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História

“Não adianta você ficar com a sua história, você tem que contar”

História de: Luiz Carlos Moreira Lino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

Sinopse

O empresário Luiz Carlos Moreira Lino conta detalhes de sua infância no interior de São Paulo, fala sobre as tradicionais festas juninas, suas lembranças da Festa de Reis e seu trabalho na roça junto à família, ainda criança. Conta também como conseguiu um emprego em uma grande empresa e como passou de encarregado de produção até chegar à gerência e com o apoio de seus patrões acabou montando sua própria empresa.

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História completa

P/1 – Então, para começar Luiz, eu queria que dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Luiz Carlos Moreira Lino. Nasci em 28 de julho de 1954 em Álvares Machado. Estado de São Paulo. Região Oeste, próximo a Presidente Prudente.

 

P/1 – E toda a sua família é do interior?

 

R – Hoje não. Atualmente é bem dispersa. Mas basicamente estão na região ainda, de Álvares Machado até Rosana, no Pontal de Paranapanema. 

 

P/1 – E teus avós? Você se lembra deles?

 

R – Me lembro, me lembro mais dos avós paternos que foi com quem eu convivi. Os avós maternos quando eu nasci, fui embora para Rosana e eles ficaram em Álvares Machado. Não tive muito convívio. Mas me lembro muito bem. Meu avô paterno chamava-se Sinésio Moreira Lima e minha avó Ana Moreira das Neves. E materno é João Elias e Maria Cândida. 

 

P/1 – Os seus avós paternos, que são esses que você conheceu mais, eles nasceram no interior de São Paulo?

 

R – Não. Todos nasceram na Bahia. Os paternos nasceram em Feira de Santana e os maternos nasceram em Santana dos Brejos. 

 

P/1 – E você sabe um pouquinho da história deles? Por que eles vieram para essa região do interior de São Paulo? 

 

R – É o seguinte, na realidade o meu pai veio com 7 anos. Minha mãe veio com 2 meses. A princípio, quando eles vieram da Bahia, vieram para São Paulo. Aí chegaram em São Paulo, mudaram o destino e foram para o interior porque naquela época na região de Presidente Prudente a agricultura estava bastante em expansão. E eles foram lá e compraram terra. 

 

P/1 – Você disse que a região de Presidente Prudente estava em expansão.

 

R – Expansão na agricultura, né, hoje não é agricultura, é pecuária. Mas na época era agricultura ainda. Era algodão. Eu me lembro muito bem. Tenho muitos tios que tem terras lá, sítios. Algodão, hoje é tomate. E depois de lá nossa família, no caso meu avô paterno foi para Rosana, meu materno ficou. Que foi onde estava sendo fundada a cidade de Rosana. Que leva esse nome devido a filha de Sebastião Camargo, aliás, tudo lá hoje leva o nome da Rosana [riso]. Em Rosana, né?  Que é onde tem as usinas de Primavera e usina de Rosana. Aqui no Pontal de Paranapanema. E foram lá para Rosana que também as terras eram mais baratas. E estava se desenvolvendo. Tinha bastante incentivo. Dava-se terra. E eles foram trabalhando lá e agricultura. E foi lá que eu fui criado até os 18 anos.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho ainda para os teus avós, na Bahia o que eles faziam?

 

R – Aí eu não me lembro. Mas, não sei, deve ser na agricultura também. Porque eles vieram para cá para a agricultura.

 

P/1 – Você imagina o motivo que eles teriam saído de lá? 

 

R – [riso] Acho que aquela velha história que o pessoal diz: o cara vem para São Paulo porque lá se vende que São Paulo é o Eldorado, né? O pessoal acho que tinha essa mania, como até hoje ocorre. Eles vieram na época para morar na cidade. E acabaram indo para o interior. Porque o interior, na época da agricultura de São Paulo, era super desenvolvida em relação a outros estados. Mas…

 

P/2 - E pelo que você sabe eles não se conheciam? Porque tanto os maternos quanto os paternos vêm da Bahia?

 

R – Não. Exato, é. Eles foram se conhecer no interior de São Paulo. Em Álvares Machado, na região de Presidente Prudente. Lá que as famílias moravam próximas e foram se unindo e…

 

P/2 - E você sabe como seu pai e sua mãe se conheceram? 

 

R – [riso] Meu pai e minha mãe, não, esse detalhe eu não estou. Essa parte da história eu não me lembro [riso]. 

 

P/2 - [riso] É porque é muita coincidência, do mesmo local.

 

R – É que tudo isso aí sabe o que é? Poucas vezes que eu tive lá, e quando eu vou - como eu te disse eu sempre volto lá para ver a origem -, era mais esse negócio de roça. Tinha festas, bailes, de roça. Que eu vejo até as fotos deles antigas. O pessoal se unia através do final de semana. Ia para a missa, para a igreja, esses negócios. Então é onde acaba se juntando. Era vila, até o bairro que eu nasci chama-se Jangada, inclusive. E meu pai, o pessoal morava na Quinta Escola, que era o bairro. Quinta Escola, porque era tudo escolas na área agrícola, então tinha esse nome de bairro. E às vezes saía de um bairro ou de uma região para outra, o pessoal se conhece, se encontra. Eu acredito que tenha sido dessa forma que as famílias devem ter se encontrado.

 

P/1 – Você presenciou algumas dessas festas?

 

R – Ah, eu não, quando eu vim do interior, aos 4 anos que eu saí de Álvares Machado fui para Rosana, lá já era outra, estava desbravando. Então a gente estava sozinho praticamente. A cidade tinha três, quatro mil habitantes. Então não existia muito assim, ali já era a parte da minha vida já. Então não tinha, eles já estavam com uma certa idade.

 

P/1 – E esses avós que você conheceu bastante, os paternos. Como você descreveria seus avós?

 

R – Ah, meu avô, até olhando para ela eu estou lembrando aqui, [riso] a minha avó era negra assim. Negra. Baixinha, negra. E meu avô alto, de olhos azuis. Bem altão. Tanto que meus tios são altos. Baixinho nasceu meu pai... [riso] 

 

P/1 – E você [riso]. 

 

R – Eu tenho uma irmã inclusive, a caçula que eu falei, ela é bem moreninha. E eu tenho um irmão mais velho é alto, brancão. Então esse meu avô ele, como é que fala? Ele na época que trabalhava na agricultura lá, ele tinha uma das coisas que eu achava bacana nele, era o poder de gozador. Tipo gozador. Então a casa dele, ele tomava conta de um barzinho que ele tinha quando era moleque, né? Ele tinha uma pousada. Hoje a gente chama pousada. É pensão. Ele tinha uma pensãozinha e o pessoal vinha, o caminhoneiro, cavaleiro, o cara vinha da roça para ali. Bebia ali e dormia ali. Fazia refeição ali. E ele tinha uma salinha só para jogar truco. 

 

P/1 – [riso] 

 

R – [riso] Uma das coisas que ele morreu jogando truco. Então era uma particularidade dele que eu me lembro muito bem era essa aí. E era muito gozador. Pessoa assim bastante…

 

P/1 – Você frequentava bastante quando criança a casa desses avós?

 

R – Ah, eu não saía da casa dele. Aliás, a primeira vez que eu li a Bíblia na minha vida foi na casa dele. Eu estava começando, né, ele tinha muito essas coisas. Não era religioso, mas a minha avó era. A minha avó era beata. [riso] E foi lá que eu comecei a ler assim. Comecei a ler gibi, e tal. Lá que eu comecei. Me lembro até hoje que eu, a única vez que eu li a Bíblia, foi lá. Todo dia eu passava lá, porque tinha aquele costume de sair da minha casa de manhã e ia para lá. Passava na casa dele primeiro. Todo mundo passava. Meu pai tomava café, para pedir “bença”. E eu me lembro muito bem que a convivência com ele foi muito grande, com esse meu avô. 

 

P/1 – E tinha brincadeiras na casa dele?

 

R – Na casa dele? O que eles tinham muito lá era assim tipo festa junina. Festa de São João. Era o ponto alto. Aliás, toda a cidade, a vizinhança se reunia na casa dele. Festa de São João. Que aliás esse meu tio, o tio caçula, se chama João. E ele era muito assim de festa. Festa de São João para ele era a festa mais tradicional que ele fazia lá.

 

P/1 – E como era essa festa?

 

R – Ah, essa festa era tipo, quer ver? Acendia-se a fogueira de São João. Na véspera de São João fazia fogueira. Chamava todo mundo e com grande queima de fogos. Como é hoje, né? E assar batata, fazer quentão, fazia quadrilha. Tinha um, lá chamava terreiro, aqui é quintal. Tinha um terreirão grande assim que aquilo usava para café e também para a molecada toda. E lá que fazia quadrilhas, a gente brincava bastante. Isso moleque, essas eram as lembranças que eu tenho. 

 

P/1 – E tinha música ao vivo?

 

R – Não. Tinha assim pessoas... Aquele tempo aliás era só música ao vivo. Era assim tipo sanfoneiro. Eu me lembro até o nome do sanfoneiro. Era um nome bem pitoresco: João Parafuso [risos]. 

 

P/1, P/2 -  [risos] 

 

R – João Parafuso. Então tinha bastante. E uma coisa tradicional que tinha lá bastante era Folia de Reis. Que eu acho até hoje que ainda tem. E a mesma família ainda deu continuidade a essa tradição. Isso é uma das coisas que eu me lembro assim de moleque.

 

P/1 – E como era a Folia de Reis? Tinha uma época do ano que eles passavam?

 

R – É, o mês de…

 

P/2 - Janeiro.

 

R - ...começa em dezembro e termina em meados, 6 de janeiro. Acho que era. E eles iam de casa em casa pedir as prendas. E cantavam, agradeciam as prendas, iam para as casas. Ia aquele vestido com máscara e pessoal com viola. Outros com sanfona. E no término dessa, eu me lembro muito bem que a casa da família que fazia a Festa de Reis era em um sítio que inclusive eu roubava bastante caqui e pera. A uns três, quatro quilômetros da cidade. Chamava Rosalvino. Esse cara já faleceu. Eu conheço o filho dele até hoje. E o término da festa era lá inclusive. E fazia aquela macarronada com frango dentro. Tudo à moda bem caipira mesmo. Aí terminava a festa ali nesse sítio. E todo mundo da cidade ia para esse sítio nesse dia. Então era um negócio muito bacana.

