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História

"Não adianta reclamar"

História de: Manuel da Silva Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Manuel cresceu escutando histórias sobre o avô paterno, um benzedeiro de origem africana admirado pelos fazendeiros de Monte Azul Paulista. Em sua história de vida, traz a sabedoria dessa figura curiosa e de outras pessoas que o influenciaram a fazer o bem e a não odiar. Com bom humor, conta como era ser o único aluno negro da escola e trabalhar na infância, narra como se deu a mudança para a cidade de São Paulo durante a juventude, o desenvolvimento da carreira no ramo da citricultura e a convivência com a família. Manuel faz parte da história do Ceagesp, onde já morou e trabalhou, e hoje realiza trabalho voluntário para beneficiar crianças e adolescentes.

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História completa

R – O meu nome é Manuel da Silva Filho, eu tenho sessenta e um anos, nasci em 10 de agosto de 1951 na cidade de Monte Azul Paulista, norte do Estado de São Paulo.

P/1 – Os seus pais são de Monte Azul?

R – Os meus pais são de Monte Azul.

P/1 – O seu pai e a sua mãe?

R – O meu pai e a minha mãe são nascidos em Monte Azul.

P/1 – Qual é a descendência dos seus avós?

R – Os meus avós paternos são africanos, quer dizer, eram negros mesmo...

P/1 – Eles vieram da África?

R– ...Segundo o que o pessoal falava, dizem que o meu avô veio pequeninho ou nasceu aqui de algum navio que chegou, coisa assim, pelas histórias que ele contava para o povo, eu não cheguei a conhecê-lo, mas o pessoal de Monte Azul falava que o meu avô era sábio, tinha uma inteligência bem acima da média, não que ele tenha frequentado escola ou coisa parecida.

P/1 – Você sabe alguma história dele?

R – As histórias que o pessoal contava era que ele tinha sabedoria, por exemplo, ele sabia benzer, benzia todos, o pessoal chegava lá, estava com dor de dente e ele benzia, se estava com dor de cabeça, benzia também e os fazendeiros da região quando tinham problema, naquela época eles tinham muito gado e pegavam uma doença chamada peste ou coisa parecida, chamavam ele lá, ele benzia, o rebanho do pessoal ficava legal; quando tinha também problema de cobras picando o gado chamavam ele, dizem que ele chamava todo mundo lá no meio do terreiro e fazia as orações dele lá, dizem que as cobras passavam no meio do pessoal, ele não matava, dizem que ele pegava e conduzia aqueles animais peçonhentos ou coisa parecida, para algum lugar, um brejo pra eles ficarem por lá, então parava de picar os animais do fazendeiro e por isso o pessoal prometeu pra ele gado, terra, tudo isso pra ele, mas (risos) não vimos nada disso e ele só andava descalço, eu vi só fotografia, ele andava descalço e andava de terno, então era uma figura.

P/1 – De terno e descalço?

R – E descalço, de terno branco de linho e descalço, era uma figura bonita, a fotografia que eu cheguei a ver na casa dos meus irmãos em Bebedouro era ele com o meu pai no colo, negrinho mesmo, barba comprida, era bem simpático mesmo.

P/1 – Mas ele benzia, era oração ou ele incorporava alguma entidade, você sabe?

R – Eu acho que era uma oração que ele fazia, não incorporava nenhuma entidade não, mas tinha uns poderes acima do comum, dos outros mortais (risos) pra fazer o que ele fazia.

P/1 – Quem contava essas histórias dele pra você?

R – Os amigos dele, as pessoas antigas que tinham amizade com a família ou o meu avô paterno também que o conheceu vivo, então ele falava.

P/1 – Esse é o pai da sua mãe?

R– Pai da minha mãe, o que tinha esses dons era o pai do meu pai.

P/1 – O pai do seu pai?

R – Isso.

P/1 – Mas o pai da sua mãe?

R – O pai da minha mãe teve contato com ele, então contava as histórias dele e tem uma história legal, por exemplo, o primeiro relacionamento que ele teve aqui no Brasil foi com uma pessoa de pele clara, uma branca e desse primeiro relacionamento dele ele teve uma filha, essa filha então de pele bem clara, ela juntou-se com um árabe que era viúvo já e daí saiu uma turma toda diferente, que é o pessoal que mora em Santo Amaro (risos), mas nós temos amizade grande, era um segundo relacionamento que foi com a vó Isabel que era negra, daí nasceu o meu pai e nasceu a outra irmã dele, então veio tudo nosso bem incorporado na cor mesmo. Agora os meus avós maternos, o meu avô tinha quase dois metros de altura, negrão grande mesmo e minha avó era portuguesinha e baixinha, mas os filhos dela nasceram todos altos, então, nasceu três filhos homens e quatro mulheres e assim, o meu avô João, que era João Marques da Silva, o meu avô materno, eu lembro dele trabalhando na roça, capinando, cortando lenha, essas coisas assim. 

P/1 – Você ia à roça junto ver?

R – Ele levava, quando eu era pequeno, ele levava. O que é legal disso que eu ainda me lembro é que a vó então preparava o almoço, era colocado em um caldeirão de alumínio e pra mim também era colocado em um caldeirãozinho, eu me lembro que na minha casa a gente era mais humilde na parte da comida e, quando eu ia com o meu avô, a minha avó colocava aquela sardinha em lata que até hoje parece que o cheiro ainda penetra no meu nariz, realmente era muito gostoso, eu gostava de ir com ele à roça sim.

P/1 – E como é que a sua família foi parar em Monte Azul?

R – É que naquele tempo a economia da região era a agricultura, o mais forte na região lá era a mandioca, então se plantava mandioca, tinha aquelas fábricas de raspa de mandioca, de farinha de mandioca, então usava bastante mão-de-obra. Então eles vieram da parte do meu pai, que eu lembre eles eram radicados de Monte Azul, direto dali mesmo e os outros, o vô João, ele veio da Bahia e parou por Minas e, depois de Minas, ele chegou em Monte Azul já casado com a minha avó. Então o tempo que eu nasci lá já era um tempo bem legal. Então teve umas partes legais e divertidas, quando eu entrei na escola, cheguei aos seis anos, então me colocaram na escola no Grupo Municipal de Monte Azul Paulista, tinha que comprar o uniforme, o meu pai trabalhava, mas não sobrava nada de dinheiro, então a minha mãe tinha bastante criatividade, pegou uma sacola de feira, tirou aqueles ferrinhos que tem, que compõe a sacola e pegou um saco de açúcar e fez uma bolsa, imitava como se fosse uma bolsa de couro, pegou e tingiu de marrom, quem via de longe parecia que era bolsa, mas aí na escola, quando viam aquela bolsa diferente, a meninada falava: “Não a bolsa dele é de pano”. E tinha um fato esquisito, dá pra lembrar até hoje, então, o único negro que tinha na escola era eu e, quando eu saía da escola, a molecada corria atrás de mim pra me bater e como eu entrei pequeno e morava na última casa, a única força que eu tinha bastante era na perna, eu tinha que correr bastante, então no primeiro ano eu corri, no segundo ano eu corria da turma pra evitar briga (risos), aí quando chegou no terceiro ano – eu já tinha mudado de cidade – o primeiro dia na escola em Bebedouro chegou lá um menino pra brigar comigo, aí eu falei: “Mas será que eu vou passar dois ano correndo de novo?” Aí eu enfrentei o menino e me defendi, bati nele, acertei o olho do menino, ele chamava-se Jesus ele era filho do dono do ferro-velho, moral da história (risos), a partir daquele dia nunca mais ninguém invocou comigo, foi só eu tomar aquela atitude chata e agressiva que ninguém mais brigou comigo.

P/1 – Mas eles brigavam porque você era negro?

R– Era isso mesmo, tinha as diferenças grandes lá no clube lá de Monte Azul, depois eu fui entender, de pequeno a gente não entende muito, depois a gente vai entendendo.

P/1 – Então, mas quando você era pequeno você entendia?

R – A criançada xingava assim: “Ah o pretinho, não sei o quê mais”, “Ah a bolsa dele”, então eu tinha que correr.

P/1 – Você chegava em casa chorando?

R – A mãe falava que se ela chegasse e eu estivesse chorando eu ia apanhar, então eu chegava em casa assustado, mas não chorava (risos).

P/1 – E os seus pais sabiam que acontecia isso com você?

R – Sabiam, mas eu tinha que aprender a conviver com isso, o meu pai era sábio, o meu pai nunca plantou que a gente fosse violento, ele sempre falava pra gente ter calma: “Vai estudando que com [o tempo] isso vai passar”, o meu pai tinha a cabeça boa, podia-se dizer assim que ele era um pacificador, não deixava a gente criar ódio dentro da gente.

P/1 – Em quantos irmãos vocês são?

R – Sete.

P/1 – Moravam os sete na mesma casa?

R – Os sete na mesma casa.

P/1 – Você é o mais velho?

R – Eu sou o mais velho.

P/1 – Você sabe como o seu pai e a sua mãe se conheceram?

R – Segundo eles contam, eles moravam naquelas fazendas perto, daí eles se conheceram em um terço, o pessoal tinha aquela mania de se encontrar, então tem um terço em tal fazenda. O pessoal dessa fazenda vai naquele terço e em um desses terços eles se conheceram. Aí foram falar com o meu avô, o meu avô era bravo, adoidado mesmo, aí falaram e daí conseguiram que fossem namorar e depois casaram e o meu avô gostava do meu pai que era o genro dele, ele falava que o genro preferido dele era o meu pai. Só que a cumprissão física do meu pai pra gente ele era bem menor, o meu pai tinha um metro e sessenta e oito e nós todos crescemos bem mais que ele. Quem era grande na família era a minha mãe, a minha mãe tinha mais de um metro e oitenta, eu quando estava no Exército eu tinha um metro e oitenta e oito, eu estou agora com um e oitenta e quatro, por aí, então nós puxamos mais para o lado da minha mãe, então crescemos bastante, todos os meus irmãos cresceram bastante. Eu tenho um que mora nos Estados Unidos e tem mais de dois metros que é o Tomé, (risos) então a família é legal, nós nos divertimos bastante mesmo.

P/1 – O seu pai fazia o quê?

R – No princípio ele trabalhava em uma roça, depois trabalhou na prefeitura em um serviço braçal.

P/1 – Quando você nasceu ele trabalhava onde?

R – Na prefeitura, já no serviço braçal, ele fazia buraco para rede de água que estava chegando na cidade, poucas casas na cidade nessa época tinham água encanada, então ele fazia esse trabalho, fazia os buracos para a água encanada chegar às casas, isso nas casas do centro, onde eles moravam era externo, cisterna ou poço que puxava na corda e ia enrolando as coisas.

P/1 – E a sua mãe, o que ela fazia?

R – No princípio, ela trabalhava na roça e depois quando nasceu o Cláudio, o meu segundo irmão, então ela parou de trabalhar, então aí ficou só cuidando dos afazeres do lar.

P/1 – E o seu pai prestou concurso, como é que ele conseguiu?

R – Pra trabalhar?

P/1 – É, na prefeitura.

R – Não foi não, o pessoal chegava lá e escolhia, escolhiam geralmente as pessoas mais fortes para o serviço mais pesado e os que tinham, por exemplo, um Q.I. melhor eles colocavam nos trabalhos mais maneiros. Então, o meu pai trabalhou lá e depois, quando mudamos para Bebedouro, ele foi trabalhar em uma sacaria, pra descarregar e carregar caminhão de açúcar, foi trabalhar em uma refinaria que hoje não existe mais, que fazia o açúcar Nevada, chamava-se Refinaria Americana.

P/1 – Como que era a convivência na sua casa entre o seu pai e a sua mãe? Quem que exercia a autoridade?

R – Quem exercia a autoridade era a minha mãe, ela segurava a onda mais forte, apanhamos bastante, mas não era apanhar de tomar tapa, ela batia na gente quando a gente fazia muita arte, então cortava uma vara de amora e dizia-se assim, dava uma surra coletiva, mas todo mundo apanhava e depois todo mundo estava feliz (risos) e batia em todo mundo porque senão um ficava tirando sarro do outro: “Mas em mim doeu menos”. Essas brincadeiras todas, mas todos nós, como a gente fala, a gente apanhava da mãe, o meu pai nunca bateu em nenhum de nós porque nós apanhávamos da mãe, mas todos nós amávamos a nossa mãe de paixão.

P/1 – Quais eram as suas brincadeiras de infância?

R – O mais que a gente tinha – porque tinham poucas crianças perto de onde nós morávamos –, quando a gente ia à casa de alguém era a brincadeira de hoje, era o famoso pega-pega, era correr, corre pra lá, pique-salve, essas coisas assim.

P/1 – E você brincava muito com os seus irmãos?

