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História

Na Petrobrás imperam as equipes

História de: Hélio Lins Marinho Falcão
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Publicado em: 17/12/2014

Sinopse

Hélio discorre sobre sua infância no interior da Paraíba, baseada na vida rural de seus pais fazendeiros e a constante presença da seca, sua ida a Recife para fazer engenharia, a entrada na Petrobrás nos anos 50, as inúmeras prospecções de petróleo nas Bacias da costa, diversos casos, sua aposentadoria e seu casamento.

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História completa

O meu nome completo é Hélio Lins Marinho Falcão. Eu nasci em João Pessoa, na Paraíba, no dia 15 de dezembro de 1933.

FAMÍLIA

Meu pai chamava-se Antônio Marinho Falcão e ele tinha múltiplas... Pode parar aí que agora aí que a velhice aí me deu um branco. A profissão dele, ele era... Ele terminou como fazendeiro, embora ele tenha trabalhado também na área de administração. O nome da minha mãe era Maria dos Anjos Marinho, e ela criou a família. Meu pai, ele se casou duas vezes. A primeira, a esposa dele morreu, e ele casou com a minha mãe, já... Ele já com quarenta e poucos anos, e a minha mãe com vinte e poucos. Então, das duas famílias dele, nós somos dez irmãos. Eu sou exatamente da segunda esposa dele. Eu conheci os meus avós maternos. Dos paternos eu só conheci a minha avó. A minha família é uma família da Paraíba, e ligada à família da minha mãe, que é a família Lins, ligada a engenho-de-açúcar. Então, eu passei grande parte da minha infância freqüentando aqueles engenhos.

INFÂNCIA

Bom, naquela época o automóvel era muito raro. Eu nasci em 1933, quer dizer, a minha percepção de vida começou realmente na década de 40, quando eu tinha mais de sete anos. E na década de 40 ainda, na Paraíba não havia muitos automóveis. Então, a vida rural, quer dizer, o sistema de transporte, era o trem. O trem que ligava a capital com a cidade do interior; e nos engenhos, nas fazendas, o cavalo tinha uma expressão muito grande, porque era o meio de transporte. O cavalo e o boi. Porque o cavalo porque você podia andar diretamente e o boi porque você tinha aqueles famosos carro de boi, carroças puxadas a boi e que faziam o transporte de cargas e pessoas. A minha lembrança dessa década talvez seja assim a mais rica na minha memória porque... Primeiro porque nós éramos jovens. Tinha toda vitalidade da vida. E segundo porque realmente havia uma inocência, uma beleza e uma inocência muito grande - você no contato direto com a natureza e aproveitando o que a natureza lhe dava, que era os passeios aos rios, para você tomar banho nos rios...

FAMÍLIA

A família da minha mãe era de fazendeiros. A família da minha mãe. O meu pai, casado com a minha mãe, ele tinha fazenda, mas ele não vivia da fazenda. Ele, inclusive, a primeira parte da vida dele, ele migrou para o Acre, teve seringais no Acre. Ele ficou durante 20 anos no Acre, onde ele teve a primeira esposa, parte da minha família. Foi por isso que mais tarde na Petrobras, quando eu terminei esse curso de engenharia de petróleo, perguntaram para onde eu queria ir, e eu escolhi a Amazônia para conhecer o local em que o meu pai tinha vivido. O meu pai nasceu em 1887. Ele viveu o auge da borracha, o auge da borracha. E ele saiu ainda quando a grande crise não tinha afetado a produção de borracha da Amazônia. Mas ele saiu por causa da perda da esposa. Ele largou tudo e voltou para a Paraíba com os filhos.

INFÂNCIA

Nós freqüentávamos os engenhos... É, porque a distância era relativamente pequena. Você fazia uma viagem de trem, de trem era muito lento, mas era uma viagem de duas horas. Quer dizer, naquela época duas horas não significavam nada. E a aventura era muito grande, que você chegava nos engenhos, você ia conviver com um mundo diferente do mundo da cidade. É preciso lembrar que naquela época não tinha televisão, não é? O cinema ainda era uma coisa programada, assim, em termos de uma vez por dia, à noite e o lazer ficava reduzido à prática de esportes ou essas incursões pelo interior. Então, nós aproveitamos muito. E eu guardo na memória o Engenho Corredor, que era de uma tia da minha mãe, que foi onde nasceu José Lins do Rego, e era o nosso engenho preferido porque a gente... a área de moagem da cana era próximo da casa-grande, chamada, e a gente se deleitava com aquele açúcar mascavo, comendo aquele açúcar o dia inteiro. Voltava para a cidade cheio de lombriga, tinha que tomar purgante para se recuperar. E dos passeios a cavalo, dos pomares, dos banhos de rio. Era uma vida realmente... Por isso que a minha memória dessa época é uma memória que eu tenho saudade num aspecto, numa coisa que eu vivi, mas realmente depois que você vai avançando na vida, você também tem outros momentos, outros prazeres, outras... tem capacidade de encontrar coisas que você se satisfaz.

EDUCAÇÃO

Eu comecei a minha vida como estudante, freqüentando uma escola particular para alfabetização, era de uns conhecidos da família. A cidade que eu morava era uma cidade... João Pessoa era uma cidade pequena.

JOÃO PESSOA

A cidade já era uma cidade implantada, funcionando direitinho, e tinha recursos, tinha saneamento, energia elétrica. Nós morávamos mais ou menos a cinco minutos do Centro, a pé. A gente morava num bairro que era considerado Centro. Hoje a cidade se expandiu muito e se encaminhou para a praia. Para a Praia de Tambaú, que é a principal praia lá. Enfim, eu morava nessa cidade e estudava. Fiz esse curso de alfabetização numa escola particular. Depois entrei no Colégio Marista, fiquei... Eu fiz o ginásio do Colégio Marista. Depois eu passei para o colégio, o Liceu Paraibano, que na época o Colégio Marista não tinha o curso científico. Então, só tinha o Liceu Paraibano. Então, era uma escola pública, e terminado o Liceu Paraibano, eu fui para fazer vestibular em Recife.

FAMÍLIA

A minha irmã mais velha - que eu sou o segundo da família da minha mãe - ela era, em relação ao filho mais jovem, ela era dez anos mais jovem. Então, nós não convivemos com eles. Eles já tinham saído, casados. Quando eu nasci, por exemplo, papai já tinha netos já crescidos dos primeiros filhos. COSTUMES Aquela época, aquela época uma cidade, uma cidade do Nordeste ainda hoje existe também uma... Mais ou menos esse espírito. A população gosta muito de contato, de movimento. Então, a minha casa era uma casa cheia de... A minha casa tinha 15 pessoas, entre empregados e minha tia, que convivia conosco, e os filhos, os quatro filhos do meu pai. Enfim, a casa era uma casa movimentada, uma casa grande, não é, e uma casa tipicamente nordestina, tipicamente nordestina. A comida era comida... Uma comida regional, uma comida básica, o feijão está sempre presente. As características da comida nordestina, elas são bem diferentes da comida do Sul do Brasil. É uma comida, na época, mais elaborada, porque a mão-de-obra, tinha empregada. Então, você podia se esmerar no preparo de uma determinada comida, num determinado prato. E havia isso. Foi sempre esse... Falava muito bem: “Vamos fazer uma galinha ao molho pardo”. Quer dizer, aquilo era um pitéu especial, mas dava um trabalho enorme. Eu só vim encontrar isso depois entre os italianos em São Paulo, que eles passam a semana... Ainda hoje: “Olha, vai haver uma lasanha na casa do fulano no domingo”. Então, eles ficam... Parece a torcida do Corinthians. Ficam comemorando antes do fim do jogo. No Nordeste era, mais ou menos, a mesma coisa. As festas... A época de São João era muito comemorada no Nordeste. As Quadrilhas. Então, muita comida à base de milho. Então, quanto mais aquela diversidade, tudo porque tinha mão-de-obra fácil de preparar para você se locupletar depois. Hoje, realmente não tem o menor sentido.

MIGRAÇÃO

Mas eu me afastei, que eu saí da Paraíba em 1951, e não voltei mais, porque eu já fui para a Petrobras, e a minha família, ela migrou... Os quatros filhos, os seis filhos da primeira esposa do meu pai, eles faleceram, já faleceram, e ficamos nós quatro, que um deles também já faleceu recentemente. Mas houve uma migração. A minha irmã casou com um advogado do Banco do Brasil, que foi transferido. Então, saiu. O outro irmão também se transferiu. Enfim, nós saímos da Paraíba, e a família, ela sumiu na Paraíba. Eu tenho hoje parentes do lado da minha mãe, mas já são pessoas idosas.

