônica ainda com o prédio em fase final de construção.

 

P/1 - Quer dizer, coincide com um momento de grande expansão da CTBC.

 

R - Sim, foi a expansão viária, ela já estava acontecendo. Nesse momento era o momento já da modernização. A CTBC, como sempre, foi pioneira. Ela começou implantando centrais automáticas muito rapidamente nessas localidades. E aí eu tive a primeira oportunidade para mudar de função. Então eu fui trabalhar na montagem da nova central telefônica, uma central Ericsson modelo ARF para 800 telefones, inaugurada, se não me falhe a memória, em dezembro de 1972.

 

P/1 - Nós estamos falando em Frutal ainda?

 

R - Em Frutal ainda.

 

P/1 - Ainda em Frutal, o senhor chegou a travar algum contato com o senhor Alexandrino Garcia?

 

R - Com o senhor Alexandrino tive uma passagem cômica, porque eu... Entre as poucas pessoas que trabalhavam no centro telefônico, tinha o gerente que tinha sua carteira de habilitação e eu, que tinha a minha carteira de habilitação. O carro estava com problema mecânico e foi trazido aqui para Uberlândia. Aliás, quem o trouxe fui eu. E quando vim para buscá-lo, eu estava colocando materiais nesse carro para levar para instalação de telefones e manutenção, e também algumas peças de granito para o término da construção do novo prédio. E eu observei que enquanto eu buscava no almoxarifado que ficava na sobreloja, buscava o material e punha no carro na Pick Up, tinha um senhor sentado dentro da boleia.

 

P/1 - Era...

 

R - Era o seu Alexandrino.

 

R - Eu não conhecia, mas me avisaram: “Cuidado que o seu Alexandrino está ali”. Como eu não conhecia, continuei trabalhando tranquilo. A hora que estava terminando, ele falou assim... Como sempre, ele muito educado, chamava todo mundo por senhor. Eu era bem jovem, mas ele me chamou de senhor: “O senhor que está com esse carro?” Eu falei: “Sim, sou eu.” Ele me falou: “O senhor é um irresponsável.” Eu fiquei calado e esperei ele dizer o porquê: “Como o senhor funde um carro novo como esse?” Eu tive que explicar para ele todo aquele trabalho, de dizer que eu não era o motorista do carro, que eu não andava com o carro, estava ali apenas para buscar o carro. Esse foi o meu primeiro contato com ele. Foi um contato não muito feliz, porque ele estava interpretando que eu estava depredando o patrimônio da empresa.

 

P/1 - Quer dizer, o problema mecânico era do motor que tinha fundido?

 

R - O motor do carro tinha fundido com 55 mil quilômetros, e ele achou que era um absurdo. E realmente era, né?

 

P/1 - Certo, de fato é. Mas de todo modo, ele ficou ali observando o senhor até o momento que o senhor acaba de carregá-lo para poder fazer a interpelação?

 

R - Isso era por volta de 20 horas, mais ou menos, ou 20 e qualquer coisa, porque eu nem jantado tinha, e ainda tinha que voltar para Frutal naquela mesma noite.

 

P/1 - Essa viagem não deve ter sido uma viagem de volta muito agradável...

 

R - Não, foi uma viagem normal. Apenas o cansaço, que é terrível, porque tinha que passar pelo trevão. Naquela época a viagem acho que era 230 quilômetros. Hoje ela está um pouco mais curta, porque já passa pelo Prata. Mas era uma viagem cansativa sozinho. E o carro pesado, porque estava com bastante... Aproveitava bem a viagem.

 

P/1 - Depois o senhor voltou a encontrá-lo? Em algum momento, recordou esse episódio com ele?

