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Na luta pelo direito à saúde

História de: Maria Christina Rodrigues Menezes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/07/2020

Sinopse

Maria Christina fala sobre sua infância e a cidade de Macaé, antes da chegada da Petrobrás. Fala sobre sua adolescência, as faculdades de Biologia e de Medicina e a volta para Macaé. Comenta sua atuação como médica e ativista durante o período crítico da AIDS nos anos 80 e sobre sua atuação como médica do trabalho.   

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História completa

Eu me chamo Maria Christina Rodrigues Menezes. Estou em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Nasci no dia sete de maio de 1956. Meu pai se chama Fidélis da Silva Menezes e minha mãe, Marialva Rodrigues. 

Meu pai [era] servidor público. A minha mãe também foi funcionária pública por uma época, depois… A profissão dela [era] liberal, autônoma - advogada. 

O cotidiano da família [era] meus pais sempre trabalhando muito. Meu pai sempre trabalhando muito, minha mãe sempre trabalhando muito. Nós, filhos, éramos dois naquele tempo. Fui durante muito tempo filha sozinha. 

Fui criada pela minha avó Maria, mãe da minha mãe, que morava conosco. Meus pais saíam muito cedo e voltavam tarde. Às vezes, meu pai trabalhava fora da cidade onde eu morava, trabalhava numa cidade próxima. 

Eu não consigo saber com especificidade, mas temos uma parte da família que é de Minas Gerais, Cataguazes, que é a família da minha avó. Tem uma parte da família que ainda tem um pedaço no Rio de Janeiro - isso da minha avó que é mãe da minha mãe. A família do meu avô, da minha mãe, [vem] de Niterói, Saquarema, que é uma região aqui perto; ainda tem família lá. Da família do meu pai, eu tenho poucas memórias e poucos contatos. Eu sou fruto do segundo casamento do meu pai. Eu sei que meus avós eram de São Fidélis, mas à época eu já não os conhecia mais. 

Nós tínhamos o hábito sempre de receber, encontrar pessoas, de sentar à mesa pra fazer comidas; encontros de final de semana com os amigos, sempre na casa de um, na casa de outro… E sempre convivendo de uma forma muito harmoniosa com todos aqueles amigos da época - alguns mais próximos, outros mais distantes. A família de Niterói vinha nos visitar, eventualmente nós fazíamos isso também. Éramos muito mais visitados do que visitávamos, essa era a nossa lógica - naquele momento, a princípio.

Minha avó tinha o hábito de contar histórias cotidianas, da família - [de] quando era mais nova, história das irmãs, do irmão, da bisa… A minha bisa morou aqui também. Eu tenho o nome da bisa, que é Christina. Eram histórias muito interessantes, porque eu tentava viver aquelas histórias. E tinha as outras histórias características também.

As coisas da minha infância que eu adorava fazer: brincar de boneca, jogar queimada, brincar de comidinha.      

Macaé recebeu a Petrobrás pra perfuração, você deve saber. Macaé é onde a gente tem o maior número de trabalhadores da Petrobrás na área de óleo e gás, de perfuração de unidades marítimas, de plataformas. Foi uma coisa muito diferenciada pra nós. Nós éramos uma cidade muito pacata, uma cidade que você deixava a chave no carro e [quando] voltava, encontrava o carro. Se alguém sumisse com a sua bicicleta, você certamente a encontraria no dia seguinte. 

Eu queria muito estudar, eu achava lindo, mas eu era mascote de todo mundo. Fui pro jardim da infância e minha primeira professora era a dona Cléa, que foi uma querida, a vida inteira. Ela, hoje, não está mais aqui. Entre o jardim da infância e o Matias Neto, que era a escola pública, existia a dona Elza, que era quem fazia a alfabetização da gente.  

Depois a gente foi estudar no Matias Neto e ali foi um pouco traumático. A gente teve uma  professora que era muito dura. Mas hoje eu compreendo, era uma turma muito grande, uma coisa muito complexa e ela era uma pessoa muito séria, muito rigorosa. Dona Celi, ela vive por aqui, é uma querida.

Fomos para a Escola Estadual Luís Reid. Aí já tínhamos algumas escolas particulares e algumas escolas públicas. Eu começo a me separar um pouco daquele grupo de colegas de construção social, da minha vida emocional com determinada trupe e começo a ir para um outro grupo de pessoas. 

Começo a estudar no Luís Reid por um tempo e depois, [em] parte do segundo grau eu vou para o Colégio Castelo. O Castelo era considerado o colégio de elite; um colégio de freiras, realmente é um castelo, chamado Instituto Nossa Senhora da Glória. Ali aprendi com as irmãs coisas muito importantes pra mim, até hoje.

Todas as meninas falavam: “Vamos brincar de boneca, vamos casar.” Eu falava: “Ai, não. Quero brincar de boneca, quero namorar, mas eu não sei se eu quero casar. Não sei se eu vou querer ter filhos, gente.” “Mas onde já se viu?” “Ah, eu não sei. Mas se você se casar e tiver filho, eu vou cuidar do seu filho pra você.” “Não pode!” “Como não pode?”

