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História

"Não é história de ouvir dizer, não"

História de: Manoel Gomes de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Seu Manoel nasceu no estado do Maranhão na cidade de Pedreira. Nessa entrevista relembra as brincadeiras de infância, as aulas e os castigos físicos na escola. Relembra, também, sua ida para Tocantins em busca do garimpo, primeiro de diamante e depois de cristal. Conta em detalhes como funcionava extração e o comércio do garimpo, e as transformações passadas por Xambioá ao longo desses anos.

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História completa

P/1 – Nós vamos começar, Seu Manoel, a entrevista e o senhor pode falar, então, o seu nome completo?

R – É Manoel Gomes de Souza.

P/1 – Qual data que o senhor nasceu?

R – Eu nasci no dia primeiro de fevereiro de 1923.

P/1 – Então o senhor tá fazendo aniversário hoje?

R – Não. Acho que é o mês de setembro, né?

P/1 – Nossa! Fevereiro, ele falou…

R – (risos) Estamos em setembro e eu nasci em fevereiro. Tá longe.

P/1 – Seu Manoel, vamos começar a entrevista novamente. O senhor fala o seu nome inteiro?

R – Manoel Gomes de Souza.

P/1 – Que data o senhor nasceu?

R – No dia primeiro de fevereiro de 1923.

P/1 – Em que cidade?

R – Eu nasci em Pedreira do Maranhão.

P/1 – O senhor tem que lembranças do seus pais?

R – O que eu tenho lembrança? Eu não conheci pai, só conheci mãe. Mas eu não fui criado pela minha mãe que eu nasci dela. Eu fui criado por um tio e a minha mãe de criação. Tio, irmão da minha mãe. Chamava-se Emanuel Gouveia e a mãe de criação chamava Possiana Maria da Conceição.

P/1 – E a sua mãe, o nome dela?

R – Saturnia Gouveia, a mãe legítima.

P/1 – O senhor foi morar com essa nova família, o senhor era muito pequeno?

R – Eu fui morar com eles eu tinha cinco anos de idade.

P/1 – E o senhor lembra desse momento em que o senhor foi morar com eles?

R – Não lembro que eu tava meio novo nesse tempo, mas lembro de certos anos, assim, pra frente, de dez anos pra frente, oito anos. Eu me lembro, né, dos acontecimentos. Ele me trouxe para passar uns dias com ele, né, eu como era sobrinho dele, ela deixou: “Mas você traz meu filho de volta” “Trago”. Aí, passou, passou, nunca mais ele me levou lá, aí ele me criou, né? Me criou, me matriculou na escola, eu aprendi um pouquinho, eu tinha mais ou menos dez anos de idade quando fui para a aula a primeira vez, aí aprendi um pouco. E daí pra cá, foi o seguinte, eu fiquei mais ele, fiquei, fiquei, quando foi com uns certos anos, ela me escreveu uma carta, minha mãe pra eu ir buscar ela, aí eu fui buscar ela, já tava casado, tinha família.

P/1 – Seu Manoel, o senhor nunca mais tinha visto sua mãe?

R – Dessa época pra cá, nunca mais tinha visto, fui ver eu tinha mais de 20 anos.

P/1 – E nessa casa que o senhor foi morar com o seu tio, tinham outras crianças?

R – Tinha uma menina, irmã minha de criação, chamava Josefa.

P/1 – E vocês conviviam como na casa? Como que era a convivência de vocês, sua e da sua irmã?

R – Era o seguinte, ele me criou, fiquei mais ele, lá, fiquei, fiquei. Aí quando eu já tava rapaz, rapaz novo, mas já tava querendo namorar e tal, vai, vai, vai até que eu arrumei uma namorada, casei, né? Casei, aí fiz uma casa para mim mesmo, enfiei a mulher dentro, nessa casa, nasceu dois filhos, uma menina e um menino. Bem, aí vai, vai, explodiu os garimpos pra cá, né?

P/1 – Então, a gente vai voltar depois para essa história do garimpo que o senhor vai falar muita coisa pra gente, mas voltando ainda para a sua infância.

R – Pois é, é o seguinte, como eu ia contando, eu casei, fiquei com a família, nasceu dois filhos, uma menina e um menino.

P/1 – Mas quando o senhor era criança ainda…

P/2 – O senhor se lembra da casa que o senhor passou a sua infância, Seu Manoel?

R – Lembro, lembro sim.

P/2 – Como era essa casa?

R – Era uma casa de palha. Coberta de palha, tapada de barro, sabe como é a casa tapada de barro?

P/2 – Taipa.

R – Chamam taipa, é. Aí, morei lá até quando casei, mais velho.

P/1 – E o senhor brincava nessa casa?

R – Se eu brincava? Quase não tinha tempo de brincar, que o meu pai colocava pra trabalhar…

P/1 – Trabalhava no quê?

R – Em roça. Quando eu já tava grande, rapazinho, graúdo, nós largamos de trabalhar em roça, não largamos, ele toda vida teve roça, fazia a roça. Aí eu ficava nos interior comprando cereais, trazendo para a cidade, vendendo, ele tinha alguns animal, burro, jumento. Aí me entregou e eu fui andar no sertão comprando coisa e voltando para a cidade para vender. Até chegou a época de eu me casar, né?

P/2 – Só voltando aqui, Seu Manoel, na época em que o senhor era garoto ainda, o senhor tinha muitos amigos lá próximo a sua casa?

R – Amigos? Tinha sim.

P/2 – O senhor se lembra de algum, os nomes de alguns deles?

R – Tinha um que chamava João, outro chamava Pedro, era os dois que eu mais tinha intimidade por lá perto, né? Tinha mais alguns, mas aí, tem uns que a gente tem mais que os outros, né? Eram vizinhos meus lá, a gente brincava muito mais eles.

P/1 – Brincava do quê?

R – Menino, sabe como é, brinca correndo pra aqui, pra acolá, né? E brincadeira de menino mesmo, não sei se a senhora nunca brincou, senhora às vezes nunca brincou, né?

P/1 – De menino, não.

R – Criança, né?

P/2 – Mas o senhor falando de brincadeira, nessas brincadeiras assim, o senhor com os seus amigos, assim, mais chegados, o senhor pensava em ser o que quando o senhor crescesse, assim?

R – Eu pensava em ser o quê?

P/1 – Que profissão o senhor queria seguir, o quê que o senhor queria ser?

R – Não, eu não tinha nenhum pensamento assim, certo, né? A pessoa quando é novo não tem certa ideia. A pessoa de 20 anos pra frente já tem uma ideia, mais ou menos, né? Inclusive esses hoje, tem negos que têm 20, 25 anos e não têm nem ideia de nada, né? Não é isso? Mas eu nunca tive uma ideia assim, de ser uma pessoa peralta, uma pessoa ruim, sempre gostava de ajudar o povo e eu ainda gosto. Desde eu novo, desde eu menino, com precisão eu sempre ajudava, eu ainda ajudo.

P/2 – Mas junto com esses seus amigos aí, qual era a brincadeira favorita de vocês, era correr a cavalo, empurrar latinha, o quê que era?

R – Nós ia pescar, nós três, eu e eles dois. Montava em animal, ia buscar nos pastos, nas quintas, né, mais eles, animaizinhos de lá correndo, nós em cima, inclusive uma vez, fui dar num burro assim, uma volta, como daqui… mais perto daqui no mercado, de lá pra cá, o burro gordo, quando chegou perto de casa, deu aqueles pulos, escremuçando, nós chama de escremuçando, cai por cima de uma pedra, que hoje tenho o sinal bem aqui na testa. Cai, quebrei um braço, aí o meu pai me pegou, botou remédio em cima, tudo é história pra gente contar, né?

P/1 – E o pai não ficou bravo?

R – Não, não, não. Ele que mandou eu ir dar água ao animal, né? Aí, eu fui.

P/1 – O seu pai trabalhava com roça?

R – Com roça.

P/1 – E depois, o senhor falou que ele deixou a roça…

R – Foi, ele depois que ele largou de trabalhar com roça, ficou pagando trabalhador, pagava pra brocar, derrubar, plantar, muitas vezes, ajudava a colher, mas era difícil, mais era pago. Naquelas épocas, ainda hoje tem esse negócio, acabou mais que ninguém vê mais legume.

P/2 – Seu Manoel, o senhor disse que começou a estudar aos dez anos de idade, praticamente, não é isso?

R – Foi mais ou menos.

P/2 – O senhor lembra assim, como é que foi a sua chegada nessa escola? O que o senhor viu, o que achou da escola na primeira vez?

R – Foi o seguinte, quando eu cheguei na escola a primeira vez, o professor passava lição para mim, né? Dizia: “Olha, precisa pagar essa lição”, naquela época não tinha esse negócio de recreio, era inteiriço, né, começava às sete horas, ou oito, mesmo, por exemplo, até 11 horas. Às 11 horas, professor chamava para dar lição, aquela lição que ele passava pra gente, né? Você tinha que dar que era a lição toda. Com a palmatoria ali do lado. Se por exemplo, você não desse a lição direito, olha, bolo! Amanhã tu ia para a mesma lição até quando aprendia. Era assim.

