Busca avançada



Criar

História

Na Petrobras é assim, todo mundo gosta do que faz

História de: Mauro Yuji Hayashi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

A criação japonesa no Brasil e a vida em família. O ingresso na Petrobras. O encontro de um grande amor mantido pela troca de cartas. Casamento por procuração. O trabalho como engenheiro de operação e engenheiro de reservatório. O ingresso e a atuação no Pré-Sal. A construção de uma carreira até o cargo de gerente da área de planejamento do AIP Pré-Sal.

Tags

História completa

Projeto Memória Petrobras

Depoimento de (Mauro Yuji Hayashi?)

Entrevistado por Márcia de Paiva e Claudia Fonseca

Rio de Janeiro, 22 de julho de 2009

Realização Museu da Pessoa

Entrevista n° MPET_Presal_HV008

Transcrito por Cristina Eira Velha

Revisado por Amanda Rigamonti

 

 

 

P/1 – Bom dia, Mauro.


R – Bom dia.


P/1 – Gostaria de começar pedindo que você nos diga seu nome completo, o local e data de nascimento.


R – Bom, meu nome é Mauro Yuji Hayashi, mais conhecido como (Mauro Yuji?) na Petrobrás. Tenho 25 anos de empresa, 24 e meio anos de empresa. E nasci em 11 de março de 1961.  


P/1 – Você nasceu em qual cidade? 


R – Eu nasci em Mirandópolis, no interior de São Paulo.


P/1 – Diga o nome de seus pais, por favor, e a atividade deles?


R – Meu pai é japonês, (Toshiu Hayashi?), ele veio com nove anos de idade para o Brasil, imigrante. E minha mãe é (Mitsumi Hayashi?). Ela é filha de japoneses, nasceu também em Mirandópolis, em São Paulo.


P/1 – E seus pais se conheceram aqui no Brasil onde, você sabe?


R – Lá em Mirandópolis. Porque meu pai imigrou do Japão para o Brasil com nove anos de idade e foi morar no interior de São Paulo, lá em Mirandópolis. E ali cresceu, e conheceu minha mãe. Tem uma diferença de idade grande entre eles, dez anos. Então, meu pai, com 27 anos, e minha mãe com 17 anos, eles se casaram.


P/1 – E seu pai, aqui no Brasil, qual foi a atividade dele?


R – O meu pai, como eu lhe falei, é imigrante, veio muito pequeno aqui para o Brasil. Chegou em 1936. Ele não tem formação superior, só cursou até o primário. Ele atravessou aquele período da guerra, onde os japoneses foram de certa forma discriminados aqui no Brasil, teve alguma dificuldade. Mas isso é uma grande lição de vida que eu tenho do meu pai, que eu recebi do meu pai. Porque mesmo não tendo formação elaborada... Ele só cursou até o terceiro ano do primário… Na vida, ele exerceu diversas atividades: foi agricultor, comerciante… Comerciário, depois comerciante. Então, ele, dentro do nível de preparo dele, ele avançou muito, fez muito na vida. E formou os filhos. Isso é um valor muito forte para os japoneses, principalmente para os japoneses antigos, a formação dos filhos é muito importante. Então nós somos cinco irmãos, e meus pais conseguiram formar os cinco filhos. Isso, para eles, acho que é o principal valor deles.


P/1 – Antes de você falar dos seus irmãos, você sabe de que região do Japão eles vieram?


R – Meu pai, né?


P/1 – É. Mas a sua mãe também. Ela nasceu aqui, seus avós devem ter vindo de alguma região. Você sabe?


R – O meu pai é de Nagano, da região de Nagano, e meu avô materno é da região de Shizuoka, no Japão. Mas a minha mãe nasceu aqui no Brasil.


P/1 – Seu pai também contava dessas dificuldades que ele passou logo que ele chegou?


R – Isso é interessante, porque muitas vezes a gente não percebe... Eu sou o quarto filho. Então, aquela época de dificuldades, eu tive menos contato direto com essa fase. Mas nas bodas de ouro dos meus pais a gente fez um filme sobre a vida deles, dos dois, e a gente teve de reconstituir todo o histórico. Até fui eu que organizei o filme. Então foi muito interessante pesquisar toda a trajetória dos meus avós maternos, meus avós paternos, como é que eles chegaram ao Brasil, como é que se instalaram lá em São Paulo, como é que se conheceram. E aí, nessa reconstituição da vida dos meus pais, é que eu pude ver toda a dificuldade que principalmente meu pai passou. Meu pai passou muita dificuldade e ele conseguiu avançar. E minha mãe, suportando sempre meu pai. E, como eu lhe falei, a diferença de idade entre os dois era muito grande, dez anos, se casaram meu pai com 27 anos, minha mãe com 17 anos, então a minha mãe sempre foi o suporte das dificuldades do meu pai. Tem episódios assim, que hoje a gente fica vendo, que é difícil acreditar. Quando nós, por exemplo... Eu falei, eu nasci em Mirandópolis, mas com oito meses de idade fui para Curitiba. Então, eu me lembro de episódios da infância que agora que eu fui entender. Então, por exemplo, uma época, quando eu era pequeno, eu não tinha essa noção de dificuldade etc, mas eu me lembro que uma vez eu vi minha mãe chorando, triste, e ela tinha cortado o cabelo. E eu não sabia a relação entre cortar o cabelo e porquê ela estava triste. Estava triste porque estava chorando. Isso eu tinha quatro, cinco anos de idade, era bem pequeno. Aí depois, quando reconstituiu a história deles, eu fiquei sabendo que a minha mãe, naquele episódio, ela teve que vender o cabelo. Então cortou o cabelo, vendeu o cabelo para ajudar meu pai em uma das fases de dificuldade que toda família encontra. Depois ela também sempre ajudou meu pai, ela costurava, fazia costuras. Era costura caseira. Hoje em dia não sei se tem muito. Mas na época tinha muito lá em Curitiba, ela era uma costureira, o pessoal vinha atender, e eu achava bacana. Mas eu acho que ela se constrangia um pouco, entende? Então, depois a gente foi entender todas as coisas que foram acontecendo, a gente foi ligando as coisas. 


P/1 – Bacana você ter feito essa pesquisa, que é tão importante...


R – É, a gente não percebe. A gente não percebe. E depois que a gente vê... Eu me lembro também, por exemplo, comida. Que teve uma certa época que a minha mãe fazia muita verdura. Eu detestava verdura, então acho que eu detesto verdura até hoje. Mas é porque só tinha verdura para comer. E era verdura que a gente plantava em casa. Era verdura que a minha mãe plantava na horta em casa, e era o que nós tínhamos para comer. Então teve um certo período na época que... chuchu, beterraba, eu não aguentava. Eu era pequeno. E até hoje eu não como. Mas é um ponto que eu valorizo muito, os meus pais, porque era o que tinha que ser feito para criar os filhos. Graças a Deus, todos os cinco irmãos, nessas condições, foram formados, todos têm nível superior. Minha irmã é arquiteta, uma outra irmã é advogada...


P/1 – Você pode me dar o nome delas, e também dos irmãos?


R – Sim. A minha irmã mais velha é (Luci Hayashi?), lá em Curitiba, ela é arquiteta, ela é bem renomada na cidade. Depois tem uma outra irmã que se chama (Inici?), (Inici Hayashi?), ela é advogada, tem um escritório de advocacia lá em Curitiba. Aí tem o terceiro irmão, Flávio, (Flávio Hayashi?), ele é neurocirurgião, uma carreira bem difícil, instalado em Curitiba também. Depois sou eu, e depois meu irmão caçula é o Walter, (Walter Hayashi?), também em Curitiba, engenheiro eletrônico. Ele tem um estúdio, do trabalho que vocês fazem, de comunicação.


P/1 – E seus pais ficaram contentes? Eles estão vivos?


R – Meu pai está vivo, minha mãe já se foi. Mas eu acho que foi a grande satisfação, a grande vitória deles, depois de toda a dificuldade que foi a vida deles, eu sei que a grande gratificação que eles têm na vida é exatamente os filhos. Os filhos, e depois os netos. Os netos já é outra coisa, os netos já estão se formando, já conhecem o mundo. É até interessante, não é? Porque as netas já voltaram para o Japão, foram ver onde é que o avô nasceu. Meu pai, pessoalmente, ele nunca voltou. Mas aí você vê como as coisas acontecem, como a vida, ela vai se renovando, e o retorno das coisas, eu acho muito interessante.


P/1 – Muito bonito. Deixa eu te perguntar um pouco mais da sua infância. Você estava contando aí dos legumes, que enjoou. O que mais você se lembra? Me conta também como foi a ida para Curitiba.


R – A ida para Curitiba, como eu falei, eu só nasci em São Paulo. Só nasci em Mirandópolis, com oito meses de idade eu fui para Curitiba. E Curitiba é uma cidade muito fria. Muito fria, muito úmida. Morávamos numa casa de madeira. Eu tinha alergia, então eu fui uma criança fraca, eu fui uma criança doente. Então eu fui uma criança doente, eu tinha asma, bronquite asmática, por causa dessa alergia à poeira etc, então na minha infância eu fui muito agarrado na minha mãe. Eu fui muito agarrado na minha mãe. Então essas coisas que eu falei, eu via, as minhas imagens de infância, da minha mãe lá, cuidando dos cinco filhos, costurando para fora, eu tenho muito carinho, muita ternura pela minha mãe, que ela que me cuidava quando eu tinha os meus acessos de asma e bronquite. E eu acho que foi uma infância feliz, está certo? Dentro daquela... É interessante que criança não tem essa noção de riqueza ou pobreza, ela tem aquela noção de estar perto da mãe, estar perto dos irmãos, aquela convivência familiar é tudo. E nesse tudo eu me considero que tive uma infância feliz, muito de ir no mato. A nossa casa era numa área, hoje em dia uma área muito desenvolvida, que é o Parque do Barigui, não sei se vocês conhecem. Mas quando eu fui morar lá no Parque do Barigui era um riozinho e um mato ali. E era ali que a gente morava.


P/1 – E as brincadeiras com os irmãos? Era com os irmãos ou com outras...


R – Não, era com o meu irmão mais velho, que hoje em dia é neurocirurgião, o Flávio, nós tínhamos uma diferença de idade pequena, dois anos. Então eu acompanhava muito ele. E as brincadeiras era de moleque mesmo, de subir em árvore, jogar futebol lá no estádio. Nós tínhamos o estádio chamado Beira Rio, que era na beira do rio, a gente chamava de Beira Rio, e o outro que tinha um pasto lá na frente, tinha as vacas, a gente chamava de (Beira B?). Então ou jogava no Beira Rio ou no (Beira B?) lá. Então essas coisas aí. Comer fruta em árvores, soltar pipa. Soltei balão, infelizmente, naquela época não tinha muito essa consciência, mas soltei balão.


P/1 – Podia. 


R – É, podia. Mas era balão pequeno.


P/2 – Deixa eu só perguntar. Seu pai continuou... foi para Curitiba, continuou sendo agricultor?


R – Não. Aí, quando meu pai foi para Curitiba... meus avós maternos vieram primeiro para Curitiba, se instalaram aqui, depois minha mãe e meu pai vieram para cá. Então meu pai começou a trabalhar como comerciário. Trabalhava no comércio. Então ele fez de tudo em Curitiba, trabalhou com comércio, como funcionário, depois trabalhou em restaurante, cuidou de restaurante. E foi crescendo na atividade. Até ter um comércio dele. 


P/2 – De que era?


R – Micro-comércio. É produto japonês. Agora ele está aposentado. Mas está bem lá em Curitiba.


P/2 – Tinha bastante japonês em...?


R – Curitiba tem uma colônia japonesa grande. É mais forte no interior do Paraná, lá em Londrina, Maringá... Mas em Curitiba tem bastante japonês. 


P/1 – Mauro, e as tradições japonesas, como é que era em casa? Como era feita essa mistura entre a tradição japonesa e a vida brasileira?


R – Isso aí, agora eu vou contar a história que eu ouvi. Que eu não me lembro, eu não vivenciei. Mas quando nós morávamos no interior de São Paulo meus irmãos mais velhos só falavam japonês. Só falavam em japonês e tinham as tradições japonesas etc. Quando nós fomos para Curitiba, a minha infância, eu não me lembro de nada de tradição japonesa, rituais japoneses, a menos de alguma comida. E nós falávamos o português direto na casa. Então eu acho que foi uma adaptação completa. Quem cultivava mais as tradições japonesas eram os meus avós. Os meus avós cultivavam mais as tradições japonesas. Então quando nós visitávamos os nossos avós é que a gente tinha mais contato com a cultura japonesa.


P/1 – Você aprendeu a língua um pouco?


R – Não. Eu não.


P/1 – Os seus irmãos mais velhos sim?


R – Os meus irmãos mais velhos só falavam japonês quando crianças. Mas lá em Curitiba eu acho que foram… praticaram menos. Ainda têm noções, principalmente minha irmãs, mas eu pessoalmente e meu irmão mais velho não.