R – Depois que nós fomos crescendo, a gente brincava bastante com os irmãos sim, era uma turma bem centrada nas brincadeiras, o pai não deixava, por exemplo, a gente sair, se meter em confusão na rua, essas coisas assim, não que ele fosse bravo, mas ele não deixava, ele falava com a gente de um jeito que dos irmãos nenhum se perdeu com coisas erradas até hoje. Daí a mãe então me colocou na escola, aí foi legal porque na casa da professora trabalhava uma tia minha, daí essa professora então me convidou pra ir aguar o jardim da casa dela, ela morava em uma casa ampla, daí foi legal porque em casa quando tinha que aguar a horta, aguava de regador e na casa dela já tinha progresso, ela aguava o jardim dela com a mangueira, então qual criança que não gosta de brincar com uma mangueira? Então todo dia eu ia pra lá e ela me deu um salário simbólico, ela me pagava trinta cruzeiros por mês, então eu saía da escola, ia pra casa dela, aguava o jardim e aí como a minha tia trabalhava lá também, então eu jantava na casa dela e depois a minha tia me levava pra casa, então todo dia eu tinha essa rotina legal.

P/1 – Por quanto tempo você fez isso?

R – Eu fiz isso durante dois anos, do primeiro ao segundo ano, o que era legal é que ela tinha um filho que tinha a minha idade, ele chamava-se Cássio e como eles tinham um poder aquisitivo legal, ele era um menino mais manhoso e não gostava de comer, então ela gostava de colocar nós dois juntos pra comer pra ele olhando eu comer, ele comer um pouco mais. Então ela fazia aquele ovo, cozinhava na água e o filho dela na hora de comer aquilo lá fazia gesto que ia vomitar e eu gostava, aí eu colocava o salzinho, comia o meu, tinha dia que ele queria o dele, comia o dele também e era uma festa. Então no primeiro ano eu fiz assim, eu arrumava jardim, no segundo ano eu fui ficando mais esperto e eu conhecia a cidade, então ela me promoveu, passou a pagar setenta cruzeiros. Naquela época estavam começando a modernizar a Monte Azul Paulista então as pessoas que tinham poder aquisitivo melhor passaram a comer de marmita e tinha uma senhora que era do outro lado da cidade que servia marmita, aquelas marmitas que vem um punhado de arroz, feijão, a mistura e a salada, então eu saía da casa dela, atravessava a cidade e buscava a marmita do almoço e depois, quando eu saía da escola, buscava a marmita do jantar, deixava uma vazia e trazia outra cheia. Então era bem bacana isso aí.

P/1 – Quantos anos você tinha quando você atravessava a cidade?

R – Primeiro eu estava com seis, depois eu estava com sete, aí com sete anos eu atravessava a cidade, mas a cidade era pequeninha, não existia muitas ruas não, era pouca gente, todo mundo conhecia todo mundo lá.

P/1 – Você tinha aula com ela?

R – Com essa professora?

P/1 – É.

R – No segundo ano eu tinha aula com ela, no primeiro ano não, era a professora Zenaide Kalil Rosinha, já falecida.

P/1 – Do que você mais gostava na escola?

R – Eu gostava de querer aprender, coisa que eu não evoluí da escola até hoje foi a minha letra (risos), a mesma letra que eu comecei a escrever continua feia até hoje, mas o que eu tinha de bom é que eu tinha como se fosse uma memória fotográfica, o que passava em uma lição em um dia lá, eu sabia tudo, eu gravava tudo aquilo lá, então nota de História, Geografia, Ciências, Matemática, eu sempre tive notas ótimas, só a minha letra que sempre foi feia, continua feia até hoje.

P/1 – E matéria, assim, Matemática, Português?

R – Eu gostava, não tinha problema, que nem até hoje eu faço contas de cabeça, faço conta rápido, foi o que eu aprendi nesse tempo, então eu aprendi mesmo, não fui como o pessoal fala, o Jamelão falou que tinha criança que ia pra escola comer merenda só, não, eu fui pra escola realmente pra aprender, não fiquei muito tempo na escola, mas os anos que eu fiquei na escola eu aprendi, eu nunca repeti de ano.

P/1 – Você estudou até qual série?

R – Até a quarta (risos), aí que vem as coisas legais, mas sempre trabalhando, então como eu parei de trabalhar porque nós mudamos de cidade, eu trabalhei de carregar marmita, então nós mudamos para Bebedouro, aí então...

P/1 – Por que vocês mudaram para Bebedouro?

R – Porque o meu pai mudou de trabalho, ele saiu da prefeitura e foi trabalhar em Bebedouro na refinaria porque ele teria um ganho a mais, ele ia trabalhar na sacaria e ele ganharia um pouco mais de dinheiro e Bebedouro era uma cidade mais próspera. Então, lá em Bebedouro, eu estava estudando, aí eu arrumei serviço em um bar pra entregar leite, naquele tempo leiteiro passava entregando o leite, aquele leite que vinha no tambor, ele usava um canecão que era a medida, que era um litro e a pessoa ia com a vasilha, com a leiteira e despejava aquilo lá, no bar da dona Dita e do seu Henrique, eles recebiam o leite, colocavam em uns latõezinhos e tinha a clientela dele, então, me colocaram pra entregar leite. Eu carregava seis latõezinhos, carregava três em cada mão, entregava, voltava correndo, entregava mais, então foi legal, eu fui aprendendo, aí eu almoçava na casa deles e à tarde ia pra escola, entrava ao meio dia e saía às quatro da tarde. Aí foi até o meio do ano, eu fui fazendo esse serviço, eles acharam que eu estava ficando com a cabeça mais esperta, então, ele me colocou pra comprar garrafa pro bar dele, então eu entregava o leite e já perguntava se tinha garrafa pra vender e comprava as garrafas, cada tanto de garrafa que eu comprava pra ele, ele me dava um percentual a mais, isso é, até uma coisa legal.

P/1 – Pra que você comprava garrafa? Garrafa do quê?

R – Garrafa que era de guaraná, garrafa de cerveja vazia e daí as pessoas compravam e largavam abandonadas no fundo do quintal, então pra limpar o quintal, ele comprava essas garrafas e daí ele devolvia pras indústrias que fabricavam refrigerante ou a cerveja e recebia outra cheia. Daí eu fui crescendo, fui ficando mais forte, já não apanhava mais de ninguém (risos), aí eu já estava no terceiro ano, tinha um vizinho de casa que ele tomava conta de uma packing house, packing house é uma casa de embalagem onde embalavam laranja pra exportação e ele falou: “Ó, tem serviço lá pra pregar tampa de caixa”. Então a gente pegava a tampa de caixa, uns preguinhos pequeninhos, a gente que era criança e tinha o dedo pequeno pegava o garfo, cortava dois dentes do garfo, espetava no preguinho pra pregar a caixa, então rapidinho pregava. Então eu ia de manhã cedo com ele, ele tinha uma Vespa e me levava, então eu trabalhava lá até onze horas mais ou menos, voltava e ia pra escola e o ordenado era pouco, aí entrei no quarto ano e sempre aparecia algum servicinho pra eu estar fazendo. Aí eu tirei o diploma do quarto ano, eu estava com dez anos e meio, por aí, aí entrou lá o SESI na cidade de Bebedouro e ia até a quinta série, então eu me matriculei na quinta série, mas fiquei só até o mês de junho porque daí apareceu serviço na Citro Brasil, foi aí que eu usei a primeira calça comprida. Eu vou te explicar por quê: naquele tempo não tinha nada contra o trabalho infantil, então as crianças que trabalhavam de calça curta era meio salário mínimo, agora, as crianças que já usavam calça comprida ganhavam três quartos do salário mínimo, então a minha mãe foi e comprou a primeira calça comprida pra mim nessa época, pra eu começar a trabalhar. Então, eu venho assim, de lá pra cá eu sempre trabalhei. 

P/1 – Desde os seis anos.

R – É, desde os seis anos, eu sempre trabalhei e venho trabalhando direto até chegar aqui em cima (risos).

P/1 – Você teve algum tipo de educação religiosa?

R – Tive sim, a família era católica, então eu fiz a primeira comunhão. De domingo então tinha os cruzadinhos que usavam uma fita amarela e ia à igreja, sentava nos primeiros bancos, tudo isso aí, era uma coisa bem legal. Então eu tive educação religiosa, eu sou católico, mas depois que eu comecei a trabalhar, alguns anos depois, eu me afastei da igreja (risos) e só fui voltar pra igreja quando foi pra casar, aí quando eu voltei pra casar, daí eu voltei pra igreja, mas esse tempo todo eu fiquei longe da igreja, dos doze anos até os trinta anos, eu só ia à igreja quando tinha casamento de alguém ou algum batizado, coisas assim.

P/1 – Quando você trabalhava, você brincava também?

R – No serviço?

P/1 – Não, fora do trabalho.

R – Eu sempre brincava sim, a gente tinha bastante molecada. Na hora do almoço, a turma brincava, corria pra lá, essas coisas assim, inventava alguma coisa. Agora, brincando igual a criançada de hoje brinca assim dessas coisas, não deu tempo pra brincar e nem jogar bola, por exemplo, eu só fui jogar bola depois que eu estava grande porque quando eu jogava bola no time da rua, a menina lá não deixava eu jogar porque eu chutava forte e a gente chutava a bola descalço e eles falavam que eu podia estar furando a bola, essas coisinhas assim, mas eu sempre me diverti bastante, mesmo trabalhando, a gente se divertia.

P/1 – Os seus irmãos trabalhavam também?

R – Os meus irmãos demoraram mais pra trabalhar e depois que passou essa época que eu trabalhei, eu também passei a trabalhar mais ou menos na faixa dos catorze anos, então eu já comecei a trabalhar e já trabalhar com os homens mesmo, já era um ordenado inteiro e como eu estava com dezesseis anos, então a minha mãe mandou o Cláudio...

P/1 – Então, depois da marmita você foi fazer o quê?

R– Depois da marmita eu fui para o bar entregar leite, depois que eu terminei a escola, foi quando a minha mãe comprou a calça comprida, então eu fui trabalhar na Citro Brasil. Então eu trabalhava carregando caixa vazia, carregar caixa pra um canto, essa coisas assim, era um serviço mais maneiro, mas já ganhava um dinheirinho legal e depois quando eu cheguei nos catorze anos, então eu passei a ganhar ordenado de homem mesmo, só que o meu serviço também era pesado, eu tinha que fazer o serviço que os marmanjos faziam (risos).

P/1 – O que você fazia?

R – Aí era colher laranja e já começar a também a carregar caminhão com as caixas de laranja, coisas assim, então sempre foi serviço pesado, aí então a minha mãe falou assim: “Ó tem que levar o seu irmão Cláudio (ele tinha terminado já o básico até a quarta série e não queria mais saber de estudar) pra trabalhar”. Só que o Cláudio era folgado (risos), então eles davam tarefa lá, vamos supor, tinha que colher cinquenta caixas de laranja, então eu terminava as minhas cinquenta caixas de laranja e o Cláudio está junto: “Cláudio, a quantos já chegou?”. Ele tinha feito vinte e cinco, então o pessoal que tinha terminado a tarefa ia comer a sobra da comida e ia descansar e eu tinha que pegar e fazer a parte do Cláudio. Então eu tinha que ajudar ele a terminar a tarefa dele. Eu falei: “Cláudio, agora vamos pegar firme junto pra terminar a sua tarefa”. Ele falou assim, ele me chamava de Nego: “Não Nego, eu estou com fome (risos), eu vou comer a sobra da comida, depois nós terminamos”. Aí eu tinha que colher mais ou menos, ele tinha colhido umas vinte e cinco, eu já tinha colhido as minhas cinquenta, eu tinha que colher quase mais vinte caixas dele pra terminar a tarefa dele, era desse jeito pra ganhar o ordenado igual.

P/1 – Pô, tu colhia setenta caixas!

R – É, setenta, setenta e cinco caixas, então era bem divertido (risos). Aí tinha umas coisas complicadas, fatos pitorescos, a gente trabalhava bastante, trabalhávamos pesado e não tinha reconhecimento lá e o pessoal, por exemplo, as namoradas, quem trabalhava no serviço mais leve arrumava as namoradas mais legais, por quê? Porque naquele tempo tinha aquelas blusas buclê ou de Banlon, isso aí tinha na praça, tinha o footing na praça e arrumava alguém pra levar pra casa dela, você colocava a mão no ombro da moça, dava prejuízo porque ficava grudado tudo na mão da gente, puxava tudo, então eram umas coisas (risos) complicadas, mas divertido, não tenho tristeza dessas coisas que passou, superamos todas essas dificuldades e foi passando. 

P/1 – E esse da caixa você tinha quantos anos?

