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História

Não consigo me separar do Banco do Brasil

História de: Antônio Sevegnando Damasceno Rosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2009

Sinopse

Natural de Roraima, chegou a morar na Venezuela. Ao retornar ao Brasil, inicia sua carreira no Banco do Brasil como menor aprendiz, tornando-se uma espécie de referência para sua família. Torna-se muito engajado na Associação Atlética banco do Brasil, honrando sua paixão por esportes que praticava em sua infância e juventude.

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História completa

P/1 – Seveg, pra começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data do seu nascimento.
 
R – Certo! Meu nome é Antônio Sevegnando Damasceno Rosa, o meu nascimento é 04 de outubro de 1963.

P/1 – Em que local?

R – Eu nasci em Boa Vista, Roraima.

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

R – O meu pai é Antonio Paiva. A minha mãe, Noemia Damasceno Rosa.

P/1 – Qual era ou é a atividade dos seus pais?

R – O meu pai era garimpeiro e a minha mãe era doméstica.

P/1 – Garimpeiro onde, aqui na região?

R – Garimpeiro na região, num lugar muito bonito que hoje está fazendo parte de um projeto, assim, pra Roraima, de turismo, que chama Tepequém. Um lugar lindíssimo, com cachoeiras maravilhosas.

P/1 – Os seus pais eram daqui mesmo?

R – Não, o meu pai é cearense, de uma cidade chamada, é, Jaguaribe. E a minha mãe é roraimense. A minha mãe é roraimense da etnia chamada Wapichana, índio chamado Wapichana.

P/1 – Você pode contar um pouco da história desse povo?

R – Com certeza. Na verdade, é o seguinte: quando Roraima foi colonizada, né, que vieram as primeiras pessoas pra essa terra e transformar na Freguesia da Nossa Senhora do Rio Branco, que foi um município, o início do município de Roraima, né? Vieram algumas pessoas aqui. E aqui já existiam pessoas assim como no Brasil inteiro. O Brasil inteiro sempre foi povoado por indígenas.

[interrupção na entrevista]

R – Então, sempre foi povoado por indígenas, né? Nós tivemos da colonização portuguesa, até hoje, sempre aquela questão de querer colonizar, querer e tal, mas as pessoas sempre estiveram aqui. Esse mundo sempre foi povoado, e as pessoas que estavam aqui eram donas desse lugar, tinham culturas, tinham tradições, né, e ocupavam essa terra, certo? As pessoas vieram e tal e, de certa forma, por falta de conhecimento dos nativos, os colonizaram. E isso vem se fazendo a vida inteira, e quem faz isso? Os grandes proprietários, os religiosos, as pessoas de grande porte, né? Então, Roraima foi da mesma forma que aconteceu no Brasil, certo? Colonizada dessa forma, sabe, por pessoas que vieram pra cá com um conhecimento maior, pegando as pessoas que estavam aqui, com conhecimento menor e, de certa forma, escravizando, fazendo trabalhar e tal. E a minha descendência vem desse pessoal, desse povo.   

P/1 – Você sabe o significado do nome Roraima? Tem um significado isso ou não?

R – Na verdade, é o seguinte: Roraima é um nome indígena, né? Eu não te diria, nesse momento, o que representa Roraima em si, eu te diria uns outros municípios, eu diria: Mucajaí, que é gavião pequeno; eu diria Caracaraí, que é gavião grande. Mas todos esses nomes como Boa Vista e tal, não sei o que. Então, é o seguinte: Boa Vista em si não foi uma questão de nome indígena, o nome Boa Vista, que é o nosso município, ele foi criado na questão da localização, que era uma localização em frente ao Rio Branco, né? Na frente do Rio Branco, um rio maravilhoso, com uma água cristalina e tal, que foi dito como Boa Vista, um lugar muito bonito. Tem uma vista maravilhosa! Então, Boa Vista é isso.

P/1 – Eu queria que você falasse um pouco da história do seu registro de nascimento.

R – Muito bem! É, eu, na verdade, assim, eu sou de uma família de 11 irmãos: mãe, pai, 11 irmãos. E eu estou, ali, pelo quinto, mais ou menos. Eu não consigo [risos] nem contar até agora. Mas eu fui o único, dos meus irmãos, que nasceu numa maternidade, né? Nasci numa maternidade, que hoje, já não é mais e tal, né? Hoje, é a Secretaria de Planejamento. Então, eu fui o único que nasceu na cidade. Mas a minha mãe chama-se Noemia Damasceno Rosa, índia, descendente direta da etnia Wapichana, nos criou sempre, quase sempre, nessa questão de dizer que os nossos remédios sempre foram feitos de folhas, de matos e tal. Claro, eu morei, depois disso, com cinco anos de idade, eu morei nesse lugar que eu falei, chamado Tepequém. Maravilhoso! Eu morei dos três aos cinco anos de idade. É um lugar lindíssimo, que vai ficar na história desse país. Depois dos cinco anos, eu fui morar na Venezuela, tanto que tenho. Por exemplo, eu posso dizer que tenho certidão de nascimento da Venezuela, tenho a minha certidão indígena e sou brasileiro com o topo do mundo. Então, eu posso me considerar Tim, né? Eu estou sem fronteira. Eu sou um cara sem fronteira, certo? Independente do que se faça, eu posso ser venezuelano, eu posso ser brasileiro, eu posso ser índio, certo? Agora, claro, eu optei pela modernidade, pela tecnologia, em esquecer esse negócio de, sabe, o negócio de botar índio, lá, num lugar que tem não sei o que. Está errado, todo mundo tem direito, todo mundo é igual, sabe, com capacidades iguais, sabe, com muito mais capacidade que se possa imaginar. Então, assim, existem pessoas índias que são representantes, hoje, do Conselho Indígena, como advogado, lá no Senado Federal, certo? Então, capacidade e inteligência não dependem do lugar onde você nasce, não dependem do credo, não dependem da sua raça, da sua cor, não dependem de nada, depende de querer. Então...

P/1 – Você falou que você tem 11 irmãos?

R – É.

 P/1 – Você consegue falar, assim, você se lembra do nome de todos eles? Você consegue listar do maior pro menor?

R – Posso. Bom, como eu disse, eu tive 11 irmãos, né, a minha mãe e tal. É o seguinte: não estávamos ainda incluídos nessa situação, né, de ter essa proteção, esse conceito de conseguir, assim, uma menor quantidade de filhos, pra uma melhor educação e tal. Então, era um tempo muito antigo, vamos jogar, lá, pras décadas de 1960, mais ou menos. Eu tive 11 irmãos! Dos mais novos eu era o terceiro, né? Então, eu tive depois de mim, três. Então, não tinha a concepção do anticoncepcional, da camisinha, não tinha nada disso.

P/1 – Os nomes, você lembra?

R – Então, eu tive, assim, né? O meu irmão mais velho chamava-se Rui, o meu irmão, o segundo, Jesseí, a terceira, é, Josenir, a quarta, Nelma, a quinta, Noeli, o sexto, Ugo, é – eu vou perdendo aí a distância, mas é assim – Ugo, Zeca, que é José, Agda – ih, não sei. Então, eu me perdi por aí – eram muitos, a gente não podia, sabe, concentrar nos nomes, até, porque é o seguinte: hoje, vivos, só estão cinco, só temos cinco. Então, antes de nascer já tinham morrido três. Três, por quê? Porque esse país não nos permitia, sabe, um avanço. Imagina, que num rincão chamado Roraima, numa distância enorme, onde não tinha estrada. O avião que chegava aqui seria o avião do exército. A medicina era simplesmente caseira, indígena mesmo! Era isso que nós usávamos.

P/1 – Eu queria que você falasse um pouco da sua infância. A casa que você vivia com os seus pais, como era?