P/2 – O (Walter?) então nem se fala, não é?


R – O (Walter?) já nasceu lá. Que é o caçula. Ele nasceu lá em Curitiba. Ele já é curitibano puro. Eu sou mais ou menos curitibano, mas o meu irmão mais novo é curitibano puro.


P/1 – E da escola, o que você se lembra? Quais são as suas lembranças?


R – Acho que é normal. A escola foi lá em Curitiba mesmo, era Grupo Escolar na época. Estudei no Grupo Escolar São Nicolau. Eu acho que eu era uma criança meio agitada. Porque depois eu me lembro lá dos eventos, eu me lembro que... a gente teve que... o governador do Estado foi entregar... foi visitar a escola e fazer uma cerimônia. Então eu me lembro da frase que tinha que falar para entregar um buquê de flores para ele: “Muito obrigado pelo que o senhor tem feito por nós.” Eu entreguei as flores, o governador era o Paulo Pimentel, até hoje eu acho que ele é político lá no Paraná. Depois tinha que... eu sempre me metia nessas coisas. Fazia uma campanha educativa de disciplinar a saída da escola, entrar carro e sair carro. Aí tinha que pagar o maior mico, porque eu tinha que vestir o uniforme de guarda e ficava na frente da escola lá: “Entra aqui, sai ali”. Eu nem sabia como é que fazia isso.


P/1 – E foi você lá?


R – Foi, foi. Então uns micos assim, quando criança. Eu acho que é porque é japonês. Eu acho que eu devia ser o único japonês da escola!


P/2 – Mas você era desembaraçado, porque você desempenhava o papel sem... achando... sem reclamar.


R – Mas eu achava interessante.


P/2 – Pois é.


R – Mas a escola era Grupo Escolar, uniforme, guarda-pó, calça curta. Aí estudei até o quarto ano primário nesse grupo escolar, que era escola de bairro,e após o quarto ano, no quinto ano eu fui para... era aquela transição, antes era primário até o quinto ano, depois tinha o ginásio. E tinha admissão e você ia para o ginásio. AíAi depois migrou para oito anos, da primeira à oitava série. Então eu peguei bem essa transição. Então eu me lembro que quando estava no quinto ano primário eu mudei para o quinto ano novo. E fui para o centro da cidade. Então fui estudar lá no Colégio Estadual do Paraná, que era um colégio tradicional lá de Curitiba. Aí a gente já vai aprendendo outras coisas. A gente saiu daquele ambiente de bairro e fomos para um ambiente... o centro da cidade. Pegar o ônibus de casa até o centro já era uma aventura. E era interessante.


P/1 – Você ia sozinho?


R – Sim. A gente ia sozinho. E depois tinha que andar lá da Praça Tiradentes até a escola. Então a gente ia vendo outras coisas. Ambiente da cidade é bem diferente da... ambiente urbano é bem diferente de bairro. O bairro lá era calça curta, correr atrás de pipa. Centro da cidade tinha carro para tudo que é lado, não sei o que. Aí a gente foi sendo absorvido pela cidade.


P/2 – Antes da gente continuar, qual era o nome do Grupo Escolar?


R – Em Curitiba? Era Grupo Escolar São Nicolau. Era perto da minha casa. Aí sempre que eu vou visitar o meu pai eu passo lá em frente. Agora está com outro nome, mas na época era Grupo Escolar São Nicolau. Até o portão onde eu fui guarda de trânsito está lá ainda.


P/1 e 2 – [risos]


P/1 – Mauro, você além de gostar dessas atividades da escola, de ser guarda das festividades... você gostava também de estudar? O que você gostava mais?


R – Ah, gostava, gostava de estudar. Aí vem um monte de influência e de carga aí dos pais. Então você... meio que você já sabia o sacrifício que seus pais estavam fazendo para te educar. Então desde pequeno a gente tinha noção de que os pais estavam se sacrificando para você estudar. Então você se esforçava mais. Você... não é que se esforçava mais... você tinha uma carga de responsabilidade, ou você queria dar em troca. É algo desse tipo. Não é uma carga. Você entendia que seus pais vieram para Curitiba para dar formação escolar para os seus irmãos e para você. Você via que seu pai trabalhava, saía de casa cedinho, só chegava tarde da noite, ganhando pouco. Sabia que sua mãe estava costurando para fora, sabia que o dinheiro era contado. Tinha que comer verdura, porque só tinha isso para comer. E sabia que a educação era importante para os pais. Então eu acho que estudar era meio que a retribuição, ou obrigação que eu e meus irmãos tínhamos para com os pais. Então realmente a gente se envolvia muito com o estudo, estudava, procurava estudar, procurava ser sempre... ter o melhor desempenho possível. 


P/1 – Mas tinha alguma matéria que você gostava mais?


R – Parece jargão, mas... meu irmão é médico, e minha irmã é de Direito, mas eu gosto de Matemática. Gosto muito de Matemática e Física. Até depois fui ser professor de Matemática, durante um período. 


P/1 – A gente chega lá. Tem algum professor que você se lembre, que tenha te marcado mais da escola? 


R – Tem. Uma professora que me marcou muito foi exatamente a professora Vera, foi a minha última professora lá no Grupo Escolar. Porque quando eu estava no quinto ano primário, eu saí do método antigo para o método novo. Então eu saí do quinto ano primário que fazia no São Nicolau, e no meio do ano passei para o quinto ano novo, lá no colégio do centro. Então essa minha última professora do quinto ano primário lá do São Nicolau me marcou muito. Era a professora Vera. Eu não sei porque me marcou. Eu gostava muito dela, e me esforçava mais na aula dela. Então me marcou muito. Tanto que quando eu me formei, acho que uns dez, deve ser mais de dez, 15 anos depois, procurei onde é que ela estava e fui levar um convite para ela. Daí ela puxou pela memória, daí ela lembrou. Aí fui levar o convite para ela da minha formatura em Engenharia Mecânica. 


P/1 – E ela era professora da quinta série...?


R – Era professora da quinta série. Antigamente era assim. No ensino antigo, na quarta série era uma professora, na quinta série era uma professora. Então o método era esse. No ensino tradicional, que era primário, ginasial, tinha professora da quinta série. Do quinto ano que a gente chamava. Então a professora do quinto ano era a professora Vera. Aí quando eu mudei para o ensino novo, o quinto ano novo, aí mudava. Tinha professora de Biologia, professora disso, professora daquilo.


P/1 – Ela foi a última professora...


R – Full time


P/1 e 2 – [risos]


R – É.


P/2 – A gente até enjoava, né?


R – Depende da professora. Se você gostava... tinha umas que você odiava. Mas graças a Deus as que eu tive lá eu gostei de todas. Deu para sobreviver.


P/1 – Mauro, e a adolescência, a juventude? Você tinha um grupo de amigos? Como vocês se divertiam? O que você gostava de fazer?


R – Aí depois a vida continuou. A vida continuou, na adolescência... Então fui lá para o colégio no centro. Fui feliz também. Eu fiz o que tinha que fazer, quer dizer, o que eu queria fazer. Tive uma juventude muito participativa na vida estudantil. Eu me lembro que a gente... fizemos uma chapa, para o Grêmio Estudantil... na época tinha... eu acho que ainda tem, né? Grêmio Estudantil. E o Colégio Estadual do Paraná, para onde eu fui, era um colégio muito grande. Eu acho que eram três, quatro mil alunos. É um colégio gigantesco lá em Curitiba. E tinha o Grêmio lá. Então fizemos uma chapa, eu acho que no primeiro ou segundo ano... foi no segundo ano. Fizemos uma chapa para o Grêmio Estudantil e ganhamos. Ganhamos a chapa para o Grêmio Estudantil, era GECEP, Grêmio Estudantil do Colégio Estadual do Paraná. E foi uma experiência muito boa. Porque ao mesmo tempo que você aliava lá as suas amizades, com seus amigos etc, você tinha que ser o representante dos estudantes. E na época... tinha um certo afastamento com a direção da escola, mas você tinha que fazer as atividades. Então eu acho que eu amadureci muito ali. Tínhamos que organizar o jornal da escola, que a gente chamava de (BIG?).


P/1 – De como?


R – (BIG?). Era o Boletim Informativo do GECEP, um negócio assim. Eu não me lembro direito.


P/1 e 2 – [risos]


R – Eu me lembro que editar esse jornal era um sacrifício. Porque na época era mimeógrafo, não sei o que lá. Mas nós queríamos que fosse uma coisa diferente. Então o primeiro jornal nós montamos, fizemos todas as matérias, distribuímos lá. E queríamos que fosse em gráfica. Não queríamos que fosse naquele mimeógrafo. 


P/1 – Aquela tinta azul...


R – Aquela tinta azul... mas conseguimos. Eu não me lembro como, mas conseguimos. Conseguimos, fizemos uma tiragem lá, que foi o jornal para a escola toda, para todos os alunos. Assim, que um conhece o outro, não sei o que lá. E conseguimos que uma gráfica fizesse o jornal. Só que nós tínhamos que montar o jornal. Então fizemos o jornal, acho que foram oito páginas. Daí foi interessante. Então isso me amadureceu bastante.


P/1 – Era uma conquista, né, porque é um Grêmio chique, porque era sempre com aquele azul borrado...


R – Mas esse foi o primeiro jornal. Esse nós conseguimos, o primeiro da nova chapa.


P/2 – Que função você tinha?


R – Eu era o secretário. Tinha presidente, tesoureiro, secretário, eu era o secretário. E tinha primeiro secretário, segundo secretário, um negócio assim. Mas era bacana. E tínhamos uma salinha lá na escola, isso era o máximo, não é? Esse era o máximo, porque tínhamos o nosso localzinho lá na escola.


P/1 – Era o ponto de reunião.


R – Não, era a sala do Grêmio. E tem coisas que você só percebe depois. Por exemplo, a gente sentia muita hostilidade, muito afastamento, da direção da escola com a gente. Aí depois a gente foi percebendo... na época a gente percebia mas não dava toda a dimensão... depois a gente foi perceber que a chapa que nós tínhamos ganho era a chapa da diretoria da escola. Eram conhecidos etc. E nós ganhamos a chapa, ficamos lá. Então a gente sempre ficou aquele período... o nosso mandato foi sem o apoio da escola, da direção da escola. Então era difícil. Porque ao mesmo tempo que os estudantes nos cobravam, éramos representantes deles, nós tínhamos sido eleitos pelos estudantes, a direção da escola, ela não nos apoiava. E você tinha que se equilibrar lá no meio. E também era uma época... essa época acho que foi em 1976, 1977 o ano, acho que foi 1977... ainda tinha muito resquício da ditadura. Então o movimento estudantil era muito ligado à questão de oposição, resistência etc. Eu me lembro... coisas que você só vai entender depois, na época você ainda não tem a consciência... Eu me lembro dos meus tios, irmãos da minha mãe, preocupados. “O que você está fazendo no Grêmio Estudantil?” “Ah, estou lá, ué!” Então a gente estava lá fazendo o jornalzinho, a gente botava as nossas mensagens no jornalzinho, mas sem engajamento, uma consciência política, era mais uma representação dos alunos mesmo. Promovemos bailes, fizemos bailes grandes na cidade, shows para os alunos. Eu me lembro até hoje, outra experiência que me marcou muito, que promovemos um show, lá no teatro do colégio, e pegamos artistas emergentes da cidade, da idade da gente. “Vamos fazer um show aí!” Só que eles tinham cachê. Aí fizemos lá o show, promovemos tudo lá, aí fomos ver a bilheteria, a bilheteria não dava para cobrir o show. Nossa, aí como é que administra isso? Então...


P/1 – Como vocês resolveram esse problema?


R – Olha... É o tipo de uma coisa que a gente foi aprender... “Olha, nós somos do Grêmio Estudantil, era para apoiar vocês. Combinamos um cachê para vocês na expectativa de que tivesse um público. Fizemos divulgação, não veio. Não dá para pagar o cachê de vocês. Vocês querem o que? Eu não tenho dinheiro, os outros meus colegas não tinham, vamos fazer o seguinte: vamos rachar aqui.” 


P/1 – E eles aceitaram?


R -  Ficaram muito bravos, mas aceitaram. 

  

P/2 – Podia ter feito uma rifa. 


R – Poderíamos. Lá, durante o... Mas é bom, porque depois você aprende a questão de economicidade de um projeto. Depois, quando foi avançar lá na frente, eu vi que fazer um EVTE [Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica] é importante. Qual vai ser a expectativa de receita. Para pagar o cachê desses caras aqui eu vou precisar vender, botar umas 300 pessoas lá dentro. Será que eu boto 300 pessoas lá dentro?


P/1 – Me explica o que é um EVTE.


R – EVTE é um Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica. Depois eu fui trabalhar com isso lá na frente. O Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica é um estudo que você faz antes de fazer o empreendimento, onde você tenta projetar as suas receitas, versus a sua projeção de custos, e ver se o projeto é viável ou não, e qual o risco do projeto. Em função disso você avalia se vai fazer o empreendimento ou não.