FAMÍLIA

E uma coisa interessante a registrar, que eu registro na minha vida, é o problema dos engenhos, dos parentes dos engenhos, em que as famílias, elas eram consideradas os ricos, a elite, e não tinham preocupação com instrução. Então, os filhos iam para os colégios e logo, logo o rapaz - 15, 16 anos, ele tinha muita coisa, ele tinha muita atração pelo engenho, porque lá estava a diversão, estavam os cavalos, estavam as moças para namorar. E havia uma semi-escravidão na época, isso é um aspecto também importante. Quem sabia ler não conseguia emprego no engenho, que você naquela época morava no engenho. O engenho oferecia casa. Você ia morar e você se sujeitava a trabalhar para o dono do engenho. Então... E trabalhava um dia de graça. Mas se você soubesse ler e escrever, você não era aceito, porque você era ponto de... você era um sindicalista, você seria um ativista reclamando direitos e coisas. Então, essa época... Quer dizer, os filhos... Eu estava falando dos filhos da segunda geração dos donos, eles achavam que estavam perdendo tempo se instruindo, e aí voltavam. Saíam dos colégios, voltavam para os engenhos, para andar a cavalo, para fazer os programas, tinha festa, tinha... E não estudaram. Então, com a morte dos pais houve uma divisão das terras. Quatro filhos, divide por quatro. E aí como eles não sabiam fazer nada. Eles não sabiam administrar, certo? Então, eles foram empobrecendo e num período relativamente curto, um período talvez de 20 anos... 20 a 25 anos, eles se acabaram. Eles deixaram... Quer dizer, eles empobreceram de forma tal, que perderam as terras e eles foram viver uma situação não de miséria absoluta, mas de pobreza. E o interessante é que os filhos adúlteros, porque naturalmente os coronéis naquela época eles tinham as suas concubinas, eles tiveram filhos, esses filhos adúlteros procuraram estudar e se formaram. Aí foram médicos, advogados, engenheiros e ajudaram a outra família nessa fase de empobrecimento. É um fato interessante.

EDUCAÇÃO

Nós éramos da classe média. Nós não éramos da classe rica, éramos da classe média. Mas naquela época havia uma preocupação muito grande com a educação, havia um investimento. Agora, mais por outro lado, você não tinha meios, como não tem hoje de impor aos filhos o estudo. Eu fui para o Recife estudar. Naquela época, escola de engenharia só tinha, no Nordeste, só tinha em Salvador e em Recife. Mais tarde apareceu uma no Pará. Então, todo o Nordeste, quer dizer, do Ceará para baixo, até Alagoas, freqüentavam a escola de engenharia de Recife, e Sergipe e Bahia freqüentavam a escola de engenharia da Bahia. A minha escolha por engenharia, eu inicialmente queria ser engenheiro agrônomo, porque eu, de certa forma, tomava conta da fazenda do meu pai. Eu era o mais disponível e eu sempre imaginava projetos, de fazer barragem. E aí, mas agronomia era... quando eu cheguei na hora h do vestibular, eu vi que agronomia tinha uma limitação muito grande, em termos de futuro. Então, eu tendi para engenharia civil, que é o curso que eu fiz lá no Recife. Eu fui sozinho. A família, a base da minha família, o meu pai e a minha mãe, era realmente João Pessoa.

FAMÍLIA

A fazenda do meu pai ficava numa região do semi-árido lá... Não era na Zona da Mata. Eram duas coisas separadas. E a fazendo do meu pai, então eu fui muito jovem... Como o meu pai não podia ir, então ele me mandava, fazia uma relação de coisas a verificar para trazer as respostas para ele. Então, eu ia lá examinar e com isso eu fui me apegando às coisas. Eu fui, a medida que eu ia ficando mais velho, com maior capacidade intelectual, aí eu próprio já comecei eu mesmo a fazer uma gerência, e com isso eu tive uma relação muito grande com a terra. Sim, porque eu enfocava o seguinte; nessa região do semi-árido, as secas, as grandes secas do Nordeste, é uma situação terrível. Realmente toda vegetação, com exceção de algumas árvores - o juazeiro por exemplo, os cactos -, o resto morre. Então, fica... Os animais ficam sem alimento nessa região e eu, criança, eu tinha de ajudar a alimentar os animais, buscar alimento fora, buscar água e levantar animais, e aquilo me marcou porque foi exatamente na minha fase dos 12 aos 18 anos. Eu senti a seca e povo sem comida. O Fome Zero podia ter sido feito naquela época. Mas, então, aquilo me marcou muito. Mais tarde, quando eu já trabalhava na Petrobras, eu fui visitar minha irmã que morava no Paraná, no norte do Paraná, eu cheguei lá e meu cunhado, a primeira coisa que falou: “Ah, você veio numa época muito ruim.” Eu falei “Por quê?” “Porque é uma seca. Nós estamos num período de seca.” Aí eu... Nós fomos visitar uma fazenda de café e eu via tudo verde. Eu vi. Aí eu falei para ele: “Escuta, seca, você falando em seca.” Porque a minha idéia de seca era idéia da seca do Nordeste. E aí ele me falou: “Não, não, porque não chove aqui há dois meses, sem chuva aqui.” Mas a água correndo nos córregos. Quer dizer... E foi aí que eu tomei a decisão de mais tarde dizer: “Olha, agora eu vou terminar meu tempo aqui, para compensar esses anos que eu passei levantando gado lá, carregando comida para o gado na Paraíba.”

MILITÂNCIA

A Escola de Engenharia de Recife era... Primeiro, Recife é uma cidade no Brasil muito politizada, geralmente politizada. E a Escola de Engenharia era, dentro dessa politização, um expoente da politização. Então, havia movimentos contínuos, no sentido de defesa de teses que interessavam aos interesses do país. A campanha do “Petróleo é Nosso”... Eu comecei a entrar na Petrobras porque nós fizemos uma campanha contínua. A Escola de Engenharia tinha uma coisa interessante, que eram os trotes. Então todo início do ano se fazia o trote para receber os novos calouros, que não eram muitos. A escola era uma escola de mais ou menos 500 alunos e você tinha... Aliás, menos, 500 não. São... Não, muito menos, que eram cinco anos... Não, cerca de... Entre 200 e 300 alunos. Então você recebia anualmente cerca de 40 calouros, e esses trotes eram trotes feito desfile de escola de samba aqui no Sambódromo. Tinha carro alegórico. Carro alegórico eram carroças, puxadas a burro, evidentemente sem nenhum desses acabamentos ricos que tem aqui. Era um negócio todo rústico. Mas com faixas, com cartazes e se procurava, então, fazer uma crítica ao modelo político. Pois é. Inclusive, na época, antes da criação da Petrobras em 1954, nós fizemos um trote, eu lembro perfeitamente, que foi dedicado ao problema do petróleo. Nesse trote, eu gravo até hoje uma faixa, em que se dizia: “O petróleo é só nosso.” Quer dizer, usando o é só nosso com o Esso, com a Companhia Esso. Então, foi o tema de um dos trotes, um trote famoso. E havia uma repressão, porque o desfile começava em frente à Escola de Engenharia, que é na rua do Hospício, ali no parque Treze de Maio, e passava pelo Centro da cidade. Era um negócio que a população esperava. E o governador, as autoridades, não sei se o governador, mas as autoridades policiais esperavam, deixavam que o desfile viesse até o Centro da cidade. Quando se ia passar em frente ao Palácio do Governo para retornar, aí eles atacavam. Aí acabava o desfile. Então, foi... A Escola de Engenharia era marcada por isso. Havia um movimento político muito grande na escola, muito grande. A tese do petróleo foi debatida amplamente, não só na escola como no Brasil inteiro. Foi um movimento de âmbito nacional, mas na escola, a Escola de Engenharia foi um ponto em Recife de referência. Isso foi de 1950, de 1951 até 1954, quando a Petrobras foi criada. E mesmo depois da Petrobras criada houve, assim, quando a Petrobras foi criada houve uma campanha de... uma tentativa de desmoralização da decisão de criar a Petrobras, achando que o Brasil não tinha petróleo, que não valia a pena e etc. Essa campanha de desmoralização se dava através da imprensa. Através da imprensa. E a minha tese até hoje é que realmente a Petrobras ela se constituiu empresa porque na época da criação as majors e o Primeiro Mundo consentiram que o Brasil tentasse criar uma empresa de petróleo, pelo simples fato de que eles não acreditavam que poderia ser criada uma empresa de petróleo num país do Terceiro Mundo.

IMAGENS DA PETROBRAS

A Petrobras é a única empresa de petróleo, a única do Terceiro Mundo. Veja bem, quando eu digo única, existem muitas - A Petróleo Venezuelano, a Pemex -, mas ela é a única que domina o ciclo-petróleo, todo o ciclo. Todo o ciclo-petróleo porque as demais, elas são competentes, elas têm bons profissionais, mas elas não dominam o ciclo-petróleo. O petróleo, ele tem duas áreas. Você normalmente divide o petróleo no setor up extreme, que é o setor onde você busca e chega a produzir, e o setor down extreme, onde você tem o refino, onde você já pega o petróleo e transforma, e transporta, e vai até a química, a petroquímica e a química fina. São esses dois. Então, para você dominar isso tudo, você precisa ter centro de pesquisa de altíssima qualidade, você precisa ter investido bastante na formação de profissionais. Então, esse foi o grande mérito da Petrobras. Ela, desde a sua criação, ela investiu maciçamente na formação de pessoal, de treinamento.

