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História

Na Medicina e na Literatura fez seu ofício

História de: Nilson Luiz May
Autor: Érika
Publicado em: 08/06/2021

Sinopse

Nilson Luiz May. Infância em Caxias do Sul. Amor pela literatura. Faculdade de Medicina UFRGS. Serviu no CPOR (Centro Preparatório dos Oficiais da Aeronáutica). Sua expertise aparelho digestivo. Casado, pai de dois filhos. Unimed Rio Grande do Sul.

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História completa

Projeto UNIMED Brasil – 40 anos

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Nilson Luiz May

Entrevistado por Maurício e Lenir

São Paulo, 01 de março de 2007

Código: UMBR_HV010

Transcrito por Ana Lúcia Queiroz

Revisado por Vanessa Carla Santos

 

P/1 – Bom dia doutor May. R – Bom dia. P/1 – Bom, primeiramente, vamos começar com umas perguntas em relação a seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Nilson Luiz May - eme, a, ípsilon - tem essa característica desde o tempo da infância, da faculdade, quando eu digo o sobrenome eu digo, assim, se não o pessoal fica: “Mas como é? É Mayer, é Mai?”, “Não, May, eme, a, ípsilon”. Eu nasci em Santa Cruz do Sul, uma cidade da região de colonização alemã, no rio Grande do Sul, em 15 de maio de 1940. Ainda nascimento com parteira, em casa, na época. E depois da primeira infância, muito rápida, nessa cidade de Santa Cruz, meu pai era jogador de futebol, e foi na época do amadorismo, nesse período, e recebeu uma proposta para jogar em Caxias do Sul, que é uma cidade de colonização italiana, então eu tinha um ano de idade. E com isso, nasci numa região de colonização alemã, sou de origem alemã, de descendência, mas me criei, todos os hábitos, a gastronomia, as canções, os amigos, tudo numa cidade contrária, exatamente, porque Santa Cruz é um pólo alemão e Caxias um pólo italiano. E lá fiz a minha formação durante toda a minha infância, de um ano e meio em diante, estudei no mesmo colégio, de irmãos Lassalistas, desde o primeiro ano primário até o final do científico. Então, um primeiro momento da vida foi esse jogo de passar os costumes, os hábitos, certamente até um ano ‘tu não aprende’ quase nada nessa área assim de contato, foi toda em Caxias de Sul. P/1 – Seu pai foi jogador profissional, então? R – Sim, ele era jogador profissional no Santa Cruz Futebol Clube. Mas isso tem que se considerar um profissionalismo relativo porque nessa década, de final de 1930 até 1940 e poucos, o profissionalismo era considerado, ele era em troca de trabalho. Jogava e a empresa – foi o que aconteceu em Caxias – uma grande empresa na época, Adderley, de produtos inox, talheres, faqueiros e outros elementos assim, então ele foi jogar no Adderley. Eles fizeram uma seleção de todo o Estado, pegando os melhores jogadores, de cada região, convidavam, ofereciam emprego, em troca disso ao final da tarde eles iam treinar, davam uma chuteira, um calção, coisa dessa ordem, comparado com hoje. Mas pelo que eu soube, naquela [época], nos contatos mais tarde em Santa Cruz, ele era “center half”, número cinco, na época, era um meio de campo; teria sido um bom jogador de futebol se tivesse nascido alguns anos mais tarde, talvez, pudesse ter tido uma vida financeira mais adequada. P/1 – E a sua mãe? R – Minha mãe também é de Santa Cruz do Sul, não tem uma profissão definida, porque como era costume na época, a pessoa tinha afazeres do lar, que se chamou mais tarde, dona de casa, esse tipo de coisa. Então ela começou a trabalhar muito cedo na vida, com treze, catorze anos, e sempre um trabalho mais duro, para uma moça, e com isso ela fez uma formação de vida, de lida doméstica, de trabalho, que conseguiu me passar, no decorrer da minha formação posterior, provavelmente muita influência dela, uma pessoa com muita persistência, muita perseverança. Tanto que nós estamos em 2007 e ela está com 92 anos, mora sozinha em Porto Alegre, caminhando pela rua todos os dias, de ônibus, com salto alto, não consegue caminhar sem ser de salto alto, e visitando ainda os parentes que restaram, e com muita fibra, muita força. Faz exercícios de ginástica, todos os dias, para se manter magra. Ela foi muito importante na minha formação por essa característica. E sempre acompanhou o meu pai, ele morreu com 60 anos, muito cedo. A partir daí ela ficou sozinha, mas ainda é o túmulo do cemitério que tem o maior número de flores, porque ela visita todas as semanas, durante 32 anos, aquela ligação, amorosa, afetiva, que ficou do casal, e ela sempre nessa mesma linha. P/1 – O senhor tem irmãos? R – Tenho uma irmã, chamada Rosa Maria, tem cinco anos menos do que eu. Só somos dois. Ela é formada em Ciências Contábeis, nessa área de administração, trabalhou durante algum tempo em Porto Alegre, casou, e depois, por transferência do marido, mudou-se para São Paulo. Ela mora aqui em São Paulo já há 20 anos mais ou menos, os filhos todos são nascidos lá, mas criados aqui. Ontem ainda estive com ela, hoje nós estamos no dia primeiro de março de 2007, então estive com ela, no final de fevereiro, dia 28. Eles estão bem adequados à vida paulista, acho que não voltam mais. Os guris, dois filhos que ela tem, já estão formados. P/1 – E o nome dos seus pais? R – Meu pai chamava-se Armindo Rodolfo May, e a mãe chama-se Leolita Cecília May. O sobrenome dela é um sobrenome quase impossível de ser escrito, é porque é um sobrenome que se pronuncia “orcheid”, em alemão, e é escrito com h, o, c, h, depois tem s, ch de novo e, i, d, t: Hochscheidt. P/1 – E a origem da sua família é alemã? R – Toda ela. Meu bisavô nasceu na Alemanha e veio para o Brasil dentro da colonização alemã, para o Rio Grande do Sul, provavelmente nasceu em 1842 e provavelmente, deve ter vindo na leva de imigrantes aí por 1870. E foi ocasionalmente – não é por isso que eu fui trabalhar lá como citavam um pouco na cidade de Lajeado – o primeiro prefeito eleito dessa cidade de Lajeado. Quando eu fui trabalhar lá é que eu fiquei sabendo dessa história e consegui recuperar parte da história dele. P/1 – Que lugar da Alemanha ele nasceu? R – Ele nasceu num local que na época chamava-se Principado de Birkenfeld e hoje estaria localizado aproximadamente no Sul da Alemanha. No mapa a gente consegue ver em que região se transformou esse local. P/1 – O senhor poderia me falar como que era a casa na época da sua infância, onde o senhor morava? R – O que eu mais recordo, a influência que eu tive na infância, muito grande, desde o primeiro ano primário, foi dos irmãos Lassalistas, porque eu estudei sempre num colégio, chamado Nossa Senhora do Carmo, que existe até hoje em Caxias do Sul, de irmãos Lassalistas. E lá, desde o primeiro ano primário, eu tive uma influência muito grande porque eu vivia muito no colégio: estudava de manhã e à tarde, praticava esporte, depois entrava naquelas associações, congregação Mariana, ação católica, essas coisas que os irmãos têm para congregar os jovens. E de lá eu tenho essa lembrança muito forte. Desse colégio, em primeiro plano. Eu morava numa região chamada São Pelegrino, essa área em Caxias do Sul é muito interessante porque lá foi construída uma igreja, e nessa igreja as pinturas de um pintor que ainda não tem o reconhecimento nacional, mas lá ele já aparece bastante, chamado Aldo Locatelli. Esse pintor não perde nada, desculpe o exagero, para os pintores do Renascimento, digamos. As pinturas que tem nessa igreja de São Pelegrino são de uma beleza, de uma estrutura, do teto da igreja, fantástica! O Aldo Locatelli ainda terá que ser reconhecido. E eu acompanhei o Aldo Locatelli como criança, vendo ele pintar, como ele pintava, nos andaimes, deitado e com o pincel para cima, e a tinta caindo. Tinha uns sete, oito anos, morava ali em volta, a igreja estava sendo construída e o Aldo Locatelli pintando, e o padre Eugenio Giordani, que foi o grande mentor de toda a construção dessa igreja, que trouxe o pintor para lá, atrás dele. Porque ele pintava três, quatro dias sem parar e depois desaparecia. Aí o padre saia atrás dele, nas boates, que existiam na época, puxar o Aldo Locatelli de volta. Dava banho, arrumava, botava na casa dele. Depois começava a pintar de novo. E esta casa que eu morava, na Avenida Brasil, ficava a 50 metros da igreja. Hoje não existe mais. Então era uma casa que – eu tenho uma noção além do colégio, a casa, foi muito oportuna essa pergunta – está na minha memória. Um dia eu sentei a noite e fiz um desenho da casa, aonde era o quarto, a cozinha, uma escada que subia. A estrutura da casa como a morada, a casa tem uma função importante, as primeiras, na vida. Isso está retratado hoje no cinema, na literatura, essa questão da casa. Mas então eu, na Avenida Brasil, número 140, em Caxias do Sul. Ficou lá um pedaço dessa rememoração da minha infância, junto com o colégio. P/1 – E como era o dia a dia na sua casa? R – O dia a dia na minha casa era uma rotina própria da época. Eu e a minha irmã levantando pela manhã, cedo, para ir ao colégio, que começaria umas sete e meia, oito horas, a pé, porque o colégio ficava no alto, no centro da cidade, tinha assim um quilômetro e meio para seguir; e a mãe com a lida da casa, limpeza, roupa, comida, lavagem, cozinha, essas coisas; e o pai indo