R – Bom, eu nasci em Boa Vista, Roraima, como eu já falei, né? Fui o único da minha família inteira, de 11 irmãos, que nasceu numa maternidade. Eu fui felizardo! Mas, aí, com pouco tempo, eu fui morar num lugar chamado Tepequém, que é uma montanha lindíssima que, hoje, é o maior ponto turístico do estado. Naquele tempo, quem ia imaginar, né? Era só um local de garimpo, mas hoje, é um lugar fantástico e, por exemplo, existe lá um hotel do Sesc [Serviço Social do Comércio], que já está agendado até fevereiro do ano que vem. Pra mostrar a importância, então, lá tem rapel, tem cachoeiras lindas. Então eu fui morar, morei lá dos três aos cinco anos de idade, certo? E depois disso, voltamos a Boa Vista e eu fui morar na Venezuela. Portanto, eu tenho, né, por isso que eu tenho o meu registro de nascimento como venezuelano, como índio e como brasileiro normal, com todo documento! Morei na Venezuela e tal. Então, a partir dos cinco anos de idade, em 1967, mais ou menos, eu fui morar num lugar na Venezuela chamado Paraitepuy, é uma vila mineira onde a minha mãe foi pra lá e montou um restaurante. E fiquei lá. Nesse lugar eu fiquei durante, é, sete anos, depois de sete anos – eu me lembro muito bem – eu não entendia nada de futebol, mas eu vim pro Brasil em 1970, por ocasião da Copa do Mundo de 1970. Eu não sabia nada de futebol, mas escutava: “Gol do Pelé! Gol não sei o que”. E vim morar na casa de uma tia em 1970.

P/1 – Como era essa casa?

R – A casa da minha tia era uma casa muito boa para os padrões da época, era uma casa muito boa, só que é o seguinte: não tínhamos energia, na época, em Boa Vista. Incrível, uma cidade que era Território Federal de Roraima, mas não tínhamos energia. Energia era pra poucas pessoas e ela acabava dez horas da noite, e no nosso local a energia não chegava. Então, o seguinte: partimos pra quê? O que a gente fazia à noite? Jogávamos bola na rua, numa rua cheia de pedras, e jogávamos bola ali. Não tínhamos bola de futebol, né, e tinha uma bola antiga e tal, que acabou, e não sei o que, que chamava dente de leite. Nós jogávamos com bola de meia, pegava uma meia, enchia de pano e jogávamos com isso na rua! Isso é o que fazíamos na infância.

P/1 – E o que vocês comiam na época? Que sua mãe chegou a ter um restaurante, né?

R – É. Veja bem! Na verdade, assim, a minha mãe tinha um restaurante, mas morava na Venezuela. Quando eu vim pra Boa Vista, aí eu enfrentei a dificuldade, eu fui morar na casa de uma tia, certo? Eu fui morar na casa de uma tia, aí, é o seguinte: moravam 18 pessoas. Chegamos a, muitas vezes, comer uma sardinha. Uma sardinha! Aquela latinha de sardinha misturada com farinha. Farinha seca pra 18 pessoas comerem, fizemos isso muitas vezes, né? A minha rotina qual era? Eu estudava, ia pro colégio às sete horas da manhã, chegava meio dia, às vezes, tinha ou não tinha o que comer. Às vezes, não tinha! Quando tinha, eu comia alguma coisa. Às duas horas da tarde, eu ia ser servente de pedreiro, fazia concreto, carregava tijolo e tal, com o meu tio que era pedreiro. Não tinha remuneração, a minha remuneração era o almoço que devia ter uma vez ou outra. Eu tinha ou não tinha! Mas essa era a minha remuneração, certo? Era isso aí que acontecia, sabe? Agora, é claro, eu sempre me dediquei muito à estudar, independente de estar tendo o meu dia tomado de sete da manhã às sete da noite, às vezes mais, até nove da noite, dependendo da obra que se fazia, eu sempre tinha um tempinho pra estar dando uma lida, ali, e tal, né, pra me aprimorar.

P/1 – Uma curiosidade. Moravam 18 pessoas numa casa?

R – Isso!

P/1 – E quem trabalhava na casa?

R – Na verdade, é o seguinte: meu tio que era pedreiro, minha tia lavava roupa, né, e tínhamos três pessoas que eram professoras na casa. Então, a gente rateava. Mas era muito pouco o salário de professor, o país não mudou daquele tempo pra cá, é sempre uma miséria! E continua sendo! Então, naquele tempo, se criava melhor! Então, era no máximo e tal. Então, não se podia ter, por exemplo, lazer. Esquece lazer! Não tinha lazer! Era comer, vestir muito mal e, quem tivesse vontade, ia estudar um pouquinho, procurar se aprimorar e tal pra querer alguma coisa. Era isso que a gente fazia.

P/1 – Uma outra curiosidade. Não tinha energia elétrica, né? Então, quando chegava à noite, vocês iam dormir cedo ou vocês ficavam conversando? Como era?

R – Não! Aí não dormia cedo! Aí, vinha a parte muito boa! É, perdeu-se muito daquela fantasia, das histórias, sabe? Das histórias de Branca de Neve, Carochinha, dos reis, das princesas. Perdeu-se muito isso! Mas naquele tempo, nós tínhamos uma tia que era analfabeta! Eu a acompanhei, várias vezes, pra ir aprender a fazer o nome na escola do mobral na época, certo? Mas ela era de uma criatividade fantástica, ela contava histórias que nos prendia, então, sabe? Ou seja, a luz não importava e tal, porque a gente estava acostumado. Uma coisa é você estar acostumado com ar condicionado, com energia elétrica, outra coisa, é você não ter, sabe? Qualquer coisa que soma, qualquer coisa que adiciona é muito! Então, é muito simples você viver sem energia, as pessoas vivem até hoje, no interior, sem energia. E garanto pra você, não sente falta! Dormem cedo, acordam cedo e produzem muito mais.

P/1 – Tinha alguma história, da própria região, que você se lembre?

P/2 – Lendas, alguma coisa a mais?

R – Na verdade, é o seguinte. Olha, é, a questão de lendas é o seguinte: você sabe que Roraima, ela ficou depois famosa e tal pelos... É, no centro oeste, né? No centro oeste chama-se, é – desculpa! Vamos lá – é, no centro oeste chama-se... Por exemplo, o lavrado, que nós chamamos aqui, chama-se cerrado, então, é o seguinte: o que é cerrado no centro oeste, pra nós chama-se lavrado, isso que vocês viram aqui, esses campos cheios de pastos naturais e tal, eles são pobres em proteínas, certo? São pobres em proteínas, mas eles alimentam o gado. Então, a história nossa, aqui, eu acho que a mais sensacional é a história de uma comida, né, que se chama paçoca. Por exemplo, existe paçoca no sul, no centro-oeste, no nordeste que é feita de amendoim. A nossa é feita de carne de sol, certo? Por que que surgiu aqui? Porque as distâncias eram enormes, tinha-se que percorrer levando o gado pra muitos lugares, e foi criada a paçoca. Ela era feita de quê? De carne de sol! Você pega a carne, salga, põe no sol e, depois, põe no pilão, que é uma estrutura de madeira, soca com farinha. A farinha é feita de farinha de mandioca e tal, né? Aquilo dura meses, então, você não precisa guardar em geladeira. Então, eu acho sensacional essa história, sabe, eu acho que é uma história de pessoas heróicas, sabe, que chegaram aqui e se adaptaram de uma maneira de dizer: “Vamos fazer esse serviço e vamos passar fome” ”Não! Não vamos passar fome”. Descobriram uma coisa que está no Brasil inteiro e todo mundo adora. Quem come, é maravilhoso!

P/1 – Eu queria saber um pouco da sua escola, como foi que você entrou? Como era essa escola?

R – Bom, eu, na verdade, eu comecei a estudar em um lugar chamado Icabaru, na Venezuela, né?

P/2 – Com que idade, mais ou menos?