INGRESSO NA EMPRESA

O meu primeiro emprego foi na Petrobras.

RECURSOS HUMANOS

Depois da criação, a Petrobras teve a sorte de naquele momento contar com algumas pessoas que tiveram visão. O Neiva Figueiredo, que era um geólogo formado nos Estados Unidos, Antônio Seabra Moggi, que é um nome muito importante na formação de pessoal. E outros. Mas essas pessoas, elas dentro daquela inexperiência, elas chegaram à conclusão que era importante formar gente. Então eles programaram a criação de um órgão que se chamava... Era Cenap com c, que era um Centro de Aperfeiçoamento de Pessoal... De profissionais para o petróleo. Então, esse Cenap, ele começou a ser implantado aqui no Rio de Janeiro, aqui na Escola de Química na Urca, para a formação de engenheiros para a área de refino. Foi o primeiro, digamos assim, o primeiro núcleo de ensino profissional do Cenap foi aqui. E criou um centro na Bahia, criou um Cenap na Bahia, onde, na Bahia, ela instalou uma espécie de universidade. Eles recrutaram professores de universidades americanas e formaram um curso de geologia, que praticamente não existia no Brasil. À época, 1955, 1956, você só tinha Ouro Preto, que era... Só tinha Ouro Preto na formação de engenheiros de minas, não eram geólogos - engenheiros de minas, e não tinha mais nada. Então, esse Cenap criou essa escola de geologia na Bahia e uma escola para a formação de engenheiros em engenharia de petróleo, também dentro do mesmo princípio de recrutar... À época não havia a titulação em engenharia de petróleo. Na Universidade da Bahia, essas duas organizações, essas duas implantações foram feitas em convênio com a Universidade da Bahia, de tal forma que o aluno, ao terminar o curso, ele recebia um diploma da Universidade da Bahia para os dois cursos. Havia, antes disso, a Escola de Engenharia da Bahia; ela formou alguns engenheiros, durante um ou dois anos ela deu noções de Engenharia de Petróleo, mas como não era o foco do ensino, essa formação foi muito deficiente, foi muito pobre, digamos assim, porque não tinham professores. Então, eu estava lhe falando que esse pessoal, com essa visão, iniciou a formação de técnicos e continuou isso maciçamente desde 1957, e continuou até 1990, certo?

INGRESSO NA EMPRESA

Quando eu estava na Escola de Engenharia de Recife, no ano de 57, apareceu a Petrobras fazendo o concurso, oferecendo concurso para os engenheiros que quisessem participar desse curso de formação na Bahia. E aí eu fiz a prova. Olha, veja bem, eu estava na Escola de Engenharia de Recife, uma escola superpolitizada, que tinha lutado pela campanha do “Petróleo é Nosso”. Nós tínhamos noção da importância de uma companhia de petróleo para o país, exatamente para você... para você ter independência energética nesse setor. Então, quer dizer, eu... A minha cabeça já estava voltada para a Petrobras. A minha e de outros. Quer dizer, da escola de engenharia saíram cerca de 14 engenheiros que foram fazer curso aqui no Rio de Janeiro, na área de refino, e lá na Bahia. Quem dava aula eram professores estrangeiros. Como eu disse, o Cenap, da Bahia, a parte de geologia, professores americanos recrutados nas melhores universidades americanas do setor de geologia. E a parte de engenharia de petróleo também foram recrutados em universidades. Aí apareceram... A Colômbia cedeu um professor... Não, eu acho que como eu era ignorante, eu vim da escola de engenharia com aquela base de engenheiro civil, e depois o petróleo, aquele desafio de você encontrar o petróleo, aí tudo que era colocado à disposição, você procurava digerir. Agora, uma coisa importante para você ver a seriedade e, talvez por causa disso o bom resultado, o bom fruto que a Petrobras colheu, é a seguinte: o curso que a gente foi fazer era um curso remunerado. Quer dizer, quando eu entrei na Petrobras, eu entrei empregado. Mas para eu continuar empregado, eu tinha de passar nos exames, e o curso era um curso dividido em períodos, e você tinha prova todo santo dia e avaliação trimestral. Se você não tivesse aproveitamento perdia emprego. Então, por exemplo, a minha turma foi a primeira turma organizada, quer dizer, que entrou... encontrou essa organização na Bahia; professores e sala. Houve uma turma anterior, em número menor, que não teve... Ela estudou, mas foi na própria região de produção da Bahia. Quer dizer, não era um curso com professores, com horas. Foi uma tentativa que a Petrobras fez, que não tinha tempo de organizar. Mas a minha turma começou com 50 e tantas pessoas e no segundo período, nós já tínhamos reduzido a 30 e poucos porque muitos... O camarada sai da escola de engenharia com diploma de engenheiro e aí não quer mais fazer prova. Chega lá, não quer estudar, e ali você tinha de ter estudo, você tinha de estudar, você tinha que ter nota para passar. E a matéria era uma matéria inteiramente nova. Não tinha... A única interface que existia era interface da física e da matemática. Entrei na Petrobras em janeiro de 1958.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Aí esse curso terminou, esse curso durou dois anos, entre teoria e prática, porque nós tínhamos que fazer estágio na própria região de produção da Bahia, que era naquela época a principal unidade da Petrobras. Era onde havia produção de petróleo, produzia 100 mil barris por dia, e toda a inteligência, digamos assim, de exploração estava lá. O Rio de Janeiro tinha uma sede, mas eram profissionais mais burocráticos do que técnico. E o meu primeiro trabalho, nós terminamos o curso no final de dezembro, na época do Natal, a Petrobras... Eu me ofereci, eu escolhi ir para a Amazônia. Eu fui com mais três colegas. Nós viajamos no Natal. Chegamos em Belém, onde ficava a sede da superintendência, e aí o meu primeiro trabalho como profissional ocorreu aí. Eles me mandaram para uma sonda, que era, digamos assim, o embrião dessas unidades marítimas que nós temos hoje. Até hoje, o pessoal costuma chamar “a Petrobras Zero”, brincando, que era uma balsa, uma balsa, que operava na foz... Toda aquela região da foz do rio Amazonas. Quer dizer, uma área muito grande, e lâminas d’água de até três metros, que era a altura da balsa, certo? Então, você chegava com a balsa e punha a balsa. Logicamente, você trabalhava sempre junto às margens dos rios ou lagos e afundávamos a balsa, e a balsa tinha uma torre, uma torre no centro dela, e aí começava a furar. Quer dizer, fazia um poço ali. E quando eu cheguei, na expectativa: “Bom, eu cheguei agora no Natal, então, a Petrobras vai... Eu vou passar o Ano Novo aqui em Belém, deve ser ótimo. Aí, o primeiro dia útil da semana, o chefe do departamento me chamou e falou: “Hélcio, a sua passagem de avião está aqui. Você está viajando para o Amapá.” Eu fui para o Amapá, o meu primeiro trabalho foi nessa balsa no rio Jarí. No rio onde houve aquele projeto do americano. Eu comecei a furar um poço lá...

