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História

Na primeira Seleção Feminina

História de: Suzana Cavalheiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Suzana fala a respeito de sua infância em Santo Amaro e no Campo Limpo, rodeada de brincadeiras e da liberdade das ruas num bairro seguro e acolhedor. Nos conta sobre a dificuldade que se tinha em abrir o futebol para as mulheres e a incipiência no financiamento deste esporte na época. Sabemos sobre sua juventude, seus anos de jogadora profissional e sua carreira no Juventus e na Seleção Brasileira. Suzana também nos conta como entrou na escola pública como professora e seu encontro com o PET em 1997. A partir daí, nos fala muito sobre o Projeto: o cotidiano, os objetivos, as mudanças ao longo dos anos. Por fim, Suzana nos fala sobre seu casamento, a experiência de ser mãe e seus sonhos para o futuro.

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História completa

Meu nome completo é Suzana Cavalheiro. Eu nasci aqui em São Paulo, mais precisamente em Santo Amaro. A data de nascimento é 14 de abril de 66. Meu pai é João Cavalheiro e a minha mãe, Neide Rodrigues Cavalheiro. Quando meu pai casou com a minha mãe, eles moravam no fundo da casa da minha avó, uma parte que era uma cozinha, um banheirinho e um quartinho. E eu no começo ficava lá, depois quando a gente foi crescendo, tanto eu quanto meu irmão mais velho, nós dormíamos com os meus tios porque quando veio o terceiro, que é o Wagner, ele ficava com os meus pais no berço e eu e meu irmão mais velho, ele dormia com meus tios e eu dormia com minhas tias. Então assim, é a lembrança de um lugar bem pobre, em Santo Amaro, mas a gente tinha muita liberdade.

 

Ah, tem o irmão mais velho, que é o João Aparecido Cavalheiro. Acho que a relação mais próxima da infância com ele. Então ele é o meu parceiro de futebol, ele é o parceiro das brincadeiras em casa, das descobertas, de andar de bicicleta, de aprender as coisas. E aí vem a Carol, que é minha afilhada, e acho que está muito pautado pela força que eu dei pra ele porque na época eu trabalhava em dois lugares, eu trabalhava na escola do estado e trabalhava num clube de futebol de salão na Vila Maria, então eu tinha uma condição maior e eu ajudei eles a construir essa família

 

Com13 anos eu já jogava futebol e como o rapaz tinha o grêmio e ele convidou a gente pra jogar na quadra foi um jogo amistoso que ele acabou marcando e veio uma equipe que jogava federada. E eu recebi o convite pra ir jogar. Então acho que tem essa coisa de ter a oportunidade contato com meninas. Quando eu fui pro Campo Limpo tinham três meninas dentro de um grupo de nove crianças que brincavam. E a gente brincava de andar pelos espaços. E no Campo Limpo, na época que a gente mudou pra lá, tinha a Metafill, que era uma empresa, no fundo era um morro cheio de mato e tinha uma senhora que morava lá e plantava mandioca e que a gente adorava subir lá pra catar mandioca

 

Acho que tem essa relação muito próxima com os professores de Educação Física – e aí vem uma professora que era carioca, que é a Rosângela Reis Bustamante, eu lembro até hoje do sobrenome dela.  E quando eu conheci essa professora, Rosângela, eu não só fazia Educação Física, ajudava, mas no horário pós a aula eu corria com ela. Até o dia que eu passei mal. Eu corri, estava um sol muito quente, eu comecei a passar mal, passar mal, minha mãe não levou na escola, levou no médico. E com, não sei, mais ou menos, 15 anos eu começo a jogar em equipes com nome, com um grupo maior, meninas mais velhas. Ah, eu acho que foi uma fase bacana, eu joguei oito anos pelo Juventus, década de 80, acho que tem uma fase que a Secretaria Municipal de Esportes organizava vários torneios e não era só de campo, era campo e salão e a gente jogava campo e salão e treinava campo e salão.

 

 A convocação pra Seleção foi bacana porque foi próximo do meu aniversário. E no aniversário eu anunciei pra família, um telegrama. E aí meu pai já ficou preocupado porque eu estava fazendo a faculdade. “Como que vai ser?”, e aí eu tive a informação que... porque as coisas eram pouco divulgadas e eu não sabia na época que você representar o país te dava um abono pras faltas e o direito pra fazer novamente as provas. E eu saí exatamente entre a prova do segundo bimestre e voltei no quarto bimestre quase, então isso começa a gerar uma insegurança. Aí eu conversei com o diretor da faculdade, ele ficou todo cheio, falou: “Nossa, uma atleta! Seleção brasileira? Pode ir filha, pode ir que vou conseguir as provas pra você e o abono. Me traz a carta”. E aí eu fui, falei pro meu pai: “Pai, não precisa se preocupar que eles vão abonar minhas faltas”. Pra família, aí começa a mudar, acho, um pouco a forma de lidar. Então aquilo que era preocupação, preconceito, as dúvidas, questionamentos, pra família do meu pai muito mais forte essa questão de a mulher tem que procriar, garantir a coisa da família, extensão