Eu queria muito fazer coisas. Eu queria ter um espaço na vida, no mundo. E esse espaço tinha que ser construído por mim. Foi no Castelo que eu comecei a ter essa percepção. E eu namorava muito. 

Minha mãe separou-se do meu pai nesse período, casou-se novamente. Foi morar em outra casa e eu fiquei morando nessa casa com a minha avó. 

Eu me formei, no primeiro momento, em Biologia, lá em Vassouras. Fiz Biologia, mas não era o que eu queria; entrei na minha segunda opção, fui fazer Medicina em Teresópolis.    

Eu fui estudar fora, em outra cidade, até o dia que eu retornei pra cá pra [vida] profissional.  Meu irmão Christiano adoeceu, entrou em falência renal. Um menino cheio de vida, de vontade de viver. Fomos para o transplante. Eu doei o rim pra ele. Ele viveu muito tempo, mas foi contaminado por hepatite C na máquina de hemodiálise, à época que os banhos de hemodiálise não tinham o controle severo da água. Foi até aquela época do início da AIDS, do Betinho. No transplante de fígado a gente perdeu o meu irmão. Anteontem fez quinze anos que ele partiu. 

Tinha um relacionamento sério, um relacionamento pra casar; não casei, voltei pra Macaé, entendendo que a minha história tinha que ser outra história. 

Até então, não tinha interesse em consultório particular. Sempre quis fazer saúde pública. É quando eu vou trabalhar na Emergẽncia, porque é o que a gente tem que fazer em cidade do interior. Já tinha a Petrobrás aqui, então as pessoas já estavam muito ricas. Macaé já tinha mudado um pouco seu cenário. 

A gente começou a crescer nesses movimentos, sempre nos movimentos sociais. Participei do Conselho Municipal de Saúde durante a maior parte da vida pública, sempre representando alguns segmentos. Sou eleita representante do Conselho Regional de Medicina na região - foi quando veio a epidemia da AIDS. Vou para as reuniões e tenho o privilégio de conhecer o Betinho. A gente começa a conversar, fica amigo - não amigos íntimos, mas a gente participa de vários eventos juntos.   

Betinho falou: “Christina, a gente precisava tanto de uma pessoa como você no interior...” “Betinho, pelo amor de Deus, eu tô reescrevendo a minha história.” Àquela época, às vezes a gente era chamado aqui pros hospitais no Rio serem interditados porque eles se recusavam a internar pessoas com AIDS. Era a força da polícia. No conselho, nós tínhamos um movimento em defesa da saúde, que era Betinho, Conselho Regional de Medicina, Conselho Regional de Farmácia, de Enfermagem, Conselho Regional de Serviço Social… A gente ia pra porta dos hospitais pra garantir a internação das pessoas, porque elas eram recusadas. É uma morte civil e uma morte social.

Uma coisa significativa nessa pandemia é chegar à conclusão de que a covid nos igualou na vida. Se a morte nos igualava e você não tinha tempo de ver todo mundo morrendo ao mesmo tempo pra isso te impactar e você entender que o coletivo é onde a gente tem que estar circulando… A covid traz isso, a necessidade de você olhar o outro, de você cuidar do outro. 

Nesse momento de pandemia, em que todo mundo acha que é o outro que tem que fazer, nos reunimos aqui, um grupo de pessoas, de segmentos, e criamos um laboratório de campanha que vai ser o primeiro no Brasil pra testagem ouro pra covid-19 - junto com a UFRJ, o Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, os médicos do trabalho. Nós temos a maior quantidade de médicos de trabalho nesta cidade. Hospitais, Associação Médica… Nós saímos dessa ‘paradez’ de achar que o outro, o governo tem que fazer, a prefeitura tem que fazer - a prefeitura também tem participação  [nessa ação].  A sociedade moderna tem que se organizar e fazer.

O trabalho é a nossa segunda identidade. O trabalho, como segunda identidade, não pode ser alguma coisa adoecedora, triste, ruim. Essa questão da saúde e da segurança dos trabalhadores me preocupa profundamente, principalmente a questão da saúde mental. A gente olha muito pro físico - o coração tá bom, perna tá boa, pulmão tá bom, dedo tá bom, mão tá boa, mas como é que está o psiquismo dessa pessoa? Tá triste, tá alegre, tá melancólico, tá deprimido? Tá em pânico? Tá esquisito? Essa situação é extremamente preocupante porque passamos a maior parte de nossas vidas no trabalho. 

Essa construção que nós temos que fazer, do cuidar do homem e das suas relações com o trabalho passa também - não quero ficar terceirizando pra governo, pra nada disso - pelas empresas e pela possibilidade que a gente tem… Esse é o meu maior desafio: sensibilizar a saúde do trabalhador como uma coisa de grande valor na empresa.               

   

                












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