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História

“Nada cai do céu”

História de: Kauê da Silva Carneiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Infância na Zaki Narchi. Casa da avó e tios. Brincadeiras de infância. Paixão por futebol, desde novinho. Escola. Comunidade Zaki Narchi. Aulas de futebol e treinos. Amigos. Papel da Associação na Comunidade. União e parceria entre os moradores. Doações e incêndios. Taça das Favelas. Discriminação. Rotina. Inspiração. Pandemia. Sonho em ser um jogador profissional para ajudar a família e a comunidade.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Kauê, para começar, queria que você se apresentasse, dizendo seu nome. 

 

R – Kauê da Silva Carneiro.  

 

P/1 – Qual dia você nasceu?

 

R – Quinze de maio de 2004.

 

P/1 – Em que cidade?

 

R – São Paulo. 

 

P/1 – Quais os nomes dos seus pais?

 

R – Carlos André Carneiro e Maria Josinete da Silva.

 

P/1 – Que atividade eles fazem?

 

R – Meu pai é caminhoneiro e minha mãe é aquelas que trabalham em casa, salão de beleza.

 

P/1 – E como eles são? Qual sua relação com eles?

 

R – Boa. A gente mora junto.

 

P/1 – Como você os descreveria?

 

R – Meus pais, né? Preciso deles sempre, estão sempre me ajudando.

 

P/1 – Seu pai já te contou um pouco como é a rotina dele?

 

R – Já. Trabalhou muito, principalmente na minha idade, teve a perda do seu pai na minha idade também, ele falou que foi muito difícil para ele. Teve uma desviada de caminho, claro. Que, querendo ou não, estava muito difícil para ele. Mas hoje, graças a Deus, está bem melhor.

 

P/1 – E vocês moram todos juntos?

 

R – É.

 

P/1 – E sua mãe, como foi a criação dela, a infância?

 

R – A minha mãe foi mais... que ela é nordestina, cuidando dos irmãos, normalmente. Veio para cá pra São Paulo nova também, teve meus irmãos e hoje trabalha de... acho que é empreendedora que fala, né? É isso. 

 

P/1 – E quantos irmãos você tem?

 

R – Eu tenho seis.

 

P/1 – Seis? Quem é o mais velho e quem é o mais novo?

 

R – Seis. O mais velho é o meu irmão Ezequiel, tem 28 e a mais nova é a Bianca, tem quatro. 

 

P/1 – E você está em que lugar dessa escadinha?

 

R – Eu estou no meio, tenho dezessete.

 

P/1 – E como é sua relação com eles?

 

R – Boa. Não tem briga, não. Todo mundo junto, é bom, assim.

 

P/1 – Tem alguma atividade que vocês gostam de fazer juntos?

 

R – Eu me misturo mais com meu irmão mais velho, a gente é mais futebol, mesmo. Minhas irmãs ficam mais entre elas, as mulheres, entendeu? Aí, fica mais agitado eu e meu irmão, mesmo. 

 

P/1 – São quantas meninas?

 

R – São quatro. Tem duas mais novas, uma de sete, uma de quatro e as outras são mais velhas, 23 e 21.

 

P/2 - E qual é o nome delas?

 

R – As mais velhas são a Raquel e a Janine e as mais novas são a Beatriz e a Bianca.

 

P/1 – E você conheceu seus avós?

R – Conheci. Só não conheci o pai do meu pai, mas a mãe dele conheci, sim. Da minha mãe conheci, teve a perda do meu avô, pouco tempo atrás e minha vó está aí.

 

P/1 – E você mora junto com eles?

 

R – Minha avó mora na Zaki Narchi. Meus pais moram fora, lá para o Jaçanã. Mas eu fico mais na Zaki Narchi mesmo, com a minha vó. Eu gosto dali, do ambiente. Fui criado ali, me sinto melhor. 

 

P/1 – E como é a sua relação com a sua avó?

 

R – Boa, muito boa. Eu também ajudo muito ela. O carinho que meu avô dava nela, eu dou duplamente. Aí fica muito bom o clima. 

 

P/1 – Como que é, assim, se você pudesse descrever um pouquinho, a dinâmica da sua casa?

R – É básico. É um apartamento, dois quartos, banheiro, uma cozinha, é isso. 

 

P/1 – E você cresceu nessa casa?

 

R – Cresci, fui criado ali. 

P/1 – E essa sua avó, que você mora junto, você sabe um pouquinho da história dela?

 

R – Basicamente como a da minha mãe. Nordestina também. Veio para cá cedo também, com meu vô. Da minha avó mesmo, que eu sei é só isso daí, mesmo. Teve os filhos cedo também, trabalhou muito. Trabalhava, se não me engano, em dois empregos, para sustentar os filhos dela e hoje é aposentada.

 

P/2 - E mora você e ela?

 

R – Não. Mora ela e mais quatro filhos dela e mais eu, como neto, mesmo, da minha casa.

 

P/1 – Você é o único neto?

 

R – É. 

 

P/1 – E seus irmãos moram juntos com seus pais?

 

R – Sim. Só as duas pequenininhas, porque as minhas outras irmãs já são casadas.

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Muito, não. Não sou muito de ficar perguntando [sobre] esses negócios.