R – Eu tinha seis anos de idade. Eu comecei a estudar em Icabaru, na Venezuela. Eu morava, lá, com a minha mãe, com a minha família inteira, só que é o seguinte: eu fiz, naquele momento que eu não entendia muita coisa e tal, eu acabei fazendo a diferença, eu estava sempre acima. Tudo que se jogava eu estava sabendo e tal, não sei o que, né? E a minha mãe é analfabeta, ela só estudou três dias na vida dela, três dias! Três dias e, no quarto dia que ela ia pra escola, o pai dela tirou pra ela ir colher arroz, mas ela não desistiu, ela pegava uma lamparina. Sabem muito no nordeste o que é uma lamparina, né? Uma vasilha com um caninho e tal, você põe óleo ou põe diesel e tal. E ela colocava a rede bem baixinho e estudava ali, juntando as letras. Hoje, a minha mãe tem 82 anos, é viva, certo? Uma pessoa sensacional, e nunca me disse o que tinha estudado e tal. Mas eu comecei, no princípio, lá, na Venezuela, eu comecei a estudar e já me veio aquela ideia: tudo era muito fácil pra mim, né? Eu entendia as coisas muito fácil! Naquele tempo, seis anos de idade o que você vai entender, né? Mas eu entendia fácil e tal. E a minha mãe percebeu, mesmo sendo quase analfabeta, ela percebeu e disse: “Não, eu acho que ele tem uma chance. Ele pode ir”. E me mandou morar na casa de uma tia, que eu já falei antes e tal. E da primeira série, que comecei, eu me sobressaí, passei da primeira pra terceira série, no primeiro ano, e passei da terceira pra quinta, na época, que na época que eu estudava, não tinha quinta do ginásio, era a quinta do primário, e passei da quinta no ano seguinte, pela dedicação, pelo o que eu sabia e tal. Então, era uma facilidade nata, eu não me preocupava! Eu não me preocupava em estudar! Como faço até hoje, eu faço faculdade hoje, né, mas eu não me preocupo em estudar, eu tenho uma memória fotográfica, onde eu leio e, pra mim é o suficiente. Lá, eu vou fazer o teste e eu consigo ler de novo, isso é normal pra mim!  

P/1 – E a diferença de idioma, não teve isso?

R – É, eu tive dificuldade demais quando vim da Venezuela pra cá, né? Eu não tenho. Olha, veja bem, a entrevista é bacana e tal, está até pegando esse meu lado índio e tal. Que sou de verdade, a minha descendência é índia mesmo! É Wapichana pura. Mas o lado venezuelano me afetou muito. Muito! Então, quando eu vim pra cá, eu não falava quase português, só castelhano. Tive uma dificuldade muito grande! Mas muito grande mesmo, né? Imagina, você chegar num colégio, onde você fala metade português e metade castelhano, e a garotada zoando com você, né? Mas me adaptei fácil, assim, em seis meses. É, a facilidade pra criança é muito grande, você vai se adaptando numa facilidade incrível. Eu me adaptei, fui em frente, posso dizer pra você: do dia que eu comecei na primeira série, até à oitava daquela época, eu sempre fui o primeiro aluno da classe, sempre!

P/1 – Mas você se lembra de alguma situação dessa que você passou?

R – Lembro! Ah, lembro! Eu, na terceira série do primário, todo mundo foi elogiado e tal, e uma professora me deu um livro de presente, ela disse: “Todo mundo vai ganhar isso aqui, mas esse aluno vai ganhar um presente”. Me deu um livro. “Porque ele está acima da média”. Então, ela me deu um livro.

P/1 – Você se lembra qual era o livro?

R – Olha, eu não lembro o título do livro, mas é um livro que contava a história de Duque de Caxias, né, numa guerra. Na guerra e tal, não sei o que. Só  que não tinha o nome da guerra que ele participou e tal. Mas era um livro fantástico e eu me apaixonei por leituras, né, e daí pra frente, sabe, eu passei a ler quase tudo que imaginava, tudo que aparecia na frente e tal, né? E graças a Deus, esta questão de leitura, essa participação em ser o melhor aluno da classe, isso, me levou ao Banco do Brasil.

P/1 – Só uma coisinha sobre a escola ainda. Você se lembra como era fisicamente mesmo a escola, como era o prédio?

R – Ah, tranquilo, tranquilo! A escola é o seguinte: eu estudei em duas escolas. Eu estudei em três escolas, certo? A primeira chamava é... Escola Estadual São Vicente de Paula. Naquela época, eu estudei da primeira à quarta série, aí, acabou a quinta, que tinha na época, né? Escola, né, Estadual São Vicente de Paula! Depois, eu fui pra Escola Estadual Monteiro Lobato, onde fiz de quinta, na época, à oitava. Onde eu entrei na questão do esporte, passei no voleibol, fomos campeões quatro anos, né, em voleibol e atletismo, muita medalha, sabe, entendeu? E sempre o primeiro aluno da classe, sempre! E isso me levou ao Banco do Brasil.

P/1 – Mas como era o prédio da escola? A escola era grande?

R – O prédio? Um prédio antigo, mas grande, confortável, né? Na época, não tinha ar condicionado, mas era ventilador. Nós temos uma felicidade no estado de Roraima, sabe? Independente dos governantes que cometeram todas as falhas que todos cometem, né, mas sempre tivemos um apoio na educação fantástico, sabe? A escola sempre foi muito boa, muito boa mesmo!  

P/1 – Você tinha uma professora ou um professor predileto?

R – Ah, sim! Eu tive uma professora chamada Graça Dias.

P/1 – Como?

R – Graça Dias. O nome da professora era Graça Dias. Foi a que me deu o primeiro livro na terceira série do primário. E ela foi a minha professora no ginásio. Sensacional! Eu acho que ela já era preparada, ela já sabia quem iria em frente e quem não iria, sabe? Ela tinha uma luz fantástica, sensacional! Graça Dias!

P/1 – Esse jovenzinho que está saindo da escola, o que fazia pra se divertir? Porque você já estava crescendo, devia ter um grupo de amigos, né? O que você fazia, aqui, na região?

R – Bom, Boa Vista, na época, era um lugar muito pequeno, mas muito pequeno mesmo! Então, a diversão é a normal de criança: jogar bola na rua, pião, né, que é – eu não sei [risos] como é que chama em outro lugar – mas o pião, a pipa, o papagaio e não sei o que, que todo mundo chama, né? Ou é pipa, ou é papagaio, ou é não sei o que. É, futebol na rua. Esse era fantástico, né? Não tinha jeito, a gente jogava de dia, de noite, no fundo do quintal, lá nas laranjeiras. Então, o futebol sempre foi uma paixão. Então o que mais a gente fazia era isso. Mas pescávamos demais, pescar! Esse lugar é rico em peixe.

P/1 – Era no Rio Branco?

R – Rio Branco! E é rico até hoje. 

P/2 – O que vocês pescavam?

R – Todo tipo de peixe. Olha, eu digo pra vocês: pescava quando pequeno, eu pescava peixe, né, pra ganhar um dinheirinho. Eu pegava uns peixes pequenos pra vender pra quem pegava peixe grande. E eu livrava o dinheirinho do caderno, né, do cinema. Eu vendia revista no cinema, pra ganhar a minha grana, né? Vendia quibe, vendia pastel, picolé. Eu fazia essas coisas todas. Mas eu pescava também, chegava no final de semana, eu ia pra beira do rio e pegava uns peixinhos pequenos e vendia pros pescadores que pegavam peixe grande. Eu fazia isso! Então, é o seguinte: eu nunca me acomodei, nunca! Eu, hoje, tenho 30 anos de Banco do Brasil, graças a Deus! Uma empresa maravilhosa, né? Mas fiz muitas coisas diferentes pra estar aqui. 

P/1 – Então, qual foi o seu primeiro trabalho antes de chegar ao banco?

