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História

Não existe paixão como a de petroleiro

História de: Kátia Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

A entrevistada conta sobre sua infância em Barra Mansa e juventude em São José dos Campos - seus estudos, casamento e trabalho. Fala sobre a carreira e vida de seu marido enquanto funcionário da Petrobras.

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História completa

P/2 – Bom dia, Kátia.


R – Bom dia.


P/2 – Eu gostaria de começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Meu nome é Kátia Rosane Almeida de Oliveira Souza, nascimento é... data e o quê?


P/2 – Local e data.


R – Volta Redonda, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1955.


P/2 – Agora, me fala o nome dos seus pais e o nome dos seus avós.


R – Já são falecidos os dois: Aloísio Antunes de Oliveira e Maria Helena Almeida de Oliveira. Avós maternos ou paternos?


P/2 – Materno e paterno.


R – Materno: Maria de Lourdes de Carvalho Almeida e José Guilherme de Almeida. E os paternos,  Durvalino de Oliveira e Nair de Freitas.


P/2 – Agora, me conta um pouco sobre o que os seus pais faziam, qual era a atividade deles?


R – Nós morávamos no Estado do Rio, depois fomos para São Paulo. Minha mãe era do lar. Ela ajudava de vez em quando o meu pai no escritório que ele começou como contador. Depois ele se formou em advocacia. Então, os filhos todos começaram a trabalhar no escritório, já no escritório dele. 


P/2 - E os seus avós, eles faziam o quê?


R – Olha, meu avô quando eu já estava com uns 13 ou 14 anos, ele já era aposentado, né? Mas ele foi comerciante. A minha avó também era do lar. E do lado do meu pai, meu avô trabalhava na Rede Ferroviária, e a minha avó também era do lar. Antes de eu nascer, ela já era falecida.


P/2 – A sua família ela é toda de Volta Redonda, por parte de pai, por parte de mãe?


R – De Barra Mansa e Bananal. Do lado do meu pai, eu não conheci muito porque quando eu nasci o meu pai já não tinha mais mãe, e o pai dele já tinha falecido. Logo que eu nasci o pai dele faleceu, num acidente de trem mesmo. Do lado da minha mãe eu convivi mais. E aí, a minha avó materna que é de Bananal e o meu avô é de Barra Mansa. 


P/2 – Bananal fica onde?


R – É no Estado do Rio também.


P/2 – Você tem irmãos?


R – Tenho três.


P/2 – São mais velhos?


R – Não, são todos mais novos, eu sou a mais velha.


P/2 – Me conta um pouco da sua infância. Como é que foi a sua infância lá em Barra Mansa?


R – Olha, eu fiz... foi o primário, né? Era apartamento, aqueles apartamentos antigos, com bastante criança...[risos].


P/2 – Vocês moravam em apartamento?


R – Em apartamento.


P/1 – Isso em Volta Redonda?


R – Não, em Barra Mansa. Volta Redonda eu não lembro, porque eu era pequena, né, mas era casa. Depois em Barra Mansa é que fomos para apartamento, aqueles bem antigos, bem grandes e cada um tinha assim, era quatro... esse dias mesmo, antes da minha mãe falecer, nós estávamos conversando, era quatro, cinco, sete filhos...[risos].


P/2 – Dava todo mundo no apartamento?


R – Todo mundo morando em apartamento, então, quando reunia a criançada era... E tinha terreno vazio ao lado, então a brincadeira era tudo ali, né, para ir andar de bicicleta, né? E eu, sempre a mais velha, eu que tomava conta dos meninos [risos].


P/2 – E você convivia com algum outro parente, primos...?


R – Tenho bastantes primos, em Barra mansa mesmo. A minha mãe também, os primos dela tem rádio, faculdades, né? É que quando eu saí, já estava com 12 para 13 anos, não tinha tanto contato com eles assim. A minha mãe que vinha mais para o Estado do Rio, visitá-los, né? Eu não, porque aí eu já fiz família lá, então com criança pequena não dava sempre, mas tenho bastantes primos aqui ainda, no Estado do Rio.


P/1 – Mas lá em Barra Mansa a família era muito grande, era aquela coisa...?


R – É, é família grande. A minha avó materna, do lado dela, são nove, são nove.


P/1 – Nove filhos.


R – Nove filhos. Do lado do meu pai que já era pequeno, na família eram só dois. Teve um que logo que nasceu, morreu; um não, acho que foram dois. Então, dois filhos só. Vivos, né? E um depois faleceu, em 1970. Então, a família do meu pai era pequena. Tinha uma tia que a gente tinha bastante contato, ela sempre visitava a gente. Adorava ir em Aparecida no dia de Nossa Senhora, aí, chegava até São José, né? Então, era essa tia que mais tinha contato com a gente, do lado do meu pai e a irmã dele, que é do segundo casamento do pai dele, que até hoje liga para a gente.


P/2 – E lá, com quem vocês moravam mesmo, na sua casa, os seus avós moravam com vocês, não?

                

R – Não, não, não moravam não.


P/1 – Só os irmãos.


R – Só os irmãos mesmo.


P/1 – Conta para a gente mais um pouquinho, como que era essa vida em Barra Mansa, como que era Barra Mansa naquela época, era muito grande, tinha muitas casas...?


R – Não, era uma cidade pequena, né [risos]. Em relação a São José dos Campos, para onde eu fui já no ginásio, então foi uma grande diferença. Porque aqui ainda a gente morava no bairro, onde teria que atravessar uma ponte para ir para o centro da Cidade, aquelas coisas bem… de maneira antiga. Tinha banda [risos] que passava. Eu lembro que o meu irmão “catava” as tampas da panela da minha mãe para ela sair atrás [risos]. Né, aquelas coisas de criança. E era bem gostoso. Nós tivemos uma infância de brincar na rua, andar de bicicleta. Não tinha esses perigos que hoje tem. Hoje, o divertimento da criançada é shopping, né? Quando vão num sítio, ou numa chácara ficam abismados de ver os bichos, não estão acostumados. E antigamente criava-se até pintinho, essas coisas. Que o apartamento era bem grande, né, então, é bem diferente de hoje em dia, então, foi aquela infância bem gostosa.


P/2 – Vocês tinham animais dentro do apartamento?


R – Tinha, cachorro. Mas, de vez em quando, a minha mãe dava um sumiço, porque o meu irmão era daquele que o primeiro animalzinho que via, ele pegava, adorava,  né, então, aí... E também às vezes atrapalha, né, porque é novinho o bicho, então não tem condições, em apartamento é mais difícil.


P/2 – E você tinha lá sem ser os seus irmãos, tinha amigos na rua...


R – Tinha, tinha.


P/2 – Quem eram os seus grupos de amigos?


R – Tinha a vizinha mesmo do apartamento, a Marici e a Cirene. Elas tinham fazenda. O pai delas tinha uma fazenda arrendada. Sempre no final de semana, escolhia uma amiga de uma das duas para levar. Então, uma semana era uma amiga da Marici - eu era da mesma idade e do mesmo mês dela, interessante era isso, né? Aí, a outra, a Cirene, era da mesma idade e do mesmo mês que o meu irmão. E quando fomos ser vizinhos, já tinham nascidos, quer dizer, foi super coincidência, né? Hoje em dia a gente não tem mais contato. Cada um vai para um lado, mas era bem gostoso a brincadeira e poder ir para a escola sozinho, de não precisar depender de carro para tudo, como hoje.


P/1 – Quais eram as brincadeiras?


R – Ah, eu lembro de bambolê, pular corda [risos]. Que mais? Andar de bicicleta, brincar de boneca, aquelas coisas de menina mesmo, né?


P/1 – Fala para a gente mais um pouco: como é que era o cotidiano da casa, o que vocês faziam, quem fazia o que, a casa em relação aos pais, como que funcionava a casa de vocês.


R – Olha, era mais a minha mãe e eu. Como menina e sendo a mais velha, sempre ajudei. Mas todo serviço era por ela. Depois por empregada também que sempre precisa, às vezes não precisa ser todos os dias, né. Ela fazia curso de corte-costura, então, precisava de empregada para ficar, porque sempre tinha uma criança pequena. Ou que não estava ainda na escola, não era costume colocar na escolinha criança com dois ou três anos. Eu lembro que eu fui eu já estava, acho, que com 6 anos. Hoje em dia, às vezes antes de completar sete, já está no primeiro ano e antigamente não. Tinha que completar os sete anos para poder entrar na escola.


P/2 – Qual foi a sua primeira escola, você lembra o nome?


R – Foi o das irmãs, aí foi como o maternal, né?


P/2 – Irmãs _______ _______


R – Era, uma escola de irmã de caridade. Eu não lembro do nome. Mas, depois a parte do primário foi em escola pública...


P/2 – Lá mesmo.


R – Foi do grupo escolar Barão de Aiuruoca.


P/2 – E como é que era, você ia sozinha?


R – Ia, porque morando em apartamento, né, tinha bastante gente que ia para o mesmo lugar, no mesmo horário, então aí a gente ia junto. Até no primeiro ano mesmo, não tinha nada daquele negócio da mãe levar, levavam às vezes no primeiro dia, mas na volta já vinha, sabia da turminha ali, a gente já voltava tudo junto.


P/2 – E como é que era essa escola?


R – Olha, para hoje em dia, ela era excelente. Porque eu lembro que, terminando o primário, você tinha que fazer o curso para entrar no ginásio. Você tinha que fazer admissão. E a minha tia, mãe da minha avó, ela dava esse curso, feito uma extensão do primário e eu lembro que eu fiz junto com o quarto ano primário. Aí eu passei e comecei no Nossa Senhora do Rosário, em Volta Redonda, escola também de irmã. Mas aí, antes do meio do ano, nós já fomos para São José dos Campos, e eu fui lá para escola de irmã também.


P/2 – Mas você foi estudar em Volta Redonda, morando ainda em Barra Mansa?


R – Em Barra Mansa. É coladinho e então tinha ônibus circular, né, então é pertinho.


P/1 – E na sua casa assim, você acha que você teve uma educação religiosa, como que você acha que você via isso?


R – Tive, tive sim, tive sim.


P/1 – Você estudou em escolas mais religiosas...


R -  É. Até depois eu brinquei com a minha mãe que, quando cheguei no colegial, eu já estava no Estado de São Paulo e a escola era Estadual. Mas era a melhor escola do científico de antigamente - já tinha caído o científico, acho, devia ter outro nome, que agora eu não recordo, para o ensino médio. E aí era o melhor. Aí eu falei para ela: “Chega de escola de irmã, que eu não aguento mais ver todos de hábito todo dia” [risos]. Ela queria outra escola particular, porque essa que eu estudei em São José era até só a oitava série. Depois tinha que ir para outra. Aí eu fui para escola pública e era excelente, em relação a hoje em dia, que não garante nada para você passar numa boa faculdade. Bem diferente de tudo que eu fiz com as minhas filhas, né. Desde pequenas coloquei em escola de irmã também, desde o jardim até a oitava. Depois foram para outra escola, para dar base para poder fazer uma boa faculdade, né, não depender às vezes tanto do cursinho, não ficar pensando que tem os três anos e mais o cursinho para fazer.


P/1 – Como é que era a rotina num colégio de irmã como você falou, você estudou tanto...?


R – É, todo dia tinha que fazer fila, tinha que rezar, que cantar. Esses dias mesmo minhas filhas comentaram… É que eu fui ao apartamento da minha filha, lá em Ribeirão e ela falou… a escola Marista também é no estilo que elas estudaram, né? Aí elas falaram: “A lá, mãe, a musiquinha”. Tem que tocar o hino todo dia, tem que cantar, tem aquelas musiquinhas de entrada e, sendo católica, tem as músicas das missas, que sempre tem uma que entra no meio e antigamente era mais sério ainda, a fila, era fila indiana, em silêncio a hora que passasse no corredor, era muito... a saia não podia ser curta...