 

P/1 – E sabe como escolheram seu nome?

 

R – Na verdade, foram os meus padrinhos que escolheram o meu nome. Minha mãe ia colocar outro nome em mim, só que é muito junto com meus padrinhos e pediu pros meus padrinhos escolherem meu nome. Aí escolheram Kauê.

 

P/1 – E quem são os seus padrinhos?

 

R – Eu chamo mais pelo apelido: Jubileu e a Fabi.

 

P/1 – Eles são amigos, tios?

 

R – Não, eles são casados.

 

P/2 - E na sua família, você lembra de algum costume, alguma comida que você lembra, quando se fala da sua família?

 

R – Comida, assim, mesmo, eu fico mais observando, que é comida nordestina. Que é a culinária de lá, que fala, né? Que são mais aquelas comidas, mas eu não curto muito, não. Eu sou mais paulista, assim. Não sou muito chegado, não. 

 

P/2 - E que comida que é? 

 

R – Só fala de negócio de mandioca, rabanada. Esses negócios aí. Eu nem ligo muito, não. 

 

P/2 - E o que você gosta de comer?

 

R – Nordestina, comida nordestina? 

 

P/2 – Não. 

 

R – O que eu gosto de comer, mais, mesmo, pra falar a verdade, é estrogonofe com macarrão. E ajuda, né, macarrão, pra mim, que jogo futebol. Massa, sempre é bom.

 

P/1 – Kauê, quando você era muito pequeno, do que você gostava de brincar?

 

R – A gente brincava mais de esconde-esconde. Fala que o pega-pega é ajuda- ajuda, né? E ali na comunidade é muito moleque, muita pessoa. A gente começava sete horas, chegava da escola e esperava a mãe chamar, quando era no outro dia a gente saía mais, porque chegava tarde. Era legal, muito legal.

 

P/1 – E era lá dentro da comunidade, mesmo?

 

R – Sim, lá dentro.

 

P/1- Que legal! E você lembra da sua primeira lembrança da escola? 

 

R – Da escola? A melhor coisa foi ter conhecido amigos novos. Normalmente, uma escola perto da comunidade, vem mais comunidade. E conhecer outras pessoas é bom.

 

P/1 – Você entrou com quantos anos?

 

R – Seis.

 

P/1 – E teve algum professor marcante ou professora?

 

R – Para mim teve três: a Simone, a Carina e a Heloísa.

 

P/1 – E por que elas foram marcantes?

 

R – Porque me ajudaram muito. No momento que eu tinha muita dificuldade, tem professor que não tem paciência, foram as que mais pegaram no meu pé. Normalmente, quando pega no pé acho ruim, mas é sempre bom. Ajudou bastante.

 

P/2 - Elas davam o quê? Que matéria?

 

R – Foi mais professora do ano inteiro. E essas daí foram as melhores, pra mim.

 

P/1 – E como elas te ajudavam? Você lembra de algum momento?

 

R – Eu lembro, sim, porque foi um dos momentos que eu estava ruim na escola, pra falar a verdade. Conversaram comigo, pegaram bastante no meu pé. Teve que conversar até com a minha mãe, aí melhorei bastante.

 

P/1 – E você quer dividir porque estava ruim?

 

R – Foi mais amizade, mesmo. Ia com um, ia com outro, me dava mal. Mas depois dessas conversas, eu me dei muito bem.

 

P/1 – Como funciona isso de amizade, lá?

 

R – Se você não tiver cabeça, você vai junto. Se você for uma pessoa que pensa, parar pra pensar e falar: “Se eu for junto, eu me dou mal. Se eu parar aqui e pensar, posso ficar tranquilo”. É isso daí porque, querendo ou não, a pessoa não quer saber só dela, ela fazendo o ruim, quer que você faça também, para não piorar só para ela. É assim. 

 

P/1 – Vai influenciando?

 

R – É. 

 

P/1 – Você estava quase indo, é isso? E aí você...  

 

R – Sim. Eu estava quase indo, mas era mais bagunça, mas nunca fui chegar nesses negócios de... que, se você for parar pra pensar, criança com doze anos já está usando droga. Eu conheço bastante criança. Comunidade mesmo tem um ou outro que você olha assim e até fala: “Caramba!” Você até agradece, fala: “Caramba, da minha idade e eu não usava droga. É muito bom”. Eu não tenho vontade, não. 

 

P/1 – E que bagunça vocês faziam?

 

R – Era mais, pra falar a verdade, cabular mesmo. Professora que queria, chata, que a gente falava. A gente já saía. Mas depois me arrependi.

 

P/1 – E vocês iam para onde? Você lembra de algum dia específico, marcante?

 

R – Pra falar a verdade, a gente ficava lá na escola, mesmo. Pelo banheiro. Quando a gente via as ‘tias’ vindo, a gente dava um perdidinho e se escondia. Aí, quando dava ruim também, que achava, era diretoria na certa. Aí era suspensão, advertência, chamava mãe e pai. Era feio.  

P/1 – E como que mudou isso?

 

R – Na base da conversa também. Com meus pais. Sentaram e conversaram comigo e eu botei na mente que, se eu fizer o ruim, eu vou receber o ruim. Quem planta, colhe.

 

P/1 – E você foi conversando com os professores, com os seus pais?