R – É, o meu primeiro trabalho foi ser servente de pedreiro, mexer massa, concreto, carregar tijolo, isso é o que eu fiz na primeira vez.

P/2 – Com que idade mesmo?

R – Com 11 anos de idade.

P/1 – E depois?

R – Aí, depois, eu encaixei muitas coisas. Eu já fui pra cemitério, né? Eu já fui pra cemitério pintar cruz, enfeitar cova, pintar grade, fazer letras, né, nas cruzes das pessoas, eu já fiz isso!

P/1 – E era tranquilo?

R – Simples, tranquilo. Eu nunca tive problema com isso, e não tenho problema nenhum em dizer isso, que fiz, certo? Já fui de casa em casa perguntando se tinham um terreno pra limpar e tal, eu já fiz isso muitas vezes, fiz muitas vezes!

P/2 – Nessa tua infância, com todos esses trabalhos, aconteceu alguma história que você goste de contar, que seja engraçada?

R – É, quando eu fui entrar no banco, eu fui na casa de um capitão do exército chamado... Era capitão e era médico, chamado Doutor Roberto, ele fazia a avaliação, né, pra gente entrar e tal. E uma coisa que me chamou a atenção, assim, que eu não esqueço até hoje, foi quando eu disse uma vez, eu cometi um erro de português e cometo até hoje, né [risos], porque português é uma língua maravilhosa, e isso eu cometo até hoje, mas eu disse uma vez, ele disse: “Quem é Antônio?”. Eu digo: “É eu!”. E a esposa dele disse: “Não, está errado. Não é eu! Sou eu!”. Sabe, aquilo parecia sem importância, né, mas o nosso português é tão fantástico, que isso fez uma diferença pra mim, na vida inteira, sabe, entendeu? Sabe, me abriu a mente pra dizer: “Puxa vida, cometi um erro tão básico, tão básico, né? Eu tenho que consertar só esse erro ou devo consertar um monte de erros, né, e aprender e tal?”. E é o seguinte sabe, a humildade com que aquela pessoa maravilhosa me corrigiu foi tão grande, que não me deu raiva, não me deu nenhum constrangimento, ao contrário, me abriu a mente. Isso foi sensacional! 

P/1 – Isso foi pra você entrar no banco?

R – Isso, eu estava fazendo exame médico pra entrar no banco. Como menor!

P/1 – Mas, assim, teve um concurso? Quantos anos você tinha quando aconteceu?

R – Eu, na verdade, tinha 14 anos de idade e eu fui escolhido. É o seguinte, funcionava assim: existia o menor aprendiz, né, e eram escolhidos, de cada escola, os melhores alunos das escolas. Eram quatro alunos das melhores escolas, né, e eu fui escolhido um dos quatro melhores da minha escola, né? Então, nós participamos, depois, de uma entrevista no banco com 26 alunos, né, e desses 26 ficaram quatro, e eu tive a felicidade de ficar, né? Na época, a felicidade de ficar, fiquei, né? Já tinha me dedicado. Na época, é o seguinte: não se fazia digitação, fazia, assim, datilografia. Imagina, aquelas máquinas antigas, colocava um banquinho assim, você e tal. E eu, graças a Deus, já [risos] tinha feito a datilografia, né? E aí, eu falava espanhol. Nós tínhamos a carteira de comércio exterior, né? Então, na entrevista eu fui selecionado. E dos 14 anos de idade, estou aqui até hoje.

P/1 – Mas conta pra mim: como é que foi a sua entrada mesmo, o primeiro dia? Você consegue se lembrar do primeiro dia como foi?

R – Ah, perfeitamente! Nossa Senhora! O primeiro é o seguinte, né? É 1978, 12 de novembro, ninguém pra... Naquele tempo, pra entrar no banco [risos]. Ninguém entrava no banco se não tivesse uma conta, se não tivesse alguma coisa pra fazer, sabe? Não se entrava em banco naquele tempo, né? Naquele tempo, o banco tinha uma coisa chamada conta movimento, certo? E a conta movimento sustentava esse banco inteiro, ninguém precisava correr atrás de conta corrente, não precisava de poupança, de nada, sabe? Bastava ser banco e acabou. O gerente do banco era a terceira pessoa da cidade: primeiro, era o juiz ou o advogado e tal; segundo, era o padre; e terceiro, o gerente do banco. Então, você imagina, você com 14 anos e entrar no Banco do Brasil, entendeu? Sem saber nada, vindo de um lugar do interior, de um lugar da Venezuela, com a influência, né, a influência intelectual menor possível, zero! Minha mãe era analfabeta, a minha família, praticamente toda, sem nada, e você entrar num mundo dito, assim, com certeza de intelectuais, certo? Não foi fácil! 

P/1 – E quando você entrou, qual foi o trabalho que você começou a fazer?

R – Eu entrei como menor. Aí, o trabalho foi o seguinte, sabe, de início, partimos pro arquivamento, né, pegar certas fichas e arquivar. Aí, depois, já entrei numa parte que chamava cobrança na época. Hoje, tudo é informatizado, mas no meu tempo era manual. E me destaquei por quê? Porque eu fazia um serviço muito perfeito, né? Eu fazia o serviço tão perfeito, perfeito mesmo, que o seguinte: aquela carteira passou a ser minha. Então eu já fazia tudo e acabei fazendo amizade com o pessoal do cartório, com o pessoal do banco e tal, sabe? Ou seja, difícil o impacto de entrar, mas depois, a assimilação foi muito simples, muito fácil, né? Então, as pessoas do banco naquele tempo, né, eram todos... Digamos, naquele tempo, preferia-se casar uma filha com um funcionário do Banco do Brasil que com um médico, né? Mas encontrei essas pessoas maravilhosas que me deram apoio, me ensinaram. E eu não tive dificuldade, sabe?

P/1 – Não tinha aquela coisa de ter que trabalhar vestido de um determinado jeito?

R – Sim, tinha, tinha! Eu, por exemplo, entrei no banco como menor, então, eu tinha uma farda [risos]. Eu tinha uma farda azul. O presidente do Banco do Brasil foi menor e usou a farda azul. O presidente que está no Banco do Brasil hoje, foi menor! E da mesma época que eu, no mesmo tempo. Hoje, ele é presidente do banco. Tudo bem, são histórias, caminhos diferentes, mas ele usou a mesma farda que eu, uma farda azul com um logotipo branco aqui e tal. Mas aquilo era, digamos assim, um orgulho, né? Um orgulho sair na rua. Diferente de hoje, policial não pode andar de farda que é morto, que é não sei o que. Então, pro Banco do Brasil, andar com aquela farda era um orgulho. Você andar com a farda do Banco do Brasil era um respeito total.  

P/1 – Como foi pra sua família quando você começou a trabalhar no banco?

R – [risos] Minha família foi uma situação meio difícil, sabe? Porque, como eu disse, eu morava com uma tia, né? A minha mãe morava na Venezuela e eles não entendiam muito bem, certo? Não entendiam muito bem aquilo ali. Mas aquilo, com o tempo, depois é que se percebeu, porque, assim, se ganhava bem, era um dimdim bom, sabe? Pra época era um dinheiro bom, podia-se pagar um monte de coisas. Então, eu passei a ser a referência da família, né, a referência! E uma coisa que não mudou até hoje, certo? Eu, por ser funcionário do Banco do Brasil, continuo sendo a referência da família. É, parece, assim, que eu sou aquele cara que obteve sucessos, né? É, apesar das mudanças do banco, da mudança do mercado e tal, eu continuo sendo referência até hoje. Eu fui referência na época e continuo sendo referência até hoje.  

P/1 – Você se lembra o que você fez com o seu primeiro salário?

