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História

Na luta pelos Xavantes

História de: Rosa Jandira Gauditano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Fotógrafa internacionalmente conhecida por suas fotos do povo Xavante, Rosa Gauditano conta em seu depoimento ao Museu da Pessoa como começou seu envolvimento com as questões indígenas. Relata como o processo de fotografar os rituais Xavantes a motivou a criar a ONG Nossa Tribo para ajudá-los na luta contra a mortalidade infantil. Fala sobre o desenvolvimento do projeto e como conseguiu recursos do projeto Criança Esperança para realiza-lo.

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História completa

Meu nome é Rosa Jandira Gauditano. Eu nasci em São Paulo, capital, em 3 de abril de 1955. O meu pai é italiano da região de Nápoles, de Castelo di Cisterna. Ele era camponês. E a minha mãe é daqui de São Paulo assim de família paulistana mesmo. A minha mãe foi viajar na Europa e conheceu o meu pai em Veneza e eles se apaixonaram. Eles ficaram se correspondendo e depois de um ano ele veio pro Brasil casar com a minha mãe.  

Eu fiz contato com os Xavantes em 91. Eu fui fazer uma matéria pra revista Terra que na época era Editora Azul, que não existe mais. Fui fazer uma matéria sobre uma visita de jovens alemãs de uma ONG do norte da Alemanha que ajudavam os xavantes de Pimentel Barbosa e eles vieram de férias pro Brasil pra conhecer esses índios. Eu trabalhava já na Fotograma que é uma agência que eu fundei e a gente fazia pautas e eu fiz essa pauta e vendi essa pauta pra essa revista e fui fazer uma matéria nessa aldeia de Pimentel Barbosa no Mato Grosso. Então foi o primeiro contato que eu tive com os Xavantes. A matéria resultou capa da revista, foi cartaz de banco, os Xavantes ficaram superfelizes com o meu material.  Eu tinha feito já uma série de postais de alguns outros índios que eu tinha fotografado e eles viram, falaram: “Rosa, a gente quer que você faça esses postais pra gente também”. Eles vieram pra São Paulo e essa ONG que era o Núcleo de Cultura Indígena conseguiu uma verba pra fazer uma série de postais sobre os Xavantes. E eles vieram pra São Paulo selecionar esse material e eles falaram assim: “A gente gostaria que você fotografasse os nossos rituais”. Eu voltei pra lá e os velhos me chamaram e falaram: “Olha, a gente gostou muito do seu trabalho, nós queremos que você fotografe os nossos rituais pra fazer um livro pros brancos entenderem quem são os Xavantes”. Eu topei fazer, mas eu não tinha ideia onde que eu estava me metendo, porque pra fazer esse trabalho eu levei 15 anos porque os rituais xavantes acontecem de ano em ano, de dois em dois anos, de cinco em cinco anos e tem um que é o Darini que acontece de 15 em 15 anos. E quando eu comecei a fotografar esses rituais eles me chamavam, eles ligavam pra mim, pro meu escritório, falavam assim: “Rosa, olha, vai ter tal coisa você tem que vir”. Comecei a fazer umas pesquisas, teve um antropólogo americano que foi o primeiro que fez o contato com os Xavantes, o Maybury-Lewis, que escreveu um livro sobre os rituais. Eu consegui esse livro eu descobri que o negócio era gigante. Era muita coisa. E também conversando com eles eu tentei fazer um plano de trabalho pra tudo aquilo. Nesses anos eu fui organizando esse trabalho. Eu fiz acho que umas 30 viagens pra poder fazer esse trabalho. E assim, conforme o trabalho ia crescendo e eu ia descobrindo todo aquele mundo, que é um mundo assim que pra gente é completamente diferente, logo no começo eu pensei, eles falaram: “A gente quer fazer um livro pra escola, pra distribuir nas escolas brancas do entorno da reserva”. Eu falei pro Supitó que era o cacique, falei: “Supitó, vamos fazer um livro de fotografia.” “Olha, você pode fazer um livro de fotografia, mas nós queremos um livro implicando a nossa cultura”. Eu falei: “Então vamos fazer dois”. Porque fotógrafo sonha com livro de fotografia, eu falei: “Eu vou fazer um livro de fotografia e fazer um livro paradidático para as escolas”. Ele falou: “Tudo bem”.