P/1 – A gente chega lá, Mauro.


R – Por isso que eu falei que no evento que a gente fez com os artistas faltou um EVTEzinho lá, né? Será que... para pagar o cachê dos caras eu ia ter que botar 500 pessoas lá dentro. Boto 500 pessoas lá dentro? Acho que é difícil. Mas realmente, foram cem pessoas lá dentro. E já foi muito.


P/1 – Era bastante. O ingresso talvez tivesse num precinho...


R – Era baixo. Mas depois a gente viu... Fizemos um baile também. O baile lotou. Agora o show de música brasileira não lotou. Aí você começa a ver: “Por que?”


P/1 – As pessoas queriam mais baile.


R – Queriam mais festa.


P/1 – Mais festa. Você foi muito namorador também, nos bailes? Como é que foi? Você gostava de dançar?


R – Sim, sim. Eu era animado. Eu nunca tive, assim, muitas encucações. Eu sempre procurei ser responsável. Mas viver. Se a pessoa é interessante, se você se dá bem com a pessoa, vamos em frente. 


P/1 – E como é que foi a escolha da sua profissão? E quando você decidiu que você ia fazer Engenharia?


R – Eu decidi que ia fazer... porque, como eu lhe falei, eu gostava de matemática. Gostava da Engenharia, então fui fazer o pré-vestibular, o cursinho... gostei da Engenharia. Eu tinha tios que eram engenheiros. Eu gostava dessa parte de fazer as coisas. Se bem que você pode fazer as coisas... em todas as atividades você faz coisas, mas a Engenharia me dava uma conotação de construir alguma coisa. Então essa noção de construir alguma coisa, construção, digamos assim, fisicamente, uma casa, um prédio, uma máquina, aquilo me atraía. Então, aí eu escolhi a Engenharia, e passei em Engenharia Mecânica...


P/2 – E as coisas na sua casa aí já estavam melhores?


R – As coisas em casa já foram melhorando...


P/1 – Eu queria perguntar... Você se referiu aos seus tios mais de uma vez. Você tinha uma família grande, do lado do seu pai, do lado da sua mãe? E era bem unida?


R – Ela é bem unida, ela se reúne até hoje. Tem o lado materno e o lado paterno. O lado paterno era lá de Mirandópolis. Quer dizer, as duas famílias eram de Mirandópolis. Só que a família da minha mãe migrou, foi para o Paraná. E a família do meu pai ficou lá em Mirandópolis. E meus pais vieram para Curitiba depois que a família da minha mãe... alguns se instalaram aqui. Então eu tive mais contato com o lado da família da minha mãe, os meus tios todos lá. 


P/1 – E sempre bem junto?


R – Sim, sim. A mesma coisa, tem agora vários em São Paulo, vários em Curitiba. E agora já estão idosos, mas todo final de ano se reúnem, os irmãos da minha mãe se reúnem. A única que faleceu foi a minha mãe. Então os outros irmãos se reúnem. Pelo lado do meu pai o contato é menor.


P/1 – Vamos lá. E você passou, cursou onde?


R – Passei em Engenharia Mecânica, na Universidade Federal do Paraná. E paralelamente ao curso comecei a trabalhar. Comecei a trabalhar como professor de Matemática, no cursinho pré-vestibular. 


P/1 – Onde você tinha estudado?


R – Onde eu tinha estudado. Tinha o cursinho pré-vestibular, que é o cursinho Dom Bosco que a gente chama, o curso Dom Bosco, lá em Curitiba. Então eu fiz o pré-vestibular no curso Dom Bosco lá em Curitiba, depois eu passei para fazer Engenharia Mecânica na Universidade Federal do Paraná, e paralelamente eu fui ser professor, monitor, professor-assistente de Matemática nesse cursinho, que é o curso Dom Bosco. E fiquei lá durante três anos e meio. E foi interessante, porque você já tinha estado naqueles bancos ali. E eram classes grandes, classes de 100, 200 pessoas, aquelas salas imensas. E eu era o responsável por fazer as revisões de Matemática. Durante os finais de semana eu tinha que dar as revisões de Matemática. E durante a semana eu tinha que tirar as dúvidas dos alunos. Então eu fui praticando muito a Matemática ali, durante esse período.


P/1 – E já tinha também um dinheirinho para você também, junto com a faculdade...


R – Aí já fiquei independente. Quer dizer, era interessante. Eu acho que na época... deve ser o quê? Já era o suficiente. A universidade era pública, a Universidade Federal do Paraná, eu tinha que fazer 20 horas semanais nesse cursinho, esse dinheiro que me davam eu ganhava por hora, às vezes eu conseguia fazer um pouco mais que 20 horas. Porque tinha que conciliar o cursinho com a faculdade. Mas já era o suficiente para eu sobreviver lá. 


P/2 – Foi o seu primeiro emprego esse?


R – Foi. Então, eu fiquei três anos e meio lá nesse emprego, no cursinho, curso Dom Bosco. Aí depois eu fui trabalhar numa empresa de consultoria, durante um ano e meio que restava antes de eu me formar. Então trabalhei lá no... hoje em dia se chama Cebrae, que é Centro Brasileiro de Apoio à Microempresa. Antigamente chamava (Ceag?). Então eu trabalhei nesse (Ceag?), trabalhei como técnico nesta empresa, até terminar a faculdade. Então quando eu me formei, eu fiquei lá mais um ano, nesse (Ceag?), aí como engenheiro. Aí logo depois passei no concurso da Petrobrás, e estou na Petrobrás até hoje. 


P/1 – E como é que apareceu a Petrobrás? Você estava lá no (Ceag?), estava até em um emprego direitinho... o que te fez...?


R – A Petrobrás. O que me fez mudar foi a Petrobrás. Porque a Petrobrás tem um apelo muito grande, tem uma imagem muito forte, principalmente para o pessoal de Engenharia. E depois eu acho que a expectativa se confirmou. Então eu achei muito interessante tentar. Era um concurso público, estudei para o concurso, e deu certo. Aí passei, isso foi em 1985.


P/1 – 1985. E aí você fez aquele curso de formação?


R – Fiz o concurso, passei, em 1985, e fui fazer o curso de Engenharia do Petróleo. É, um ano e meio mais ou menos. Ficamos um ano e meio em Salvador. Aí então é uma novidade. É uma novidade grande. Eu fui o primeiro e único filho que saiu de casa. Todos os meus irmãos estão até hoje em Curitiba. Então eu fui o primeiro que saiu. Fui lá para Salvador. E é uma novidade. Fui viajar de avião, fui lá para o Nordeste, fui lá para Salvador, fiquei um ano e meio lá. 


P/1 – Você ainda estava morando com os seus pais quando você passou para a Petrobrás?


R – Sim, sim.


P/1 – Como é que foi também essa saída? Era muita novidade… [pausa] Mauro, voltando, como foi essa saída, porque também era muita novidade, não era? Mudar de cidade, emprego novo.


R – Para mim, eu não tinha essa noção de “eu vou sair da cidade, nunca mais vou voltar aqui”. Eu não tinha essa noção. “Eu passei no concurso, vou para Salvador, vou ver o que é, está bom”. Mas meus pais sentiram, as minhas irmãs sentiram muito. Eu até fiquei meio assim, porque daí teve lá, quando eles foram me levar para o aeroporto... o curso era em Salvador, eu nunca tinha viajado de avião. Fomos lá para o aeroporto, botaram faixa de despedida. Aí meus amigos todos no aeroporto, a minha irmã chorou, eu falei: “Por que toda essa história?” Eu não tinha essa coisa, mas eu acho que eles sentiram. Para mim era uma coisa nova que estava se abrindo, era uma fronteira nova que estava se abrindo, eu não tive o sentimento de perda. Para mim era uma coisa nova que ia enfrentar, uma nova coisa que eu ia explorar, uma coisa que eu quis fazer, tanto que fiz o concurso. Mas para eles eu acho que foi uma perda. Então a minha mãe sentiu bastante, as minhas irmãs sentiram bastante, foi um evento triste. Eu me lembro, até hoje eu tenho isso daí. A faixa está até hoje lá em casa, a faixa. 


P/1 – Ah, que lindo!


R – Que botaram a faixa lá no aeroporto, se despedindo de mim etc. É a vida, né? Mas eu não tinha essa sensação de perda. Porque daí sempre que eu posso, eu volto para lá. Sempre que eu posso eu volto para Curitiba, vejo os meus familiares.


P/1 – Eles podiam ter o lado da saudade, mas sabendo que era uma coisa boa para você também. 


R – É. 


P/1 – É uma história sua. 


R – Eu acho que sim.


P/1 – E como é que foi lá o curso, e como foi em Salvador, uma cidade nova, que é tão diferente de Curitiba?


R – É totalmente diferente. Aí vai começando o aprendizado, com uma coisa totalmente diferente. Você chega em Salvador, uma cidade nova, o clima já é quente. Lá em Curitiba é aquele friozinho. Não sei se vocês conhecem. Curitiba é fria, o povo é mais fechado, é bem conservador o povo de Curitiba. Aí de repente você está em Salvador, o clima é quente, aquela baianidade, o jeito do baiano de ser. E aquele um ano de curso intensivo, o curso de um ano e meio da Petrobrás, todos os cursos da Petrobrás são muito estressantes. É uma carga intensiva de conhecimentos que você tem que aprender em um curto período de tempo. Porque é uma nova especialidade, Engenharia de Petróleo, com provas semanais. Toda semana, prova. E são provas eliminatórias. Se você reprova numa disciplina, vai embora. 


P/1 – Não é contratado.


R – Não, você já é contratado.


P/1 – Mas não completa o…


R – Você é demitido. Se você não passar no curso, você é demitido. Então teve diversos amigos, colegas, alguns de Curitiba, que não completaram o curso. Então você é submetido a essa pressão. E eu acho que é interessante, porque realmente a indústria do petróleo é muito complexa. E na época não existia cursos de petróleo como hoje existem na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], PUC [Pontifícia Universidade Católica], não existia. Então a Petrobrás tinha que formar o especialista em petróleo ali. Então era uma novidade para mim. Então aquele regime intensivo de estudo, prova toda semana, cidade nova, um espetáculo, eu gosto muito de Salvador, o povo baiano. Quando eu estive lá, em 1985, já era o início dos trios elétricos, tinha os trios elétricos. Então foi bacana. Eu me lembro até hoje, era o Luis Caldas, ele estava nascendo lá naquela época.


P/1 – Que era ótimo!


R – É, é.


P/1 – E você falou ... outros amigos entraram com você, colegas lá de Curitiba? Que você conhecia?


R – Não, não, não. Que eu conhecesse não. Eu sabia que era um pessoal de Curitiba que tinha ido para lá. Então nem todos concluíam o curso. Mas o importante é que ele forma uma unidade muito forte entre os alunos, entre os estudantes ali, naquele curso intensivo, e te dá base para você começar a trabalhar. 


P/1 – Você ficou morando lá onde?


R – Morei lá na Costa Verde...


P/1 – Com outros colegas?


R – Morei com um colega de Curitiba, o Daniel, dividimos um apartamento lá em Salvador. Era tudo novo. Primeira vez que eu fui morar sozinho, cidade nova, primeira vez que saí.


P/1 – Foi uma experiência também? O que você sentiu? Responsável?


R – Eu acho que eu comecei... você começa a sentir lá pelo meio do curso, aí sim, cai a ficha: “Não estou mais em casa...” Todos os seus amigos ficaram para trás, estão lá em Curitiba, você está aqui. Está ali estudando, tendo que estudar direto. A cidade é boa, tem praia, mas é uma coisa diferente. Então você começa a desenvolver um outro lado seu, que eu acho que é essencial para toda pessoa. Aí, paralelamente a isso, floresceram outras coisas. Então, por exemplo, você me perguntou se eu era namorador. Então eu acho que recrudesceu. Aquilo que você achava que era mais forte nos seus relacionamentos, aí lá em Salvador aquela coisa despontou, aquele relacionamento mais forte, aquela pessoa especial, aí lá você viu que era especial. Aí eu fui resgatá-la. Fui resgatá-la, a Suzana, minha esposa, e nos casamos em 1986, somos casados até hoje. E vamos fazer bodas de prata daqui a pouco, daqui a um ano e meio.


P/1 – Beleza.


P/2 – A Suzana sabe dessa frase que você acabou de dizer?


R – Que ela é uma pessoa especial? Ela me cobra muito. Mas eu acho que todo homem tem uma dificuldade, que eu não sei porque, de falar. E ela reclama muito disso. E eu reconheço. Eu tenho muita dificuldade de falar para ela, eu não sei porque eu falei para vocês aqui. Mas se fosse para ela eu não teria coragem. 


P/2 – Mas está bom, porque está registrado e ela vai assistir. Aí você vai ficar...