P/1 – O senhor gostava da escola?

R – Era bom. Mas eu era… a coisa mais difícil que tinha era dar bolo, porque eu era inteligente, sempre eu gostava de aprender e ler mesmo, ler, ler. Tinha uns argumentos antigamente, botava para argumentar, o argumento é o seguinte, vocês podem não saber, mas eu vou explicar a vocês. Uma rodada de meninos, como estão aquelas cadeiras, todo mundo sentado, né? Aí, a professora tá aqui, digamos que eu sou a professora e vocês são os alunos, né? Aí, ela ia chamar ou ficava com a carta aqui, tabuada na mão procurando: “Fulano de tal, tanto com tanto?”, começava do primeiro: “Tanto” “Não sei” “Passa pra frente” “Tanto”, aquele que não dizia, o que dizia pegava a palmatoria e dava murro naquele que não sabia, né? O que respondeu direitinho pegava a palmatoria, pegava a mão do outro e batia. Tinha vez que nego fechava a roda, só um que dizia e os outros não sabia e teve um que dizia. Lembro de uma vez, uma ocasião, nós estávamos num argumento de conta, né, era para tabuada. Me lembro direitinho como se fosse hoje, tinha mais ou menos uns dez anos, eu corri a roda todinha dando murro nos meninos. Uma conta sabe como era? Sete vezes sete, era para todo mundo… os meninos responder quanto era, só quem respondeu foi eu, eu fui o único da rodada, né? Sete vezes sete, aí eu respondi direitinho, Nós pega a palmatória e pode correr a roda aí na negada. Sete vezes sete, 49.

P/1 – Nunca mais esqueceu!

R – Não, esqueço não.

P/2 – Isso era dos tempos antigos. Eu também participei dessas rodadas.

R – Foi? (risos)

P/2 – O senhor lembra assim, de um professor que marcou mais, que o senhor gostava, um professor que se destacou com o senhor na época? Já que o senhor estudou pouco, como o senhor disse.

R – Eu estudei pouco, porque naquela época, era pago, não tinha aula pública, né, pago pelo pai. Aí, meu pai até tinha condição, mas ele me tirou logo cedo pra tomar conta de negócio pra aqui, pra acolá mais ele, né, pra aprender a fazer negócio. Os professor, eu me lembro bem de um que morava até distante lá de casa, ele me levou assim, se não desse dez léguas, mandava a pé, num lugar chamado Riachão. Aí, eu fui. Botou lá, arrumou a casa lá pra onde ficar, me botou lá pra aprender, né? Naquelas épocas era difícil ter professor, professor era difícil.

P/1 – Ele pagou um professor?

R – É. Pagava professor.

P/1 – E tinha mais alunos junto com…

R – Tinha, tinha, não era só eu, não. Os pais é que pagava naquela época, não tinha negócio de aula pública, não, era particular como o povo chama hoje, né, aula particular.

P/1 – Quanto tempo o senhor acha que durou essa escola? Essas aulas? Quanto tempo, mais ou menos?

R – Eu não tô bem a par de quanto tempo, mas provavelmente, eu estudei não era direto, uns três anos, passava uns dias, aprendia um pouco, ele me tirava, andava um pouco, dali a pouco, ele tornava a me botar às vezes em outro professor. Eu lembro que lá perto de casa mesmo, eu fui num lugar como chamado Laguachado, estudei uns dias. E outro lugar que chama Espírito Santo, diferente assim, perto do outro, mas… ele me botou nessas duas aulas e essa longe que era umas oito a dez léguas. As aulas que eu aprendi foi lá.

P/1 – E como é que o senhor ia para a escola? Era longe?

R – Não era muito longe não, eu ia a pé. Saía cedinho, minha mãe fazia a merenda. A nossa merenda eu me lembro todinha o que era que ela fazia. Naquele tempo, tudo era fraco de condição, ela levantava cedo, botava o arroz no fogo pra fazer um mingau de arroz, era nossa merenda antes de ir para a aula, viu? E vinha almoçar meio-dia quando chegava, não tinha negócio de merenda naquela época na escola que era particular, né? Aí quando terminava 11 horas, o professor ou professora liberava os meninos e a gente vinha para casa almoçar. No outro dia, novamente.

P/1 – E à tarde o senhor fazia o quê, depois da aula?

R – Ia brincar (risos), quando não ia fazer um servicinho que o velho mandava, ia brincar. Ia andar mais ele.

P/2 – Seu Manoel, eu acho bom, o senhor começou a namorar aos 15, 16 anos e qual foi a sua… como foi o seu primeiro namoro?

R – (risos) Primeiro namoro (risos)

P/1 – Foi mesmo com 15 anos ou foi antes?

R – Não, acho que foi mais ou menos uns 15, 14 a 15 anos. A gente quando é rapaz assim, sendo bem inteligente, começa a conversar com as meninas e coisa, por aí vai, dali a pouco tá arrumando namoro, não é isso? Assim que eu comecei, né, foi assim.

P/2 – E essa primeira namorada, o senhor chegou a ficar muito tempo com ela? Como é que foi?

R – Não, eu namorava uns dias com uma, dali a pouco largava, pegava era outra, era assim.

P/2 – Então, o senhor era um pegador!

R – (risos)

P/1 – O senhor lembra alguma assim que tenha marcado o seu coração?

R – A que mais eu gostei chamava Raimunda, era vizinha minha, inclusive ela era mais velha do que eu um pouco, mas nós começamos a gostar, era menino, mesmo. Ela até morreu. Faz tempo que ela morreu.

P/1 – O senhor chegou a namorar com ela?

R – Namorei uns dias, depois larguei. Aí, ela ficou moça, depois casou. Casou com um outro homem, um rapaz lá. Que é difícil ter um rapaz para dizer assim: “Eu namoro com a fulana até casar”, é difícil ter, sempre namora com uma, depois namora com outra. Eu namorei muita moça quando era rapaz e casei com uma que nem pensava de algum dia casar com ela, acredita?

P/1 – Como foi?

R – Ela não andava nem em festa que ela não gostava de festa, aí eu vi ela por lá por causa dos pais dela, peguei andar por lá, aí fomos indo, conversando, conversando, até que… aí me deu vontade de casar com ela e casei, né? Que é a mãe de dois meninos que ficou lá, que eu falei no começo lá que eu tinha deixado esses menino lá e tinha vindo para o garimpo, não foi? Não sei se a senhora lembra que eu deixei…

P/1 – Sim, o senhor casou e teve dois filhos…

R – Lá ela morreu, né? Quando eu sai de lá, depois de poucos dias, ela morreu. E os meninos foram criados pelo avô deles lá, ainda hoje tem um deles lá no Maranhão, a menina morreu. Em 1984, ela morreu lá, mas ela deixou família.

P/1 – A sua filha?

R – É, filha. E o rapaz, filho meu, ele já tem 68 anos, parece. Tem família já, tem neto, não tem bisneto, não, mas tem muito neto.

P/1 – E o senhor chegou a conviver com os seus filhos, depois?

R – Não. Eles ficaram lá e eu vim para o garimpo do Clementino, lá em diamante e do garimpo do Clementino, eu vim para cá para o Chiqueirão. Passei 20 anos sem eu ir lá, quando eu fui lá, eles já estavam casados, já tinham filho, já tinham tudo.

P/1 – E nunca mais o senhor tinha encontrado com eles? Nem eles vieram ver o senhor, nada?

R – Nunca mais tinha visto eles, ficaram lá, criado pelos velhos, casaram, tanto o homem quanto a mulher, cheguei lá, estava tudo casado.  

P/1 – E como foi esse encontro com eles?

R – É porque eu sai daqui pra ir lá direto onde eles, fui bater lá, cheguei lá, fui bem recebido, graças a Deus, eles não me conheciam, porque ficaram pequeno, né? Mas me receberam bem, vixi Maria, ainda hoje… só não tô morando lá porque eu não quero, a menina morreu, mas ele tá lá, o rapaz tá lá, o filho. Agora mês de julho eu tive lá com ele dez dias. Eu sai de lá dia primeiro de agosto da casa dele.

P/1 – Antes do senhor contar como foi a sua vinda para o garimpo, o senhor falou que tinha umas festas lá, né?

