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História

Na luta contra a corrupção

História de: Roberto Livianu
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/08/2015

Sinopse

Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Roberto Livianu fala sobre a imigração dos pais para o Brasil, como foi sua infância e sua relação com seu irmão, comentando sobre suas brincadeiras e a escola. Conta como começou a se interessar pelo Direito e o ingresso na faculdade. Fala sobre o estágio no Ministério Público, como se decidiu pela carreira de promotor e o interesse pelo Movimento do Ministério Público Democrático e movimentos anti-corrupção. Descreve sua carreira profissional e acadêmica, e fala sobre sua família e seus filhos.

 

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História completa

Meu nome é Roberto Livianu, eu nasci em São Paulo, no dia 27 de julho de 1968. Meu pai, Ernest Livianu, nascido em Bucareste, na Romênia, e a minha mãe,  Allegra Sylvie Livianu, nascida no Cairo, Egito. Tanto o meu pai como a minha mãe são judeus, o meu pai advogado, falecido há quatro anos. Ele passou a guerra escondido no porão da casa, ouvindo os soldados levando os judeus pros campos de extermínio. No pós-guerra, ele viveu cinco anos em Israel, depois, em 1955, imigrou pra América do Sul, onde ele viveu em Montevidéu durante nove meses, e depois ele acabou vindo pro Brasil. Vieram ele e um primo que morava em Montevidéu. Chegou no Brasil em abril de 1956. Ele ingressou na Faculdade de Direito da USP um ano e oito meses depois de chegar no Brasil sem falar português, sem ter dinheiro nenhum e sem conhecer ninguém. A minha mãe nasceu no Egito. Ela, o irmão e os pais saíram de lá na época do Nasser, quando foi nacionalizado o Canal de Suez, e os judeus, principalmente, mas também pelo fato de serem cidadãos franceses, foram expulsos e tiveram muito pouco tempo pra se retirar do país. E os judeus nessa condição eram levados pra Gênova, na Itália, onde eles ficaram durante alguns meses, até conseguirem um visto, a princípio o meu avô tentou obter um visto pra vir pro Chile, que tinha uma prima que morava lá, mas houve burocracia pra conseguir esse visto e alguém falou do Brasil, que era um país que estava acolhendo os imigrantes. E surgiu essa possibilidade e conseguiu um visto pro Brasil e eles vieram pro Brasil. Ela foi trabalhar na Faculdade de Direito da USP, foi funcionária da USP, aposentou, minha mãe é viva e o meu pai é falecido. O meu irmão Ricardo é dois anos mais novo e o mais velho, que tem dez anos a mais, que é o Guilherme.

A lembrança que eu tenho da infância, eu tenho da Rua Lisboa, ali em Pinheiros, e eu morei ali até os oito anos de idade, tenho alguma vaga lembrança disso. Estudei no Colégio Dante Alighieri desde o jardim de infância até o ensino médio, entrei no Dante com cinco anos de idade e morava lá na Rua Lisboa, me lembro vagamente, de brincadeiras na rua. Sempre fui um menino muito estudioso, na escola eu sempre fui um menino muito estudioso, era uma criança muito tímida, uma criança muito travada, com dificuldade de sociabilidade. Naquela época tinha, eu me lembro lá na Rua Lisboa, isso eu tenho a lembranças, que tinha, eu gostava, tinha a coisa de brincar de rodar pneu na rua, e a molecada brincava e ficava todo sujo, com aquela coisa de rodar pneu, tinha os carrinhos de rolimã também, que era bem perigoso. Eu sempre gostei de futebol, jogava junto com a turma lá, a gente sempre ia passar férias no Guarujá, na praia, desde criança, desde muito pequeno, e lá tinha uma turma de amigos, e a gente sempre jogava futebol na praia.

Eu tenho lembrança da escola, inclusive do Jardim, eu me lembro que tinha uma professora, que era muito bacana, a Professora Márcia. Óbvio que são lembranças vagas, distantes, mas eu lembro desde o Jardim, lá no Dante Alighieri, o jardim, o pré-primário. Estabeleceu-se uma relação muito forte porque foi uma escola em que eu vivi desde os cinco anos de idade até os 17, então toda essa coisa da infância, da adolescência lá, uma relação muito forte com a escola, era um lugar que vivia muitas descobertas, muita intensidade ali. As coisas das aulas, ocupava uma parte importante realmente da minha vida, eu lembro bem. Eu tive alguns amigos na escola, e tive amigos lá no Guarujá, tem um amigo, que é amigo de infância, que eu tenho contato até hoje, mas de vez em quando a gente se vê, que é o Henri, nós somos amigos acho que desde os quatro, cinco anos de idade até hoje, e é amigo lá do Guarujá. O Marcelo, o Fábio, lá do Guarujá também, outro dia a gente até marcou um jantar e nos reencontramos. E no Dante, eu vivi várias fases de amigos, tem uma turma que eu tenho amizade, me encontro até hoje de vez em quando, o Marcelo Araújo, o Gregório, o Renato Rangel. O Marcelo Araújo, inclusive, ele estudou comigo desde o primário até o final e depois fizemos faculdade juntos, fizemos Direito na USP, estudamos juntos e tenho contato até hoje, ele é advogado. Então mais ou menos essas pessoas que eu tinha mais amizade, mais proximidade.