 

R - Não, não. Nós não voltamos a tocar nesse assunto. Eu não sei se ele se recordaria de um assunto que para ele seria uma rotina. Ele teria tantas outras preocupações para se lembrar de um caso como esse. Houve uma figura que trabalhava em uma localidade pequena que, quando nós tivemos oportunidade de encontrar novamente... Foi anos depois. Talvez eu até o visse algumas vezes, mas ele certamente nem notou a minha presença, porque estava no seu dia a dia, no seu movimento, com tantas outras preocupações. Mas eu tive a oportunidade... As duas últimas vezes que nós nos falamos foi quando a CTBC, naquele projeto que ela tinha de conceder uma semana para o associado e o seu cônjuge na Pousada do Rio Quente, quem tivesse mais de dez anos de empresa... No retorno da Pousada ele nos recebeu na sala dele, lá na sede da então Empar, e conversou com o grupo todo. Nós ficamos ali juntos. Depois, quando eu já estava em Uberaba, em uma das reuniões trimestrais que nós chamávamos de “retri”, o doutor Luiz nos convidou para almoçar lá na Granja, e eu tive a felicidade de... A família do doutor Luiz estava espalhando um membro da sua família em cada uma das mesas, junto com as pessoas que estavam ali; os diretores, gerentes regionais, e na minha mesa coube sentar o senhor Alexandrino. Ele contava muitos episódios que já ouvi também nas gravações dele, e já vi também pelo livro. Ele contando que conhecia de Ituiutaba à (Pará de Minas?) a pé, e contando como ele conhecia. Porque ele ia cada semana e andava um trecho, cada semana andava outro trecho, vendo a construção das linhas. E a palavra que ele usava durante quase todo o tempo do nosso almoço era: trabalho, trabalho e trabalho. Ele gostava muito de usar essa palavra.

 

P/1 - Foi a vida dele, né? De todo modo, quer dizer, com toda essa aproximação dele, que impressão o senhor tem hoje dele? A avaliação que o senhor faz daquele empreendedor hoje?

 

R - Olha, é um modelo de homem que eu creio que existem poucos. Talvez existam muitos sonhadores, mas poucos empreendedores como ele. Um homem que tinha um nível de escolaridade tão baixa quanto à dele, um homem que foi criado em uma região como essa nossa região, que não era uma região desenvolvida, e ter uma visão futurista e conseguir enxergar que telecomunicações era algo de muito futuro. E investiu sua vida, já não era tão jovem, investiu a sua vida para construir o que ele construiu, é um homem admirável, uma figura que a gente tem que ter um apreço muito grande por ela.

 

P/1 - De fato, o resultado esta aí, né?

 

R - Sim.

 

P/1 - Vamos voltar, portanto, a esse momento em que o senhor deixa a sua cidade de Frutal. Quer dizer, o que foi mudado em Frutal para ficar montando centrais telefônicas? Afinal de contas, o senhor estava enraizado naquele local, suas raízes estavam lá.

 

R - Sim. Na verdade, montar central telefônica eu só trabalhei em Frutal. Depois que foi concluída a montagem, testes que eu participei de todas essas fases, eu fiquei como encarregado de manutenção da própria central. Mas, devido a um incidente que aconteceu lá, uma pessoa ensandecida jogou gasolina e ateou fogo na mesa de telefonista que era de atendimento ao público, inaugurada havia 40 dias, ele ateou fogo e queimou aquilo tudo. E eu trabalhei muito na recuperação, embora recém-casado, mas trabalhava todos os dias até mais ou menos às 23 horas tentando recuperar. E foi um sucesso, porque a recuperação custou bastante... Bem menos do que poderia custar se fosse feito pelo fabricante. E funcionou tão bem que eu fui convidado, naquela época, a ser o gerente local da localidade de Guaíra, que era uma localidade mais ou menos um pouco menor que Frutal, mas com mais ou menos a mesma... A central telefônica era mais ou menos da mesma capacidade que tinha a de Frutal.

 

P/1 - E que história foi essa desse ensandecido atear fogo na central?