para o trabalho. Ele deixou de jogar porque teve problemas renais, de cálculo renal, fez cirurgias e acabou deixando de jogar, e ele entrou no comércio. Teve uma fábrica de balas junto com um outro sócio, coisas assim desse tipo; depois teve um bar, depois trabalhou na prefeitura em Caxias do Sul. Nós então tínhamos essa vida, para mim, muito agradável, a minha lembrança da infância é muito boa, com os amigos, com os brinquedos, com tudo muito alegre, muito aberto. O ambiente de casa muito bom, o relacionamento com os vizinhos, com os amigos. E, esse trabalho do pai, vinha, almoçava em casa meio dia, porque era perto, saia de tarde para trabalhar e voltava à noite para casa e se ouvia rádio, ou sentava na calçada contando histórias, coisa assim. Mas com 12 anos de idade, uma coisa importante, mais ou menos por aí, eu descobri – porque não tinha assim na realidade, pela simplicidade da mãe, com pouco estudo, o quê substituia pelo afeto, pelo carinho, e com o pai trabalhando numa área assim, uma pessoa de uma bondade extrema, exagerada, uma pessoa de um coração extremamente bondoso, ele, e ela um pouco mais rígida, então fazia essa compensação – mas aos 12 anos eu descobri a literatura, os livros. Analisando hoje, conversando com amigos, me parece que aquilo foi uma coisa espontânea. Talvez o colégio, porque eu não tinha em casa isso. E a partir daí eu comecei a fazer um ofício paralelo. Porque com sete anos me disseram que eu ia ser médico, que precisava ter um médico na família. Por sorte, deu certo, às vezes não dá. Então com sete anos eu já era médico, dali para adiante foi só estudar. No primário, ginásio, científico, fazer vestibular, eu era muito estudioso, e segui adiante fazer medicina, nunca pensei em outra coisa, nunca me passou outra coisa pela cabeça. Essa dificuldade que se tem nos anos mais próximos, eu não tive. Por sorte, repito, deu certo, poderia não ter dado. Mas ao lado da medicina o ofício paralelo da literatura me acompanhou a partir daí, e eu nunca mais deixei. Comecei uma biblioteca com três livros, cinco, com dez. Hoje na minha biblioteca particular tem em torno de três mil volumes de literatura, não da área técnica. Depois comecei a trabalhar nessa área, e depois de ler muito eu achei que gostaria de estudar literatura. E comecei a estudar, e comecei a escrever mais tarde crítica literária, a analisar obras, tenho diversos trabalhos publicados. Depois comecei a escrever ficção, fiz faculdade de Letras também, para dar um aspecto mais formal, mais teórico ao estudo da língua portuguesa e a literatura em si. Depois para não interromper a gente pode falar um pouco sobre isso. Que não é um hobby. Uma coisa que me irrita é: “ah, e o teu hobby aí, de poesia?”. Não, o único gênero que eu não sei é poesia e não é um hobby. É um ofício, de trabalho, eu trabalho nisso há muitos anos já, tem produção, tem ganho também em cima desse outro trabalho. Mas começou lá na casa e por essas influências. P/1 – E em cima disso me fala um pouco mais dos seus estudos, o primário e o colégio? R – É, eu tenho muita história. Às vezes eu penso, analisando sobre esse ponto de vista, tem muita história. Eu acho que eu me meti no decorrer da vida em muitas coisas ao mesmo tempo e isso possibilita – eu procuro sempre encontrar uma motivação explicativa disso que não seja mística – porque pelo raciocínio, pela área científica, mas certamente não vai dar tempo de contar todas essas histórias, e elas são quase, muito dramáticas, muito trágicas, no decorrer de toda uma vida. Mas não vamos para esse lado. Eu tive uma felicidade ocasional talvez, de ter um reconhecimento dos irmãos Lassalistas, porque na época a gente tinha primário e ginásio, então são nove anos, que eu fiz em oito porque me pularam um ano, disseram “não, passa do primeiro para o terceiro, não precisa ficar no segundo”. Então eu fiz em oito anos. Portanto eu estava com 14 anos de idade terminando o ginásio, e aí passaria para o científico, que são três anos, e depois o vestibular. E nas férias desses 14 anos – eu faço aniversário em maio, então eu tinha 14 em 1954, ia fazer 15 em 1955 – os irmãos me chamaram e disseram o seguinte: “Nós temos te observado, tua participação, liderança, e queríamos te convidar se ‘tu quisesse’ ser professor no curso noturno”. Imagine, 14 anos, com 40 quilos por aí! Aí eu digo: “Mas o que eu tenho que fazer?”. “Tem que dar aulas todas as noites, das sete e meia às dez e meia, para pessoas que deixaram de estudar e querem fazer uma admissão ao ginásio”. São homens – era um colégio só masculino na época, infelizmente – que tinham deixado de estudar no segundo, terceiro ano e iam fazer uma admissão ao ginásio. 30, 35, 40 anos, pessoas dessa idade. “E que matérias eu tenho que lecionar?”. “Português, matemática, história e geografia”, eram as quatro matérias básicas. “Tá bem, eu aceito”. Eu passei as férias, me deram os livros que eu tinha que me basear para ensinar para eles, e no mesmo mês de março de 1955 eu comecei como professor dessa turma. Vinte e poucos alunos, abriram a porta, me botaram lá para dentro, e os livros, e só isso. A partir daí eu tinha que ver o que é que eu ia fazer, como eu tinha que ensinar. Eu procurava livros de métodos, de alguma coisa, não sabia como tratar. Eu tinha que explicar, tinha que falar, tinha que dar aquelas aulas. E os costumes eram muito mais rígidos naquele período. Então eu fui professor todas as noites, durante três anos: com 14, 15 e 16, até antes de formar aos 17, que aí eu fiz o vestibular e fui para Porto Alegre. Então nesses três anos eu acredito que essa formação, ‘autodidata’ – solta na aula e te vira – tenha sido talvez o ponto mais importante de toda a minha vida, nesse aspecto de expressão, de conhecimento, de amor pela cultura, pela literatura também. Levar adiante, ter que buscar, de pesquisar, de me aproximar cada vez mais dos livros, da comunicação com as pessoas. Hoje, seguidamente, meus companheiros e diretores falam: “Ah, como é que essa assembléia dessa forma, porque ajeita, sabe o quê o pessoal vai perguntar, e como é que é?”. É uma coisa que deve ter vindo lá dos 14 anos, não? Te soltam com 20 pessoas numa sala e imagina, depois toda uma vida, um preparo ainda melhor nesse sentido, é absolutamente indispensável que ‘tu aprenda’ alguma coisa e saiba como lidar com pessoas, com esse relacionamento humano. Eu acho que isso foi a coisa mais importante na minha formação. P/1 – E aí o senhor resolveu entrar na medicina? R – Depois então, tinha que fazer o vestibular para medicina, e tinha que fazer para a UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul], porque não era pago, e eu sempre tive, nós na família, boas, grandes dificuldades financeiras. Era pelo que a mãe fazia doces de coco e pé de moleque, hoje ela não faz mais, mas naquela época, e eu levava numa bandeja com um pano de prato por cima, quando ia para o colégio levava aqueles doces, passava no bar, deixava lá a bandeja e os doces, na volta do colégio pegava a bandeja vazia e o dinheiro do pagamento, e ia para casa. Então essa é uma coisa que, diante dos colegas do pessoal, eu sempre era natural, nunca me trouxe nenhum problema isso. Hoje eu vejo como uma coisa interessante, porque era aquela luta: para comprar um livro eu tinha que calcular quando é que era o momento que eu poderia ganhar aquele livro, colégio tudo, com dificuldade. Mas a casa era mantida de uma forma humilde, simples, mas nunca tive maiores dificuldades, a não ser essas, de certa restrição financeira. Mas fora isso foi muito bom que tenha sido assim, porque também nos indica, nos limita, nos dá uma real consistência, conhecimento do que é a vida. E esse trabalho – eu recebia como professor - 675 alguma coisa, não sei o que era, se eram cruzeiros, cruzados, reais, réis, não sei o que era. E esses três anos me serviram para a aposentadoria, eu fui buscar mais tarde lá no colégio, o registro. Custaram a encontrar, mas encontraram; e foram três anos que acabaram contando tempo, além de tudo, para uma aposentadoria fictícia, porque aposentadoria não existe para mim ou para muitos de nós. Tem de se continuar trabalhando, mesmo que mude de trabalho, mas continuar trabalhando, é só essa aposentadoria previdenciária. P/1 – E como é que foi o seu período de faculdade? R – Faculdade, eu entrei na faculdade em 1958. O meu primeiro ano da faculdade. Eu passei no vestibular logo na primeira vez, na primeira turma, e entrei em março de 1958, nessa faculdade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: 100 vagas acho, que nós tínhamos naquele período do vestibular. Me mudei para Porto Alegre, foi quando eu saí de Caxias. Mas a família, por essa unidade, esse afeto, foi junto comigo. Eu nunca morei em pensão, ou coisa desse tipo, como os outros colegas moravam, que vinham do interior. Porque o meu pai nesse período trabalhava numa ligação com a Prefeitura Municipal e o prefeito, por acaso, de Caxias, foi escolhido Secretário de Obras Públicas em Porto Alegre, no Estado. Então o pai conseguiu ir junto, trabalhar com o ex-prefeito, na época Secretário, e eles se mudaram para Porto Alegre e nós morávamos num bairro distante, numa casinha que eles alugaram. Também esse período até o entrosamento