P/2 – E era colégio misto, ou era só de meninas?


R – Só de menina, só de menina.


P/1 – Sempre você só estudou em colégio de meninas?


R – No primário não. Era misto porque era estadual, né, acho que era estadual sim. E no ginásio sim, depois o colegial não, aí o colegial é misto.


P/1 – Mas em casa, vocês tinham hábitos religiosos, não?


R – Tinha, tinha sim.


P/1 – Como que era isso?


R – Olha, a gente não era assim, vamos dizer, de estar todo dia ali na bíblia e tal. Mas pelo menos de noite a gente deitava na cama com a minha mãe, a gente conversava, tudo que chegava do serviço, de qualquer coisa, a gente sempre teve assim uma base, vamos dizer, mais do lado da minha mãe. Que o homem às vezes não consegue seguir junto com o horário dos filhos, às vezes chega já está... se é pequeno às vezes já está até dormindo, né, depende da onde trabalha.


P/1 – E quem é que exercia mais autoridade em casa, você acha que era o seu pai, era a sua mãe, como que era isso?


R – Olha, a moda antiga é mais a mãe, que você vai perguntar alguma coisa, falar com pai: “Ah, é a sua mãe”, né, era sempre assim. Ainda mais que ela ficava em casa e, como ele tinha escritório, então, às vezes não tinha muitos horários. Ele vinha todo dia almoçar em casa, coisa que hoje é difícil, né, quem trabalha em refinaria, alguma coisa assim, em fábrica, fica difícil de vir almoçar em casa. Ele não, ele vinha todo dia. Às vezes podia não bater o horário, mas ele sempre vinha almoçar em casa sim.


P/1 – E aí, voltando aos estudos, você estudou nessa escola de irmãs, né, que foi o ginásio.


R – Foi.


P/1 – Aí depois, depois você fez o quê... Isso foi em Volta Redonda.


R – Não, o ginásio eu comecei em Volta Redonda. Fiz o primeiro ano, aliás não fiz nem seis meses, já fui para São José dos Campos, em abril ou maio, mais ou menos. Aí nós mudamos, achamos melhor eu ir e já antes do meio do ano, né? Então, assim que terminou o primeiro bimestre eu já fui, para poder dar certo, encaixar, por causa de notas, problema de notas. Também para não dar problemas na escola, que se não às vezes você tem que fazer outras provas.


P/1 – Então a família tinha acabado de mudar aí você foi acompanhando a família.


R – Fui.


P/1 – E como que foi lá em São José, você sentiu diferença na vida que você levava em Barra mansa? 


R – Senti, senti sim. Mas lá já estava a minha avó. Ela já estava morando lá, a mãe da minha mãe já estava morando lá com o meu avô, todos os irmãos dela... Todos não, ficaram... era ela e mais dois que moravam em Barra Mansa, aí acabaram ficando dois e ela foi. Aí, depois, no final, foram todos para São José, não ficou nenhum em Barra Mansa.


P/2 – E por que vocês se mudaram assim, tão... no meio do ano?


R – Não, já estava programado, mais ou menos, para a gente mudar. E, vamos dizer, sempre que tive férias eu vinha, eu vinha passar aqui em São José. E o campo de São José dos Campos era maior para trabalho, para tudo. Hoje pode ter bastante desemprego e tal, mas onde que não tem, né? Mas era um campo bem grande em relação à Barra Mansa, que era uma cidade pequena, pacata. Mas o meu avô já tinha vindo há algum tempo, e depois ele acabou ficando doente. Aí ele se aposentou e a minha avó continuou aqui em São José mesmo, junto com todos os filhos menores, os que já estavam aqui com ela.


P/2 – Você tinha quantos anos?


R – Eu tinha 12 anos. 12 anos mais ou menos, 12 para 13 anos.


P/2 – E como é que foi essa mudança para você?


R – Para mim foi bom, eu gostei. Tanto é que agora, voltando a morar aqui no Rio de Janeiro, eu falei: “Olha, nunca pensei de voltar, depois de tanto tempo”. Ainda brincaram: “Ih, agora você vai ser carioca”. Falei: “Ó, já sou meio carioca, né?” [risos]. Que eu nasci no Estado do Rio e voltei agora. Se bem que chegou para o marido, vamos dizer, para ele é ótimo o serviço que ele está fazendo aqui no Rio. Aí ele já está a um tempo aqui sozinho. Final de semana ele vai para casa. Quando tem feriado, alguma coisa, a gente vem para o Rio. Mas uma vinha de Ribeirão, a outra fazendo cursinho, e às vezes tinha as provas para fazer, os simulados, aí não dava, né, eu fiquei presa. Mas agora já estamos vindo definitivamente para cá.


P/2 – Mas você quando chegou lá, você fez amigos com facilidade?


R – Sim, vamos dizer, eu me achava tímida, [risos]. E me soltei depois. Mas conseguia fazer bastantes amizades. Tanto é que eu sou de fora, moro lá, o Lairton também, a mesma coisa, e sempre que alguém fala comigo, ele fala: “Nossa, você veio de outro estado e tal e conhece tanta gente!”. Porque: “Oi, Kátia!”. “Oi, como vai, não sei o quê...” .Ele fala: “Quem que é?”. Aí eu falo: “Ah, eu estudei no ginásio”. “ Ah, eu fiz faculdade com tal pessoa”. Mas é gostoso...


P/2 – E qual foi a escola que você foi para São José, qual era o nome da escola, a Senhora se recorda?


R – Do que, de ginásio?


P/1 – De ginásio, é.


R – Foi Ginásio Nossa Senhora da Aparecida.


P/1 – Também era particular.


R – Era particular.


P/1 – Quais são as recordações que você tem dessa escola?


R – Olha, tenho bastante… Tem até uma que estudou comigo e hoje em dia mora no mesmo bairro que eu, por coincidência. Depois de... sei lá, praticamente 30, 30 e poucos anos. Até o filho dela, acho, que estudou com uma das minhas filhas, agora, no colegial, né? Que aí depois você passa e fala assim: “Ah, eu tenho um amigo que mora aí”. Eu falei: “Mas a menina que estudou comigo, que estudou comigo lá na quinta série mora aí”. Então, uma coisa que a gente fala é que o mundo é redondinho. Você vai, vai, vai, volta e cai ali no mesmo lugar e a cidade é bem grande. E mesmo assim a gente ainda tem uns encontros bem... coisa assim bem antiga, né? [risos].


P/2 – O que que você fazia para se divertir lá, qual era a opção de diversão lá?


R – Olha, lá eu tinha bastantes primas e vamos dizer, primas às vezes menores, levar no cinema... Eu lembro que eu levava...


P/2 – Você que levava todo mundo?


R – É, é. Eu era a mais velha. A minha mãe... acho que os quatro dela são os mais velhos da família, né? Então, eu levava a criançada para assistir Pato Donald, tudo que era da Disney, lá estava eu, levando a criançada.


P/2 – Tinham muitos cinemas lá?


R – Tinha, tinha sim. 


P/2 – E o que que tinha mais lá para fazer?


R – Olha… passeio de domingo era aquele negócio daquela cidade que ainda, vamos dizer, por ela ser maior do que Barra Mansa… mas era passear no centro, os cinemas ficavam no centro. Aí a gente ia dar a volta ali, fazer o todo trajeto da avenida. Depois, quando... vamos dizer, você vai crescendo mais, são barzinhos, coisas assim, feito lanchonete, que era da época. Mas é uma cidade bem desenvolvida que eu me adaptei muito bem. 


P/2 – E aí você terminou o colegial e você continuou a estudar?


R – Continuei. Eu prestei vestibular direto, saindo do terceiro colegial. Aí passei, fui fazer matemática em Taubaté, que é uma cidade perto. Dá uns trinta minutos de carro, acho que não chega a tanto assim.


P/1 – E porque essa escolha de matemática?


R – Olha, eu sempre gostei da parte de exatas. E aí às vezes você… não tem tanta informação. Lá tem sim a faculdade de odontologia, que é da Unesp [Universidade Estadual Paulista], quer dizer, pública... Eu lembro que uma das professoras, no terceiro colegial mandou... eu estava fazendo a parte do normal,  para a área do normal. Estava no terceiro, eu teria que completar o quarto ano, para ser professora primária. Só que aí eu não fiz, passando na faculdade eu não fiz o quarto ano. Ela mandou a gente visitar as faculdades, conversar e tal. Nós fomos à faculdade de odontologia, que era em frente à escola, atravessamos, fomos lá, aí eu não gostei muito, não, de ver com o que eles teriam que mexer. Porque eles mexem da cabeça para cima também, o primeiro, acho, não tenho certeza se primeiro ou segundo ano, seria como o de medicina. Eu não achei aquilo muito legal. Não sei se a apresentação da faculdade, lá o pessoal levou muito na brincadeira, quis fazer gracinha, não gostei, aí não fiz. Engenharia ou arquitetura... eu achava que eu não sabia desenhar legal, então que não seria legal eu fazer e como eu estava fazendo o normal eu falei: “Então eu vou fazer matemática que eu gosto das coisas exatas”. Aí, fui e fiz.


P/1 – E tinha alguma expectativa da sua família em você seguir alguma carreira?


R – Não, não. Nunca interferiram de falar assim: “Você vai fazer tal coisa” ou pelo meu pai ser contador deveria fazer ciências contábeis, ou depois ele se formou em advocacia. Tenho, sim, um irmão que é advogado. Mas ele é o terceiro, o segundo é arquiteto, quer dizer que [risos] não teve muito aquele negócio de “a família é dessa área, é ali que nós vamos”. Como agora, a família do Lairton está,assim, indo para área médica. As minhas duas filhas, praticamente. Que a outra faz nutrição. Então é uma coisa assim que depende da idade ou de cada época, vai abrindo um leque para um lado. Tinha bastantes professores. Aí eu comecei a lecionar, mas, como eu já trabalhava, já tinha o meu ganho, aí você começar aquilo dali e fazer, até fazer ou na escola particular, o seu nome, ou numa escola pública e tal, ou não cobria todos dos horários, né. Aí, quando você já tem uma idade, você já vê o dinheiro na mão, você acha mais prático você deixar aquilo ali um pouquinho de lado, e continuar no que você está fazendo.


P/1 – Bom, mas só para a gente resgatar um pouquinho, você entrou na universidade e não trabalhava.


R – Trabalhava.


P/2 –Trabalhava?


R –Trabalhava sim.


P/2 – Com quantos anos você começou a trabalhar?


R – Com 14 anos.


P/2 – Você trabalhava com que?


R – Junto com meu pai, ele tinha escritório, começou como contador, né. Aí, no início, eu estudava de manhã e à tarde eu ficava ajudando ele, ia lá dar sempre uma mãozinha. 


P/1 – Que mãozinha era essa, o que vocês faziam lá?


R – Ah, a parte escrita eu sempre gostei. Não da parte do departamento pessoal, isso eu nunca gostei muito não, que era muito detalhista e tal, mudava muito a lei, muito cálculo de assim, de sair no meio do mês, tinha um monte de coisinhas, né. Eu era mais da parte escrita. Sempre mulher, quando vai trabalhar em escritório de contabilidade, é por causa da letra, né? E tinha que fazer o livro e tal. Hoje em dia já é tudo mais moderno, eu já não sei nem mais como funciona, mas antigamente, no meu tempo, era assim.