R – Eu morava lá, aí naquela época não tinha caminhão, só tinha tropa, né, viajei um bocado a pé. Quando cheguei certa vez no Japão, chamava Japão, antigamente, aí o rapaz me deu uma carona no burro, vinha para cá para uma cidade com a tropa sem nada, aí ele me deu e eu vim até um lugar que chama… hoje chama Presente Dutra, antigamente era Curador. Aí de lá, eu vim de a pé até no Clementino. Clementino fica no Maranhão, do outro lado do Tocantins, dali a Tocantins dá uns seis quilômetros, área de diamante, trabalhei dez mês, não fiz nada. Aí, escolhi o Chiqueirão aqui, área de cristal. Meu patrão lá fez o rancho, aí me entregou mais um sócio que eu trabalhava com ele lá, chamava Raimundão. Fez o rancho, ele tinha um jumento muito bom, botou o rancho no jumento e me entregou para eu vim embora para cá para tocar o garimpo aqui com ele lá, o patrão lá e eu trabalhava aqui, né? Mandou uma carta de recomendação para um patrão dele que já tinha aqui, que lá ele era comprador de diamante, chamava-se Doca Caoio, que ele era menos de um olho, né? Um patrão muito bom, a mulher dele chamava… deixa eu lembrar agora do nome dela, o nome dele era Doca, chamava Doca. Aí chegando aqui no garimpo, sim, aí de lá para cá passamos sete dias viajando, com a carga no jumento, eu e o rapaz, meu sócio. Vim barrar aqui no Chiqueirão, ali no posto do Chiqueirão, foi pelo verão, tava seco o milho do rio tava seco, morria lá na carreira comprida, ficava beirando, beirando até chegar no posto do Chiqueirão, ele sabe onde é, esse aqui. Cheguei no posto do Chiqueirão, tinha uma estradinha que vinha para o Coco, perto da Chapada do Chiqueirão, Coco era onde tinha o acampamento grande de garimpeiro. Era um furdun de gente, garimpeiro demais. Cheguei umas três horas da tarde, cheguei, me arranchei lá, fiz um barracãozinho, eu mais o meu sócio, fomo trabalhar no garimpo. Trabalhei uns três meses, dois meses e tanto, não fiz nada, larguei.

P/2 – Isso era que ano? Quando o senhor chegou aqui no Chiqueirão?

R – Em 1952. Eu sai do Clementino no dia 19 de agosto de 1952, cheguei aqui no dia 26 de agosto.

P/2 – O senhor estava com quantos anos?

R – Nessa época?

P/2 – Sim.

R – Eu tinha uns par de… de 52 para 23… 29 anos, né? Não é isso? Vinte e nove anos.

P/1 – O senhor disse que antes de vir para cá, o senhor trabalhou no garimpo de diamante?

R – Foi.

P/1 – E como era esse garimpo, Seu Manoel?

R – O garimpo de diamante é o seguinte, a senhora… eu chego lá, tá aqui o Manchão, tu pega a pé e uma picareta e uma pá e vamos cavar, cavar, botando para cá terra, né? Aquela montoeirona de terra, se é perto da água, a gente dali já pega terra bater, chão bater, peneira, bater é de peneirar o… a peneira, a gente bota três peneiras em cima de uma outra, tem a fininha que pega o fino, tem a média que pega o mediano que chama médio e tem as pedradeiras que é a de cima que pega pedra graúda, viu? A graúda sai na de cima, a do meio sai a média e a fininha só pega diamante fino. Então, a gente bota a terra pra cá, se a grota é como daqui acolá no rio, o rio é acolá e aqui tá a montoeira, você vai levar o cascalho lá na beira da água, né, só lava dentro da água, você bota num saco ou bota num animal e carrega para lá, derrama lá todinho o cascalho, chega lá, você vai lavar. Lavar, lavar, às vezes você ainda pega alguma coisa, outras vez, trabalha um mês, dói, não faz nada. Eu mesmo trabalhei dez meses lá, em dez meses, eu fiz uns cento e poucos cruzeiros naquela época só.

P/1 – Demorava quantos dias, mais ou menos, Seu Manoel para conseguir uma pedra?

R – Ah, aí não tem quantidade de dia.

P/1 – Depende da sorte?

R – Vai da sorte, é. As vez, a senhora começa a trabalhar hoje, a manhã, já tá com uma pedra na mão. Não é? E outra, você trabalha dois, três anos e não faz nada! Garimpo é assim, é arriscar!

P/1 – No transcorrer dessa viagem, aconteceu algum imprevisto, aconteceu alguma coisa? O senhor chegou a gostar da viagem? Quando o senhor veio do Clementino para cá, no Chiqueirão.

R – Foi boa, a viagem foi boa. Gostei da viagem. Trabalhei aqui, uns três meses como já falei, não fiz nada. Pouca coisinha. Aí, eu fui e larguei o garimpo, fui para Remanso do Boto, você sabe onde é o Remanso do Boto, nessa época, só andava aqui de animal, tropa, carregava, levava e trazia. Pegava a mercadoria daqui, levava pra lá, trazia de lá a mercadoria para os comerciantes de cá. Então, eu me empreguei lá com um rapaz que tinha uma tropa de burro para trabalhar tropiando, larguei o garimpo, não tinha nada. Passei um mês trabalhando na tropa.

P/1 – Levava de onde para onde? Para quem vocês levavam?

R – Era de lá para cá, para o Chiqueirão.

P/1 – De lá onde?

R – Da Chapada, do Remanso do Boto para a Chapada.

P/1 – Mas o que tinha nesse lugar? Que como a gente não conhece, o que tinha nesse lugar que o senhor pegava as mercadorias para levar?

R – O quê que tinha lá?

P/1 – É.

R – Lá não tinha nada, lá só tinha um acampamento do povo que trazia as mercadorias para os rancho, tinha pessoa lá para receber e entregar para o que trazia para cá.

P/1 – E quem deixava a mercadoria lá para vocês?

P/2 – Os comerciantes…

R – Pessoal trazia de fora, trazia de Tocantinópolis, trazia de São Vicente.

P/1 – Trazia de barco?

R – Era de barco. Era de barco, só vinha de barco. Acho que ele não tinha animal, pouco animal, não tinha… e não tinha carro, não tinha nada.

P/1 – Aí trazia a mercadoria…

R – Trazia, a gente pegava nos animais, trazia pra cá e entregava para os patrão…

P/1 – E o senhor ficou um mês nessa…?

R – É, fiquei um mês nessa… andando pra lá e pra cá. Aí, eu larguei. Larguei lá, deixei essa tropa. Aí, peguei um dinheirinho e fui andar nesse tempo, aqui chovia muito, chegava fruta cedo, logo cedo, chegava muita melancia, abóbora, essas coisas, legumes. Aí, eu peguei um dinheirinho meu e desci para Santa Cruz. Primeira viagem que eu fiz, comprei um embarcado de fruta, desci nesse Araguaia, _____00:28:16____ Arogonã, chama aqui na frente Aragonã, garimpo novo aqui também, pedra branca aqui assim, eu sai vendendo, né? Dei duas viajadas, comprando fruta e vendendo. Aí quando terminei, digo: “Ralei um pouquinho, agora vou sair”, aí fui bater em Tocantinópolis, naquela época não era Tocantinópolis, era Boa Vista. Aí fiquei lá mais ou menos quatro meses, mais ou menos. Dentro desses quatro meses, eu trabalhei lá, ganhei um dinheirinho, aumentei o meu e aí, vim cá pro garimpo de novo, voltei pra cá novamente. Cheguei aqui, fui tocar garimpo com o dinheirinho que eu tinha, dar de comer a garimpeiro (risos). Fiz um barracão, arranjei uma mulher, que eu não tinha mulher, fiz uma casinha ali, aí fui tocar garimpo mais essa mulher. Ela e o irmão dela, morei mais oito anos.

P/1 – Como é tocar garimpo, Seu Manoel?

R – O garimpo é o seguinte, a senhora tem uma condição, eu chego aqui e procuro a senhora: “Dona, a senhora não tá precisando de um garimpeiro para trabalhar no garimpo para a senhora?”, se a senhora tá precisando, diz: “Você quer trabalhar no garimpo?” “Quero”, pois eu quero, preciso. Aí, a senhora vai compra uma pá e uma picareta e me entrega, aí me entrega um facão, por exemplo, para roçar o mato, limpar e a senhora vai dar rancho para mim comer, que eu aventurar para nós dois. A senhora vai me dar o de comer e eu vou trabalhar pra pegar cristal para nós dois. Se sair a pedra, a produção que sair é de nós dois. E se não sair, a senhora ___00:30:24____, já gastou muito, não quer mais: “Seu Manoel, trabalhamos muito, não fizemos nada, não quero mais não”, a senhora perdeu o rancho e eu perdi o trabalho. É isso, a base do garimpo é essa.

P/1 – E a pessoa tem a terra ou a terra é…?

R – Não, a terra é o seguinte, às vezes descobre um manchão, estamos aqui, descobre um manchão por lá no fim, aquela mata acolá, aí eu sei da notícia, vou para lá. Quando chego lá, tem uns amigos meus lá no meio, às vezes, não tenho serviço, ou que tem ainda muito serviço para roçar, eu chego com o facão, torona, não tem dono, aí vou trabalhar naquele pedaço. E se já tá tudo de dono, chega num amigo: “Me dá um pedaço. Tu entra aqui, eu entro aqui, vamos tocar nos dois aqui”, ele me dá uma tora, é assim.

P/1 – Não tem assim uma pessoa que era dona do lugar?

R – Não. Aqui, antigamente, não tinha dono. Não tinha. Nem aqui, nem no Clementino, tudo era mata…

P/2 – Devoluto, era do Estado.

R – É, era do Estado.

P/1 – Era mata, só mata?