 

R - Existem versões e versões, mas uma que eu ouvia na época que seria, talvez, a mais coerente, é que ele havia... Ele era de uma família financeiramente bem... De grandes posses em Frutal, e essa família foi entrando em decadência financeira. E ele parece-me que a única coisa que ele tinha, o único bem que ele tinha seria um fusca. Ele trabalhava como vendedor, alguma coisa e viajando pelos lados de Campinas Verde. Me parece que ele bateu seu carro contra um carro da empresa, da CTBC, e ele queria receber o dinheiro do carro para saldar uma dívida. Como não houve esse acordo que a empresa se propôs a reformar o seu carro, ele voltou para Frutal e viu duas pessoas andando na rua que ele reconheceu como pessoas que estavam lá em Campina Verde na negociação. Ele achou que estava sendo perseguido e, em um acesso de loucura, comprou um balde de gasolina. Chegou, jogou pelo guichê que tinha para dentro das telefonistas atenderem o público ali e gritou com elas: “Corram porque eu vou pôr fogo”. Só deu tempo delas saírem, e ele realmente ateou fogo.

 

P/1 - Bota doideira nisso, hein? De todo o modo, o senhor conseguiu recuperar essa central, quer dizer, a cidade ficou muitos dias sem comunicação?

 

R - Não, não foi bem a central. A central telefônica não sofreu danos de incêndio, ela sofreu com... Depois, com o tempo, começaram a aparecer defeitos por mau contato devido à fumaça que subia da queima tanto da madeira da mesa quanto do piso de Paviflex, aquelas colas, não sei, formavam uma fumaça um pouco... 

 

P/1 - Densa?

 

R - Meio gordurosa. E aquilo acabou por penetrar um pouco no equipamento. Com o tempo, foi apresentando, depois, algumas falhas. Não significativas, mas que, embora fosse novo, já não funcionava tão bem quanto antes. O que danificou muito foi a mesa interurbano que, ainda naquela época, o interurbano não contava com DDD [Discagem Direta à Distância]. As ligações locais eram feitas discando-se de um telefone para o outro. Aí sim, não precisava mais do auxílio da telefonista. Essas ligações interurbanas ainda precisavam das telefonistas. Então o interurbano ficou prejudicado por cerca de 24 horas, não mais do que isso. Porque ela começou a funcionar de uma maneira muito precária. Nós conseguimos pôr para funcionar. Claro, que não dava toda a vazão necessária, mas a cidade não ficou incomunicável.

 

P/1 - Menos mal. Eu queria que o senhor contasse agora um pouco sobre essa sua experiência em Guaíra... Foi lá assumir uma localidade. E o que é que o senhor encontrou lá e o que o senhor deixou lá?

 

R - A localidade de Guaíra é uma cidade pequena, tipicamente de produção agrícola, muito mecanizada já naquela época. Hoje, talvez um dos municípios mais mecanizados, talvez da América do Sul, com uma _________ japonesa... Tem ainda, uma grande porcentagem da cidade é constituída por japoneses ou descendentes de japoneses. Tinha poucos empregados da CTBC naquela época, empregados ou funcionários. Também, da mesma forma como Frutal, as ligações locais eram feitas automaticamente e as interurbanas via telefonista. Lá eu fui como gerente geral, então eu observava, de uma maneira geral, tudo o que estava acontecendo, tanto na área de técnica, de comutação, transmissão e redes, e também observava escritório e a parte das telefonistas que tinha a sua própria encarregada. Nós chegamos, a cidade tinha 800 telefones, a central era para 800 telefones. Talvez tinha ali seus 600 telefones funcionando, ligados em casa para assinantes. Depois, com campanhas de vendas, a central esgotou, foi sendo ampliada. Quando eu saí de lá, já tinha 1600 telefones, fiquei lá durante seis anos.

 

P/1 - O senhor já foi para lá casado?

 

R - Eu fui para lá casado. Eu fui para lá em 1973... Não estou seguro, mas talvez tenha sido em novembro de 1973, já tinha um filho com quatro, cinco meses de idade, o filho mais velho.

 

P/1 - Certo. Quantos filhos o senhor tem hoje?

 

R - Tenho três filhos: o Marcelo, que hoje é engenheiro, trabalha na CTBC Telecon já há uns quatro ou cinco anos, não sei. O Márcio, que está na fase final do seu curso de Medicina em Uberaba, e o Osvaldo Júnior, que estuda aqui na Universidade Federal de Uberlândia, Engenharia Elétrica também.