P/1 – Aí você falou que começou a dar aula, você começou a dar aula depois que acabou a faculdade, não?


R – Não, no meio da faculdade mesmo, né. Um amigo meu, o pai dele tinha uma escola, aí eu fui. Mas não sei se não foi no local adequado ou o que foi. Vamos dizer, fui, deu quase 1 mês. Aí eu dei uma parada, falei: “Não, agora vou cuidar bem da faculdade, vou continuar no mesmo serviço no escritório”.


P/2 – Aonde era essa escola que você dava aula?


R – Era no centro da cidade, era como fosse... funcionava a madureza e o... como é que se diz, e o ginásio normal, no período normal. E também tinha para madureza também, que seria aqueles exames que você faz fora da cidade, ou na cidade quando tem. Mas foi pouco tempo, não chegou nem um mês. Eram algumas aulas só que ele me pedia. Que era para cobrir alguém lá, que eu não sei se estava doente ou o que foi. Como eu não gostei muito do sistema, acho, aí eu acabei não procurando mais não. Porque aí eu continuei no escritório, aí depois vim, casei, aí eu ...


P/1 – Mas você deu aula de matemática.


R – De matemática.


P/1 – Quando você ingressou na universidade em Taubaté, não é isso, continuou morando em São José?


R – Hã, hã.


P/1 – Você acha que atendeu a sua expectativa, era isso mesmo que você queria, ou você também não gostou muito de ter feito matemática? Como é que foi esse ingresso na universidade?


R – Não, gostei sim, gostei sim. Só que hoje em dia… vamos dizer, para você fazer matemática, estatística, você tem outros ramos. Tem fábricas que te chamam, como a Johann Faber, que vive lá na UFSCar [Universidade Federal do São Carlos], que é em São Carlos, pegando estatístico, pegando de matemática, porque eles precisam de... Hoje em dia mudou bastante, precisa disso, não é só aquele negócio de você ser professor. Que no meu tempo era mais isso, era só para ser professora e professor, né?


P/1 – E aí você recebeu esse convite para dar aula que você não gostou muito.


R – Não sei se foi a escola ou o que que foi. E eu já via dinheiro na minha frente, né, trabalhando. Então aí você deixar um que você ganha razoável para... [risos] para um que você ganha bem menos, lógico que você vai largar aquele que você ganha bem menos. Ainda mais que não estava fazendo as minhas expectativas, né. Não era todo dia, toda hora, era uma coisa aqui e outra ali. Aí acabou eu continuando lá, não fui mais dar aula. Aí, depois eu fiz economia para esperar o Lairton, que ele estava fazendo faculdade. Era a primeira faculdade dele, eu ia ficar parada à noite. Fui fazer. Como minhas filhas falam: “Você foi fazendo, se deixava fazer a terceira...” [risos].


P/1 – Mas aí matemática você continuou e como que foi, você fez estágio, trabalhou mais um pouco dando aula, ou você só continuou?


R – Não, não precisava de estágio não. Não precisou para comprovar estágio não. Antigamente eram quatro anos. Mas como era de dia, no final do curso, passou para à noite por causa dos professores, né. Porque já estava com poucos alunos. E alguns já estavam começando a dar aula, e então saiam de dia, né, aí ficou uma ou duas salas à noite. Que aí era para quem desse aula de dia, já conciliar... ou tinha alguns que trabalhavam também em fábrica.


P/2 – Você se formou aí você foi fazer o quê, foi trabalhar onde?


R – Eu continuei trabalhando, eu sempre trabalhei...


P/2 – Com seu pai?


R – Sempre, sempre, sempre. Até...


P/2 – E quando você foi fazer economia, foi quanto tempo depois de formada?


R – Aí fiquei só parada 1 ano só, depois que eu me formei. Estudei matemática entre 1974 e 1978. Aí, em 1979 eu prestei novamente vestibular. Aí eu fiz economia.


P/2 – Fez aonde?


R- Em São José dos Campos mesmo. Hoje é a Univap [Universidade do Vale da Paraíba].


P/2 – Agora vamos voltar um pouco. Me conta sobre a sua juventude, como é que era ser jovem adolescente, em São José, tinha alguma coisa para fazer, como é que eram as paqueras?  


R – [risos] Tinha as danceterias, né, de clube. Antigamente era tudo assim, nos clubes. As danceterias, que mais que tinha? As lanchonetes, as coisas que eram os pontos, que duraram… A pouco tempo nós estávamos fazendo as contas, quase que, vamos dizer, 10 anos, aqueles pontos bons, até que duraram bastante. Hoje em dia tudo abre e fecha rapidinho [risos]. Aí era aquilo, era sair no sábado, ou ligar para as amigas, marcar com uma delas, ou quando já tinha alguém ou já era mais velha, eu tinha uma amiga mais velha que tinha carro, para passar para pegar a gente para ir, ou se não até com os meus irmãos mesmo.


P/2 – Ah, os seus irmãos saíam com você?


R – Saíam, saíam. Até para...


P/1 –O grupo de amigos era o mesmo, não?


R – É, até que era. Até hoje a gente se dá. O meu pai que ainda falava, eu era a mais velha e ainda não tinha carta. E o meu irmão assim que tirou carta, ele emprestava o carro para a gente ir no carnaval, no clube, tal, né? Mas eu ia junto para tomar conta, eu falei: “Imagina, sendo mais velha, mesmo assim não vai adiantar nada”. Porque menino você vai segurar como [risos]? Na barra da saia não dá, né?


P/1 – O grupo de amigos era o mesmo de vocês?


R – Tinha, a gente tinha bastante sim, o mesmo. Final de semana em casa mesmo, ou aquele negócio, de adolescente, dos meninos lavarem carro dos pais para dar uma voltinha, né. Assim, tirar da garagem, pôr na frente da casa, aí lava, deixa tudo bonitinho. Depois ia aumentando essas voltinhas, aí juntava todo mundo e como eles são três homens, eles sempre tinham amigos em casa. No sábado à tarde, então, era aquilo ali cheio. Parece que eu até aprendi a conviver. Hoje em dia ainda falo, ao contrário, só tenho duas filhas, né, quer dizer, é mais menina na minha casa do que menino. Acho que por isso que eu sinto falta [risos].


P/2 – E eles não eram ciumentos?


R – Não, não.


P/2 – A única menina...


R – Não, não. Tanto é que o meu marido estudou com o meu terceiro irmão, que seria abaixo de mim. Seria o segundo, né, é o terceiro contando comigo. Eu conheci ele através do meu irmão.


P/2 – Como é que era a moda, como é que vocês se vestiam naquela época?


R – Tinha boca sino, né… a pouco tempo nós estávamos comentando com as filhas, era boca sino, que mais? Eu lembro de um aniversário que eu fui de 15 anos de uma amiga minha, a Marília. Era aqui a camisa, cheia de botãozinho, com aqueles punhos bem grandes. Tem uma foto lá que a minha filha fala que nós somos os... como é que é, aqueles... os Novos Baianos [risos]. Porque os meninos todos de cabelo comprido, praticamente o comprimento do meu. O tipo da sandália também, feito uma plataforma, mas ela é toda redonda, é diferente. A boca a calça larga, e o que mais? Que eu lembre acho que é mais ou menos isso. Aí nós estávamos sentados nas almofadas assim, no chão, foto dos quatro irmãos, aí a minha filha fala: “Ó os Novos Baianos aí” [risos].


P/2 – E como é que eram as paqueras, como é que você namorava, sempre com um monte de irmão junto, dava para...?


R – Não, dava, dava. Às vezes a gente saía. O meu pai já era mais rígido, mas a gente sempre saía. A gente sempre gostou de teatro, então, tem um tio meu que ainda fala assim: “Nossa, o que eu fui no teatro com vocês...”. Que sempre que eu descobria peça em São José - que cidade mais do interior às vezes é mais difícil teatro, né, o teatro era pequenininho, hoje em dia tem um bem grande, mas era pequenininho, a sala às vezes nem comportava, punham cadeiras ao lado para poder... todo mundo que queria ver aquela peça. Aí ele ainda falava: “Nossa, eu ia tanto em teatro”. Que eu sempre avisava ele: “Vamos?”. “Imagina se eu vou ficar segurando vela?”. “Não, minha mãe também vai, não tem problema”. Que eu sempre fui assim, nunca fui daquele negócio de “está namorando, não pode conviver com o resto”. Que tem gente que às vezes se afasta, né, das amigas, dos amigos, ou até da família, não faz o mesmo programa, se convida para ir num sítio nós... Eu sempre fui junto, né? Que às vezes a gente está no sítio da minha tia, nós estávamos brincando lá: “Aquela palmeira lá fui eu que plantei, aquela foi o _________________”.


P/2 – O sítio é onde?


R – Em São José dos Campos mesmo. Então, quando minha família começou a montar o sítio, minha tia levava mudas, aí a gente saía plantando. E hoje em dia tem as árvores, tem os eucaliptos que ela fez o caminho de entrada. Ela falava: “Você lembra que a criançada, junto com você e tal, ia lá para aquele lado, plantava todas aquelas árvores ali, bem arborizada, né?”. E eu sempre participei assim com a família, sempre fui assim.


P/1 – E ainda, de acordo com as paqueras, quando foi então que a Senhora conheceu o seu marido?


R – Dando carona para ele ir para a escola. Ele fazia contabilidade junto com meu irmão, que era à noite. Aí eu cheguei, naquele tempo eu ainda estava até fazendo faculdade. Eu estava fazendo vespertino. Aí eu cheguei e a minha mãe falou: “Leva o seu irmão e ele vai levar o amigo dele também, você passa lá e dá carona”.


P/1 – Você estava fazendo o que nessa época?


R – Estava fazendo faculdade.


P/1 – Estava fazendo faculdade ainda de matemática, né?


R – É, de matemática.


P/1 – E aí você foi dar carona para o irmão.


R – Foi, foi. Eu levei o meu irmão, que eu ia precisar do carro depois. Era à noite que eles estudavam, trabalhavam de dia e estudavam à noite. Aí eu fui dar carona para eles. Foi onde eu o conheci.


P/1 – E aí, que que aconteceu, vocês começaram a namorar, como é que foi?


R – Ah, demorou uns dois ou três meses. Ele sempre indo na minha casa. Às vezes a família - quem está de fora enxerga mais, né - brincava: “Olha que ele não está vindo aqui para estudar, não tem nada haver com o seu irmão, é com você”. Eu falei: “Imagina, se ele quisesse alguma coisa, já tinha falado”. Eu acho que eu não me tocava [risos]. Aí nós começamos. Acho que de tanto todo mundo falar, brincar. Lá nesse sítio também ficavam falando. Se a gente ia mexer em alguma coisa, plantar alguma coisa, falavam: “Lá vão os dois, não pode deixar os dois sozinhos não”. Aí a gente começou a namorar. Nós namoramos quase dois anos e meio.


P/2 – Mas como é que foi, ele chegou, se declarou...?


R – Aí sim, aí chegou... eu cheguei, falei para ele: “Ó, tem tanta brincadeira que eu quero saber a verdade, né?” [risos].


P/2 – Ah, foi você que foi puxar....


R  - Ah, eu sempre sou assim, né? A minha filha é que às vezes até fala: “Às vezes você fala demais, precisa dar uma freada” [risos].


P/1 – E vocês tinham quantos anos, Kátia?


R – Olha, eu casei com 25... eu estava com 22, 22 anos e meio, mais ou menos, uns 22. Nós dois somos da mesma idade.


P/1 – Aí vocês ficaram namorando dois anos e pouco.


R – Dois anos e meio, é.