R – Só mata. Eu cheguei aqui nesse lugar, em Xambioá, não tinha uma casa aqui dentro, nenhuma. Tinha um barracão na beira do rio acolá, assim, ali em cima, e uma casa lá do outro lado, perto da igreja católica, descendo assim, perto do Oliveirão, chamava Oliveirão, tinha um mangal lá. Mas não tinha rua aqui, tudo era mato, mata alta. Lá para onde eu moro hoje, que eu moro em Manchão do Maio, era mato, era mato.

P/2 – O senhor chegou a ver muita gente pegando cristal, o senhor chegou a ver quantidade de cristal? Se era muito cristal que dava no chiqueirão? Como é que era essa…

R – Vi muito, trabalhei muito assim como aqui e a garimpeirada… era muito garimpeiro, arrancando pedra. Era muita pedra por dia, na hora que saía uma pedra _____00:32:38____ é o comprador da pedra. Tinha muito, viu? Antigamente, tinha muito aqui. Quando saía uma pedra graúda, vinha pra tocar… na hora que vinha _____00:32:50____ pedra graúda. Era outra que tinha saído. Era assim, era arrancando e os cabras comprando: “Quanto é essa pedra?” “É tanto” “Não, eu dou tanto”, e juntava quatro, cinco faisqueiros pra comprar a pedra, cada um dava uma bandeirinha. Era assim.

P/1 – O senhor pegou alguma pedra?

R – Não senhora. Eu nos dias em que eu trabalhei, eu lembro que peguei uma pedra só. E eu cavava fundo, eu era novo nesse tempo, tinha 29 anos, não chegava a dar 30, tinha força, eu era novo, né? Pessoal com 30 anos é novo, né? Mas eu lá dentro no fundo jogando terra fora para pegar pedra como os outros tava pegando, mas não pegava, o garimpo não é para todo mundo. É como a riqueza, às vezes, a senhora é rica, rica, rica que não tem onde botar dinheiro e eu já não tenho nada, aquele já é rico também demais. É como o garimpo, o garimpo e o seguinte, muitos chegam hoje, vêm do Maranhão, do Piauí, do Ceará desse mundo, Pernambuco, chega hoje, arruma um patrão, amanhã vai para o garimpo de manhã, vai bem em cima da mancha de cristal, pega, vende e volta no outro dia, vai embora. E outros passa dois, três anos, quatro, cinco anos, morre no garimpo e não faz nada, é por sorte, tudo é por sorte, a senhora sabe disso, tudo é por sorte, não é? Eu tenho a sorte de andar calçado como eu tô calçado aqui, graças a Deus, de sapatinho. Tem uns que não tem com o que andar, porque não tem a sorte de andar, não arrumou ainda, né? nem pra comer não dá, para andar bem calçado, né?

P/2 – Tem uma história Seu Manoel que acharam a maior jazida de cristal aqui no Chiqueirão. O senhor sabe dessa história?

R – Eu não sei. Eu gosto de contar quando eu vejo, né, a história que ouviu dizer não se escreve. Vi falar que no Sarampo, um garimpo que chama Sarampo, na terra do Seu Airton Fontenel, lá saiu uma pedra muito grande, diz que era até de uma mulher aqui de Xambioá. Mas eu não conheci, não vi essa pedra. Eu sei de uma que o dia que eu cheguei no Chiqueirão, primeiro dia, o meu companheiro que veio mais eu, meu sócio ganhou dez reais… dez cruzeiros para ir ajudar a buscar uma pedrona por aquele mundo, grande. Foi não sei quantos homens pra trazer essa pedra do Manchão para o escritório onde eles estavam comprando as pedras. Compraram por 210 mil reais, naquele tempo era mil, as amarelinhas, não era? Notinhas de mil. Compraram por 210 mil. Fechada a pedra, pedrona bonita. Que você vê a pedrona assim bonita, passa a mão, vê clarear tudo, essa é boa, mas não sabe, só sabe depois que quebra, aí meteram o martelo na pedra, os comprador, foi muitos que compraram. Meteram o martelo na pedra, eu acho que não deu nem uns dez, os 200 foram embora. Duzentos mil. Essa eu sei contar porque eu não fui lá olhar a pedra não, mas meu sócio foi buscar e botou… estava meio distante do meu barracão, não fui lá olhar, não.  Mas essa pedra era grande, meu sócio disse que a pedra era grande e era pesada.

P/1 – Seu Manoel, quando corta a pedra, o quê que pode acontecer, assim?

R – A pedra é o seguinte, você tem uma pedra, digamos que a senhora tem um garimpeiro, pega uma pedra de cristal, comprida, que seja redonda, às vezes, não tem janela nenhuma. Janela é como tem esse relógio, a gente vê aqui o quê que tem lá dentro, né? Não é isso? E às vezes, a pedra é fechada que não vê nada. Digamos, aqui, por esse lado, você tá vendo que lá dentro as letras, né? Aí por esse lado aqui já é escuro, não vê nada lá dentro, não vê nada assim, né? Mesmo assim é o cristal. Você… se o garimpeiro pega aquela pedra bonita, pedrona bonita, mas não tem janela, a janela que eles chamam é o lugar que a gente passa a mão e vê o quê que tem lá dentro, né, você olha e não vê nada, é fechada a pedra. Fechada, fechada, fechada. Aí, muitas vezes, chega o faisqueiro quer comprar a sua pedra, não vê nada, não bota o valor. Digamos, às vezes, uma pedra fechada, mas é boa e eles não compram como boa, compra como média, né, aventurar, é uma aventura que vai fazer, como dizer assim, é um gato ensacado, nós não sabe se é um gato ou se é uma gata, tá dentro do saco, né? Tá escutando o miado do gato, mas não sabe se é um gato ou uma gata. É como a pedra do cristal, quando inteira, ninguém sabe se ela é boa ou se é ruim. O comprador compra arriscando. Se der boa, conforme o preço que ele comprou, ganha dinheiro e se der ruim, perdeu dinheiro e quem ganhou foi a senhora que ficou com o dinheiro. Ou mesmo aqui, montei um garimpeiro bem ali, onde chama hoje Furicão, ali, esse aqui sabe, naquela época, meu garimpeiro pegou uma pedra, vendi por dez mil. Pedra bonita, ele mandou me chamar, eu fui. Cheguei lá, já tinha dois faisqueiros para comprar a pedra. Aí, vendi por dez mil, não tinha quem dissesse que aquela pedra era ruim, a senhora acredita que recebi esses dez mil e botei no bolso e o que comprou a pedra foi quebrando devagar, abriu a janela, para abrir a janela para ver, né? Tem que abrir a janela para ver se presta. Foi quebrando, quebrando, só ruim, ruim, até quando acabou ficou só com o martelo na mão, você acredita? Pode acreditar como a senhora tenha visto, aconteceu comigo, dez mil cruzeiros eu vendi a pedra. Eu ganhei cinco e o garimpeiro ganhou cinco. Que não era eu que garimpava, era o meu garimpeiro, né? E o que comprou perdeu os dez mil, mas só que naquela época, dez mil para o nego ganhar era ligeiro também. Às vezes, comprava uma pedra por 200 reais, 200 cruzeiros ou 500 ou mil, aí vendia por dez, 20 mil. É assim.

P/1 – Como era a vida no garimpo?

R – A vida no garimpo é o seguinte…

P/1 – Além da pedra e de tudo que o senhor já contou, como que era a convivência no garimpo?

R – Senhora, é o seguinte, vou lhe explicar. O garimpo… aqui é mata, né, tudo é mata. Aí, chega uma pessoa acostumada a trabalhar no garimpo, com a tralha nas costas, pra aqui pra acolá, mexendo, até que descobre umas formas, que primeiro acha as formas, né? Não é o cristal, mas é a forma do cristal. Aí, toca aquele serviço, até que chega no cristal. Aí, quando descobrir aquilo ali, os outros lá sabem, estão mais por lá sabem, aí vai, um roça um pedaço para acolá, outro roça um pedaço pra cá, na Chapada e Chiqueirão, eu mesmo ainda fui de noite. Descobriram um garimpo lá no Jatobá, ainda fui de noite pra lá, para amanhecer o dia, para trabalhar no garimpo, porque o cabra descobriu tardio, que souberam, na hora que descobrissem ia encher de gente. Era de noite, toda hora, de madrugada, corria para lá. Uns tinha sorte, outros não tinha, só dava a viagem.

P/1 – Mas ficava o tempo todo só trabalhando ou tinha algum divertimento?

R – Só trabalhando.

P/1 – Não divertia nada com nada?

R – É o seguinte, final de semana, quem não tava trabalhando, eles iam pra rua. Aqui antigamente tinha o que chama de cabaré, a senhora não compreende o que é, mas chama cabaré. Aí, os garimpeiros iam para o cabaré beber, eles faziam dinheiro no garimpo, vinham beber…

P/1 – Mas esses cabarés foram depois que surgiram os garimpos e começou a ser criada a cidade aqui, é isso?

R – Foi. Depois que começou. Quando começou a fazer muita casa aqui, já fizeram cabaré na beira do rio, eu nunca vi não, mas ouvi falar, né? Eu fui novo, hoje tô velho, mas nunca pisei os meus pés em cabaré, só ouvi falar. Eu nunca fui, nunca fui, não gostei de farra, essas coisas, bebedeira, não, essas coisas.

P/1 – E o senhor se divertia como?