com Porto Alegre, aquilo provocou – porque sempre uma cidade do interior te deixa um pouco mais limitado em relação a malandragem da grande cidade, aquele negócio todo. Mas eu era observador e já comecei a ver as coisas, os colegas, como é que era, e depois de um ano eu já estava um bom rapaz, capaz de sobreviver com resguardos na grande cidade, como era na época Porto Alegre. E eu jogava futebol, desde o tempo de Caxias, e também isso possibilitou muito na faculdade começar a fazer aquela mesma integração de contatos que eu fazia lá, pela liderança que eu tinha conseguido, que os irmãos me passaram, por ter sido professor nesse período muito jovem, então ‘tu já começa’ a ver os grupos daqui e de lá, tu vai pegando ali e dizendo “Ah, quem sabe a gente faz isso, a gente faz aquilo”, e tu vai assumindo esse lado. Formamos os times de futebol da faculdade, se disputava campeonato, além do estudo naturalmente. Depois eu fui servir no CPOR (Centro Preparatório dos Oficiais da Aeronáutica), no segundo para o terceiro ano da faculdade, lá foi outro período – nessa etapa da vida – que eu comparo com aquele de Caxias de importância para mim. Se me dissessem assim: qual é, nesses túneis do tempo, voltando ao passado, onde é que queres voltar? Eu diria: eu quero voltar para o CPOR [Centro Preparatório dos Oficiais da Aeronáutica]. Naquele ano foi talvez a transição da infância, da juventude, para a idade adulta. Porque o que se formou dentro daquele miolo da turma do CPOR, que nós tínhamos a oportunidade de ver, de fazer, de crescer, de nos relacionarmos. Eu já me lembro que aconteceu uma coisa muito parecida com o que vem acontecendo muito na minha história política associativa. Nós tínhamos que escolher o presidente do grêmio do CPOR, e o grêmio era uma coisa importante porque para a diretoria do grêmio os oficiais davam convite para reunião dançante, para o aniversário da filhas dos oficiais, tinha certos favorecimentos. Eu só conhecia uns quatro ou cinco, combinamos toda uma estratégia e chegou um determinado dia veio o comandante e disse: “Olha, nós precisamos escolher o presidente do grêmio do CPOR, a candidatura é livre!” Um levantou e disse: “Eu sou candidato”, o outro levantou e disse: “Eu sou candidato”, e um outro, fazendo de conta que não me conhecia, mas era meu amigo, disse: “Pois é, eu vejo aí, eu não sei bem, eu estou vendo aquele rapaz ali, já está no terceiro ano da faculdade, quem sabe podia eu apresentá-lo como candidato”. Eu disse: “É, não sei”. Aí conseguimos tomar o grêmio do CPOR. E logo depois eu tinha que escolher a minha diretoria, eu levantei e disse: “O primeiro que eu escolho é aquele ali!”. “Mas como? Vocês não se conheciam”. Foi muito bom isso, muito interessante e depois do CPOR, continuou a faculdade. Na época tinha muita oportunidade de trabalho para estudantes. Eu fiz concurso para o SANDU, serviço de urgência, eles aceitavam estudantes; fiz concurso para o Pronto Socorro Municipal em Caxias, passei nos dois. Durante o quarto, o quinto e o sexto ano, eu fazia três plantões de 24 horas por semana: um no SANDU, um no Pronto Socorro, outro na Santa Casa; ajudava cirurgia de um médico que me convidou, todos os dias de manhã; fazia uma vez por semana os partos e outras coisas de obstetrícia na Santa Casa e tinha que estudar na faculdade. Isso, quando estava no final do sexto ano, não tinha mais nada para fazer de medicina geral, de residência, de coisa nenhuma. Eu podia ir lá para o interior, que a gente sabia fazer tudo. Então era uma formação, para quem se interessasse, uma formação muito forte na época. Tanto que eu saí da faculdade, no final de 1963, já casado, porque para ir para o interior eu não podia ir médico solteiro, o pessoal achava que era meio estranho isso. E fui para esse local, chamado Vila Progresso, que é no alto de uma montanha, no interior do Município de Lajeado, e lá eu trabalhei durante um ano. Depois em um outro local mais próximo durante dois anos, onde – nós estamos na década de 1960, não é no século XIX – mas lá a luz apagava às dez horas da noite, tinha que se fazer cirurgia com lampião, não tinha nenhum outro recurso médico em volta, nos próximos 100 quilômetros; sozinho, sem ninguém para consultar, sem laboratório, e ali foi outro aprendizado muito grande, mesmo, como aquele lá dos 14 anos, dos alunos. Só que com outra responsabilidade. Fazia tudo: traumatologia, crânio, tórax, barriga, parto, obstetrícia, ginecologia. Depois desses três anos de experiência cruel no interior eu fui para a cidade de Lajeado, me convidaram para trabalhar lá, e eu fiquei mais 27, 28 anos fazendo o que depois se tornou a minha especialidade, que eu fui fazer a especialização e cursos, que é a cirurgia do aparelho digestivo. Mas tem um fato interessante. Muita coisa eu não estou contando porque não dá, porque é muito longo, o que acontecia. Nesses três anos só isso teria cinco horas de gravação. Só vou contar um fato, que eu falei a pouco dessa questão: se perguntar para um médico, que não seja médico legista, se ele viu algum enforcamento, uma pessoa enforcada por suicídio, provavelmente – já fiz esse teste – de cada dez, e olhe lá, vai encontrar um que diz: “Eu vi um, determinado dia”. Eu atendi 12 casos de enforcamento nesses três anos de interior! Então, era uma região onde havia – por motivos mais variados, até hoje eles estudam isso lá – essa tendência do suicídio por enforcamento. Numa ocasião teve dois no mesmo dia, por exemplo. Aquilo vai também fazendo o teu reconhecimento interno da fragilidade da vida, das questões que levam a pessoa a esse tipo de situação, e faz pensar. E tudo isso está relacionado com a literatura. Porque ‘tu não leva’ isso diretamente. Eu nunca vou escrever, e não escrevi até hoje, coisas como – é muito comum até hoje, desculpe a crítica – histórias médicas: “É, porque um dia eu estava no consultório eu vi aquilo, ou eu fiz isso”. Pode ser interessante, mas eu uso essa experiência mesmo que dramática, ou outras assim, internamente. Aquilo é feito de tal maneira, posto assim na literatura, mas sem que seja diretamente, objetivamente contado como uma história médica. Ela tem que aparecer nos personagens, na ficção, na forma de expressão, no diálogo, no texto; de maneira que a tua vivência, ela apareça lá, mas não diretamente, contando a história como nós estamos contando aqui. P/1 – Então, só para esclarecer, o senhor se especializou em aparelho digestivo. R – Clínica e cirurgia do aparelho digestivo, na época era uma coisa mais ampla. P/1 – A mesma coisa que o gastroenterologista? R – É, gastroenterologista. Só que eu fazia mais a parte cirúrgica, hoje o gastroenterologista é especificamente clínico. Mas na área do aparelho digestivo: da boca ao ânus, como eu dizia, então tinha esôfago, pâncreas, reto, colo. Hoje esta especialidade está subdividida em cinco, seis; ninguém faz tudo isso, como nós éramos obrigados a fazer naquele período, porque não existia uma especialização assim, muito definida. P/1 – Depois disso qual foi a sua trajetória médica? R – Bom, depois eu fui para Lajeado, em 1967. Passados três anos de interior, comecei a trabalhar lá, saia para fazer esses cursos de especialização, a cidade começou a crescer, vieram mais médicos, começaram a aparecer as especialidades: tinha anestesia, otorrino, oftalmo, pneumologia, cardiologia; e assim aos poucos o pessoal foi chegando na cidade. E eu fui definindo a minha área em aparelho digestivo. E eu fiquei trabalhando até 1995, portanto mais ou menos uns 28 anos; e nessa trajetória desses 28 anos em Lajeado eu fui tudo lá, todas as coisas que vocês possam imaginar! Porque já vinha com aquela pré-disposição, a sociedade de medicina não funcionava direito, tinham médicos muito antigos, velhos. Fui lá e me meti, peguei os livros, comecei a escrever, fazer atas, cobrar as mensalidades que ninguém pagava. E depois me elegeram presidente da Sociedade de Medicina do Alto Taquari, era uma sociedade importante, no Estado. E ali, pela Sociedade de Medicina, eu fui juntando pessoas que foram chegando, além da área médica, fui vereador, presidente do corpo clínico, um monte de coisas da comunidade e da área médica. E depois então, em 1971, nós ouvimos falar, no começo do ano, de que aqui em Santos, em 1967, teria sido criada alguma coisa que era relacionada com uma cooperativa médica. Como o Rio Grande do Sul tem um desenvolvimento cooperativista da doutrina muito forte, cooperativas agrícolas, de soja, trigo, milho, esse tipo de coisa soava estranho ao meio ambiente, a cooperativa de médicos. Porque, clínica particular, na época, dizia: como é que vão fazer? Como se pode praticar a doutrina cooperativista na medicina? Mas em todo caso, a gente já estava ali, já tinha a Sociedade de Medicina que estava funcionando bem, tinha que inventar outra coisa no meio. Pedimos para uma pessoa ligada a nós, que era um secretário, um médico, e mais um técnico em cooperativismo, muito experiente na região, que viessem visitar aqui em Santos, e conversar com o pessoal, o doutor Castilho e outros, e ver o que era essa história. Eles vieram, ficaram uns dias, voltaram e disseram: “Lá estão fazendo assim, assim”. Nós falamos: “É, realmente, pode ser uma coisa interessante, mas