EXPLORAÇÃO AMAZÔNIA

Ah, mas foi uma emoção... Na hora que eu me senti engenheiro, engenheiro de petróleo, cheguei, não tinha... Só tinha o geólogo, tinha muitos estrangeiros na época. O geólogo era americano. O resto da tripulação era toda brasileira, e eu era o manda-chuva porque eu cheguei como engenheiro. Quer dizer aí então... Petrobras existe uma disciplina muito grande. Então, você, se chegar lá, for para uma determinada área em que você é chefe, aí todo mundo obedece mesmo, mesmo que você não exija essa disciplina. Mas eles agem assim. Então, eu me senti super-realizado. E aconteceu um fato muito interessante. Foi a minha primeira experiência, porque nós, quando fizemos esse curso, nós absorvemos uma quantidade de informações, um nível de conhecimento que ninguém... o resto dos empregados da Petrobras não tinha. Não tinha porque eles não tinham tido oportunidade. O sistema de treinamento era um sistema de pegar um engenheiro civil e pôr ele numa sonda ou numa unidade, para ele ir aprendendo com a prática. Quer dizer, sem uma... Isso era o sistema antigo, que foi obrigado a fazer isso. Então, eles não tinham conhecimento. Eles, quer dizer, é claro, o cara era engenheiro, ele sabia que certas coisas podiam ser feitas e outras não. Mas eles não sabiam os detalhes, o porquê, não sabiam fazer cálculos, não sabiam, enfim, montar projetos. Eles não tinham o conhecimento para isso. Então, eu cheguei na sonda e eu tinha tido esse curso dois anos, estava superafiado. E aí nós estávamos furando lá o poço, e o poço chegou numa determinada profundidade, e a ferramenta prendeu. A perfuração é feita com uma coluna de tubos, que você vai acrescentando. Cada tubo tem, mais ou menos, dez metros, que você vai colocando na medida que a perfuração avança, você vai aumentando, vai descendo mais tubos. Por aí você vai até a capacidade da sonda. Algumas, cinco mil metros, outras... No caso nosso lá eram quatro mil metros. Então, o poço estava já uns três mil metros, e a ferramenta prendeu, que é uma coisa que ocorre de vez em quando. E a perfuração, você tem essa coluna, na ponta dessa coluna você tem uma broca, que é quem cava, quem tritura as rochas, e é um processo rotativo que nós usamos. Então, você tem o processo rotativo, e por dentro dessa coluna você injeta um líquido, a gente chama lama de perfuração, que vai até o fundo, que vai até a broca e sai pela... A broca tem uns orifícios, sai por aqueles orifícios e preenche o espaço anular, porque normalmente a broca é maior do que o tubo, então, quando ela fura o poço, ela cria um poço cujo diâmetro é maior do que o diâmetro do tubo. Então, tem um espaço anular entre a parede do poço e... Então, aquilo é cheio de fluido. E aí prendeu. A ferramenta prende, e aí você... E aquilo ali é perda do poço, ou então operação de pescaria. Normalmente superdemorada, porque você tem de cortar a tubulação e, enfim, tentar pescar para recuperar. Enfim, é uma operação muito demorada. E eu tinha chegado. Quando eu estava no alojamento, o camarada falou: “Prendeu a ferramenta!” Pronto. Aquilo ali significava parada da operação por vários dias. O geólogo adorava porque ele não tinha o que fazer. Ele ficava lá. Não tinha Belém, não. Era 90 dias o tempo mínimo de sonda. Aí eu cheguei e examinei lá e verifiquei que tinha sido uma prisão por pressão diferencial. Algumas... Pelo que estava furando, tinha uma areia lá, meu diagnóstico foi esse. E, aí baseado no que eu tinha aprendido no curso, eu: “Vou deslocar um tampão de óleo diesel.” Colocar óleo diesel frente àquela zona que estava prendendo e aí por pressão... por diferença de pressão aquilo ia soltar. Aí mandei preparar, fui lá, injetei aquele óleo, e como eu estava cansado, que eu tinha trabalhado muito, eu falei para o chefe lá, o soldador chefe, falei: “Olha, você faz o seguinte; agora, vamos supor, meio-dia, eu vou... Essa ferramenta vai soltar daqui a três horas. Então, você, por favor, quando soltar, você me chama.” E fui para o alojamento. Daqui a pouco, o camarada... Quer dizer, quando chegou na hora, o camarada chegou com os olhos... Eles acharam que eu era desses, como é que chama, pajé. Tinha muita gente da Amazônia lá, eles achavam que eu era algum mago: “Essa ferramenta soltou!” Não esqueço nunca disto. Os trabalhadores da época não conheciam petróleo não, não conheciam petróleo não. Acontece o seguinte, a Petrobras, como ela faz até hoje, ela quando vai fazer uma operação num determinado local, ela é obrigada a levar o pessoal-chave, que é o pessoal preparado. Isso aí é indispensável. Mas toda mão-de-obra que ela pode recrutar no local, ela recruta no local. Então, as sondas, uma sonda dessas na Amazônia, ela era uma sonda flutuante, na realidade, porque Amazônia, como você sabe, todo transporte é feito através de barcos e balsas. Então a Petrobras tinha uma frota imensa de balsas, e cada sonda, uma sonda devia ter, mais ou menos, umas dez balsas de 100 a 200 toneladas, onde você estocava óleo diesel, outra você estocava material em cima. Outra era uma balsa-alojamento, que até hoje tem. Outra era uma balsa-almoxarifado. Enfim, as sondas todas dependiam dessas balsas. E para fazer esse serviço, lidar com essas balsas, a Petrobras recrutava pessoal local, que era um pessoal excepcional, porque eles eram acostumados com o rio e conheciam maré e tal.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO

Essa balsa que eu falei a você, ela era afundada numa margem, numa área rasa. E aí, quando terminava a perfuração, você tinha que flutuar essa balsa. Ela estava com o fundo encostado na lama. Quando terminava, você tinha que fazer o inverso. Você tirava a água dela para que ela flutuasse. E às vezes a balsa não descolava. Ela estava presa embaixo, o famoso glue effect, efeito de cola, estava presa. E aí nós usávamos os rebocadores, tivemos até acidente para puxar e... Enfim, a balsa estava... E um caboclo, num belo dia, que não era nem empregado da Petrobras, era um morador local: “Você sabe, que coisa interessante. Acontece a mesma coisa com a minha canoa.” “Ah, acontece com a sua canoa? Como é que você resolve?” “Ah, isso é muito simples. Nós passamos uma corda por baixo.” Nós não tivemos dúvida. Pegamos um cabo de aço e “tchum” e passamos a balsa, “bum”, subiu. Uma troca de conhecimento. Não, não. O sistema de trabalho era um sistema até desumano, não para mim, mas para o grosso do pessoal, porque como você tinha uma quantidade muito grande de equipes, eram 17 sondas, mais... tinha mais umas 12 ou 13 equipes de sísmica, então, quando você multiplicava isso por pessoas, dava uma quantidade muito grande, e isso espalhado numa área de cinco mil quilômetros quadrados. Numa sonda nós tínhamos cerca de 60 pessoas. Vezes 20.

LOGÍSTICA

Mas é preciso levar em conta que nós fizemos uma vez uma perfuração no Acre, em que a embarcação saiu de Belém, para chegar na locação levou 30 dias de viagem. Então a logística era muito difícil, porque essa distribuição não era... planejada, era ao acaso. Você tinha uma locação aqui, outra lá, outra lá. Então a Petrobras atendia as necessidades através de balsas que levavam alimentação, levava combustível e materiais fluvialmente, e o pessoal era movimentado de avião. Então, ela na época, ela comprou dois Catalinas, e esses Catalinas eram operados por pessoal da Panair do Brasil, que na época existia. Eram hidroaviões, hidroaviões. Os Catalinas eram hidroaviões. Então, esses Catalinas saíam de Belém, e eles faziam... eles faziam um pinga-pinga. Saíam de Belém, pá, pá, até chegar em Manaus. Então, saía de Belém, digamos, 6h, sempre na primeira luz do dia, para chegar em Manaus com luz do dia. Quer dizer, era, mais ou menos, uma viagem de 12 horas. Olhe, alimentação, de certa forma, era uma alimentação boa. A Petrobras... Carne sempre foi uma coisa difícil. Então você comia muito enlatado. Naquela época existiam no Brasil umas latas de conserva, que aquilo ali tinha uma duração de um ano, mais ou menos. Então, aquilo ali era... se comia muito. Mas tinha muito peixe. Então, o pessoal pescava e pegava peixe. E nas regiões, quando as locações... Algumas locações, as locações sempre eram próximas dos rios. Quando ocorria que você tinha de entrar muito na mata, então e se você tivesse de fazer o alojamento lá dentro, aí você dependia da caça. Paca, tem muita paca. Às vezes, veado. Animais que apareciam lá. Até no Acre, a turma disse que a situação ficou tão preta, da falta de comida, que eles comiam macaco. O pessoal contratado da Petrobras é que caçava.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Porque na época, na época não existia, você não tinha essa terceirização, que quem começou terceirização no Brasil, eu acho, foi a Petrobras, porque quando começou essa operação na Amazônia, quer dizer, a operação na Amazônia é até antes da Petrobras, tinha uma sonda pesquisando antes. Mas quando a Petrobras chegou com um número de equipamentos substancial, ela contratou pessoas para fazer a operação. Aí ela contratou todo mundo. Ela contratou carpinteiro, porque precisava carpinteiro, cozinheiros e saiu contratando. Contratou todo mundo. A medida que ela foi se assenhorando da operação e checando os custos, ela chegou a conclusão que, por exemplo, a cozinha podia ser feito por uma empresa especializada em cozinha, não necessariamente empregada da Petrobras. Por isso que eu digo, se você fizer uma pesquisa, a Petrobras... vão encontrar que a Petrobras foi a primeira empresa brasileira que fez terceirização, que se tornou modismo depois dos anos, talvez, não sei, dos anos 60 ou dos anos 70. É, eu estava falando que na época, eu estou me referindo aí ao final da década de 50, o início da época de 60, o regime de trabalho na Amazônia era muito duro para o pessoal considerado de nível médio. Eles tinham... Eles não tinham direito a folga. Eles não gozavam. Eles tinham direito, mas não gozavam, não podiam gozar a folga. Então, eles trabalhavam um ano, ficava um ano lá na sonda ou na equipe sísmica. Normalmente, as sondas é que tinham maior trabalho contínuo. E vinham para as bases, que eram duas, a sede era Belém, mas Manaus era o outro pólo também de fornecimento de pessoal, e aí eles ficavam, eles gozavam um mês de férias e tinham pagas... e recebiam em dinheiro as folgas que não eram gozadas. Isso provocou um problema social muito grande, porque os homens, essas equipes de perfuração que se moviam ao longo da Amazônia, elas tinham atrás dela cassinos flutuantes. Quer dizer, cassinos... eu estou chamando de cassino, mas na realidade o termo não era bem cassino. Eram barcos, onde as mulheres viviam à procura de dinheiro, naturalmente. E o dinheiro estava na sonda, porque naquela época o pagamento era feito em dinheiro no local onde o camarada tivesse. Quer dizer, ele recebia... não tinha conta bancária... Quer dizer, tinha conta bancária, mas o pagamento era feito em dinheiro. Então, o que é que aconteceu? Os homens começaram a se relacionar com as mulheres daqueles barcos e constituir família. Então, passados alguns anos, de um modo geral, aquele pessoal do regime de um ano sem voltar a sua casa, ele teve... Passou a ter uma segunda família. Isso constituiu um problema ao final, quando eles voltaram, que deixaram de fazer o regime de campo. Então, era um regime que se exigiu muito. Esse pessoal, acho que pagou um preço muito alto, mas eles é que fizeram a Petrobras. Foi através desse tipo de sacrifício que a Petrobras foi criada. E os engenheiros tinham de ter uma permanência mínima de três meses. E a folga, eles gozavam a folga na base de três por um: um dia de folga para cada três trabalhados, que é mais ou menos o regime que a gente tem aqui na cidade. Sete dias, você tem dois de...