P/1 – Eu acho que essa fita, depois, quando o Memória Petrobrás mandar para você, vai mandar direto para a sua esposa.


R – [risos] Aí eu apago essa parte. 


P/1 e 2 – [risos]


R – Mas eu não me arrependo de nada, então floresceu, você realmente conseguiu identificar que aquela pessoa era especial, que você realmente gostava. Aí meio que foi uma missão de resgate. Aí eu voltei para Curitiba, falei: “Vamos resolver isso.”


P/1 – Ainda no meio do curso?


R – No meio de curso, lá em Salvador.


P/1 – De Salvador você voltou para Curitiba?


R – Voltei para Curitiba, falei: “Vamos conversar seriamente aqui” [risos]. Aí, ela me recusou inicialmente, mas daí eu insisti, voltei de novo, nos casamos, e a gente está casado até hoje. Muito felizes. Temos um casal de dois filhos, um filho de 21 anos, e uma filha de 16 anos. 


P/1 – Beleza. E vocês casaram depois que você terminou o curso?


R – Nós começamos a namorar lá, durante a minha estadia em Salvador, e ao final do curso, já em 1986, a primeira coisa que eu fiz depois que terminei o curso foi casar. Aí casei.


P/1 – Vocês trocavam cartas? Como é que era essa relação?


R – Interessante, que eu estou com as cartas até hoje. Porque na época não tinha internet. E o telefone, eu não tinha telefone em casa. E para conversar com ela eu tinha que ir para aquele orelhão, era Telebahia. 


P/1 – E o DDD [Discagem Direta a Distância] também não era nada bom, para ligar de posto de telefone.


R – Essa minha estadia na Bahia foi o caos financeiro. Porque eu gastava com aluguel, torrava uma nota com telefone, e sempre que podia eu ia para Curitiba. Então ao final de curso eu tinha uns carnezinhos, tinha um monte de carnezinho para pagar. Uma estava na primeira prestação, outra estava na décima. Sempre que tinha um final de semana, alguma folguinha, eu ia para Curitiba.


P/1 – A saudade da Suzana...


R – Ou então eram cartas, muitas cartas, de ambos os lados, ela escrevendo para mim, eu escrevendo para ela. Hoje em dia com a internet é outra coisa. 


P/2 – E essas cartas eram o quê? Uma coisa mais elaborada, uma coisa mais do cotidiano?


R – A minha esposa é muito romântica. Então eram cartas elaboradas. E, por incrível que pareça, eu também sou meio... vou um pouquinho para esse lado do romantismo também. Então as minhas cartas também eram muito de poesias que eu escrevia para ela. Nada do cotidiano. Aliás, respondendo para você, nada do cotidiano, era outra história. 


P/2 – Ela é japonesa também?


R – Também.


P/1 – E ela trabalhava?


R – Ela estava terminando o curso de Engenharia Civil em Curitiba, e depois estava trabalhando em um escritório de Engenharia. 


P/1 – Você conheceu ela na faculdade?


R – Ela foi minha aluna. Como eu te falei, logo depois que eu entrei na Universidade, eu fui ser monitor, professor-assistente, no cursinho. E no ano seguinte, que eu passei no vestibular e estava fazendo a monitoria no Curso Dom Bosco, ela foi estudar lá no cursinho. Então eu conheci ela no cursinho. E como eu era professor-assistente ela vinha tirar dúvidas sobre a matéria. Aí que eu conheci a Suzana, minha esposa. 


P/2 – Deixa eu só... para encerrar esse negócio de cartas, que vocês sabem que eu adoro essa coisa de carta, é uma coisa que eu sinto muita falta hoje em dia. Você guardou as cartas e a Suzana também guardou as cartas? Quer dizer, vocês hoje têm os dois lados?


R – É. Eu sei onde estão as cartas que eu recebi dela. Elas estão muito bem guardadinhas e estão comigo. E ela, as cartas que eu enviei para ela, ela tem guardadinho. Uma vez eu vi que estava com ela, eu tive oportunidade, ela deu chance [risos], aí eu vi lá, umas coisas que eu escrevi. É interessante.


P/2 – Quer dizer que quando seus filhos fizerem o filme de vocês as cartas serão fundamentais. Já estou dando uma dica aí.


P/1 – Para as bodas de ouro...


R – É.


P/1 – Para as bodas de ouro tem muito material!


R – E tem muito tempo. Eu vou fazer bodas de prata. 


P/1 – É, eu sei. E olha, vai ter ainda mais material. Seus filhos estão moços, deixa eles... Mas então, quando você acabou o curso você...


R – Acabei o curso, casei com a Suzana. Até foi interessante, que foi tudo corrido. Eu namorei, depois casei no civil, depois noivei, e depois casei no religioso.


P/1 – [risos]


R – [risos] Porque ali era tudo contado. Eu já tinha resolvido com a Suzana que nós íamos nos casar. Então terminando o curso... isso aí a gente não pode falar para a Petrobrás... não, pode, pode falar. Que é o seguinte...


P/2 – Se não puder, a gente para.


P/1 – Eu acho que eu já ouvi alguém que fez uma coisa mais ou menos parecida. 


R – Porque quando você termina o curso, você vai ser transferido para o seu local de trabalho. Quando você é transferido para o seu local de trabalho, você recebe um salário de ajuda-instalação. Naquela época você, recém-formado, você é duro. Então todo dinheiro lá você precisa. Então eu ia ser transferido de Salvador para o meu local de trabalho. Se eu fosse como solteiro, eu ia receber um salário ajuda-instalação. Se eu fosse como casado, eu ia receber dois salários de ajuda-instalação. Casado recebe dois salários de ajuda-instalação. Então, eu ia ser transferido em março, nós já tínhamos marcado o casamento para julho. Ué, vamos casar, não é? Está certo? Casamos, antes de eu terminar o curso lá em Salvador, no mês de março. 


P/1 – Várias pessoas fizeram também que nem você, pensando também nisso. 


R – Eu não sei se teve outro caso em particular. Só que no meu caso foi um pouquinho diferente, eu acho, porque eu estava em Salvador, e ela estava em Curitiba. Aí como é que a gente casa? Eu não podia sair. Então eu casei por procuração. 


P/1 – Ótimo!


R – Eu casei por procuração lá em... e fiz a procuração para o meu pai. 


P/1 e 2 – [risos]


R – Fiz a procuração para o meu pai. Estava lá em Salvador, não podia sair. Então fiz a procuração para o meu pai, então meu pai [risos] se casou por mim, no cartório...


P/1 – Te representou.


R – Me representou lá no cartório, e casamos ali. Fiquei casado. Aí pude ter a ajuda-instalação, e precisei desse dinheiro. Porque realmente, aí tinha que montar casa, instalar... A Petrobrás vai me perdoar por essa pequena...


P/1 – Imagino.


P/2 – Foi pouca diferença também, né?


P/1 – E a família dela sabia? 


P/2 – O pessoal aceitou numa boa?


R – É que... é meio que... eu sempre fui meio assim, se é para fazer, vamos fazer, e faz do jeito que der.


P/1 – [risos]


R – Eu só conhecia rapidamente a família da minha esposa, porque eu tinha ido no final do ano lá. Eu conhecia a Suzana há muito tempo. Desde a época lá do cursinho. Mas a família eu só fui conhecer no final do ano. Aí o que fizemos é que, em abril, aí eu já estava transferido, fizemos o noivado. Por isso que eu falei, fizemos o noivado para as famílias se conhecerem. 


P/2 – E desse casamento nem tem foto, aposto.


R – Tem! Tem a foto do meu pai se casando lá com a minha esposa.


P/2 – [risos]


P/1 – Que máximo! É muito bom!


P/2 – Ah, essa eu adoraria ver, essa foto!


R – Tem essa foto. Foi a Suzana com o irmão mais velho dela, e foi o meu pai e minha mãe do outro lado.


P/2 – [risos]


P/1 – É muito bom!


P/2 – Os seus filhos sabem dessa história?


R – Sabem, a gente conta. Mas eu não sei se eles entendem o que significa. Acho que eles não sabem ainda o que é...


P/1 – O mais velho tem 21?


R – 21. Ele já sabe. Mas acho que quando eu contei essa história há um tempo atrás... eu acho que ele nem sabe o que é casar no civil. Então, por isso que casei em março, noivei em abril. Aí as duas famílias se reuniram, a família toda. Fizemos o noivado com todas as famílias se conhecendo. Então aí que meus pais foram conhecer os pais da Suzana. Eles se conheceram nessa noivado, que foi em abril. E em julho casamos. E o primeiro local de trabalho que eu fui era Aracaju, lá em Sergipe. Então fomos para Aracaju. 


P/1 - E lá você ficou responsável por que área? 


R – Eu fui designado para Aracaju, para trabalhar... e foi muito interessante começar na operação. Lá em Aracaju eu cuidei da... as plataformas de produção lá de Aracaju são menores, são pequenas. A lâmina d’água é mais rasa, são em torno de 20 metros de lâmina d’água. Aqui na Bacia de Campos é mil a 2 mil metros. No pré-sal são 2 mil e 200 metros de lâmina d’água. Mas lá em Aracaju são 20 metros de lâmina d’água. E as plataformas são todas perto da costa. Então, o meu primeiro trabalho lá em Aracaju foi cuidar dessas plataformas. Então eu fui cuidar dessas plataformas, das áreas marítimas lá de Sergipe, campo de Camurim, Guaricema, Caioba. Que eram os campos que produzem até hoje. Então o meu primeiro trabalho foi ser o responsável pela produção dessas áreas. Seria o que a gente chamava Divisão de Óleo. 


P/1 – Diol?


R – Dirol. Diol é na sede, aqui na sede. E nas regionais se chamava Dirol. Então eu fui para a Dirol, cuidar dessas plataformas marítimas. Então foi muito interessante, o trabalho, foi outra ruptura. Foram sendo sempre rupturas. Então, a ida para Salvador foi uma ruptura, o trabalho lá em Aracaju foi uma ruptura. Porque ali eu era um engenheiro novo, recém-formado, e o meu primeiro trabalho foi cuidar daquelas plataformas marítimas, e com aquela peãozada.  


P/1 – E como é que foi? Já era uma responsabilidade bem grande, né? Mais de uma plataforma...


R – Grande. E não era uma plataforma, eram 20 e poucas plataformas. 


P/1 – Pois é. É um conjunto todo aí.


R – E o regime de trabalho era diferente na época. Hoje nós fazemos o regime de 14 dias trabalhados por 21 de folga. Na época que eu fui cuidar das plataformas lá o regime era outro. O regime tinha um pessoal (embarcado?), e eu, como responsável da área, quer dizer, engenheiro responsável, eu tinha o meu gerente, as coisas eram mais ou menos assim: “Estamos com problema na tal plataforma. Temos que resolver um problema ali, a linha entupiu, alguma coisa aconteceu.” Embarca lá e só volta quando tiver resolvido. Então era assim  [risos]. Então era interessante.


P/1 – E você se acostumou com o trabalho embarcado? Gostava?


R – Não, eu não gostava muito não. Achei muito interessante para aprendizado. Mas que acho que pela minha natureza não era o tipo de trabalho. Eu trabalhei cerca de três anos nessa atividade de campo, dois anos e meio, nessa atividade, e ela me deu um embasamento fantástico. Era mão na massa mesmo. Então eu tenho uma sensibilidade com relação aos problemas da Petrobrás que eu não teria se eu não tivesse vivenciado aquilo.


P/1 – Essa parte da operação direta, né?


R – Tratar direto com as equipes operacionais, com os técnicos, com os auxiliares técnicos, que têm um nível de escolaridade menor que o seu. Muito pessoal contratado. E ser responsável por uma operação te dá uma vivência fantástica. Uma coisa que eu me lembro dessa época, que aí você começa a se questionar. Num desses meus embarques, o meu primeiro embarque...  engenheiro novo... então fomos lá, deu uma emergência numa plataforma, embarquei no final do dia. Era época de Natal. E meus pais estavam vindo me visitar pela primeira vez lá em Aracaju. Era época de Natal. Então deu uma emergência na plataforma, tivemos que embarcar. Então, eu só tive tempo de passar em casa, pegar as minhas roupas, falei para a minha esposa pegar os meus pais e cuidar dos meus pais. E fui embarcar. Então teve esses dois eventos. Não pude receber os meus pais neste Natal, passei o Natal na plataforma. Tinha que ser assim mesmo. Só levei algumas roupas. E uma coisa que me marcou muito naquela época, porque aí fomos numa plataforma... e na época... essas plataformas são muito pequenas, não tem refeitório, não tinha refeitório, só tem um trailer que é banheiro e um trailer para você dormir. E as instalações de processos. Essa é que é uma plataforma lá em Aracaju. E fomos nessa plataforma, estava instalado nessa. E a comida vem por lanchas. Vêm as lanchas, trazendo a comida, e com um isopor, eram as quentinhas. A plataforma que eu estava, que tinha dado problema, era uma área remota. Então, quer dizer, foi a última que recebeu a quentinha, a quentinha chegou fria. E cadê o talher? Aí fomos comer. 