R – Senhora?

P/1 – O senhor se distraía como? O senhor não ia nos cabarés.

R – Não ia, não. Eu ficava em casa. Ficavam me chamando, eu: “Não, não vou, não”. Inclusive para lhe contar mais outra que aconteceu comigo, assim que eu cheguei no Chiqueirão, tinha uma mulherzinha casada com um moço lá, ela morava para fora, aí tinha uns garimpeiros que moravam… o barracão perdeu, tinha até um garimpeiro sócio meu que chamava Raimundo, aí os cabras… o garimpeiro da mulher ia embora, sabe o que acontece? Eles inventaram de tomar a mulher do homem, tomar a mulher do homem lá, foram esperar lá na Bucana, naquele tempo, só saía por terra, né? Para sair lá no caminho do Raimundo… aí, esse companheiro meu me chamou pra eu ir mais ele, eu: “Nada rapaz, não vou tomar a mulher de ninguém, Deus me livre”, fiquei na minha rede deitado: “Mas você é mole, rapaz” “Sou mole mesmo, vou brigar por mulher dos outros? Deus me livre que eu vou fazer uma coisa dessa”, ele foi, meu sócio e os outros garimpeiros que tinha assim perto de eu, foi esperar o homem lá com a mulher dele, para na hora que eles tivessem passando, eles agarrarem na mulher dele e tomar, bater no homem e matar. Eles esperaram, na hora que viu aquela turma de homem lá, falaram pra ele, largou fogo, o cabra ligeiro, só tirando, sacando mais, né, não matou nenhum, mas também os cabras correram. Correram, entraram no capabode… naquele… como é? Você sabe o nome…

P/1 – Cactos?

R – Não.

P/2 – Tiririca?

R – Tiririca, mas aquele que parece um ananais que tem os espinhos.

P/2 – Sim, eu sei qual é.

R – Rapaz, no outro dia foi que veio chegar. O meu sócio chegou no outro dia todo rasgado, com a roupa toda rasgada: “Eu não te disse pra tu não ir?”, eu disse para ele não ir e ele foi, me chamou de mole porque eu não fui, eu disse: “Olha, eu não fui mas eu tô aqui deitado bonzinho, e vocês, olha aí como é que estão”, ficaram perdidos na mata e não tomaram a mulher, o homem foi embora com a mulher dele. Eu tô lhe contando como que a senhora tenha visto, não é história de ouvir dizer, não. Me chamaram foi de mole que eu não: “Você é um mole, você não presta para andar num mundo que presta”. Eu vou brigar por mulher dos outros, rapaz? Tô doido!

P/2 – E o senhor ficou quanto tempo no garimpo do Chiqueirão e qual dificuldade que o senhor teve assim, realmente, maior que o senhor passou?

R – A dificuldade maior eu vou lhe contar agora. Foi o seguinte, eu arranjei um dinheirinho, fui tocar o garimpo, trabalhei muito, eu tocava e as vezes, eu ia também… tinha um posto chamado faisqueira, de vez em quando eu ia tirar a faisqueira, cavar, ver se achava alguma coisa, nunca encontrei. Aí, acabou o dinheiro, fiquei fraco de condição, sem nada. Aí, a mulher que eu morava mais ela era uma mulher trabalhadeira, disposta, nesse tempo aqui, tinha cortação de babaçu e tinha os comprador, né, aí eu mais ela e o irmão dela que chamava Manoel, mas apelido chamava Rulim fomos para o mato para quebrar coco para comer. Quebrava o coco, passava o dia quebrando o coco, quando era de noite, ia trocar pelo ranchozinho para comer, um arroz, um feijãozinho, uma gordura. No outro dia de manhã, de novo. Quantidade grande, até que foi indo, foi indo, melhorei mais um pouco, graças a Deus. Mas sofri aqui no garimpo, sofri muito.

P/1 – Seu Manoel, quando… antes de casar com essa moça, o senhor morava era em casa ou era em acampamento?

R – Quando eu ajuntei com ela, eu não tinha casa, eu andava vendendo coisa, comprando, aí encontrei ela aí mais o irmão dela, aí eu falei com ela se ela não queria morar mais eu, ela disse que queria, ela também, não tinha marido, não queria ficar só… porque a mulher também no garimpo não tinha marido e nem achando serviço, vai ser rapariga, né? E acho que ela não queria ser assim, da rua, né? Juntou comigo…

P/1 – De onde ela era, seu Manoel?

R – Ela era do Maranhão, mas não era conhecida minha, não, era longe de onde eu morava.

P/1 – Como ela chama?

R – Chamava Alcanja.

P/1 – E o senhor ficou com ela quanto tempo?

R – Oito anos.

P/1 – E depois? O que aconteceu com ela?

R – Depois, eu larguei ela, porque ela pegou beber cachaça e eu arrumei uma bodegazinha, uma vendazinha, eu deixava ela na venda, ia comprar coisa assim, fora, né, cereais, quando eu chegava, tava tudo espatifado, ela bêbada no comércio.  Digo: “Assim não dá”, tava acabando o que nós tinha, em vez de aumentar, tava acabando, né? Aí, eu fui e larguei, ajuntei com outra.

P/1 – Só uma coisa aqui, você ajuntou com outra, mas a gente vai voltar um pouquinho, ainda.

P/2 – O senhor tinha essa bodega aqui em Xambioá ou no Chiqueirão? Onde que era?

R – A minha bodega era no Coco.

P/2 – Lá perto da Chapada?

R – É.

P/2 – Próximo ao garimpo, né?

R – É, pra cá do garimpo. Não tinha mais o garimpo do Coco, tinha, mas era mais longe, mais difícil. Foi descoberto em 1952 e quando eu arrumei esse comerciozinho, já foi em 1958 pra 1959, por aí assim. Arranjei um patrão, patrão chamava Clodoaldo, que aquela terra que tem ali na estrada que vai para Votorantim, quando sai do Poção para lá, até na Rota do Coco, atravessando tudo, era dele, esse patrão meu que me ajudou a base de Deus, primeiramente Deus, depois ele me deu a mão. Ele viu que eu era uma pessoa inteligente, assim, aí disse: “Manoel, você não vai mais quebrar coco, não, vou lhe dar um dinheiro e um animal para você ir comprar coco para me vender”, ele era comprador de coco. “Você vai comprar o coco aí na mata e trazer e eu vou lhe comprando, lhe dando lucro”, aí me deu cem cruzeiros naquele tempo, trocadinho e um jumento e um saco de estopa com as cordas para sair na mata, mas tinha muito quebrador de coco. Aí eu fui comprando coco e trazendo para ele. Comecei a comprar de 50 quilos, depois trazia 100, com um pouco, eu já trazia era duas, três cargas, fui arrumando freguesia na mata com o povo, levava fumo para vender, levava remedinho, coisa, comprimido, eles compravam, trocavam em babaçu. Aí fui indo, fui indo, eu e mais essa mulher, né? Ela tava boa e tudo, aí no meio pro fim, ele me deu a sociedade no comércio, aí eu fiquei de sócio mais ele e ele veio embora pra rua aqui, você sabe onde era a casa dele. Aí, ela ficava no comércio e eu ia andar pra comprar coisa pra fora, nos animais, trazer. Quando eu chegava, a mulher tava acabando com tudo lá, bêbada, eu ficava triste com uma coisa dessa. Aí eu fui, aguentei uns dias, não deu certo. Aí eu digo: “Sabe, vou largar essa mulher mesmo. O jeito é eu largar”, ainda andei um por bocado de lugar mais ela procurando recurso, que escutei o negócio de tirar cachaça, né? Até que perto do Marabá, ainda fui no início do Araguaia, dentro do Apinajé, numa mata que tem pra dentro, tinha um criador de cachaça lá, eu fui mais ela. Aí surgiu um tal de Raimundo Gomes, fui mais ela, ele disse pra mim… passei lá três dias, ele tratando dela, ele disse: “Olha Manoel, você faz o seguinte, você presta atenção nela, três sextas-feiras, se passar as três sextas-feiras e ela não beber, ela não bebe mais nunca”. Tá bom. Aí, benzeu ela lá antes de sair e tal e vim me embora. Aí eu fiquei prestando atenção, tal, ela sem beber, parece que não chegou nem as duas, ela começou beber (risos), aí o jeito foi largar, que mulher só viver embriagada é ruim, né? Uma pessoa que nem eu que já tava criando nome para a população aqui da cidade, o povo da cidade, já tinha conhecimento com eles, eu trazia mercadoria para vender para eles, o mercado é assim. Nessa época, tinha compra de pele de bicho da mata, catitu, veado mateiro, cotia, onça, gato maracajá, ariranha, lontra, exportação, eles compravam para exportar. E eu comprava e trazia. Aí, ia tomando conhecimento com o povo, eles me davam dinheiro, esse Hernandez mesmo que é pai desse que é candidato hoje, me deu dinheiro para eu comprar, dava dinheiro adiantado pra mim sair nas matas, o pai dele me dava dinheiro pra eu comprar, que o pai dele chamava-se… O pai dele chamava Pereirão, José Pereiral, cabra bom, foi meu patrão de compra de pele e compra de babaçu, o que eu precisava na casa dele, ele me servia, o pai do Hernandez. Aí, o Hernandez ficou, inventou uma compra de pele, grande exportador de pele, ele e o Gilmar Leite. Gilmar Leite também era comprador de pele de gado.