vamos adaptar aquilo que eles estão fazendo lá, que é outra região, à nossa região”. Aqui a situação cultural é diferente, geográfica, econômico-financeira. Então vamos adaptar isso aqui e vamos ver se consegue se formar então essa tal de cooperativa médica, que aqui era Unimed, mas cada um dava o nome que queria, na época. E formamos então, juntamos um grupo, estudamos, com o auxílio de outras pessoas, como se fazia um estatuto, o que realmente podia-se formar em termos de atendimento médico, consultório, carteirinhas. E criamos a cooperativa médica que se chamava Altomed, que era uma Unimed do Alto Taquari. A unificação do nome, Unimed, só vem acontecer bem mais tarde, onde houve um movimento geral, capitaneado pela Unimed do Brasil, no sentido que todos se chamassem Unimed. Mas no começo não era assim, tinha os nomes mais variados, o nosso era Altomed. E ela foi registrada em dezembro de 1971, e o primeiro presidente desta Unimed foi o doutor Günter Gauby Fleischhut, região alemã, depois acabou sendo também o primeiro presidente da federação, daquela região. Aí nós começamos a praticar o cooperativismo e, no caso eu só fui ser presidente mais tarde, o doutor Günter era mais antigo na cidade, tinha que dar um formato de seriedade, de confiabilidade, de credibilidade, então nós o elegemos como o presidente, um outro colega chamado Wilson José Dewes, muito importante na história do cooperativismo naquela região, vice-presidente e eu e outros colegas ficamos no conselho de administração. Nós fizemos lá, eu fui responsável, então já por esse outro ofício, pelo jornal da cooperativa, que foi o primeiro jornal de cooperativa médica do Brasil. Isso está registrado, tem lá, vou mandar para vocês depois dentro do material. Então esse lado, a gente tem algumas pequenas primazias, ali naquela Unimed. Mais tarde entrou toda a região do vale do Rio Pardo, com sede em Santa Cruz, que acabei voltando, até pelo relacionamento, para a minha cidade natal; voltando em termos porque sempre trabalhei em Lajeado, mas essa região entrou na nossa Unimed, eles não quiseram fundar uma própria, e passou a se chamar, depois do nome unificado, Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo. São dois vales, isso hoje, na época foi crescendo pela emancipação de diversos distritos, é uma Unimed muito grande, ela tem 55 municípios mais ou menos, é uma das mais importantes do nosso Estado. E assim foi, depois eu fui eleito vice-presidente, numa gestão posterior, e depois fui eleito presidente, em 1981. Então, dez anos depois da criação da Unimed. Eu fiquei presidente lá durante dois períodos, o primeiro período de quatro anos e no segundo de três, nós mudamos o estatuto. Eu fui presidente desta Unimed de 1981 até 1988, sete anos. É uma Unimed que tem uma característica educativa muito grande, tanto que a liderança vai sendo formada na própria diretoria. E até hoje, ela fez 35 anos agora, nunca teve eleições. Tem 55 municípios e graças a esse espírito que se fez de profissionalismo, toda aquela região compreende, apóia, não por falta de lideranças, porque tem muitas lá, que a formação se faça dentro da diretoria. Então mescla representantes de Santa Cruz, de Lajeado, de outras regiões e acaba formando um núcleo que aquilo vai passando. Por isso que ela tem um desenvolvimento, vocês podem ver por aí, toda hora recebendo prêmios, melhor lugar para as mulheres trabalhar, melhor do Brasil, das Unimeds, tem vários prêmios. É porque há esse espírito realmente congregacionista e cooperativista de compreensão, que hoje o lado empresarial exige esse conhecimento. P/1 – Depois de 1988? R – Bom, em 1985 o movimento do Estado, vendo que essa Unimed em lajeado tinha um bom desempenho, e eu já circulava nos meios estaduais, eu já participava das reuniões com outras Unimeds; em 1981 tinha sido candidato à presidente da Associação Médica do Rio Grande do Sul, que na época foi uma eleição muito disputada porque era a primeira vez que um médico do interior se apresentava como candidato, senão sempre de Porto Alegre. E felizmente perdemos a eleição, senão teria mudado todo o rumo da vida. Então, eu já estava aparecendo nesse cenário político estadual, político associativo, já estava escrevendo artigos, publicados no jornal da Associação Médica Brasileira e outras coisas, o pessoal já me conhecia um pouco. Chegou em 1984, por aí, nós achamos que a Federação da Unimed do Rio Grande do Sul poderia ter um melhor desenvolvimento, a administração era muito restrita, não tinha muito entusiasmo. O grupo lá de Lajeado e outros companheiros me indicaram como candidato à Federação, junto com a equipe de outros participantes. Aquilo foi considerado na época uma ofensa à diretoria, infelizmente, por que: “Mas como, querem vir lá de Lajeado e querem administrar a Federação, isso é uma turma de comunistas que tem aí, porque há exemplos anteriores, já participaram de sindicato, um assinou um manifesto pró Cuba, o outro não sei o quê”, umas bobagens assim, do grupo que estava comigo. Mas então tentaram dessa forma, mas mesmo assim nós mantivemos essa candidatura e tinham 18 Unimeds no Estado. Dezoito Unimeds, número par. Chegou o dia da eleição, março de 1985, eu era presidente da Vale do Taquari, em Lajeado. Fomos para a eleição, toda a campanha feita, muito restrita ali e o resultado foi nove a nove, estava bem dividida a turma. O candidato do outro lado era o doutor João Eduardo Irion, que é outra pessoa que provavelmente vocês vão ouvir. O Irion é um doutrinador, é uma pessoa, que deve muito o cooperativismo a ele, depois ele veio aqui para a seguradora. Ele então é uma pessoa que já tinha mais idade do que eu na época, muito responsável, mas éramos candidatos um contra o outro. Não se sabia o que fazer, o estatuto não previa, e a assessoria jurídica deu dois meses para transferirem aquela eleição e fazer outra em maio, sessenta dias depois. Conseguiram encontrar lá uma fórmula, aí teria sessenta dias para restabelecer as suas candidaturas. Mas ninguém mudou nesses sessenta dias, só que o doutor Irion já tinha criado uma outra Unimed, que era em São Borja, mas faltava o registro. E nesses sessenta dias eles conseguiram fazer o registro, então tinha dezenove Unimeds, e aquela criada por ele, pelo trabalho que ele fazia, elogiável em todo o Estado, eles criaram a Unimed São Borja. Mas nesse tempo uma outra Unimed, de Pelotas, trocou a diretoria, e era a Unimed que estava do lado deles. Antes de trocar a diretoria, eram duas chapas, nós apostamos em uma chapa, fomos lá e apostamos neles, e ganhou aquela chapa. Então eles perderam um, nós ficamos com os nossos nove, passou para dez, e eles adquiriram outro, ficaram com nove. A eleição foi dez a nove, aquilo estava marcado, ninguém mudava. Eu tive que recompor esse grupo durante esses anos, ainda como presidente de Lajeado, vinha toda a semana a Porto Alegre, trabalhava na Federação, que era pequena, tinha só duas salas. E passado um tempo o doutor Castilho me procurou, e eles viram que não íamos entregar a cooperativa ao Estado, não íamos estatizar a cooperativa como diziam, por sermos comunistas, que tomavam conta, o que era uma bobagem. E se deu um formado progressivo à Federação e o doutor Castilho uma ocasião veio me procurar, se nós lá da Federação aceitávamos a indicação do doutor Irion para presidente da seguradora, que é uma pessoa que já tinha muitos trabalhos escritos sobre isso, uma capacidade grande. E eu disse: “É evidente, nós temos toda a ligação profissional, afetiva, Irion se reintegrou logo ao grupo de novo”. Depois, a partir daí ele veio para São Paulo e passamos a um relacionamento cordial, para sempre, até hoje, seguidamente a gente se encontra e eu gosto muito do Irion. Ele tem um grande trabalho prestado. E a partir daí, como dizem os meus opositores lá, agora nós tivemos uma eleição muito – que nós vamos talvez daqui a pouco falar sobre ela – o doutor May nunca mais saiu. Então de 1985 até 2006, são 21 anos. Mas a cada três anos tem eleições, a cada três anos eu consulto os nossos presidentes, as Unimeds aumentaram, nós chegamos a 31 Unimeds agora nos últimos tempos. Eu deixei de fazer medicina, tenho dedicação integral, trabalho oito, dez horas por dia na Federação. A Federação têm bons resultados, está administrada razoavelmente, há sempre rateios no final do período. Crescemos muito, temos um prédio de cinco andares, diretorias, 80 funcionários, prestamos serviços, temos contratos federativos, cursos, prestamos muitos serviços às Singulares, e o pessoal não quis trocar. Aquela coisa, não tem nenhuma imposição, é mais ou menos natural, tivemos nesse decurso umas três ou quatro vezes eleições, embates eleitorais, no sentido adequado que se pode ter, e nós, o grupo, tem sempre ganho as eleições. Vamos ver o que acontece agora nesse próximo período até 2009, o que pode acontecer? P/2 – Doutor May, eu queria voltar um pouquinho, lá para o começo, quando vocês fundaram a singular de vocês e depois ajudaram a implantar outras, como foi essa fase? R – Na realidade existe uma boa polêmica, que a gente usa em cada discurso, em cada manifestação, se usa dizer assim: Qual foi a primeira Unimed do Rio Grande do Sul? Então, os presidentes das três primeiras, são