 

R – Com os meus pais.

 

P/1 – E aí você mudou com quantos anos?

 

R – Mudei. Eu estava com doze, treze anos. 

 

P/1 – E o que mudou, pensando, na sua vida, nessa época?

 

R – Mudou o pensamento. Nesse ponto de pensar o que você vai fazer, o que você vai retribuir, fazendo. É isso.  

 

P/1 – Você começou no futebol com quantos anos?

 

R – Novinho. Sempre gostei de futebol. Minha mãe e meu pai falavam, meus avós também, desde pequenininho sempre bola, bola, nunca gostei de carrinho, esses negócios. Não sou chegado, não. Só bola, mesmo.

 

P/1 – E como funciona, lá na comunidade mesmo, vocês vão jogando no campo? 

 

R – Sim. A gente tem a quadra na comunidade e tem o campo. Claro, eu mesmo já perdi muito amigo, que poderia estar aí no mundo, como jogador profissional de futebol. Infelizmente, por causa de droga, bebida, esses negócios, se foi. Mas aproveitar os que têm do lado, que são uns moleques muito bons e tenho certeza que vão se dedicar e virar um jogador profissional.  

 

P/1 – E como é, para você, quando perde alguém muito cedo?

 

R – É chato. Você conviveu com a pessoa, você viu que a pessoa estava do seu lado, você torcia pela pessoa e você vê a pessoa indo pelo embalo dos outros, pela cabeça dos outros, por droga. É feio, é chato.

 

P/1- E vocês conversam nesse grupo de amigos, depois?

 

R – Sim. A gente sempre conversa, sempre fala um do outro. A gente é muito amigo. Tem os amigos mais próximos. Sempre converso com eles, porque uns não são muito de futebol. Mas é bom que eles falam comigo, sim, fazem com que eu não possa desistir, para eu ir até o final, que eu vou conseguir e posso ajudar minha comunidade. 

 

P/2 - E que time você torce?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – Você já foi em jogos?

 

R – Já fui duas vezes ao estádio, assistir. 

 

P/1 – Você se lembra da sensação?

 

R – É frio. Tem que ser frio. Estádio lotado, cinquenta mil pessoas. Tem que ser frio. 

 

P/1 – E como você se sentiu, foi emocionante?

 

R – É emocionante, porque você vê, louco para estar ali um dia, cinquenta mil pessoas, sessenta mil pessoas numa final do campeonato também, ganhando o título, é sempre bom. Os torcedores também. 

 

P/1 – Kauê, quando você era pequeno, você pensava que você queria fazer, quando crescesse?

 

R – Sempre ser jogador de futebol. Nunca pensei em nada não, só futebol para mim.

 

P/1 – Você consegue descrever para gente como você se sente, jogando? Como você se sente na quadra? 

 

R – Eu me sinto muito, porque na comunidade muitos me apoiam. Muitos falam que eu vou conseguir. Claro que tem uns que falam: “Não, está tarde”. Mas se for pela cabeça dos outros que falam mal, você nunca vai para frente. Você tem que ir pelo seu sonho, sua família, pela comunidade que te ajuda também e ir em frente.

 

P/1 – Mas tem muita gente que fala, fica falando? 

 

R – Em qual ocasião, sim ou não? Na que apoia ou que não apoia?

 

P/1 – Que não apoia.

 

R – Claro! Tem aqueles que falam: “Está tarde, consegue mais, não.” Porque é sempre assim, em qualquer carreira que você for fazer, vai ter sempre uma pessoa que vai criticar você, mas graças Deus tem os que me apoiam também e eu só tenho a agradecê-los, que me ajudam sempre. Como o Gugu, tem o Ed, o pessoal da associação, que sempre me ajuda muito, muito, muito e é sempre bom colaborar com eles também.

 

P/1 – E vocês têm aulas?

 

R – De futebol? 

 

P1 – É. 

 

R – Sim, a gente tem, da associação mesmo e tem desde os pequenos, seis anos, da idade que comecei, importante. E vai até os dezessete. É sempre bom. 

 

P1 – Então, você para este ano?

 

R – Sim. Mas a gente tem o do campo. Que a gente tem a Taça das Favelas também, que vai dos dezessete até 21, acho. É legal. A Taça das Favelas eu cheguei a ir, mas eu fiquei no banco, porque eu era novo e deu mais oportunidade para os mais velhos, mas foi bom. O ambiente muito bom. Você vê as outras favelas tudo unida, sem briga, é bom demais. 

 

P/1 – E onde que foi?

 

R – Foi ali na Vila Manchester. Legal. Muito time de favela, quem vê pensa que só porque é favela vai ter bagunça, vai ter baderna, mas foi diferente. Teve a final no Pacaembu, a gente foi lá assistir, foi legal. Vai ter a próxima edição acho que esse ano que vem agora. Esse ano não teve, em respeito ao Covid. 

 

P/1 – E aí você vai? 

 

R – Vou. Com certeza.

 

P/1 – Jogando?

 

R – Agora vou jogar. Porque eu era pequeninho e os moleques que tinham lá eram maiorzão, aí deram oportunidade para os mais velhos. A gente perdeu nos pênaltis, chato.

 

P/2 - Que posição você joga?