P/1 – Como que foi, teve noivado...


R – Não...


P/1 – O que aconteceu nesse processo, o que que vocês decidiram?


R – Aí eu tinha voltado a fazer faculdade, né. Porque aí eu trabalhava de dia, à noite ele ia para a faculdade, era também em Taubaté, em outra cidade, então, ele voltava às vezes já tarde. E aí nós, vamos dizer, marcamos. Eu até que dei uma enroladinha, que por ele já teria casado antes. Eu falei: “Ah, no meio do ano não. Deixa terminar o ano letivo...”. Eu só sei que eu dei uma enroladinha. Como ele falou: “Agora ou você casa ou você não casa mais”.


P/2 – Porque essa pressa toda de casar, ele estava...?


R – É que ele morava aqui. Ele morava em república, mas todos já eram profissionais. Tinha gente que trabalhava na Rede Bandeirantes, que é de televisão, né. Depois foi para a Cultura em São Paulo, que mais? Tinha arquitetos, tinha bastante gente. Gente também da Petrobras [Petróleo Brasileiro S. A.]. Que aí chegava um ou outro, não arrumava local para morar, e ficava lá com ele, morando lá. A família dele é do Sul de Minas, é de Itajubá, então ele não tinha ninguém em São José.


P/1 – Ele só foi para lá para estudar?


R – É, ele foi para trabalhar. Ele serviu o... nem é o Tiro de Guerra, seria o Exército. Ele serviu antes, achou que fosse dispensado e não foi. Aí ele serviu antes, né, e aí ele prestou... veio para São José. Acho que só teve um emprego antes da Petrobras, que eu não sei se já tinha o concurso. Ele ficou só  aguardando, né, que eu lembro no jornal e não lembro... isso eu não sei, porque ainda não era namorada dele.


P/2 – Ah, então quando vocês começaram a namorar ele já trabalhava na Petrobras?


R –Já. Ele trabalha desde 1974. Nós casamos em 1981. Quer dizer, nós nos conhecemos em 1978, mais ou menos.


P/1 – Já tinha uns 4 anos que ele estava trabalhando.


R – Já, ele já trabalhava na Petrobras.


P/2 – E você sabe qual era o trabalho dele?


R – Ele começou como auxiliar de escritório.


P/1 – Na Petrobras?


R – Na Petrobras.


P/2 – E quando vocês casaram qual era a atividade dele? Era essa ainda, auxiliar de escritório?


R – Não, depois de auxiliar... aí tem aquele, como é que fala? Eu não sei te dizer, porque tem os cargos que é como nível um, nível dois, três, né? Então aí eu não sei te dizer ao certo.


P/1 – Então me conta um pouco do casamento. Como é que foi, vocês casaram na igreja...?


R – Casamos, casamos na igreja, teve festa, né, ainda mais eu sendo a única filha, imagina se não vai ter festa [risos]. Não foi uma festa assim... mas teve, que teve, teve. Do jeitinho que a gente queria, coisa simples, mas direitinho. E... que mais? Foi a igreja, a festa, é…[pausa]. Que mais que...


P/1 – Vocês casaram em 1978.


R – Não, em 1981.


P/1 – 1981. Então, em 1974 ele ingressou na Petrobras. Em 1978 mais ou menos, vocês se conheceram, não é isso?


R – Hã, hã.


P/1 – Em 1981 vocês casaram.


R – Exato.


P/1 – Aí teve o casamento na igreja. Como que foi esse processo que ele começou a pressionar, vocês casaram...


R – É, como ele já estava estabelecido financeiramente e já estava fazendo a faculdade que, vamos dizer, acho que não era isso quando ele era jovem, o que ele pensava em fazer, acho que ele pensava ser engenheiro.


P/1 – E ele fazia faculdade de quê?


R – Ele fez de Administração de Empresas. Não tinha em São José dos Campos, era em Taubaté. Como ele já estava trabalhando nessa área, aí ele acabou fazendo o que hoje em dia ele adora, né, Recursos Humanos é com ele mesmo. Aí nós marcamos o casamento... O que que você tinha me perguntado? 


P/1 – Como que foi o processo do casamento, que ele começou a...


R – É. Aí eu fazia faculdade, acabamos programando. Eu achei melhor ser em janeiro, porque aí eu estaria de férias. Eu já estava no segundo da faculdade, da segunda faculdade. E ele estava quase que terminando. É, que ele terminou um ano antes de mim. E aí nos programamos assim: para casar nos programamos para comprar os móveis, tudo isso. Antigamente, quando ele não era chefe, né, tinha as horas extras. Então aí ele calculava direitinho, falava: “Olha, podemos comprar tal coisa, temos tanto em dinheiro, você sai, você procura, você acha?”. Aí eu sempre fui assim. Porque ele sabia o meu gosto e eu o dele, né. Ou a gente saía antes e estava vendo mais ou menos o que a gente queria. Aí, assim a gente foi montando. Tanto é que nós quando casamos, moramos onde ele já morava.


P/1 – Era aonde?


R – Lá em São José mesmo. Num sobrado, perto da minha casa, porque ele era vizinho, era diferença de um quarteirão. Tanto é que aí eu falo: “Olha, ele expulsou todo mundo da república” [risos].


P/2 – E vocês foram morar sozinhos?


R – Aí nós moramos lá. Depois acabamos comprando também esse sobrado, para depois termos essa casa onde a gente mora hoje.


P/2 – E como é que foi o início da vida de casado, sentiu muita diferença, se adaptou rápido...?


R – Não, eu me adaptei rápido, porque o dia inteiro eu trabalhava. Tanto é que depois eu não queria nem terminar a faculdade, aí minha mãe falou: “Não, começou, tem que terminar”. E consegui! Levei até o final, não parei não, porque ela falou: “De noite você vai ficar em casa aí, e ele não está”. Ele ainda estava terminando a faculdade, era diferença só de um ano de uma faculdade para outra, da minha e da dele e aí nos adaptamos muito bem. A gente sempre se deu bem. Eu sempre falo que eu sou o pólo positivo e ele é o negativo, né, então aí se encaixa...


P/2 – Os opostos se atraem.


R – É, são pólos que se atraem. Porque sempre nos demos muito bem.


P/1 – E porque você aponta que você é o positivo e ele é o negativo [risos]?


R – Ah, porque eu sou mais... eu sou mais enérgica. Ele é tudo assim: “Vamos ponderar, vamos...”. Aí eu falo às vezes: “Não é bem por aí não, tem que ser um negócio... acelerar mais”. Porque Recursos Humanos é aquele negócio: é sempre conversa. A minha filha mais velha é que fala que ela não serviria para trabalhar em Recursos Humanos, porque tem que ter aquela paciência de “Jó”, saber falar, usar as palavras certas na hora certa, né? E ela diz que não, ela já é de falar, se deixar, assim: pão, pão, queijo, queijo [risos]. Então, por isso que eu falo que eu sou mais assim... Que ele ainda fala assim: “E já melhorei bastante.” Que só desses anos todos de convívio com ele, a gente dá uma modificada... bastante mesmo.


P/1 – Kátia, você mencionou que ele talvez tivesse o desejo de fazer Engenharia, né?


R – É.


P/1 – Como que é você percebeu isso?


R – Não, ele que fez o comentário. Porque ele perdeu o pai muito cedo. Ele tinha 14 anos quando ele perdeu e já tinha um irmão que fazia Engenharia de Telecomunicações. Acho que estava, não tenho certeza, no primeiro ano e aí... a família dele é bem grande, eram nove irmãos. E ele estudava em colégio interno e teve que sair para poder ajudar. Foi quando ele começou a trabalhar. Ele começou a trabalhar cedo, com 14 anos. Assim que ele perdeu o pai, ele já trabalhou na parte de escritório da Santa Casa, de Itajubá. Foi o primeiro emprego dele. Deu aula de datilografia para o irmão poder estudar, que a escola era particular... Que uma morte, às vezes, até você conseguir acertar tudo, fica difícil. E eram bastantes irmãos, né? Aí ele começou a trabalhar bem cedo. Ele sempre falou que a vontade dele era ser engenheiro, mas ele sempre fala: “Nem sei se era bem isso mesmo”. Porque ele não tinha tido essa experiência, não tinha chegado na idade correta para decidir.


P/1 – Ele tinha mais a influência do irmão.


R – Acho que sim. Ou daquele sonho de criança, que se perguntar para um menino o que ele quer ser, é engenheiro. Aí ele falou assim: “Nossa, acho que não me daria tão bem”. E eu falei: “Acho que não”. Porque o jeito dele acho que para engenheiro… Sim, a especialização dele seria em Recursos Humanos, né? Que engenheiro é mais duro, mas para essa área de Recursos Humanos já é mais... Que eu sei porque sempre convivi com o pessoal da Revap [Refinaria Henrique Lage] e eu vejo que os trabalhos que ele tinha que fazer.


P/1 – E quais eram esses trabalhos?

R – Então, é do relacionamento. Porque engenheiro eu acho às vezes... não sei se é assim só, né, só aquele cálculo, aquele negócio e, vamos dizer, tem que resolver isso, é assim é assado. Mas você tem que olhar o lado dos funcionários, dos empregados que estão trabalhando, que estão atrás de você, não é você chegar e querer resolver assim, a coisa de maneira muito rápida, você tem que ver os desejos das outras pessoas, né? Às vezes você está mandando fazer, mas você não está verificando porque o outro não está correspondendo. Porque, às vezes, você também não está sabendo mandar. Ou não é mandar, você tem que conversar, passar o serviço, mas não querer mandar. Mandar era antigamente, hoje em dia não tem mais nada disso [risos]. Então é gostoso, a área dele eu acho gostosa, pelo que eu vejo os trabalhos que ele faz em casa. É o que eu falei: ele ama a Petrobras. Hoje mesmo ele me ligou, estava no meio do caminho, falei: “Mas onde você está, acabou de levantar?”. “Não, já estou indo para a Petrobras”. Eu falei: “Nossa!” [risos]. Cedinho [risos].


P/1 – E aí você falou que depois fez Economia. Quando que foi esse período, você já estava com muitos anos de casada, como é que foi isso?


R – Estava, já estava casada sim. Eu terminei a faculdade eu já estava casada, eu terminei em... 1983.


P/1 – De matemática.


R – É.


P/1 – E como que foi o nascimento da primeira filha?


R – Se deu quatro anos depois de casado.


P/2 – E você ainda trabalhava?


R – Trabalhava. Eu trabalhei até a... vamos dizer, até a véspera. Foi, realmente, até a véspera dela nascer. Porque teria mais uns dias pela frente, aí eu falei: “Ó, a partir de hoje...”. Como eu trabalhava junto com a família, não tem aquele negócio de você tirar licença um mês antes e tal. Eu até brinquei, que eu tinha saído com a minha mãe, tinha ido ver acho que chinelo para o hospital, alguma coisa assim, que eu fui ver na rua. Aí meu tio do outro lado de rua, ainda virou e falou assim: “Quando é que nasce?”. Eu falei: “Amanhã”. Mas chutei. Falei: “Ah, ele lá do outro lado da rua como é que eu vou falar...”. Falei: “Amanhã”. Não é que nasceu no outro dia? Por isso que eu falo que eu parei de trabalhar num dia e ela nasceu no outro dia [risos].


P/2 –Mas como é que foi isso, vocês tinham programado, ou...