 

P/1 – Esse grupo de Folia de Reis pousava nas fazendas, nas casas?

 

R – Não. Eles iam de casa em casa. Não pousavam. Porque era cidade pequena então eles saíam, era o sítio. Passa em um sítio, no outro sítio, chegava na cidadezinha. Aí ia de casa em casa. Isso o tempo todo. Durante o dia eles iam dormir. Mas isso era só à noite. Mas aí de casa em casa até terminar, chegar o dia 6. Então terminava a festa e encerrava com essa grande confraternização.

 

P/1 – Você disse que aos 4 anos se mudou para Rosana?

 

R – Isso. Em 1958.

 

P/1 – Você não se lembra da tua infância então nessa outra casa?

 

R – Ah, não. O que é que acontecia? Quando eu estava em Rosana às vezes vinha passar férias nesse meu avô. Mas era só as férias de julho. Eu me lembro como hoje. Não vinha em final de ano porque Natal a gente ficava em Rosana. No mês de julho nós pegávamos um caminhão, estrada de terra, aquele barro. E vinha no caminhão 200 quilômetros. De Álvares Machado à Rosana dá 201 quilômetros. E aí a gente ia poucas vezes. Então a convivência era muito pouca.

 

P/1 – E em Rosana, vocês foram morar em uma casa, em um sítio?

 

R – Ah, não. Foi morar em uma casa. Na cidade mesmo.

 

P/1 – Na cidade?

R – Casinha de madeira.

 

P/1 – Como era essa casa?

 

R – Essa casa era uma casinha simples de madeira e dois quartos, sala, cozinha e tinha uma tulha. Chama tulha, né? Onde se guarda milho e tal, essas coisas. E meu pai não gostava muito de agricultura. A gente trabalhava na roça e meu pai tinha uma carroça. Ele transportava milho. A gente pegava a carroça, ia até o Mato Grosso. Eu, final de semana quando não estava engraxando sapato, pegava, trazia e atravessava a balsa com a carroça, ia na fazenda que hoje é dos Abdala. Aquele tempo era do Auro Moura Andrade. Foi loteada da J. J. Abdala, uma coisa assim. E aonde eu ia é barragem hoje. E a gente buscava mexerica, laranja, que o Estado de São Paulo não tinha devido ao cancro cítrico. Tinha cortado tudo. Então aquilo valia uma fortuna. A gente atravessava a carrocinha, trazia a carrocinha cheia. E ia vender nos campos de futebol. Tinha jogo, tem até hoje futebol. O joguinho lá dos domingos. Ficava, vendia lá. Vendia mexerica e quando sobrava pegava a carrocinha na segunda, terça-feira e ia para o sítio trocar mexerica em galinha, porco, aquele negócio. Fazer rolo, né? E essa era…

 

P/1 – Essa era atividade do seu pai?

 

R – Não. Meu pai segunda à sexta. Final, quando a gente trabalhava na roça de segunda a sexta, sábado e domingo era livre. Ia trabalhar por conta. Aliás, tinha uma tarefa muito importante que o pessoal comenta até: “Ah, criança, trabalhar não sei o quê.” Se não trabalha vira bandido. Eu tenho, graças a Deus, eu nasci trabalhando e para o meu sustento. Desde garoto, minha mãe ensinava a gente: “Tem que trabalhar! Tem que trabalhar.”  Trabalhava na roça para ele até sexta-feira. No sábado a gente ia colher mamona, colher amendoim e vender. E o cara que eu vendia, eu estive lá, ele está vivo até hoje, que é o fundador, um dos fundadores da cidade. Quando a Camargo Corrêa esteve lá abrindo a cidade, ele chama José da Silva. Esse cara é um cara antigão. Uns 90 anos. E a gente trabalhava para a gente. Então engraxar sapato, ou vender mexerica, qualquer atividade. Você tem que fazer para comprar coisa para a gente. Ou roupa…

 

P/1 – A partir de quantos anos você começou a trabalhar na roça ajudando o pai?

 

R – Para dizer a verdade eu estava ainda no ginásio. Eu não estava nem no ginásio. Porque quando você não pode pegar no pesado na roça, você fazia trabalho mais leve. Que é colher mamona, a minha mãe fazia abanar café. Eu não posso abanar café o que é que eu fazia? Quando ela fazia a derriça, daí o café quando fazia a derriça, caía o café e a gente ia para aquelas chácaras em baixo do pé de café colher o que sobrava. E vender para o próprio dono [riso]. Esse José da Silva. Joaquim Silva, desculpa. Joaquim Silva, né? Esse Joaquim Silva que é um português que a gente vende, colhia a própria sobra [riso] e vendia para ele, entendeu? Aos sábados e domingos. O domingo até o meio-dia, uma hora e pouco. Depois ia para o campo jogar bola. E como é cidade de rios e praias a gente também tinha aquela facilidade de às vezes ir para a beira do rio. Ter um lazer de criança mesmo do interior.  De roça. Até os meus 18 anos foi isso.

 

P/1 – Quais são os rios que passam ali naquela região?

 

R – É, os rios são dois. É que faz divisa com Paraná, Paraná e São Paulo é o rio Paranapanema. Uma usina de Rosana. E do lado direito descendo é o rio Paraná. Faz divisa São Paulo, Mato Grosso. Aí os dois se cruzam e continua, aí o Paranapanema perde o nome e continua rio Paraná. Aquela foto que eu tirei, uma foto até muito bonita lá. O bico do Estado assim. Você vê os três Estados. E hoje é uma cidade turística. Vive da barragem. Vive de pousadas, mas é uma atividade e agropecuária. Não tem mais roça. 

 

P/2 – Por que como era a cidade de Rosana quando você foi para lá?

 

R – A cidade para você ter uma idéia era tão pequena, tinha uma rua só. A Camargo Corrêa loteou. Ela fez quadras. Ela tentou planejar. Planejou a cidade, só que não desenvolveu. Aí então ficou com quadra. Então você pegava aquelas quadras e plantava algodão. Aquilo era da Camargo Corrêa. Tinha um gerente da Camargo Corrêa, uma pessoa, um administrativo, um escritório lá, você falava: “Eu quero plantar nessa quadra aqui.” Chamava de quadra.  Pegava aquela quadra, vamos plantar naquela quadra. Planta amendoim, outro planta alguma coisa. Então era tudo de graça. Aí quando foi que o negócio foi crescendo, aí que se foi tomando espaço. E a cidade pequenininha. Tudo de madeira, as casas antigas. Hoje já não tem mais quase. Mas eram todas de madeira as casas. E a cidade como ela divide bem no meio do alto São Paulo aqui. Paraná é um estado mais alto que São Paulo. Mato Grosso é mais baixo. Então quando você chega, é, eles fizeram uma rua que sai quase que de um rio no outro, assim. Então a cidade está como daqui naquela linha do trem é o rio. Do outro lado você anda mais uns cinco quilômetros tem outro rio, entendeu [riso]? Então é até uma curiosidade. “Ah, a cidade não vai crescer.” Se crescer é Mato Grosso, se crescer para o Paraná, para [riso]. Não tem para onde crescer, percebe?

 

P/1, P/2 - [risos] 

 

R – Ela já foi o maior município do Estado de São Paulo. Depois que dividiu em três municípios. Por causa da barragem a Cesp [Companhia Energética de São Paulo] foi lá e loteou tudo. A Camargo Corrêa perdeu a concessão e hoje ela é basicamente administrada pela Cesp. A Cesp que fez as usinas. Hoje não. Hoje está mais americanizado, venderam tudo para os americanos. Mas a cidade era bem pequenininha. Aí meu avô me conta as histórias da cidade, que então todas as casas você tem um chiqueiro de porco lá no fundo. E isso até um tempo atrás, 10 anos, 12 anos, isso era comum lá. Então esse chiqueiro de porco, o cara colocava o porco lá e a noite – isso meu avô contava, meu pai contava muito para a gente – e a noite ia lá ver, cadê o porco? A onça comeu, entendeu?

 

P/1 – [riso] 

 

R – E quantas vezes…

 

P/1 – A onça?

 

R – É, onça. As onças comiam os porcos no chiqueiro. Isso é a história. Eu nunca vi [riso], mas eles contavam essa história com bastante frequência. Quando eles chegaram para desbravar a cidade, realmente a cidade era mato, mato mesmo. Inclusive quando você vai de Presidente Prudente para essas cidades, entre Teodoro Sampaio e Rosana, Teodoro Sampaio já perto do Pontal também, tem a Serra do Diabo que é a reserva de Mata Atlântica. A única reserva de Mata Atlântica no interior de São Paulo é lá, então é preservado. O Estado fez um parque estadual e você passava por dentro dele. Então o nosso maior medo era passar por dentro. Eu até quando estive lá com a minha mulher e minhas filhas fiz questão de parar o carro. Eu tenho essas fotos guardadas em casa. Tirar foto. E ela é bonita quando está florida porque é tudo ipê amarelo, o morro assim. É a coisa mais linda. Então é uma imagem assim, fantástica. E a estrada corta bem dentro dela. Uma reserva muito bonita. E lá ele parava com medo. O caminhão parava: “Ah, tem onça, não sei o quê” [riso]. Medo de onça . Então foi a época que foi desbravando. Hoje não existe mais nada disso.

 

P/1 – E na época da sua infância, qual era o lazer na sua cidade?

 

R – O nosso lazer, por exemplo, como a gente trabalhava bastante assim com animal, com cavalo, uma das coisas que a gente fazia muito, o meu irmão mais velho, o Osvaldo, era briga de galo. Final de semana fazia aposta em briga de galo. Eu gostava mais de correr. Apostar corrida de cavalo. A gente tinha bastante animal que ia para arar a terra, trabalhar a terra. Então a gente fazia muitas apostas. E jogar bola. A cidade é assim, ó. Então ela faz um biquinho. Tem a cidade baixa, parte alta e a parte baixa. Uma vez por ano a gente fazia, no ano novo tinha o casado e o solteiro. E depois tinha a cidade baixa contra a cidade de cima. A garotada. Aí era onde tinha as brigas, né?