R – Eu comecei primeiro fazendo tampa de caixa, eu estava na faixa de nove pra dez anos e com onze anos então eu comecei a trabalhar carregando as caixas vazias, aí tinha que rotular, carimbar as caixas, então era um trampo legal. Até os catorze anos eu fazia esses trampos mais ou menos assim e quando terminava a safra de laranja a gente ia pra roça, aí tinha que capinar laranja, às vezes o pessoal colocava a gente pra desbrotar, o pé de laranja quando é plantado se planta a semente que é o cavalo, a semente de limão-cravo, depois quando ele cresce dois, três meses, então se faz o enxerto de laranja, então a partir daquela parte pra cima que vai se transformar em laranjeira e às vezes no caule dela nasce uns brotos que vai ser de limão né, então você passava desbrotando e arrancando aqueles galhinhos dali. Então da parte de laranja desde pequeno, sempre, mexi com tudo e quando eu vim para São Paulo eu vim trabalhar com laranja também.

P/1 – Mas você ficou até quantos anos em Bebedouro?

R – Até os vinte anos.

P/1 – Ah tá! E a sua juventude, você continuou trabalhando, mas você se divertia? Quais eram os programas de adolescente?

R– Como eu falei a gente trabalhou bastante, então o chique era ter aquela famosa sonata (risos) que tinha o toca discos e tinha uma caixa, a gente comprava os discos e colocava lá, então com dezesseis anos eu já tinha a minha sonata, o pessoal todo se juntava ali no sábado pra escutar as músicas novas e o pessoal ensaiava algum passo. Mas eu sempre fui ruim de dança, eu nunca dancei direito. Um fato pitoresco que eu tenho que contar lá do tempo de Monte Azul Paulista ainda: ia ter um baile da bonequinha do café e todas as minhas tias, umas negas bonitas, iam participar desse Baile da Bonequinha do Café, estávamos eu e o Cláudio, o meu irmão junto, nesse tempo não tinha cama, o colchão era no chão, era aquele colchão de palhas que fazia bastante barulho, então nós estávamos por ali brincando no meio delas, aquele bando de mulher, bastante delas alisando o cabelo e elas perderam a espiriteira e colocaram uma lata de massa de tomate, colocaram álcool, colocaram fogo e colocaram o pente de ferro pra esticar o cabelo, então lá elas resolveram ensaiar uns passos do artista que estava vivo, ele cantava muito, eu me lembro até hoje o nome dele, Nat King Cole, o “Besame Mucho” essas coisas, ele cantava em espanhol. Elas estavam dançando lá e se empolgaram em uma dança e nessa, uma bate a poupança nessa espiriteira improvisada de álcool e esse álcool caiu em cima de mim, pegou fogo em mim e no desespero elas correram. Aí veio o meu pai lá e apagou o fogo, então eu fiquei todo marcado, queimou o peito, queimou a perna, tudo isso aí, deu umas bolhas grandes, ficou bem feio mesmo, aí de que jeito curou isso aí? Passaram lá um unguento que eles fizeram lá, a minha vó ainda estava viva nessa época, passou unguento lá por cima, passou três dias, depois ficou aquelas bolhas todas amarelas, aí foram em um pé de lima, o pessoal chama hoje de lima da Persa, foram lá e cortaram os espinhos daquela lima e furaram todas as bolhas que tinham ficado no meu corpo, dava uma impressão ruim, de que doía, mas aquilo lá tinha que ser feito. O legal foi que eu não fiquei com marca de queimado nenhuma, não sei se fizeram alguma simpatia (risos), mas foi legal. Essas minhas tias estão vivas ainda, duas moram aqui em São Paulo, duas moram em Santos.

P/1 – O que era a Festa da Bonequinha do Café?

R – Iam eleger então a bonequinha do café. Então tinham as separações étnicas lá, era o baile do Henrique Dias, que era o baile onde funcionava a Sociedade Negra, pode-se assim dizer, então ia ter o baile da bonequinha do café, então ia juiz de fora e escolhia a negra mais bonita daquele ano ou coisa parecida, então chamava-se Baile da Bonequinha do Café e elas iam concorrer e numa dessas me queimaram.

P/1 – Você falou que queria registrar um negócio de Monte Azul ainda que você pulou. 

R – É, já em Bebedouro, quando houve a transformação, que eu parei de apanhar (risos), na mudança eu apanhei. Após essa primeira briga com o Jesus do ferro velho, então daí chegou o inspetor e levou nós dois para a diretoria e lá contavam que o diretor da escola, segundo a turma contava, dizem que ele pegava a munheca da molecada toda, torcia, de quem brigava, então eu fui pra lá cheio de medo, sentou os dois lá, mas nesse dia eu tive uma felicidade que o diretor não apareceu por lá e daí mandou a gente voltar de novo pra classe. Quer dizer, não sofremos nenhuma violência por parte do diretor, não sei se ele fazia isso ou se era só folclore da turma, então não teve nada, então isso foi mais um motivo pra sumir o meu medo, o meu medo então sumiu de vez. Então no outro dia apareceu aquela criançada e falaram: “Vamos ver se você quer brigar”. Então colocavam a mão na frente, o outro cuspia e a gente pegava e batia, então eu não estava mais enjeitando briga de jeito nenhum. Só agora depois de muitos anos que eu fui entender, a minha professora do terceiro ano chamava-se Altair Puppo Luppi e ela falava: “Manuel, eu vim de casa hoje apressada e esqueci de trazer o meu lanche, eu moro em tal rua que é assim na Avenida São João e eu gostaria que você fosse lá buscar o meu lanche, você foi prestativo”. “Ah sim, vou sim professora.” Saía correndo, ia lá, a empregada dela então me entregava o lanche embrulhado em um guardanapo, eu vinha na sala dos professores e entregava pra ela no intervalo: “Professora, aqui está o lanche”. Ela falava: “Manuel perdi a fome (risos), você não se importa de comer o meu lanche na sala de aula?”. Ela fez isso comigo durante quase o tempo que eu estive lá no terceiro ano, só agora que eu fui entender, era pra eu não ir para o recreio pra brigar. Acho que ela evitou que eu me tornasse violento porque eu estava gostando, eu passei a vida toda apanhando e correndo e depois quando eu passei a enfrentar eu gostei, eu senti prazer em poder brigar e vencer os outros, então eu não sei se ela está viva ainda, nunca mais a vi, mas acho que ela fez uma parte importante da minha vida, me acalmou aquela época e assim passou, eu não briguei mais.

P/1 – Você disse que você comprou a sua sonata com dezesseis anos.

R – Isso.

P/1 – Que tipo de som, o que você escutava?

R – Aquela época eu escutava, daqui dos brasileiros, o Roberto Carlos, Erasmo, Renato e Seus Blue Caps, Fevers, então um monte de música legal brasileira, já eram umas músicas mais pra frente né?! De estrangeiro já tinha os Beatles...

P/1 – Você gostava?

R –... Eu gostava dos Beatles, tinha também o Johnny Rivers, então eu escutava umas músicas legais, nós tínhamos um ouvido bom, gostava realmente de música de boa qualidade.

P/1 – E namorada? Quando teve a sua primeira namorada?

R – Pra valer mesmo, tinha as namoradinhas lá, mas era coisa pouca...

P/1 – A primeira paixão que você lembra.

R – Nós tivemos as namoradas com quinze, dezesseis anos. Antes não tinha muito, que nem o meu menino começou a namorar bem antes, mas não levávamos muito jeito (risos).

P/1 – Mas tem uma que você lembra, alguma paixão?

R – As grandes paixões? As grandes paixões nós fomos ter mais quando nós íamos para São Paulo, então quando chegamos à São Paulo ficamos mais sociais, então aí passamos a ter bastante namoradas. 

P/1 – Por que vocês mudaram pra São Paulo?

R – Serviço.

P/1 – Mas os seus pais mudaram ou só os filhos?

R– Vim só eu, eu vim pra cá pra trabalhar. O dono da firma que eu trabalhava lá tinha um cartório de protesto aqui em São Paulo e foi pra Bebedouro e comprou uma fazenda e comprou um barracão e nessa brincadeira ele também comprou um box aqui na CEAGESP e de repente o vendedor que trabalhava aqui não ficou legal. Ele trocou o vendedor e precisava de um descarregador, então ele me trouxe, nesse tempo eu tomava muito sol lá, a minha cor agora mudou, deu uma clareada, mas quando eu estava lá eu era bem pretinho mesmo (risos), então ele me chamava de azulzinho. Então ele falou: “Azulzinho você vai trabalhar pra mim em São Paulo”. Então nós viemos trabalhar com ele aqui em São Paulo pra descarregar caminhão na Ceagesp.

P/1 – Você tinha quantos anos?

R – Vinte anos.

P/1 – E você foi morar aonde?

R – A gente descarregava os caminhões no box e morava no mezanino e morei lá por vários anos, acho que uns oito anos.

P/1 – No mezanino?

R – No mezanino.

P/1 – Que ano que foi isso?

R – Eu cheguei em São Paulo em 1971.

P/1 – E até 1978?

R– 1978, 1979 nós continuávamos morando por ali.

P/1 – Como que era esse mezanino?

R – O mezanino, hoje ninguém mais pousa nos box. Então tinha cama, tinha televisão. Agora, hoje esse mesmo espaço é ocupado por escritórios né, então nós trabalhávamos e dormíamos ali. No Ceasa então tinha chuveiro, tinha todas essas coisas. Mas tem que voltar lá atrás em Bebedouro porque no passado é mais legalzinho. Então eu estava na faixa de uns quinze anos e trabalhava com os homens fortes mesmo. Eu trabalhava então pra Companhia Brasileira de Frutos Sucocítrico Cutrale e eu estava então pulverizando laranja com veneno, aquele veneno que passa, o melaço. Então eu usava o melado da cana de açúcar, usava então um veneno bravo chamado Folidol ou Aldrin 40, que hoje são proibidos, mas nós manipulávamos ele nesse tempo com a mão, sem máscara, sem nada e vindo a Bebedouros há alguns atrás eu fui lá, das pessoas que trabalhavam comigo, faziam esse trabalho, a maioria deles já morreu, deu problema respiratório e morreram acho que eu não cheguei a fazer parte dessa estatística porque eu não fumava. Os outros, mesmo a molecada que trabalhava junto, fumava muito. Então eu acho que o veneno misturado com o cigarro, acabavam indo embora e um dia nós estávamos no ponto lá do trabalho, de manhã, apareceu lá o gerente do Cutrale: “Eu preciso de um menino que seja esperto, que conheça as fazendas porque vai andar com o filho do patrão”. Era o primeiro dia que ele ia começar a tomar conta dos negócios do pai, aí ele foi no meio de todo mundo e me escolheu. Não é que eu era o melhor, é que eu era um dos menores e eu era esperto (risos), conhecia as fazendas, então nesse dia eu abri as porteiras para o, hoje ele é dono da laranja no Brasil, José Luiz Cutrale, então eu andei com ele o dia todo, levando ele pra fazenda e vai em uma, tal lugar vai lá, então ele me chamava de um apelido esquisito, me chamava de Mascote: “Ô Mascote vamos em tal lugar”. Depois disso eu nunca mais o vi, passou, tivemos só um dia juntos, mas foi legal, foi uma passagem, quer dizer que eu fui o professor (risos) do maior citricultor do Brasil, então um dia eu fui professor dele.

P/1 – E como é que foi pra você sair de Bebedouro e chegar em São Paulo? Qual foi a primeira impressão que você teve da cidade?

R – O pessoal lá assustava a gente, falavam que São Paulo é uma cidade violenta, que aqui era cheio de bandido e não sei mais o quê. Então eu ficava com medo e o Ceagesp nessa época trabalhava à noite, começava a trabalhar à seis da tarde e ia até as seis da manhã. Então de domingo, nos primeiros meses que eu estava aqui, de domingo o mercado não trabalhava, a gente saía de dia pra comprar o lanche e à noite ficava trancado lá (risos), porque tinha medo mesmo da violência da cidade, mas com o passar do tempo nós fomos aprendendo. Então tinha mais gente que morava no interior que não era de Bebedouro, eram daquelas cidades vizinhas, de Monte Alto, Pirangi ou coisa parecida, então a gente ia pra cidade, era bem caipira mesmo e a gente ia pro cinema, a opção era o cinema e algumas vezes eles pegavam e davam chapéu, então um falava: “Vamos no banheiro” e me largavam sozinho na cidade pra ver se eu me perdia...

P/1 – No centro de São Paulo?

R –... No centro de São Paulo, mas eu sempre cheguei de volta no Ceasa, tinha que pegar o ônibus que era o Praça Ramos e ele voltava marcado com Vila dos Remédios, então eu rodava por lá, achava o ônibus, eu nunca me perdi (risos), de vez em quando a gente encontra com esse pessoal ainda lá no mercado e conta essas passagens e damos um punhado de risadas.

P/1 – E você ia ao centro de São Paulo?

R – Ia ao centro de São Paulo.

P/1 – Você se lembra do cinema?