P/1 – Eles levavam para onde depois a pele? Como que era?

R – Eles faziam aquela grande quantidade e iam vender para fora ou então, esperavam comprador vim. Aí, eles vendiam. Ganhavam um dinheirinho de cara, aí ficou ele e o Hernandez que enricaram com compra de pele. Botaram no ariscador, na mata do Pará, que não era explorado e tinha muito gado, muita onça, ariscador era quem botava os garimpeiros, faziam um rancho para eles pra lá, dava munição, arma boa, ia pra lá fazer assaprão, aquelas grossas, usava assaprão pra pegar os gatos, pegaram muito. O Gilmar e o Hernandez, fazia o rancho pra eles e levavam eles pras matas, aí, matavam o gato, tiraram o couro, checava e vinham pra aqui, vendia.

P/1 – Açafrão?

R – O assaprão…

P/2 – Uma armadilha.

R – Armadilha de pegar…

P/2 – É uma entrada falsa…

R – Uma entrada aqui, aí uma vaqueta aqui, um negócio, o gato vai, bora a tampa, ele entra, mas não sai mais, fica lá dentro. Bota o que de comer lá no fundo, bota uma carne assada, uma coisa assim asada, um pássaro, uma galinha lá, o gato vem de noite, sente o cheiro, entra no assaprão lá e pega, no outro dia de manhã, o nego vai e mata e tira o couro. Pois é, e aí, como a senhora queria saber o negócio do garimpo é assim, já lhe expliquei como é o garimpeiro, né? Bota o garimpeiro de meia praça. Meia praça é o seguinte, é a senhora dando o rancho e eu ir garimpar.

P/1 – Aí, o senhor disse agora, o senhor explicou, aí o senhor falou que quando chegou aqui, não tinha nada, nenhuma casa. Aí, depois, o senhor disse que já tinha o cabaré…

R – Certo.

P/1 – O senhor lembra como é que foi mudando?

R – Aqui? Sim, aqui antigamente, não tinha… tinha as autoridades, né, chegou a vim as autoridades, na hora da briga, eles prendiam, eles não prendiam aqui, levava para a cidade…

P/2 – Araguatins.

R – Tinha Araguatins, mas eles levavam mais para Miracema.

P/2 – Município daqui era de Araguatins.

R – Pois é, levava pra lá. Aí vai crescendo a cidade, vai crescendo o povo, vai crescendo, até que passou a municipar, o município que você chama…

P/2 – Emancipação municipal.

R – É, municipal. O primeiro prefeito aqui foi botado, não foi por voto, escolheram um e botaram pra até chegar a eleição. Sebastião Gomes, o mais velho comprador de pedra daqui de dentro, era ele e o irmão dele.

P/1 – Por que será que ele foi escolhido?

R – Porque é uma pessoa boa, uma pessoa do povo, uma pessoa respeitador, querido do povo, todo mundo quer, não é? É igualmente a senhora sendo uma candidata por exemplo, eu sou, esse e aquele e o povo não gosta muito de nós como gostam da senhora, a senhora ganha e nós perde. O mesmo assim ele, ele era uma pessoa que o povo gostava dele, escolheram ele para botar. Para administrar a cidade.

P/1 – O povo gostou da escolha?

R – Gostaram demais. Depois, teve as eleição para passar a cidade, né, para botar o prefeito. Prefeito votado pelo povo, porque o prefeito é feito pelo povo.

P/2 – E o senhor lembra qual foi o primeiro prefeito a ser votado aqui?

R – O primeiro prefeito, rapaz, eu não gosto de contar história de ouvir dizer. Mas tem uma aparência que me parece que foi o seu Altacilio.

P/2 – Altacilio Cardoso, né?

R – É. Foi um bom prefeito. Um velhinho.

P/1 – O senhor… por exemplo, o senhor ficou esse período todo aqui em Xambioá, trabalhando lá no manchão, lá no Coco. O senhor se recorda alguma coisa de quando é que o pessoal que eram chamados de terroristas vieram para cá? O senhor conheceu algum? O senhor lembra de alguma coisa da época da guerrilha em 1972, por exemplo?

R – Em 1972… foi em 1972, não foi?

P/2 – Foi.

R – Que eles vieram?

P/2 – Foi. Em janeiro de 1972. Janeiro, fevereiro.

R – Mas viveram até 1974, não?

P/2 – Setenta e cinco.

R – Setenta e cinco, né?

P/2 – Isso.

R – Eu lembro porque em 1974, eu fui para Belém mandado por eles. Sim, é o seguinte, eu morava ali no Manchão do Meio, já. Eu cheguei no Manchão do Meio para morar, mesmo, em 1965, para ficar morando, onde a família tá agora lá, né? Naquela dita casa que eu tava, aquela é do meu filho, aquela outra pegada é a minha. Naquele lugarzinho, eu cheguei em 1965. O ano que eu juntei com a minha mulher que morreu agora em 2010, ela morreu em Araguarina, juntei com ela em 1965 e ela morreu em 2010. Sim, você quer saber como é que foi o…

P/1 – Se o senhor conheceu alguém da guerrilha…

R – Sim, da guerrilha. Eu morava no Manchão do Meio, já nessa época. Eu lembro que lá enchia quando chegava tardinha, boca da noite, quase toda hora, muito soldado. Muita polícia, gente do Piauí, gente do Pará, gente mais da onde… de muitos lugar, de muitos estados para prender os terroristas, não era? E aí, quando foi desde 1974, o acampamento deles era lá na ilha…

P/1 – Acampamento de quem?

R – Acampamento deles, do policiamento, onde eles ficavam mais, né? A casa deles. Aí, eu vim consultar, eles tinha muito remédio, né, tinha doutor, tinha tudo. Eu vim consultar com eles, aí eu falei para eles que eu tinha hérnia, eles: “Você quer ser operado?” “Quero”, que ele disse: “Pois você vai para Belém, vou mandar você para Belém”, aí ele procurou: “Você tem condição de ir por sua conta? Eu dou só a autorização lá, carta de recomendação lá…”, qual é o nome do lugar que eles fica? Sem ser a sede? O Batalhão?

P/2 – Quartel?

R – No quartel, mas tem um lugar que eles chamam, sem ser quartel. Eu digo: “Tenho condição de ir”, 1974, um inverno, chuva, eu me lembro que daqui pra sair de Wanderlândia nós passamos dois dias, parece que duas mulher e um homem. Tava mandando gente pra lá para ser operado, para ser tratado lá. Aí eu fui, chegando na Transbrasialiana, ali, aí eu peguei o carro para Imperatriz, e em Imperatriz, peguei um ônibus direto para Belém. Chegamos em Belém às cinco horas da manhã. Cheguei, aí chegamos na rodoviária, o ônibus chega na rodoviária, aí o carro pegou nós e foi deixar nós lá no… chegamos lá, fomos atendidos, mandaram nós entrar,  a gente entrou, a mulher foi para um canto e eu mais o outro fomos para o outro lado. Bem recebidos. Quando foi de manhã, chegou o enfermeiro, mediu minha pressão, aí disse: “Você amanhã, oito horas vai ser operado” “Amanhã?”, que eu ia falar que quando você era operado, passava um bocado de dias internado para poder operar, aí eu falei para ele: “Mas moço, diz que a gente passa um bocado de dias para poder ser operado quando chega no hospital”, ele disse: “Não, mas é quem precisa. Às vezes, precisa de um sangue, precisa tomar uma vitamina, uma coisa para recuperar para poder operar. Mas você tá sadio. Não tá sadio porque tá com hérnia, mas é todo sadio, amanhã você opera, sua pressão tá boa, você não tem problema nenhum, tá bom”. Quando foi no outro dia, às oito horas, me chamaram, pegaram eu e levaram lá para a sala de cirurgia, aí me operaram. Aí eu passei, não sei se foi dez dias ainda lá, mais eles lá, brincavam comigo, chegava um soldado e falava com você: “Você não é terrorista lá, não? Você tá no meio desse povo” “Não, Deus me livre, eu nem conheço eles”, mas era brincadeira, ele sabia que eu não tinha nada com eles, né? Aí fiquei lá. Quando foi para eu vim embora, eles lá, o batalhão, o soldado lá, o chefe disse: “Você vai de avião até Marabá e de Marabá você vai de carro” “Tá bom” “Tem medo de andar de avião?”, digo: “Tenho, não” ”Pois é, você vai de avião”. Aí, entrei dentro do avião, eu criei medo, mas foi porque o avião, até o piloto tava com medo, ficou com medo. No inverno, deu uma chuva, chuva, quando nós saímos, a chuva pegou, chuva que escureceu tudo. Eu acho que nós passamos daqui, voltamos, fomos no Marabá, andamos por lá para poder aterrissar, descemos no Marabá, avião… quase deu acidente no avião, na lama. Chovendo direto, mas aterrissou. Aí, peguei um carro, passei no ___01:05:36_____ lá pra cá. Chegar aqui em casa operado, mas eu tava bem sadio, tava bem melhor.