P/1 – No dia de Natal.


R – Dia de Natal. Cadê o talher? Eu não tinha levado talher. E nem sabia que era para levar talher. Então está lá, tinha os meus colegas ali do lado, (o capataz, o top?), tudo lá com o seu garfo e a sua faca lá, festejando. A minha quentinha... e eu não tinha talher. Aí eu comi com a tampa do... amarrei a tampa da quentinha e comi com a tampa da quentinha. 


P/1 – Improvisou uma colher.


R – Improvisei. E ficamos lá. O embarque da plataforma era diferente também. Algumas plataformas não tinham heliponto. E algumas plataformas eram desabitadas. Então ou você acessa uma plataforma por heliponto, onde o helicóptero desce nela, ou tem um guindaste, aí desce uma cestinha, na lancha onde você está, você sobe na cestinha, acessa a plataforma, ou o terceiro método, que a gente chamava de corda do Tarzan. Que é uma corda que fica fixa na plataforma, o barco vem aqui, você está no barco, no momento que o barco sobe você pega na corda, aí você fica flutuando, sobe, desce. No momento que o barco está subindo, e ele começa a descer, você se fixa na corda e dá um impulso para a plataforma. 


P/1 – Só na mão? Você vai no Tarzan mesmo?


R – No Tarzan. Então só tinha esses três métodos de embarque. Então, algumas plataformas remotas não tinha heliponto, então não dava para helicóptero. Era remota. Se era remota, não tinha guindasteiro. Então, qual o único jeito de acessar a plataforma? Pela cordinha do Tarzan. Então eu me lembro que o meu último embarque foi assim. Numa plataforma desabitada, não tinha guindasteiro, mas tinha heliponto. E era uma operação de emergência que nós fizemos. Esse foi meu último embarque. Então, a lancha veio, e o helicóptero me esperando. Eu desci, pela cordinha do Tarzan, com o (hand talk?), na época não tinha celular, era hand Toc, aqueles radinhos que você fala “câmbio”. Acessei a plataforma, subi na plataforma, subi no helicóptero, fui embora. Então foi o meu último embarque. E cuidei da operação durante esses dois anos e meio, e isso deu um conhecimento sobre as características da área muito grande. Isso é muito enriquecedor. Então as coisas foram acontecendo. Aí depois, eu mudei para a área que eu mais gostei de trabalhar na Petrobrás, depois dessa área. Eu fui cuidar das mesmas áreas que eu cuidei como engenheiro de operação, eu fui cuidar dessas mesmas áreas como engenheiro de reservatório. Então, os mesmos campos produtores, Camurim, Caioba, Dourado, que eu cuidei como operação, eu fui cuidar da sede como engenheiro de reservatório. O engenheiro do reservatório é aquele cara que cuida da drenagem ou da extração do petróleo da rocha reservatório. É quem define a melhor forma de extrair aquele petróleo. Então ele não é um homem de operações, mas é um cara da engenharia, um cara do projeto. Então, eu fui lá trabalhar nessa área, e foi muito interessante também, porque a mesma concessão, o mesmo campo produtor, eu trabalhei nas duas áreas. Trabalhei como homem de operação, e como homem que define as estratégias e os métodos com que o petróleo vai ser extraído daquela jazida. Aí fiquei mais uns três, quatro anos trabalhando nessa área. 


P/1 – E você ficou até quando em Sergipe?


R – Aí fiquei muito tempo. Fiquei até 2000 em Sergipe, antes de vir para sede aqui no Rio de Janeiro.


P/1 – Lá foi também um dos primeiros campos _______


R – Isso também foi muito importante para o aprendizado. Primeiro, eu acho que ... a Petrobrás, a produção de petróleo nasceu na Bahia e, depois da Bahia, Sergipe. Então quando a gente foi trabalhar em Sergipe, já estava em período de declínio da produção. A produção já estava declinando, por falta de investimentos e de perspectivas naquela época. Mas petróleo, esse que é um grande aprendizado que você vai tirando também durante o trabalho, petróleo é um risco contínuo que você tem que assumir. Então, no petróleo, se você desiste de assumir um risco, a rocha reservatória é _______, se você não investe na otimização, na reposição da energia dessa rocha reservatória, a única coisa que você tem que assistir é o declínio da produção. Então, eu estou tirando produção, cada vez eu vou produzir menos, porque há pressão do reservatório se _____. Isso era uma das coisas que me frustrava quando eu trabalhava na operação. Quando eu trabalhava na operação, na condução da operação, você tentava manter a produção, tentava manter as condições operacionais, mas você queria que a produção subisse. E na operação você não tem condições de fazer isso. Você não intervém na causa principal da produção de uma jazida, que é a política de extração daquela jazida. Então, quando eu mudei da área operacional para a área de reservatórios, por isso que é a área que eu mais gostei. A gente conseguiu... eu tive a experiência de trabalhar numa área que poderia interferir no ritmo de produção daquela jazida. Você poderia, em função da criatividade, do projeto que você pense, em função de você não se conformar com o declínio de produção, você tinha como propor novos métodos. Injeção de água, injeção de gás, furar mais poço, botar mais plataformas. Todos esses métodos você pode fazer nesse trabalho de engenharia de reservatórios. Então esse foi o trabalho que eu considero mais enriquecedor, do meu período que eu estive lá em Sergipe, Alagoas, foi exatamente essa percepção. Essa percepção de onde você pode atuar para de fato você interferir e contribuir para que a redução de produção, que é natural, ela ocorra da menor forma possível, ou então você gerar projetos para que ao invés de você ter um declínio de produção você tenha um crescimento da produção. [pausa]


P/1 – Mauro, e você obteve bons resultados?


R – Isso que eu falo que é um aprendizado. Como eu falei. Frente a uma jazida de petróleo você tem duas posturas possíveis a adotar. Ou você assume que aquele declínio de produção é inexorável, e é determinado, e você não tem o que fazer, ou você meio que rompe paradigmas e, assim, “por que esse declínio é inexorável?”. “O que eu posso fazer a mais para melhorar a produção dessa jazida?” Então por isso que eu achei muito enriquecedora a minha experiência em Aracaju, porque eu fui por essa segunda linha. Então, era uma época em que Aracaju estava com uma estima baixa. Era uma estima baixa, porque era uma região antiga, já em declínio da produção, e a lógica predominante na região da produção era: já atingimos o pico de produção, declinar, e agora temos que reduzir custo. Então essa era a lógica predominante. E como técnico dessas áreas marítimas, a gente pode quebrar paradigmas. Então propor projetos novos. Então vários projetos foram implementados. Tem áreas que até hoje produzem. Nós tínhamos uma área que estava fechada, que era a área do _______, que era o campo de Paru. Ela tinha sido descoberta em 1986 e estava parada por falta de ______. Então: “Por que está parado?” Porque o projeto era muito complexo. Tinha que ter uma plataforma de produção, tinha que ter uma estação em terra, ela era no mar. Tinha que botar uma plataforma de produção, um gasoduto, uma estação de separação em terra, e depois quilômetros e quilômetros de gasoduto. O projeto era esse. Aí, no EVTE se mostrava inviável. Então meio que a gente quebrou paradigma. “Se é inviável, mas o poço é bom, vamos tentar fazer de uma forma que ela fique viável”. Então fizemos um projeto onde a gente substituiu a plataforma de produção. Ao invés de uma plataforma botamos uma boia. Botamos uma __________ molhada com uma bóia de controle. Então ficava a __________ molhada e uma boia. E com essa bóia que eu controlava a _________ molhada. Então a gente eliminou a plataforma. E só com uma boia de controle. Aí depois o oleoduto, o gasoduto para a terra, uma separação em terra, só um separador. Não precisávamos de uma estação de separação em terra. Botamos um separador em terra. 


P/2 – Uma coisa simples.


R - Mas foi uma quebra de paradigma.


P/1 – É totalmente inusitado, não é?


R – E a boia está até hoje lá, e está produzindo. Então esse poço produz até hoje lá em Aracaju.


P/1 – E foi uma grande surpresa para o pessoal que estava acostumado com...


R – Ele causa, porque, veja bem, se você entender uma organização, a cúpula da organização, ela tem uma percepção de estagnação e de declínio. E essa percepção passa para toda a organização, para todos os técnicos... a organização toda para. “Vamos lá assistir o declínio da produção acontecer”. Graças a Deus, nessa época que a gente foi trabalhar nessa área de reservatórios, conciliou também de eu ter uma gestão da unidade que também, em havendo oportunidades, a cúpula assumiu o risco. Então é muito interessante. Então realmente causou um desconforto. Mas eu acho que é positivo. Um desconforto do tipo: “Não, a boia é arriscada. Vamos ver todos os aspectos de risco aqui, mitigá-lo etc” Para evitarmos de fazer um gasoduto, nós tínhamos que usar um gasoduto que já existia. Só que nós íamos entrar com o gás sem processamento no gasoduto que transitava gás processado. Então misturávamos esse gás processado com o gás não processado, e íamos processar tudo lá na frente. Então esses gerentes dessa área aqui sofreram interferência de um projeto aqui. Então esses desconfortos aconteceram. Mas o importante é que a gente pôde contribuir para que a unidade se mexesse. Então, fora essa, teve outras oportunidades. Numa época de investimento, não investimento, fizemos então uma nova unidade de processamento de gás em Alagoas. _________. Então ela está lá até hoje, está lá processando. Numa época lá, que a gente tinha parado de implantar plataformas, no caso da economicidade, porque o preço do petróleo tinha caído, lá no campo de Guaricema e Dourado. Então, com o apoio da engenharia aqui da sede, fomos implementar um novo conceito de plataforma, que a gente chama de plataforma ________. Que eram plataformas super simplificadas. Eram mais simplificadas do que aquelas que eu te falei que eu comi quentinha. Eram mais simplificadas. Eram estruturas mais simples, só com o separador em cima. Sem guindaste, sem nada, só com o pau de carga. 


P/1 – Sem tripulada também? 


R – É. Remota, desabitada. Mas era a única forma de viabilizar um projeto de produção lá na área marítima. Colocamos duas plataformas lá no campo de Dourado, mais duas plataformas lá na área de Guaricema. E respirou um pouquinho, a área marítima respirou um pouquinho. Então eu gostava disso, eu gostava de ter condições de contribuir, de interferir no desempenho de produção da área. 


P/2 – Mas fundamental então, esse conhecimento das duas pontas, não é isso? Da operação e dessa área também de ________.  Você conseguir enxergar todo o processo. 


R – Ah, fundamental. Você poderia enxergar onde você podia simplificar, tinha a percepção de onde você tem condições... Eu não estou querendo minimizar o papel da operação, longe disso. Uma coisa que eu aprendi nesse período da produção é que todas as funções da operação, da engenharia, engenharia de reservatório, são todas importantes. Mas cada um tem o seu papel. Então, aquele papel que me atraía, que era o papel da contribuição na curva de produção do campo, onde você podia mais atuar, era naquela área de engenharia de reservatório. E onde você podia propor coisas. Ai você tinha que convencer logicamente o seu gerente que aquilo era uma aposta que valia a pena. [pausa] [troca de fita]


R - ... dos objetivos estratégicos do AIP [Acordo de Individualização da Produção]. Ou seja, o que mede o desempenho do AIP é se os seus objetivos estratégicos estão sendo atingidos ou não. Então esse foi o modelo de desempenho que foi implantado, associado... depois que nós fizemos esse modelo, ou seja, o que mede o desempenho é o desempenho dos seus objetivos estratégicos, e o desempenho dos objetivos estratégicos são aqueles objetivos que te levam aonde você quer chegar. Então, ele não está solto. O desempenho mede se você está sendo bem sucedido ou não na sua estratégia. E estratégia é o que você quer fazer. 


P/1 – Isso a partir da estratégia também corporativa...


R – A estratégia corporativa, nós vemos quanto o AIP contribui na estratégia corporativa, pegamos a estratégia do AIP, que contribui para a estratégia corporativa, desdobramos em objetivos estratégicos, e aí sim, para cá dos objetivos estratégicos, um indicativo que mede se aquele objetivo está sendo atingido ou não. Então a gente não está medindo indicador pelo indicador. “Ah, eu vou medir esse indicador porque ele é bonito.” Não, a gente adotou esse indicador porque esse indicador mede o objetivo estratégico X, e esse objetivo estratégico X faz parte da estratégia do AIP. Então essa é que é a tese. Aí identificamos o indicador, e uma coisa que ficou muito forte no AIP foi o termo de compromisso. Porque aí nós tínhamos os indicadores. Aí a questão era o seguinte: como é que eu faço esses indicadores chegarem até as unidades de negócio, interferir... o seu indicador, que seja medido, ou que seja compartilhado por toda a organização. Então demos muita força para uma ferramenta que já existia chamada termo de compromisso. Termo de compromisso é um acordo que existe entre a direção do AIP e cada unidade de negócio. Então, existe um termo de compromisso entre a gerência executiva do AIP e, por exemplo, o INPC [Índice Nacional de Preços ao Consumidor]. E nesse termo de compromisso está o conjunto de indicadores e metas que aquela unidade tem que atingir. Porque vai contribuir para o AIP atingir os seus objetivos estratégicos. Então, isso é o termo de compromisso, isso é o que implementamos, e é o que está aí vigendo até hoje. E isso para todas as unidades. Todas as (US?)s, todas as unidades de negócio, a exploração, a engenharia de______ , todos têm esse termo de compromisso.