 

R – Jogo de meia-atacante.

 

P/2 - Você lembra qual foi o primeiro campeonato que vocês ganharam?

 

R – Faz tempo, pra falar a verdade, mas um recente foi do Lausanne, muito legal, que o único time de comunidade mesmo foi a gente e a gente foi campeão, com os moleques que são de escolinha, de uns clubes. É bom ser campeão você sendo o único time de favela, pra falar a verdade, ganhar dos moleques que, querendo ou não, a pessoa olha e vê que é favelado também: “É favelado”. E você ver o favelado ganhando é muito legal.

 

P/2 - E como você se sente, no time?

 

R – Como que eu me sinto? 

 

P/2 – É. 

 

R – Eu me sinto muito bem. Todo time que eu vou, me acolhem bem, o pessoal, eu retribuo bem também, disciplinado. Não gosto de ficar retribuindo. Se o professor fala, eu faço. Não sou muito de ficar respondendo. É isso. 

 

P/2 - E com a galera que joga com você, como é?

 

R – É claro, tem uns e outros que fica: “Não vou fazer. Não vou fazer”. Mas eu sempre falo para eles: “Vamos fazer, você tem que mostrar que é diferente. Porque, se for assim, não vai pra frente. Jogador indisciplinado, hoje em dia não tem. Você pode ser o melhor, mas se você for indisciplinado, não vai pra lugar nenhum”.

 

P/1 – E como funciona a associação, para a comunidade?

 

R – A associação ajuda muito a comunidade. Quando teve o incêndio do morro, a associação foi muito heroica, ajudou com colchão, com cama, com os negócios tudo de guarda-roupa, sofá, cesta básica, o pessoal tinha perdido tudo, madeira também. E você vê aquilo também, o morro pegando fogo, as pessoas desesperadas, dá um aperto no coração. A pessoa conquistou tudo, subiu de madeira, para perder tudo fácil no fogo, muito triste. 

 

P/1 – Esta última foi a mais marcante?

 

R – Foi, foi a mais marcante, porque tinha mais criança, nessa última. Mas graças a Deus não teve vítima, não teve nada. 

 

P/1 – E como funciona, todo mundo se ajuda?

 

R – Sim, todo mundo se ajuda ali. Por isso que eu falo para você que eu gosto dali. Porque ali o ambiente é muito bom pra mim. Se uma pessoa está aqui precisando, a outra vai e ajuda e isso é muito bom. 

 

P/1 – Era isso que eu ia ter perguntar: você não quis ir para outro bairro com seus pais, porque você gosta dali. O que te faz ficar ali?

 

R – Sim. O futebol, que toda hora está tendo futebol e eu jogo mais por ali mesmo, quando eu fico ali, na minha vó, quando não tem nada para fazer. E estar com os amigos é sempre bom, ter uma resenha com os amigos é bom demais. 

 

P/1 – Tem essa ajuda, né?

 

R – Sim, tem a ajuda. Porque, querendo ou não, eu sou novo e jogo sempre com os caras mais velhos, eu peço a experiência para eles porque, querendo ou não, eles são mais velhos e vão passar a experiência para mim e é sempre boa a experiência de um mais velho, que já passou muita coisa que eu vou passar ainda.

 

P/1 – Você gosta de conversar com eles?

 

R – Gosto, principalmente com os mais velhos, que falam o que aconteceu na vida deles, já. O que eu não posso fazer para dar errado, sempre dar certo.

 

P/1 – Tem alguma conversa que foi marcante para você?

 

R – Sim. A mais marcante, teve um falecido, o Digão. Ele sempre falava pra mim que gostava muito de mim, que eu ia conseguir. Infelizmente se foi, morreu. Uma perda marcante, mas sempre vou levar os conselhos dele, que ele me deu. Ele jogou lá na Itália. E por coisa boba voltou e não conseguiu ser o profissional que queria, mas sempre vou levar os conselhos dele. 

 

P/1 – E quais conselhos que eram?

 

R – Para eu não desistir nunca. Que ele que foi lá na Itália, ele falou para mim que, por mulher, por bebida, você não pode parar nunca. Porque ele parou por isso. Falou sempre para mim, para eu nunca desistir do meu sonho, que eu ia conseguir ser um jogador profissional, para nunca se perder por nada, por droga, mulher, por nada.

 

P/1 – Teve algum outro, alguma outra pessoa que também tenha te marcado, outro conselho?

 

R – Sim. Tenho meu amigo, o André, eu gosto muito dele. Ele fala para mim que não é fácil, tem que lutar bastante, se dedicar bastante. Que, se você lutar bem, bem, bem, trabalhar bem, vai vir, sim. 

 

P/1 – Isso no futebol?

 

R – No futebol.

 

P/1 – Kauê, na escola, como foi o fundamental II, que é do sexto ano ao oitavo?

 

R – No começo do fundamental II, no sexto ano, foi a idade que eu falei para você, que eu estava indo mal na escola, teve a conversa e quando foi do sétimo pra frente, eu melhorei bastante, sem nenhuma reclamação de lá pra cá. Nunca minha mãe precisou ir mais à escola e é bom. Porque também é chato ver sua mãe indo na escola, para ficar resolvendo sua bagunça, é chato pra caramba.