P/1 – Quantos dias o senhor levou de Marabá aqui?

R – Uns três dias, mais ou menos. Chovendo muito, estrada ruim.

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa, seu Manoel, eles chamavam os guerrilheiros com que nome, assim? Hoje, a gente fala terroristas, mas na época, que nome eles falavam? O senhor lembra?

R – Deixa eu ver aqui… não, eu conheci chamando mesmo de terrorista, né?

P/1 – Chamava?

R – É, terrorista.

P/1 – E o senhor lembra do pessoal do Exército que tinha bastante médicos?

R – É, o Exército tinha médicos, tinha remédio, tinha tudo.

P/1 – Quanto tempo eles ficaram aqui, mais ou menos?

R – Eu não tenho bem certeza, não, mas eu lembro bem que 1974 eles estavam aqui, né?

P/1 – Eles chegaram em que ano?

R – Eu não tenho certeza em que ano eles chegaram. Mas passaram um bocado de tempo aqui, um bocado de anos, dois anos ou três anos, mais ou menos, por aí assim.

P/1 – E eles aqui buscavam quem?

R – Eles aqui, é o seguinte, chegavam aqui, eles estressavam para o Pará, que os terroristas estavam no Pará, eles iam capturar o povo lá. Pra lá, eles pegavam, matavam, diziam que matavam, repreendiam e traziam judiando. Dizem que mataram muitos pra lá, né? Digamos, a senhora morava lá, a senhora era moradora, não era terrorista, era uma “cidadona” brasileira, trabalhadora, mas chegava eu sendo terrorista na sua casa com fome, com sede pedindo uma água e se a senhora me desse uma água, me desse uma boia, que fosse ao conhecimento do Exército, a senhora iria sofrer porque me deu aquele copo de água, porque me deu uma boia, me deu uma dormida, por exemplo, se eles sonhassem, a senhora ia sofrer, apanhar, ia presa…

P/1 – O senhor conheceu alguém que passou por isso?

R – Conheci um velho que ele foi sogro de um cunhado meu, morava no Pará, pegaram esse velho lá, quase matam porque ele deu um rancho para um deles, que tava na mata com fome, deu o que comer e deu uma dormida, aí eles souberam, né, foram lá pegaram ele, bateram, prenderam, judiaram com ele. Morreu já o velho. Conheci um rico também, seu José Noleta, morava em Tira catinga, tinha uma fazenda, andava de avião, tudo. Diz o pessoal, eu não vi, que ele tava dando apoio a eles, lá.

P/1 – Aqui em Xambioá, essa pessoa morava?

R – Ele tinha fazenda aqui onde eu moro, aqui pra frente, né, o Airton? Quem foi que comprou desse Noleta, lá. Ele era rico, esse homem era rico, diz que ele pegava o rancho aqui, botava no avião e dava para eles lá. Aí, o Exército soube disso, pegou esse homem lá, prendeu, trouxe, diz que judiou muito com esse homem, rico, o homem era rico. Diz que botou no meio do sol quente com o machado cego que não cortava nem uma palmeira. É duro, né, a pessoa ser rico e não ter condição nem de dizer nada. Não podia nem dizer que tava doendo nada. Diz que apanhou muito, ouvi falar que apanhou muito e diz o povo que ele morreu daquele sofrimento que fizeram com ele.

PAUSA

P/1 – Seu Manoel, o senhor tava dizendo daquela época em que o Exército ficou aqui por causa da guerrilha, eu queria só perguntar mais uma coisa dessa parte, vocês viveram um tempo aqui com o Exército. E sobre os guerrilheiros, o senhor conheceu alguém deles lá que ficavam na mata?

R – Se eu conheci alguém como?

P/1 – Deles, dos guerrilheiros, que o Exército procurava, o senhor conheceu alguém deles, lá?

R – Conheci não senhora. Não tive conhecimento desse povo.

P/1 – E o quê que os moradores sabiam sobre eles? Que eles estavam aqui por quê?

R – Eles dizem que chegaram pra cá, segundo ouvi falar, que tinham umas pessoas boas, umas pessoas, inclusive, diz que eles andavam com muito remédio, ajudavam o povo com precisão, davam as coisas pro povo. Diz o povo, né? Eu não sei, eu nunca vi nenhum deles, se vi não conheci, né? Vejo falar que chegaram aqui, me viam com precisão, por exemplo, me ajudavam, me davam dinheiro, mantimentos, davam remédios para mim, diz que eram pessoas boas, diz o povo que eles eram pessoas boas. Como quem não tinha intensão de fazer mal a ninguém. Mas depois dizem que eram terroristas, né?

P/1 – O senhor conheceu alguém?

R – Alguém beneficiado por eles? Não, não conheci não senhora. Eu não gosto de contar história de ouvir dizer, eu gosto se eu souber, eu digo que foi assim, assim, assim. O que eu estou lhe contando aqui pode escrever para o fim do mundo, que foi passado do jeitinho que eu estou contando. Agora esse homem que diz que tava derrubando palmeira com machado, isso eu não vi, isso eu só ouvi falar, mesmo, mas o povo, todo mundo diz que botaram ele porá derrubar palmeira com machado cego. Machado cego é porque não corta, né, e tinha que cortar. Mas eu não vi, eu conheci ele, ele eu conheci, que morava até perto da fazenda dele, ele era rico, tinha uma fazendona aí.

P/1 – E os moradores também, o senhor ouvia alguém dizer por quê que eles estavam acampados lá na mata? O quê que o Exército dizia?

R – Eu não sei, não vi ninguém falar porque era, não. E nem porque não era, eu não sei, eles não dizia assim: “Tá fazendo isso, fazendo aquilo…”, não. Eu não sei.

P/2 – O senhor chegou a ter conhecimento de alguém que veio a falecer aqui ou morto pelo Exército ou alguma coisa da cidade? Morador ou alguém?

R – É o seguinte, você tá aí, eu vou lhe contar a história que eu vim falar também, que morreu o seu pai enforcado por causa esse negócio. Foi verdade? Você tem certeza disso?

P/1 – É, de certa forma, foi.

R – Injuriado porque pegaram ele na mata, não foi? Ou foi aqui, não sei se tava dando assistência a ele, lá, aí o Exército soube, pegaram ele, judiaram com ele, colocaram ele na cadeia. Aí disse que ele se injuriou e foi enforcado, morreu.

P/1 – Essa é a história que os moradores ouvem, né?

R – Porque ele não queria estar preso. Mas isso é uma falta não sei nem de que… uma coisa que dá na cabeça da pessoa, né, diz que a pior vida do mundo é melhor do que morrer. A pessoa se enforcar para morrer para não passar pela vida ruim, tava muito injuriado, né?

P/1 – Seu Manoel…

R – A história que eu ouvi falar, a senhora procurou, só que eu ouvi falar foi esse, né? O pai desse aí, morreu lá dentro do… e eu conheci ele, o pai dele, eu conheci ele.

P/1 – Seu Manoel, a gente já tá terminando, só gostaria de ouvir o senhor contar depois do comércio que o senhor montou que tinha essa senhora que depois separou. O quê que o senhor fez? Qual foi a sua atividade depois?

R – A minha atividade foi o seguinte, quando eu larguei lá, entreguei para o patrão que morava aqui, que era o seu Nicolau, mulher dele chamava Maricô, aí eu entreguei para ele lá, a casa, que eu tava na casa, ele me deu para tomar conta de tudo lá, aí fui trabalhar por minha conta. Larguei a mulher, aí fui para um lugar que chamava Vão da Serra que hoje chama Oito, invadiram, era do cidadão, invadiram, tomaram as terras. Eu fui para lá, mas nesse tempo, não tinha negócio, chegava, fazia sua roça aqui, não tinha dono, né? Eu mesmo lá ainda arranjei um pedaço de terra lá, arranjei ainda uns… a minha terra lá deu… rapaz, não tô bem a par quantos alqueires, um bocado de alqueires de terra, ainda. Trabalhei ainda com banco lá, foi por meio dessa terra, teve um moço aqui que era o moço que era o dono, seu Didico Ribeiro, aí foi titulou, não titulou, ele deu um papel pra gente dizendo que era o dono e que… aí, mandou medir todinho, entregou para cada qual o seu pedaço e deu o crédito pra gente ir para o banco fazer financiamento para trabalhar na terra. Aí eu fui, ainda fiz dois anos aí, a última roça que eu fiz não deu nada, fiquei devendo ao banco e o banco não perde pra ninguém, né? Tava me cobrando, fui obrigado a vender a terra, vendi a terra para pagar o banco, ganhei um saldozinho e pouco. Mas fiquei comprando, vendendo, aí fui, fui, fui… fiquei um bocado de tempo nesse ramo, comprando e vendendo, comprei uns animal, que não tinha nada quando eu entrei, aí fiquei comprando babaçu, trazendo aqui para a cidade, vendendo…

P/1 – Sempre viajando?