R– Lembro, eu ia no Cine Ouro, no Marrocos, tinha também uma galeria que tinha o Cine Normandie. Eu gostava mais de filmes de ação, então pra gente ir ao cinema em Bebedouros era difícil porque pra gente lá era caro. Mas quando chegamos aqui, o nosso poder aquisitivo mudou da água pro vinho, então passamos a ter mais dinheiro no bolso, então pode-se dizer, ao teatro eu não ia, mas o cinema era arte, então passamos a consumir cinema, passamos a comprar roupas melhores, calçados melhores, então tudo o que a gente não tinha lá aprendemos a comprar isso e eu tinha a obrigação de mandar dinheiro pros irmãos, pra mãe e pro pai que ficaram lá. Então o ordenado que eu recebia aqui, eu recebi inteiro, eu mandava inteiro pra casa, pra mãe e pro pai, aí você pergunta: “E como você fazia pra se manter?”. Então no Ceagesp tinha os carregadores e sempre sobrava vaga, que não tinha carregador pra carregar para os feirantes, então já era fora do meu trabalho e eles me pagavam. Então pra mim sobrava um ordenado extra.  Se eu ganhava, vamos supor, o que a gente ganhava era na faixa de dois salários mínimos quando eu cheguei aqui em São Paulo, eu tirava mais outro tanto fazendo esses bicos ou esses trabalhos extra, então esse dinheiro eu guardava pra mim, eu usava pra comprar a minha roupa, pra ir para o cinema, pra ir pra restaurante, que era uma coisa legal (risos) que até então em Bebedouro a gente não tinha nada disso. Eu nunca tinha ido em restaurante, nada, restaurante eu só fui conhecer realmente quando eu cheguei aqui em São Paulo.

P/1 – E quem eram os seus amigos aqui?

R – As pessoas que trabalhavam com a gente no mercado ali e o pessoal então – sempre chegava um que era o vendedor, as pessoas mais velhas sempre falavam, naquele tempo a droga que tinha no mercado era a maconha, as outras drogas não tinha, não tinha muito ali, tinha facilitação para entrar esse material – o pessoal falava: “Não anda com o fulano porque fulano é maconheiro, então não se envolva com esse pessoal” (risos). Então a gente conversava com eles, a turma que usava esse tipo de droga, mas nunca teve um envolvimento de ir pra casa deles ou coisa parecida, não sei se isso é discriminação, mas a gente procurava não se misturar pra não ter problema.

P/1 – Fora cinema, vocês iam dançar, escutar música?

R – Depois aprendemos, então depois começamos a ir, aí descobrimos o Garitão. O Garitão ficava na Barra Funda e tinha bons shows, eu cheguei a ver lá o Roberto Carlos se apresentando, a Beth Carvalho no começo da carreira, magrinha, tocando cavaquinho e cantando. Então era um local meio caro, mas a gente ia, a gente se dava bem, a gente ia lá pra ficar apreciando, Paulinho da Viola também, a gente via ele se apresentando lá, então a gente ia sempre e às vezes ia alguém que era já era vendedor do mercado e tinha aquela parte que chamavam de camarote, então eles pegavam e levavam: “Senta comigo lá”. Então eles iam, então pagavam, pediam litro de Whisky ou coisa parecida, nessa época eu não bebia ainda, não bebia nada (risos), eu ia e tomava só guaraná junto com a turma, depois foi passando o tempo, então começamos a fazer parte do time da bebida. Eu comecei, por um tempo eu fumei também, mas não me dei bem com o cigarro, larguei do cigarro e aí tem umas coisas legais. Então quando eu cheguei no mercado eu vi, as pessoas que estavam no mercado eram todos mais ou menos incultas como eu, mas eu então tinha sede do saber, eu queria saber alguma coisa a mais para estar falando melhor, então o pessoal falou: “Ó tem curso de madureza na Lapa”. Tinha o Colégio Módulo na Lapa, então eu fui lá e fiz o supletivo, eu fiz lá a preparação para o supletivo, fiz um ano, prestei, eliminei o Ginásio e depois em uma outra eliminei o que é equivalente ao Colegial, então essas coisas foram legais. inclusive, quando eu fiz o Módulo aí eu lembrei, tinha uma moça que hoje está na televisão, aquela produtora do Faustão, aquela loira, que era produtora do Faustão, hoje ela é produtora do Ratinho e ela  sentava perto da gente, fazia também o supletivo, então você vê que as pessoas que procuram estudar um pouco acabam progredindo na vida né?!

P/1 – E a sua namorada aqui, quando você foi ter?

R – Não era namorada firme, então no começo a gente começava a sair e “Vamos lá” e eu era muito forte, eu era magro e forte. Eu treinei boxe na Academia de São Paulo com o finado Kid Jofre. Eu não disputei nenhuma luta, mas eu treinava bastante, então era superforte, aí começamos a arrumar namorada, quer dizer, não era namorada firme, mas nós dizíamos que eram as nossas “transas” (risos), pode-se assim dizer, nessa parte eu fui feliz, antes de casar eu conseguia ter bastante (risos) namorada. Eu não sabia dançar, mas não era um cara chato, não exigia muito, então arrumava namorada fácil, até que quando eu fui casar foi com trinta anos, antes eu tive bastante namorada e tinha o meu terceiro irmão, o Dito, aí eu vim trazendo os irmãos pra São Paulo (risos) eu trouxe o Cláudio, depois eu trouxe o Dito. O Dito, o pai falava que dos irmãos, até ele fez o perfil, ele achava que tinha que eleger um pra ser o intelectual da família, então ele achava que o Dito era quem tinha mais aptidão, tinha a letra mais bonita, aprendia as coisas com mais facilidade e veio pra cá, então conseguiram colocar ele até na faculdade e eu que bancava ele. Então ele estudou na  PUC, fez economia, mas aí acabou não terminando também, daí ele se envolveu no movimento negro, essas coisas todas e ele acabou, não sei se ele estava no último ano pra se formar, acabou largando, aí entrou na parte de música, tocava sax e eu sempre bancando ele, bancava sax, aí depois, um dia eu fui ver a apresentação dele em um teatro na Vila Mariana, eu tinha comprado um sax pra ele, aqueles chiques, aquele douradão, o Selmer, francês né, era quase que o preço da prestação do meu carro, paguei pra ele, chegou lá, eu fui ver a apresentação dele tocando junto com o Paulinho Astronauta, a turma toda e eu não vi o brilho do sax dele e eu falei: “Mas que desacerto é esse?”. Terminou, eu fui perguntar: “Dito, o seu sax não está brilhando” – “Não eu troquei por um Yamaha japonês”. Daí eu fui procurar saber, era um sax de qualidade inferior e ele tinha vendido o sax bom que eu tinha comprado pra ele, aí eu me desentendi com ele e eu fui obrigado a dar um couro nele (risos). Mas não foi covardia não, o Dito é maior que eu, ele tem mais de dois metros de altura e eu sou o mais velho, então ele me devia obediência. Então ele achou, quis me enfrentar, mas eu dei um couro bom nele, depois então ele casou e brigava muito com a mulher dele e eu tinha que ser fiador dele. Fui fiador do Dito aqui em São Paulo, eu acho que em três casas, nas três casas ele saiu, nas três casas eu tive que pagar as broncas dele, até que daí ele acertou com um grupo de artistas daqui que ia fazer uma excursão para a Itália, ele foi nessa excursão para a Itália, eu acho que passou um ano na Europa, depois foi para a Alemanha...

P/1 – Que grupo?

R –... Era Brazilian Days, o pessoal envolvido, eu acho que era uma filha do Sargentelli que comandava, daí eles terminaram chegando nos Estados Unidos, quando terminou a temporada dele nos Estados Unidos no Cassino Circus, ele se arrumou por lá, ele já tinha se divorciado da mulher dele aqui e ficou por lá, até hoje ele está nos Estados Unidos, não atua mais como músico, mas trabalha em outro cassino, trabalha no Luxor, ele é de confiança do pessoal lá. Então, tem aquelas máquinas do pessoal colocar dinheiro, ele é que leva a chave, ele abre, o pessoal coloca o dinheiro e ele fecha, essas coisas todas. Ele vem pra cá de vez em quando, a filha dele que é a minha afilhada, na entidade que eu tomo conta hoje, ela é professora, mas tem essas coisas dos irmãos (risos), os cinco, todos em alguma época da vida deles fizeram alguma peraltice e eu fui obrigado a corrigi-los, obrigado a dar umas bordoadas neles, mas não machucou muito não.

P/1 – Você descia o couro?

R– Ah eu tinha que bater sim...

P/1 – A pessoa fazia errado e você...

R – Não, mas eles me desafiavam, eles achavam que eu comecei a engordar e eles me desafiavam e todas as vezes que desafiaram, foi. Então aí tem outra parte legal que foi o caçula dos homens, o Ivo, grande também, mas de dois metros, motorista de caminhão e estava com a gente aqui em São Paulo, descarregando laranja nos supermercados e nesse tempo então vinha o pessoal, o pessoal trazia lá no mercado, o pessoal lutava um boxe ou brigava, eu não sei o que tem e sempre trazia pra mim, quando eu via os caras fortes, eles traziam porque eles queriam ver alguém pra bater em mim ou coisa parecida (risos). Então eu brincava, lutava pra lá e pra cá (risos), as minhas diversões no mercado, então o Ivo pegou, achou que cresceu, estava bom, ele pegou e queria ficar em Bebedouro pra namorar e eu precisava dele e ele ia pra lá no sábado de manhã e na segunda-feira ele tinha que estar aqui de volta para trabalhar, então ele falou: “Bom, eu desafio você”. Se ele batesse em mim, então eu tinha que dar pra ele uma semana de folga pra ele ficar em Bebedouro e ao contrário, se eu batesse nele, ele ia ficar quinze dias ou um meses sem ir para Bebedouro, sem reclamar. “Então tá bom.” Colocou a luva, brinca pra lá e pra cá e eu acertei uma pancada meio forte nele, pegou no queixo dele, então ele caiu no chão, eu tirei a luva, acudi ele e tudo, moral da história: ganhei. Então ele teria que trabalhar direto, ele passou um mês em Bebedouro e a minha mãe dando sopinha pra ele porque deslocou o maxilar dele (risos). Então de todo jeito eu saí no prejuízo porque daí, por causa dessa sacanagem, eu que tive que trabalhar no lugar dele, fazer o que? Todas essas coisas passaram, mas todos nós gostamos muito um do outro. Aí teve mais outra presepada... 

P/1 – É tudo homem ou não?

R – Cinco homens e duas mulheres, por incrível que pareça naquele tempo mesmo entre a gente tinha discriminação entre as mulheres, então era para os homens estudarem e as mulheres eram para se tornarem dona de casa, mas em casa aconteceu tudo ao contrário. Eu tenho orgulho das minhas irmãs, as duas se formaram, as duas são professoras em Bebedouro, então são bem inteligentes. Dos homens, nenhum se formou direito em faculdade, nenhum, nem o Dito se formou, então as mulheres da nossa família deram um show na gente, tivemos que tirar o chapéu pra elas. Uma vez então eu fiz um jogo na quina, eu já estava casado e tive a felicidade e ganhei a quadra, foi a quadra que deu mais dinheiro, então eu achei que...

P/1 – Você? Quando foi isso?

R –... Eu casei em 1981, em 1983.

P/1 – Você jogava sempre?

R – Jogava sempre, nesse dia o cara passou lá, comprou três joguinhos e pronto, comprei e deu a quadra, foi a quadra que deu mais dinheiro até hoje, deu pra comprar um caminhão. Nós estávamos em 1983 e deu pra comprar um caminhão Mercedes, 20131973, eu podia ter comprado um terreno pra mim ou ter reformado a minha casa ou coisa parecida, eu não fiz porque eu pensava nos irmãos que estavam pra trás e tinha o meu quarto irmão, o Luís, o galã, o bonitão (risos). Então eles vieram e fizeram a minha cabeça, comprei o caminhão e coloquei ele pra trabalhar, eu falei: “Então eu não vou pegar dinheiro nenhum do caminhão, mas você cuida da família, cuida da mãe”. O meu pai já tinha falecido.

P/1 – Você pegou o dinheiro todo e comprou o caminhão pra ele?

R– Comprei o caminhão pra ele e falei: “Não mexe no motor, vai tocando, vai trabalhando, tudo”. Enquanto ele estava perto de mim trabalhando aqui no estado de São Paulo, em Araras, estava direitinho, de repente ele deu uma reformada no caminhão, no pára-barro lá atrás colocou “Fera Negra”, colocou umas buzinonas, incrementou o caminhão e caiu para a estrada, aí saiu pra viajar, disse que queria conhecer o Brasil todo, só deu zebra, o caminhão quebrava lá no Maranhão: “O que aconteceu Luís?”. “Ah, eu estou aqui e estourou dois pneus, tem mais dois que estão ruins, manda dinheiro pra mim que tem um Bradesco aqui em Imperatriz (risos) e eu preciso colocar pneu.” Então eu dava um jeito, mandava dinheiro pra ele e vai lá, em uma dessas andanças ele trouxe uma moça lá do Rio Grande do Norte. O meu irmão era namorador. Depois brigou com ela e largou na casa da minha mãe e ele saiu pra viajar. Moral da história: a família toda teve que fazer uma vaquinha pra mandar essa moça de volta pra casa dela e aí foi nessas bagunças, nessas presepadas que ele me aprontava que chegou uma hora que tinha dívida e que teria que vender o caminhão pra saldar as dívidas e ver o que sobrou. Foi um pouco antes do Collor entrar, eu já estava casado, aí deu um tumor no seio da minha mulher e precisava fazer uma operação e teve que gastar o dinheiro, eu sei que a minha parte que sobrou do caminhão deu só pra minha mulher fazer uma plástica restauradora e foi no dia que o Collor prendeu o dinheiro do povo. Então do caminhão não sobrou nada, mas também eu não fiquei devendo nada e ele continuou, o Luís mora agora em Minas, trabalha lá em uma usina, trabalha lá de motorista de caminhão, então essas coisas legais aí.