 

P/1 - O nome da sua senhora?

 

R - Elizabete, também é natural de Frutal.

 

P/1 - Grupo de Frutal. Bom, de Guaíra em diante... Senhor Osvaldo ficou lá seis anos. E aí, qual foi a sua trajetória?

 

R - De Guaíra, graças à felicidade que nós tivemos de montagem, de uma boa equipe, de bons resultados que a gente obtinha, eu fui convidado a ir para Batatais assumir a gerência de uma chamada sub-regional que estava em um processo de restruturação da área da CTBC, da forma de administrar. Então a área de São Paulo ficou como uma única regional sob a gerência do Luiz Márcio, e tinha um superintendente que era o senhor Wilson, de Ribeirão Preto. Eu fui convidado a assumir a gerência de Batatais, que era uma sub-regional. Contava ali com umas... Eu não me lembro bem se eram umas 12 localidades. Tempos depois, [em] uma nova reestruturação, a sub-regional foi elevada à condição de regional e eu continuei como gerente regional, nessa época. Lá eu fiquei do final de 1979 até começo de 1990, janeiro de 1990, quando eu vim para Uberaba.

 

P/1 - Certo. Uberaba também para que tipo de atividade?

 

R - Uberaba eu vim como gerente regional também. Naquela época era uma única regional, depois foi dividida em duas, e agora novamente voltou a ser uma única regional.

 

P/1 - Essa era uma fase de expansão da base tecnológica da Companhia, não era? No momento exato da transição da linha física para micro-ondas e tudo mais. Está correta essa...

 

R - Está correta sim, está correta.

 

P/1 - O senhor podia descrever um pouco como é que foi esse caminho? Quer dizer, de onde saímos e até onde chegamos?

 

R - Olha, começar por Frutal. Quando nós tínhamos dificuldades muito grandes em completar ligações telefônicas, como por exemplo... O grande fluxo era destinado à área de São Paulo, porque é uma cidade muito próxima ao estado de São Paulo, com vínculo comercial e outros vínculos de toda natureza. Então as ligações eram direcionadas para Barretos e nós contávamos ali – se não me falha a memória –, com dois circuitos interurbanos apenas, ou seja, apenas duas ligações poderiam acontecer simultaneamente. E esses circuitos ainda tinham que ser compartilhados com ligações que nós estávamos expedindo com ligações que outras localidades queriam falar em Frutal. E para Uberlândia, creio também que não passava de quatro circuitos, e nessa época já existia algum tipo de equipamento multiplexador de circuitos que multiplicava aquele circuito. Eu não me lembro bem se era o chamado K32 ou SE30... Acho que era K32. O equipamento funcionava muito mal, mas ele quadruplicava o circuito interurbano. Antes de eu sair de Frutal, mesmo antes da inauguração da central automática, foi instalado um sistema DQ12 para Barretos. Aí sim. Parecia que nós estávamos saindo de uma hora e passando para outra, porque tínhamos 12 circuitos. Aliás, 14 circuitos, contando com outros dois anteriores para completar ligações. Isso dava uma vazão muito melhor e, naquela época, o Brasil passava por um processo de crescimento muito grande, então a carência e a demanda por meio de comunicação aumentava por todo o tanto que você ampliasse seus meios de comunicação, a demanda estava sempre maior, sempre maior. Mas a CTBC nunca deixou de investir, investir pesado e ser pioneira no lançamento de produtos e buscar recursos para elevar. Para você ter uma noção, Barretos [que] era uma cidade muito maior do que Frutal, não tinha ainda sua central telefônica local como automática, era completada ainda por telefonista. Isso causava um certo ciúme, certo espanto neles, ver como uma localidade... Uma não, diversas localidades da CTBC que tinham conexão com eles já eram automáticas, por exemplo, pequenas localidades, como Planura, Colômbia, que estavam bem próximas ali, já tinham seus telefones locais automatizados. Essa migração para o sistema de micro-ondas veio acontecer um tempo mais tarde, depois. Eu já não estava mais nessa época em Frutal, e o sistema interurbano na área do estado de São Paulo era todo feito pela Telesp [Telecomunicações de São Paulo S/A]. A CTBC não tinha a concessão para instalar circuitos interurbanos, então nós usávamos sistema da Telesp. E era um sistema bem... Ela demorou a atender, tanto que Guaíra, quando eu estava saindo de Guaíra que ela estava inaugurando o seu sistema de micro-ondas, ligando com Barretos. Até então era atendido pela CTBC precariamente através dos chamados DQ12 e linhas físicas.