 

P/1 – E seus irmãos, vão para escola junto com você, ou não?

 

R – Minha irmã mais nova está na creche e minha irmã está na mesma escola que eu, a de sete anos. E os outros terminaram, já. 

 

P1 – E entrar pro colegial?

 

R – Sim, eu penso em entrar no colegial, uma faculdade. Mas é mais o meu objetivo também. Porque, se você entrar na faculdade, você vai perder um tempo do futebol. Mas eu penso, sim, nessas coisas, pra frente, é o plano B que fala, né?

 

P/1 – Você treina todo dia?

 

R – Todo dia.

 

P/1 – Como é o seu dia a dia, sua rotina?

 

R – Corrido, muito corrido, porque acordo cedo, saio, vou treinar, volto tarde. Já estou acostumado nessa rotina. Tem treino que vou lá em Itaquaquecetuba, ontem eu fui, saí era onze horas, voltei às oito. Mas é normal, para falar a verdade, é bom assim, corrido. Porque, pra falar a verdade, nada cai do céu, não. Se não for atrás, nunca chega.

 

P/2 - Você já jogou em algum time? Você já jogou?

 

R – Eu estou jogando agora no Arujaense, que é lá de Arujá. Foi onde eu fui ontem. 

 

P/2 - E você viaja com o time?

 

R – Eu comecei essa semana lá. Eu fui fazer um jogo-treino lá, gostaram de mim, estou lá, comecei essa semana. Treino com o sub-20. 

 

P/1 – E como está sendo esta experiência?

 

R – Sendo boa demais, porque vem moleque de Manaus, pra falar a verdade, do Brasil inteiro. Tem até estrangeiro também, da África, é legal estar com os moleques ali, contando a história deles, é muito legal. Você conhece uma parte da vida deles, você conta a sua história também. E é bom. 

 

P1 – Kauê, me conta uma coisa: você mora no Cingapura, nos predinhos?

 

R – Sim, moro ali na Zaki Narchi.  

 

P/1 – Você sabe um pouco da história, de como sua avó conseguiu, comprou, como foi?

 

R – Minha avó morava ali no alojamento que teve ali no morro, morou ali muito tempo, até sair dos apartamentos e aí está lá. Foi muita história nesse alojamento. Pegou fogo também, várias vezes, não foi a primeira vez que pegou fogo. E você vê aquilo dali, eu não vi, mas pela história que contaram do fogo, muito triste, trágico.  

 

P/1 – Pegou fogo onde sua avó estava, é isso?

 

R – Não, um pouquinho antes... depois da minha avó sair, aí veio o fogo.

 

P/1 – E sua avó cresceu lá também, viveu a maior parte da vida lá? 

 

R – Minha avó chegou lá com 35 anos. 

 

P/1 – Então, ela teve sua mãe lá?

 

R – Ela teve minha mãe lá em Belo Jardim, aí vieram pra cá cedo, muito cedo. Aí se criaram, minha mãe é a do meio e ajudou a criar meus tios, que o mais novo, se não me engano, tem 27. Aí foi da idade dele que minha avó tem de lá, de Zaki Narchi.

P/1 – Sua família conta a história de diferenças de quando eles eram menores e moravam lá e agora? Você consegue ver?

 

R – É diferente por causa do tempo, da correria que fala, né? Porque, do jeito que minha mãe criava meus irmãos, eu ajudo, mas não é do mesmo jeito. Porque, querendo ou não, do tempo que era ali, era muito mais difícil. Não tem o que tem hoje, a tecnologia, o sistema do jeito que é.

 

P/1 – E mudanças na comunidade?

 

R – Mudanças, para falar a verdade, eu nunca vi mudança. A única mudança forte que teve, que resolveu muito, é da associação. Foi uma das melhores mudanças que teve, que ajudou muito e ajuda bastante. E tenho certeza que vai ajudar muito mais.

 

P/2 - E quando foi que a associação começou a ficar atuante?

 

R – A associação começou ano passado. Tinha uma associação antes, mas aí trocou. Antes não era esse grupo, que é a Fernanda, o Ed Carlos, o Aquiles. Aí, ano passado eles entraram e mudou muito, muito, muito.

 

P/2 - Mas a escolinha já tinha?

 

R – A escolinha sempre teve. Dos meus seis anos já tinha, é antiga já. 

 

P/1 – E quais são os maiores desafios lá da comunidade, que você percebe?

 

R – O maior desafio é você não entrar no caminho errado. Querendo ou não, você convive, olha, tem que ser cabeça, para pensar no que vai vir e para mim o maior desafio é esse, não se perder nos caminhos errados.

 

P/1 – Você consegue ver pontos positivos, aprendizado, por conviver com as pessoas de lá?

 

R – Sim. Pelo crescimento que tive com as pessoas. Sempre, ‘de menor’ eu vi os que eram maiores que eu, os que eram mais velhos, crescerem também, brincavam comigo ali. Uns que são perdidos, falam pra mim que se arrependem. Fala para eu não fazer isso, que são sempre os caras que gostam de mim, que me ajudam também. Falam para eu nunca desistir. É isso. 

 

P/1 – Tem gente que não escuta muito os conselhos?