P/1 – E você estava trabalhando aonde, no Ceagesp ainda?

R – No Ceagesp, eu sempre trabalhei no Ceagesp, em uma dessas eu fui à uma reunião da PUC e cheguei lá e estava o Dito sempre rodeado de mulher...

P/1 – Mas você foi no quê, na reunião do movimento negro?

R – Era reunião do movimento negro. Teve uma época que teve um grupo de teatro chamado Ungira – Um Grito Africano, foi uma peça encenada onde era antigamente o Teatro Brigadeiro, hoje é o Teatro Jardel Filho, lá na Avenida Brigadeiro Luís Antônio e o meu irmão que era músico então participou da peça e eu como tinha carro, eu trabalhava (risos), fazia de tudo, então precisa buscar tecido, alguma coisa  e eu ia correndo buscar, tem que buscar outra coisa, até essa época eu tinha a cabeça legal, então os textos da peça eu sabia todo. Então eu estava sempre nesse movimento com atores. 

P/1 – Mas você atuou na peça?

R – Não, eu namorei a diretora do teatro (risos). Nessa época, eu ainda era solteiro, senão depois começava a brigar comigo, nem sei se ela está por aqui. A Tereza Santos era diretora teatral, líder negra, uma negra forte, tinha a voz mais grossa que a minha, passou uma temporada depois, cada um foi para o seu rumo (risos) e vamos que vamos.

P/1 – E a sua esposa você conheceu como?

R – Então, em uma dessas reuniões dos estudantes, do Dito. Então ela foi, ela era prima da mulher dele, aí no conhecemos lá, começamos a conversar. Ela era formada em assistente social, mas não exercia a profissão, ela trabalhava como secretária no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, começamos a conversar e foi indo, foi criando amizade, namoramos por uns três anos e depois casamos, daí vieram dois filhos, o Manuel e a Thaisa. O Manuel foi engraçado, ele nasceu antes de completar os sete meses, ele nasceu de seis meses e pouco, nasceu muito pequeninho, nasceu com dois quilos e cento e sete e cinco gramas, mas saiu do hospital normal, ele não tinha as unhas formadinhas, saiu do hospital com dois quilos e noventa e cinco gramas e chorou por seis meses. Parece gozação, eu chegava em casa à noite e de dia ele dormia e à noite ele queria ficar acordado, e pior que não ficava acordado no berço se alguém balançasse não, tinha que pegar ele no colo e tinha que andar com ele no colo pra todo canto, então parecia sonâmbulo (risos). Onde eu morava, a casa era germinada e o Júlio que morava do outro lado disse que dava risada, conforme eu andava ele disse que a casa tremia do outro lado, ele falava: “Ó, o vizinho tá ficando maluco”. Então eu andava com o Manézinho pra cá e pra lá, agora, hoje que ele está grande, eu falo isso pra ele e ele dá risada, fala: “Ó pai, eu nunca fiz isso não” (risos).

P/1 – E você trabalhava do quê? Você continuou sempre na mesma função ou você foi mudando?

R– Não, eu fui mudando, eu passei a ser vendedor naquela firma que o Toninho me promoveu quando ele foi casar, depois eu saí daquela firma, entrei na outra firma, foi a Fama onde o Antônio Carlos que era o dono de lá, ele então me colocou de vendedor, eu fui aprendendo, eu não tenho preguiça, então se tem que trabalhar doze horas, eu vou trabalhar, se os outros fazem alguma coisa mais rápida, eu vou demorar, mas eu vou fazer também. E quando surgiu os primeiros grandes mercados no Brasil, eu acho que primeiro teve a história dos Pegue e Pague e depois veio o Jumbo, essas coisinhas assim, mas o grande mercado que pintou aqui no Brasil foi o Carrefour, mas antes ele chamava-se Ultra Center que montou lá em Santo Amaro próximo da diretoria do Banco do Brasil. Então, as primeiras laranjas que foram vendidas pra lá fui eu que vendi e daí eu criei amizade e por mais de dez anos, era Ultra Center, depois passou para Trevo e depois passou para o nome de Carrefour. Então eu continuava vendendo laranja para todos esses mercados, quando eles inauguraram no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, tudo isso aí, por mais de dez anos eu passei. O Antônio Carlos então era o patrão, ele pagava direitinho, ele pagava um ordenado, nunca me pagou um ordenado gigante, mas pagava o que dava pra suprir as necessidades e alguns anos depois trabalhando com ele, ele foi vítima da violência que existe em São Paulo. Ele sofreu um assalto na casa dele, os caras queriam roubar o carro, daí falaram que iam levar a filha dele, ele quis reagir, deram um tiro, a bala ficou alojada próximo da coluna, uma vértebra dele e aí ele foi para o hospital e tudo. Antes dele ser operado, ele ligou e disse que queria falar comigo. Então eu moro no Rio Pequeno, atravessei, fui até Santana, cheguei lá, então o médico deixou eu falar com ele, ele falou: “Eu vou passar uns tempos fora, na minha mesa”... Explicou tudo, passou a combinação do cofre, coisa que ele nunca tinha falado nada. Ele falou: “Você vai tomar conta da firma”. Só que daí a firma que a gente comprava laranja, a Fazenda Sete Lagoas, era um pessoal que eram belgas naturalizados brasileiros, é a maior fazenda de citrus, agora o Cutrale é maior, na época até comprou ela também, só que ele pagava o pessoal, a laranja que ele usava com a gente lá com um mês e quando fui eu lá, os caras me conheciam, eu não sei o que foi que eles pegaram e falaram: “Pra você tomar conta lá, as frutas que forem lá pra você, você tem que pagar a gente com uma semana”. Eu ia fazer de que jeito, só que a gente vende com um mês e vamos pagar ele com uma semana? Mas aí tem aquelas coisas, no decorrer da vida eu fui fazendo amigos e quando eu penso que não, naquela semana, eu estou nesse sufoco, aparece o Gilson, era um comprador do Rio de Janeiro, antigamente ele comprava frutas para macro atacadista e a gente se encontrava. Ele falou: “Manuel, eu estou aqui em São Paulo e eu quero que você me ajude, eu vou ser comprador das lojas Americanas e aqui em São Paulo eu não conheço ninguém e preciso que você me apresente”. Agora as lojas Americanas, por exemplo, não vende hortifruti, mas nessa época vendeu fruta eu acho que por um ano ou dois ela abriu uma seção pra vender frutas e verduras, essas coisas assim. Eu falei: “Tudo bem então, laranja eu tenho, você compra de mim”. Ele falou: “Não, não tem problema, agora eu preciso que você me apresente para comprar dos outros”. Aí eu caí na besteira e perguntei: “Mas Gilson, você vai pagar isso de que jeito?”. Ele falou: “Não, eu vou pagar tudo à vista”. Aí a minha cabeça deu um estalo, eu falei: “É com a gente mesmo”. Eu falei: “Eu vou te apresentar, melhor que isso, eu vou comprar essas mercadorias, compro pra cá, tiro a nota aqui da nossa empresa pra você e você vai pagar a gente à vista” e foi isso que ele fez, então, disso tinha que dar uma bolinha pra eles, então eu dava uma bolinha pra ele, mas com isso eu consegui pagar as laranjas que a gente pegava da Sete Lagoas, usando o dinheiro que a gente recebia dele e como eu estava no mercado há muito tempo, eu tinha crédito pra pagar essas mercadorias que eu comprava pra ele com um mês e isso foi feito. Então quando o patrão demorou mais de seis meses pra voltar a assumir as coisas mesmo, depois que ele tinha sofrido o acidente, quando ele voltou, ele se assustou porque a conta estava em ordem, as dívidas que ele tinha atrasada com a Fazenda Sete Lagoas nós havíamos pago tudo, o gado que ele tinha em Cafelândia no começo, eu tinha vendido um pouco para suprir as necessidades, já tinha comprado outro. Então ele voltou e pegou a firma rodando bonitinho, eu fui abençoado mesmo, parece gozação, quando ele voltou aí tiraram o Gilson que era o comprador das Lojas Americanas, tiraram ele, ele mudou pra outro, não deu certo, mas as contas todas ficaram acertadas e me ajudou enormemente naquele momento. Então aquelas coisas que não existem (risos), acho que não é terrestre, aquilo lá foi predestinado a ter aquilo lá, então aquilo lá foi uma graça mesmo. Aí ele viu que estava tudo em ordem e ele resolveu então, me fez uma arte, falou: “Ó, eu vou colocar você como sócio da firma”. Então me deu um percentual pequeninho, era dois por cento da firma, dois por cento só, tá bom, eu fiquei todo contente, agora eu sou sócio da firma. Aí como ele tinha bastante terra, ele comprou um sítio em Cafelândia, ele tinha por lá cem, cento e cinquenta alqueires e esse sítio que ele comprou tinha vinte alqueires, ele me deu seis alqueires, só que deu no fundo do sítio ou eu teria que ter dinheiro pra comprar a parte dele (risos) ou teria que vender pra ele. Depois que passou um tempo, que ele se desentendeu e nesse percentual que ele falou que tinha lá, ele falou assim: “O lucro que a firma for dando aí eu vou comprar em gado”, que era a parte minha que eu tinha percentual lá, ele ia comprar em gado, então foi comprando e teve uma época então que a minha parte daria mais ou menos cento e cinquenta a cento e sessenta cabeças de gado, aí então a filha dele ia casar e ele ia ter que comprar algumas coisas pra filha, ele falou: “Manuel, como nós não temos problemas, eu vou vender a minha parte do gado e eu vou vender a sua também e depois qualquer coisa, se tiver alguma desavença eu pago pra você no preço do dia”. Eu falei: “Vai, vende, sem problema”. Passou isso, não demorou seis meses, ele se desentendeu comigo, ele falou que eu tinha tomado a firma dele e me mandou embora (risos). Aí eu caí na besteira e falei pra ele: “Ó seu Antônio, então vamos acertar, tem a minha parte do gado”. Aí ele pegou e falou: “Não, o gado não, tudo aquilo lá foi um sonho, não tem gado nenhum”. Aí eu ia fazer o quê? Eu fiquei triste e tudo, mas não consegui esmorecer, aí o pessoal todo lá do mercado, tem bastante violência lá, o pessoal falou: “Não, o cara faz isso, você tem que dar um tiro na cara dele”. Eu peguei e falei: “Ah, deixa ele pra lá”. Isso foi em uma sexta-feira, aí o pessoal no mercado ficou sabendo e o vizinho lá que era o Nelson, o que eu trabalho com ele até hoje, no passado ele tinha sido o meu ajudante, quando ele marcava caixa vazia pra mim, quando eu passei a ser vendedor, ele já estava com a firma dele, direitinho, ele falou: “Ó Mané, vem trabalhar comigo”. Então eu fui trabalhar com ele, não fui ganhar um ordenado legal, mas sobrevivi, da outra firma eu só fui conseguir pegar o resto do fundo de garantia agora, no ano passado quando saiu a minha aposentadoria, eu não peguei nada e não dou por lá, não fiquei com raiva dele, nem nada e ainda de herança dos dois por cento que tinha da firma dele, ele não acertou nada, a firma dele depois quebrou e outra firma que ele tinha em Araras, no nome dele, Antônio Carlos Evangelista, aí veio o juiz, procurou um funcionário com uma queixa trabalhista contra ele e não conseguiu receber, não achou nada dele... Então tudo isso aconteceu e aí o juiz, tem aquelas cobranças online, ele veio e rastreou que ele tinha um sócio que era da firma daqui de São Paulo, esse sócio não tinha dinheiro, mas tinha o nome limpo, que era eu. Então em uma dessas que eu recebi o meu ordenado e coloquei na conta do Banco do Brasil, eu tinha os cartões de crédito pra pagar, essas coisas todas, de repente o gerente do banco lá ligando: “Mas por que o seu cartão não foi pago?”. Eu falei: “Não, tem dinheiro lá”. Aí fui lá falar com o gerente, demorou para o gerente entender. Ele falou: “Não, houve uma penhora online na sua conta”. Só então que eu fui saber desse rolo todo que tinha lá. Então, tomou o meu pagamento inteirinho, isso foi herança (risos) que o seu Antônio deixou pra mim, aí veio uma parte triste da minha vida, triste, mas fazer o quê? Tem que falar, aí a minha ex-mulher, era minha mulher, aí falaram pra ela também, ela trabalhava no IPT, ela tinha um cargo bom e, às vezes, vinham as amigas dela e falavam: “Prenderam o ordenado do Mané, então vão prender o seu também porque vocês são casados com comunhão parcial de bens”. Ela pôs na cabeça, chegou em mim e falou que a família dela sempre prezou honestidade, eu também sempre fui honesto (risos) e não queria mais ficar comigo, pediu o divórcio e nos divorciamos, então foi isso aí, mas sempre briga, continuamos os dois na mesma casa por um determinado tempo, depois ela pegou e foi embora e aí foi isso, foi desse jeito a caminhada, passou bastante tempo, esse ano agora que eu consegui me liberar, o juiz pegou e liberou, que eu não tenho que pagar mais nada na conta pra pessoa que tinha pedido esse indenização lá. Passado esse negócio eu estou com o nome superlimpo (risos), não tenho nada de cheque devolvido, não tenho nada dessas coisas ruins. Aí então eu já estava tomando conta já da Associação Nossa Turma e quando tinha certa popularidade, aí veio o pessoal e falou: “Manuel, você cansa de fazer as coisas e está sempre apanhando, então você tinha que virar político para as coisas melhorarem”. Eu falei: “Explica essas coisas direito”, Aí veio o pessoal filiado ao Partido Verde, me filiei ao Partido Verde, explicaram tudo para ser candidato a deputado estadual. Então foi uma experiência bem diferente. Eu fiz toda aquela papelada e daí um dia eu fui cheio de presença pra Assembleia Legislativa, que era o dia que ia anunciar o nome dos candidatos. Eu fui sozinho com toda a papelada, tudo direitinho, mas o coração estava fervendo por dentro, aí cheguei lá, estava a Vanessa Damo. Ela estava concorrendo também, tinha trio elétrico lá fora, batucada, um monte de coisa lá e estou lá, eu falei: “Bom, tudo bem”. Então ela foi lá, quando falaram o nome dela lá, ela levantou o braço e todo mundo: “Ah!!!”. Bateram o bumbo lá, tudo, aí quando chegou a minha vez, preparam tudo lá: “Manuel da Silva Filho concorrendo como número 43140”, mas deu uma emoção que eu não sei de onde veio, eu saí correndo, fui lá no meio, eu ergui o braço pra lá e pra cá (risos). Gente, foi uma coisa de perplexidade mesmo. Não houve nenhum apupo, não houve nenhuma vaia, nem uma palma, não teve nada pra mim e na hora eu não entendia aquilo mas depois que eu fui entender. Todo aquele pessoal que estava lá, que bateram palma pros outros tinha ido acompanhar, pessoas contratadas e eu fui lá sozinho, então eu não tinha que querer receber aplauso nenhum, mas faz parte. Então é gostoso estar passando por isso, precisaria então ter dinheiro pra fazer campanha, o pessoal pega e fala: “Fala com o fulano que o pessoal te ajuda”. Eu tomava conta da escolinha, então eu chegava e falava pros caras: “Ó mano, você já pede pra ajudar você na escolinha, você prefere que ajude você ou as crianças da escolinha? Então ajuda a turminha da escolinha”. Moral da história: eu não arrumei dinheiro nenhum pra campanha (risos). Então eu só tive o papel que o partido deu pra fazer a campanha, não tinha nada, não tinha carro de som pra andar, nada, então o que eu consegui falar foi com as pessoas e onde eu não tive muito voto, mas tive ainda, tive quatro mil cento e setenta e cinco votos. Não teve dinheiro, nada. Na prestação de conta eu fui questionado ainda porque eu não tinha dinheiro e como eu tive aqueles votos? (risos) Mas é legal, é uma participação boa, fazer o quê? Eu não ganhei, não tive nada, mas dei a minha contribuição e consegui passar aquelas crianças que estão lá na nossa turma, que nós mesmos que somos de baixo, quando a gente tem um sonho, alguma coisa na cabeça podemos fazer as coisas, então fui, não sei se foi um exemplo mau, todo mundo falava mal de político, mas foi feito, eu fiz os “corres” que nem a turma fala.