 

P/1 - Embora o senhor estivesse se mantendo já nessa época em cargos de chefia, em alguma medida... Fazia sentido para o senhor aquilo que o senhor Alexandrino sempre tinha na cabeça, quer dizer, de ter, na telecomunicação, serviço de telefonia, um serviço público? Quer dizer, o senhor, embora em uma posição executiva operacional, tinha essa sensação de que estava ajudando duas pessoas a se falarem, dois negócios se... Um negócio se concretizar, como é que...

 

R - O slogan da CTBC naquela época era: “o nosso maior patrimônio é o assinante”, e a gente sabia que telecomunicações só existia, só deveria existir para fazer conexão entre pessoas, para interligar pessoas. Claro que nós tínhamos a visão de que era um meio para as pessoas fazerem negócios, mas também tínhamos muito... O que a gente presenciava... Porque já que não era DDD [Discagem Direta à Distância] e poucas pessoas tinham telefone em casa, nos postos de serviço, nos Dias das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Natal, Ano Novo, a fila que se formava de pessoas tentando se comunicar... Momentos afetivos, ligação de pessoas. Então a gente sabia da responsabilidade social da empresa, sabia o que representava telecomunicações para uma localidade, sabia como a localidade podia se desenvolver mais rapidamente se ela tivesse o que oferecer para até outras empresas virem se instalar aqui. E nós tínhamos essa consciência, e a consciência também social e pública da função das telecomunicações – embora fosse uma empresa privada – de inaugurar telefones em localidades aonde não existia nem um banco, ou uma caixa de correio, ou qualquer outra coisa pública. O telefone estava chegando ali, naquela localidade. Então havia um cuidado muito especial do seu Alexandrino em valorizar mesmo pequenas localidades levando o telefone a todas elas.

 

P/1 - Que dizer, foi isso, de algum modo, que acabou sendo o responsável por essa capitalização da CTBC e por essa identificação que ela tem com a área onde atua, é isso?

 

R - Com certeza. A CTBC procurou sempre atender ao máximo todas as localidades, todas as comunidades que estavam dentro da sua área de atuação.

 

P/1 - O que implicava, por outro lado, da parte técnica operacional, uma responsabilidade redobrada, né?

 

R - Sim, porque os meios empregados eram meios físicos, sujeitos à falha, sujeitos a defeito, muito mais do que os meios hoje existentes. Demandava você percorrer quilômetros de estrada de terra para ir trocar um fusível em uma localidade distante, e que, às vezes, até a gente conseguia devido à boa presença que a CTBC tinha, como a imagem positiva de relacionamento que ela tinha nessas localidades, contar com a colaboração de pessoas da própria localidade em reestabelecer sistema trocando fusíveis para que o sistema voltasse a funcionar mais rapidamente.

 

P/1 - E havia muitos problemas, senhor Osvaldo?

 

R - Sim, havia muito problema. Os meios eram bem rudimentares. Eram fios de alumínio ou de cobre interligando quilômetros de distância. As descargas atmosféricas, naturalmente, queimavam os fusíveis na ponta.

 

P/1 - E como localizar o ponto exato do problema? Percorrendo?