 

P/1 – [riso] 

 

R – Então eram lá [riso]. Quando não estava jogando bola ou brigando, estava correndo de cavalo. Ou ia ver o rio na beira. Então tem praia, tem tudo. Levava os cavalos para dar banho e lá você ficava. Você tinha uma vida assim bem, bem rústica. Na água pescando. Quer dizer, pescando nem tanto que a gente era muito garoto. Mas bem assim do interior mesmo. E não tinha muito esse negócio de pipa. Tinha muito pouco. Mais era brincadeira rústica. Jogar bola mesmo e nadar no rio.

 

P/1 – E uma família de muitos irmãos, Luiz?

 

R – Ah, nós somos sete irmãos. 

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – O mais velho, o Osvaldo. Esse mora em Curitiba. Ele morava até pouco tempo nos Estados Unidos e mudou para Curitiba. E tem o mais novo, também mora em Curitiba. E tem mais uma irmã em Mogi-Guaçu, a Maria. Tem a Ilda que mora em Guarulhos e tem a Roseli, solteira, que mora com a minha mãe ainda hoje. E o Jaime que mora em São Paulo. Um dos mais novos.

 

P/2 - E a sua mãe mora aonde? 

 

R – Não, mora em São Paulo, Jardim Tremembé até hoje. Desde que ela veio para cá na mesma casa [riso]. 

 

P/1 – Você falou um pouco do seu pai, do trabalho na roça, e da sua mãe? Que lembranças dela você tem ainda na infância?

 

R – A minha mãe, aliás, trabalhou muito mais na roça do que ele. Nós aprendemos a trabalhar com ela. Porque aí quando ele saiu, ele saiu da roça e começou a mexer com carroça, montou um açougue. E ela continuou na roça. E ela que levantava: “Ah, trabalhar na roça.” E a gente trabalhava todo dia. Ela trabalhava na roça.

 

P/1 – Como que era um dia típico da sua mãe naquele tempo?

 

R – Bom, levantar cedo, fazia comida. A gente tomava café. Para a roça. Quando era 9 e meia, 10 horas, almoçava. Ela trabalhando na roça. Isso a roça era pertinho de casa, porque a cidade era pequenininha. Como eu te falei aquelas quadras era tudo concessão da Camargo Corrêa. E a gente saía e ia trabalhar na roça. E ela, quando almoçava, 2, 3 horas era o café. A gente ia descansar. Aquele sol a pino ninguém aguentava. Você, né, aquele típico aí é hora da sestinha, né? Aí você descansava. 4, 5 horas pegava no batente novamente. 6 horas da tarde, 5 e meia, 6 horas tomava banho para ir para à escola à noite. E ela na roça com a gente o dia inteiro. Aí ia lavar roupa à noite, final de semana, essas coisas todas. Domingo de manhã ir na missa. Porque isso era lei [riso]. E depois jogar bola. Ou fazer a atividade antes disso. Ia vender alguma coisa para…

 

P/2 - E todos os teus irmãos iam juntos para a roça? 

 

R – Todos. Todos foram criados. Aliás, tem esse meu irmão que mora em São Paulo, o Jaime, ele tem uma memória fantástica. Ele lembra com detalhe tudo isso. Eu nunca vi coisa igual. Ele lembra das pessoas, o que foi fazer. Lembra do animal, aquela égua, aquele cavalo. Lembra, ele tem uma memória assim. Quando a gente se junta a gente começa a conversar. Ele cita isso com tanta clareza: “Aí eu falei assim.” E foi mais esse meu irmão mais velho, eu e esse Jaime, teve essa convivência. Porque os outros vieram para cá pequenos, já foram praticamente criados aqui. A Roseli, o Valter, a Ilda. Os três mais novos praticamente foram criados aqui na cidade já. 

 

P/2 – Com que idade você veio para São Paulo?

 

R – Eu vim com 18 anos.

 

P/2 – Veio você ou veio a família inteira para cá?

 

R – Não, foi o seguinte: meu irmão Osvaldo veio um ano antes com meu tio João, esse que, filho do Sinésio. E aí um ano depois, no dia 9 de janeiro de 1972, não, 1972 quando eu terminei o ginásio. 9 de janeiro de 1973, à noite a gente veio. Mas cheguei dia 10 de janeiro de 1973 aqui em São Paulo. Com 18 anos. Eu só tinha o ginásio.

 

P/1 – Tá. E só voltando um pouquinho, quando você entra na escola? Com quantos anos?

 

R – Lá no interior?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, eu não me lembro não. 

 

P/1 – Não?

 

R – Mas, era bem acima de 7 anos. Não era como hoje. O pessoal de sete anos já sabe falar. 

 

 P/1 – Hum, hum.

 

R – Eu por um fato curioso, que eu vim ver televisão na minha vida aos 16 anos de idade. Em 1970. Na Copa de 70. Nunca tinha visto televisão na minha vida [riso]. 

 

P/1 – [riso] 

 

R – Entendeu? Então eu até contei isso para várias pessoas, o pessoal não acredita. “Ô, você é um cara xucro mesmo” [risos]. 

 

P/1 – E você foi ver televisão em que lugar? 

 

R – Foi em um... Como é que chama? Em um bar. Esse bar existe até hoje na cidade. Uma família que veio do Paraná até. Eles tinham um bar, eles compraram a televisão Colorado RQ [riso]. Eu lembro até a marca. Aquilo chuviscava mais que... [riso] E a primeira vez que eu vi foi na Copa do Mundo.

 

P/1 - Você lembra algum jogo?

 

R – Eu me lembro. Lembro Brasil e Itália. Foi quatro a um. Acho que foi? Se não me falha a memória. Foi Brasil e Itália, Brasil e Uruguai, Brasil e Inglaterra, foi um a zero. Acho que foi. Uma coisa assim. Mas isso foi a primeira vez que eu vi uma televisão na vida, né? [riso]

 

P/2 - Você acha que era a única que tinha na cidade?

 

R – É. Não. Foi a única. A primeira que chegou. Aí todo mundo comprou. Aí meu tio que até hoje é um fazendeiro muito abastado lá, ele comprou. A família toda teve. Eu não tive. Eu saí de lá sem. Vim ter televisão aqui inclusive. Aquilo para a gente era uma coisa de outro mundo. E aí me lembro até a primeira novela que passou: Irmãos Coragem. Ia assistir na farmácia. Era um, um japonês que tinha uma farmácia. E aí o muro dele era baixinho, a gente sentava no muro para ver Irmãos Coragem, até [riso]. Eu assisti à novela Irmãos Coragem. Então são fatos assim que não me arrependo. Que a convivência de infância foi muito mais gostosa. 

 

P/1 – Lógico.

 

R – Mais salutar, mais saudável e…

 

P/1 – E da escola você lembra alguma coisa? Dessa escola que você estudou no interior?

 

R – Ah, da escola? Lembro bastante dos professores. Assim da vida da gente, tinha bastante prática de esporte. Jogava-se bola todos os dias. Então times, campeonatos internos. Essa escola é onde hoje é a Câmara Municipal da cidade hoje. É de madeira até hoje. Também trabalhada.

P/1 – Você tinha uniforme?

 

R – Não, não tinha nada disso, não. Era bem rústico. Depois, isso aí veio com o tempo. É coisa de roça mesmo. Ia o pessoal da roça, nas carrocinhas. Estudava. A gente fazia campeonato a cidade contra o sítio. Aqueles negócios de interior. Então, a cidade contra a fazenda, tinha uma fazenda lá. Era uns criolão do tipo do, do time lá da…

 

P/2 - Senegal.

 

R -...do Senegal assim. A gente apanhava desses caras tanto [riso]. Apanhava na bola e na briga [riso]. E era uma fazenda. E essa fazenda até hoje quando eu passo lá eu lembro dessa fazenda. A gente ia colher algodão lá. O caminhão de bóia-fria, a molecada, o cara enchia o caminhão, marmitinha. Passava o dia lá colhendo algodão dos caras. Depois ia jogar bola contra eles na cidade, aí dava aquelas briga, entendeu? E eles tinham uma fazenda, eles eram muito grandes. A gente trabalhava para eles inclusive. A molecada da cidade se reunia toda para ir colher algodão. E era…

 

P/1 – E vocês ganhavam algum dinheiro com isso?

 

R – Ah, sim. Ganhava.

 

P/1 – E dava para fazer muita coisa com esse dinheiro? [riso]

 

R – [riso] Você comprava, a grande, naquela época, eu estou olhando o tênis dele [risos]. A grande, como é que fala? Motivação para se trabalhar era você comprar um kichute. Um kichute. E depois é que você veio comprar aqueles tênis do Paraguai. Uma calça Lee, que aquilo, você andava com ela até ela apodrecer. Calça Lee e um kichute, entendeu? Se trabalhava para isso basicamente. Que era coisa cara. Objeto do desejo para aquela idade, para aquela localidade e para aquela situação. 

 

P/1 – E as diversões na adolescência? Tinha baile? Como era?

 

R – Tinha. Isso tinha bastante. Tinha um grêmio. Esse grêmio é hoje um clube muito lindo lá na cidade. Aliás, um clube finíssimo. E naquele tempo o clube, chamava grêmio. Não tinha clube ainda. Então tinha um grêmio lá e nesse grêmio o que a gente fazia? Todo domingo à tarde tinha baile. Todo domingo à tarde. Isso aí era sagrado. E só tinha isso aí e um cinema. Mas o cinema depois fechou. Com o tempo fechou. E a diversão era, isso já na fase de adolescência e pré-adolescência.

 

P/1 – Que tipo de música tocava nesses bailes?