R – Sempre viajando, daqui pra lá, comprava e trazia… aí vim para o manchão do meio, eu morava em Vão da Serra, vim para Manchão do Meio em 1965 e continuei trabalhando, comprando e vendendo. A mercadoria daqui, botei um boteco lá no Manchão do Meio, já com outra mulher, já não era essa que eu tinha, era outra, né? Essa outra era “mais boa”. Aí ficamos, moramos 1945 anos, eu mais essa mulher, vivemos bem. Morreu em 2010.

P/1 – O senhor teve filhos com ela?

R – Teve não, senhora. Tem um filho de criação. Registrado como filho, eu criei. É filho do irmão dela, tá falecido também o irmão dela. Chama Laudir.

P/1 – Qual o nome do seu filho?

R – João Carlos Pereira de Souza, Pereira por parte do pai dele que era Laudir Pereira e o meu nome, Manoel Gomes de Souza, aí botaram no registro, botaram, eu já casado no civil com a mulher, aí lá botaram Souza para pegar o meu sobrenome, né? João Carlos Pereira Souza. Pegou o nome do pai legítimo e o meu, que criei ele.

P/1 – Tô perguntando se tem mais alguma coisa do Manchão para perguntar para o senhor, mas é isso, né? A gente tá terminando a sua entrevista e de tudo que o senhor contou, a gente perguntou várias coisas, tem alguma coisa ainda que o senhor gostaria de contar que a gente não perguntou? Da cidade, de onde o senhor mora agora, no Manchão…

P/2 – O que o senhor acha daqui, das pessoas, dos amigos…

R – Aqui é o seguinte, começou como lhe falei, quando eu cheguei, não tinha ninguém, né? Aí, foi evoluindo, evoluindo, chegando gente, chegando comerciante, povo mais rico, botando comércio, até que passou à cidade e aí, os comerciantes ficaram vendendo, tomando conhecimento com eles, comprando, arranjei patrão e fiquei. Quando foi em 1988, aí eu aposentei, fiquei no Manchão do Meio para cá pegando o meu dinheirinho aqui no banco, todo mês eu venho, graças a Deus, tá aí. E aí, fiquei. Tenho muito conhecido, graças a Deus. Compadre sentado bem ali, olha, é meu conhecido da Chapada.

P/1 – Seu Manoel, Manchão do Meio começou antes que aqui, que essa parte aqui?

R – É o seguinte, vou lhe explicar como é o Manchão do Meio. Manchão do Meio é porque descobriu o Chiqueirão, lá, Chapada, né? Aí, da Chapada fizeram uma vareda, um caminho aqui pra Xambioá e descobriram outra em Xambioá, um garimpo ali, aí começou a evoluir aqui, tal, passou a cidade, muita gente, aí o Manchão do Meio ficou sem casa, né? Aí, chegou um moradorzinho para lá, um barracaozinho, tinha aqueles moradores lá, não tinha nome de Manchão do Meio, né? Até que quando foi em 1954, tinha pouca casinha, lá, lá na terra desse mesmo homem que eu lhe falei, que judiaram com ele, que ele era fazendeiro, na terra dele foi descoberto um garimpo perto da sede, na sede é assim, garimpo de cristal. Eu morava aqui, depois tinha um jipe velho…

P/1 – Aqui onde? Aqui onde a gente tá?

R – É. Aqui em Xambioá. Eu morava para baixo da delegacia, um pouco. Tinha uma casinha ali. Aí, eu peguei o jipe e fui lá olhar o garimpo. Cheguei lá, vi muito cristal, sacaria cheia para todo lado, nego arrancando pedra de todo tamanho, rolado, cada roladão bonito. Aí, decidiram pra cá ia chamar Manchão do Meio. Porque descobriram o garimpo. O Manchão entre a Chapada e o Xambioá, aí ficou do Meio. Aí foi crescendo o povo lá, chegando lá, fazendo casa, criou um povoado, até meio “crescidozinho”.

P/1 – Começou com o garimpo?

R – Não começou com o garimpo, começou sem o garimpo. Ele começou lá, para trabalhar de roça, fez o barracãozinho, fez sua rocinha, até que descobriram o garimpo lá. E quando descobriram esse garimpo, que o cara explorando mais para aqui, ou para acolá, que acharam mais garimpo. Mas o primeiro garimpo foi lá na terra do seu Airton Fontenela, era do seu Noleta. Da sede, ali, para ali. Perto. Eu digo que ainda tem cristal, muito, terra que é do seu Airton, esse morador que mora bem aqui assim, numa casa.

P/1 – Mas primeiro, foi aqui perto? Depois que foi lá?

R – Primeiro foi a Chapada do Chiqueirão, da Chapada foi… a Chapada é a mãe dos outros garimpos tudo.

P/1 – E depois da Chapada do Chiqueirão?

R – O povo foi saindo, cavando para aqui, para acolá, foram descobrindo. Descobriram aqui o Xambioá, que era um garimpo bom também, muito cristal. Descobriram a Pedra Preta, ali na frente do beirario, Pedra Branca, Pedra Preta, tudo é garimpo, desse lado de cá. Lá na frente, Aragonã, tem um lugar que chama Rebolho de Aragonã, não sei se você já ouviu falar, deu muito cristal, muito mesmo, E aí, foi indo. Depois de Aragonã, tem o Murisisal, cristal também, muito cristal, inclusive, para encurtar a história, essa região nossa por aqui, toda, é cheio de garimpo, toda cheia de cristal e toda foi explorada. E subiram, foram achar outro garimpo em ___01:24:21____…

P/2 – Pau Marcão?

R – Como era o nome daquele garimpo que virou cidade, rapaz? Arapoema, garimpo grande, também, muito cristal. Mas tudo foi descoberto por meio da Chapada do Chiqueirão. Que antes de descobrirem a Chapada, não tinha nenhum garimpo aqui perto, nenhum.

P/1 – Até o… esse que o senhor mora?

R – É sim senhora, até esse que eu moro foi descoberto depois da Chapada, foi descoberto na Chapada.

P/1 – E o senhor chegou a trambalhar nesse que o senhor mora agora?

R – Não senhora.

P/1 – No garimpo?

R – Nunca trabalhei aqui não, ainda botei um garimpeiro ali duas vez, mas nunca fez nada também, coisinha pouca, ainda botei garimpeiro. Eu trabalhei umas vezes assim que eu cheguei em 1952, não fiz nada, aí fui ficando velho, acabando as forças, não tinha mais força de trabalhar, larguei mesmo de uma vez, né? Até quando eu pude, tinha condiçãozinha melhor, eu botava garimpeiro e eu ainda botei garimpeiro para lá, daqui eu fazia o rancho, dava dinheiro, fazia o trabalho lá, né? Nunca fez foi nada, também, que a pessoa muitas vezes, não gosta de trabalhar, mas aventura com o dinheiro, para aumentar o dinheiro, né?

P/1 – E todas essas viagens que o senhor fez para lá, trazer mercadoria e voltava, era sempre por terra?

R – Muitas vezes, eu ia embarcado, por água. Outras vezes, ia de avião. De avião mesmo eu fui umas duas ou três vezes, de Arapoema para cá.

P/1 – E por terra, não?

R – Não senhora. Nesse tempo, não tinha estrada de terra para vim, hoje já tem, hoje por todo canto… mas eu ia por água ou de avião. Só ia por água ou de avião. E a beira do rio lá era longe, a gente tinha que ir de pé, mas ia. Não sei nem quantos quilômetros é, mas é longe. E a mercadoria daqui nos barcos, chegava lá no porto que desce para lá para Arapoema, tinha o barracão de receber, botava na tropa, carregava para lá para o garimpo, era quase um dia de viagem para chegar no garimpo. Burro carregado de rancho. Carne, era arroz, era farinha, era rapadura, tanta coisa. Alimento para os trabalhadores lá, para os garimpeiros. Aí, foram chegando os garimpeiros, foram se arranchando, se arranchando, até que hoje é cidade, passou a cidade, cidade de Arapoema. Quase todos esses garimpos que surgiu por aí assim, quase todos hoje é cidade. Poucos que não são.

P/1 – E o senhor que alimentou muita gente com a sua mercadoria?

R – É, eu às vezes, ajudava, né? Eu comprava, levava, vendia, né? Ajudei muita gente assim.

P/1 – Muito bem, a gente já terminou. O quê que o senhor achou de contar a sua história?

R – É… a senhora… pra mim, que seja uma… você disse que eu vou sair no livro, né? Essa história que eu tô contando aqui vai sair?

P/1 – É, algumas partes dela sim.

R – É, né? É bom para o povo que ler, né?

P/1 – A gente vai entregar nas escolas.

R – Nas escolas. Muito bem. Pois é, vai sair mais ou menos… sai o meu nome? Manoel Gomes de Souza?

P/1 – Sim.

R – Pois é!

P/1 – Que parte o senhor mais gostaria que a gente colocasse no livro?

R – Como é? É o seguinte, é quase todas se a senhora pudesse colocar era bom.

P/1 – Mas se tiver que escolher uma parte?

R – Mas se a senhora não puder colocar toda, pode colocar do começo, né, quando eu cheguei. Acho que é mais conveniente.

 

FINAL DA ENTREVISTA

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