 

A gente foi disputar o primeiro torneio pré-mundial. Na verdade é o primeiro torneio de futebol feminino, a ideia era eles fazerem uma prévia pra eles fazerem o Mundial que seria em 91. E aí a gente treinou 40 dias pra ir pra esse torneio, sendo que desses 40, 15 dias a gente ficou na Granja Comary. Foi, acho que é rico você viajar pra outro país não tem, pro atleta eu acho que é o máximo você estar na seleção. Você entrar em campo, ouvir o hino nacional e sentir aquele frio na barriga, aquele arrepio e você fala: “Nossa, estou representando o meu país, que louco! Outro dia estava jogando lá na ruazinha de paralelepípedo”. Lógico que na época você não pensa isso, hoje eu consigo ver isso. Na época: “Ô, vamos aí”. E muita farra, tinha meninas de diferentes regiões. Foi na China. Eles deram uma camisa, eram camisas polo cinza de manga comprida e a gente ia pra um lugar que era verão.

 

Depois que eu volto da seleção, não dessa primeira convocação mas da segunda em 91, tem uma professora que já estava aqui no Projeto Esporte Talento e ela me convida: “Ah, você trabalha com futebol, a gente está precisando, você não quer ir lá?”, que é a Miriam. E aí eu venho falar com o diretor, que na época era o Emílio. E ele explica da questão que não estava formalizado ainda, que era algo que estava se construindo, que não ia ter um concurso tão imediato, se eu topava. E eu venho pra cá pra ficar com, era 20 horas, era só no período da tarde, eu continuo trabalhando no Estado de manhã e aqui à tarde.

 

Ao todo eram 250 crianças e estavam divididas em quatro modalidades. Tinha o handebol, que era masculino e feminino, o futebol era masculino e feminino, a canoagem também e o basquete era só meninas, tanto no período da manhã quanto no período da tarde. E nessa época acaba ficando qual grupo de modalidades e as coisas cada um fazia o seu trabalho, tentar fazer o máximo que podia. Começa a ter acho que uma influência, uma preocupação maior com a educação, o projeto acaba dentro, o Instituto Ayrton Senna, que eu acho que é quem no início que foi quem bancava financeiramente, começa a ter uma preocupação muito maior com essa questão da metodologia, da questão da educação e isso passa a exigir da gente algumas coisas, alguns movimentos, no sentido de ajustes dentro da organização.

 

Depois da criação do PRODHE estar só no Cepeusp começa a ficar pequeno pra gente. Porque as discussões precisavam tomar outras dimensões porque dentro do Cepeusp você não conseguia, você tinha o respaldo, você tinha o espaço, você tinha uma autonomia, mas você não conseguia ter o avanço desse processo. Então aí começa a ter uma busca de ir além, de querer participar de outros lugares, de outras discussões e a gente começa dentro dos planejamentos de criar esses espaços, então a gente precisa. Da mesma forma que a Psicologia com o Fábio, ele traz: “Olha, vocês estão fazendo o trabalho, está muito bacana, mas só está aqui em casa, precisa ir além dos muros”. Então ele começa a desafiar, ele está chamando: “Vamos, vamos pra fora”. Então os nossos eventos começam a ser pensados fora, as nossas relações começam períodos de greve vai pra comunidade, sente a comunidade e o menino não apareceu eu vou lá na casa (bate palma): “Ô Fulano!”, e vejo o que a mãe está passando e a gente conversa, às vezes volta, às vezes não volta, mas isso é um ciclo, você vai seguindo, não dá pra você parar. Você tenta trazer, quem vem, beleza, se não vem tem mais gente precisando.

 

Eu tenho uma união estável. Isso já faz... eu conheci a minha xará, que é a minha companheira aqui no projeto, ela é da Psicologia e ela fez estágio. E um ano depois essa relação veio e mais recente, em 2013, a gente resolveu ampliar a família e aí veio a Agatha. Acho que ser mãe é mais tranquilo. Acho que é difícil, e foi difícil, e acho que isso o projeto conseguiu contribuir, porque quando você pensa que eu vim de uma relação, de uma criação que eu vim e aí eu me relacionava com os meninos e de repente experimentei e achei que fazia mais sentido. E aí eu acho que é difícil porque você passa a ter que ir pra sua família. E aí meu pai fez 50 anos de casado. É, foi o ano passado, a Agatha já tinha nascido. E eu organizei junto com meus irmãos as bodas de ouro do meu pai no sítio do meu tio. E eu apresentei pra família a Agatha como minha filha. Eu acho que o projeto me ajudou a entender essa coisa da diversidade, das possibilidades e de como assumir. E acho que, lógico, junto com isso acho que veio a mudança do contexto social. A nossa sociedade hoje faz uma nova leitura e ela tem uma nova compreensão

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