P/1 – E esses indicadores, vocês trabalharam com muitos indicadores?


R – Não. O indicador, como eu te falei, depende da quantidade de objetivo. Se a minha estratégia pressupõe dez objetivos estratégicos, eu vou ter dez indicadores. Se eu tiver 15 objetivos estratégicos, eu vou ter 15 indicadores. Eu preciso ter um indicador para cada objetivo estratégico. E o objetivo estratégico quem define? É a gerência executiva. 


P/1 – E essas avaliações são feitas...


R – Anuais. Fizemos um processo de estabelecimento de metas anuais e de acompanhamento anual. 


P/1 – Vamos chegar no Pré-Sal. Porque senão a gente não chega lá. Enfim, e aí o pré-sal como é que foi? Foi um convite?


R – Antes de chegar no Pré-Sal, só para deixar registrado, um outro evento que me marcou muito nesse período antes da ida no pré-sal mas durante o período de avaliação do desempenho empresarial, foi a implementação do SAP R/3. Eu fui o coordenador de implantação, dentro dessa função de desempenho empresarial, o coordenador de implantação do R/3 dentro do AIP. Então, a implantação do SAP R/3 na Petrobrás foi um negócio gigantesco. Então, teve uma equipe que foi mobilizada, no final do ano 2000, para configurar o sistema, o pessoal ficou configurando. E na época da implantação, em 2003, 2004, cada área de negócio teve que designar um coordenador. “Está configurado o sistema. Agora vamos implantar.” Então eu fui designado para ser o coordenador de implantação no AIP. Então foi um negócio também que... um dos que contribuíram para os meus cabelos brancos foi esse.


P/1 – Trabalho insano...


R – E deu certo. 


P/2 – Mas quando foi o primeiro momento de implantação do AIP tinha muita discrepância, digamos assim?


R – Tinha. Eu acho que a Petrobrás investiu muito nessa configuração. A configuração começou em 1999, 2000, e ela foi sendo configurada em 2003. E lá por 2004 a gente estava pronto para implantar. Mas aquela dúvida: vamos implantar ou não? Então, foi um episódio que eu acho importante, porque o AIP decidiu implantar. E é uma área muito importante na companhia. O AIP decidiu: “Vamos implantar”. Fizemos um esforço gigantesco de preparação de todas as unidades de negócio, unidade de serviço, para receber o SAP R/3. Criamos uma estrutura de monitoramento, de planificação, para receber aquilo lá. E meio que o AIP? se predispondo a implementar o sistema, isso em 2004, que a decisão foi tomada em 2004, se predispondo a fazer essa implantação, meio que as outras áreas da companhia tiveram que tomar essa mesma decisão. Eu acho que foi acertado. 


P/1 – O sistema é alemão?


R – É alemão. E ela permite uma gestão integrada da empresa. Ela conecta, não só geograficamente, mas faz a conexão do logístico com o contábil. Então, a integração que a gente fala é que todos os momentos logísticos, comprar uma peça, solicitar alguma coisa, já têm um impacto imediato no contábil da empresa. Então por isso que a gente chama Sistema Integrado. Cria uma complexidade violenta.


P/1 – E dá uma dor de cabeça danada. 


R – Lá naquele começo. Agora nós já estamos em 2009, e está funcionando. O risco que nós tínhamos lá, para mitigar em 2004, foi se a empresa ia parar ou não. O risco era esse.


P/1 – Imagina realmente o susto!


P/2 – Ele vem de uma vez, não é?


R – A Petrobrás foi muito ambiciosa nesse projeto, porque normalmente as empresas fazem a implementação do SAP R/3 por etapas. Primeiro vão botar um módulo de materiais, depois isso, depois aquilo. A Petrobrás resolveu botar tudo de uma vez. Mas naquela época lá, em 2003, 2004, ou a companhia decidia implantar aquilo, e melhorando, ou jogava fora o desempenho de 200, 300 pessoas, que foram designadas desde 1999 e até 2003 ficaram configurando o sistema. O sistema não está perfeito, mas eu acho que está funcionando. A empresa não parou...


P/1 e 2 – [risos]


P/2 – Acho que nenhum sistema nunca vai ser perfeito. Você disse agora a pouco, Mauro, que o pré-sal foi uma aposta da Petrobrás.


R – Sim.


P/1 – Como é que você vê essa aposta? Em que sentido foi uma aposta?


R – Tudo bem. Depois dessa experiência na avaliação do desempenho a gente foi para o pré-sal. O pré-sal é o sucesso de uma aposta que a Petrobrás fez. Porque ele é diferente de tudo que a gente vinha fazendo até agora. Alguém já falou do pré-sal para vocês? 


P/1 – Eu quero a sua visão. 


R – A Petrobrás tem lá seus 55 anos de atividade, e durante esses 55 anos de atividade produziu petróleo em ____, Sergipe, Rio Grande do Norte, Bahia etc. Depois foi para o mar, em Sergipe, Guaricema, Camurim, depois foi no Rio Grande do Norte, para o mar, foi na Bacia de Campos, Garoupa etc. essa foi a jornada da Petrobrás. Durante esses 55 anos de atividade da Petrobrás, a maior parte das produções que nós fizemos, foi oriunda de arenito, um tipo de rocha, arenito, e esse arenito pós-sal. Por que é pré-sal e por que é pós-sal? Se você imaginar geologicamente, teve uma certa época que se formou a camada de sal. Isso há 150 milhões de anos atrás, se formou uma espessa camada de sal em algumas áreas aí do território brasileiro. Aquilo que nós produzimos acima da camada de sal se chama pós-sal, porque ele é formado depois do sal. Aquilo que foi formado antes do sal, que está aqui em baixo, é chamado de pré-sal. Está certo? Por que é uma aposta? Porque toda atividade exploratória, os poços que a Petrobrás perfurava etc, eles estavam direcionados para esses horizontes pós-sal, ou seja, que foram formados depois da camada de sal, estavam acima da camada de sal. E tivemos todo esse sucesso na Bacia de Campos etc. então eram majoritariamente de pós-sal. Bom, onde é que começa a questão da aposta? A Petrobrás é o que é hoje porque sempre produziu esses 2 milhões de barris, que a gente está produzindo, é majoritariamente dessa área do pós-sal. Mas sempre houve na Petrobrás, principalmente na área da geologia, da exploração, aquelas teorias. Como eu falo, é tudo modelo. Ninguém nunca vai lá embaixo para ver o que é. Então é modelo. Então uma das teorias que existia na exploração é: qual é a origem desse petróleo que nós estamos produzindo aqui no pós-sal? Cadê a rocha geradora que gerou o petróleo que hoje nós estamos produzindo aqui no pós-sal? Uma das hipóteses é que esse petróleo que nós estamos produzindo no pós-sal, a rocha geradora estaria abaixo da camada de sal. Estaria aqui no pré-sal. Ok? Era uma teoria. Só que essa camada, para se chegar nessa camada abaixo da camada de sal, você tem suas barreiras. Então, existia uma teoria, certo? Tem duas barreiras. A primeira barreira é que o pessoal da geologia, para construir os seus modelos geológicos da área, ele usa muito a sísmica. A sísmica é como se fosse o ultrassom do subsolo. A sísmica, quando atravessa essa camada de sal, as ondas que retornam são distorcidas. Por causa do tipo de material. Então, a sísmica, nessas áreas que têm uma camada de sal, ela distorce a imagem do que está abaixo do sal, que é o pré-sal. Bom, mas a teoria estava lá. A origem do petróleo, a rocha geradora poderia estar lá embaixo. Então, a primeira aposta. Em 2000, 2001, a Petrobrás, acho que no segundo (BID?) da ANP [Agência Nacional do Petróleo] comprou essas áreas lá do _______ da Bacia de Santos. Onde tem aquela espessa camada de sal, na expectativa de haver petróleo abaixo dele. Mas a gente sabia se ia ter ou não ter petróleo? Não sabia. A sísmica era... tinha uma interferência por causa da camada de sal. Então nós compramos essas áreas meio que com o conhecimento geológico das áreas, o pessoal ia criando modelos, dizendo que “Ah, tem perspectiva de ter petróleo aqui embaixo”, o pessoal da exploração: “Dá para apostar”. Mas uma sísmica de boa resolução não tinha. Mas a Petrobrás foi lá e comprou, bancou. Lá por 2002, 2003, foram desenvolvidos algoritmos que permitiram filtrar a resposta dessa sísmica. Então, a sísmica começou, com a utilização desses filtros, começou a possibilitar uma imagem melhor do que havia abaixo da camada de sal. Para poder confirmar os modelos geológicos da exploração. Aí começamos lá... “É, realmente parece que tem coisa”. Os modelos foram desenvolvidos. Então, esse foi o segundo movimento. O primeiro movimento foi comprar, acreditar naquela hipótese, comprar os blocos. A segunda aposta foi desenvolver esses... fazer a sísmica, a aquisição da sísmica da área. Desenvolver esses algoritmos que limparam as imagens sísmicas e confirmar os modelos. Mas qual o terceiro passo, o próximo passo? Furar. Mas a gente nunca tinha furado um poço com 2.200 metros de lâmina d’água, depois mais uns mil a dois mil metros de pós-sal, depois dois mil metros de sal, para chegar no pré-sal. Então nunca tínhamos furado um poço nessa profundidade, que dá quase seis a sete mil metros de profundidade, com dois mil e 200 metros de lâmina d’água, e com dois mil metros de sal. Então aí veio uma outra aposta. Compramos a área, adquirimos a sísmica, desenvolvemos o algoritmo, tem chance de ter petróleo lá: “Vamos furar”. Então essa aposta a Petrobrás encarou em 2005. Para você ter uma ideia, o tempo médio de perfuração de um poço, lá no pós-sal, é cerca aí de 60 a 90 dias. O primeiro poço demorou 14 meses. Demorou 14 meses para ser perfurado, porque a gente estava aprendendo. A Petrobrás estava aprendendo como é que furava um poço com essa dificuldade. E, graças a Deus, não desistiu, e achou petróleo. 


P/1 – Ia tentando furar nesses 14 meses? Como é que era esse processo? Só para a gente ter uma ideia.


R – Não, porque qual a característica... o que é que difere o pré-sal do pós-sal? Além daqueles dois mil metros de sal, esse sal tem uma certa plasticidade, lá no subsolo. Então quando você fura essa área, a plasticidade, você tem problemas para manter a integridade do poço. Imagine você furar um poço no meio do sal. Então, ela induz algumas tensões no poço. Desmoronamento etc. então você tem que fazer, furar o poço, mantendo a integridade. Esse é um ponto.


P/1 – Isso vai depender da broca?


R – Depende da broca e do fluido de perfuração que você está usando nessa perfuração. 


P/2 – Tem uma outra coisa que eu queria perguntar. Eu imagino que o sal agride _____. 


R – Agride. Por causa da corrosividade, ela pode formar ácido, tem esse problema também. Então são brocas de material especial. Então essa é uma dificuldade. Esse é um ponto. A segunda dificuldade é que essas rochas de reservatório que estão no pré-sal, elas não são arenitos, como nós temos aqui no pós-sal. Elas são carbonatos. Os carbonatos são mais duros. Eles são mais duros para se fazer a perfuração. Então esse primeiro poço foi um poço de aprendizado. E demorou 14 meses. E sonda é um recurso escasso, principalmente para essa lâmina d’água. E a taxa diária de sonda... é estúpido o preço de uma sonda, nessas condições. Eu não sei se vocês têm noção de quanto custa uma sonda. 


P/1 – Eu queria que você dissesse, se puder dizer, é o aluguel?


R – É, o aluguel diário da sonda nessas condições, eu só vou falar o número para vocês. Nós temos contratos antigos de sondas para essas condições. Uma sonda, com uma diária de 200 mil dólares por dia, é barata. Hoje em dia, hoje, uma sonda nessas condições, ela está em torno de 500 mil dólares por dia.


P/1 – E você precisa de quantos dias no mínimo, de uma sonda?


R – Então, quando é lá no pós-sal, em torno de 60 a 90 dias. Então 60 a 90 é o tempo para eu furar um poço lá no pós-sal. O primeiro poço lá no pré-sal durou esses 14 meses que eu te falei, pagando lá a cada dia...


P/1 – Então o primeiro poço foi em 2005?