 

R - Quando era fusível queimado era muito simples, porque por medição se identificava que a linha estava chamada aberta, ou ela poderia estar com o fio rompido pelo meio, partido, de alguma forma, ou poderia ter fusível queimado na sua extremidade. Como a gente já contava com a ajuda do lado de lá em substituição de fusível, ela continua aberta... A gente percebia que estava aberta, eram deslocados técnicos para percorrer toda a linha observando se tinha algum outro defeito. Se não, ia até o final para localizar, talvez o fusível não tivesse sido substituído, ou algum outro problema poderia estar ocorrendo na ponta.

 

P/1 - Certo. E o assinante, o que falava em um momento desses?

 

R - Os assinantes, com raras exceções, eram bem mais tolerantes do que hoje.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Porque sabiam das dificuldades, sabiam que não era fácil e sabiam que a importância da telecomunicação tinha... Sabia valorizar a importância que a empresa dava em atendê-los. Então eu enfrentei dificuldades naturais algumas vezes, de alguém reclamando de falta de assistência porque não saía naturalmente no tempo que ele tinha expectativa. Mas, por outro lado, a gente tinha sempre o reconhecimento do apoio que a empresa sempre deu às comunidades.

 

P/1 - Perfeito. Esse momento de Uberaba... Quer dizer, o senhor permaneceu lá por quanto tempo?

 

R - Uberaba eu vim em 1990. Na época do Collor de Mello assumindo o governo, nós também estávamos chegando em Uberaba. E eu fiquei lá até meados de 1996, quando a própria CTBC me convidou a ser o coordenador de um projeto que ela tinha em parceria com a Daruma Telecomunicações, que era administração da planta de telefones públicos. Nessa época eu deixei de ser associado da CTBC e passei a ser associado da Daruma, onde eu fiquei por apenas oito meses. Depois eu voltei novamente para o grupo, agora já na Engeset.

 

P/1 - Na Engeset. No que consiste seu trabalho agora, na Engeset?

 

R – Hoje eu trabalho na área comercial, e gerencio a pasta de um cliente chamado CTBC. Para mim é um trabalho muito prazeroso, porque eu tenho um vínculo afetivo muito grande com a CTBC, um respeito muito grande pelo cliente CTBC e uma facilidade enorme no relacionamento com as pessoas que ali trabalham.

 

P/1 - Que dizer, isso é uma marca registrada da Companhia, desde esse tempo que o senhor está na CTBC, esse tipo de relacionamento sempre foi um, digamos, retorno muito importante na vida da empresa, não é isso?

 

R - Eu tenho que, trabalhar na CTBC é como se estivesse em família, porque nós temos uma facilidade. Eu sempre tive uma facilidade muito grande de me relacionar com os meus colegas de trabalho, o respeito é muito grande. A CTBC sempre foi uma escola, a gente pode aprender muito na CTBC. Quem trabalha na CTBC está apto a trabalhar em qualquer outra empresa.

 

P/1 - Tanto do ponto de vista dos benefícios como das dificuldades?

 

R - Também. As dificuldades são sempre oportunidades de aprendizado. Sempre foram, sempre tivemos muita liberdade em ousar resolver problemas que aparecessem sem ficarem engessado em procedimentos. Tínhamos a... Existem procedimentos, sim, porém eles não engessavam a inteligência, a habilidade da pessoa em resolver problemas.

 

P/1 - O senhor atribuiria isso a essa compulsão da Companhia em sempre estar na frente com a indústria tecnológica, mesmo sendo uma Companhia pequena e perdida no meio do Brasil Central? Foi pioneira?

 

R - Eu creio que foi contagiando todo mundo, e todo mundo queria ver a empresa como a empresa de ponta, como a melhor empresa de telecomunicações no Brasil. E é, seguramente, uma empresa que sempre figura entre as melhores do Brasil, seus indicadores mostram isso.

 

P/1 - Claro. São indicadores que são acima da média... No tempo da Telebrás, por exemplo, trabalhava-se com indicadores diferentes daqueles que se usavam no Brasil.

 

R - E, principalmente, naquela questão da responsabilidade social você observa que a CTBC sempre teve mais telefones por 100 habitantes do que qualquer outra empresa no Brasil.