P/1 – Isso foi em que ano?

R – Em 2006.

P/1 – Você já estava separado?

R – Eu já estava separado.

P/1 – E os seus filhos estavam com quantos anos quando você se separou?

R – Eu separei em 2004, o Manezinho está com vinte e nove anos hoje, então ele estava com vinte e um anos e Thaisa com dezenove anos.

P/1 – Ah tá!

R– O Manezinho se formou pela FATEC, Projetos Mecânicos, trabalha em uma firma que faz trabalho pro Metrô e ele desenha essas partes de estação do Metrô, ele desenha então a parte de ventilação.

P/1 – Você continuou vendendo, daí você foi fazer o quê depois?

R – Eu continuei vendendo.

P/1 – Essa parte quando acabou, deu errado a história da empresa...

R – Ah, eu fui ser empregado do Nelson, eu fui ser vendedor dele, aí não tinha status, na outra empresa que eu estava, eu vendia pra tudo, pras grandes redes de mercado, essas coisas todas, eu voltei de novo, eu desci, fui ser um vendedor, mas um vendedor de segurar as pessoas pra estar vendendo ali. Vendi bem dizendo, caixa a caixa, coisa parecida, mas sem problemas. Passei a ganhar bem menos. Aí eu vi já aquela parte, quando você está em dificuldade, é duro, as pessoas pra te ajudar, tanto o Manezinho como a Thaisa estavam em colégio particular e aí eu fui lá falar com a dona do colégio. Eu falei: “Ó, eu nunca atrasei as mensalidades, sempre paguei em ordem ou adiantado e eu vou ter dificuldades agora porque além de o meu ordenado estar pequeno, nem todo mês eu vou estar recebendo em ordem, eu gostaria que mesmo que eu atrasasse a senhora me concedesse esse desconto”. Ela dava desconto de dez por cento. Nem um mês – ela falou que era norma, que era praxe –, nem um mês ela concedeu desconto, mas graças a Deus eu paguei tudo, quase me arrebentei, mas paguei o menino e a menina se formaram direitinho. Mas faz parte, não adianta reclamar (risos). Tiveram umas passagens bacanas também lá no mercado, eu sempre fui ruim pra jogar futebol, mas gols, quando eu ia jogar bola, eu sempre fazia bastante gol e teve um dos jogos quando o Netinho de Paula foi contratado pela Record, então foi jogar o pessoal da Seleção Máster do Brasil e aí passou lá o Luís Pereira, o Amaral, o Edu, eu nunca joguei em time profissional nenhum, nunca estive em futebol pago, aí eles falaram: “Manezão, vamos jogar com a gente”. Então eu fui com eles lá, então estava lá...

P/1 – Mas de onde você os conhecia?

R – Do Ceasa, o pessoal sempre passa por lá e a gente vai fazendo amizade.

P/1 – Mas você tem banca no Ceasa?

R – Não, eu trabalho em uma banca.

P/1 – Você trabalha em uma banca?

R– Trabalho em uma banca.

P/1 – E você conhece o pessoal de trabalhar na banca?

R – De trabalhar na banca. Então eu tenho bastante amizade com eles, então eles passaram lá e falaram: “Vamos jogar com a gente”. “Contra quem?” ”Contra o time do Negritude Júnior.” “Então tá bom.” Cheguei lá, eu já estava gordinho, a propaganda que estava na camisa era Casas Bahia, bem amarelinha, bem redondinho, estava lá. Eles estavam perdendo, a Seleção perdendo para o Negritude de seis a cinco. Não era jogo oficial, era um jogo arrumado pra brindar a entrada do Netinho na Record, o Datena radiando o jogo, seis a cinco e eu estou trocado ali desde o começo e o treinador fala, o finado Zé Carlos: “Ô Mané, se aquece”. Me aqueço pra lá e pra cá e ele não me coloca, aí faltando cinco minutos para terminar o jogo, o Biro-Biro falou: “Manelão, entra no meu lugar” e ele saiu e eu sou grosso, mas dei sorte, na primeira jogada que foi a bola veio, o Romeu chutou, a bola bateu na trave, o rebote veio e sobrou pra mim, entrei, eu marquei o gol, aí o pessoal deu risada porque no outro dia o Netinho foi dar entrevista em um programa de televisão, eu acho que era da Claudete Troiano ou coisa parecida, aí ela perguntou pra ele: “Mas Netinho, o jogo pra você estava bom ontem e aí surgiu aquele gordinho simpático e roubou a festa”. Eu marquei e terminei o jogo seis a seis, então fui eu que fiz (risos).

P/1 – Eu não entendi, mas nesse tempo todo você esteve vendendo na banca?

R – Isso.

P/1 – Mas você não vendia fora, pra outras empresas?

R – Quando eu estava na outra firma?

P/1 – Sim.

R – Então, eu vendia na banca e vendi para outras empresas, então eu vendi por telefone, eu tinha um status, era um vendedor como falam, um vendedor top (risos).

P/1 – Aí depois você ficou vendendo na banca?

R– Daí fiquei vendendo na banca, então houve uma regressão, mas tudo bem.

P/1 – Pro público em geral?

R – É para o público em geral.

P/1 – E você tem algum jeito que você fala, você chama as pessoas? Você tem alguma coisa que é típica sua?

R – Ah, a gente sempre contava umas historinhas lá, então.

P/1 – Como que é?

R – O limão: “Mas tem caldo?”. “Esse limão é uma cachoeira de acidez.” (risos) “Essa laranja tá mulatinha.” Mulata quer dizer que a laranja está com água, laranja que o pessoal fala que não tem uma grande qualidade. Então você fala: “Não”. Eles perguntam: “Por que ela está preta?” “Essa laranja é orgânica, essa não foi passada nenhum inseticida, por isso que ela está com essa cara, você não quer saúde?” (risos). Tá acabando isso agora, com a modernização do mercado, então os vendedores românticos como é o nosso caso vai acabar, começou agora, os produtos vão chegar todos paletizados, o cara coloca lá no mostruário e você bem dizendo, não vai ver a fruta toda, aí você vai chegar e falar: “Eu quero vinte caixas assim, vinte dessa, vinte daquela outra”. Então não precisa mais de nós, o que tinha que estar dobrando, era sobrevivendo, que nem, teve um dia, o menino lá era de origem japonesa, tem bastante japonês no mercado, então tinha que vender laranja e eles explicavam para os camaradas, mas tinha que rolar, se não vendesse eu ia ficar encalhado, então tinha que contar uma história e vender, então a laranja na caixa, ele tinha comprado, tinha que inventar, o pessoal queria o tipo de laranja legal, que são os tipos mais comerciais, dez dúzias, doze dúzias, até treze dúzias, o restante não é comercial, então em determinada época do ano dá muita laranja graúda, noventa e seis na caixa, tem oito dúzias só, então eu ensinava para os camaradas, eu falava assim para os carregadores: “Vão lá pegar do Manelão, mas ele é muito esperto, vocês peguem a laranja e vocês contem, tem que ter seis aqui de lado, se tiver seis vocês podem carregar”. Então eu tinha que inventar, então tinha muita seis e o cara comprava: “Ó carrega essa laranja aqui, ele falou que tem que ter seis de lado”. Mas os caras contavam: “Tem seis”. Só que eles esqueciam, ele não sabia explicar que ela tem que ter seis de lado, mas tem que ter cinco fileiras, aquela outra que tinha seis tinha só quatro fileiras, aí o cara chegava e ficava doido: “Mas Mané, você me mandou laranja errada”. “Comandante, que tamanho você pediu?” “Não, eu ensinei os caras a pegar, era o tipo seis.” Então era umas coisas legais, mas ninguém nunca brigou, dava tudo certo e partir do momento, agora, que houver essa modernização, não vai dar mais pra fazer essas coisas (risos).

P/1 – Essas foram as principais mudanças que teve no Ceasa?

R – Foram as principais mudanças.

P/1 – Quais outras? O que mudou no Ceasa?

R– Está mudando a embalagem também agora.

P/1 – Conta da embalagem, de como era antes e como que é agora.

R – Antigamente vinham as caixas de madeira, ainda existe, continua lutando, ainda vai resistindo, mas agora passou pra caixas plásticas, caixas de papelão, então ela vai encarecendo mais o produto, a Anvisa chegou no mercado e falou que a caixa plástica é mais recomendada, dizem que consegue fazer uma higienização melhor e a caixa de madeira então está com os dias contados, apesar que já faz mais de vinte anos que eu escuto isso e ela continua resistindo ainda (risos).

P/1 – E qual que é a história dessa organização que você faz parte?

R – A Associação Nacional da Turma?

P/1 – É.

R – Ah, isso aí.

P/1 – Quando começou?