Quando foi o Darini em 2003, que é esse ritual que acontece de 15 em 15 anos que é o ritual mais importante que é a iniciação espiritual dos meninos xavantes, eu fui pra aldeia e esse ritual demora um mês. Então eu fui pra ficar o começo do ritual e depois eu tinha me organizado pra voltar pra São Paulo e depois voltar no final, porque ele é igual durante o mês, ele tem a iniciação que era legal de fazer imagens, depois o mês inteiro o negócio continuava mais ou menos parecido, eu tinha umas coisas pra fazer aqui, eu falei: “Eu fico, depois eu volto”. E quando eu fui nessa primeira vez aconteceu uma coisa que eu nunca tinha visto antes, porque sempre nessas viagens eu ficava uns 15, 20 dias na aldeia e voltava. Nunca tinha coincidido de eu ver ninguém morrer e nessa viagem coincidiu de eu ver morreram duas crianças. Morreu um bebê de parto, a mãe tinha pressão alta e não quis ir pra cidade, o bebê morreu no parto e morreu uma criança de insuficiência respiratória, de dois anos. Na hora que essa criança tava passando mal, essa de dois anos, eles têm lá um postinho de saúde que, diga-se de passagem, quem montou esse postinho de saúde foram os Xavantes com o dinheiro dos alemães. O governo brasileiro nunca deu dinheiro pra nada pras aldeias de saúde Xavante. Eu terminei meu trabalho lá, voltei pra São Paulo com aquele negócio na cabeça, falei: “Gente, tenho que fazer alguma coisa com esses Xavantes”. Porque agora meu trabalho acabou, o Darini era o último ritual, eu fechei o livro, fechei uma grande exposição, era todo um projeto cultural, nós apresentamos aqui em São Paulo, fizemos divulgação, foi muito legal pra eles, fizemos o livro, fizemos o outro livrinho que é Raízes do Povo Xavante, pra distribuir nas escolas. Fizemos um trabalho com as escolas, distribuímos nas escolas dos entornos como eles queriam e tudo e eu pensei: “Bom, e agora?”. Não queria terminar assim, larga-los lá. Eu pensei, pra fazer alguma coisa eu vou ter que fundar uma ONG, pra conseguir fazer alguma coisa nessa área de saúde, dar uma força pra eles. Eu tirei umas férias, pensei, pensei, falei: “Acho que eu vou ter que abrir uma ONG . Gente, vou arranjar sarna pra me coçar, mas eu acho que eu vou ter que abrir”. Eu fundei a Nossa Tribo com oito amigos e dois Xavantes, um que é o Cipassé Xavante, que vai vir aqui dar depoimento, e o Caimi Waiasse que é um videomaker, ambos professores. A Severiá e eu diria que também era uma carajá casada com o Cipassé que também era professora da escola. A gente trocou ideia e os Xavantes falaram: “Olha, Rosa, a gente quer fazer um trabalho sobre a comida tradicional, o que é a nossa comida tradicional, o que a gente comia antes do contato e depois do contato o que mudou, sobre as doenças e a gente quer reverter esse quadro da mortandade das crianças”. A gente montou um projetinho pequeno que tinha um médico pediatra, uma nutricionista pra cuidar dessa parte da comida, um médico pra cuidar diretamente das mães e dos bebês e um engenheiro florestal pra reforçar as roças dos xavantes, que os xavantes fazem roça na aldeia e eles têm roças comunitárias que são fora da aldeia, que são no cerrado. Eles têm uma tradição de plantar muitas coisas de cerrado que a gente não tem nem ideia, que depois eu fui descobrir fazendo o projeto. E então nós montamos essa equipe e eu pensei, bom, como eu sou da área de comunicação ou a gente fotografa ou a gente grava. Como a gente pensou de fazer uma cartilha bilíngue, xavante / português, mas as mulheres mais velhas e os homens mais velhos ninguém fala português. O Leandro voltou pra São Paulo e os dois ficaram com a câmera de vídeo com a incumbência de gravar todo o projeto na aldeia no tempo que a gente não tivesse lá, porque esse projeto a gente fez cinco viagens de dez dias cada, mas o projeto quando a gente não estava lá continuava. E o foco do projeto foi ouvir os índios e fazer o trabalho com o ponto de vista dos índios. Tanto é assim que a gente teve alguns problemas logo que a gente chegou com o pessoal da nutrição, as duas professoras chegaram com todo um projeto montado pra falar sobre nutrição com as mulheres, nas casas, fazendo uma pesquisa o que os índios comiam antes do contato e o que comem depois do contato, o que a mulher grávida comia, o que dava pra criança, toda a coisa tradicional da comida. E elas chegaram já assim com um projeto pronto assim, que foi superengraçado inclusive e foi punk também no primeiro dia porque eu pensei: “Gente, elas vão embora”. Porque elas fizeram uma lousinha assim com fotos de morango, maça, leite, e foram de casa em casa e falavam e as mulheres ficavam olhando pra elas e o tradutor traduzindo, tradutor homem porque não tinha nenhuma mulher que falava português. Então tinha que o Cipassé, que era o cacique professor, ia traduzindo. A primeira viagem foi um contato pra todo mundo se conhecer e a gente acertar como que ia fazer. Quer dizer, a gente percebeu que tudo que nós levamos pronto da cidade nada funciona, que a gente tem que ouvir os índios e em cima do conhecimento deles adaptar o trabalho da gente e juntar forças pra fazer um novo trabalho. O começo de tudo pra fazer trabalho com os índios é isso. Nada do que a gente sabe serve pra eles porque a cultura deles é diferente. Não funciona o que a gente acha que é. A gente tem que ouvi-los e fazer o trabalho com o ponto de vista deles, porque senão não funciona. Isso foi a primeira coisa que nós aprendemos.  Em cima disso o trabalho tem que ser prático. Então o trabalho do doutor Marcos, do doutor Darcy primeiro, com as crianças foi fazer um levantamento das crianças, de todas as doenças que tinham, fez o fichamento, na verdade, de todas as crianças e da aldeia inteira, porque eram 60 pessoas, era uma aldeia bem pequena, era um projeto piloto, então na parte de saúde o primeiro momento foi fazer fichas de todo mundo, levantamento de saúde de todas as crianças, vacina, que ninguém tinha feito, a gente organizou pra vir fazer depois. Uma grande coisa que tinha na área de saúde que o médico não ligava, mas que pra mim era um horror, era sarna e bicho do pé e como o doutor Darcy tava acostumado a trabalhar com crianças terminais no hospital, pra ele sarna e bicho do pé, pros médicos isso não é nada, mas pra gente que vem da cidade, eu achava um horror. Então eu fiquei pegando no pé dele pra ele incluir isso também que não estava no projeto. Ele só assim concordou quando os índios pediram, porque eu falava, ele não ligava. Eu via lá as mães se coçando, a criança toda cheia de roupa e tirava a roupa, toda cheia de sarna, entendeu? A minha ideia era implantar o projeto, porque pra vocês terem ideia, hoje existem 15 mil Xavantes no Brasil, eles estão divididos em nove terras indígenas. Pimentel Barbosa é uma das terras indígenas e a aldeia Wederã é uma das 13 aldeias dentro da terra indígena de Pimentel Barbosa. É uma aldeia minúscula porque uma aldeia normal Xavante tem umas 300 pessoas, essa tinha 60, por isso que eu escolhi essa que era bem pequena. A ideia era fazer esse projeto piloto e implantar esse projeto nas outras aldeias. Eu tentei de todas as formas conseguir ampliar esse projeto através da Unifesp, que entrou dentro do projeto e como eles têm uma equipe superespecializada que trabalha com os índios do Xingu há 50 anos, o nosso sonho era que a Unifesp encampasse esse projeto e trabalhasse com os Xavantes dentro das outras aldeias Xavantes. A gente lançou esse projeto, a cartilha que é essa cartilha bilíngue Xavante / português, o vídeo que é um vídeo também bilíngue Xavante / português, a gente fez também em inglês.