 

R – Olha, eu vou falar uma coisa: eu lembro de uma música, eu estava lembrando de uma música esses dias, lembrando não. Minto. Tocando no rádio. Estava passando lá, a noite às vezes dá a insônia eu procuro uma estaçãozinha. Estava ouvindo uma música lá, né? E que mais se tocava é, eu não sei o conjunto. The Fevers [riso]. Tocava essa música. Eles fizeram versão de músicas de Creedence, daquele pessoal todo da época. E tocava muito essas versões no bailinho. Esse tipo de música e Roberto Carlos também bastante. E Jerry Adriane, Wanderley Cardoso, na época da gente esse pessoal tocava bastante. E isso aí. Ah, detalhe da quermesse. Que aliás tem até hoje essa quermesse e é famosa essa quermesse deles. A quermesse tem que arrematar o frango, aquele negócio todo. Então faz aqueles leilões de frango assado, o cara vem. Tem jogo de tômbola. Como se faz aqui, mas naquela época era interessante. Tinha o correio elegante.

 

P/1 – Serviço de alto falante.

 

R – Alto falante e tal. “Ah, o cara de amarelo oferece para a mulher de vermelho.” E tal, não sei o quê, não sei o quê. Aí vinha entregar o correio elegante. Coisa tipo do interior mesmo. Aquela coisa mais bem típica. Não existe isso em lugar nenhum. Hoje não existe. E a gente já na adolescência tinha muito disso de participar das festas. Então uma das segundas atribuições nossas era sair na carroça pelos sítios pegando as prendas. Pegar as galinhas, porcos. O cara deu um porco, o cara falava: “Não, esse porco quem deu foi Fulano de Tal, o porco.” Assava o bichão lá e fazia um leilão dele e arrecadava o dinheiro para a igreja. Era muito bacana isso aí.

 

P/1 – E os namoros também aconteceram nesse tempo?

 

R – É, aconteceram na igreja. Tudo era a igreja. A igreja era o ponto de convergência de todas as pessoas, domingo de manhã na missa. A missa dos jovens, a missa dos velhos às oito, [riso] dos jovens às 11. E acabava, aí ia jogar bola. Aliás, esse padre hoje ele é um parapsicólogo. Padre José Sometti. Ele esteve fazendo palestra aqui em São Paulo.  Eu me lembro muito bem dele, viu? E ele que fazia tudo. Apitava o jogo. Ele fazia tudo com a gente, com a garotada lá.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Jogar bola, bebia. Era um cara totalmente diferente dos padres convencionais [riso]. 

 

P/1 – [riso]

 

R – E é muito gostoso a convivência.

 

P/1 – E durante esse tempo que você morou no interior você trabalhou apenas na roça? Não teve emprego?

 

R – É, eu tive um emprego de um dia só antes de vir para São Paulo. Um dia só [riso]. 

 

P/1 – [riso] E do que foi?

 

R – Eu trabalhava na roça, aí eu estava, eu tinha feito 18 anos. Bom, com 18 anos eu terminei o ginásio. É um atraso muito grande. E aí ia começar essa licitação para a barragem, para fazer a usina. Que é hoje a usina de Porto Primavera. E todo mundo foi lá fazer ficha e eu não deixei registrar a minha carteira. Minha primeira carteira. Aquilo para a gente era. Aí colocou a gente no caminhão e levou lá para o Mato Grosso. Roçar mato. Mas só foi um dia também [riso]. Eu vim embora. Trabalhar na lavoura eu trabalho para mim, né? Eu pensava assim: “Eu vou trabalhar para os outros?” E aí foi só um dia. Foi o único emprego que eu tive lá e nem fui registrado. Depois que eu vim para cá, quando eu vim trabalhar na indústria aqui.

 

P/1 – Como foi essa viagem para São Paulo? Você veio de quê? De ônibus?

 

R – Eu vim de ônibus. É, eu vim de ônibus. E aí foi até curioso. Você sabe aquelas malas de eucatex, duratex, sei lá? Eu vim com uma mala daquela. Aí quando eu desci na rodoviária, a rodoviária antiga de São Paulo ainda. Aquela que está no centro na, no centro ali perto da…

 

P/2 – Glicério.

 

R – Como é que chama?

P/2 – É Glicério?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Não é Glicério.

 

R – Que aliás era a segunda rodoviária mais linda do mundo. Ninguém sabe disso. Que tem aqueles acrílicos. Só tem uma nos Estados Unidos. Ninguém sabe desse detalhe. Ela era muito linda. Hoje é um shopping. Muito linda essa rodoviária. Eu desci lá. Eu parei e fiquei extasiado olhando assim, né? Parei, o meu tio: “Vamos embora, moleque. Vamos embora. Os cara vão te atropelar aí” [riso]. Aquele movimento todo. Foi quando eu vim para cá. Foi o dia que eu cheguei eu me lembro, o dia 10 de janeiro. 

 

P/1 – E você foi morar com quem?

 

R – Fui morar com uma tia. Eu morei um ano e pouco com uma tia depois fui morar em pensão. Eu e meu irmão. 

 

P/1 – Em que lugar de São Paulo?

 

R – Em Santana. Toda a vida eu morava em Santana. Eu morava em uma pensão. Era um pessoal até do interior. Lá tinha gente de todo lugar, tinha chileno, tinha argentino. E do Estado de São Paulo, do Brasil. Tinha de todo lugar. Mineiro, paranaense, era o que mais tinha. A gente morava lá. Aqui na Rua da Coroa, número 35. Do lado da rodoviária ali. Naquele tempo não tinha a rodoviária. Onde é a rodoviária era o campo de treinamento da Portuguesa. A gente treinava contra a Portuguesa, inclusive, e onde tem um ginásio hoje, onde era o outro campo, hoje é um hotel flat muito grande. E a gente jogava bola ali. E eu fiquei nessa pensão muitos anos. Até minha família, a gente ir buscar a família para cá. 

 

P/1 – Foi nessa ocasião que você veio para cá que você conseguiu um primeiro trabalho?

R – Foi.

 

P/1 – Do que foi?

 

R – Ajudante de produção.  E interessante que eu era ajudante de produção, e sabe quando você quer trabalhar bastante? Qualquer atividade, qualquer coisa que você vai fazer dá a impressão que existe um boicote. Alguém fala: “Pô, o cara chegou com muita sede. Ele quer, né?” E eu morava na pensão no número 35 e essa empresa que eu trabalhava, Oxylin, hoje é Akzo Nobel, é lá em Cumbica, era na Rua Voluntários da Pátria, 457. Hoje não existe mais essa empresa. E é do lado, assim. É como atravessar aqui na esquina, ali. Então tinha muita hora extra. Embalar tinta. Meu negócio era embalar tinta. As latas, tinham as latas de 18 litros. Embalava. E não ganhava por produção. Mas eu queria ver aquele tanque de tinta descer. E sair. Quando era 6 horas da manhã encostava o caminhão. O caminhão, o Manoel Rosa que é um italiano, vinha com o caminhão lá, rolava o tambor sozinho e colocava no caminhão, ia embora entregar as tintas. E aí um chefe meu falou: “Pô, você quer fazer hora extra? Só vejo você trabalhando bastante.” “A que horas?” “Três horas da manhã dá para você estar?” Três horas da manhã eu estava lá embalando tinta. “Dá para você ficar até meia-noite?” “Dá.” “Dá para você dobrar?” “Dá.” E eu fui trabalhando bastante. E eu fiquei... “Eu estou cansado disso. Eu quero estudar, trabalhar.” Aí um chefe me chamou e falou: “Olha, faz um teste aqui no escritório.” Fiz o teste de programação de produção. “Ah, passei?” “Passou. Vamos trabalhar de programador de produção.”  Aí eu comecei a tomar conta da produção. Em fazer o controle de produção, e como o serviço era só durante o dia, à noite eu ia embalar tinta ainda. Eu falava: “Ah, vou fazer hora extra.” Porque hora extra, e no final de semana o vigia saía, morava dentro da empresa falava: “Luiz, olha - lá na pensão -, amanhã eu estou de plantão lá. Você não quer fazer um bico para mim?” Eu falei: “Eu faço. O que é que você vai fazer?” “Ah, eu vou lá para o Jóquei jogar, né?” [riso] E eu cobri o lugar do cara ainda. Então eu ganhava um real e, um cruzeiro, sei lá qual o nome da moeda. Eu lembro até hoje esse valor: 1,24 por hora. Então eu acabava ganhando bastante. Eu trabalhava demais. Mas depois comecei a estudar no ano seguinte, aí já começou, eu comecei a fazer o colégio, né? Em Santana. Eu perdi a vaga quando eu fui para o interior. Aí vim fazer aqui na Rua Alarico. No Alarico Silveira.

 

P/1 – Tá. 

 

R – Que aliás leva esse nome em função de um, do, que ele é pai de uma escritora. Da, como é que ela chama? Que escreveu “A Morte no Fundo do Poço”, se não me falha a memória. Eu vim estudar nesse colégio. Eu terminei o colégio aí.

P/1 – E quanto tempo você fica nessa empresa?

 

R – Essa empresa eu fiquei, 1973. 1973-1978.

 

P/1 – Bastante tempo.

 

R – Foi. Então eu tive quatro empregos na minha vida. 1973-1978.

 

P/1 – Depois?

 

R – Aí eu pedi demissão desta empresa, fui trabalhar em uma empresa, na Oxford. Hoje é do Grupo Renner. Como programador de produção. Fiquei mais cinco anos lá também. Aí fui trabalhar em uma outra empresa também de tinta, americana. Aí já fui como supervisor. Tomar conta da fábrica, PCP, Faturamento, Expedição, Almoxarifado. Fui tomar conta da empresa toda. Era empresinha pequena, então eu tomava conta de tudo. Essa empresa existe até hoje. É de um, o dono é cubano. A empresa é americana, mas sociedade com um cubano. E eu fui trabalhar para esse cara, até foi lá onde eu conheci a dona patroa [riso]. A esposa.

 

P/1 – Ah, é? Conta um pouquinho então. Eu ia perguntar sobre ela, como vocês se conheceram…

 

R – Minha mulher era química lá. Minha mulher é formada em Química. E lá foi onde eu conheci minha esposa.

 

P/1 – E aí?

 

R – Mas lá eu fiquei dois anos e pouco. Lá eu saí pra vir para o Aché.

 

P/1 – Antes da gente chegar no Aché, só para saber um pouquinho ainda desse casamento, você ainda estava morando na pensão?