R – [risos] Eu passei um tempão sem receber, sabe? Porque, assim, como eu morava com tios, minha mãe morava na Venezuela, existia uma questão jurídica, de quem ia autorizar o meu contrato com o Banco do Brasil. Levei três meses pra receber o primeiro salário, mas me deram uns trocos, né, no caminho. Interessante, nesse momento, eu morava com uma tia que faleceu. E morar com tio não é bom. O tio é bom, mas os primos… não é fácil! Então, eu era o cara que fazia tudo, né, eu limpava a casa, varria chão. E não tinha água, e essa água, então, era poço, puxava água de poço, molhava as plantas. Então, eu fazia tudo isso, antes de ir pra aula no colégio. Eu acordava às cinco da manhã e fazia tudo isso. Eu puxava a água num poço de 13 metros, enchia um camburão, molhava planta, limpava a casa, passava pano, pra poder ir pra aula. Por quê? Porque eu morava de favor, certo? Eu morava de favor! E a minha entrada no banco não modificou muita coisa, sabe? Eu continuei sendo aquela pessoa que fazia isso, certo? Eu continuava fazendo da mesma forma, né? E à tarde eu ia ser servente de pedreiro pro meu tio. E me destaquei como atleta na escola, né, então, me sobrava um tempinho pra eu fazer o meu atletismo. Atletismo, voleibol, futebol, eu fazia isso num tempo vago, certo? Então, é o seguinte: pra minha família, não teve muita diferença, não, sabe? Ou seja, tipo assim: “Conseguiu! Tudo bem, né, continua fazendo o serviço”. E eu continuei fazendo.      

P/1 – E aí, e o primeiro salário quando chegou depois de três meses?

R – Aí, assim, que eu digo, né? Aí, eu recebi uns adiantamentos. Eu era menor no banco! Eu recebi alguns adiantamentos, né? Aí, dava pra ajustar uma conta e tal. Quando eu recebi o primeiro [risos] salário de verdade! Olha, era dinheiro! O meu sonho, o sonho de menino é o quê? É comprar uma bicicleta, né? Dava pra comprar umas dez bicicletas! Imagina, você ficar de novembro a janeiro. E em janeiro, o banco pagava bem, né? Quando chegou em janeiro, dava pra comprar [risos] dez bicicletas. Quando eu vi aquele monte de dinheiro eu não sabia o que fazer. Dava pra comprar uns terrenos, dava pra um monte de coisas, certo? O que eu fiz? Sanei aquelas dívidas que eu tinha com as pessoas que eram parentes, pra não ficar pendente, né? Comprei uma bicicleta só, né, que eu só podia andar em uma. E foi o que eu fiz, mas sanei, tipo assim, eu digo: “Vou apagar essa minha dependência”. Paguei todo mundo e tal. “E vou pagar essa minha dependência. Agora, eu vou começar do zero”. Isso que eu fiz.

P/1 – E você ia trabalhar de bicicleta?

R – Sim! Não só trabalhava de bicicleta, como trabalhava para o banco de bicicleta. O banco tinha umas correspondências, uns ________ que ia entregar e eu ia de bicicleta.

P/1 – Você era como um office-boy?

R – É. Na verdade, naquele tempo, eu era menor aprendiz, tá, mas já fazia esse serviço e tal. Fiz muito isso, andar essa cidade de bicicleta e tal. Fiz muito! Pra entregar correspondência do banco, muito, muito, muito!

P/2 – Você continuou morando com os seus tios?

R – Na verdade, é o seguinte: eu continuei e, depois desse episódio, eu continuei morando com os meus tios dois meses. Aí, a minha tia morreu e eu mudei, né, fui morar com uma outra tia e fiquei mais dois meses e, depois, fui morar só.

P/1 – E continuou no mesmo cargo?

R – No mesmo cargo, eu era menor ainda, né? Aí, é o seguinte: como eu me destaquei como menor, eu fui convidado pra fazer um teste como contínuo no banco. E fui pra uma cidade, aqui perto, chamada Caracaraí. E fui lá, fiz os testes e assumi como contínuo em Caracaraí.

P/1 – Deixa eu entender, a primeira agência então, qual era?

R – Boa Vista, Roraima.

P/1 – Aí, a segunda agência?

R – Caracaraí.

P/1 – E lá?

R – E lá é o seguinte: eu comecei como, aí eu já era funcionário do banco, mas era contínuo, né? Eu até tenho a foto, ali, onde eu estou fazendo um serviço, ali, que é sensacional. Que, na época, era feito, né, os balancetes eram feitos em cópias. E eu estou ali, fazendo o serviço com uma gelatina, onde você copia pro livro um balanço e tal, não podia ter erro, não podia ter nada, né? Então, eu usava aquela farda branca. Eu usei uma farda azul e passei a usar uma farda branca, né, com o logotipo e tal. E fiquei três anos em Caracaraí. E depois de Caracaraí, daí, teve o concurso interno, e eu passei no concurso interno e me transformei em funcionário realmente do Banco do Brasil, né? Já era funcionário, como contínuo, mas aí virei do quadro, né, que a gente chama de escriturário, e estou aí até hoje. São 30 anos de casa.   

P/1 – E continuou na agência de Caracaraí?

R – Não, continuo na agência de... É, continuo em Boa vista, na agência Monte Caburaí, né? Trabalhei na Monte Roraima durante muito tempo e hoje estou em uma agência chamada Monte Caburaí.

(troca de fita)

P/1 – E como era lá em Caracaraí?

R – Na verdade, é o seguinte: apesar de estar acostumado a morar só e tal, longe da família durante tanto tempo. Mas quando fui nomeado para Caracaraí,que eu fui indicado, né? Que eu fui indicado por funcionários do banco, pessoas que viram o meu trabalho e, então, me indicaram pra lá. Mas morar só não é fácil, mas, graças a Deus, a facilidade de fazer amigos e tal, me permitiu passar três anos e seis meses, lá, numa tranquilidade. E lá começamos o primeiro trabalho social que fizemos, que eu fui ser presidente da Aabb [Associação Atlética Banco do Brasil] Caracaraí. 

P/1 – Já tinha Aabb?

R – Já tinha a Aabb Caracaraí, só, que era um negócio que não tinha nada, né, era um nada, nada. Então, percebemos naquele momento, essa condição do ser humano, sabe, de estar junto, de se juntar, de fazer alguma coisa. E não tem jeito, não tem pra onde fugir, só fazemos as coisas somando, sabe? E eu percebi naquele momento...

P/1 – Em que ano foi isso?

R – Isso era 1982, entendeu, 1982.

[interrupção para arrumar o microfone]

P/1 – Então, quando foi mesmo, foi em 82?

R – Sim, em 1982 eu fui pra Caracaraí, né? E é o seguinte: imagina, chegar em Caracaraí, 1982, 19 anos. Eu sempre fui um cidadão que fiz voleibol, futebol, atletismo e tudo, né? E chegar lá e não fazer nada. Quando não tinha o que fazer, tinha uma praça lá, que eu ficava correndo ao redor, então, me veio... Já existia uma Associação Atlética Banco do Brasil abandonada, então, mesmo naquele tempo, sem experiência e tal eu digo: “Não, se pode se fazer isso aqui, pode-se fazer um clube do banco e tal, né?”. E assumi como presidente e tal, ampliamos espaço, construímos piscina, construímos várias coisas. Que naquele tempo, o Banco do Brasil dava esse apoio de construir sem fins, né, sem retorno e tal. E fizemos toda essa coisa lá. Então, fizemos um marco diferente, né, que é a parte social do Banco do Brasil. Então, em 1982, 1983, nem se falava no social, o que é um marco hoje das empresas, né? Empresa que não está encaixada no socioambiental, está fora do mercado, ninguém investe, ninguém compra ações e tal. Então, naquele tempo, já tinham pessoas, que sem essa experiência, sem uma formação superior, sem nada, mas já tinha essa intenção, por quê? Porque o banco sempre foi isso! O Banco do Brasil sempre foi esse marco de desenvolver municípios e tal. E sempre estivemos à frente.