R – Começou em 31 de Março de 1998, o que ocorreu? Houve uma denúncia que nos arredores do Ceagesp, no portão nove existia lá, como está acontecendo agora, era um embrião da Cracolândia, então ficava lá o pessoal que usava drogas. O crack estava chegando, usavam lá, vendiam e tinha aquela juventude chegando, a criançada lá de catorze, quinze anos já participavam desse movimento, aí teve a denúncia e o Ceagesp nessa época era do Governo do Estado de São Paulo, aí teve a denúncia e o Secretário da Agricultura cobrou do então presidente do Ceagesp uma resposta pra essas denúncias. Então ele pegou e reuniu as pessoas de bem lá do mercado, homens e mulheres, as pessoas que tinham mais poder aquisitivo e no meio dessas pessoas pegaram e me levaram, foi na casa do doutor Hebert que era próximo da Praça Panamericana. Então lá foi o primeiro dia que eu saboreei paella na vida (risos). Então os homens de lá pegaram e fizeram uma paella e discutiram então que ação deveriam fazer pra tirar essas crianças que estavam envolvidas nessa vida perigosa. Pegaram, falaram e chegaram a conclusão de que deveriam criar a Nossa Turma. O que eles fizeram lá? O primeiro plano era chamar esses jovens que estavam lá pra eles virem jogar futebol. Foram lá e chamaram eles pra jogar futebol, vieram, meio na marra, mas vieram, tomaram lanche, mas não ficaram, uma que quem usa essas drogas pesadas não tem fôlego pra correr e não consegue se relacionar bem com ninguém, então não pegou. Mas já que tinha tido a ideia, resolveram então fazer para as crianças que habitavam o entorno que era a favela Madeirite, o Singapura que estava sendo construído ali, a favela da Linha e a favela do Nove, então abriram lá pras mães, colocaram professoras e chamaram as mães pra levar os filhos, começou então com os filhos maiores, acima de seis anos. Então eles iam, tomavam o lanche, tinha aula de alguma coisa, de reforço, alguma coisa e com isso foi conquistando o pessoal. Aí como todo começo de organização, um novo dinheiro entra relativamente fácil, então no começo teve e eu participando dessas reuniões todas. Então no começo, os laranjeiros que eram fortes, o da Bananica, o do Bradesco, tinha um diretor do Bradesco também, todo o comércio ali ajudou, então compraram máquina, mobiliaram tudo, reformaram o galpão onde está a Nossa Turma e entrou um dinheiro legal, eu participei dando palpite lá, mas não tinha nada de poder. Aí passou dois anos, mudou o presidente do Ceagesp e o pessoal da Nossa Turma tinha feito só a ata de composição, o CNPJ e não tinha mais nada, não tinha corrido atrás de mais nada, aí eles começaram a instituir então uma taxa social pra ajudar a Nossa Turma. De todas as empresas que tem dentro do CEAGESP no boleto de pagamento do aluguel, eles cobravam uma taxinha. Então se a pessoa queria pagar a taxa, pagava, se não queria, não pagava. Como a taxa era pequeninha, todo mundo pagava, então tinha dinheiro pra Nossa Turma pra estar mantendo funcionário, pra estar mantendo as coisas funcionando. Aí mudou o presidente, o outro presidente que entrou chegou lá com outro perfil, e falou assim: “Essa Nossa Turma se não tiver organizada, essa taxa que estão cobrando dos permissionários é ilegal”. Cortou a taxa e fechou a Nossa Turma por quinze dias porque ele disse que não tinha documento, essa coisa toda, então o pessoal da comunidade fez um levante, foi lá na porta da diretoria, fizeram um barulho e aí foi quando eles me pegaram e me trouxeram, falaram: “Manelão, você vai lá tomar conta da Nossa Turma”, mas não fizeram eleição, não fizeram nada. “Ó, você vai lá tomar conta da Nossa Turma e vai ter que ajeitar aquilo lá.” Então daí eu cheguei meio assustado e comecei a perguntar pras pessoas, pra todo mundo: “Como é que faz pra tocar uma ONG, o que precisa, que documentos precisa?”. “Então, CNPJ…”, já tinha, “…tem que ter o CMDCA – Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.” “Onde eu consigo isso?” “COMAS – Conselho Municipal de Assistência Social e Utilidade Pública”, essas coisas todas, eu fui correndo atrás de tudo isso, mas daí pra conseguir esses documentos, barrava em um documento importante que precisava que era o alvará de funcionamento e quem dá esse alvará de funcionamento é o Bombeiros da Cidade de São Paulo, aí eu perguntei: “De que jeito faz?”. O camarada falou: “Você pega um engenheiro, faz uma guia, um requerimento, recolhe-se uma taxa e vai nos Bombeiros que é aqui na Raposo Tavares, eles vem fazer a vistoria”. Então fomos lá, fizemos isso, o bombeiro veio fazer a vistoria e falou: “Negativo, nem o Ceagesp tem alvará de funcionamento, como vocês vão querer ter o alvará de funcionamento?” Aí ficou meio complicado. Deus deu pra gente um monte de dom, mas o grande dom que Deus deu pra mim é a voz, então eu canto bingo em creches, essas coisas assim e em uma dessas estava essas entidades antialcoólicas e tinha um bombeiro que estava se recuperando pra sair do álcool, essas coisas todas. Eu fui lá e contei o meu lamento pra ele lá. Ele falou: “Você vai ter que dar um jeito, você vai ter que ir lá falar com o comandante do Corpo de Bombeiros, lá na antiga Praça Clóvis, lá perto da Praça da Sé”. Então eu fui lá, cheguei lá, não me atenderam, falaram que tinha que ter marcado data e tudo. Eu fui lá algumas vezes e acabaram não atendendo, voltei e falei com ele. Ele falou: “Vamos descobrir onde o comandante dos bombeiros mora”. Ele não conseguiu descobrir, mas descobriu o centro espírita que ele frequentava e aí foi nesse centro espírita que nós fomos lá e conseguimos conversar com ele. Aí ele falou: “Mas aqui não é lugar de falar disso”. Eu falei: “Mas a gente vai no seu gabinete e o senhor não nos atende”. Aí ele deu risada e falou: “Marca o endereço direitinho aí que eu vou lá fazer uma visita”. “Em quanto tempo você vai?” “De um dia a um ano está no nosso prazo.”  Ele pegou e brincou: “Mas não faz isso não que o cara esquece”. Não deu uma semana, ele próprio apareceu lá na Nossa Turma, levou umas três, quatro guarnição do bombeiros e tudo, levaram como se fosse um dos bombeiros, como se fosse um engenheiro, anotou tudo que estava errado, tudo que devia ser feito. Ele falou: “Ó, você pega e faz essas correções, faz tudo isso aqui assim, recolhe a taxa e vai lá”. Aí eu falei: “Mas eu fui lá já e eles falaram que nem o Ceasa tinha alvará”. Ele pegou e deu o cartão dele, fizemos todas aquelas reformas que ele mandou fazer, recolhemos a taxa e fomos lá de novo na Raposo. O rapaz falou: “Mas você está gastando dinheiro a toa”. Daí eu mostrei o cartão (risos), isso foi a carteirada que a turma falou, aí ele foi lá, fez a vistoria e a partir daí então começaram a sair os documentos, conseguimos tirar todos os documentos. Aí precisávamos saber, todo o lugar que o pessoal falava, onde tem dinheiro, vai ter algum recurso, eu saía e ia atrás. Aí eu estava conversando em outra reunião de alcoólatras também, o camarada falou: “Ó, vai na Fundação Bradesco que lá é capaz de você arrumar alguma coisa”. Eu falei: “Mas eu não conheço ninguém lá”. Ele pegou o telefone, veio no box outro dia lá, arrumou o telefone, o pessoal ligou, era um dia de sábado, a pessoa estava no descanso dela, mas ela como tinha amizade com ele, falou: “Não, o senhor vai lá na segunda-feira, leva todos os documentos que nós vamos conversar”. Eu falei: “Mas segunda-feira não vai dar, eu não tenho como falar com as outras pessoas pra ir lá”. Ela falou assim: “Quem está precisando de ajuda? É o senhor ou sou eu? (risos)”. Eu falei: “Não, pode deixar que segunda-feira cedo estarei lá com os documentos”. Aí me virei, arranjei o endereço das outras pessoas que trabalhavam comigo, falei com elas por telefone, chegaram às seis horas da manhã na Nossa Turma, juntamos os documentos, fomos lá para a Cidade de Deus pra sermos atendidos por essa pessoa, aí deu o horário, oito horas, veio uma secretária falar: “Ela está meio atarefada, não vai poder atender vocês agora”. Deu um lanche pra gente, aí ela veio e falou: “Ó, você tem que ser rápido, em cinco minutos fala tudo o que tem pra falar (risos) e eu vejo o que eu posso fazer”. Então eu comecei a falar, naquele dia eu estava bem, estava iluminado pra falar, eu tinha falado por mais de cinco minutos. Ela chamou a secretária e falou: “Ó, segura a outra reunião lá”. Ela falou com a gente por mais de trinta minutos e se comprometeu a ir nos visitar na Nossa Turma. Ela foi lá visitar a gente depois e doou pra gente papel, acho que ela fez um teste com a gente, doou pra gente ventiladores velhos, papel sulfite que tinha sobrado das agências, coisa assim. Aceitamos, fizemos lá. Aí voltou com outra conversa, já começou a melhorar, aí veio e falou que eles tinham a ideia de montar um grupo musical de instrumento de percussão, então eles montaram pra gente um grupo chamado Repercussão. Então, no total tinha mais de cem jovens participando desse grupo, tinha a menina tocando os instrumentos de percussão, uma turma no coral e as meninas dançando, então o grupo ficou legal. Eles pagavam pra gente um instrutor de Música que era o Dinho Gonçalves, é percussionista famoso mesmo. Arrumaram uma professora de canto que tocava piano pra ter o coral da criançada e uma professora de Dança e foi tocando, tocamos isso de dois a três anos, o Bradesco funcionou junto com a gente. Quando o Lula veio à São Paulo lançar o Expo Fome Zero no Expo Center Norte, as crianças dançaram lá nesse dia, do nosso grupo Repercussão, dançamos lá, dançamos em frente à Polícia Federal da Lapa, na escadaria do prédio da Gazeta.

P/1 – Quantas pessoas são atendidas hoje?

R– Na Associação? Pequenos são cento e cinquenta crianças pequenas, tem setenta no reforço escolar e tem perto de cem, cento e dez no futebol e tem também o trabalho com as mães que é na parte de patchwork, crochê, bordado, fuxico. Então elas fazem um monte de coisinhas e o grupo Repercussão foi indo bastante, mas só daí então que vem as problemáticas da coisa. Eu era o presidente da Associação, mas daí eu vi que eu não tinha quase que nenhum poder, aí apareceu (risos) a diretoria, a diretoria era ligada ao Sindicato de Funcionários do Mercado… E eles queriam mandar em tudo, eu era o presidente, mas eu não mandava, quando eu consegui organizar tudo, eles apareceram pra dizer que eram eles que mandavam, que tinha que fazer as coisas deles e aí eles começaram a fazer as coisas que era pra me contrariar. Eu gostava do grupo Repercussão. Na festa de cinquenta anos da Petrobrás nós fomos convidados pra tocar na Refinaria de Capuava, então o Bradesco mandava os ônibus, a gente colocava a criançada toda chique, alto estilo mesmo e eu ficava contente com isso. Eles brigaram comigo e resolveram falar: “O Bradesco tem muito dinheiro, o Bradesco tem que dar mais dinheiro pra Associação”. Eu falei: “Não, não é assim” e fizeram uma carta, trouxeram pra mim assinar. Eu falei: “Não, eu não concordo com isso” e não assinei, mas eles então pegaram essa carta, mesmo sem a minha assinatura, encaminharam pra direção do Bradesco. Aí acabou. Chegou lá e veio lá pro pessoal que tinha a parceria com a gente, eles chegaram e falaram que era sentido, mas que eles tinham que romper o convênio com a gente e acabaram rompendo mesmo. Perdi. Nunca mais. E o triste é que essas crianças que estavam lá ficaram meio dispersas, não tinha outro local pra absorver eles e não tinha verba pra tocar aquele projeto e dessa meninada que tinha lá, um dia quatro deles que fazia parte do projeto saíram pra fazer umas artes, foram fazer um assalto na Avenida Imperatriz Leopoldina, roubaram um carro em uma academia de tênis e saíram, o carro que eles roubaram era blindado, daí se desentenderam, a polícia cercou eles e nesse interino a polícia matou três deles, sobrou só um deles, bem ferido lá, então e esse menino depois, passado uns tempos, tinha que cumprir medida sócioeducativa e tinha que ter alguma entidade pra pegá-lo e nós já conhecíamos ele. O representante do juiz veio lá, então ele passou quase seis meses lá com a gente sem ter contato com as crianças, mas ele cuidava da horta, cuidava de tudo, agora ele já está livre e tudo. Outro dia eu fiquei feliz, ele apareceu lá na Nossa Turma com o filhinho dele. Então tudo isso, se as pessoas tivessem bom senso... 