 

P/1 - Perfeito. Isso o assinante reconhece, em algum momento?

 

R - Talvez não seja tão reconhecido porque não é tão divulgado. Talvez, se fosse mais divulgado pelos...  [Se] os meios de divulgação se interessassem por isso, poderia estar sendo mais reconhecido, mas quem conhece do assunto, os especialistas do assunto, a imprensa especializada, os grandes administradores públicos, todos reconhecem isso.

 

P/1 - Ao que o senhor atribui essa resistência da Companhia em permanecer privada mesmo no momento que a estatização era galopante, que a Telebrás [estava] sendo formada, os governos autoritários... Ao que o senhor atribui essa sobrevivência da empresa enquanto tal, da forma que ela foi constituída?

 

R - Bom, em primeiro lugar porque a visão de atendimento às comunidades era ampla e era real. A empresa estava atendendo. Então, por que privatizar? O que mudaria nessa situação? Que o governo estaria acrescentando mais uma estatal, estaria fazendo mais que a própria CTBC? Responsabilidade social não poderia ser. Se ela dissesse que era uma empresa estatal sem fins lucrativos, a mesma tarifa que era aplicada para ela era aplicada para a CTBC. Então, o que existia aí, apenas era jogo de interesse, de poder político, uma coisa nesse sentido. Ou vaidade de governantes em querer dizer que estavam 100% sob o controle do governo, porque nada justificaria uma estatização. Sim, justificaria, ao contrário, uma privatização. Agora, por outro lado, o que manteve a CTBC como empresa privada? Eu só posso entender que era o amor que os seus diretores, a começar pelo senhor Alexandrino, tinha por essa empresa. O que eles construíram, não queriam passar ‘de mão beijada’ para outros. Ainda poderiam construir. Há fatos que a gente sabe de pessoas que, praticamente, doavam sua vida em defesa desse ideal. Como o caso do senhor Olegário, que nós sabemos que... Eu não posso dizer qual a localidade, mas que ele entrou para uma localidade e fechou as portas de uma central telefônica, fechou as portas e não permitiu que a central telefônica fosse invadida porque estaria sendo, na íntegra da palavra, invadida pelas Forças Armadas para ser estatizada. E ele resistiu ficando lá dentro – se não me falha a memória – por três dias sem sair para não permitir que houvesse invasão. Por exemplos como esse, a gente nota como existia o desejo de todos que trabalhavam aqui dentro de permanecer na empresa como empresa da iniciativa privada. Na época do término das concessões, aí pelos anos de 1993, talvez, houve um esforço voluntário e muito grande de pessoas indo para Brasília fazer lobby junto aos políticos. Nenhum lobista profissional, todos trabalhadores. Deixavam suas casas, passavam a semana toda em Brasília visitando gabinete por gabinete de deputados e senadores e conversando com os próprios deputados, conversando com os seus assessores e fazendo lobbies para... Mostrando quem era a CTBC, quem éramos nós, que estávamos ali, o que é que era, o que nós estávamos defendendo, qual era o nosso ideal, e explicando que não haveria razões de estatização. Felizmente, nós tivemos um resultado positivo e a concessão foi novamente renovada, e agora passa o perigo da estatização.

 

P/1 - É curioso que essa coerência foi uma coerência moldada, implantada desde o tempo em que o fundador começa a estabelecer esse tipo de relacionamento que faz o diferencial da Companhia, não é verdade?

 

R - Eu acho que, até hoje, a empresa está seguindo as linhas de raciocínio de idealismo do fundador, acho que ela não mudou. Especialmente, nós podemos ter certeza disso, porque o seu filho continua à frente da empresa, tocando com o mesmo ideal que ele tinha antes de vê-la como empresa moderna, como empresa pioneira, que investe, que se preocupa com a sua função pública.

 

P/1 - Senhor Osvaldo, nessa trajetória toda sua dentro da Companhia, sem lhe pedir nenhuma previsão, mas como é que o senhor enxerga o futuro? O que vem pela frente? Quer dizer, o que o horizonte está desenhando para CTBC?