todos reunidos lá na Federação, participam até da minha diretoria, fica sempre aquela brincadeira, de quem foi a primeira. Mas na realidade, se for considerar historicamente, a bem da verdade, eu não posso puxar para Lajeado. A coisa foi assim: três regiões se mostraram interessadas em criar Unimeds no Estado, ao mesmo tempo, no ano de 1961. Talvez uma tenha começado em maio ou abril, outra em julho. Eu não sei, isso não importa. Importa é que essa intenção nasceu de três regiões: Vale do Taquari, com sede em Lajeado, Ijuí, que é uma outra região na zona oeste do Estado e Erexim, que é uma outra região, bem na fronteira quase com Santa Catarina. Então essas três regiões se movimentaram, pelas suas lideranças, pelos seus médicos, em criar a Unimed. Mas tem uma coisa muito interessante que deve surgir aí nos mais antigos, que como não se sabia e não existia um órgão específico para registro de cooperativas chamadas cooperativas de saúde, ou cooperativas não agrícolas, cooperativas urbanas. Então o registro era feito no Incra, só para recordar, quem não sabe, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Então, você imagina a Unimed fazendo a inscrição no Instituto de Reforma Agrária. E assim era. Essa inscrição levava algum tempo, se considerar isso, a primeira Unimed no Rio Grande do Sul, que foi inscrita em outubro de 1961, foi de Erexim, eles têm uma camiseta e um coração: “primeira no coração dos gaúchos”. Doutor Zaffer, meu vice-presidente, foi um dos fundadores de Erexim; a segunda a ser registrada foi Ijuí, em novembro, e a terceira foi Lajeado, em dezembro. Essas são as três primeiras, depois de criadas cada uma na sua região houve uma busca evidentemente, uma curiosidade de médicos de outras regiões em saber o que criaram lá em Lajeado. Alguns se socorriam de uma, outros socorriam de outra, mas nós, na nossa região, ajudamos a criar umas três ou quatro Unimeds. Porque a gente ia lá, fazia palestras, conversava com as lideranças, muito ligado às sociedades de medicina na época, que congregavam médicos. “Mas como é que é isso? Qual é a vantagem? Como é que se faz?” Nós os ajudamos a desenvolverem os seus projetos. Eu citaria a região de Novo Hamburgo, a região do Vale do Caí, a região de Passo Fundo, do Alto Jacuí, que chama ali, Vale das Antas. Esses locais todos também foram criando Unimeds no decorrer do tempo, em função desse trabalho que se desenvolvia. Daquelas três primeiras, depois veio Porto Alegre, que é a capital, depois em 1972 foram criadas mais uma meia dúzia, ou coisa assim. Até um determinado ano, período quando eu já era presidente da Federação, nós criamos ainda mais algumas, em regiões mais difíceis do espírito cooperativo, ou que os médicos tinham alguma dificuldade, mais na fronteira. Até chegarmos ao número, na Federação, de 31. Depois algumas foram incorporadas porque eram muito pequenas. Passou para 30, e depois todo esse desenvolvimento, até a Agência Nacional de Saúde, exigências e tal, aí já estamos na época atual. Mas foi assim a influência que se teve. P/1 – E havia uma receptividade muito boa dos médicos? R – Havia uma receptividade boa, mas com desconfiança. Eu me lembro, há lugares que nós fomos cinco anos, seis anos, mostrando, mas não dava muito resultado. Porque o pessoal ficava assim: “É, mas é a minha clínica particular, e como é que vai ser; hoje eu recebo, mas depois com carteirinha...”. Não conseguia. Então há locais onde foi bastante difícil. Hoje isso parece estranho, porque hoje os planos de saúde, de maneira geral, é uma obrigatoriedade, uma exigência de cada família, de cada comunidade, de cada empresa, pelo custo muito alto da medicina, da tecnologia. Mas na época ainda havia um poder aquisitivo razoável, o pessoal pagava médico, hospital e tudo. Hoje é praticamente impossível, há, pelas estatísticas, 2% da população que paga diretamente, e 42 milhões, mais ou menos, com planos de saúde, chamada medicina suplementar, um nome meio estranho. P/1 – E qual o principal desafio que o senhor enfrentou na Unimed? R – Muitos. Eu hoje ainda pela manhã acordei pensando, fazendo um retrospecto, de que todas as minhas lutas políticas associativas, elas foram sempre difíceis. Eu nunca tive muita facilidade, sempre foi coisa com muita luta. Aí volta aquela questão da persistência da mãe, lá da infância, talvez lá do colégio. A gente começa a fechar isso, pensando isso à luz de uma explicação psicanalítica, interiorizada, por ter persistência de lutar. Desde o tempo do CPOR, agora retomando, eu não quis entrar em detalhes, lá no grêmio, também teve duas eleições, na primeira empatou e na segunda então nós ganhamos. Na Federação, também houve isso, mais tarde depois nós tivemos outras participações que sempre foram muito lutadas. Eu acho que esses desafios, esses momentos todos, é que vão te preparando. E nós temos uma fama, lá no Rio Grande do Sul – que ela pode ser de certa forma um pouco verdadeira – mas nem tanto o quanto é passado, que é a fama de revolucionários permanentes, está sempre em revolução. Isso aqui mesmo, ontem foi me dito de novo isso, mas pode ser, não sei, que ou ‘tu é’, isso vem da história do Rio Grande do Sul, ou ‘tu é’ maragato, ou ‘tu é’ republicano, ou do Grêmio ou do Internacional, não tem meio termo. Ou é a favor ou é contra os governos. Tiveram muitas revoluções. Mas não é bem assim, eu acho que nós temos uma determinação de defesa daquelas coisas que ‘tu acha justo’, e não abre no sentido de combinar, por exemplo, nem que não esteja escrito, combina: nós vamos fazer isso, é assim, assim, assim, está tudo combinado. Sai dali e é aquilo. Depois de dois, três meses: “Não, pois é, mas nós mudamos, agora achamos melhor”. A gente não entende isso, é difícil de entender. Mas como? Se foi combinado assim, foi analisado, por que mudou? A gente não entende. É difícil de entender. Em toda a minha vida profissional, essa do universo unimediano, eu tive muitos problemas, mas sempre de bom tom, de bom relacionamento, na cordialidade que se tem, mas em função dessa linha mais ou menos radical, ela não é sectária. Existe uma diferença muito grande. Pode ser que a gente seja radical, que é aquele que se embasa nas raízes, a palavra vem daí, radical. Que ‘tu assume’ aquela postura definida, discutida, não é autoritária, mas foi discutida e é assim. O sectário é aquele que prega coisas que não são adequadas, “Eu quero mostrar a minha autoridade”, mesmo que aquilo vá contra os princípios, não interessa. Esse radicalismo, na acepção da palavra, talvez se tenha lá. Essas dificuldades em geral, elas foram os momentos mais difíceis, por causa dessa postura que se tem. Mas sempre acho que, pelo menos pelo que eu posso notar, e pelo que eu percebo nos diálogos, nas mensagens e nos contatos, que nós somos afáveis, temos uma cordialidade, temos um bom relacionamento com todos os outros Estados do Brasil. P/1 – Bom, no projeto nós nos deparamos com alguns livros que o senhor escreveu. Fale um pouco da questão da educação, do cooperativismo na sua Federação. R – Temos uma figura, que foi presidente da Unimed em Novo Hamburgo, Vale dos sinos, chamado Lutero Arno Renck, o primeiro nome já diz um pouco das suas origens e da sua predisposição também a objetivos. Ele foi nosso diretor de educação e desenvolvimento, durante alguns anos, e criou esse espírito, junto com a Federação, de divulgação do cooperativismo por meio de livros, de impressos. Hoje nós temos uma coleção chamada “Saber/Fazer”, que ele criou, e tem já diversos livros publicados, alguns rememorativos, outros da história, dentre os quais tem os pioneiros de Rochdale. Eu estive em Manchester, entre parênteses, conhecendo lá há alguns anos, em Rochdale, que é no interior, viajamos em um trenzinho, para conhecer aonde foi o berço do cooperativismo mundial em Toad Lane, o beco do sapo. Aquilo está lá até hoje, interessante esse aspecto, fecha parênteses. Então esse amigo, que faleceu, praticamente cedo, ele deixou essa marca e uma ocasião se fez uma tentativa nacional de fazer um compêndio de cooperativismo. E por esse meu perfil do texto, da literatura, eu fui escolhido como coordenador nacional do compêndio. Esse compêndio deve estar aqui até hoje, vocês devem conhecer, é um livro verde, grande, lá nós temos alguns volumes. Que é depois distribuído ou vendido para aquelas Unimeds que tem interesse. E ali vocês vão encontrar desde a história do cooperativismo na época, hoje ele já está defasado esse livro – eu fiz a apresentação. E todas essas figuras do cooperativismo nacional, passando pelo doutor Castilho, pelo Nilo Marciano, pelo Níveo, lá de Belo Horizonte, pelo Amauri, de Brasília e tantos outros, o próprio Irion, escreveram capítulos neste livro. Mas foi um trabalho árduo, imenso. Nunca mais eu vou aceitar se me convidarem para fazer um compêndio escrito por diversas pessoas. Cada um tem uma forma de escrever, cada um tem o seu modo, uns melhores, outros piores. E como fazer esses capítulos se encaixar, se enquadrarem dentro de certa linguagem adequada ao todo? Entende? Um faz esquema, outro faz perfil, outro escreve por parágrafos, outro escreve um, dois, três, quatro, outro faz quadro demonstrativo. Foi um trabalho imenso, acho que durou dois anos, não