 

R – Não, não. A minha família já estava aqui.

 

P/1 – Sua família chega quando aqui?

 

R – Estava todo mundo aqui. Aí a gente já tinha alugado uma casa grande em Santana. Uma casa de um judeu lá. E um aluguel caríssimo na época. Aluguel naquele tempo era super, mas a família era muito grande. Então cada um trabalhava e a gente dividia o aluguel. Uma casa enorme. Aliás, essa casa foi onde eu realizei o casamento das minhas irmãs. Então fazia festa lá mesmo. Era bem tipo interior mesmo. Na Rua São Jerônimo em Santana. Ali perto do, bem ao lado do Campo de Marte. E depois que a minha mãe foi mais para o Tremembé. A gente morava tudo, foi um casando, outro casando e quando foi nessa, quando eu saí dessa empresa lá de São Bernardo do Campo, do Renner, eu vim trabalhar nessa empresa em Cumbica. E foi aonde eu conheci a minha esposa. E aí ela trabalhando, trabalhando, a gente, né?

 

P/1 – Você se lembra do dia do casamento? Teve festa?

 

R – Teve. No dia do casamento foi 21 de janeiro de... Minha filha tem 13? Põe menos 13, dá quanto? De 1989 mesmo. É. 21 de janeiro de 1989.

 

P/1 – Casou na igreja?

 

R – Não, casamos só no Civil.

 

P/1 – E teve festa em casa?

R – Teve festa na casa do meu sogro. Meu sogro fez a festa. Eu não tinha nem onde morar. Fui morar na casa do meu sogro. 

 

P/1 – E onde é que você foi morar depois?

 

R – É. Eu fiquei uns dois, três meses morando na casa do meu sogro, aí arrumei uma casa de um colega meu. Um colega muito bacana. Ele foi para o Japão e me cedeu a casa. “Ah, mora aí. Você não precisa pagar a casa. Toma conta da minha casa.” Eu fiquei morando na casa dele. Eu tinha comprado um apartamento, e é aquele negócio, falta de orientação. Comprei o apartamento no escuro. Aqueles apartamentos de leilão, né? Comprei no leilão e tinha um cara morando lá dentro. E o cara não saía. Eu casei e o cara não saía. Depois eu consegui tirar o cara e fui morar nesse apartamento. Saí dessa casa e fui morar nesse apartamento. Em Guarulhos. Aí eu já estava quase que já entrando no Aché.

 

P/1 – E como você entrou no Aché?

 

R – No Aché foi o seguinte: no Aché estava contratando supervisor de segurança do trabalho. Que atualmente é a função de técnico de segurança do trabalho. Eu tinha feito esse curso na Fundacentro. Lá pelo Ministério do Trabalho. Na Fundacentro, em 1978. Eu sou uma das primeiras turmas. E aí eles estavam precisando dessa função. Eu desempregado, a mulher, tinha que casar. A mulher só trabalhando, era solteiro, era casado já nisso. Aí eu peguei e vi um anúncio no Aché recrutando supervisor de segurança no trabalho. Fui lá, entrevista. Passei. E fui cuidar da área de segurança no trabalho.

 

P/1 – Você se lembra de seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Deixa eu ver. Primeiro dia de trabalho? 

 

P/1 – Se não lembrar…

 

R – Eu não me lembro muito, é, eu me lembro em parte do dia da integração. Que aliás, depois quem foi fazer essa parte era eu. Como eu era técnico de segurança eu fui apresentado para o engenheiro de segurança e para o outro técnico de segurança e me colocaram em uma sala lá. Ah, lembrei! Quando me colocaram em uma salinha atrás do Pabx, hoje é o CPD lá, uma salinha pequena, mas só. Falaram: “Ó, o teu serviço é esse. Você vai atualizar esse livro aqui.” Aí chegou o chefe, ele falou: “Ó, você vai para a portaria. Vai ficar na portaria. Você fica seis meses na portaria olhando para você ver se precisa melhorar alguma coisa.” Eu falei: “Olha, não aguento isso não.”

 

P/1 – [riso] 

 

R – Eu não estava acostumado com esse negócio. Pegava no batente, pegava, e nessa empresa que eu trabalhava era bastante dinâmica. Eu tinha sido encarregado de produção. Uma atividade bem dinâmica. E aí fui trabalhar com isso. Aí eu falei: “Olha, não dá.”Aí ele falou: “Então pega. Vamos passar esse serviço para você.” Atualizar todos os livros de Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes] da empresa, tudo. Aí escrevi. Tenho até calo, tenho até calo até hoje. De tanto escrever. Fiquei escrevendo 6 meses. Atualizando os livros. A parte de segurança e tal. Aí e nisso eles me passaram a parte de segurança patrimonial. Que é um fato curioso quando eu entrei no Aché. Quando eu entrei no Aché era terceirizada. Ela estava desterceirizando. Não sei se esse é o termo correto. Se existe isso. Mas ele estava desterceirizando. Aí eu entrei nessa fase. E uma das tarefas era montar segurança patrimonial própria. Orgânica que se chama hoje, né? Orgânica.  

 

P/1 – Você poderia explicar melhor no que consistia esse seu primeiro trabalho no Aché? O que era a segurança patrimonial, enfim?

 

R – Então. Na realidade eu entrei para cumprir a legislação, que é a segurança do trabalho. Hoje, a empresa dependendo do grau de risco, atividade, ela tem que ter o enfermeiro do trabalho, o técnico de segurança, o engenheiro de segurança. E isso até hoje, a legislação é assim ainda. E eu entrei para cobrir essa vaga. Só que na maioria das empresas hoje, e antigamente mais do que nunca, o técnico de segurança do trabalho cuida da patrimonial. E leva por osmose, [riso], ele acaba ficando com a patrimonial. E comigo lá não foi diferente. Aí me deram essa tarefa de montar a segurança patrimonial. E até tem um fato curioso, muito me lembro isso, as empresas foram todas embora. Tiraram as empresas. Eu fiquei sozinho. Eu e mais dois porteiros. Um de dia e um de noite. Aí, final de semana eu ia cobrir a folga deles. Eu dizia : “Não, vou cobrir a folga deles. Vai descansar.” Trabalhava direto. E às vezes o diretor, mais o senhor Adalmiro ia muito final de semana lá. O senhor Adalmiro costumava muito ir final de semana. A gente pegava o revólver, colocava em cima do balcão, assim. Ele passava lá, ia até o portão. O cara sozinho tomando conta de tudo aquilo ali. E era tudo mato ali atrás. Onde é o Aché V ali era um galpão. Só estrutura, o esqueleto e tal. Estava abandonado. E lá para o fundo onde é o Grêmio ali, era mato. A gente dava tiro ali. Todo dia de pagamento a gente ia dar tiro lá. Ia fazer treinamento lá no fundo. E aí eu comecei a montar uma patrimonial. Segurança patrimonial cuidando do transporte dos ônibus. Implantação de linha, de linha de ônibus. Fazia o roteiro. Uma coisa que existe, uma função que o pessoal tem até hoje lá, né? Nós vamos implantar e como eu fazia a parte de segurança do trabalho. Então todos os empregados quando entravam no Aché, como é hoje, só que de uma maneira bem rudimentar, [riso], a gente fazia no passado. Bem assim, era a integração dos funcionários. Então, como eu fazia a integração, eu falava sobre segurança do trabalho para eles, passava os filmes. Como eu acho que deve ser feito até hoje, só que hoje é mais completo. Um negócio mais profissional. A gente fazia um negócio, e a palestra, o curso de Cipa, as palestras, Sipats [Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho]. Toda essa parte eu cuidava. Foi aí onde eu fui promovido a gerente. E aí acumulei todas as funções.

 

P/1 – Você tinha uma equipe a princípio?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Quantos eram?

 

R – Eu montei, primeiro eu montei a equipe de segurança patrimonial. Os vigilantes. 

 

P/1 – Quantas pessoas?

 

R – Eram 18. Cada equipe tinha um líder. E 18 vigilantes e aí nessa época... E aí tem até um fato curioso. Eu conto muito essa história porque eu acho fundamental... [riso] Eu acho interessante essa história. Como a área de segurança patrimonial em qualquer empresa, o pessoal não olha com bons olhos. Você cuida. Está vendo que você está levando alguma coisa. Está cuidando do patrimônio dos outros e ao mesmo tempo, os funcionários estão olhando para você, como? E aí tem aquela coisa um pouco negativa. E acontecia com a gente, trocava-se muito de chefe. Quando eu entrei lá, o pessoal falou : “Ô, você não vai durar nada, rapaz. Você não vai passar aí seis meses. O último cara que teve aqui passou, o recorde do cara aqui é seis meses. Ninguém consegue ficar nessa área.” Eu falei: “Ah, tudo bem. Eu estou precisando trabalhar.” E realmente naquela época eu recebia bastante oferta de trabalho. Trabalhar era fácil naquela época. “Mas eu vou ficar aqui. Estou pertinho de casa. Então está bom aqui.” E aí começou. Trocava de chefe, três ou quatro meses davam um chefe novo. Mas, o que é que está acontecendo? [riso] Ninguém quer esse departamento? E aí eu comecei a fazer relatório desse tipo de coisa. Que era assim, que era isso. Aí foi quando houve a mudança. Quando o senhor Victor assumiu essa parte. O senhor Victor coordenava a área de Marketing, Desenvolvimento. O senhor Victor veio para essa parte operacional. Uma transformação que teve lá da sociedade. Teve, o outro sócio saiu e aí começou a mudança. E nessa mudança eu aproveitei para pedir bastante coisa. Aí começou a transformar. Equipar a segurança, melhorar. E aí foi onde eu fui também vislumbrando um cargo. Alguma coisa mais para a frente. Foi quando eu fui promovido a gerente, vem a terceirização [riso]. 

 

P/1 – Mas antes da terceirização, que a gente vai chegar lá, vocês enfrentaram um maior desafio durante esse período? 