Eu já conhecia o Criança Esperança, que é superdivulgado pela Globo. A gente mandou o projeto, realmente a gente não imaginava que ia conseguir aprovar esse projeto assim de primeira. Foi numa época que a comunidade Xavante estava precisando muito de uma força na área de saúde, porque depois com os outros governos a área de saúde melhorou, mas naquela época eles estavam morrendo mesmo igual moscas. Então assim, foi crucial pros Xavantes ter feito esse projeto, foi crucial pra eles aprenderem que eles podiam reverter as situações que aconteciam com eles. Eu acho que o Criança Esperança como deu ajuda pro Nossa Tribo que era uma ONG recém formada, eu fundei a Nossa Tribo em 2004, em 2005 nós conseguimos aprovação do projeto, quer dizer, foi o primeiro projeto que a gente conseguiu aprovar. Deu uma superforça pra nós e eu acho que é imprescindível. Eu acho que o Brasil deveria ter muito mais projetos Criança Esperança. Eu acho que mudou muito a situação da população com menos recurso, nesses últimos anos. É imprescindível dar força pras pequenas ONGs, que fazem trabalho como a gente faz, porque às vezes a gente percebe coisas que as grandes entidades não percebem, por exemplo, o tratamento de saúde feito pros índios tem que ser um tratamento diferenciado, tem que partir de escutar as pessoas. A gente, o branco, a gente acha que a gente sabe tudo. A gente não sabe nada. E é muito complicado, a gente tem mania de chegar impondo as coisas.  Então existe uma falta de comunicação e as pequenas ONGs trabalham com projetos porque elas percebem essas coisas que os grandes não percebem, que às vezes o governo não percebe, às vezes pessoas que querem fazer trabalhos, que têm dinheiro, de repente não entendem como é que elas têm que fazer aquele trabalho na verdade. Porque elas acham que porque elas estudaram nos Estados Unidos ou fizeram pós-graduação na França elas vão mudar uma realidade. Não muda. Tem que escutar as pessoas. Eu acho que o diferencial todo, o segredo é esse, você partir do princípio de que as pessoas abracem o teu projeto, de que elas queiram fazer. Quer dizer, a gente ficava dez dias lá, mas os outros 20 dias os xavantes ficavam lá sozinhos fazendo as coisas. Eles faziam porque eles queriam. Eles plantaram porque eles quiseram, eles foram coletar porque eles quiseram, porque eles entenderam que aquilo era bom pra eles. Eles fizeram. A gente só gerenciou. 

 

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