conseguia terminar. Felizmente, está lá até hoje, nós temos outros livros, esse dos pioneiros está lá. E felizmente eu contei com a colaboração muito grande do meu filho, que é chamado Nilson Rodolfo, meu nome é Nilson Luiz ele é Nilson Rodolfo, ele é filósofo, na acepção verdadeira da palavra. Não é aquilo, “ah, ele é filósofo”, não, ele é formado em filosofia, é professor. E tem uma derivação, uma capacidade de trabalho, de conhecimento nessa área da filosofia ampliada para o texto, entende? A revisão do contexto, não é a revisão gráfica, é o sentido da frase, da palavra. Nós montamos uma equipe, com o Nilson Rodolfo, e mais duas pessoas, o Antonio Hohlfeldt, que foi vice-governador do Estado, trabalhou nessa equipe, ele é professor de literatura; e o Edgar Schulze, que é o nosso assessor técnico e um grande conhecedor do cooperativismo, doutor em cooperativismo, mestre, doutor. Esse pessoal ajudou muito nessa organização. Esse compêndio de cooperativismo, não se fez nada atualizado nesse campo. Isso na área, e eu também escrevi muitos artigos, publicados, na área do cooperativismo, alguns totalmente defasados para a época atual, mas que talvez tenham colaborado de alguma forma. E dentro dessa linha, fugindo um pouco da literatura, tem um outro livro, que é chamado “Pelos (des)caminhos da medicina assistencial brasileira”, o “des” está entre parênteses, os descaminhos. Onde eu faço uma análise da medicina previdenciária, do Estado, desde sua formação, os primeiros institutos de aposentadoria e pensão - Por que a área de saúde sempre foi relegada a um segundo plano? Porque o que sobrava da arrecadação da previdência era dada para saúde. E depois até chegar nas Unimeds. Foi um livro escrito em capítulos, de textos publicados, alguns, outros não, mas que faz uma recomposição histórica da área da medicina assistencial brasileira; onde o cooperativismo Unimed se insere numa parcela, porque nós não podemos achar que a Unimed vai resolver todos os problemas da assistência médica no Brasil. Tem cem milhões de pessoas que não tem um real para pagar sequer a comida, muito menos plano de saúde. A medicina assistencial, a assistência médica, eu chamo assim sempre para caracterizar, porque tem a medicina profilática, estatal, governamental, aquela que tem que cuidar do esgoto, da água, das vacinações, da profilaxia, da prevenção. Mas a medicina assistencial dentro da nossa população ela ocupa um espaço de 25 a 30%, essa suplementar, privada, em que nós nos inserimos. Mais do que isto não tem condições. Esse livro faz um histórico e uma apreciação dessa área. Tem muitas coisas, mas muito mais na área da literatura, do que nessa do cooperativismo ou da medicina, eu tenho outras publicações, não sei se isso interessa agora. P/1 – Em relação às questões de responsabilidade social? R – Esses projetos de responsabilidade social estão agora inseridos muito proximamente, mas numa época bem mais moderna. Há alguns anos, a responsabilidade social não tinha esse contexto de importância que tem hoje. Não descobriram isso hoje, na época, não saberia dizer a quanto tempo, mas isso é uma característica fundamental e necessária das cooperativas. Porque isso é que faz o cooperativismo Unimed se diferenciar dos outros planos de saúde, além de outras coisas. É a sua inserção na comunidade. O médico está ali, os médicos estão, eles moram, tem a sua casa ali; jogam tênis na cidade, vão aos bailes, às reuniões, participam da política. Então tem obrigação, a Unimed, por ser uma cooperativa, de exercitar essa sua influência, essa sua liderança, seu aporte financeiro em retribuição àquela comunidade. Esse é um lado da responsabilidade comunitária, social. Às vezes é uma palavra gasta. Responsabilidade social, o que é bem isso? O que se faz? Se dá dinheiro? Não, não é isso. Tem que se inserir na comunidade pelas ações sociais. E elas são múltiplas, hoje nós temos cadernos, livros, opúsculos, todos das Unimeds, nesse sentido. Tanto que já nem cabe mais nos relatórios. Isso lá no Rio Grande do Sul nós temos muito. Além dessas campanhas. Cada local tem que fazer o seu. A Federação não deve ir lá em Erexim, em Treze de Maio, em Pelotas fazer, o curso da diretoria de desenvolvimento mostra como se faz e as Unimeds fazem nas suas comunidades, cada um de acordo com as suas possibilidades e com a realidade daquela região. O que é importante para um pode não ser para outro. Mas hoje é fundamental essa inserção, repito: para diferenciar a Unimed das outras prestadoras, planos de saúde, etc. Aqui é um pouco mais difícil, em São Paulo ou no Rio, nessa região, essa diferenciação, essa característica, porque tem a população grande, sei lá, com quinze milhões de pessoas ‘tu não consegue’. Agora lá, no Estado, a Unimed domina tudo, nós não temos praticamente concorrência. Porque é mais fácil, as comunidades são menores, as pessoas compreendem mais. P/1 – Antes de entrar na parte final da entrevista, fala um pouco da sua família. Qual o seu estado civil? R – Como eu disse, casado, mas eu casei antes de ir para o interior, na formação médica, e já tinha, quando fui para o interior, o Nilson Rodolfo, com poucos meses de idade. O Nilson Rodolfo foi como nenê, nos acompanhando, a Gladys e eu, para Progresso, aquele local ermo, lá em cima. E dois anos depois do nascimento dele nasceu também a Ana Cristina, que é minha segunda filha, eu estava ainda lá no interior. Quando eu fui para Lajeado, nessa descida do morro, para chegar na cidade, no pólo do Vale do Taquari, já tinha os dois filhos: o Nilson Rodolfo e a Ana Cristina. Eles cresceram na cidade de Lajeado, estudaram lá. A Gladys é uma pessoa de formação doméstica, da casa, ela trabalha na área de artes plásticas, pintura. Trabalha num sentido mais de realização pessoal não de qualquer outra coisa financeira, porque isso é difícil. Mas tem uma sensibilidade, uma tendência para esse lado. Os filhos cresceram e se desenvolveram, estudaram lá no colégio em Lajeado, os dois, até o ano de 1976, quando então, com uma diferença muito grande da segunda filha, nasceu por decisão nossa, a Juliana, que foi minha terceira filha. A Juliana então tinha uma diferença muito grande e foi o nenê da casa, porque os outros já estavam na adolescência, o Nilson Rodolfo já estava quase se situando em Porto Alegre, ele fez vestibular para medicina como eu, com dezessete anos. Passou no vestibular na UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul e deixou de freqüentar um ano e meio depois porque para ele não era aquela dedicação como tinha sido posto para mim. Ele foi livre, eu nunca exigi nada, nunca disse nada. Mas ele deixou e depois passou para filosofia, que era a tendência dele. Os meus amigos dizem: ele faz aquilo que ‘tu’ gostaria de ter feito, nessa área cultural, dedicação. Mas ele pode fazer isso, eu não podia. Ele tem o mecenas, que ajuda por trás, tem quem ajude a mantê-lo, porque hoje financeiramente essa área é muito difícil aqui no Brasil. Ele deveria ter ido para a França, para a Inglaterra, Alemanha, mas nunca quis sair, então é difícil, mas ele se sente realizado e me ajuda muito. É uma pessoa muito importante para mim. Mas a Juliana então foi o nenê da casa, e eu procurei estudar a pedagogia para ver se eu a formava da forma mais adequada, melhor. Aquela época já estava em moda a educação infantil, a psiquiatria, a psicanálise, de ‘tu moldar’, isso é totalmente impossível. Os outros foram para Porto Alegre, ela teve a infância dela muito feliz lá em Lajeado. Era uma pessoa muito extrovertida, muito bonita. Ela era uma moça que, com catorze anos, já tinha uma postura de adulta, queria ser manequim, trabalhou nessa área mais tarde. Muito extrovertida, aparecia onde ela entrava, o porte alto – chamava atenção – os cabelos, fazia tatuagem, esse tipo de coisa. Não sei se vocês têm conhecimento disso. Ela veio para Porto Alegre, depois casou, teve o Julio Guilherme, que é o meu neto, hoje tem dez anos, e ela faleceu com 28 anos de idade. O Julio – isso faz um ano e meio mais ou menos – ficou lá conosco e hoje é o seguidor, é um guri forte, tem dez anos, é bem desenvolvido. E a ligação dele, o pai tem uma presença importante, mas o avô! Ele já deve ter me telefonado duas ou três vezes para saber se está tudo bem. Ele mora conosco, formou uma ligação muito grande do Julio comigo, que passei a ser, já era no tempo que ele morava com a mãe em casa, mas agora se formou uma coisa mais forte. Tenho também uma neta, a Sofia, que é filha da Ana Cristina que é administradora de empresas. P/1 – Entrando na parte final da entrevista, como o senhor vê atuação da Unimed no Brasil atualmente? R – Eu acho que a Unimed no Brasil teve um desenvolvimento bastante bom, nós tivemos um período onde ela foi coordenada basicamente pelo doutor Edmundo Castilho, que foi o fundador de tudo isso que se tem e que ficou aqui na Unimed do Brasil durante 20 e poucos anos. Infelizmente, essa questão de ser ao mesmo tempo presidente de uma grande Unimed, que era a Unimed de São Paulo, e presidente da Unimed do Brasil, fez com que os problemas na Unimed de São Paulo, fossem se assoberbando, crescendo, fossem tomando um vulto muito desagradável. Nós temos fixado pela história, não tem como retirar esse lado