R – Sim, quando nós casamos a gente pensou em não ter filhos por, pelo menos, uns dois anos. Ainda mais que eu fazia tratamento da tireóide, né, então eu estava tomando remédio e poderia complicar. Aí, depois disso sim, eu comecei a pensar em ter, mas aí não... não conseguia. Fiz vários exames e o médico falou: “Não tem nada. Acho que de tanto você pensar em querer, você não tem. Alguma coisa pode estar bloqueando. Ou o remédio da tireóide, ou algum resquício, que estava no seu organismo”. Aí, foi quando eu esqueci. Até uma vez falei com a minha mãe: “Ah, vou acabar adotando”. Ela falou: “Você adota, no outro mês você está grávida” [risos]. Aí não precisou nada disso: eu fiquei grávida.


P/2 – E como é que foi, como é que vocês receberam essa notícia, você e seu marido?


R – Nossa, foi uma maravilha, que até... Para você vê quanto tempo já estava demorando para ter...


P/2 – Já estava pensando em adotar...


R – É. Até a vizinha, um dia, se virou e falou assim… acho que foi no carnaval, alguma coisa assim, ela estava saindo e falou: “Escuta aqui, ó: não tenho nada a ver com a vida de vocês, mas vocês não acham que vocês deviam pensar em ter um filho? Vocês são meus vizinhos aí faz tempo, né?”. Eu virei e falei assim: “Mas eu já estou grávida”. “Ah, então desculpe, eu não sabia”. Ela foi brincar, né, eu falei: “Não, é que eu não sou tão grande, então acho que não está aparecendo, né? Mas eu já estou grávida sim”. Ela falou: “Ai, que bom, né?”. A segunda filha eu ainda pensei que fosse demorar um bom tempo. Que tem caso que é assim: é só de cinco em cinco... tinha o caso de uma amiga minha é de dez em dez. E era assim: foram duas meninas, depois um menino. Quando ela estava na faculdade, com vinte anos, a irmã estava com dez e estava nascendo um irmão. É, interessante, né? Aí eu falei: “Ah, na família dela era assim, pode ser que na minha também, né?” [risos]. Mas não, aí logo em seguida...


P/2 – Mas aí me conta, o que que mudou na sua vida com o nascimento do primeiro filho?


P/1 – Qual o nome dela?


R – Larissa.


P/1 – Larissa é a primeira filha.


R – Larissa. Olha, foi paparicada de todos os lados.


P/2 – Era neta única.


R – É, seria a primeira, né. Ela foi a primeira do lado dos meus pais, do lado do Lairton não, já tinha. Ele já é até tio-avô. Aí ela tinha de tudo, vamos dizer, era uma criança grande, saudável, né? Aí eu parei de trabalhar, eu não voltei,


P/2 – Não quis mais voltar?


R – Não, aí eu não voltei. Que eu tentei arrumar gente para ficar tomando conta, pelo menos algum período colocar na escolinha... Mas aí, logo em seguida eu fiquei grávida de novo.


P/1 – Depois de quanto tempo?


R – Quando ela estava com sete meses [risos]. Não demorou anos. Foram sete meses. Aí eu falei: “A máquina aí estava já prontinha”. E ainda nasceu prematura, a minha segunda nasceu prematura.


P/2 – Mas aí você ficou um pouco assustada, né, só sete meses depois...?


R – É, não, aí dá um baque, né, que aí eu falo: “Gêmeos...”. E antigamente não tinha esse negócio de fralda descartável. Era caro e a gente usava mais para a noite. Então, a secadora funcionava. Passar de duas em duas fraldas, já dobradinha, posição correta, de menina, aquele negócio todo. Aí eu falava: “Ah, eu tive umas gêmeas de diferença de sete meses. Eu deixei a outra lá guardadinha”. Um ano e dois meses de diferença, né?


P/1 – E qual o nome da segunda filha?


R – Luana.


P/1 – Luana.


R – É, que na família do Lairton é tudo com “L”.


P/2 –Ah é?


R – É, é tudo com “L”. Agora, os bisnetos é que estão saindo da letra “L”.


P/2 – Vocês ainda seguiram a tradição, Larissa e Luana.


R – Seguimos.


P/2 – Mas e aí, você disse que ela nasceu prematura, como é que foi isso?


R – Eu estava arrumando até babá para já ficar olhando a Larissa, para quando eu tivesse a Luana. Então, já uns dois meses eu já via se dava certo e tal. Aí a minha mais velha, a Larissa, caiu da escada. Foi pegar um bonequinho, ela estava em cima com uma prima minha, que era sobrado a minha casa e ainda não tinha conseguido alguém que fizesse o bendito portãozinho, que ainda era escada de pedra, né, aí que tem mais perigo. Aí ela acabou nascendo prematura. Até que tinha a vizinha que funcionou, mais ou menos, como... A minha mãe conta de como ela teve a gente: as vizinhas ajudavam. Você podia, às vezes, ir até para um bailinho, para alguma coisa, que alguém falava: “Deixa ele hoje aqui comigo, deixa dormir com meus filhos”. Aí ela também teve com... uma vizinha teve pouca diferença, né, de idade, ela ainda falou comigo: “Olha, o neném é novinho, é hora de mamar e dar banho. Agora, a mais velha precisa de mais carinho, porque ela vai sentir, ela vai sentir bem que chegou uma pessoa estranha e rapidinho, né?”. Quer dizer, ela estava novinha, já tinha outra ali...


P/2 – Concorrência.


R – É, um concorrente, né? Mas ela nunca foi assim de judiar não. Que tem uns que vão, judiam no berço.


P/2 – Mas aí você falou que ela escorregou da escada e você ficou nervosa...


R – Caiu.


P/1 – E por isso...


R – Aí ela nasceu, uns dias depois ela nasceu. Ela nasceu.


P/2 – Nasceu de quantos meses?


R – Sete meses e meio, certinho.


P/2 – Como é que foi, você com duas crianças em casa, uma ainda que precisava de mais cuidado, como é que foi isso?


R – Olha, para quem  trabalhava fora e tinha uma vida tranquila, sempre tinha faxineira e tal, aí você chegava e tinha a casa limpinha. Aí chega um bebê. O primeiro filho todo mundo paparica daqui e dali, não pode falar “a” no berço, que está todo mundo ali, junto. Depois aparece outra criança. Vem outra criança e rapidinho, mas até que é bom que aí você cria. Quando é pequenininho, tudo bem. Uma fica com ciúmes da outra. Mas tanto faz a diferença de dois, três anos ou de menos: quando tem que uma implicar com a outra não tem disso não. Aí foi bom que foi rápido. Que ainda tinha uma prima minha que morava praticamente em frente a minha casa e ela adorava contar historinhas e tal, então ela estava sempre lá. E ela ainda fala comigo: “Você lembra daquele tempo?”. Eu falo: “Ih, __________, faz tanto tempo já, né?” [risos].


P/1 – Vocês continuaram morando lá no mesmo sobrado.


R – Continuamos. Nós moramos lá bastante tempo.


P/2 – E como é que era a convivência delas, elas brigavam depois de um pouco mais crescidas?


R – Sim. A minha mais velha sempre foi de… A segunda parece que ela era mais, não sei, independente. Ou gostava mais de brincar sozinha, de pegar a barbie e brincar num cantinho sozinha. Aí a mais velha ficava com ciúme e ia lá e chamava ela para brincar, não queria por qualquer coisa, aí já rolava uns tapinhas. E a minha mais nova sempre foi assim: de gostar de bastantes amiguinhas. Então acho que aí fica com ciúmes. Porque uma irmã não é igual a outra. Podem ser até gêmeas, que elas não agem iguais, né? Então, aí sim, rolava de vez em quando. Mas hoje em dia são super amigas, né. É aquela fase de inveja.


P/1 – Fases de irmãs e crianças.


R – É. Aí depois a cobrança: “Porque que eu não fui em tal festinha quando eu tinha os meus 14 e agora a minha irmã caçula vai aos 13?” [risos]. Aí eu virava e falava: “Não. Uma precisa da companhia da outra. Você não podia ir porque você ia sozinha. Agora tem a companhia da outra”. Que a minha mais velha sempre falou: “Com 15 anos que eu comecei sair e tal, a outra mais nova já vai na minha cola”. Eu falei: “Não, porque uma olha a outra e faz companhia”. Mas sempre foram amigas. Tanto é que ela está lá, ainda, sempre ligo e falo: “Como é que  vocês duas estão aí?”. “Ah, muito bem!”. Até já arrumaram mais gente para morar junto, porque elas não querem ficar sozinhas. Tem uma amiga da minha filha mais velha que estudou no ginásio com ela, acho que foi a partir da sexta série, está lá também, fazendo Medicina. Disseram que vão morar juntas. Estou até vendo para ver se vejo outro apartamento melhor, mais bem localizado. Então elas são bem amigas, sim. Que eu ainda falei para a minha caçula: “Você vai olhar a mais velha” [risos]. Vai orientar, porque ela já estava morando na cidade fora.


(Fim da fita HV48001)


P/1 – Bom, Kátia, a gente queria saber agora como era estar casada com uma pessoa que trabalhava numa refinaria. O que isso mudou na sua vida, como que era sua rotina em casa?


R – Olha, como em São José dos Campos tem bastantes fábricas, né, tinha, antigamente, Ericsson, tem Embraer, Petrobras. Quem mais arrecada ICMS [Impostos sobre circulação de mercadorias e serviços] lá, é Petrobras. E tem outras. Tinha a Panasonic. Várias, né? Então, a Petrobras teria como se fosse um status. Porque é concursado. Eu também cheguei a prestar concurso, só que aí eu estava com... eu prestei, fiz quando eu estava grávida da minha primeira filha. Aí, depois, quando eu fui chamada eu estava grávida da segunda [risos]. Acabei não aceitando. Depois não chamaram mais, porque não teve mais concurso.


P/1 – Aí você tentou para que nessa época?


R – Para auxiliar de escritório, seria o concurso básico. E então, lógico, corria-se o risco porque todo mundo fala em explosão e isso e aquilo. Ele já passou por várias situações, vazamento de gás, que morreu até um médico que eu conhecia, tentando salvar outras pessoas. Então, já teve várias coisas assim, de levar susto. Mas é um emprego excelente.


P/1 – Qual era imagem que você tinha da Petrobras?


R – Olha, como ele não era engenheiro, não era ligado muito nessa área de produção e tal. Já tinha uma noção, porque eu trabalhava em escritório. A função dele também era a mesma coisa, era cuidar... era chefe de departamento pessoal, uma função, mais ou menos, que eu também trabalhava, né. Lógico, tinha diferença, porque a Petrobras era uma potência [risos]. Em relação ao que eu fazia, o serviço que eu prestava. Mas é uma coisa maravilhosa. E todos os petroleiros amam de paixão mesmo, quem está lá é porque se dedica e adora. 


P/1 – E o que ele conversava com você em casa da empresa, o que você sentia sobre isso, sobre o trabalho dele?


R – Olha, ele sempre foi muito aberto. Tem certas coisas até que, às vezes, depois de ele ter alguma reunião, que a gente ia se encontrar com outras pessoas, eu até falava assim: “Isso eu não posso falar”. Porque era coisa do serviço dele que ele conversava comigo ou resolvia por telefone. Mas eram coisas, vamos dizer assim, sigilosas, né. Coisas que o pessoal de fora não poderia saber e que era função dele. Porque ele lida com toda parte burocrática da empresa, e ela é grande à beça. Por isso que ele sempre foi convidado a palestrar, essas coisas, tudo fora. Então ele sempre viajou. Foi mais por isso que eu não trabalhei mais, dei uma pausa de uns dez anos, até as meninas poderem se defender sozinhas, porque ele viajava bastante. Ele foi convidado várias vezes para trabalhar em Recursos Humanos em Curitiba, vários lugares. Mas a gente nunca pensava sair de São José. Porque a gente já veio de fora, já enraizou ali, a gente queria continuar ali. Mas aí ele chegou, vamos dizer, no máximo dentro da Refinaria lá em São José.