EXPLORAÇÃO MARANHÃO

No período que eu passei na Amazônia, eu trabalhei tanto na parte da Amazônia propriamente dita como no Maranhão também, nós tivemos indícios, alguns resultados não-comerciais, não-comerciais. O grande resultado comercial na Amazônia surgiu quando eu já estava aqui no Rio, já no Departamento de Perfuração, na década de 80, que foi a descoberta do Urucu, que foi a primeira reserva comercial de petróleo na Amazônia. Quer dizer, anteriormente a isso, houve descoberta de gás, uma série de campos de gás, um trend no Rio Juruá, ao longo do Rio Juruá. Mas o óleo mesmo, ele só veio a ser produzido em escala comercial com a descoberta do rio Urucu. O Maranhão - a Petrobras, depois de um certo tempo de insucessos na Amazônia, ela deu uma mudada para o Maranhão, porque a Bacia de Barreirinhas se mostrou uma bacia com potencial de petróleo muito grande, muito interessante. Havia indício num poço de Barreirinhas, que produziu um pouco de petróleo e, posteriormente, nós descobrimos na época que eu estava lá, ali junto de Humberto de Campos, um poço também chegou a produzir. Mas não tinha expressão em termos de reserva de petróleo. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL O meu tempo na Amazônia, ele terminou em 1966. Eu comecei como engenheiro lá. Depois eu fui crescendo na organização. A Petrobras foi me aproveitando e eu fui primeiro designado para ser chefe da Base de São Luís, que era uma base importante lá na... E depois eu fui ser superintendente-adjunto da unidade lá em Belém, até 1964, quando houve mudança, mudanças políticas, e eu, na oportunidade, saí também. Em 1966... Na Amazônia, na unidade de lá, a famosa SRAZ, havia um movimento político sindical muito forte e lá, talvez, tenha sido uma das áreas do país que, com o famoso movimento militar, foram mais atingidas com demissões. E o meu perfil, eu era, eu sempre fui um técnico, eu nunca fiz política. Eu tenho, naturalmente, como cada um de nós, tem sua opção, minha visão política. Mas eu, no exercício dos cargos, eu jamais agi como um político. Mas a coisa lá foi muito forte. Houve uma intervenção, eu era adjunto, e até o interventor, que mais tarde foi governador, que era o Jarbas Passarinho, quando ele chegou à Petrobras de novo, até me convidou para ficar no cargo, que eu era o superintendente de operações. Mas eu declinei, porque eu disse a ele: “Eu sei que é uma nova realidade. Vocês vão fazer inquéritos, e eu não quero ficar numa posição que possa interferir na avaliação das coisas que foram feitas”. De forma que eu, naquele momento, eu saí e voltei a ser um engenheiro de perfuração e... Aí é um trecho grande da minha vida, uma história muito comprida, que não vale a pena falar. Mas em 1967 a Petrobras começou a organizar no Rio de Janeiro um grupo para iniciar as operações na Plataforma Continental Brasileira, e eu fui convidado para participar desse grupo, pelo superintendente do Departamento de Produção da Petrobras, que era um engenheiro... Era o engenheiro José Levindo Carneiro, oriundo da Amazônia. Ele me conhecia e me convidou para participar desse grupo.

EXPLORAÇÃO SEPLAL

Relatório Link Então, esse grupo, você está lembrado do Relatório Link. O Relatório Link disse no início da década de 60 que uma das opções que a Petrobras teria para encontrar petróleo seria a exploração no mar. E o Departamento de Exploração, nesse período, ele fez alguns trabalhos, algumas linhas sísmicas em águas rasas, e pediu ao Departamento de Produção... Naquela época, o Departamento de Produção incluía o Departamento de Perfuração. Você tinha o Depex e tinha o Depro. O Depex era o departamento do Link, enquanto esteve no Brasil. E o Depro era um Departamento de Produção, que provia tanto para a produção como para a perfuração, as outras... Gerenciava as outras atividades. Então, o doutor Levindo me convidou para esse grupo. E o que havia era um pedido do Depex, na época, de fazer uma perfuração na Plataforma Continetal, offshore Brasil, em lâmina d’água de 20 metros. Já existia na Bahia, na Bahia de Todos os Santos, como a gente sabe, a Bahia descobriu um campo, um campo de Dom João em terra, e as perfurações foram caminhando para o mar, e foram feitos alguns poços no mar, prolongamento do campo de Dom João. Mas esses poços eram feitos em águas rasas, águas até nove metros, e águas abrigadas. Então era uma operação, mais ou menos, anfíbia, feito o Catalina. Quer dizer, você pegava uma sonda de terra, punha lá em cima de barcaças e depois tirava a sonda, depois que ela furava o poço. Então, a primeira realmente... O primeiro movimento para a Plataforma Continental surgiu aí, em 1967. Então foram recrutados um engenheiro de produção, que era o engenheiro Marcelo, pelo Depro. E mais um engenheiro veterano brasileiro, que era o Ubiratan Pina, já falecido, e eu próprio. Para nós começarmos a coletar informações, o que era preciso para organizar esse trabalho no mar. E aí nós fomos para os Estados Unidos. A Petrobras nos mandou para os Estados Unidos em 1967, para que a gente fizesse um curso sobre operações offshore. Isso foi feito e principalmente para visitar as operações no Golfo do México, que à época eram muito intensas. Eram muito intensas. Bom, até hoje existe um gap muito grande entre os dois países, é evidente. Mas naquela época era... a diferença era muito grande. Nós não tínhamos nada, absolutamente nada no Brasil que pudesse ser usado para os trabalhos offshore. Para não dizer que não tinha nada, nós tínhamos dois rebocadores da Marinha, que eram rebocadores usados para salvar embarcações na costa brasileira, que estivessem ameaçando afundar e coisas desse tipo. Eram rebocadores de 1.000 hp. Quer dizer, não tinha... Não representava nada em termos de potência, 1.000, 1.500 hp, de forma que nós fomos e voltamos, coletamos os dados, visitamos aí, tivemos uma noção das operações e trouxemos subsídios para a organização do Seplal, que foi o Serviço Especial de Exploração da Plataforma Continental, que teve uma vida efêmera. Ele foi criado em 1967 e ele viveu até 1971, 70, 71. Então, esse Seplal, ele foi organizado e procurou recrutar para os seus quadros um grupo que tivesse realmente um grupo... era um grupo muito pequeno, mas que tivesse realmente uma... fosse um pessoal de melhor capacitação. Não era o meu caso, eu fui apenas um organizador inicial, mas os outros que vieram, em termos de operação. E aí foi feita essa organização. Esse órgão era um órgão da área de Exploração e Produção, ligado ao diretor, e tinha o status de uma região de produção. E aí aconteceu o seguinte, quer dizer, na implantação, aí nós saímos. Quer dizer, o Depex tinha pedido uma sonda, uma plataforma capaz de furar em 20 metros de lâmina d’água. Aí nós saímos para construir uma que tivesse capacidade para 30 metros. Quer dizer, 50% a mais do que aquela. Foi construída no Brasil. Começou em 1967 e terminou em 1968, foi lançada no Estaleiro Mauá. Na construção dessa plataforma, aí você pode, se você pegar os detalhes, você constata isso que você perguntou. Quer dizer, o grande gap tecnológico. Quer dizer, aço teve de ser importado, a fabricação das pernas que eram... era uma plataforma auto-elevável. Então, teve de ser selecionada, preparada uma firma francesa em São Paulo para fazer aqueles tramos das pernas. Enfim, era uma novidade. Tudo era coisa nova. Até o fogão, que o fogão era uma coisa que teve que ser adaptada e, enfim, para a plataforma. Mas essa plataforma demorou a ser feita. Enquanto isso, a Petrobras, já com esse Seplal organizado, contratou a primeira plataforma para... a primeira plataforma também auto-elevável, que existiam muitas na época, para começar os trabalhos na plataforma. E o primeiro poço foi feito no Espírito Santo em 1968, 1968 e a locação foi em cima de um domo de sal. Quer dizer, você não ia encontrar petróleo ali... porque é um domo enorme. Quer dizer, a sonda furou, parou-se e mudou-se a sonda para o segundo... A segunda locação, que foi na costa de Sergipe, e na segunda locação a Petrobras encontrou petróleo, que foi o primeiro petróleo descoberto na Plataforma Continental Brasileira, em 1968. Como se organizou o Seplal, eu fui escolhido para ser o gerente de perfuração. Então nós tínhamos um gerente de perfuração, um gerente de exploração e tínhamos o chefe do serviço, que era um paranaense, o Osvaldo Garcia de Azevedo. E nós, nas nossas áreas, até o gerente de exploração era o Alberto Carlos, Alberto Carlos Ferreira de Almeida, e nós começamos a... Aí é que houve uma absorção. A Petrobras, no que diz respeito à exploração e produção, ela teve um pulo muito grande, porque nós, com essa atividade, nós fomos obrigados a manter contato com um padrão tecnológico muito mais alto do que nós tínhamos. Então, eu acredito que foi um benefício fantástico para a Petrobras. E o sucesso foi um sucesso relativamente grande, porque nós descobrimos esse campo de Sergipe.