P/1 – E qual foi o trabalho social que foi desenvolvido?

R – O trabalho social? Foi feito lá, assim, de associar pessoas de fora. Que não se permitia na época, isso só foi permitido em 2001. E eu já fazia isso em 1982! Eu já associava pessoas na Aabb em 82, quando só foi permitido em 2000, tipo assim, 20 anos depois, certo? Então, eu já fazia uma coisa, lá, atrás que nem se imaginava no banco, pegar pessoas, na época, que eram do Sesc, que era o hospital do exército, então, eu chamava pra dentro da Aabb. Então, eu já fazia isso, as pessoas contribuíam! Isso, ou seja, 20 anos depois, as Aabbs tornaram isso possível. Eu já fazia isso há 20 anos atrás!

P/1 – Então, assim, da Associação Banco do Brasil participavam pessoas de outras categorias profissionais?

R – A Associação do Banco do Brasil hoje é aberta. É uma sociedade aberta onde existem o que a gente chama de sócio efetivos, funcionários sócio comunitários, as pessoas da comunidade que se associam e fazem, né, pagam suas jóias e tal, não sei o que. E de 20 anos atrás – acho que de 1982 pra cá, sei lá, fazem mais de 20 anos e tal – eu continuo hoje, eu sou o presidente do Aabb Boa Vista e continuo fazendo esse trabalho, sabe?

P/1 – Só uma pergunta: como é que você chegou a presidente? Por que não tem uma eleição, uma coisa assim?

R – Tem, tem uma eleição! Primeiro, é o seguinte: a Aabb Boa Vista estava pra fechar, né, pra acabar, por falta de controle, por falta de gestão e tal. E tem um companheiro nosso que se chama Robert Dagon da Silva, um cara sensacional.

P/1 – Como?

R – Robert Dagon da Silva, é do Psol o cara. Oh, diz aí, Ernesto, o barbudo e tal. “Seveg, é o seguinte: não tem mais jeito, vai vender, vai acabar essa Aabb. O que a gente faz? Vai comigo?”. Eu digo: “Vou”. E aí eu entrei na Aabb. Então, o Robert saiu, saíram todos que entraram e a gente assumiu a associação. Já pagamos, assim, mais de 300 mil reais em dívidas e, hoje, é uma associação equilibrada, né, com uma presença de sócios, hoje, incrível. Eu diria, até, que é o melhor clube, hoje, do estado de Roraima, entendeu, confiável e tal. Então, um trabalho feito que gerou o quê? Credibilidade. Resultado? Na última eleição não teve nem concorrência! Nem concorrência não teve, porque não tem como concorrer. Você faz um serviço bem feito, não tem concorrência. Então, não teve concorrência por isso, certo? Então, eu entrei com o Robert, pra arrumar, quando concorri à primeira eleição, não tem, então, não tem ninguém pra concorrer, porque é o seguinte: não tem como concorrer, por quê? Porque o serviço é muito perfeito. Hoje, nós temos uma associação forte, sabe, com o Banco do Brasil fiscalizando os documentos exigidos pelo banco, lá, entregues. Hoje, fazemos parte do Conselho Nacional, né? O Conselho Construtivo Nacional, fazemos parte, né?

[interrupção para arrumar o microfone]

P/1 – Então, você estava terminando de falar sobre a associação, né, que você conseguiu, então, mudar a cara da associação.

R – Na verdade, mudar a cara da associação seria, eu acho até mudar a parte, vamos dizer assim, da estrutura, certo? Já fizemos isso, mas o mais importante é mudar a essência, que é transformar um órgão que é sem fins lucrativos, que beneficia uma cidade inteira, que é uma sala de negócios pro Banco do Brasil, certo? E uma coisa viável, decente, confiável, com uma pessoa que comanda e que ninguém pode dizer assim: “Oh, tu fez errado”. Então, eu consigo isso, eu transito 100% dentro de uma associação, onde ninguém, ao contrário, ninguém me cobra nada, ao contrário, as pessoas chegam e tal: “Bicho, eu tenho uma idéia e tal”. Sabe, então, ninguém me cobra nada. É muito bom isso, sabe, apresentar balancetes concretos, com todas as verbas, dinheirinho por dinheirinho contado e tal. Isso deveria ser feito em municípios, estados e etc etc. É fácil fazer, só não faz por quê? Porque somos corruptos de natureza, né?

P/1 – Deixa eu voltar pro banco. Então, você passou de contínuo pra escriturário, né?

R – Eu passei de menor pra contínuo, certo? E de contínuo pra escriturário.

P/1 – E o que mudou no trabalho?

R – Na verdade, isso é uma fixação no emprego, né? Eu tive muitas propostas pra ser gerente do Banco do Brasil, né, pra ir pro interior, pra cuidar e tal, não sei o que. Muitas propostas eu tive! É, eu posso dizer que sou polêmico dentro do banco, porque eu defendo o funcionário que pensa, sabe? Eu não quero funcionário que é máquina, sabe, que você diz: “Você vai fazer isso e tal”. O cara não sabe nem o porquê de estar fazendo. Não tem que ser feito isso, então, eu penso. E hoje, pensar dentro do Banco do Brasil, nessa máquina, está meio perigoso, você não pode pensar, você tem que obedecer e acabou. Eu penso! E não posso deixar de pensar, né? Pensar, pra mim, é primordial, é mais importante que uma Skol. É, Skol, não. É marca, né? É mais importante que uma cerveja, eu adoro uma cerveja, entendeu? Então, é o seguinte: pensar, pra mim, é primordial, certo? E o banco hoje não nos permite isso, ele está forçando você: “Tu tem que vender, não sei o quê. Não importa, não pergunta, não pensa, não sei o que, vende e tal!”. É assim que funciona a coisa, sabe, e é ruim demais.

P/1 – Mas de escriturário você mudou de função?

R  – Mudei de função, né? Veja bem, naquele tempo, assim, sabe quanto tempo levava pra ser de escriturário pra caixa? Levava-se 10 anos pra virar caixa!

P/1 – E você virou caixa? Você foi caixa?

R  – Aí, eu fui caixa do Banco do Brasil! Pensa que negócio bacana, importante, né? Eu virei caixa depois de – sei lá – 15 anos no Banco do Brasil. Eu virei caixa! Aí, eu passei 16 anos como caixa no Banco do Brasil, diz aí?

P/1 – Ah, mas então, você tem alguma história interessante, no caso, de caixa?

R  – Trabalhando em tesouraria e tal, não sei o quê! Eu tenho um monte de história interessante de caixa e não sei o que, sabe? Eu passei 16 anos como caixa, trabalhando na tesouraria, trabalhando até duas da manhã, duas da manhã! Começa às sete e tal. Se eu chegasse sete e cinco o meu chefe me chamava, mas se eu saísse dez horas ele não estava nem aí, entendeu? Resultado? Nunca me pagaram essas horas, né? É claro, não é? Mas é o seguinte: histórias? Eu tenho demais. Eu passei do plano cruzado pro plano que era URV [Unidade Real de Valor], né? Eu já viajei, pra esses interiores, fazendo pagamento com uma sacolinha de dinheiro, com 250 mil, sozinho no monomotor. Quando chegava, lá, eu pegava carona de moto ou de trator pra ir pagar a turma na vila, lá. Fiz muito isso! Eu fiz isso durante três anos. Três anos!  

P/1 – Era pagamento de empresa?

R  – Pagando as empresas, que o pessoal... Não! Os funcionários do estado que trabalhavam, o governo dava um avião, aquele monomotor lá. Se parar aquela hélice, já era, acabou, né? E eu fiz isso durante três anos, sabe? Agora é o seguinte, diz assim: “Você fez por que foi obrigado?”. Não, eu fiz porque quis, porque achava maravilhoso. E faria tudo de novo!

P/1 – Não tinha problema com segurança, assalto, essas coisas? Como era isso?