P/2 – E você acompanhava ele nessas viagens?


R – Não, não. Nem sempre. Porque às vezes era em dia de semana e tinha as meninas e a escola, e aí não dava para acompanhar não. Comecei a pouco tempo, quando ele foi para o Congresso Internacional de Recursos Humanos, que foi na França, eu não consegui ir com ele e aí ele foi sozinho. E depois aí, quando teve o congresso em Portugal aí sim tive oportunidade de ir, elas já estavam grandes. A minha mãe até quis ir lá ficar com elas, falei: “Mais não precisa, já sabem se defender”. Aí eu fui e acompanhei ele, aí eu fui junto. Mas em todas as reuniões do pessoal, né...


P/1 – Que reuniões eram essas?


R – Os encontros, sempre tem jantar, final do ano e tal. Isso eu sempre participei com ele. Eu sempre fui em todos os lugares que ele me convida. Até agora, para o Rio de Janeiro mesmo, ele sempre fala para mim, eu falo: “Sinto muito, mas é de última hora, não dá para vir”. Mas o que pode, eu estou sempre participando. Falo assim: que ele me puxou para o lado Petrobras também [risos].


P/1 – Mas me diz assim, para quais lugares que ele tinha o hábito de ir assim, logo no início de casados de vocês, para onde ele ia com muita freqüência ?
   

R – Olha, ele sempre viajou para todas as refinarias, ele sempre... acho que não tem nenhuma que ele não tenha ido.


P/2 – E o que ele ia fazer?


R – Como é Recursos Humanos, às vezes ele implantava alguma coisa diferente na Refinaria que apresentou sucesso. Aí o Rio de Janeiro chamava ou perguntava para ele, ou ele ia lá no Rio, explicava e tudo. Depois, às vezes, pediam para ele ir em outras refinarias para... Porque a Revap sempre apresentou bons resultados, é uma refinaria de ponta, que está sempre atualizada em… tudo, né, então...


P/1 – E quanto tempo ele ficava nessas viagens?


R -  Às vezes dois, três dias, nunca ficou assim, muito tempo fora não.


P/1 – Não ficava muito tempo?


R – Não.


P/1 – Isso para vocês como que era em casa, você sentia, ainda mais com duas filhas pequenas?


R -  Ah, lógico. Todo mundo sente falta. Mas ele até recompensava, porque no final de semana ele estava sempre lá, com elas e quando podia até para buscar, às vezes ele chegava cansado, eu falava: “Não, já está na hora de pegar elas na escola, já que o ano passado você não pode participar, então dessa vez é você, você que vai lá”. A mulher sempre tem que dizer se os filhos estão sentindo a falta ou não. A criançada adora, né? O pai e mãe, então chegar os dois juntos na escola infantil e no primário, nossa, é a realização: “Meu pai veio me buscar, minha mãe”. Os dois juntos para mostrar que é a família. Então a criançada adora essas coisas.


P/1 – E nessa época você começou a fazer o quê? Você continuou só em casa, quando foi que você pensou em voltar a estudar, o Kátia?


R – Não, eu já tinha terminado já, quando elas nasceram eu já tinha já terminado as faculdades.


P/1 – Mas você já tinha terminado a de Economia também?


R – Já, já. Eu fiquei parada, sem trabalhar, mas eu sempre gostei muito de artesanato. Depois eu descobri as flores, então eu sempre fazia alguma coisinha, alguém me encomendava. Eu nunca estava parada sem fazer nada, porque é entediante, quem está acostumado a trabalhar fora, parar. Mas eu achava que era assim: se eu posso fazer uma coisa bem, eu não sei fazer duas. Então foi a minha opção. O Lairton falou: “Ó, você que vê se você vai trabalhar”. Porque me chamaram. Nesse período, a Petrobras me chamou, eu não aceitei porque eu estava com a minha mais nova ainda pequenininha, precisando. Tentei arrumar gente para ajudar a olhar, e deixar na escolinha. Elas entraram bem cedo em escolinha infantil, né? Porque quiseram. Nós fomos visitar uma amiga e acabou ficando. Mas eu gostava de deixar sempre brincando, levar no balé, fazer natação, fazer tudo isso. Não tanta ocupação para a criança, que também em excesso faz mal, mas não deixar tão assim ligada só em televisão,  porque senão... Hoje em dia é assim, televisão, shopping, videogame [risos].


P/1 – E aí você estava falando que quando você fez o curso de Economia, foi por uma orientação da sua mãe, porque você ia ficar muito sozinha, como é que foi isso?


R – Não, eu já estava fazendo. Quando eu casei, eu já estava fazendo. Porque o Lairton, quando ele foi fazer a faculdade, eu já tinha terminado a minha primeira faculdade. Fiquei um ano parada, fiz só curso de inglês. Aí eu falei: “Ó, estou tão acostumada a ficar o dia inteiro e de noite também fazendo alguma coisa...”. Aí eu fui fazer. Prestei vestibular para Economia e fui fazer. Quando eu casei, em 1981, eu falei para a minha mãe: “Vou parar, né? Ou eu tranco a matrícula ou vou desistir de uma vez”. Aí ela falou assim: “Não, quem começou agora termina. Leva para frente”. E eu fui. Ainda falei para ela: “Imagina, não vou terminar essa faculdade não”. Ainda consegui, terminei direitinho. Aí depois é que eu fiquei parada de trabalhar, né, aí foi, mais ou menos, uns dez anos.


P/2 – E como que você voltou a trabalhar, como foi esse...?


R – Então, a volta é difícil quando você já tem uma idade [risos]. Eu já não casei assim tão novinha e aí fica difícil, até para dar aula é difícil. Porque eu tive pessoas que, depois que eu estava com meu comércio aberto, aí eu montei uma floricultura. Tinha uma floricultura...


P/1 – Mas quando você voltou a trabalhar, você voltou fazendo o quê?


R – Então, com uma floricultura.


P/2 – Era sua?


R – Hum, hum. Era minha e do meu irmão caçula. Tinha um amigo dele querendo passar a floricultura, aí eu falei: “para eu voltar e engrenar”. Porque eu tinha visto escola. Uma outra amiga minha também dava aula em São Paulo e veio para cá, e uma escola chegou a falar que passou de 39 anos não aceitam mais, né? Tem umas coisas assim que às vezes, por uma pergunta, eles te barram. Depois você percebe, por você às vezes ser honesta, falar, não omitir nem mentir nada, aí fica difícil você voltar. Você tem que montar alguma coisa para você ou já pegar um bonde andando, alguma coisa lá e você pegar carona.


P/1 –E esse seu interesse em voltar a trabalhar foi mais influenciado por que, Kátia?


R – Olha, ficar assim parado, os filhos vão crescendo, já se tornam independentes. Se você leva, na volta, eu demorava às vezes para buscá-las, elas vinham embora a pé, porque não era tão longe, chegava em casa, me ligava: “Mãe, não precisa me buscar porque eu já estou em casa”. Então já estão mostrando independência. Aí eu falei: “O que que eu vou ficar fazendo aqui?”.  Nunca fui “dondoca” e não gosto de ser [risos].


P/1 – E Lairton viajava muito, não?


R – É. E depois cada vez mais. No início até que nem tanto, mas depois de um certo tempo ele começou. Quando virou gerente, viajava bem mais. Aí às vezes dava para contar no mês os dias da semana que ele ficava em casa. Sábado e domingo tudo bem, né? Aí elas vão pedindo a independência, aí o que que eu vou ficar fazendo [risos]. Mas você tem que ficar sempre atrás. Então eu não podia estar viajando tanto, todo dia de semana com Lairton, por causa de horário, de alimentação. Eu nunca tive sorte assim de ter uma empregada que ficasse anos comigo. Tive quando elas eram pequenas, mas mais como babá, não assim para tomar conta da casa toda. Aí eu voltei a trabalhar. Aí hoje em dia eu trabalho como autônoma. Fechei a floricultura porque o horário era muito pesado. Você não tem sábado, domingo, feriado, eu fiquei três anos sem férias. Aí você vai sacrificando os filhos, era uma vez ou outra que a gente viajava.


P/2 – E eles não sentiram diferença, você estava sempre presente e de repente está se dedicando mais...


R – Olha, até que elas gostaram. Gostaram, vamos dizer assim, que o “sargentão” saiu de casa [risos]. Aí eu sempre brinquei assim, o “sargentão” saiu de casa, aí já viu, aí elas gostaram. Aí eu fiquei, acho, que uns três anos com o comércio. Agora eu faço só mais... como autônoma. Evento que aparece eu faço mala-direta, eu faço decoração de igreja, do jeitinho que eu fazia. Só que invés de ter o ponto, o atelier é na minha casa mesmo. Aí alugo toalhas, tenho todos os apetrechos que você imagina de noiva na minha casa. Tem tenda para quando é ao ar livre, tem de tudo [risos].


P/1 – Kátia, você estava falando que a mãe acaba ficando por trás, meio que administrando essa ausência do pai. E como que você via, como que você acha que as meninas reagiam com essas viagens do pai?


R – Olha, elas sempre reagiram bem. Acho que quando o pai é muito “quietão” ou não dá atenção, vai sentir muito mais, né? Mas como ele sempre foi de conversar, elas não sentiram falta não. Pode ser até que eu tenha sentido mais falta, porque nunca vieram reclamar para mim: “Ah, o pai não me dá atenção, está viajando?”. Até falavam: “Nossa, mas ele já está de volta?”. Como quem diz “foi rápido, né?”. Às vezes, para o Rio de Janeiro, dava para ir e voltar. O Rio de Janeiro, aqui, dá para ir e voltar para São José, dependendo do horário, no mesmo dia. Só quando é Manaus, um lugar mais longe que aí... Quando ele foi para Manaus ele ficou uns dias… ficou bastante tempo fora. Acho que quase uns 15 dias... eu não lembro, que já faz um bom tempinho. A Luana estava novinha e a mãe dele veio e ficou comigo. Ele ficou um bom tempinho fora.


P/1 – Aí você falou que vocês tinham...  na verdade ele acabou lhe trazendo para o campo da Petrobras. Como que é isso, você tem muito contato com os colegas de trabalho, tem contato com as esposas, ou não? 


R – Tenho, tenho sim.


P/1 - Conta para a gente um pouquinho disso.


R – Olha, até que é legal. Porque aí você vê a diferença... de conversa dentro de casa do marido, porque se eles são engenheiros: “da bomba dez, não sei mais não sei o que, não sei o que lá”, né?  Algumas coisas assim. Então, para ela às vezes não vai interessar muito porque não são engenheiras. Agora, já para mim já é mais conversa. Então é tudo aquilo que deu certo, o planejamento, de tudo isso da refinaria, as reuniões de manhã que sempre tinham na refinaria; que você podia precisar dele, ligar, tá lá na reunião. E para ele também foi até gostoso que ele até brincava, que ele não é engenheiro, mas estava entendendo bastante, porque era de todas as áreas. Então entrava desde o engenheiro, recursos humanos, da parte de... acho que que da parte da... não sei ia chamar também de jornalismo, dessa parte dentro da refinaria, aí era gostoso. E eu sempre escutei daqui, ali, então, até às vezes eu vejo que tem umas que às vezes parece que... Não é que é inveja, fala: “Nossa!”. O tanto que às vezes eu sei, né, o que estava se passando lá dentro. Eu falei: “Não, que meu marido, a área dele é a mais assim é... o ser humano. E agora, às vezes do seu é mais cálculo, é mais isso, é desenho, né, alguma coisa assim”. Então, é diferente o relacionamento, ou até para ele explicar para a esposa, né? Agora, do Lairton não, uma conversa... Como Economia e Administração são chegados ali. Então, o que às vezes ele falava, ou por telefone que eu escutava, e conseguia para entender. Às vezes não dá para saber as siglas que eles usam, como do Edise [Edifício Sede da Petrobras], mas não sei o quê, Replan [Refinaria de Paulínia], aí eles vão falando... Trinta anos até que deu, das refinarias acho que ainda dá para diferenciar. Mas dentro do próprio edifício, as classificações, eu falo: “aí vocês estão falando grego comigo, né?”. Porque às vezes eu fico: “Hein, onde, como é que foi?”. Que aí fica difícil, né?