 

R – Tem, sempre tem. Se você for falar, a pessoa está achando que você está cuidando da vida dela, a pessoa fala que você é curioso. Mas eu não sou muito de ficar palpitando na vida de quem não quer escutar opinião.

 

P/1 – E momentos marcantes lá, pensando desde criança…

 

R – Tiveram vários momentos marcantes. Se parar pra pensar, mesmo, não lembro de todos, mas o mais marcante mesmo, pra mim, é o da ajuda que a associação que deu para o pessoal do morro, porque você conviver com as pessoas ali gritando, chorando, e ver a associação, de mão aberta, ajudar, é bom demais. Caramba, muita gentileza. 

 

P/1 – Eles ajudaram sua família?

 

R – Sim. Ajuda minha avó, bastante. Cesta básica, quando tem frio eles saem para levar coberta, colchão para as pessoas. Comida. Falando em comida tem a distribuição de marmita, que começou recentemente também, para pessoas que necessitam. Para a comunidade, principalmente, que está sempre ali. E tem essa gentileza da associação, de entregar marmita.

 

P/1 – E você pensa em ajudar, participar?

 

R – Penso. Por isso eu penso em ser um jogador profissional, para sempre ajudar minha comunidade. Ajudar as pessoas que cresceram comigo, as pessoas também que vão crescer. Porque, independentemente, você tem que ser diferente dos outros. 

 

P/1 – Você pensa em sair, para depois voltar?

 

R – Isso. E ajudar minha comunidade. Sempre, o sonho que eu penso, peço sempre a Deus para me abençoar, para ajudar minha comunidade e os outros também que necessitam, na rua, criança, penso sempre em ajudar.

 

P/1 – E indo para fora jogar ou em alguns outros momentos, você já passou por algum tipo de preconceito, discriminação, quando você fala que mora lá? Ou nestes campeonatos, que são em outros lugares. 

 

R – Sim. Já fui jogar em uns times, que são só moleques que são bem de vida, que mora em condomínio mais chique e você fala que é de comunidade, os moleques ficam até meio assustados, porque para eles tudo o que é de favela é ruim, é roubo, é droga. E não é assim, é diferente. Tem que mostrar para eles sempre que não é assim, não, que é muito diferente do que eles pensam. 

 

P/1 – E aí vocês vão conversando?

 

R – Sim. Tenho muito amigo que tem uma [vida] financeira boa, dos pais, que é muito amigo meu. Mesmo sendo de favela. E é bom, porque a pessoa te conhece e vê o outro lado da vida. Uma pessoa que não conhece, nunca foi na favela, para ela conhecer, conhece pessoas novas também, na favela e é bom. 

 

P/1 – Então, é possível ter este tipo de relação?

 

R – Sim. 

 

P/1 – Mas você lembra de algum dia marcante, que você não gostou do que você ouviu, já rolou isso?

 

R – Já. Uma vez que fui jogar lá em Santos e os moleques perguntaram onde eu morava, eu falei e eles cochichando: “De favela”. Mas eu nem... pra falar a verdade, levo para o coração, não. Eu tenho orgulho de ser da favela. Para eu ser um jogador de futebol, para eu sair da favela e não fazer nada pela favela, não tem preço isso, é chato. Porque é uma coisa que eu sempre sonho e peço a Deus para abençoar e eu conquistar meu sonho e não fazer isso, é chato, é desnecessário. 

 

P/1 – E segurança?

 

R – Na favela? A segurança somos nós, para falar a verdade, porque de polícia, esses negócios, eu não tenho tempo, não. Porque tem muita discriminação dos próprios policiais, violência, por ser na favela. E eu não perco muito tempo falando disso, para mim a segurança somos nós mesmos. Porque também eles fazem o trabalho deles, né? Se passar alguém xingando, é claro que vai descer, vai fazer maior chilique, aí você já sabe. Pega um que não tem nada a ver, querendo ou não, bate, pra falar a verdade. É chato também. 

 

P/1 – Você já viu muito problema assim?

 

R – Claro. É a convivência. Você também não pode fazer nada, se você for entrar no meio, aí aperta mais a coisa.

 

P/1 – Se você pudesse mudar algo na comunidade, o que você mudaria?

 

R – Eu mudaria, pra falar a verdade, o ambiente para as crianças. Melhorava tudo para as crianças. É bom pras crianças, claro, ali. Faria muitas coisas para as crianças. Faria um parque muito melhor, porque a associação cuida disso, ajuda muito a quadra, iluminação das ruas, parquinho para as crianças. E lá tem, se não me engano, um parquinho só e eu penso que tem que fazer mais, dar mais espaço para as crianças, para as crianças ficarem mais à vontade. É isso. 

 

P/1 – Você sente falta disso?

 

R – Sim. Porque, para mim, as crianças merecem um ambiente muito melhor do que ficar ali, convivendo com as coisas que não pertencem a elas. E só tem o Parque da Juventude e muitas crianças dali da comunidade não pode. E ali dentro, um ambiente muito melhor só para as crianças, ficaria muito bom.

 

P/2 - E como é sua relação com as crianças mais novas, que jogam futebol?