 

R – Ah, sim, teve, teve. Se eu fosse contar a história toda, vai dois dias aqui e acho que vocês não iriam conseguir ouvir. Mas um desafio, uma das coisas que mais ocorria lá eram as enchentes. As enchentes lá eram uma coisa assim quase que rotineira. E a gente costumava: “Vai ter enchente e tal, vamos ficar aqui então.” Na época de chuvas, de dezembro até março aquilo era um Deus nos acuda. E a gente costumava, ficava dez lá. Esperava. Chovia, pegava todo mundo. Vinham os donos, os filhos dos donos. Todo mundo pegar o rodo e limpar a empresa para segunda-feira estar funcionando. Limpar os departamentos. Então você ficava lá. Tinha a relação de telefone de todos eles.  Ligava para um cara, inclusive um rapaz que está aqui o Monteiro, é uma história viva também de lá. O Monteiro que cuida da Manutenção aqui. A gente ligava: “Monteiro, cuida da elétrica aqui. Precisa desligar o gerador. Precisa fazer isso. Fazer aquilo.” Então aí aquilo, quando chegava na segunda ou terça-feira a fábrica estava limpinha. Então era isso o que mais ocorria. Um dos fatos que mais ocorria era isso. E outros fatos que ocorriam bastante lá, que era muito bom, aliás era assim a integração dos funcionários. As festas. A gente observava muitas festas. As festas de final de ano. Era assim bastante, era feita dentro da empresa inclusive. Então a gente parava tudo. Fechava a empresa e ia todo mundo lá para dentro. Muito gostoso. Muito, né? O pessoal bem, muito lindo. E aquilo assim motivava. E eu tinha vontade de sair. Acho que eu cheguei a pedir demissão umas cinco ou seis vezes lá. No primeiro ano. “Eu não quero ficar mais aqui. Eu não aguento. Eu quero trabalhar, eu quero fazer.” Eu me sentia um inútil. “Eu quero dar treinamento.” Prevenção e combate a incêndio. Brigada. Aí pegava mangueira, desenrolava. Pegava os vigilantes, pegava o pessoal da produção e ia dar treinamento. E olhar toda a empresa. Tudo. Cuidar do patrimônio. E o pessoal achava que como não tinha muito isso, a empresa não existia nessa área, então ela achava um investimento que não tem. Quando começou a dar problema: “Ah, um princípio de incêndio ocorreu. Ocorreu aqui um acidente de trabalho. Ah, vamos investir em segurança de trabalho. Vamos motivar o pessoal.” Então chegava a Sipat, comprava brindes, comprava coisa. Fazia, conseguia uma verba para fazer premiação para departamentos que não tinham acidente. Essas coisas bem assim, bem na base…

 

P/1 – A Sipat acontecia anualmente?

 

R – Anualmente. Todo mês de julho. Todo mês de julho acontecia a Sipat. A gente reunia o pessoal, colocava no auditório e conversava com todo mundo. E tinha fato, um fato curioso que ocorreu lá, eu não sei se você vai, pode cortar isso depois, [riso] é, ocorria muito que lá, na realidade Guarulhos, como é hoje ainda. Mas o que acontece? A cidade ia crescendo, as pessoas vão mais para a periferia. Então você contrata mão de obra onde? Na periferia. Então isso era a minha briga até com o seu Rafael, que era o irmão do seu Adalmiro. “Seu Rafael, precisa, né?” Ele falava: “Ah, mas você está colocando mais ônibus, mais uma linha de ônibus neste local?” “Precisa colocar. Vocês estão contratando lá. É lá que está o povo mais carente que está trabalhando. Que vem trabalhar aqui, né?” Aí colocava a linha e era aquela briga então. “O senhor não consegue essa mão de obra em São Paulo. E nem no centro de Guarulhos.” A cidade vai, né, só ia afastando. Aí tinha tipo assim, turno. Eu era muito de fazer estatística de fumante, não fumante. Idade do pessoal e tal. Então eu fazia isso para divulgar na Sipat. E aí um dado interessante: o cara da Manutenção que está até hoje lá, o Walter, muito meu amigo. “Pô, entope-se o banheiro todos os dias. Entope-se o banheiro todos os dias.” A gente foi descobrir o problema que estava entupindo o banheiro [riso]. Eram os absorventes. As garotas. Então as meninas não têm o mínimo de orientação. Aí sentamos eu e a Vera, a Vera do Ambulatório - está até hoje lá. Vamos ver alguma coisa? Vamos. E fui visitar uma empresa, fui visitar a Furp [Fundação para o Remédio Popular]. E A Furp estava tendo uma palestra lá. Carla Correia, da Johnson. Achei legal a palestra. Falei: “Carla, nós temos um problema lá no...”, e a palestra gratuita inclusive. Que a Johnson queria vender o produto dela. Aí eu falei: “Eu estou com um problema na empresa assim, e a gente precisa resolver isso, e não sei como resolver. Assim, entope todos os dias o encanamento dos banheiros femininos.” Aí ela disse: “Esse problema é comum mesmo.” “Dá uma palestra.” Ela foi dar uma palestra. E nessa palestra eu não achava um meio de transmitir a mensagem para o pessoal sem agredir. E ela orientou as garotas como fazer isso, fazer aquilo. Tanto que depois aquilo ficou fazendo parte da integração. Eu fazia a integração geral de segurança do trabalho, patrimonial, passava o filme institucional da empresa. E depois a Vera acompanhava o pessoal, as meninas. Separava as meninas para fazer a parte mais íntima. Explicar como funciona e tal. Era um negócio bem, bastante educativo. E no final da palestra eu não sabia como fazer. Tinha sido implantado esse cesto de lixo que você bate a boquinha, move assim. Aí no final dessa palestra eu peguei esse, era um, todos os dias tinha uma palestra diferente. Só que era dividido em oito ou nove turmas. Então no final de cada turma eu peguei esse, esse…

 

P/1 – Cestinho.

 

R - ...lixo, esse cestinho de lixo, coloquei em cima do balcão da palestra e comecei a fazer umas brincadeiras. Aí o pessoal gostou. E o apelido dele era BX2. Baseado no Guerra nas Estrelas. Não tinha um robozinho que andava e tal? Era a época de Guerra nas Estrelas, então aquilo ficou na cabeça. E eu para educar falava: “Agora para os rapazes, como se alimenta o computador? BX2 tal, pegava o papel higiênico, mostrava como fazia e jogava. E alimentava o robozinho.” Tudo isso fazendo palhaçada. E aquilo foi um caso que ficou bastante marcado na cabeça do pessoal lá [riso]. Você falar um negócio, um assunto de intimidade das pessoas, falar de uma forma assim. Para não agredir o íntimo de ninguém. E nem querer ensinar para ninguém, mas... Era um problema que a gente tinha assim bastante. 

 

P/1 – Com certeza. 

 

R – E uma das palestras que eu gostei mais na Sipat foi essa. 

 

P/1 – Você estava contando que acabou sendo promovido?

 

R – Isso.

 

P/1 – Das funções que você exercia lá no Aché até que chegou a terceirização.

 

R – Exato.

 

P/1 – Você poderia explicar como isso aconteceu?

 

R – A terceirização eu preciso falar, na época era um processo simples e estava muito rápido. Quando o seu Victor assumiu essa área operacional da empresa, ele quis transformar a empresa. Eu até me lembro que participamos de vários treinamentos antes disso. Uns treinamentos em Campos do Jordão, Águas de São Pedro, Guarujá. Então ele mandou treinar o pessoal. Pegava os gerentes, levava para fora da empresa. E até ele costumava falar assim: “Olha, a empresa vai funcionar bem melhor agora. Porque não tem nenhum gerente para atrapalhar o pessoal.” [riso] Entendeu? “Os gerentes estão todos fora.” Tirava a gente uma semana fora. E isso foi nessa fase, nessa preparação, preparando o espírito das pessoas, deu para perceber e sentir que era isso. E aí ele falou assim: “Olha, vamos terceirizar as áreas.” Foi terceirizando, tal e tal. Aí ficou a Segurança, a Limpeza e o Restaurante.

 

P/1 – Isso foi quando?

 

R – Isso foi em 1993. E quando foi me dado o primeiro aviso foi em agosto de 1993. Eu me lembro até o mês. E o senhor Victor falou: “Olha, cada um vai fazer isso. Blá, blá, blá. Você abre a tua empresa, você faz isso.” “Opa, espera aí. Eu não estou preparado para isso, né? Eu tenho 40 anos de idade e sei lá. Estou no mercado, eu já sou um dinossauro para o mercado. O mercado não aceita esse tipo de pessoas. Se não der certo?” “Se não der certo você volta a trabalhar aqui.” Aí você sente confiança, né? Aí eu falei: “Bom, sendo dessa forma eu aceito.” Mas não é assim não. Isso foi em agosto e foi um negócio…

 

P/1 – Teve um processo de transição?

 

R – Isso. Essa transição foi assim, e eu acho que foi até rápida os outros departamentos. Vinha chegando, terceirizando, terceirizando. Quando chegou na Segurança, um dos últimos a serem terceirizados, já havia sido terceirizada a Limpeza, tudo. E outras áreas. Obra, tudo. Porque tudo no Aché era próprio. Tudo no Aché era feito lá dentro mesmo. E com essa onda de terceirização, ele falou: “Não, você abre a tua empresa e tal.” Primeiro ele pediu uma licitação. Uma cotação de empresa. Eu levei. Ele falou: “Não, põe teu preço aí e faz. Abre a tua empresa e acabou.” Aí eu me lembro que eu falei: “Ih, e agora?” 

 

P/1 – Você tinha capital? Como você procedeu?

 

R – Não tinha nada. Ah, aí eu me lembro de um detalhe importante. O senhor Victor: “O que é que você está precisando? O que é que você quer? Você quer dinheiro?” Eu falei: “Não, dinheiro eu não quero. Eu não sei que ele vai lembrar desse detalhe um dia.” Eu escrevi isso na carta para ele inclusive. Quando eu escrevi uma carta de agradecimento, eu falei: “Dinheiro eu não quero. Se eu começar com dinheiro eu vou começar errado. Eu vou montar o meu negócio para sobreviver das próprias pernas. Se não sobreviver aí é por minha inoperância, por minha incompetência. É diferente.” Aí ele falou: “Então faça.” E acabou. Aí eu falei: “Vamos fazer. Eu me lembro muito bem que quando foi abrir, recrutei o pessoal, isso em janeiro. Sem ninguém saber de nada. Abri a empresa tal. Recrutando o pessoal, treinando. Abri um escritoriozinho no centro de Guarulhos. Comecei a trabalhar o pessoal, tudo prontinho. Quando foi no dia 28 de fevereiro, às 11 horas da noite, eu fui na empresa. Porque o meu contrato ia começar no dia primeiro de março. 