P/1 – Mas essas reuniões eram reuniões dele, de trabalho, não é isso?


R – Ham, ham.


P/1 – E vocês tinham alguns encontros, você mencionou que tinham as festas de final de ano...


R – Tem, tem.


P/1 – Tinham alguns outros eventos durante o ano que vocês se encontravam?


R – Tem, tem. Tem o de Natal, feito no clube lá da Petrobras. Tem os jantares também, né, de todos gerentes. Então, todo ano, no Natal a gente se reunia e sempre, se possível, até no aniversário de um da família, alguma coisa, a gente convidava. A gente estava até tentando fazer, uma, a... como é que é, a “turma do ócio”,  para reunir...


P/1 – Como é que é isso?


R – É uma amiga do meu marido que ela... a gente estava reunido assim, tinha desde de psiquiatra junto. Psicólogo, administrador de empresas, todas as áreas, para a gente se reunir e jogar conversa fora. Cada um leva um pratinho, faz o que pode, ou se não, compra...


P/1 – Todo mundo da Petrobras?


R – Não, até de fora mesmo, sabe? Só que às vezes a vida é tão corrida que você vai levando, vai levando, daqui a pouquinho um escapa ali, uma coisa ali, aí dá uma parada, não volta mais. Mas é interessante você fazer umas coisas assim. Aquele negócio de jogar conversa fora, como tem amigos, até petroleiros mesmo, que eles se reuniam, vamos dizer, a cada quinze dias, eu não sei se na sexta, eles saem e vão tomar o seu chopinho ou tomar o seu vinho, que tem um...


P/1 – Só os petroleiros, só os homens, seria isso?

R – Não, com as mulheres também. As mulheres também, a família também. Se um faz um churrasco, convida. Eu ia sempre na casa da Marlene e do Virgílio. A casa é bem grande, a churrasqueira também, então aí reunia todo mundo sempre lá. Até da Associação Comercial, que tem os jantares de final do ano e tal, confraternização. Aí com todo mundo, os gerentes da Petrobras tinham mesa reservada lá para a gente, né. Aí ela sempre falava assim para o Lairton: “Ó, não esqueça de me convidar, que eu também gosto vir”. Que aí se torna um bailinho. Porque aí tem o show, às vezes tem alguém lá cantando, então é um jeito da gente se reunir. Então, chega no final do ano a gente fala: “nossa, como a gente está ocupadíssimo”. Como eu vivia sempre conversando com a Marlene, todo mundo falava que eu era... Acho que parecia que eu frequentava sempre a casa dela. Mas não, era só no churrascos, lá nas reuniões, mas já é... até que é importante, né, o que a gente pode...


P/1 – Fica mantendo contato, né?


R – É.


P/1 – Mas, Katia, aí você falou que quando ele ingressou na Petrobras ele estava com uma função, né, qual era?


R – Auxiliar de escritório.


P/1 – Como que foi para depois... quais foram as áreas que ele foi passando?


R – Olha, ele foi sempre trabalhou no... antigamente era chamado... não sei se auxiliar de escritório ou departamento pessoal. Foi mudando as nomenclaturas, mas ele sempre ficou na área de recursos humanos, ele nunca saiu dali não. 


P/1 – Depois ele assumiu a gerência, foi isso?


R – Ham, ham.


P/1 – Como que foi, você acha que mudou alguma coisa na vida de vocês?


R – Chefe de Seção, Chefe de Setor, tem tudo isso, todas as...


P/2 – Todas as escalas.


R – Todas essas escalas.


P/1 – E qual foi a fase que você acha que mais mudou a rotina de vocês, que ele teve mais encargos de trabalho, mais viagens, qual você acha que foi o período que... você acha que foi com a gerência...?


R – Ah, sim, porque tem a...como eu falo: tem a hora da chegada, da saída só Deus sabe [risos]. Ontem mesmo, até aqui no Rio, falei: “Eu vou ficar sozinha?”. Era nove horas da noite, a hora que ele estava falando comigo ele estava saindo, estava dentro do táxi, saindo do serviço. Hoje era sete e quinze da manhã e ele já estava indo trabalhar, né? Então aí é que eu falo: às vezes passa mais tempo trabalhando, né, ali...


P/1 – O cargo de gerente é o que você acha que exigiu mais.


R – Ah, isso exige, porque sempre tem alguma coisinha que você tem que... Ou é no final do expediente que se resolve, né?


P/1 – E quando foi que ele assumiu, você lembra quando foi o ano, mais ou menos, Kátia?


R – Aí, o ano eu não lembro.


P/1 – Mas é recente, já tem algum tempo...? 


R – Não. Acho que já tem no mínimo uns cinco anos que, em São José, já era gerente.


P/2 – E como é que foi essa vinda para o  Rio de Janeiro?


R – Vamos dizer que ele lá é gerente de Recursos Humanos, seria para um administrador de empresas que também tem o grau de classificação Administrador I, II, III, né? Eu não sei se também é igualzinho engenheiro que também vai acho que até o cinco, o quinto, uma coisa assim. E então, seria lá o cargo máximo para ele. Porque para ser superintendente tem que ser engenheiro, né, na nomenclatura da Petrobras. Então, aqui já é a mais para ele.  Ainda mais que está numa coisa nova, é diferente de uma refinaria. Agora, aqui, ele cuida de todos os sindicatos do país inteiro, então é um desafio para ele.


P/1 – E quando que ele saiu lá de São José...?


R – No ano passado. Ele começou aqui acho que deve ter sido no finalzinho de março para abril, acho, que ele veio para cá.


P/2 – Ele trabalha no Edise?


R –É. 


P/2 – E como é que está a vida dele agora nesse novo cargo, ele está gostando?


R – Está. É uma coisa nova e ele sempre foi de se desafiar. Ele vai final de semana para casa, mas o computadorzinho dele lá está funcionando. Se fica alguma coisa aqui pendente alguém liga para ele, já dá o parecer, o que que está se passando e...


P/1 – Mas agora ele passa a semana aqui no Rio, é isso, Kátia?


R – Passa.


P/1 – E você veio junto com ele?


R –Não, não eu estava ficando...


P/1 – Como que foi essa vinda dele, qual foi a necessidade da Empresa para ele vir para o Rio? Conta para a gente como é que foi essa transferência de São José para o Rio.


R – Então, para ele seria coisa que ele sempre desejou, né?


P/1 – Ah, ele foi indicado para vir?


R –É, foi indicado para vir. E aí eu ainda estava com uma lá fazendo cursinho, então não podia vir. Vinha no final de semana ou feriado, mas não podia ficar aqui direto, porque só estava eu e ela lá em São José. Aí agora não, agora... Dia de semana ele ficava aqui, né, então...


P/1 – E você lá em São José?


R – E eu lá em São José.


P/1 – E como que foi isso para você, agora ficar mais distante, para as filhas, como que vocês estão vivendo agora com essa nova rotina de vida?


R – É, é, cada vez eu falo, parece que vai ficando mais longe [risos]. A gente tenta juntar, né, mas...Elas gostaram da idéia, porque eu falei: “Ó, é bom, é ótimo para o seu pai e vocês vão estudar fora. Vocês não vão ficar nem aqui comigo, nem com ele”. Se ele ficasse lá na refinaria, elas não estariam na cidade. E a gente já pretendia, sim, que as duas fossem estudar, ficassem no mesmo lugar para facilitar, mas não tão longe como foram, né?


P/1 – Onde elas estão?


R – Ribeirão Preto.


P/1 – Elas estão em Ribeirão?


R – É.


P/1 – Fala para a gente o que que cada uma está fazendo que a gente vai entendendo como que está a organização da família.


R – Tudo área biológica, não tem nada a ver com o pai e nem com a mãe [risos]. A minha caçula faz Nutrição...


P/1 – A Luana.


R – A Luana está no segundo ano de Nutrição, e a Larissa entrou agora para fazer o primeiro ano de Medicina.


P/1 – Todas as duas morando em Ribeirão?


R – Todas duas morando em Ribeirão.


P/1 –Você está morando?


R – Eu morando em São José dos Campos. Eu estou de ponte aérea e o Lairton no Rio de Janeiro. Até os outros falavam, ou as amigas da minha filha [risos], falavam assim: “Mas seu pai se separou da sua mãe?”. “O apartamento do meu pai do Rio e a casa da minha mãe é em São José”. Mas querendo dizer quem estava morando, né? Aí: “Não, por quê?”. “Não, porque ele não estava....?” “Não, ele está trabalhando no Rio, né?”. Em São José tem gente que está trabalhando em Manaus, por causa de... perdendo o emprego, ou a... A fábrica é de Manaus, foi obrigado a ir ou você perde o emprego. Já o do Lairton não foi assim, é para o bem-estar dele, psicológico, tudo. É ótimo para uma pessoa conseguir fazer desafios e mais desafios. Ele adora.


P/2 – E como é que ele está se adaptando aqui no Rio de Janeiro?


R – Ele se adapta em qualquer lugar. Ele dorme na cadeira do dentista, fazendo canal, onde for ele dorme. Eu acho que esse dentista dele já deve saber que ele vai ter que segurar aqui, para ele não fechar [risos].


P/1 – E como vocês se encontram, Kátia, como é que se dá agora esse encontro da família, já que estão tão...?


R – Final de semana. Agora, nas férias, eu fiquei com as duas lá. A gente até veio mais para o Rio. Mas tinha vestibular, então era ali e daqui a pouquinho voltar. Mas ele vai toda sexta-feira desde que ele aceitou. Quando aceitou, ele já sabia que ele iria viajar na sexta-feira, pelo menos por um bom tempo, para São José. Mas ele dorme tranquilo em qualquer lugar, então ele disse que entra...


P/1 – Vocês se encontram no Rio. As filhas, você vêm para o Rio, ele vai para São José?


R – Não, todo final de semana, vamos dizer assim, ele indo lá para São José, está todo mundo lá. E ele até chegava de manhã. Ele já chegava no sábado de  manhã, já ia para o computador, via alguma coisa, porque ele já tinha dormido no ônibus, aí ele já acordava a mais velha para ir para o cursinho, que entrava às sete. Fazia o café, que ele adora fazer café da manhã, ia para o cursinho, ele levava às sete, e voltava, e depois é que ele dava uma descansada. E ele adora, adora pajear. As amigas da minha caçula que falam que é o pai que mais de madrugada ia buscar elas nas festas [risos]. Porque todo pai reclama. Levar todo mundo quer, porque é nove, onze horas, mais ou menos. Mas para buscar é de madrugadinha, né? E ele falava: “Não, não tem problema. É só ligar no meu celular, eu vou e pego”. Ele gosta, gosta. E eu sempre também fui assim de gostar, as amigas das filhas, os amigos, na minha casa, né?


P/1 – E você consegue acompanhá-lo um pouco mais agora nas viagens, como que tá?