R  – Tinha, tinha, mas nunca aconteceu. Mas tinha! Era área de garimpo, onde todo mundo anda armado. Mas nunca aconteceu. Mas o perigo era enorme! Enorme! Graças a Deus, nunca aconteceu. Mas fiz isso! Eu já viajei pra Manaus, num avião de carreira, com 18, 21 malotes, desse tamanho, de dinheiro, que embarcava direto no avião. Fui e voltei. Teve um dia que eu fui em Manaus, voltei, quando cheguei no aeroporto, aquela moça que se diz minha mulher, estava lá e disse: “Não, tu vai voltar agora, de novo”. E levei mais 20 e tantos malotes de dinheiro! Sem voltar em casa, sem nada. Eu fiz isso inúmeras vezes, né? Então, é o seguinte: o Banco do Brasil, eu não consigo mais me separar do Banco do Brasil, né? Eu não tenho mais diferença do que é banco, do que é ser funcionário, do que são pessoas e tal. Eu acho que se me arranjarem um número daqueles, né, de código e tal, cabe bem. Eu já sou um número no banco. Que já sou: 1112390, esse é o meu número no banco.

P/1 – E nesse meio tempo que você estava cumprindo a função de caixa, você continuou os estudos? Como você conheceu a sua esposa?

R  – Não! Não, não! Eu, na verdade, é o seguinte: eu me dediquei muito ao banco e esqueci de estudar. E conheci minha esposa no início, né? Porque quando eu voltei de Caracaraí, eu comecei a fazer, que era na época chamado de segundo grau, era o último ano que eu precisava e tal, tal... eu conheci e casei. Mas parei! O banco não tem culpa disso, a culpa é minha que não procurei. Mas só que é o seguinte: o banco em si, _____________ não incentiva ninguém, não, né? Se ele está absolvendo, está se sentindo bem, o restante que se vire, né? Então hoje, o banco me dá uma ajuda enorme! Eu faço faculdade e o banco paga 50% da minha faculdade.   

P/1 – Que curso que você faz?

R  – Eu faço Ciências Contábeis. E o banco paga 50% da minha faculdade, né? É uma ajuda sensacional, certo? E eu vou lá, firme e tal, não sei o que, sabe? Então, eu acho uma ajuda maravilhosa. Então, o banco em si, pra mim não é ruim, de forma [risos] nenhuma.

P/1 – E como é que você conheceu a sua esposa?

R  – É, numa sala de aula! Começamos a estudar juntos, conhecemos e tal, né? Eu nem ligava pra ela [risos]. Não, estamos juntos e tal. É, na verdade, é assim: fazendo o terceiro ano, que era do segundo grau e tal, nos conhecemos. Nos conhecemos, dois anos depois estávamos casados e, hoje, mantemos uma família maravilhosa, né? Temos três filhos.

P/2 – Qual é o nome deles?

R  – É, eu tenho a Janaína, de 19 anos. Não deixei fazer concurso do Banco do Brasil, certo? 

P/1 – Por quê?

R  – Porque eu não acho que a área financeira, hoje, seja um futuro pra ninguém, entendeu? Já foi sensacional e tal. Eu, tudo que eu tenho, foi feito pelo Banco do Brasil, mas não deixei fazer, porque essa área financeira é o seguinte: você é descartável hoje, certo? É descartável! Ninguém está aí pra você! Eles estão aí pros acionistas, certo? Pra quem está pagando, pra quem não sei o que. Funcionário? “Meu amigo, eu troco você no outro dia, acabou! Se eu tirar você? Eu tenho 20, 30, aqui, que coloca no seu lugar!”.  

P/1 – Você falou o nome dos três filhos?

R  – Ah, não falei! Eu tenho a Janaína, 19 anos. Hoje, ela faz o segundo ano de Relações Internacionais, tudo escola pública! Todos estudaram em colégio, escola pública, né, ninguém em particular. Eu tenho a Juliana, 14 anos, está fazendo ginásio. E tenho o Julio, 8 anos, que está fazendo, aí, a segunda série, né, lá do primário e tal, né?

P/1 – E no banco, você está em que função atualmente?

R  – Hoje, eu sou gerente de contas, né, gerente de contas exclusivo. Eu cuido de 800 pessoas sozinho, sem assistente, sem ninguém pra arquivar papel. Eu tenho que vender, cobrar, atender e etc etc etc.

P/1 – E completou quantos anos de banco?

R  – Trinta anos, 12 de novembro de 2008, 30 anos de Banco do Brasil!

P/1 – E como é um dia seu de trabalho? Como que você diria pra gente que é?

R  – Bom, nesse momento, depois da greve, eu estou trabalhando 10 horas, né? Eu começo às sete da manhã, aí eu faço uma hora de almoço. Eu moro próximo, né, têm uns 200 metros da minha casa. Aí, eu vou em casa, almoço, volto feito doido e, depois que eu atendo todo mundo, processo tudo, cobro, pago, não sei o que, eu vou arquivar. Depois que o meu ponto encerra, né, porque a gente tem que arquivar depois. Aí eu vou fazer arquivo, porque nós não temos ninguém pra arquivar, nós não temos ninguém pra ser auxiliar, nada, sabe? E o bom de tudo isso, sabe o que é? Muito bom mesmo, que é o tchan e tal? É que os clientes entendem isso, sabe? Eu tenho muitos clientes juízes, advogados, deputados federais, estaduais e tal, e eles me ligam: “Seveg! Oh, se der pra você fazer, você faz. Se não der, eu aguardo, não tem importância e tal”. Eu tenho muitos, não são poucos, não! Muitos, certo? Muitos! Ou seja, eles entendem essa dificuldade que o banco está impondo, né? Impondo para os funcionários, sabe? É interessante isso, sabe? 

P/1 – Ah, uma coisa, que é uma curiosidade também. O Banco do Brasil, num lugar como é Boa Vista, que são poucas agências do Banco do Brasil nessa região, né, no estado de Roraima, não são? Qual é a importância do Banco do Brasil pra Roraima?

R  – Olha, o Banco do Brasil, ele não é só importante em Boa Vista, o Banco do Brasil é importante em qualquer lugar, em qualquer município, onde você imaginar. A marca Banco do Brasil é uma coisa muito importante, ela representa, sabe, sucesso, representa desenvolvimento e tal. Então, a marca do Banco do Brasil é uma coisa que é primordial pro Brasil! Não é local, é pro Brasil, sabe, pra Boa vista, pros municípios, pra qualquer lugar a marca Banco do Brasil, ela é tão forte como, eu diria, como a cruz, como a Bíblia e tal, sabe? Pra esse país, ela é tão forte como isso aí, certo? É muito forte!

P/1 – E pra atividade produtiva aqui, na região, tem alguma atuação específica que você poderia citar?

R  – Tem, sim, tem, eu posso citar, sabe? Hoje, o Banco do Brasil está operando numa coisa que chama DRS, Desenvolvimento Regional Sustentável, né? Então, é o seguinte: nós já temos algumas atividades funcionando no DRS. A apicultura, por exemplo, tem mel, aí, [risos] sobrando, e dá numa qualidade maravilhosa, sabe? E existe alguns da banana, que estão sendo construídos no sul do estado e tal. Então, é o seguinte, sabe? Isso é uma participação que nenhum outro banco pode e vai alcançar, sabe? Então, o Banco do Brasil alcança isso, que é o DRS, Desenvolvimento Regional Sustentável, isso pode acontecer em um monte de coisas, sabe, na melancia, na mandioca, na banana e na apicultura, na avicultura, sabe? Então, isso está funcionando no estado, e com pessoas competentes demais e envolvidas em fazer, sabe? Então, tem sido um sucesso isso aqui.

P/1 – Você, olhando a sua trajetória de 30 anos no banco, todas essas passagens aí. Quais, você diria, que foram as principais lições que você tirou?