 

P/1 – Você foi desligado do Aché?

 

R – Até então não havia sido desligado ainda. Eu estava cuidando da Segurança, que eu era o chefe do pessoal.  Era o gerente do pessoal. Então não tinha como desvincular. E não podia, como eu estava mexendo com a Segurança tinha que ser um processo que não fosse traumático. Então, graças a Deus como eu tive um respeito muito grande pelos meus subordinados, eu falava: “Puxa, vai ser uma grande sacanagem chegar aqui e falar, olha você está demitido, amanhã eu vou começar com a minha empresa.” Não é? Então ninguém sabia também. Montei, quando foi no dia 28 de fevereiro às 11 horas da noite eu liguei para lá: “Olha, junta todo mundo da portaria que eu quero conversar com todos os funcionários. Fecha os portões, vamos conversar.” Aí comecei a falar assim, assim, até chegar lá. “A empresa vai ser terceirizada e eu vou começar com uma empresa amanhã às 6 horas da manhã. E os senhores estão todos demitidos. Quem quiser ficar comigo fica, vai ser demitido. Pega seus direitos e vai entrar pela...” “Ah, não vou não.” Sobraram dois caras só. Foram lá tudo embora. Era metade do salário, né? O salário era muito baixo. O pessoal: “Ah, não quero. Vou embora, tal e tal.” Muitos foram, voltaram. A grande maioria voltou. Outra grande maioria seguiu o caminho dele.  E nesse dia aí, foi no dia 1º de março, eu comecei com a empresa.

 

P/1 – Só cuidando da segurança?

 

R – Da segurança. Aí começamos cuidando da segurança mais com porteiros. Que era empresa de serviços gerais. Aí surgiu lá a oportunidade de começar com office-boy. Comecei com um boy na recepção. Passou para dois, passou para três e hoje nós temos só boys, 25 em vários departamentos. E aí depois eu abri a empresa de ser vigilância armada mesmo. Em 1996. Aí já estava com outra estrutura. Eu continuo com essa de mensageiros, rouparia, recepção, motorista. E depois vem a vigilância que é o carro-chefe da empresa, realmente é onde tem o maior número de funcionários lá. 

 

P/1 – Quantos são no Aché?

 

R – Hoje, o contrato atual no Aché na empresa de segurança são dois contratos distintos. Na empresa de Segurança tem hoje, não chega, tem mais ou menos uns 50 vigilantes. Entre todos os turnos. Uns 50 vigilantes. Na área de Mensageria tem uns 25 boys. Temos dois motoristas. Tem três pessoas na Rouparia. Três recepcionistas. Que mais tem? E aí o negócio diversificou bastante. E terceirizando dá para mim que eu faço [riso]. 

 

P/1 – E houve uma evolução da sua empresa?

 

R – Houve uma evolução lá dentro, graças a Deus.

 

P/1 – Você poderia estar contando um pouquinho sobre a Provise de uma maneira geral? Não só no Aché?

 

R – Isso. Essa evolução foi o seguinte. Essa evolução ocorreu quando houve o processo de terceirização, quando eu já estava terceirizado veio uma empresa trabalhar quarteirizadora. E nesse processo de quarteirização, essa quarteirizadora veio gerenciar todos os contratos. Era função da quarteirizadora. Hoje é que está muito em moda e tem bastante. Da qual eu trabalho, só eu trabalho para quatro dessas. Quatro. E esse pessoal saiu. Esse do contrato. Mas eu fiz grandes amizades com eles. E fui infiltrando. Contratei vendedores e através deles também eu fui pegando contratos aí fora. “Olha, preciso de empresa de segurança. Preciso de empresa disso. Coloca a Provise, coloca o Luiz, coloca.” Foi, graças a Deus foi crescendo, aí eu fiz uma parceria com eles e a parceria está até hoje. E começou por aí mais ou menos a expansão da Provise. Na terceirização e na quarteirização que é até hoje. Hoje eu trabalho com, não sei se pode citar nome?

 

P/1 – Claro.

 

R – Eu trabalho com empresas de quarteirização a Semco Johnson Controls. Ricardo Semler. Trabalho com o Blue Tree Towers. Empresas todas quarteirizadoras. Então cada empresa dessa é um segmento do mercado e, por exemplo, o segmento de hotéis eu trabalho com o Blue Tree Towers. Com condomínios é a Semco na parte de condomínios e indústria também, entendeu? E tem a Dalkia Infra Quatro que começou lá, que também eu tenho bastante clientes no segmento dela. Então quando eles precisam de um parceiro no perfil que eles querem eu chamo a Provise. Um parceiro maior eu chamo outra empresa maior. Então aí que começou o crescimento da Provise. Foi nessa fase aí. 

 

P/1 – Tá.

 

R – Aí graças a Deus hoje nós somos...

 

P/1 – O Aché foi o seu primeiro cliente?

 

R – Primeiro cliente no dia 1º  de março de 94 com 13 funcionários, o primeiro número. 13 funcionários. Hoje já são em torno de 300 funcionários. 

 

P/1 – E que importância o Aché tem na sua empresa hoje?

 

R – A importância?

 

P/1 – Enquanto cliente?

 

R – Não só como cliente. Como cliente tem importância fundamental. Mas a maior importância do Aché foi porque a Provise nasceu lá. O Aché deu a chance, apostou no Luiz. Na pessoa. No profissional que era como empregado e depois como empregador. Como empreendedor. Eu acho que isso foi um grande voto de confiança. Acreditar nas pessoas e fazer com que as pessoas dêem certo. Isso eu devo muito ao seu Victor inclusive. A pessoa dele: “Faça e acabou. Se não der certo a gente tem que se atirar no mercado.” Graças a Deus eu fui. Eu como não sabia de nada, nunca tive empresa, nunca tive nada eu fui atrás de legislação, de sindicatos. Hoje nossa empresa tem montado tudo, planilhado. Tudo direitinho. A empresa está bem administrada. Tem meu gerente que administra a empresa. Então a empresa, eu passei por um processo também de profissionalização da empresa de lá para cá. Para competir.

 

P/1 – E houve avanços tecnológicos na empresa?

 

R - Houve. Inclusive bastante porque quando a empresa começou que veio a parte de segurança, tal e tal. Você tem um processo de estar muito amador. Você estar muito ali fazendo, faz assim, faz assado. E quando ela chegou a um certo ponto, começou a crescer, eu busquei informações nas outras empresas. Eu comecei a visitar as grandes empresas do meu segmento. E visitar também palestras, cursos, seminários para trazer informações para ela. E buscar essas pessoas. Hoje eu tenho assessoria. Duas áreas minhas e por ironia do destino todas as atividades da minha empresa são terceirizadas. Todas. Quase todas. Só não a supervisão e o gerenciamento. É tudo terceirizado. Desde jurídico, assessoria da Federal, assessoria da contabilidade. Assessoria de todas as áreas são terceirizadas. Eu percebi que...

P/1 – É uma tendência do mercado.

 

R – Exatamente. Dentro da minha, eu trabalho terceirizado para um cliente, mas tenho o meu serviço também terceirizado. Isso eu busquei nas empresas que onde eu fui, que, minhas concorrentes, entendeu? Fui lá buscar o cara. Hoje funciona assim, ou então funciona assado. É uma tendência. Você quer ficar mais ágil? O meu objetivo é vender a mão de obra. E gerenciar essa mão de obra. Não é cuidar de contabilidade, cuidar de jurídico, cuidar de recrutamento e seleção. Nada disso. Então foi aí eu falei: “Então eu vou terceirizar essas áreas.” E aí foi que graças a Deus deu certo. E muitas coisas disso eu aprendi nesse processo do Aché. Nesse processo de terceirização, quarteirização. Porque ele busca bastante dentro desses contratos. Daquela fermentação que estava acontecendo naquela época. Então estava aquela fermentação que eu falei: “Espera aí. Ou eu faço, quando eu me atirar no mercado, ou eu faço bem feito ou volto a ser empregado, ajudante alguma, qualquer coisa. Não vou parar. Não vou abrir um negócio para fechar não. Vai ter que dar certo.”

 

P/1 – Certo.

 

R – E perdi muita noite de sono como até hoje eu perco. Você vê a pessoa, pensa que ter um negócio próprio, a gente percebe que é difícil. E uma coisa muito interessante, como eu não tinha capital eu joguei minha casa. Eu tinha um Golzinho 79, 89. 89 e para você abrir a empresa, a Polícia Federal, o Ministério da Justiça exigem de você um capital social, hoje é de 150 mil Ufir. Um mínimo de 100 mil Ufir. E eu não tinha nada. No Aché peguei a minha rescisão e tal. E joguei a minha casa. Tinha comprado uma casa por 12 mil reais na época, eu me lembro. Eu coloquei a casa com 75 mil, juntei mais o carro. Juntei tudo. Esse foi o patrimônio que eu comecei. Hoje você veja, tem todas as viaturas 2000. Tudo bonitinho. Tem um escritório em Alphaville administrativo. Uma base operacional própria em Guarulhos com três andares. Um prédio com 400 metros quadrados. Então, com toda a estrutura montada. Graças a Deus tudo rodando certinho. E falta agora mais é crescer para encher isso, né?

 

P/1 – Mas o resultado de muito esforço?

 

R – Muito esforço e também muita colaboração. E até eu digo assim que um certo tempo paciência do Aché para comigo. Para dar essa crescida inicial para que se amanhã ou depois eu viesse a perder o Aché na concorrência, como é comum hoje, tudo eles fazem concorrência, eu teria como me sustentar sem depender do Aché.

 

P/1 – Com o Aché a relação é anualmente renovada?