R – Consigo. Agora ele está mais parado no Rio, não está viajando tanto não. Aí ele está ficando aqui mais no Rio... Ele que está viajando agora para São José, não a serviço, né? Ou quando ele vem aqui, ele vai para Búzios.


P/1 – Mais próximo.


R – É, mais próximo. Eu já estava aqui até, foi em julho do ano passado. Nós estávamos aqui com ele, aí nós fomos para Búzios. Tinha lá um seminário, alguma coisa, era de trabalho. E aí nós fomos e ficamos lá uns dias lá.


P/2 – Aproveitaram para passear.


R – É, porque senão a gente ia embora ou ficava no Rio sozinhas. Eu falei: “A gente veio para te ver e você vai saindo ” [risos].


P/1 – Kátia, e você consegue falar para a gente o que mais influenciou ao longo desses anos o trabalho do Lairton, na vida de vocês?


R – Do trabalho dele que....?


P/1 – Assim, que tenha influenciado na rotina de vocês, que tenha influenciado a família mesmo. O que que você acha que o trabalho mais tenha influenciado?


R – Todo mundo sabe sobre petróleo [risos]. Até no ano passado, no cursinho, com respeito a PLR [Participação nos Lucros e Resultados], o comentário que um professor fez, e a minha filha, acho que por ela ser muito tímida, ela não se manifestou. Mas ela chegou, ela escutou o pai, ela vê o pai falando como que é e tal no salário, dele, dos petroleiros, aí o professor falou uma coisa, que é parente do professor que acho que estava novo na empresa, ela não se manifestou, ela ficou quietinha, mas ela chegou em casa e falou: “Pai, me explica um negócio aqui, que eu acho que o professor falou besteira sobre a Petrobras”. Então às vezes o que você escuta fora é um lado, agora, qualquer que seja o parente ligado a petroleiro, enxerga a empresa de outro jeito, porque eles trabalham lá e sabem. Eu falei assim: “Olha, acho que não existe uma paixão nacional assim”. [risos] Como de...  petroleiro é. Você pode ir em qualquer reunião ou encontro… ou até aqui no Rio de Janeiro mesmo, às vezes quando eu venho… como lá em Búzios, conheci bastante gente que eu não conhecia, né, porque o Lairton estava aqui de novo, na cidade, aí é aquele negócio que você vê que eles gostam do que faz, é bem interessante.


P/1 – E as meninas se envolvem com isso.


R – Se envolvem, elas gostam. É uma coisa assim, eu falei: “Então porque vocês não foram ser engenheiras para...”. “Ah, mãe, não é a nossa área, né?” [risos]. Eu falei, mas até como a área delas também dá para trabalhar.


P/1 – E que que era esse LRL, como é que era a sigla?[risos]


P/2 – PLE, não.  


R – Ah, da PLR, né? 


P/1 – PLR [risos].


R – É que achavam um absurdo o valor que uma pessoa que ganha o mínimo. Tinha um piso para começar de PLR. E o sobrinho dele, acho, tinha acabado de se formar em engenharia. Não sei se fez concurso, ou se… estava fazendo, que ele recebeu, devia ser concursado, sim, acho que estava morando até aqui, no Rio. E aí foi o valor que ele achou assim uma exorbitância para pagar para uma pessoa que ganha tão, é... tão pouquinho, né, ou começou, a carreira estava curta, né? Aí ela falou: “Pai, mas o que ele explicou lá não foi bem isso, mas...” Aí o Lairton falou: “Porque que você não falou, filha: ó, meu pai trabalha lá, então não é bem por aí, eu vou procurar saber melhor”. Aí ela falou assim: “Ai, pai, mas ele falou como fosse um disparate um negócio desses. Essa distribuição do dinheiro e tal”. Eu falei: “Mas a produção, o que produz, né?”. Que até ela há pouco tempo foi no... acho que estava no oftalmologista, não sei onde que ela viu uma reportagem, agora não me lembro sobre o que que é, falando sobre a Petrobras. Não, foi da Veja, que estava falando... Ela chegou depois falando com o  pai dela: “Pai, você sabe…”. A gente acha que filho não dá valor, né, ao emprego do pai, mas chegou falando, aí ele falou assim...


P/1 – Essa é a caçula.


R – Não, a mais velha. Aí ela falando: “Você viu o que que estava escrito na Veja e tal”. Ele falou: “É, filha, é isso, é não sei o que, isso eu já sabia e tal”. Mas aí são coisas assim que você pensa que não influencia. E a maioria dos pais das amigas delas são todos engenheiros, a maioria. Antigamente só se formava engenheiro, engenheiro...


P/1 – Eles são da Petrobras também?


R – Não. Tem alguns que sim, tem alguns que não. E o dela como é administrador de empresas, então é uma diferença assim, é um choque, que às vezes elas chegavam assim: “Ah, eu ia te pedir esse negócio para você ensinar, de física, química, mas não adianta, você só entende área de recursos humanos [risos] não adianta que você não vai saber isso, me explicar”.


P/1 – Kátia, você pode falar para a gente o que significa o trabalho do Lairton para você?


R – Olha, o trabalho dele...


P/1 – O que representa para você isso?


R –Olha, é uma coisa fora do comum. Quando eu casei ele tinha uma função, aí vai subindo, subindo. Ele vai conseguindo aquilo tudo e a empresa dá valor a isso, né, então o importante é isso. E ele conseguir ficar, vamos dizer, numa empresa 30 anos, é uma coisa bem importante, para ele, para a empresa, para todos, porque tudo tem o retorno. Porque não é qualquer um que fica todo esse tempo numa empresa. Hoje em dia é difícil você até conseguir um emprego, quanto mais se manter nele. Porque às vezes você vai subindo de cargo, o seu salário vai aumentando, aí são esses que são os primeiros a serem excluídos. Com a Petrobras não acontece isso. Então, é excelente, não tem como eu dizer... Nada contra, só a favor [risos].


P/1 – Só para a gente deixar registrado, qual é a atividade dele hoje, ele está como...?


E – Como gerente de recursos humanos e ligado a ambiência  organizacional. Que eu acho que é uma área nova, eu acho que nunca tinha ouvido falar nesse nome. Não sei bem… espero que eu não esteja falando besteira [risos].


P/1 – Está como gerente nessa área.


R – Hum, hum, exato.


P/1 – Qual unidade que ele está hoje?


R – No Edise.


P/2 – Então, eu já vou encaminhando a entrevista para o fim, eu queria que você dissesse para a gente quais os seus sonhos e os seus planos para o futuro. O que você espera daqui para frente?


R – Olha, o futuro a Deus pertence [risos]. Já está excelente, porque as filhas eu já consegui encaminhar. Ele já tem 30 anos de empresa, para aposentadoria falta pouco por causa... é problema de idade. Mas ele não pretende e nem eu, não quero ninguém aposentado atrás de mim não [risos]. Pode produzir muito bem, pode continuar. Então, o futuro é isso, é tocar, levar vida melhor todo mundo quer, mas já está excelente.


P/2 – Já está encaminhada,


R – Já.


P/1 – O que você gosta de fazer nas horas de lazer, Kátia?


R – Ai, na hora de lazer? [risos]


P/1 – Quando você consegue ter esse tempo, né?


R – É. Não, eu não sei ficar muito tempo assim parada. Eu estou sempre pegando alguma coisinha para fazer, fazendo um negócio de patch work. Até já estava falando com a minha filha no apartamento dela, lá em Ribeirão: “Olha, se a fulana não levar essa peça aqui, isso daqui a gente já faz uma outra coisinha, entendeu?”. Então eu não sei ficar parada. Até quando a gente viaja… Já tem um tempinho que a gente já está assim sem tirar uns 7, 10 dias nós quatro sozinhos. Quando elas falam: “Ai, que vontade de ir à praia”. Que a gente mora perto Caraguatatuba, Ubatuba. É 1 hora até Caraguá. Eu falo assim: “Ah, mas tem o Rio de Janeiro.” – “Mãe, mas lá é tão longe”. O tempo de viagem. Olha, se melhorar às vezes até a gente fala, estraga, né? [risos]


P/1 – Sua atividade hoje... você está trabalhando como florista, né?


R – Ham, ham. Porque aí o atelier é em casa. Eu trabalho por telefone: a pessoa recebe a carta, tem um telefone, quer me visitar, vai lá vê o que eu faço, as fotos, tudo isso. Agora até deu uma paradinha do final do ano para cá, fevereiro, porque eu estava com pintor dentro de casa. Eu já estava pensando em deixar a casa organizada, ou alugar, e montar uma coisa aqui, um apartamento aqui. Aí você não consegue dar atenção, porque as noivas exigem bastante isso. Você pega às vezes o serviço e é isso: é você explicando como que você vai fazer, o que que você vai colocar, né, então tem que ser com horário bem disponível. Aí dei até uma parada, que aí eu falei: “Agora preciso resolver o que que eu faço com aquilo tudo lá ” [risos].


P/1 – Pretende vir para o Rio para morar?


R – Pretendo, pretendo sim. Porque não compensa eu ficar, não tem porque eu ficar lá em São José. Vamos sim. Alugar um apartamento pequeno; porque tem coisa que é antigo meu, que já está virando relíquia de casado [risos]. Então vou deixar lá montado, pequenininho. Porque a minha casa é muito grande, e aí você chega lá, você tem que ver alguém para limpar aquilo tudo. Que se você chegar tem poeira, tem as coisas lá para fazer e para se encontrar, porque aí elas, se elas não vieram toda semana, vierem de 15 em 15 dias dá para a gente se reunir, né?


P/2 – E aqui você pretende continuar trabalhando?


R – Por enquanto não sei, não pensei nisso. Eu já passei perto do apartamento do Lairton e tem uma... eu não sei se é só vasos, como é que vende, se são plantas só ornamentais. Eu virei e falei para o Lairton: “Olha, eu vou dar uma chegadinha lá”. Ele falou assim: “Não inventa!” [risos]. Porque sempre sobra para ele, né? Ele sempre acabava me ajudando.


P/2 – Ah, é?


R – É, na montagem e tudo. Até para olhar, para ver: “Bem, assim tá bom, como é que faz?”. Ele sempre ajudou. Que é por isso a gente fala que casamos certinhos. Porque às vezes posso estar de costas na cozinha, em algum lugar, e eu falo: “Bem, pega não sei o que para mim”. Ele fala: “Você já viu o que que eu estou fazendo?”. Então tem a sintonia, né? Um, às vezes só de olhar, já sabe o que que o outro quer.


P/1 – Então quer dizer que vocês pretendem ficar aqui no Rio agora, né?


R – Hum, hum.


P/1 – Então tá, Katia, a gente queria perguntar para você o que que você achou de ter participado do Projeto Memória Petrobras e ter contribuído com esse depoimento?


R – Olha, eu acho bem interessante. Não é moderno hoje resgatar essas coisas. Que o brasileiro precisa conservar, saber, ter alguma coisa para contar, igualzinho  ter as fotos que você tira dos filhos quando nasceu, quando bebê. Então tem todas essas passagens, tudo isso. Que aí, quando você viaja, como eu fui para Portugal, fiquei encantada com as coisas que falam, do jeito... Sabe, é uma história, que você fica assim: nossa, no Brasil acho que vão pensar que isso não é legal, é muito velho, muito antigo. Que o Brasil também tem bastante história e a Petrobras está incluída nela, né?


P/1 – Você gostou de ter participado?


R – Adorei.


P/1 – A gente queria agradecer: muito obrigada pela sua entrevista, obrigada.


P/2 – Obrigada pela sua participação.


R – Obrigada vocês.

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