 

R – É bom, porque as crianças sempre pedem um exemplo. Graças a Deus eu sou um exemplo para as crianças também, as crianças sempre falam e é bom você conviver com aquilo. Você vê que não está indo no caminho errado, você está indo sempre certo, que as crianças estão sempre se inspirando em você. É inspiração.  

 

P/2 - E qual é a sua inspiração?

 

R – Minha inspiração aqui da favela, pra mim, é o Ricardo Oliveira. Para mim, foi um cara que, pela história, eu não vi, mas pela história que me contam, foi um cara que batalhou muito, correu muito, treinou muito e, pra falar a verdade, passou muita necessidade também e graças a Deus está aí onde está. Sempre ajuda a associação, com bolas. Me inspiro muito nele, na verdade.

 

P/1 – Como que é ele? A gente não conhece. Como é a história dele?

 

R – A história dele, que eu sempre escuto e paro para pensar, foi que ele, às seis horas da manhã levantava, corria na quadra, naquele tempo a quadra era de areia. E umas pessoas falavam que ele era doido e criticavam, igual eu falei para você: umas criticavam, outras apoiavam. Era mais crítica, porque vê um cara correndo seis horas da manhã, quase de noite, numa quadra, normalmente as pessoas chamam de louco mesmo, mas esse louco virou jogador profissional. Pra você ver. 

 

P/1 – Ele continua lá?

 

R – Na comunidade? Ele foi esses tempos atrás. Ele sempre ajudando, deu uma força para gente na Taça das Favelas, uma força muito boa, uniforme, bolas também.

 

P/2 - E quando você não está jogando futebol, como você se diverte?

 

R – Eu fico mais sentado, conversando com os amigos. Porque, pra mim, é só futebol mesmo. Eu os chamo, eles me chamam, a gente fica conversando. Quando é de noite, a gente fica três, quatro horas juntos, só conversando. É bom demais você ter amigos do lado, para uma pessoa que já perdeu amigo próximo, é bom você ter amigos mais próximos de novo.

 

P/1 – E você já teve alguma relação, algum namoro, alguma paquera?

 

R – Não. Só ficando, mesmo, mas igual eu te falei: não tenho cabeça pra ficar pensando em namoro agora, tenho um objetivo a ser pensado, ser realizado e não tenho muito cabeça pra isso.

 

P/1 – Quais seus maiores sonhos?

 

R – Meu maior sonho é ajudar minha família, minha comunidade. Por mim eu não tiro minha família da comunidade, porque para mim vai ser um desapego da comunidade. Pessoas vão ver e falar: “Nossa, está tirando da comunidade”. É bom assim, as pessoas querem dar uma condição melhor para a família, mas eu não penso muito em recusar minha família dali, porque cresci ali. Para mim, comunidade é tudo. Sempre quero ajudar. 

 

P/2 - O que você sente em relação à comunidade?

 

R – Ali é um lugar que eu me sinto muito bem. A relação ali com os mais velhos é muito boa, me conhecem desde pequeno. É muito bom você ter o respeito, que eu sempre tive por todo mundo ali, sempre vou ter, eu tenho certeza. Você, com sua convivência com os mais velhos, que já passou por muita coisa, é bom demais. Te passa muita experiência da vida, dão muitos conselhos, é bom.

 

P/1 – Kauê, como a pandemia chegou lá, como o Covid-19 impactou a vida das pessoas?

 

R – Foi nessa do Covid que a associação entrou com tudo. Ajudou, cesta básica todo dia, com muita ajuda ali, para a comunidade. Pra falar a verdade, a Covid veio com tudo, parou com emprego, com tudo, e as pessoas desesperadas com condição financeira. E aí veio a associação com tudo, arrebentando até hoje e vai arrebentar, com certeza, mais.  

 

P/1 – E seu avô, você o perdeu?

 

R – Perdi ano passado.

 

P/1 – Foi por conta da pandemia, da covid?

R – Na verdade, ele tinha uns probleminhas, AVC, uns negócios, mas como estava no pico da pandemia, colocaram como Covid, mas eu tenho certeza que não foi, não. 

 

P/1 – E como foi esse momento, para sua família?

 

R – Foi chato. Que meu avô morava ali, fica chato você chegar e ver um lugar que ele sempre ficava e você não o vê ali. É gelado. Chato. Muito triste.

 

P/1 – Você comentou que seu pai teve um momento que foi para um caminho, teve uns tropeços?

 

R – Sim. 

 

P/1 - Você sabe alguma coisa, você quer compartilhar um pouquinho, acaba sendo uma inspiração também, para você?

 

R – Sim. É uma inspiração, porque ele não tinha o pai dele na minha idade e eu tenho o meu pai na minha idade. E isso é uma forma para eu pensar que, com meu pai, eu não preciso fazer os tropeços que ele teve. Não posso ir pelo caminho errado, porque eu tenho um pai e uma mãe para me corrigir, coisa que ele não tinha, que era um pai. E pra você parar para pensar, a perda de um pai, você novo, com dezessete anos, tem um movimento errado de cabeça, de verdade. Mas eu não planejo fazer coisa errada, não. 

 

P/1 – Mas você chegou a vê-lo indo para outros caminhos ou são histórias?

 

R – São histórias. Que com a vida paga, pra falar a verdade, mas é isso.

 

P/1 – Gostaria de contar alguma coisa que a gente não tenha te perguntado, alguma passagem, alguma história?