EXPLORAÇÃO BACIA DE SERGIPE-ALAGOAS

O primeiro campo de Sergipe na Plataforma Continental entrou em produção num prazo recorde. A produção... À época era uma produção grande, porque era uma produção de mais de mil barris por poço, era considerado uma coisa fora do comum. Mas a Petrobras encontrou alguns campos ali, perto desse primeiro, que... Guaricema, no campo de Guaricema, e encontrou logo outros, e aí já foi criada uma região de produção, em função dessa descoberta, que já começou logo a ser muito maior do que a produção de terra de Sergipe. Sergipe e Alagoas. Quer dizer, houve essa motivação toda, mas como eu disse, houve, teve uma vida efêmera, porque em 1970 nós já tínhamos cinco sondas operando na Plataforma Continental. Todas elas em águas rasas, águas... Nós chamamos água rasa, a água até 100 metros de profundidade, que são áreas que são cobertas por plataformas chamadas auto-elevadoras. São plataformas que têm umas pernas. Elas são balsas e elas têm umas pernas que são móveis. Você pode descer essas pernas até encostar no fundo do poço, e no momento que as pernas tocam no fundo do poço e ficam bem plantadas, você começa a levantar o casco da água. Então, aquela balsa fica fora da água, e você realiza a perfuração, o poço que você pretende furar, a partir daí. Então, o Seplal em 1970 já tinha tudo isso em operação e tinha mais do que isso: já estava aplicando uma tecnologia que não era disponível nas regiões. Então houve uma mudança na administração da Petrobras, em 1970, e o novo diretor da Petrobras ficou num dilema: “O que é que eu vou fazer? Eu vou prestigiar esse órgão em detrimento das regiões?” Que na época a região de produção da Bahia, que era maior de todas, continuava sendo muito importante. Você tinha a região de produção de Sergipe-Alagoas; região da Bacia Potiguar e tinha a Superintendência lá da Amazônia. Então, quer dizer, “Você vai dar prioridade a esse órgão ou vai continuar prestigiando as outras regiões?” Então, a decisão tomada foi de extinguir o Seplal e dividir o acervo do Seplal pelas regiões. Quer dizer, a região... A exploração fosse feita frente à costa da Bahia, Região de Produção da Bahia, da Amazônia, da Amazônia e assim sucessivamente. Com isso houve uma perda porque houve... Às vezes você tinha um especialista que ia cobrir o Brasil todo, mas com essa divisão você... O especialista teve que ser lançado num local só. Mas foi uma decisão que ocorreu e muito bem. No período Seplal, nessa implantação de trabalhar na Plataforma Continental, a observação que eu tenho é a seguinte: o grau de dificuldade porque, por exemplo, você para poder trabalhar no mar, você precisa de uma infra-estrutura muito grande, muito grande. Então, você precisa de barcos especiais, que não tinha um só no Brasil. Nós tivemos de contratar os barcos, trouxemos dois barcos, quatro barcos, dois para o pessoal, dois para o material. Não tinha um helicóptero ainda. Começamos sem os helicópteros. Você precisa... Chegava de barco. De barco, e as sondas, elas têm uma cestinha com o guindaste, e aí o guindasteiro põe a cestinha em cima do barco e a pessoa passa. Até o nosso marechal Levy, ele andou nessa cestinha numa dessas idas, por incrível que pareça. Mas, então, havia toda essa necessidade. E o que é interessante é o seguinte; quando começou a operação, nós trouxemos os barcos, e aí vamos começar operar como a operação exigia. Então quando fomos carregar o primeiro barco na Bahia, o Capitão dos Portos prendeu o barco. Aí o pessoal me telefonou: “Falcão, o barco está preso aqui na Bahia. O Capitão dos Portos... Não pode sair porque está com carga de convés.” Aí eu peguei o avião, fui lá falar com o comandante. “Mas comandante...” “Pois é, Falcão, está aqui, o RTM aqui, o regulamento de tráfego marítimo. Olha aqui; é proibido embarcação transportar carga de convés. Como é que você quer que eu libere o seu barco aí, que está cheio de carga de convés?” Falei: “Comandante, o senhor... O barco”. Aí eu expliquei para ele: “Só pode ser carga de convés porque, quando ele chegar na plataforma, para tirar essa carga vem um guindaste. Tem um guindaste lá, e as pessoas amarram aqui e vai puxando um a um, os tubos, as peças, o que for. Só pode ser assim”. Ele falou: “Bom, está certo. Você tem razão. Agora, só o ministro da Marinha pode dar essa autorização, porque é quebra de regulamento.” E ele concordou. Ele era uma pessoa inteligente, mas ele disse: “Mas eu não posso fazer isso. Eu não tenho poderes para passar por cima do regulamento.” Então, rapidamente, a Petrobras contatou o ministro da Marinha, que deu uma ordem especial para liberar o barco e a partir daí, imediatamente, a Marinha constituiu um grupo de trabalho, que a Petrobras também participou com informações e tal, para alterar o regulamento de tráfego marítimo.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Bom, quando terminou o Seplal, eu era um gerente da Perfuração, a nova administração sentiu-se um pouco culpada porque eu passei a ser um petronauta, eu não tinha mais posição, eu iria ser um técnico. Então me deram uma missão de construir o Petrobras 2, que foi a segunda unidade da Petrobras, que era um navio, que era um navio-sonda, um flutuante. E essa missão me levou aos Estados Unidos e ao Japão, porque o projeto era um projeto de uma empresa americana, e os equipamentos eram americanos, mas a construção seria no Japão. Então eu fiquei dois anos e meio por conta dessa tarefa. Quando eu voltei, a minha missão terminou em relação ao navio, com a operação do navio. Aí teve todo um programa de trabalho de preparação de pessoal. Foi a primeira unidade flutuante que a Petrobras própria operou. O navio chegou, o navio chegou no Brasil em 1974, e o primeiro poço que esse navio furou na Bacia de Campos descobriu a Bacia de Campos. O navio era o Petrobras 2. É. E aí terminou. Foi o Rio de Janeiro 9, que ele perfurou e descobriu a bacia... descobriu o primeiro campo de petróleo na Bacia de Campos. Então, depois dessa missão, eu fui recrutado pela Braspetro. A Braspetro estava começando as suas atividades, aumentando as suas atividades mundo afora. Ela foi criada em 1972 e estava com um programa de exploração de petróleo em vários países na América do Sul, mas principalmente no norte da África e Oriente Médio. Então eu fui indicado para ser o gerente de perfuração na Braspetro, na sede do Rio de Janeiro. A minha função era instalar as operações em todos os países em que a Braspetro atuava, no norte da África e Oriente Médio. Então, foi esse trabalho que eu fiz. Nós, na época, trabalhamos na Argélia, na Líbia, no Egito, no Iraque e no Irã.