 

R – É feito, renovado o contrato. Eu estou renovando agora esse mês, inclusive. Quer dizer, já renovou. Só não está assinado. Mas foi renovado o contrato agora esse mês.

 

P/1 – Mas a Provise no Aché não cuida mais da Segurança no Trabalho?

 

R – Não, não. A Segurança no Trabalho é uma atividade que só pode ser cuidada pela própria empresa. Não é, ainda não é terceirizável. Mas tem projeto, já tem colega abrindo empresa inclusive. Tem projeto no Congresso já para terceirizar isso aí também. Isso é uma coisa que está em estudo fora aí. Hoje no Aché é próprio isso aí.

 

P/1 – E a partir do momento que a Provise assumiu no Aché, tem algum fato mais marcante? Uma dificuldade? 

 

R – Ah, teve sim, porque uma coisa é você ser empregado, ou gerente, ou encarregado. Um cargo que você vai tomar conta de um pessoal onde o capital é da empresa. Você chega lá, não gostou de você, demite e acabou. Você não está funcionando. Uma coisa é você, que eu comecei com o meu pessoal, que eu comecei ver os conflitos, os problemas. E administrar, né, administrar isso de uma forma bem ampla. Assim, olhando: “Pô, espera aí. Precisa faturar, precisa vender, precisa pagar salários, encargos. Demitir, contratar.” E você esquecer um pouco esse lado de ser patrão. Que a pessoa não entende. E aquilo para mim foi uma dificuldade enorme. Porque eu vinha de um processo interno. Tanto que nos primeiros meses eu ficava lá dentro. Administrando. Tanto que o pessoal, até existiam comentários na fábrica, os gerentes, como eu tinha um bom relacionamento com gerentes, com diretores. Esse bom relacionamento me ajudou bastante para o sucesso. Porque essas pessoas quando o meu negócio estava caminhando lá dentro, se fosse uma outra empresa que fosse terceirizar, colocar uma outra pessoa lá dentro: “Olha, deu problema, não gostei. Troca esse cara. Troca isso, troca aquilo.” Eu não, como era a pessoa do Luiz, então eu tinha um respaldo muito grande. E isso me ajudou bastante. Só que o problema era mais com o meu pessoal mesmo. De eu estar administrando 18 ou oito pessoas. Aí você tem 20, 30, começou a vender. Você abre escritório. Você começa a contratar vendedor, pessoas de vários tipos. Então te tira daqui ou te tira dali. Você não tem experiência, entendeu [riso]? Aí você sente, até você acordar que você passou da noite para o dia de empregado para empregador? Você vê o grau de responsabilidade que você tem, inclusive até no âmbito social. Que tem isso. Você tem um parente lá com dificuldades, quer dizer, você acaba colocando. Mas você vê que não é o perfil da empresa. Isso, e a pessoa acha que você é obrigado a colocar. E a família: “Pô, o cara tem empresa. O cara, por que ele não coloca o meu filho? Por que não coloca isso?” Você, esse conflito eu vivo, a gente vive até hoje. Isso não é só eu. Inclusive qualquer empresa tem esse tipo de conflito, né [riso]?  Mas no começo isso foi bem latente. Assim, sabe: “Pô, o cara tem uma empresa. Agora você não é mais, pô, coloca meu filho.” Acha que pode, você pode, entendeu, ajudar todo mundo. O empregado: “Eu estou com dificuldade em casa, não sei o quê.”  Pô, a empresa não é mãe. A empresa não é banco. A empresa tem os seus encargos, compreendeu? Ela vive de lucro. Ela tem que dar lucro para poder continuar sobrevivendo e gerando emprego. E gerando riqueza. E o empregado não entendia. “Pô, o seu Luiz está aqui eu vou falar com ele. Não vou falar com o meu chefe.” Aí, [riso] percebe? E isso demorou muito tempo para eu me desvencilhar disso. Até que a empresa foi crescendo. Aí eu botei um gerente lá administrativo, um gerente operacional. Um gerente de negócios que é o comercial. Eu dividi a empresa. São três empresas, mas três gerentes de uma empresa só cuidando das três empresas. E minha esposa cuida do financeiro. Enfim e eu só, a minha parte é assim mais com vendas mesmo. Então foi aí que eu comecei, me desliguei. “Vai falar com Fulano. O gerente é ele.” Então aí foi dessa fase que eu, começou exatamente um processo de profissionalizar também. Ou eu faria isso ou ia ser mais uma empresa no mercado.

P/1 – Tá certo.

 

R – Não precisa ser grande. Mas hoje a empresa é competitiva. Eu concorro, dessas empresas que eu te falei, eu concorro com as grandes. O cara, por exemplo, tem um projeto: “Olha, eu preciso de uma pequena e duas grandes.Vai lá.” O projeto é para uma empresa pequena? Empresa pequena. Para grande é para grande. Então a empresa ela está redonda, ele está não tem assim nenhum problema financeiro graças a Deus. É bem saudável. Os empregados, eu percebo que os empregados às vezes falam: “Pô, o cara está enriquecendo, e a gente...” Quer dizer, isto incomoda o patrão. Eu adoraria, eu gostava de ver quando os donos do Aché, donos de outras empresas que eu trabalhei, o cara vai, se ele está ficando bem? Ótimo. Se ele pode andar de Mercedes por que é que ele vai andar de fusquinha, percebe? Então eu acho que o Aché é um fato muito legal para isso. E esses conflitos eu vivi. Assim no processo da nossa empresa. Quando começou, abre o escritório. “Pô, botou um escritório maior.” O cara trocou a frota. “O cara, pô, a empresa do cara está enriquecendo.” Ele está investindo na empresa para gerar mais contratos. Gerar a empresa, crescer de uma forma para se tornar competitiva e ficar igual as outras. Ou resumindo, melhor que as outras. Ou não ser engolido pelas outras, né [riso]? Então é aí que começa o processo tecnológico também nessa fase.

 

P/1 – A gente falou muito do trabalho, então paralelo a isso você disse que se casou, teve filhos?

 

R – Isso. Duas filhas. Uma filha nasceu, a mais velha, Aline, fez 13 anos agora dia 3. Nasceu em 3 de junho de 1989 e depois...

 

P/1 – E a mais nova?

 

R – A mais nova, a Lílian, tem 11 anos. Nasceu em, fez 11 anos ontem, né? 19 de junho de 1991. E aí estão crescendo. Logo, logo estão trabalhando. E minha esposa trabalha com a gente na empresa, cuida da parte financeira.

 

P/1 – Depois de falar tanto do passado, o que é que você pensa do futuro, Luiz? Quais são seus sonhos para o futuro?

 

R – Ah, meu sonho para o futuro é fazer com que a empresa cresça mais. Que o meu objetivo não é ficar no que está. Eu tenho projetos para o crescimento. Aliás, eu tenho projeto a dois anos do que a gente está. A minha atividade é uma atividade que a gente vende confiança. Você vende segurança, você vai fazer segurança de um empresário, de uma pessoa, você tem que transmitir confiança. E o nosso grande projeto é até o final desse ano, inclusive eu tenho um projeto dessas empresas que estão me assessorando, dessas quarteirizadoras todas, dessas assessorias, é a gente dobrar o faturamento da empresa. E a partir daí passar a investir em crescer. Que já era para estar em um patamar maior. Mas eu, devido ao medo, né? Crescer com base, devagarzinho. E assim devagar crescer sempre. Eu tenho sempre isso em mente. Não é simplesmente você pegar um contrato. O difícil é manter o contrato. Então eu tenho como objetivo para os próximos anos talvez triplicar a empresa. Diversificar mais também as atividades dela. Ter mais gente envolvida. A gente está buscando mais pessoas profissionais. Então clientes para poder crescer e melhorar para todo mundo, né? Inclusive o crescimento do meu pessoal interno.

 

P/1 – E sonhos pessoais?

 

R – Pessoais?

 

P/1 – Para você e família? 

 

E – É, minha família, o que puder dar melhor e de conforto. Gerado pela atividade da gente, então, o que... Dar o melhor de conforto, tranquilidade e segurança, [risos] né?

 

P/1 – [riso] Sem dúvida.

 

R – Principalmente segurança. E para que tenha um futuro. Para que não passem aquilo que eu passei. Desde a infância. Tem coisas boas. Tem muitas coisas ruins. No trabalho também teve coisas boas. Na época da empresa também teve coisas boas, coisas ruins. Então para que ela esteja melhor preparada para o futuro. Para que ela tenha que começar também lá de baixo. Começar de uma outra, entendeu? Deixar alguma coisa para elas.

 

P/1 – E para encerrar, eu queria fazer uma pergunta que na verdade é um balanço do que você falou aqui. O que achou de ter contado um pouco da sua história?

 

R – Eu achei muito bom e como é uma coisa assim que é a história, a história de cada um, se ele morre a história morre com ele. E eu costumo falar para as pessoas: “Não adianta você ter cultura, você ser rico. Ser rico em dinheiro alguém vai te tomar ou você pode passar para alguém. Mas a sua história é só sua história. Não adianta nada você ficar com ela. Acho que você tem que contar. Seja ela bonita, seja ela feia. Vai servir para alguém, né? Essa história vai servir para alguém. “Olha, pô, o cara era assim.” Porque eu acho muito gostoso quando eu vou em uma empresa, ou quando eu conheço uma pessoa nova que a pessoa fala: “Olha, já sei de você. Sei da tua história. Você começou no Aché.” Ou quando vai, né, então? “Você é... Começou assim, começou assado. Alguém te deu um empurrão.” Realmente me deu um empurrão. E eu peguei o embalo. Aproveitei o empurrão, entendeu? Então essa história é só sua. Talvez essa história se ela fosse há 10, 20 anos era muito mais fácil. No mundo de hoje ela é muito mais difícil. Ainda mais na atividade que eu estou, entendeu? Então eu acho essa de contar história, transformar isso em uma memória para que possa servir de exemplo para outros. Porque ninguém é eterno. E se eu puder estar passando? Acho que isso vai ser uma coisa muito gratificante para mim.

 

P/1 – Muito obrigada.

 

R – Obrigado a vocês.

 

P/1 – Excelente resposta. 

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