 

R – Não. A única história que tem mesmo é de superação e que hoje meu pai revirou. Está muito bom, caminhoneiro, trabalha pela família muito bem, todo dia e você vendo aquilo, eu que sou dezessete anos, da idade que ele era, olha e fala: “Caramba, meu pai mudou, está bem demais”. 

 

P/2 - E pensando na sua história, você queria deixar alguma mensagem?

 

R – Na minha história é mais para comunidade. O que eu penso mais em fazer pela minha família, pela comunidade, pelas pessoas que necessitam. Para mim os três obstáculos que tenho que chegar são esses. Ajudar sempre, e é uma coisa que eu nunca vou desistir. É isso. 

 

P/1 – E essa ajuda passa pelo futebol?

 

R – Sim. Sempre pelo futebol. Eu me dedico muito ao futebol, muito. Tudo, para mim, é futebol. Meus irmãos mesmo, minha irmã, esses dias, estava falando: “Nossa, ele faz de tudo para jogar bola”. A pessoa da minha idade está aí, errado, está preso. Eu só a tenho agradecer mesmo pela minha família, minha família tem orgulho de mim, pra falar a verdade. Tenho muitos que a minha família conhece, da minha idade, mais novo, que estão perdidos. E ali para minha família, no ambiente de família, você fala: “Nossa, ele não usa nada, ele não rouba, não faz nada” é muito bom. Você se sente orgulhoso, se sente muito bem.

 

P/1 – Você começou jogar bola bem pequeno, você lembra? Você tem imagens destes momentos?

 

R – Bem pequeno. A imagem que eu tenho, eu não lembro muito dos cinco primeiros anos, mas minha família conta que tudo, para mim, foi sempre futebol, negócio de carrinho nunca gostei, só bola, bola, bola. Para mim isso daí não tem preço. Futebol é uma coisa que eu amo muito, nunca penso em desviar. Claro, tem os planos B, quando não dar certo, mas eu tenho certeza que vai dar certo, vou correr atrás, eu não vou parar. É isso. 

 

P/2 - E na sua família tem outra pessoa que joga futebol também?

 

R – Meu irmão. Ele chegou a ir no São Paulo, mas como minha mãe teve uma preocupação, teve um descaso ali, ele não conseguiu ir muito à frente, parou por ali. Mas eu sempre converso com minha mãe e falo: “Normal isso daí.” Tem conversas, sim, tem papelada, tudo para você assinar. E parar assim, do jeito que ele parou, com tudo ali na mão, é difícil você conquistar. Porque hoje, se você for jogar futebol e ter um cara que te olha e gosta de você, tem que agradecer muito, porque hoje em dia, você sem empresário, pra falar a verdade, não vai muito longe, tem que ter alguém que investe em você. É isso. 

 

P/1 – Que tipo de preocupação que era, da sua mãe?

 

R – O tipo de preocupação que sempre passa na televisão, que foi jogar ali e aconteceu isso e aquilo. Acaba sendo até assediado, por causa do futebol. Morre também, já vi muita história assim, na televisão mesmo. E tem a preocupação de mãe, pai, mas sempre converso com eles, que é normal. 

 

P/2 - Queria te perguntar: você lembra de um gol que foi marcante para você?

 

R – Gol que foi marcante, foi meu primeiro gol com a escolinha, que você pequeno, ali e faz um gol é bom demais, sai gritando. O primeiro gol, você pequeno. Hoje em dia é normal, mas quando pequeno, você faz um gol, é bom demais. 

 

P/1 – Quem são seus professores?

 

R – No campo agora está com associação, com a escolinha, o Aquiles e o professor Rafa. Tem o Ed também. 

 

P/1 – Tem algum deles que te marca muito, tem uma relação muito boa?

 

R – Tem. Para mim o Aquiles, mesmo. É muito amigo do meu padrinho, da minha família. Me viu crescer, me ajuda muito, muito, muito, desde pequeno, foi um cara que eu sempre convivi, sempre gostei dele, espero que seja o mesmo, que ele goste de mim, eu tenho certeza disso. Tem o Ed também, é um cara que você não pode esquecer, é um cara que ajuda muito, pensa sempre em ajudar o próximo. Uns caras muito bons. Caras que você para pra refletir: “Caramba, esses cara que eu sempre queria ter, na vida”. Se você for em outro lugar, não tem uns caras assim, que ajudam a comunidade, que te ajuda. Que só pensa em ajudar. Em outros lugares é só dinheiro, máfia. Os caras sempre estão dispostos a ajudar a comunidade.

 

P/1 – Kauê, como que foi para você dividir um pouquinho da sua história aqui, com a gente?

 

R – Foi bom. Uma experiência. Pra falar a verdade, eu nunca fui numa entrevista assim. Fui só em papel, sabe, a pessoa fala e vai anotando. Mas assim, com câmera, é uma experiência nova, bom que eu posso me acostumar. Dá um gelo, lógico, mas uma coisa que é bom para a própria experiência, que vai vir na vida.

 

P/1 – Obrigada! 

 

R – Nada. Obrigado vocês! 

 

P/2 – Eu agradeço também. 

 

R – Só tenho a agradecer, também.

 

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