 

R - Eu acho um pouco difícil opinar sobre isso, mas eu vejo que nós estamos cercados por gigantes. E não temos outra alternativa, a não ser crescer. E para crescer, nós teremos que enfrentar os gigantes que estão nos cercando. São três grandes empresas que estão cercando e nós temos que, de alguma forma... A CTBC está muito próxima de conseguir êxito nesse sentido, de antecipar todas as metas impostas pela Natel para ela se habilitar a compartilhar áreas onde outras empresas estão atuando. Então eu enxergo a CTBC como a empresa que tem todas as possibilidades de crescer.

 

P/1 - Que peso o senhor atribui a esse tipo de relacionamento – que é um relacionamento incomum –, tomando-se como referências outras empresas de telecomunicação, relacionamento internalizado na área de atuação? Que peso o senhor atribui a isso? E que significado tem isso para que esse enfrentamento seja mais bem sucedido?

 

R - Eu diria que a maior de todas as características é o comprometimento que as pessoas que trabalham nessa empresa têm com ela. E uma vez comprometidas, elas se sentem donas e, como donas, se unem para alcançarem o objetivo. Então eu não vejo que existam barreiras suficientes para segurar uma vontade grande como essa.

 

P/1 - Perfeito. Senhor Osvaldo, eu estou satisfeito. Eu queria apenas que o senhor me dissesse o seguinte; se hoje, o senhor tivesse recebendo um novo associado na Companhia, o que o senhor diria para ele?

 

R - Bem menos palavras do que eu disse aqui. Eu tentaria dizer... É o que eu sempre fiz durante esses bons anos que eu fiquei pelo grupo, né. Trinta e... Praticamente 31 anos que eu estou no grupo. As mesmas coisas que eu transmiti. Tive a felicidade de ver pessoas que eu participei no processo de seleção e recrutamento e hoje [são] pessoas que ocupam cargo dentro da empresa, que cresceram. Pessoas que estão fora, mas que até hoje têm um vínculo e vivem com o que aprenderam dentro desta empresa. E pode ser aplicado tranquilamente lá fora, porque daqui saiu contaminado por esse desejo de fazer as coisas.

 

P/1 - Essa ideia de serviço público é uma coisa que está muito impregnado na atividade das pessoas...

 

R - Com certeza.

 

P/1 - Perfeito. Alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e eu não tenha lhe provocado a dizer?

 

R - Eu creio que não, creio que não. Se fosse para contar os detalhes, talvez nós tivéssemos que fazer como outros entrevistados aí, de 15 horas, e nós não queremos competir com ele. Mas detalhes, certamente muitas outras pessoas vão acrescentar no que eu já falei. Foi interessante a gente conhecer a empresa que começou, praticamente, do nada, com poucos recursos, e hoje é a empresa que é, o modelo de empresa que serve como parâmetro para que outras empresas possam seguir.

 

P/1 - O que lhe pareceu ter dado esse depoimento, como é que o senhor se sentiu?

 

R - Me senti muito bem, porque falar daquilo que a gente viveu, do que a gente gosta, a gente fala com naturalidade. Não é preciso trazer nenhum texto escrito, não tem preocupação de decorar absolutamente nada, é falar coisas que nós vivemos em nosso dia a dia. Tem uma vida toda minha, praticamente, dentro da empresa. Mais da metade da minha vida vivi dentro da empresa. Me casei, os três filhos foram criados com o fruto do trabalho dentro dessa empresa. Hoje, já tenho um filho trabalhando no grupo, na empresa, e outro certamente será candidato, vem aí fazendo, seguindo esse mesmo caminho. Não sei o que acontece até lá para frente, mas, dessa empresa, tenho apenas boas recordações e desejo para ela o melhor que ela possa conseguir.

 

P/1 - E ela é o que é por causa de pessoas como o senhor.

 

R - Apenas uma grande multidão de pessoas que tiveram suas vidas bem voltadas para o resultado que hoje está aí.

 

P/1 – Perfeito, ok. Muito obrigado.

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