Era pra eu ter passado numa posição muito boa no vestibular, mas no dia da prova, eu não sei exatamente porque, mas eu gostava de poesia e me deu na veneta a ideia de na redação escrever uma poesia e não era permitido e eu tirei dois na redação, isso me derrubou. Se eu tivesse tirado um sete na redação, que óbvio que eu tinha condição de tirar, eu teria passado entre os cinco primeiros, mas, como eu fui muito bem no geral, então, mesmo com essa nota baixa, e naquela época o vestibular, as matérias tinham pesos, redação tinha peso oito pra Direito, então isso me derrubou a média geral. Mesmo assim eu passei numa posição intermediária, tinha acho que 450 vagas, eu passei em duzentos e pouco, não fui lá pro fim, agora, se tivesse tirado um sete, um oito, passava entre os primeiros, com certeza. Mas fiz a travessia, entrei na USP com 17 anos e toquei em frente, continuando na pauleira, porque fazia o curso de noite, trabalhava o dia inteiro, então era bem cansativo.

Surgiu essa oportunidade de fazer o estágio no Ministério Público, fui estagiário do Antônio Herman Benjamin, que é hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça, uma pessoa muito inteligente, muito culto, muita vivacidade, e aprendi bastante com esse estágio. Logo no início do estágio, já me identifiquei com a carreira, a visão do promotor de justiça, percebi que aquele era o meu caminho, percebi a minha vocação de trabalhar nesta dimensão, de defender a sociedade, de procurar fazer um trabalho voltado pra promover transformação, pra trazer justiça de uma forma coletiva e numa carreira pública. Então me identifiquei muito rapidamente e não tive a menor dúvida, tanto que não prestei nenhum outro concurso, eu só prestei concurso pra promotor de justiça, e fiz estágio lá por um ano, na promotoria criminal, e comecei a estudar. Terminei a faculdade, me dedicava ao estudo, estudava dez horas, 12 horas por dia, com o edital do concurso na mão, no primeiro concurso quase passei, fui até a fase oral, no segundo concurso eu passei, entrei no Ministério Público com 23 anos de idade, aliás, esse mês eu completo 23 anos de carreira.

Eu já passei por praticamente todas as etapas da carreira de promotor, o início da carreira, o primeiro cargo que a gente ocupa é de promotor de justiça substituto, a carreira de juiz é exatamente igual, juiz substituto, o substituto, ele é um tapa buraco. Então um promotor saiu de férias, então alguém tem que cobrir esta lacuna, ou a promotora está de licença maternidade ou houve uma promoção, o cargo está vago, então no início da carreira você pode ser designado pra atuar em qualquer cidade do estado. Então são períodos curtos, de 15 dias ou de 30 dias, em que você vai cobrindo esses buracos, como você chegou ali e tem que assumir o trabalho, você não conhece o acervo, você não conhece os processos. O processo chega pela primeira vez, então você tem que saber do que se trata aquilo ali, você nunca manuseou, é diferente de você está há cinco anos trabalhando num lugar, você já conhece os teus casos. No início da carreira eu trabalhei no litoral, trabalhei em Santos, trabalhei em Vicente de Carvalho, ali na região periférica do Guarujá, trabalhei em Itanhaém, trabalhei em Mongaguá. Então foi um período inicial da minha carreira e assumi como titular numa pequena cidade no Vale do Ribeira, cidade de Juquiá, uma cidade paupérrima, de uma região que não tem atividade econômica, as pessoas vivem do plantio do chá, da banana, do palmito, então muito analfabetismo, muito problema social, muitas ruas não asfaltadas, as pessoas não têm acesso à educação, uma série de problemas. Pra você ter uma ideia, não tinha hotel na cidade, eu dormia no fórum.

Eu me casei durante o concurso, então tudo aconteceu nessa, aos 23 anos fui promotor, casei, no ano seguinte fui pai. Então esse começo da vida profissional realmente foi assim, mas, como eu estava entusiasmadíssimo com a carreia, nada parecia inatingível, todos aqueles processos, tudo pra mim eram descobertas, era extremamente prazeroso. Mesmo diante da dificuldade, e há uma dificuldade especial ali, porque é uma cidade pequena e tem um promotor, então não tem um colega do lado pra trocar ideia, você tem que encontrar o caminho, encontrar a solução. Então fiquei também, graças a Deus, apenas dois meses vivendo isso, e fui pra cidade já da Grande São Paulo, que era Itapecerica da Serra, que foi o período mais longo, eu fiquei lá três anos e dois meses, mas de uma intensidade de trabalho brutal. Uma cidade muito violenta na Grande São Paulo, muitos homicídios, e ali eu era promotor que atuava no júri, então eu fazia os processos de homicídio de seis municípios, além de Itapecerica, Embu das Artes, Taboão da Serra, Embu-Guaçu, Juquitiba. Quer dizer, era uma região que tinha muita criminalidade, muita violência, um juiz complicado, com quem eu trabalhei, que não respeitava muito promotor, então exigia muito de mim.