BRASPETRO

A Petrobras teve sucesso. O sucesso praticamente em todas as áreas. Ela descobriu óleo na Argélia. Não foi uma descoberta representativa de grandes reservas, mas produziu durante algum tempo. Descobriu gás no Egito. Também não foi uma descoberta comercial, mas ela teve uma descoberta extraordinária no Iraque, o que foi a maior descoberta da década, no campo de Majnoon, na década de 1970. Eu acompanhei isso de perto porque eu era o gerente de perfuração. Então toda implantação dos trabalhos foi feita com a minha supervisão. Naturalmente para cada área, a Petrobras levou técnico brasileiro, que ficou lá. Então, que acompanhou as operações e meu trabalho era exatamente fazer com que... Era contratar os equipamentos, colocar os equipamentos nos países. Atividade muito difícil, porque cada país árabe desses é um mundo diferente, é um esquema diferente. A Argélia, eu peguei em 1974, a revolução na Argélia tinha sido em 1962. Quer dizer, ainda existia uma situação jovem. Não tinha velhos, só tinha jovem de 20 anos para baixo, gerindo as mais altas funções. Todas as funções. Então era muito difícil. Radicais, vaidosos, Argélia... A Líbia, só se fala árabe na Líbia. Não tem nada inglês ou em francês. Nada, tudo é árabe, certo? Ou você tem alguém para... Que fale as duas línguas para levar ou você aprende árabe. Também pode ser. As minhas viagens, eu normalmente viajo de 45, 60 dias, porque eu dividia em cada uma, em cada lugar que eu chegava, eu tinha de ficar para resolver como levar, contratar, às vezes de fora quando podia, para fazer com que a sonda fosse colocada naquela lugar. Toda parte de logística, discussão dos programas de perfuração com os técnicos locais, com as companhias. Cada companhia com a sua característica. Foi realmente um aprendizado. Aliás, é importante dizer que, para a Petrobras, a Braspetro foi uma universidade da melhor qualidade, porque na curva de aprendizado da companhia, na hora que ela saiu daqui da época da Amazônia, contratando carpinteiros e não sei o quê, até chegar onde ela está hoje, teve uma fase em que ela teve... Esse crescimento teve um impulso muito grande num momento em que pegou profissionais de todas as áreas, desde administrativa até as áreas técnicas, e colocou esses administradores, esses profissionais, em contato com empresas do Primeiro Mundo, muito mais desenvolvido, muito mais competentes. Enfim, eu acho que a Braspetro foi uma experiência, uma decisão da Petrobras extremamente importante, mormente agora, quando a Petrobras, no Brasil, ela tem a presença de empresas estrangeiras. Então há uma competição... Aqui no Brasil. E aquela experiência serviu muito nessa fase, porque você tem grandes profissionais na Petrobras, e hoje esses profissionais, eles lidam com uma certa... não digo tranqüilidade, mas eles têm facilidade, eles conhecem como proceder, sabem como proceder diante das outras empresas. Eu fiquei na Braspetro até o início de 1977, quando eu fui convidado para ser o superintendente-adjunto do Dexpro.

EXPLORAÇÃO BACIA DE CAMPOS

E aí houve uma mudança na diretoria da Petrobras. Entrou o novo diretor, e eu fui ser esse adjunto que, na realidade, eu era o superintendente de operações, mais uma vez do departamento. Na época, a organização da Petrobras, ela tinha esse departamento, que era chamado Departamento de Exploração e Produção, que aglutinava as três áreas, as três áreas distintas, o que criava uma certa dificuldade gerencial, porque o departamento era um só - você tinha um superintendente e as atividades eram distintas. Quer dizer, as atividades mereciam ter uma administração própria cada uma e isso só veio ocorrer mais tarde, em 1979. De forma que eu cheguei no Dexpro, quando eu tinha deixado a Bacia de Campos descoberta; quando eu voltei, a Bacia de Campos já tinha... já haviam ocorrido outras descobertas e a Petrobras estava numa fase de planejamento do desenvolvimento da Bacia de Campos. Então foi uma fase realmente... Eu usei toda o conhecimento que eu tinha adquirido na época do Seplal e tal. Lancei minhas idéias, mas eu fui voto vencido, porque havia o interesse em fazer de uma outra forma. A Petrobras usou um grupo inglês - e o que havia também, que é importante dizer, é o seguinte; havia uma ignorância. Nessa época o conhecimento em relação ao offshore no Brasil ainda era pequeno, porque o grande núcleo tinha sido o Seplal. Eles espalharam o pessoal do Seplal, mas não houve uma preocupação. O Seplal tinha grande vantagem em você ser o núcleo pequeno absorvedor de toda a tecnologia que existia, e vinha tudo para um núcleo só. No momento que você espalhou, a Petrobras perdeu um tempo grande, porque essa tecnologia, ela não entrava mais num único ponto, ou quando entrava não havia a disseminação dela em relação a todos os grupos. Então, quando saiu para se fazer o desenvolvimento da produção, havia uma certa ignorância, e os profissionais que tinham poder de mando - no caso a diretoria, presidente -, eles não conheciam a parte técnica e aí houve, ao meu ver, uma decisão que eu não fui de acordo, de chamar essa empresa inglesa, porque era uma empresa que não tinha tradição. Nós tínhamos no mercado... Se era para chamar alguém de fora e precisava chamar, eu estava de acordo com isso, mas que se chamasse alguém que tivesse um currículo de execuções. O Brasil não tinha pessoal. Nós tínhamos necessariamente de recorrer a empresas de fora. Mas não através de um grupo inglês que não tinha experiência, que... Enfim, mas assim foi feito. E a Bacia de Campos, então, foi feito o desenvolvimento. Eu participei de parte dela como superintendente de operações, mas eu saí, eu pedi demissão do cargo. Eu tive uma discussão por princípios lá e larguei o cargo, acho que em 1978. Em 1979 mudou a direção da Petrobras. Veio um novo governo e um novo presidente da Petrobras. Então, ele entrou na Petrobras com uma meta de aumentar a produção do país para 500 mil barris num período de cinco anos, e eu fui convidado para ser o superintendente de um departamento de perfuração que foi criado como resultante da divisão da Dexpro. Então o Dexpro foi dividido em três fatias. Então, cada atividade passou a gerenciar a si própria, com seus especialistas. Isso teve um mérito extraordinário para a Petrobras, porque no momento que o geólogo vai se gerenciar ele próprio, ele vai pegar os recursos, então, ele soube como aplicar os recursos, como preparar pessoal. Então cresceu, os departamentos cresceram de um modo geral. Nesse período é interessante observar que a Petrobras perfurou mais no Brasil do que tinha perfurado - eu estou falando do período que vai de 1979 a 1987. Ela perfurou mais poços no Brasil do que toda a perfuração da história dela. Atribuo isso a essa decisão de tripartição e de fazer. Isso aí é que permitiu à Petrobras chegar na posição de hoje, porque os campos de águas profundas foram descobertos nessa fase também. Quer dizer, houve uma fase intensa de exploração. Os campos de Marlim e Albacora, que são os dois maiores campos, foram descobertos em 1985. Nessa época eu era superintendente do Departamento de Perfuração. Então foi aí que nós começamos a usar as primeiras unidades de posicionamento dinâmico na Petrobras. Até então, a gente usava flutuantes ancorados, mas aí para fazer essas perfurações, nós contratamos os primeiros navios de posicionamento dinâmico.