P/1 – Na Nossa Turma você faz o que hoje?

R – Sou o presidente.

P/1 – Você é o presidente?

R – Sou o presidente, mas sou um presidente diferente, a turma lá tem que correr atrás das coisas (risos).

P/1 – Mas você recebe?

R – Não, na Nossa Turma não, lá eu sou voluntário. Eu recebo da firma que eu trabalho. Agora estou aposentado. Eu tenho dois mil e trezentos reais de aposentadoria. A firma que eu trabalhava me dá mais mil e duzentos reais por mês, então dá três mil e quinhentos reais. Tem o jornal dentro do Ceagesp lá, então eu tenho uma coluninha e por essa coluna, ele me dá mais quinhentos reais, então eu tenho quatro mil de renda.

P/1 – O que você faz no jornal do Ceagesp?

R– Eu escrevo, eu tenho uma coluna.

P/1 – Sobre o que é?

R – Sobre as coisas do dia a dia (risos).

P/1 – O que você conta?

R – Ah, conto, por exemplo, eu falo a fruta que está na época, o que de fato corriqueiro ocorreu e nisso eu tenho espaço pra estar falando da Nossa Turma, então o que nós promovemos no mês de maio, promovemos a Queima do Alho, é aquela que fala da comida típica dos tropeiros e reuniu lá mais de três mil pessoas, então no frigir dos ovos dessa festa sobrou pra gente perto trinta e cinco mil reais, ajudou a gente, o Ceagesp repassa pra gente. Então, depois desses rolos todos, a Ceagesp não repassava dinheiro pra gente, então tinha que viver pedindo, tinha que pedir aqui, pedir ali, aí depois eu saí, o [Gilberto] Dimenstein falou comigo, colocou no Cotidiano e depois passado mais seis meses ele escreveu aquele livro chamado Heróis Invisíveis, no qual ele retrata a vida de cinquenta personagens que segundo ele, não tem como fazer, mas conseguem fazer as coisas, então eu sou um desses personagens.

P/1 – Ele fez por conta da Nossa Turma?

R – É, ele fez sobre o meu trabalho por conta da Nossa Turma, no livro conta sobre cinquenta personagens que cuidam de crianças, então sou eu, ele me elegeu como número um nessa parte, apesar das dificuldades todas. Então no dia do coquetel, o coquetel foi chique, foi no Museu Brasileiro de Escultura, na Avenida Europa, então o Dimenstein falou: “Manelão, você tem que aprender a negociar melhor o potencial que você tem, a CEAGESP mesmo tem obrigação de contribuir com vocês com verba”. Eu falei: “De que jeito?”. Ele falou: “Ó, na responsabilidade social, você vai lá e conversa com o presidente e se vira”. Foi a única vez que eu o vi, depois não o vi mais e foi isso que eu fiz. Então eu fui lá no outro dia mesmo falar com o presidente do CEAGESP, ele pegou e chamou o jurídico, ele falou tudo, eles passaram a ajudar a gente, a princípio, com doze mil reais, depois, agora, passou pra dezoito mil reais, a gente está gastando na faixa de quarenta e dois mil reais pra manter a instituição funcionando e outros tem que conseguir, consegue mil de um, tem alguns que fazem boleto, contribuem com dez reais, outro com cinquenta reais, mas conseguimos manter a obra.

P/1 – Como é que o Dimenstein entrou em contato com você?

R – Apareceu lá uma estudante de Jornalismo, me cumprimentou e perguntou se podia me entrevistar, então entrevistou e depois passados uns dias saiu na coluna do Dimenstein, ele pegou e escreveu que tudo ali em volta da Zona Oeste, ali cheirava feio, próximo ao Parque Villa Lobos, aquela paisagem feia de caixaria, aquele cheiro de fumaça, mas surgia a esperança no meio do lodo que era o professor Manelão que conduzia as crianças, isso foi mais ou menos o que ele colocou no Cotidiano, aí o pessoal do CEASA ficou bravo, aí criou-se um monte de (risos)...

P/1 – Hoje você aposentou da...

R– Do trabalho, mas eu continuo ainda.

P/1 – Você vende ainda?

R – Vendo ainda, eu não vendo direto porque os filhos do patrão agora estão tomando conta, tem que deixar eles se assenhorearem do trabalho porque não dá, podia ser que eu estivesse perturbando eles, então eu fico lá, algum problema que tem, se tem algum fiado pra receber, eu que vou receber, vou estar conversando e eu tenho a incumbência de ficar no sábado, no sábado, o pessoal não trabalha, então eu trabalho no sábado, então está me ajudando, não ganho muito, mas também não trabalho muito.

P/1 – Você casou de novo?

R – Não casei, eu estou morando com outra mulher, é bem mais jovem que eu, mas está indo, eu não tenho bronca, os meus filhos se dão muito bem comigo, a ex-mulher também, teve só esses desentraves, mas não tem problema, conversamos e tudo.

P/1 – Você disse que você canta em bingo...

R – Não, é cantar o bingo.

P/1 – Falar os números?

R – É, é falar os números, vai e brinca com a turma.

P/1 – Como é que você faz, o que é? Conta um.

R– Eu brinco, por exemplo, com nome de jogador: “Letra B, Ronaldo, número nove (risos). Letra B, Neymar, número 11. Letra O”. Aí tem que brincar com os caras bravos: “Olha a quadrilha do Planalto. Olha o Demóstenes e o Cachoeira. Ó, o 71 (risos)”. E assim nós vamos indo. Você falou da parte religiosa, eu vou embolando tudo, acho que a cabeça já não anda mais legal, então eu estava afastado da igreja, quando eu casei, então quando os meus filhos foram fazer a primeira comunhão, aí tinha um padre lá, o padre Zé Carlos chegou e falou assim: “Os filhos cujos os pais não frequentarem a igreja, não participarem da comunidade, não vão fazer a primeira comunhão”. Então chegou o Manezinho, chegou a Thaisa: “Pai, você e a mãe tem que ir à igreja, senão nós não vamos fazer a primeira comunhão”. “Então tá bem, vamos lá.” Então fomos eu e a ex, chegamos lá, conversamos e tudo, no primeiro dia que eu fui à igreja, na missa, nesse dia não tinha padre, era um ministro, ele me colocou pra fazer um leitura e eu, fazia muito tempo que eu não lia nada, eu fui lá, fiz a leitura, aí o pessoal gostou, a minha voz era forte, não errei nada, mas me trataram tão bem que a partir desse dia eu não larguei mais da igreja, fui e fiquei na igreja, a mulher foi e não gostou, a criançada fez a primeira comunhão e ela não foi mais, a criançada fez a primeira comunhão também e fugiram da igreja (risos) e eu continuei na igreja, aí que me colocaram pra cantar aos domingos. Então as creches ali do Rio Pequeno, o pessoal já comprou uma televisão, uma geladeira, alguma coisa, então o pessoal grita: “Ô senhor Manuel, o senhor vai lá cantar o bingo pra gente?”. Eu falo: “Eu vou lá”. Mas não tem grande coisa, então eu peço no Mercado umas frutas, legumes, levo pra lá e o pessoal prepara a cesta de frutas e arruma outras prendas e o bingo vai nisso aí, eu brinco com o pessoal lá, então coloca-se kit surpresa, marca o nome bem legível nas costas da cartela, a pessoa marca o nome bem legível nas costas da cartela, o pessoal passa recolhendo, então nós sorteamos aqui, lá. Então pra cada um que tira o nome, dependendo da cara da pessoa eu dou alguma coisa pra estar brincando. Então chegou e sorteou lá o fulano, o fulano vem lá e você dá um abacaxi pra ele, o outro você vem e dá um pacote de laranja, alguma coisa, o dia que eu levei os meus amigos lá no Ceasa, levei o Alemão, ele também descarregou fruta comigo e hoje é dono de uma grande empresa lá, então eu consegui levar ele para o bingo lá e estava toda a família dele. Eu falei: “Eu tenho que sacanear o Alemão”. Então tinha pepino lá. Eu falei: “Alemão, foi sorteado”. Ele: “O que eu ganhei?”. Chegou todo contente e eu peguei três pepinos (risos) e eu: “Três pepinos, Alemão”. Aí a turma toda deu risada. Moral da história,: todo mundo contou no Mercado todo, isso é legal, então a gente vai indo nessa maluquice doida. 

P/1 – Então, você estava falando que você é um presidente diferente.

R – Ah, então, eu sou um presidente diferente, por quê? Porque geralmente os presidentes chegam nos locais pra mandar, eu não. Então eu tenho que fazer, então pra uma entidade como a nossa que é filantrópica, tem que pedir. Então uma vez por semana eu pego o carrinho de carregador e ando pelo mercado, a minha incumbência é arrecadar legume e fruta que dá pra passar a semana. Então, a pessoa fala: “Você está querendo se aparecer”. Não é. É que se eu vou pedir pra alguém ir carregar pra mim o pessoal vai dar desculpa que não tem tempo ou coisa parecida e que tem que ser outra hora. Então, eu vou. Peço. A pessoa deu, eu já pego e já coloco no carrinho. Se eu tiver que andar o Mercado todo eu vou andar o Mercado todo com o carrinho, mas a minha incumbência é: “Eu vou sair, vou encher o carrinho pra levar as frutas pra escolinha”. Então eu saí, andei e eu tenho que levar mais ou menos umas doze ou treze caixas de frutas, dá mais ou menos uns trezentos e cinquenta a quatrocentos quilos de fruta, isso dá pra passar a semana. Então eu peço em um, se naquele não dá, eu peço em outro e pra mim o pessoal sempre vai dar porque depois eu vou conversando bem. Mas depois a cara fica meio feia, o pessoal fica um pouco com medo e aí acaba dando (risos). Então, isso eu acho que é ser diferente, eu coloco a mão na massa mesmo, não coloco as outras pessoas pra ir, por exemplo, tem funcionário lá, eu não vou colocar um funcionário lá pra estar se sujeitando a pedir as coisas, não, eu mesmo vou.

P/1 – Senhor Manuel, olhando a sua trajetória de vida, se você tivesse que mudar alguma coisa na sua vida você mudaria? Ou faria diferente?

R – Eu iria me esforçar pra ter conseguido estudar mais, pra aprender mais coisa, que nem, por exemplo, eu não viajei, eu sou brasileiro e tudo, trabalhei direto todo esse tempo. Viajar, eu não viajei. Uma vez eu fui ser padrinho de casamento no Rio Grande do Sul, outra vez fui até Pelotas visitar a fazenda da Cica e fui ser testemunha em uma bronca no Espírito Santo (risos). Então eu não viajei nada, só rodei por aqui. No Rio de Janeiro, no passado, eu ia uma vez por mês, eu tinha que ir lá visitar os mercados, mas o resto não viajei, não conheci quase que nada do Brasil.

P/1 – Qual que é o seu maior sonho hoje?

R – Ah, eu ver aquela criançada lá crescendo, saindo, melhorando de vida, trabalhando, eu queria que eles fossem, quando chegassem, falassem assim: “Tio Manelão, eu estou na faculdade, estou trabalhando, estou fazendo alguma coisa pelo outro irmão, estou conseguindo ajudar”. Que nem, teve o caso de um dos nossos alunos de futebol que foi campeão mundial sub-15 pelo São Paulo em 2009, foi a Copa Nike que eles disputaram na Inglaterra no campo do Manchester e o São Paulo foi campeão e o zagueiro central, o Breno – não é o Breno que pôs fogo lá na Alemanha não, é outro Breno –, esse nosso agora está com dezessete anos, ele foi campeão sub-15 na Inglaterra jogando como zagueiro central com a camisa do São Paulo, mas foi oriundo, foi formado na nossa escolinha, ele passou pela Nossa Turma e o que foi legal foi quando ele foi campeão, já estava contratado pelo time de base do São Paulo e quando ele chegaram na segunda-feira, quando foi na quarta-feira de manhã ele foi lá mostrar a medalha que ele tinha ganhado lá, a camisa com que ele tinha jogado lá na Inglaterra, as fotografias que ele tirou com o povo. Então isso me deixou superfeliz. Não é que a gente pede reconhecimento, é que as pessoas quando crescerem venham, voltem, não precisa dar dinheiro nenhum não, volta lá e dá um depoimento, vem e dá um abraço na gente, dê um aperto de mão e está legal as coisas assim.

P/1 – O que você achou da experiência de dar esse depoimento para o Museu da Pessoa?

R – Pra mim foi gratificante, é a oportunidade que as pessoas simples tem de estar mostrando aquilo que eles fazem. Eu acho que eu procurei fazer no meu dia a dia da vida. Vocês estão conseguindo passar, eu espero que isso se multiplique, não sei se eu sou algum modelo, mas fiquei feliz.

P/1 – Obrigada! Em nome do Museu da Pessoa eu agradeço a sua entrevista superbonita, superencorajadora, pegou no batente (risos).

R– Valeu! E vamos em frente! Salve, Salve!

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