R – Em 2005, concluindo em 2006. Aí que vem a questão da aposta. Aí foi uma outra aposta. Porque sonda é um equipamento caro. Depois que acabou aqueles 60 a 90 dias, que a perfuração normal, você pode chegar lá: “Cadê o poço?” “Está acontecendo isso, isso e aquilo” “Mais um pouquinho” “Continua aí”. Aí passou seis meses. “Cadê o poço?” “Ah, agora está dando problema aqui no sal”, não sei o que. Aí passou um ano. “Cadê o poço?” “Ah, estamos furando lá, estamos quase chegando”. Você imagina. Então, por isso que eu falo da aposta. Se fosse outra empresa, eu acho que muita empresa teria desistido, no meio do caminho. A Petrobrás não desistiu. A Petrobrás não desistiu, e persistiu até esse último poço. E qual foi o resultado? Encontramos petróleo abaixo da camada de sal, no pré-sal. O que isso é importante? Ela confirma uma hipótese. Qual a hipótese? De que a rocha geradora... existe petróleo, tanto em termos de rocha geradora como rocha reservatório, que é aquele carbonato, embaixo da camada de sal, e isso que foi comprovado. O que isso significa? Significa simplesmente uma nova fronteira para a indústria do petróleo, não só no Brasil, no mundo. Por quê? O que foi comprovado? Existe petróleo embaixo da camada de sal, e a perfuração é factível. Então depois daquele primeiro poço em 2005, 2006, a Petrobrás furou mais dez poços ali na área da Bacia de Santos. E aí aprendemos. Os últimos poços a gente está levando aí em média 90 dias, 60 a 90 dias para furar, e o custo caiu drasticamente. Tem números públicos aí que a gente tem colocado. O primeiro poço, que demorou 14 dias, a gente gastou quase 240, 250 milhões de dólares. Esses poços a gente está fazendo aí na faixa de 60, 70 milhões de dólares. 


P/1 - Vocês estão tentando fazer uma redução também.


R – Sim, porque a gente está aprendendo. A gente está aprendendo com a execução. 


P/2 – Tem vindo gente de fora para aprender com vocês?


R – Sim, a Petrobrás, ela usa várias empresas contratadas para auxiliá-la nas suas operações. Agora, tem outros operadores, a Esso está operando um bloco lá na área...


P/2 – Sim, eu digo... tudo bem, vocês usam como prestadores de serviço. Mas eu digo assim, vem gente especificamente para aprender isso? Uma empresa de outro país que diga: “Olha, eu gostaria também de saber como é que vocês fizeram?”


P/1 – Mas aí vai uma explicação até um certo ponto, né?


P/2 – Então, não sei, isso que eu queria saber...


R – A Petrobrás... a explicação vai até um certo ponto, quando é para público externo, investidores etc, ou pode até avançar mais, se for o caso de uma aliança tecnológica, ou em caso de parcerias. Então, nós temos parcerias em diversas partes do mundo, e isso passa a ser um diferencial para a Petrobrás. 


P/1 – No próprio poço de Tupi vocês já estão com uma parceria com a Galp? 


R – No poço de Tupi nós temos com a parceria com a BG, a _____, que é inglesa, e com a Galp, que é portuguesa. Então ali são várias áreas, cada área tem uma parceria diferente. No bloco do BMS-9, nós temos parceria com a Repsol e acho que a Galp também, se não me engano. E em várias outras, tem composições diferentes nas várias áreas. São várias áreas que nós temos lá. Nós temos a área de Tupi, nós temos a área de Carioca, temos a área de Júpiter, e Iara, Guará, Parati e Bem-te-vi. Naquele complexo ali. E cada uma dessas áreas tem uma composição do consórcio diferente. 


P/1 – Vamos falar de planejamento para essas áreas todas. Primeiro eu queria que você me dissesse também como foi o convite e qual é a sua gerência também.


R – Ah, sim. Entendeu por que foi uma aposta? 


P/2 – Aquela do tudo ou nada!


R – Não, primeiro é apostar num modelo novo. Aquilo que eu falei no começo, que é importante no petróleo você estar questionando um paradigma, testando hipóteses novas, e apostando. E a Petrobrás fez... o Pré-Sal é fruto disso. Apostou no Pré-Sal, na existência do petróleo abaixo da camada de sal, desenvolveu tecnologia de sísmica, de interpretação de sísmica e de perfuração de poços, para poder testar a hipótese. Teve sucesso, e agora está na outra etapa que é viabilizar economicamente o desenvolvimento da produção dessa área. Então é essa área que eu estou trabalhando. Então a gente está da área do AIP Pré-Sal, e o nosso trabalho tem sido basicamente, como o próprio nome já diz, um planejamento da área. Então, o que a gente tem feito...


P/1 – Você está como gerente...


R – Eu sou gerente de planejamento do AIP Pré-Sal. Então a Petrobrás criou uma área específica só para cuidar do Pré-Sal, da Bacia de Santos. Essa gerência executiva se chama AIP Pré-Sal. O gerente executivo é o engenheiro ______, antigo gerente da engenharia, e eu sou o gerente da área de planejamento. Além da área de planejamento, nós temos a área de concepção de projetos, que Antonio Pinto é o gerente, nós temos a área de desenvolvimento de projetos, que é o _____ o gerente, e temos a área de parcerias, que o ______ é o gerente. E eu cuido da área de planejamento.


P/1 – Então são...


R – Quatro gerências. Então, nessa área de planejamento, o que a gente tem feito... a área tem um potencial muito grande. Então ele abriu uma nova fronteira. Mas uma nova fronteira com várias características diferentes. Ela está remota. Ela é uma área remota, 300 quilômetros da costa. Ela é desenvolvida em parceria, em consórcio com várias empresas. Os poços são mais profundos, tem a questão da camada de sal. Não tem infraestrutura implementada na área. E ela tem o potencial de produção, e o potencial de reservas muito grande, que pode permitir que a Petrobrás, o Brasil, tenha um papel muito significativo na indústria do petróleo nos próximos anos. Ela pode mudar, tanto a Petrobrás como o Brasil, de patamar na indústria do petróleo. Ela pode agregar muito. No mínimo as empresas brasileiras vão dobrar. No mínimo. Na visão de hoje. Logicamente, o conhecimento do Pré-Sal vai ser adquirido ao longo do tempo que a gente está fazendo os poços exploratórios, os testes de produção, lá na área. Mas ela apresenta um potencial que no mínimo a gente dobra as reservas. E a gente pretende, em 2017, produzir um milhão de barris, estar produzindo um milhão de barris lá na área. Se você considerar que a área do Pré-Sal, que a ocorrência do petróleo foi constatada em 2006, depois daquele poço de 240 milhões de dólares, de 2006 a 2017 são 12 anos. Então a gente está se propondo a fazer isso em 12 anos. Esse um milhão de barris, a Petrobrás levou 45 anos para atingir um milhão de barris. Então é um desafio muito grande. E complexo, porque não tem infra-estrutura. Então o que a gente tem feito na área do planejamento é tentar envolver todas as áreas da companhia que vão ser impactadas pelo Pré-Sal. Porque praticamente todas as áreas da companhia vão ser impactadas. A área de refino vai ser impactada, porque vai ter mais petróleo para refinar,. A área de gás, energia, vai ser afetada, porque vai ter mais gás para comercializar. A área de materiais vai ser impactada, porque a gente vai ter que contratar muito material e serviços. Muitos materiais nós consideramos críticos, porque não tem capacidade instalada para certos materiais, a gente vai ter que desenvolver essa capacidade. Dentro do AIP, a necessidade de sonda, a gente vai precisar de muitas sondas. Então ela tem um potencial de escala muito grande. E o nosso desafio é ir desenvolvendo esse projeto e ir calibrando esse projeto à medida em que a gente for calibrando as informações dos poços que a gente está perfurando. [pausa] [troca de fita]


P/1 – Vamos retomar. Eu queria perguntar dessa parte que você falou das quatro gerências, e dessa ideia de envolver várias áreas. Isso é o Plansal?


R – Isso é o Plansal. Como é um projeto que é muito impactante em todas as áreas da companhia, então foi constituído um projeto que a gente chama de um programa de projeto. É um Plano Diretor de Desenvolvimento do Projeto Pré-Sal. Então esse Plano Diretor de Desenvolvimento do Projeto Pré-Sal é o trabalho que a gente está fazendo na área de planejamento. A gente está ajudando o _______ a conduzir esse programa. E em que consiste esse programa? Nós procuramos montar um conjunto de frentes de trabalho que envolva todas as disciplinas e tipos de projetos que vão ser necessários implementar na área. Então criamos um programa de projeto em que a gente tem uma frente de trabalho de exploração, uma frente de trabalho de desenvolvimento da produção, que produz aquilo que foi descoberto. Depois temos uma frente de trabalho de infra-estrutura, infra-estrutura de logística de (IP?) e de escoamento de óleo e gás. Depois temos a frente de trabalho de utilização do petróleo, que é coordenada pelo abastecimento. E depois temos uma frente de trabalho de utilização e comercialização do gás, que é coordenado pelo (Gás Energia?). Então, exploração, desenvolvimento da produção e infra-estrutura, é  coordenado pelo (IP?), utilização de petróleo é coordenado pelo abastecimento, e utilização e comercialização de gás pelo (Gás Energia?). Essas frentes de trabalho estão gerando projetos. Estão gerando necessidade de projeto, nos próximos 20, 30 anos, necessários para o desenvolvimento do polo Pré-Sal. Então eles vão gerar ativos de refino, ativos de gás e energia, ativos de produção. Então estas são as frentes de trabalho que vão gerar projetos. Essas são as frentes de trabalho. Essas frentes de trabalho são apoiadas por planos funcionais. Nós temos o plano funcional de desenvolvimento tecnológico, que está sendo coordenado pela engenharia de produção do AIP e o (Cenpes?) . Temos um plano funcional de aquisição de recursos críticos. Porque a gente vai demandar muito... a indústria fornecedora, tanto de materiais como de serviço, e a idéia é incentivar ao máximo o desenvolvimento na indústria nacional, para que a indústria nacional pegue carona nessa oportunidade. Temos uma frente de trabalho de capacitação de pessoas, que é coordenada pelo RH da Petrobrás. Temos um plano de gestão de parcerias operacionais. Porque agora todos esses projetos lá no Pré-Sal são com parceiros. E um plano de licenciamento ambiental. Então essas frentes de trabalho, a gente faz um programa permanente de reuniões mensais, e de desenvolvimento de estratégias, acompanhamento da realização desses projetos, resultados que estão sendo obtidos, e revisão das estratégias. Em 2008 fizemos o primeiro trabalho, o primeiro Plano Diretor do polo Pré-Sal. Foi concluído em janeiro, e foi aprovado pela Diretoria da Petrobrás e pelo Conselho de Administração, agora em abril. E agora nós estamos numa etapa de revisão daquele plano. Porque o conhecimento não para de chegar. Então nós temos que re-calibrar o planejamento a cada novo evento que aconteça na prática, na execução. Então agora nós estamos montando o Plano Diretor 2009 , que é o Plansal.


P/1 – Você falou então que tem essa primeira etapa, do Plansal para 2009...


R – Não, nós terminamos a primeira versão do Plano Diretor... É por ano. Terminamos o Plano Diretor, visão 2008. Esse já foi aprovado pelo Conselho. Fechamos agora. Só que imediatamente agora a gente está trabalhando na revisão desse Plano, visão 2009. E nesse esforço, nessas frentes de trabalho, praticamente toda a companhia está envolvida. Então, quem coordena esse trabalho é um Comitê de Integração, que a gente chama. E nesse Comitê de Integração estão os gerentes executivos das principais áreas da companhia. Está o pessoal da estratégia, ligado à Presidência, está o ________, está o pessoal da engenharia de produção, da exploração. Então, todas as gerências executivas... o abastecimento, (Gás Energia?), todas as áreas têm assento nesse Comitê de Integração, com o objetivo de que o Plano Diretor reflita o impacto que o Pré-Sal vai trazer para todas as áreas da companhia, e que todas as áreas da companhia se preparem de forma integrada para o Pré-Sal.


P/1 – Está certo. E dentro também dessa integração de quase toda a companhia, queria também saber qual é o espaço dentro desse planejamento para a parte de desenvolvimento de pesquisa e dos estudos também.