EXPLORAÇÃO BACIA DO ESPÍRITO SANTO

A costa do Espírito Santo durante muito tempo, com a Bacia de Campos muito rica, ela foi relegada, porque os resultados iniciais tinham sido negativos; ela foi relegada. Mas agora, nessa fase de competição, em que houve abertura do setor de petróleo do Brasil, a Petrobras voltou, selecionou blocos e fez duas grandes descobertas na costa do Espírito Santo. IMAGENS DA PETROBRAS E então já estou terminando o meu tempo na Petrobras. Eu em 1987, eu depois... Houve um problema na Petrobras... A Petrobras, é preciso que se saiba, eu acho que todo mundo sabe, mas ela é uma empresa extremamente profissional, profissionalizada. Na Petrobras não existe... Quer dizer, veja bem, eu estou me referindo à minha visão, pode ser que eu esteja inoculado com o cooperativismo muito forte. Mas é uma empresa profissionalizada. Então, se existem objetivos, então vamos atingir os objetivos, custe o que custar. E existe... Uma coisa que eu considero a mais importante de tudo, quando no início da minha conversa aqui, eu falei que a Petrobras, quando foi criada, foi consentida pelo Primeiro Mundo. Foi consentida, porque o Primeiro Mundo achou que o Brasil não seria capaz de construir uma empresa de petróleo. Que não existe, não existe. As empresas de petróleo, quando eu falo empresa de petróleo é o cara que domina o ciclo do petróleo por inteiro. Quer dizer, se houver uma bomba atômica no resto do mundo e ficar só um núcleo, ficar só a Petrobras, ela é capaz de dar segmento a todas as atividades de petróleo. Nenhuma outra empresa, fora do eixo das Sete Irmãs, é capaz de fazer isso. Pemex, que é uma grande produtora não faz por quê? Porque quando ela tem um grande problema, telefona para o vizinho dela ali e pronto, dez minutos depois o problema está resolvido. Venezuela nunca se organizou, nunca teve uma empresa de petróleo organizada, até talvez de propósito, para que as reservas não pudessem ser... Enfim, a Argentina, YPF era um simulacro de empresas. Enfim, não existe fora do Primeiro Mundo. Até as italianas. Você pega a italiana, ele não tem. Eles não dominam o ciclo. Quando eu digo “domínio”, tem de dominar mesmo, tem de saber resolver o problema da química fina também e tem de saber lá no up extreme resolver o problema lá do ostracóide na rocha. É isso que é dominar. Então, a Petrobras dominou. Quer dizer, houve aquela... Não sei, eu falei do Antônio Seabra Moggi, do David Figueiredo, pessoas: “Não, vamos preparar.” E preparamos. Teve uma fase, que o número de PhDs que a Petrobras formou, na América do Sul não tinha nenhuma empresa com o número de PhDs nas melhores universidades mundiais. Então, eu estava falando de volta, que essa profissionalização da Petrobras, essa... é uma empresa que é profissional. Então, quando eu estava no final da minha carreira, me aparece um diretor lá na Petrobras, um novo diretor, que por sinal, foi nomeado do Exército, saiu do Exército para ser diretor da Petrobras. Eu que conheço as Forças Armadas, eu fiz o CPOR, que tenho um respeito muito grande, sei da seriedade do negócio, são sérios. Quando chegou o general, eu fiquei feliz. Eu digo: “Bom, pelo menos vem aqui uma pessoa que não sabe nada de petróleo, mas é uma pessoa íntegra.” E aí eu tive uns atritos porque ele quando assumiu... Quer dizer, eu não quero acusá-lo de nada, não tenho... Mas houve uma... E eu tive de apelar para o meu velho princípio de manter o meu comportamento numa determinada linha, e só saio se tiver de sair forçado, mas não vou sair nunca. E aí tive de pedir demissão. Infelizmente eu pedi demissão, e ele logo em seguida também pediu demissão, uns seis meses depois. Com isso eu voltei para a área técnica. Ainda trabalhei como engenheiro de perfuração, sempre voltado para a parte offshore. Eu tive na Petrobras dois grandes amores. Primeiro foi a Amazônia, porque eu fui para lá influenciado ainda pelo fato do meu pai ter tido seringal na Amazônia - e realmente é um desafio. O brasileiro que não conhecer a floresta amazônica não é brasileiro. Pode ficar, porque é outra coisa. Qualquer um que for à Amazônia, qualquer um, ele sai de lá energizado. É uma região que lhe dá energia. E o segundo foi o offshor,e porque nós participamos do começo da construção das primeiras... Não havia nada no Brasil, as improvisações... Eu lembro que o seguro, quando nós, preocupados com a operação, para começar a operação, nós tínhamos de fazer seguro com empresa internacional de seguro, e aí o perito lá do seguro que iria aprovar ou não a locação falou: “Eu quero um testemunho aqui.” E como é que nós vamos fazer esse testemunho, meu Deus? Trinta metros de lâmina d’água, a gente não tem um flutuante aqui. “Mas tem que fazer um testemunho.” Pegamos barco na Bahia, um barco da Petrobras mesmo, improvisamos e botamos uma sondinha em cima e vamos fazer o testemunho lá. E conseguimos. No final nós tiramos, acho que 20 centímetros de testemunho. Então um heroísmo lá, e quando dá o testemunho, está pronto que eu vou falar com o camarada: “Não, tudo bem. Eu dispenso o testemunho.” Eu quase mato o camarada. Quer dizer, então, tudo isso construído para você chegar aí onde vocês estão hoje, que é a maior concentração, é a maior concentração de equipamentos de plataforma de produção de uma mesma companhia, num mesmo país do mundo. Eu levei um grupo, uma delegação chinesa, um vice-presidente, uns 20 técnicos, com o propósito, com o programa de ficar três horas na Bacia de Campos. Nós fomos de helicóptero, pousamos, começamos a explicar. O vice-presidente tinha um encontro lá no Espírito Santo com o governador. Mandou cancelar: “Não, eu quero dormir hoje aqui, que eu quero ver.” Quer dizer, realmente a Bacia de Campos é outra coisa, que nós brasileiros deveríamos conhecer. APOSENTADORIA Eu saí da Petrobras, eu realmente saio em 1989, me aposentei em 1989, e fui convidado para voltar para a Petrobras, para a diretoria da Petrobras, em 1990 e fiquei durante... Menos de um ano na diretoria da Petrobras. E aí saí e... Mas esse negócio do offshore é uma coisa que contamina a gente, e a gente não consegue se libertar. Então, eu resolvi trabalhar como consultor. Inventei ser consultor, e aí... Comecei trabalhar e logo, logo - quer dizer, aí apareceram as empresas, muitas empresas internacionais atrás de ajuda no Brasil e fora do Brasil também. Nós fizemos muito trabalho para as empresas fora do Brasil. Tivemos perspectivas de projetos, tivemos várias, inclusive uma na Rússia, na região da Chechênia, onde deu essa grande discussão política, essa grande guerra lá, e aquilo foi oferecido a uma empresa brasileira para fazer um melhoramento, um upgrade e nós estudamos. E era um negócio superatraente e eu quando eu fiz o relatório, eu tive, assim, a luz de Deus de dizer “Tem alguma coisa errada.” Eu pus: “Olha, sob o ponto de vista econômico, maravilhas”. A Rússia é um país desenvolvido e tal. A única coisa, digo: “Bom, não sei qual é o estágio político da região. Como é isso eu não sei. Precisa ser investigado.” E realmente eles investigaram e não aceitaram. De forma que até hoje eu continuo.

FAMÍLIA

Eu sou casado. Eu casei em 1964 e eu tenho só uma filha. Uma filha que é advogada, tem me ajudado, mas ela trabalha como advogada. Então, ela fez um curso até, fez um MBA em petróleo, ela se interessou muito, mas ela é louca pelo negócio de petróleo, mas é advogada. Então, quer dizer, ela tem me ajudado a gerir a empresa. Eu até trouxe ela como sócia também, mas ela dá... a maior parte do trabalho dela é dedicado à advocacia. Eu moro hoje no Paraná. Como eu disse aqui, eu pretendi terminar a minha vida no Paraná, para compensar os meus períodos de seca lá na Paraíba.

AVALIAÇÃO

Olha, eu sou um defensor da memória. Eu acho que nenhum povo pode ir pra frente, pode continuar sendo povo se ele não tiver... não tiver registrado a memória do passado. Essa iniciativa da Petrobras, esse projeto, eu acho ele de uma importância fundamental, porque o que nós conversamos aqui eu acredito não tenha importância sob o ponto de vista técnico, sob o ponto de vista econômico, mas eu acho que tem uma importância grande sob o ponto de vista humano - e se as gerações futuras tiverem oportunidade de ouvir, ver esse tipo de entrevista que o projeto está fazendo com pessoas de diferentes áreas, vai ter uma oportunidade de um enriquecimento muito grande. E portanto eu acho que... eu não sei qual é a dimensão, quantas, que universo vai ser analisado, ou melhor... analisado não, vai ser registrado em termos de memória, mas para mim, o fato de existir esse projeto já é uma coisa excepcional na vida da Petrobras. Quando eu falei em curva de crescimento, ao meu ver, essa curva de crescimento não existe... Não existe não, essa curva de crescimento não prossegue crescendo sem a existência de um projeto dessa natureza.

ENTREVISTA

Bom, o meu depoimento... É uma pergunta meio difícil para eu responder, mas eu respondo da seguinte forma: na Petrobras imperam as equipes. Tudo que foi feito na Petrobras foi feito em cima de equipes. Eu fui um dos componentes de equipes da Petrobras. Essa oportunidade que eu tive aqui de fazer essa gravação acredito que foi bom porque eu represento uma dessas equipes, que as histórias que eu contei, eu não contei minhas histórias, eu contei as histórias dos fatos que eu vivenciei, presenciei ao longo do tempo, de forma que alguns desses componentes dessa equipe, que tanto fizeram pela Petrobras, eles não estão vivos hoje, mas com essa minha entrevista, de certa forma, eles estão presentes e portanto eu acho que foi muito importante para mim.

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