Mudamos pra São Paulo, eu me promovi pra São Paulo, fiquei trabalhando três anos e tanto lá, realmente muito trabalho, e, quando viemos pra São Paulo, eu fui trabalhar no júri em Santo Amaro. Comecei a lecionar na faculdade, na UNIP, e uma etapa que começava a diminuir um pouco a loucura do trabalho, porque havia muito trabalho, mas não se compara. Eu lido com comunicação dentro do Ministério Público já há 15 anos, fui assessor de comunicação e percebi esse gosto por lidar com isso e me envolvi em outra jornada de trabalho, que foi a jornada do Movimento do Ministério Público Democrático, que é uma associação, que no ano que vem completa 25 anos de vida, na qual eu tenho atuado com muita intensidade. Aliás, dá pra fazer uma entrevista toda sobre essa jornada, mas, resumindo, é uma entidade que nasceu em 1991, com o objetivo de aproximar o Ministério Público da sociedade, de educar em Direito, educação popular de direitos, então desenvolve muitos projetos de formação de líderes comunitários, seminários, debates, participa de movimentos como o movimento que culminou com a aprovação de Lei de Acesso à Informação Pública, Lei da Ficha Limpa. Tem um envolvimento profundo com o combate à corrupção, difusão do discurso do respeito aos direitos humanos, então há uma atividade bastante intensa e profunda. Eu me identifiquei muito com a causa do Movimento do Ministério Público Democrático e me envolvi, atualmente sou o presidente, espero que seja o último mandato, porque não é razoável que uma entidade dependa de uma única pessoa. No doutorado fui orientado pelo Professor Miguel Reale Júnior, que foi Ministro da Justiça, e defendi a minha tese de doutorado em 1994, na Faculdade de Direito da USP. Até que em 2012, já dando um grande salto, eu idealizei e lancei uma campanha nacional de combate à corrupção

Os meus filhos, eu não tenho nenhuma dúvida de que os meus dois filhos representam o que eu fiz de melhor em toda a minha vida. Eu tenho muito orgulho dos meus filhos, eu tenho amor, muito carinho pelos meus dois filhos. Eu fui pai muito jovem, eu me casei muito jovem e fui pai muito jovem, a minha filha nasceu quando eu tinha 24 anos, a Ligia, que hoje tem 22, e o meu filho Rodrigo nasceu, eu tinha 26 anos, ele tem hoje 20. Eu sempre procurei ser um pai presente, participativo, dividindo os ônus com a minha então esposa, mãe deles, presente na vida escolar deles, acompanhando tudo, até que eles chegassem a adquiri a independência. Mas, por outro lado, além de ser uma coisa indescritível do ponto de vista do que isso representa, de uma nova vivência, de uma nova responsabilidade, o sentimento de amor, de ter trazido ao mundo duas pessoas pelas quais eu tenho grande responsabilidade e quero que sejam pessoas do bem, que construam boas coisas e, mesmo os amando infinitamente, e é uma coisa pra sempre, mas eu também sempre tive muita clareza de que eu precisava cria-los para o mundo.

Normalmente de manhã eu procuro fazer uma atividade física, eu faço exercício com um personal que vem até a minha casa, faço exercício com ele três vezes por semana, nos outros dias procuro fazer uma caminhada, alguma coisa neste sentido. Como todo mundo, eu estou conectado na internet, nos e-mails, nas mensagens, interagindo com as pessoas, eu sou uma pessoa muito ligada na comunicação, estou o tempo todo interagindo, me comunicando com as pessoas, acompanhando o que está se passando dentro desse universo de preocupações que eu tenho. Vou todos os dias, atualmente, faço meus processos e cuido das coisas do MPD lá na sede do MPD, que é a ONG que eu sou presidente, então fica no centro da cidade, eu vou pra lá, eu cuido dos meus processos, preparo os meus pareceres, cuido dos projetos do MPD, cuido das parcerias, das reuniões e tudo mais e no final do dia volto pra casa. Moro sozinho, meus filhos vêm de vez em quando, mas moro sozinho, atualmente não estou namorando, depois que eu me separei tive algumas namoradas, mas neste exato momento não estou namorando. Levo uma vida social, saio bastante, tenho os meus amigos, de vez em quando viajo, leio, cuido bastante dessas coisas nas quais eu acredito, desses projetos, procuro fazer a minha parte.

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