R – Nós temos um Plano Funcional... a gente chama de Plano Funcional... Nós temos um Plano Funcional específico para tecnologia. A gente chama Plano Funcional de Desenvolvimento Tecnológico. Ele é coordenado pela gerente executiva da Engenharia de Produção do AIP, que é a engenheira Solange, e pelo engenheiro Tadeu, do (Cenpes?). Os dois coordenam essa área. E o desenvolvimento tecnológico, a gente desenvolveu em quatro principais frentes de conhecimento. Uma frente diz respeito a CO2?, que nós vamos ter uma produção de CO2? lá na área. A outra dimensão é conceito de unidade de produção e dutos. Porque são dutos que vão estar numa lâmina d’água muito profunda. A outra área é drenagem de reservatórios, que é qual o melhor método para eu explorar aquela jazida, como é o tipo de poço que tem que ser colocado lá. E a outra frente diz respeito ao aproveitamento e armazenamento de gás, que está sendo sub-coordenado pelo pessoal de (Gás Energia?), onde a gente está vendo métodos, tecnologias novas para aproveitamento de gás. O (Guest lict?) é uma estratégia, o gás natural liquefeito, a criogenização do gás é outra alternativa. Então, são diversas soluções tecnológicas que estão sendo buscadas nessas quatro subáreas. E essas soluções tecnológicas são disponibilizadas para aquelas frentes de trabalho: exploração, desenvolvimento da produção etc, que eu falei inicialmente, para essas tecnologias serem incorporadas nos projetos que vão ser emanados nas frentes de trabalho. 


P/2 – Mauro, a Petrobrás aprendeu a trabalhar bem com parceiros?


R – Estamos aprendendo. A gente tem uma brincadeira lá que fala o seguinte: acabou a vida de solteiro. Então quando a gente era 100% Petrobrás, ou seja, quando a gente era solteiro, tinha uma liberdade maior, de fazer o nosso ritmo, os nossos horários etc. Agora em parceria é como se fosse um casamento. Então a gente tem que pactuar ou negociar com cada... a Petrobrás é a operadora da parceria, mas nós temos que pactuar com todos os sócios a concepção do projeto, porque eles vão pagar uma parte da conta. E esse trabalho não é fácil não. Então cada cabeça é uma sentença, e até você afinar a concepção, aí você tecnicamente tem que ir mostrando para os parceiros que essa é a melhor solução, do que essa, do que aquela, e ir avançando. 


P/2 – Porque a Petrobrás puxa isso, né?


R – A Petrobrás é a operadora. Então ela é líder do consórcio.


P/2 – E essa questão cultural entre a Petrobrás e os parceiros...


R – A diferença cultural existe, mas eu acho que o principal mesmo é mais Petrobrás, é a forma da Petrobrás tocar o projeto. Porque a Petrobrás tem ainda uma cultura muito... nós temos muitos projetos exclusivos, 100% Petrobrás. Então, mesmo o geólogo que... a equipe de geólogos que está cuidando de 30 projetos aqui, do outro lado tem dois projetos em parceria aqui. Então aquela cultura do solteiro ainda acaba prevalecendo. Mas ela tem avançado muito, é uma coisa que nós temos que avançar muito. Tanto que no Plano Diretor, um dos planos funcionais que nós temos ali é exatamente um plano de gestão de parcerias operacionais. Exatamente para avançar nessa cultura. Porque a gente tem que compatibilizar ciclos de decisão de empresas diferentes. Esse que é um grande desafio. Mas a liderança do consórcio é da Petrobrás. 


P/1 – ... O convite foi feito por quem?


R – Eu fui convidado por... aí é tudo uma continuidade. Na verdade a história começa antes. Como eu lhe falei, na minha atividade anterior, era o ______, que era o desempenho, medir o desempenho. Utilizamos para medir o desempenho, o _______. O ________ tem quatro etapas. Primeiro, objetivos estratégicos. Depois, para cada objetivo estratégico, um indicador que meça o objetivo estratégico. Depois, para cada indicador, uma meta, ou seja, onde eu quero chegar em cada indicador, que mede um objetivo estratégico. E o quarto elemento é iniciativa estratégica, ou seja, quais são as grandes ações que você precisa fazer para atingir uma meta de um indicador estratégico. Então, na minha atividade anterior eu cuidava dessa atividade. Então nós tínhamos as iniciativas estratégicas do AIP. Então, uma iniciativas estratégicas do AIP, lá em 2006, 2007, foi exatamente a integração do Pré-Sal. Então houve a descoberta do Pré-Sal, houve a possibilidade do... foi revelado o potencial que o Pré-Sal traz para o Brasil. Então, uma das iniciativas estratégicas que foram definidas pelo diretor e pelo gerente executivo era exatamente um planejamento integrado do Pré-Sal. Que isso é uma iniciativa estratégica. Então eu trabalhava na concepção desse planejamento integrado, na minha atividade anterior, no desenvolvimento empresarial. Aí, quando houve a criação dessa área do polo Pré-Sal eu fui convidado para continuar esse trabalho, aprofundar esse trabalho do planejamento integrado no polo Pré-Sal. E nós (aceitamos o convite?), e aquela iniciativa estratégica se transformou no Plano Diretor do polo Pré-Sal. Que a gente chama aí, do Plansal. Ali a gente está vendo a perspectiva futura de produção, a perspectiva futura de entrega de gás, perspectiva futura de necessidade de sondas, de materiais para a indústria nacional, necessidade de admissão de pessoas, ou de movimentação de pessoas. Tudo o que diz respeito a um desenvolvimento harmônico do Pré-Sal a gente estaria tentando contemplar nesse Plano Diretor.


P/2 – Agora você falou uma coisa de desenvolvimento harmônico. Esse planejamento que você gerencia é um planejamento do ponto de vista técnico, ou ele também envolve a questão do impacto nas cidades, esse contato também com as autoridades públicas? 


R – Não. É mais voltado para o técnico. 


P/1 – Tem alguém que faz isso ou não?


R – Olha, esse é um papel que é mais ao nível do diretor ou do gerente executivo, com a interface com a indústria, com os investidores, etc.


P/1 – Mauro, quero perguntar também o que não pode faltar num planejamento desses, para o Pré-Sal?


R – O que não pode faltar? O que não pode faltar para o polo Pré-Sal eu acho que é aquela percepção que nós temos uma grande oportunidade, que essa oportunidade tem que ser... o planejamento tem que permitir que essa oportunidade seja aproveitada da melhor forma possível para a Petrobrás e para o país. Então ela não pode ser algo (forma?), rígido. Ela tem que reconhecer o potencial da oportunidade e a natureza dinâmica das coisas. A dinâmica, a gente vai ter muitas surpresas boas, muitas surpresas não tão boas, e o planejamento tem que ter essa capacidade de absorver essas novidades, e incorporando para o planejamento, mas sempre de forma a maximizar o ganho, tanto para a Petrobrás quanto para o país. Então, é essa percepção do risco, é entender qual o risco em cada estratégia, é entender que o risco é natural. Uma das chaves de qualquer empresa de petróleo é o risco. Mas ela tem que ser entendida e ela tem que ser mitigada. E o planejamento tem que perceber e dar visibilidade a isso. E ser dinâmico, ser um planejamento dinâmico, e continuamente se retroalimentando. Basicamente é isso que nós temos procurado fazer lá no planejamento do Pré-Sal. 


P/1 – Risco não é o mesmo que imprevisto. 


R – Não.


P/1 – É também calculado...?


R – É calculado...


P/1 – É calculado o risco, eu sei que vocês têm até uma questão financeira. Mas vocês também pensam... Como é que vocês encaixam num planejamento a possibilidade do imprevisto?


R – A mitigação do risco é exatamente isso. Até que ponto... eu tenho que primeiro mapear esses riscos. Eu tenho que ter muito claro quais são os riscos que a gente está correndo, ou que existem dentro da área, do polo Pré-Sal. E a cada um desses riscos eu tenho que entender a natureza desse risco e ver as ações de mitigação que nós estamos tendo, a cada uma delas. E aí seguir em frente. Agora não se paralisar frente ao risco. Você tem que ir entendendo o risco, mitigando, reduzindo o risco, avançando. Esse é que eu acho que é... não pode faltar, não só no planejamento. Na atividade do petróleo como um todo, é isso que não pode faltar. 


P/1 – Está certo. Queria saber também qual foi o maior desafio e também está sendo o maior desafio nesse trabalho para você.


R – O maior desafio tem sido exatamente fazer essa integração. Porque são praticamente todas as áreas da empresa que estão envolvidas nessa área. Fazê-los convergir, no ritmo de desenvolvimento do polo Pré-Sal, envolvê-los na solução, fazer com que as pessoas se sintam responsáveis, contribuindo para o desenvolvimento da solução. E tentar, além dessa integração, um outro grande desafio é tentar enxergar onde é que estão os riscos. Mas não com o risco de paralisar o desenvolvimento, é com o risco de mitigar o risco e aperfeiçoar o planejamento, certo? Que seja um planejamento em que a gente saiba onde a gente está pisando o pé. Onde é um passo de cada vez, o chão está aqui. Então esse que é o grande desafio. E fazer isso de forma integrada. Então, o grande desafio do planejamento é ser esse elemento de liga, esse articulador dessa integração.


P/1 – A parte de redução de custos fica também... cada uma dessas áreas fica um pouco responsável...


R – Ela faz parte dessa parte de riscos, que eu estou lhe falando. Então, por exemplo, a gente já tem uma noção do investimento que é necessário para o desenvolvimento da área do polo Pré-Sal e a gente sabe que um grande item de custo lá... eu vou dar um exemplo... um grande item de custo que nós temos lá é perfuração e (completação?) de poços. Exatamente pela natureza do projeto. _____ uma condição muito extrema. Lâmina d’água, profundidade, camada de sal, rocha dura, que são os carbonatos. Então ele tem uma condição de perfurar e completar ou construir o poço muito adversa. E isso se reflete nos investimentos previstos para o projeto. Então, a gente busca... identificado isso, a gente, dentro do Plano Diretor, a gente tem embutido ações que visem à busca da otimização desses custos. Então, especificamente nessa área de custos de construção de poços, a gente tem lá uma ação que é exatamente a aceleração da curva de aprendizado da área. Então, lá na área a gente vai ter que furar centenas de poços. Até hoje nós furamos dez. Hoje nós estamos com seis sondas operando na área. Daqui a uns dois, três anos a gente vai estar com 20, 30 sondas perfurando na área. A atividade vai se acelerar muito. E eu tenho que ter uma forma de acelerar o aprendizado, para que o custo do poço fique mais otimizado. Então, a exemplo do poço, em outras áreas a gente tem feito a mesma coisa. Então, a ação de redução de custos, ela está embutida dentro de cada plano funcional. 


P/1 – Está certo. Eu vou terminando... Eu queria saber o que você gosta de fazer no seu lazer. Porque deve ser um trabalho que dá uma pressão danada...!


R – Não, é divertido. 


P/1 – É? 


R – [risos]


P/2 – No mínimo ele gosta muito do que ele faz. 


R – Na Petrobrás é assim, né? Todo mundo gosta do que faz. 


P/1 – Nas suas horas de lazer o que você gosta de fazer?


R – Bom, nas minhas horas de lazer... Eu sou um tenista de final de semana. Então meu hobby é tênis, a gente joga no final de semana. Umas caminhadas lá na lagoa, e família. 


P/1 – O nome de seus filhos?


R – Eu tenho dois filhos. O Felipe, de 21 anos, e a (Tinai?), (Tinai Luíza?), ela está com 16 anos, agora está fazendo intercâmbio na Alemanha. Então nós estamos órfãos lá em casa.


P/1 – E o Felipe, já está fazendo faculdade?


R – O Felipe, ele está fazendo faculdade, começou a fazer a faculdade de Engenharia. Eu não influenciei nada. Mas está mudando, está querendo mudar para Geologia. Então vai prestar o vestibular novamente agora, para Geologia. Vai mudar de Engenharia para Geologia.  


P/1 – Você tem um futuro petroleiro...


R – Não sei, pode ser.


P/1 – Eu queria perguntar se você gostaria de deixar algo mais registrado, algo que a gente não conversou aqui.


R – Eu acho que é muito interessante essa oportunidade. Eu agradeço a vocês, agradeço à Petrobrás. Se puder contribuir para as próximas gerações, para os novos funcionários que estão entrando na Petrobrás aí. Eu acho que a principal mensagem de 25 anos de empresa é: não desistir, assumir risco e buscar soluções novas. Então eu acho que a Petrobrás, em todas as atividades, mas em todas as atividades mesmo, ela tem o seu espaço para inovação e criatividade. Para você inovar e buscar criatividade você não precisa ser uma pessoa diferente. É no seu dia a dia mesmo. E que o profissional busque isso. Que a Petrobrás precisa disso. O que eu aprendi ao longo desse tempo é que a Petrobrás é o que é hoje porque os seus funcionários arriscaram. E os seus funcionários sempre tiveram esse espírito de empreendorismo, de conquista. É isso que fez a Petrobrás. Então, o pessoal novo tem que entender isso. Em cada uma das atividades de cada funcionário, buscar contribuir para esse crescimento da empresa, através da inovação e através da criatividade. Isso em qualquer trabalho. 


P/1 – Certo. Você gostou de ter participado aqui do Projeto Memória?


R – Foi, foi interessante, foi muito bom. Obrigado. 


P/1 – Obrigada, Mauro, por você ter vindo colaborar com a gente.


P/2 – Obrigada, Mauro.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+