R  – A maior lição que eu tenho do Banco do Brasil, é a honestidade, eu sou 101% honesto, né? E outra coisa é assim, sabe, o tratamento com as pessoas, com os colegas, essa coisa de dividir, de ninguém derrubar ninguém. Então, é o seguinte, pra mim toda a minha vida de Banco do Brasil, 30 anos, o que é mais forte pra mim? É me considerar um cara 101% honesto. Recebi várias ofertas de suborno e tal. Eu nunca cedi a nenhuma! E nunca me fez falta! E isso me faz muito bem.

P/1 – Antes de você falar das perspectivas do futuro, só uma coisinha, você citou o nome da sua esposa?

R  – Ainda não! Eu citei dos filhos, né? Eu citei quando estávamos lá atrás, né? É, a minha esposa se chama Isídia de Melo Lira Rosa. Nos conhecemos quando eu vim de Caracaraí, em 1986. Eu estava fazendo o terceiro ano de técnico contábil e nos conhecemos. Já a conhecia antes, né, eu conhecia os irmãos e tal. Nos conhecemos e tal e estamos, aí, 20 anos juntos. É uma parceria boa, ela me atura bem mais do que se possa imaginar [risos]. Mas é uma parceria boa, é uma pessoa maravilhosa, com consciência, honestidade e tal. Eu acho que, como toda sociedade, o que vale é a confiança, né, e eu acho que nós temos confiança.

P/1 – Quais são as suas perspectivas pro futuro?

R  – Tenho… eu já estou me preparando pra isso, certo? É, eu recebi alguns convites, pra ser gerente de algumas cidades do interior. Só que nas cidades do interior que eu recebi convites, não tinha o curso que eu estou fazendo, então, eu não aceitei. Por quê? Porque me prejudicaria, certo? Eu já me...eu acho que sacrifiquei a minha vida inteira pelo banco. Ou não! Porque ele me pagou por isso. Mas eu tenho um plano pro futuro. Bom, pretendo me candidatar a deputado estadual em 2010. Pretendo me aposentar, né, daqui cinco anos, quando eu completar 50 anos. Um gatão ainda novo, né? E, sabe, pretendo me aposentar aí. Mas quero me aposentar na sexta-feira e na segunda-feira, eu quero começar na coisa que eu estou pretendendo. Eu tenho um leque de coisas que eu estou planejando, mas em 2010, com certeza, serei candidato a deputado estadual por Roraima, e isso é certeza.

P/1 – Você está há cinco anos de se aposentar, que mensagem que você deixaria pros seus colegas de banco?

R  – Para todos eles eu diria o seguinte [risos]: que não tem que olhar no tempo que falta pra aposentar, tem que pensar só no dia seguinte, nunca no tempo! No dia seguinte! Amanhã, amanhã, amanhã! Isso é o que importa, amanhã é sempre um novo dia. Eu estou naquela situação, que é o seguinte: que a gente tem que matar um leão por dia, certo? E se estiver com um companheiro, tem que calçar o melhor tênis pra correr mais do que o leão, sabe? Então, é o seguinte: não tem que desistir, no dia seguinte, é uma batalha que começa cedo, olha pro teu adversário, olha pro teu amigo, não interessa, corre mais do que ele, é isso que eu digo todo dia: corra mais do que o teu amigo, adversário. Eu não tenho mais adversário, não! Hoje, a gente corre mais do que o amigo, do que o colega, do que o parceiro, do que o colega de banco. Então, é só isso: corra mais do que ele.

P/1 – Bom, a gente está chegando realmente ao final. Tem esse projeto, como eu coloquei pra você, de comemoração dos 200 anos do Banco do Brasil. O que você acha dessa iniciativa do banco, assim, de estar colhendo depoimentos para a comemoração dos 200 anos?

R  – Olha, se fôssemos realmente colher histórias de pessoas do Banco do Brasil, não ia parar nunca, porque nós temos no Banco do Brasil talentos de todas as maneiras que se possa imaginar: de música, de escritura, de talentos de sabe...de tudo que se possa imaginar. E eu, por exemplo, o que eu posso dizer: eu sou um privilegiado, né? Fui escolhido, assim, numa situação atípica. Porque se olhar bem pra mim, vai dizer: “Não, não tem nada a ver com índio e tal”. Mas realmente, eu tenho uma certidão que prova que sou índio, que vim de lá e tal. Eu tenho uma mistura de espanhol, eu tenho uma mistura de cearense na minha vida e tal. Mas, nesses 200 anos, olhando assim, o que eu vejo nas pessoas que estão entrando, é principalmente o amor por essa marca que é muito forte, a marca Banco do Brasil, a marca que leva, que faz a diferença de que podemos transformar pessoas, sabe? É, mesmo depois de muito tempo, que o salário caiu, que não representa mais muita coisa como antes, né, que as famílias preferiam que uma filha casasse com um funcionário do banco do que com um médico. Hoje, não é mais assim, mas a marca é muito forte, sabe? A devoção que nós temos por essa marca Banco do Brasil, é uma coisa que passa para os brasileiros e eles sentem isso. Então, eu me sinto, assim, sabe, fazendo parte dessa marca!

P/1 – E o que você achou de ter dado esse depoimento?

R  – [risos] Bom, eu não esperava, pra começar, né? Mas é um pouco da história da gente, né? Quem espera o que fazer? É começar... Digamos, de onde eu vim, poucas pessoas conhecem a minha história. Eu, talvez, nos centros de grandes cidades, seria condenado a ser um menino de rua, um drogado, alguma coisa assim. Hoje, eu tomo uma cervejinha, né? Mas eu não quero impor, transformar esse depoimento como uma coisa primordial na minha vida, certo? Não, sabe por quê? Porque quase não fiz nada ainda da vida, eu tenho tanta coisa pra fazer, que esse depoimento eu quero considerar só o princípio, o começo do que eu tenho pra fazer, só isso!

P/1 – Tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado e que você gostaria de falar?

R  – É, vamos ver! Vocês não perguntaram sobre a Aabb, sobre a associação, eu falei alguma coisa, mas não me perguntaram.

P/1 – Da Aabb?

R  – É.

P/2 – Então, fala pra gente!

R  – Tá bom, vamos começar. É uma situação delicada, né, mas eu tenho que colocar, para que as pessoas entendam, né? Porque existe um conhecimento lá na ponta, que não existe aqui. É como eu disse, por exemplo, desde, mais ou menos, 1982, eu entendia a Associação Atlética do Banco do Brasil, a Aabb, como um apêndice do banco, né? E hoje é mais do que isso. Hoje é aprovado pela diretoria de pessoas do Banco do Brasil, na pessoa do seu Sérgio Ragi, que é o diretor, e do nosso vice-presidente, que é o – meu Deus! – Oswaldo [risos] – Aí, pronto, quem contratou vocês lá? Vamos ver – Luiz Oswaldo, né? Sabe, essa é a importância do que representa a Associação Atlética do Banco do Brasil para esse contexto do Banco do Brasil. Então, disse certa vez, o presidente do Bradesco: “Olha, eu não quero ninguém do Banco do Brasil. Eu não quero funcionário, eu não quero nada. Eu só quero as Aabb”. Atualmente, são 1258 no país, a maior federação de clubes do mundo é a Aabb. Então, é o seguinte: aquilo é um salão de vendas, é uma coisa que a diretoria do banco já percebeu. A única coisa que eu quero em relação às Aabbs, é que os superintendentes e os gerentes de agências percebam isso, entendam que ali é um salão de negócios e que as pessoas que estão defendendo aquilo de graça, fora do horário, querem contribuir. Isso é o que temos que dizer.

P/1 – Olha, a gente agradece muito o seu depoimento, foi uma contribuição pro projeto, tá? Muito obrigada!

P/2 – Obrigada!

R  – Oh, tomara que esteja legal!

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