negativo, eu acredito que aquela honestidade própria do doutor Castilho e a forma dele, estando tantos anos na Unimed, dirigindo, tenha deixado em mãos de pessoas talvez não tão competentes, a Unimed dele, de origem, a singular de São Paulo. Nós teríamos que ter outras horas para analisar, porque eu participei de tudo isso, até um momento muito decisivo, muito chocante, muito dramático, que aconteceu numa reunião no Rio de Janeiro, em um determinado dia de dezembro, onde nós tivemos que manter aquela questão do radicalismo, naquele sentido, em propostas junto com outros presidentes de Federação, em afastar o doutor Castilho da presidência da Unimed do Brasil. E assumiu o doutor Mallmann, que era vice-presidente na época, no sentido de evitar que, tudo que se sabia que estava acontecendo e ia acontecer na Unimed de São Paulo, pudesse ter graves reflexos, maiores na imprensa, e na repercussão nacional em relação à Unimed do Brasil. Isso foi muito difícil, muito complicado. Mas ele também compreendeu, talvez não no momento, mas eu tenho certeza de que ele compreendeu mais tarde, e muito mais hoje. E se tem alguém que nós prezamos, e que eu sei que o doutor Castilho preza, porque ele entendeu a conduta de todos, e que nós lutamos por ele durante todos esses anos que ele saiu daqui, é o grupo nosso lá do Rio Grande do Sul. Mas aquilo era necessário. A repercussão não foi tão grande por isso. Então a Unimed do Brasil teve um crescimento, um desenvolvimento, teve todo um período assim até esta época. Depois houve outra eleição e de composição geral, de comum acordo, elegemos o doutor Celso, as Federações que votam na Unimed do Brasil. E aí foi um outro período, e esse período atual da administração do doutor Celso Barros, que é presidente da Unimed Rio, foi um período de modernização, de avanço e principalmente, na história certamente o que vai mais ficar, foi um período de reintegração. Porque dado àquela questão anterior, uma disputa, antes deste aspecto de São Paulo, já tinha havido um racha, uma dissociação com a formação da Aliança Nacional, lá do Nordeste mesmo, aqui a Federação, na época, de São Paulo. Então cabia a essa outra administração, que sucedeu o doutor Castilho, essa recomposição, essa reintegração – isso foi conseguido, a duras penas, com o auxílio de todos os demais conselheiros – das regiões, a tal ponto que agora mais recentemente nós estamos praticamente com todo o Brasil reintegrado aqui na Unimed do Brasil. Eu acho que cada período teve o seu tempo, cada período teve os seus problemas, o que é natural, mas o reconhecimento ao trabalho do doutor Castilho, e mesmo nos seus erros, que todos nós cometemos, ele ficará indelevelmente marcado na história do cooperativismo, porque sem aquele pontapé inicial em 1967 nós não teríamos nada disso que hoje existe em termos de cooperativa de saúde Unimed no Brasil. P/1 – Qual a interferência da Federação do Rio Grande do Sul em relação a essa reintegração, atualmente? R – A Federação do Rio Grande do Sul em si não teve muita interferência nesse aspecto, a não ser pela minha presença aqui, no conselho confederativo, discutindo em conjunto com os demais conselheiros essas questões. Cada vez que aparecia um problema lá no Norte, Nordeste, no Centro-Oeste, e tal, a gente ia dando opiniões, discute, colabora, mas diretamente, foi um trabalho executado pela estrutura administrativa da Unimed do Brasil. Uma coisa que a gente tem colaborado e que nós não falamos, que precisa ficar registrado, é de que também num determinado momento, acho que na década de 90, eu me lembro bem de datas mas essa, acredito que em 94, por aí, por variados motivos nós criamos sob a liderança do doutor Arnaldo Mallmann, o que se chama hoje, Unimed Mercosul. A Unimed Mercosul e o estatuto e a constituição agora refeitos e votados recentemente, eles tem um artigo lá, que está redigido especificamente por causa da Unimed Mercosul porque ela foi criada e é uma confederação. Como não pode ter mais do que uma confederação, não queremos disputar nada com a Unimed do Brasil, foi caracterizado pelos estudos da equipe técnica, doutora Henriqueta, principalmente, outra figura histórica, de uma sensibilidade, conhecimento, simpatia, integração, somos muito amigos. Então foi criado o título de Confederação Regional. E a Unimed Mercosul compreende os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, funciona com sede em Florianópolis, é muito enxuta, tem seis funcionários, mas nós temos a câmara de compensação nacional, hoje é tudo feito com os Estados, é tudo via Unimed Mercosul. Existe uma integração muito grande entre os três estados, presidentes que se sucedem, temos uma harmonia muito grande lá, temos uma força política também bastante considerável. Até um tempo atrás nós representávamos em termos de votos proporcionais aqui um terço dos votos de todo o Brasil, os três estados. E nós discutimos, temos reuniões mensais. Então essa Confederação Regional Unimed Mercosul também deve ser citada, reconhecida como um órgão interessante, diferente do habitual. P/2 – E doutor, essa câmara de compensação que o senhor falou, em relação à capilaridade? R – São feitos os atendimentos de todos os usuários dos três estados, têm 25 milhões os três estados juntos. Então todos, não, o que eu disse? P/2 – 25 milhões. R – Não, apaga aí: dois milhões e quinhentos, nós temos 13 milhões de usuários em todo o Brasil, evidentemente é uma questão de ponto, dois milhões e quinhentos mil usuários naquela região, dos três estados. Se um desses usuários está viajando pela Bahia, pelo Nordeste, pelo Mato Grosso, e tem alguma necessidade de atendimento de urgência lá, ele é atendido pelas nossas Unimeds de todo o Brasil e depois a cobrança é feita via Mercosul, ele não vai lá para a sua Unimed de origem, seja em qual for o estado. Essa câmara de compensação facilita muito, burocrática, administrativamente, e é um acerto feito nesse sentido. E, não vou ficar uns 20 anos, porque lá é como o BRDE, o Banco Regional de Desenvolvimento Econômico, tem as mesmas regras, cada período de gestão o presidente da Unimed Mercosul é o presidente de uma das Federações. Vai alternando, um período é o Paraná, depois o Rio Grande do Sul, depois é Santa Catarina. Atualmente está conosco, mas é assim que funciona e tem prestado muitos serviços nesse campo operacional. P/1 – E qual a sua visão de futuro do Sistema Unimed? R – Eu acho que o sistema Unimed precisa cada vez mais se inserir nesse contexto das comunidades, não há como fazer uma regra geral para todo o Brasil, que é muito grande; é preciso que as federações assumam cada vez mais o seu papel federativo, e neste papel prever a desigualdade entre as Unimeds, no seu estado. Porque a verdadeira igualdade, para mim, é tratar de forma desigual os desiguais. Não tem como ‘tu fazer’ a igualdade que não seja assim, ‘tu não pode’ dar o mesmo tratamento para questões, ou para pessoas, ou para comunidades que não são iguais entre si. Isso provoca essa questão toda da diferenciação social, de tudo isso aí. É difícil, mas no cooperativismo o futuro deve prever isso. Não tem como centralizar, tem que diversificar. Centraliza as ações que possam ser centralizadas, por exemplo, comunicação e marketing, já foi tentado aqui na Unimed do Brasil, muitas vezes, não deu certo. Não vai dar certo. Tem que encontrar uma maneira de fazer com que o estado trate, com suas Unimeds, uma maneira de como quer fazer a sua comunicação lá. Dentro do próprio Estado do Rio Grande do sul eu não consigo fazer isso, centralizar, porque na região noroeste eles querem usar rádio, o outro quer usar televisão, o outro quer fazer um programa desse tipo, o outro diz: “não, isso serve lá para Porto Alegre, mas para nós não”. Então eu acho que o futuro tem que prever coisas desse tipo, e assim em diversas áreas, responsabilidade social. E, outra coisa que é preciso fazer é – já houve uma reintegração nacional, nós falamos – mas tem que fazer a integração das empresas que constituem o Sistema Unimed. Nós não podemos deixar ou criar feudos onde uma determinada empresa toma um rumo definido, próprio, contrário a estrutura centralizada. A outra vai para cá, isso vai gerar num futuro a dissensão, o afastamento. A seguradora Unimed, por exemplo, é uma empresa de capital, mas ela sempre será a seguradora do Sistema Cooperativo Unimed. Se perder esse foco aqui, daqui a pouco não tem mais nada a ver conosco, como já aconteceu com a Unicred, de maneira geral, foi criada dentro do Sistema Unimed e está totalmente... Então, isso é difícil, lá no Rio Grande do Sul, felizmente, dado a uma última eleição, que teve agora, muito austera, muito combativa, uma eleição muito dura, muito complicada, com diversos aspectos até de ordem pessoal; e que a Federação, a nossa diretoria teve uma vitória de 24 a 7, entre 31 Unimeds então é incontestável, as Unimeds do interior não queriam uma outra chapa. Pode ser que na próxima tenham outros candidatos. Nós conseguimos agora, com isso, fazer essa unificação de propósitos, criando o que nós chamamos, sistema cooperativo unificado do Rio Grande do Sul. Então nós temos três instituições: a Federação, que é o guarda-chuva, disso tudo, a Central de Serviços Unimed RS, que é o braço econômico financeiro, redução de custos, órteses, próteses, compra de materiais, uma redução importantíssima; e a Unier, que é o transporte médico terrestre do sistema Unimed. Só que a Federação tem 99% das cotas na Unier, a diretoria da Unier está integrada aqui, e a central tem uma diretoria própria mas perfeitamente sintonizada. Os três presidentes sempre se reúnem, trabalham em conjunto, as manifestações são feitas de comum acordo. Felizmente nós estamos nessa forma assim, levando tudo adiante e isso dá um progresso, uma evolução muito grande. Então eu acho que o futuro deveria seguir essas linhas, essas normas, pelo menos essa tentativa. Porque nós temos tudo para seguir adiante, o sistema Unimed, com 13 milhões de usuários, com cem mil médicos no Brasil, com as dificuldades da medicina estatal, é só não errar muito. É manter os médicos unidos, têm que haver esse propósito, o bom atendimento, os usuários satisfeitos. Porque a maior propaganda que pode existir na Unimed é de boca em boca, é o paciente que foi atendido por um médico da Unimed que vai dizer para o seu vizinho: “É, ‘tu não sabe’ como é bom a gente estar na Unimed, porque eu fui bem atendido, me fez sentar no consultório, me atendeu como se fosse um cliente particular do passado, o hospital me atendeu direitinho, a burocracia não foi tão grande”. Então eu acho que o futuro passa muito por essa questão de congregação, de unidade, de exemplo. Que isso tem que cair lá na ponta, na nossa força principal, que são os médicos. Senão não adianta ficar aqui fazendo reunião se eles lá atenderem mal. P/1 – Qual o maior aprendizado de vida trabalhando na Unimed? R – Eu acho que o maior aprendizado para o meu perfil, está relacionado aos recursos humanos, digamos assim, a gestão de pessoas. Eu não sou um bom administrador na área técnica, digamos, de tecnologia de informática, de cálculos atuariais, financeiros, etc. Talvez, para o meu perfil, por esse lado humanista, da literatura, do relacionamento com as pessoas, da liderança, desse tipo de coisa de poder lidar com pessoas, eu tenho que me cercar sempre daquilo que me completa. Eu sempre tenho diretores, administradores, técnicos, que sejam bons nessa área, taí o segredo. Essa área eles fazem, trabalham, apresentam projetos; é claro que a gente discute em conjunto e acaba compreendendo um pouco esse outro lado. Mas eu sempre temo numa entrevista que me perguntem assim: qual é o seu cálculo para um plano de saúde de quatro pessoas de idade tal? Eu não sei. E é isso que os presidentes da república, os governadores deveriam dizer, em vez de ficar forjando situações que eles não sabem, que eles não conhecem. “Como é que o senhor pretende tratar a economia nacional nos aspectos, tal?” “Não, sei”. Eu vou tratar de acordo com os cálculos que forem feitos pela minha equipe técnica, que é especializada nisso, que é formada nisso, aí nós vamos analisar, ver o que é melhor para a população; vamos ver o que é melhor para os nossos médicos, no caso transportando, para os usuários, e em conjunto nós vamos ver. Precisa ser convencido, tem que ter esse lado de conhecimento para poder não comer pela mão dos outros também. Mas eu acho que tem que se formar grupos de trabalho, equipes de trabalho onde cada um seja forte na sua área e alguém coordena isso tudo, faz a manifestação, junta as pessoas, mostra como isso deve ser feito, aponta os caminhos. Esse é o verdadeiro sentido da liderança. Eu acho que isso foi o que eu mais exercitei e aprendi na Unimed, foi essa vivência nesse campo. Porque se contar, nós já passamos pelas datas, pelos tempos, pela coisa toda, pela minha idade, considerando que entre 71 e hoje são 35 anos de cooperativismo Unimed, desde aquele primórdio lá até hoje – e sempre participando – é mais da metade da minha vida que foi dedicada ao sistema Unimed. É essa coisa da – não gosto da palavra experiência, prefiro usar a vivência, porque ela é mais profunda – eu acho que isso é que me fez, dentro do sistema Unimed, aprender mais ainda o relacionamento com as pessoas. P/1 – E o que o senhor acha da Unimed comemorar seus 40 anos de vida por meio de um projeto de memória? R – Ah, isso é indispensável. Se não tivesse sido proposto aqui certamente daqui a pouco algum de nós proporia. Eu estava dizendo a pouco que nós estamos fazendo a mesma coisa lá, por acaso. Fazendo os 35 anos da Federação, porque ela foi criada no Rio Grande do Sul em 1972, porque precisava juntar aquelas Unimeds primeiras de lá para formar uma Federação, nós estamos comemorando 35 anos agora em junho. Mas o projeto é durante todo o ano de 2007, vai até dezembro, não vai dar tempo de fazer até junho, que seria o ano dos 35 anos de fundação. É uma coisa um pouco parecida, nós vamos ouvir todos os presidentes da Unimed atuais e nós vamos ouvir os ex-presidentes, têm dois, e vamos recuperar essa história da Federação do Rio Grande do Sul. Só que eles vão viajar para as Unimeds do interior para filmar a sede atual, ouvir os presidentes, saber das histórias daquelas Unimeds. Então é um projeto também bastante desenvolvido, bastante longo, e onde, a semelhança, com o que está sendo feito aqui, ouvirão as pessoas que participaram da história do sistema Unimed hoje integrado no Rio Grande do Sul. P/1 – O que o senhor achou de ter participado dessa entrevista? R – Muito interessante, para mim foi mais fácil até, porque temos um jornalista, André Pereira, que está fazendo essa coordenação, e como eu tenho muitos anos lá, nós já tivemos cinco sessões de duas horas cada uma, eu já tenho dez horas de gravação. Ele não grava, ele escreve, aliás até eu acho que deveria, que bom que tenha sido feito aqui, só que em dez horas até agora nós ainda estamos na metade, porque tem muita história como eu disse, no meio, que aqui não dá tempo, e outros detalhes. E acaba misturando, como aqui, isso eu achei o lado interessante, a questão pessoal, senão não adianta, você tem todo esse tempo de cooperativismo, tem que saber um pouco de cada um como surgiu. Talvez no meu caso esteja lá nos catorze anos, esse de professor; o outro está noutro local, cada um tem a sua história. Então eu achei interessante esse lado, esse aspecto. Isso também nós estamos fazendo lá. De modo que eu só tenho elogios e gratificação por ter participado, estar aqui nesse momento, mesmo com algumas dificuldades que se tem de tempo, de poder fazer esse histórico, essa rememoração, e poder contar aqui, colaborar um pouco com toda essa história do sistema Unimed via Rio Grande do Sul, mas certamente uma participação nacional. P/1 – O senhor tem mais alguma colocação? R – Apenas diria que dentro dessa vivência toda do sistema Unimed, pela integração que se tem que ter com a comunidade, e dada essa presença que a gente acaba tendo no meio médico em todo o estado, eu tenho uma participação constante, efetiva, semanal, num programa de televisão que é bastante ouvido, chama-se Guerrilheiros da Notícia. Tem uma pessoa que é o âncora, é um jornalista antigo, chamado Flávio Alcaraz Gomes – é da família ligada ao Breno Caldas, que fundou o Correio do Povo – e seis pessoas, três de cada lado numa mesa, que debatem entre si, discutem, apresentam os assuntos mais variados, não têm nada preparado. Mas a minha área lá é via cooperativismo Unimed, mas o que mais se fala lá é sobre aspectos culturais. Por exemplo agora no Oscar – que eu não pude estar presente nessa semana, porque estava aqui – seria uma análise assim: porque o filme tal recebeu o Oscar, essa questão do Scorsese, do Clint Eastwood, que já foi ganhador de Oscar; a importância desse diretor que começou lá com “western”, espaguete, magrinho, com aqueles filmes antigos e se transformou numa pessoa que tem lugar marcado dentre os grandes diretores de cinema, desde “Os imperdoáveis”, “Menina de ouro”, “Sobre meninos e lobos”, um filme fantástico. Esse lado da cultura relacionada ao cinema e a literatura, é que eu ocupo esse espaço nesse grupo, não tanto da medicina, porque tem outras pessoas que fazem muito melhor isso. E também num programa de rádio, do mesmo jornalista, sob os mesmos aspectos. E por uma deferência talvez muito especial, não pelo meu conhecimento na área médica, porque ele é mais lá das profundezas do interior, e não uma vida acadêmica mesmo, mas talvez por toda essa história, pela liderança e pelo cooperativismo, eu fui eleito como membro da Academia Sul Rio-Grandense de medicina. São 60 médicos de todo o estado, e, em companhia dos principais professores de medicina em todas as áreas, eu me sinto até um pouco retraído. Mas também compreendendo que a academia de medicina não deve premiar ou escolher só pessoas da área científica, profissional, mas eventualmente outras pessoas que talvez tenham influído no associativismo, no cooperativismo, na liderança médica, nos projetos, na literatura, coisas dessa ordem. Eu acho que isto nos dá um formato também de interação, da representatividade que a gente tem da Unimed, que está sempre levando na testa, em qualquer lugar que for, essa marca Unimed. P/1 – Então, em nome da Unimed e do Museu da Pessoa, agradecemos a sua entrevista. R – Muito obrigado. --- FIM DA ENTREVISTA ---

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