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História

Na Fundação eu fui

História de: Ana Cleide Souza de Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

Sinopse

Infância em Olímpia. Vida como estudante. Entrada na Fundação. Vivências na adolescência. Início da vida profissional. Vida como escriturária. Jornada como diretora na sua escola de infância. Graduação como pedagoga e trabalho com liderança de equipes. Valorização da educação. Atendimento de Deficientes Visuais na área de informática e pioneirismo. Viagens para conhecer outras sedes da Fundação.

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História completa

P1- Ana Cleide a gente começa pedindo que por favor você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R- Meu nome é Ana Cleide Souza de Castro. Eu nasci em 17 de fevereiro de 1965, e o local que eu trabalho hoje é Osasco. O local de nascimento? 

 

P1- É, pode ser, pode dizer.

 

R- É o local que eu trabalho... Eu nasci em Manduri, São Paulo. E o local que eu trabalho hoje é Osasco.

 

P1- Manduri é interior de São Paulo?

 

R- Manduri é interior de São Paulo. 

 

P2- Qual região?

 

R- É região de Cerqueira César, fica naquela região. É uma cidade bem pequena...

 

P2- Paranapanema, ali?

 

R- Isso, que praticamente poucas pessoas conhecem. Quando eu digo que nasci em Manduri aí o pessoal fala: “mas onde é isso?”. Agora, a minha cidade de paixão é Olímpia. Assim, desde pequena eu fui pra Olímpia, e de Olímpia pra Campinas, então eu passei uma parte da minha infância em Olímpia. 

 

P1- E o nome dos seus pais, Ana Cleide, qual é?

 

R- O meu pai, Marcos de Souza. E minha mãe Maria de Lourdes (Zen?) de Souza. Meu pai é falecido e minha mãe viva.

 

P1- Onde eles nasceram?

 

R- O meu pai nasceu em Ipaussu, São Paulo e minha mãe, Cerqueira César.

 

P2-  Na mesma região, ali?

 

R- Na mesma região de Manduri.

 

P1- Quais as atividades deles?

 

R- A minha mãe, quando ainda solteira, era empregada doméstica, e depois que se casou ela foi dona de casa a vida toda. Meu pai trabalhou em vários segmentos, né? Mas quando ele se aposentou ele estava trabalhando no Bradesco e era zelador de prédio. Minha mãe é uma pessoa leiga, não sabe ler nem escrever, mas conduziu a educação dos filhos. No caso, a minha vida toda eu ouvi da minha mãe que era importante o estudo, que era importante, que pra ser alguém eu tinha então que tá estudando. Isso não foi muito necessário a briga de pai e mãe, porque eu sempre vi isso também como um grande objetivo na minha vida, tanto o meu objetivo como dos meus quatro irmãos também. 

 

P1- Ela mora em São Paulo?

 

R- Ela Mora em Campinas, porque eu moro em Campinas. Então ela cuidou dos meus dois filhos pra que eu tivesse condições de alavancar a minha carreira profissional, de estudar. Então ela sempre cuidou dos meus filhos. 

 

P1- Certo.

 

P2- E dos seus avós, você se lembra?

R- Dos meus avós? Olha, eu conheci os meus avós paternos, né? Minha avó Maria e o meu avô Francisco. Mas assim, nós não tivemos muito contato porque ainda quando estava muito pequena eles faleceram. E os meus avós maternos eu não os conheci, mas, porque a minha mãe é uma pessoa muito presente na minha vida, eu sei muito deles. Então, a minha avó Francisca e o meu avô Arnaldo são pessoas... e ela conta da luta que eles tiveram na época também morando em Cerqueira, né, de todas as dificuldades que eles tiveram para formar os filhos, enfim. Então, parece até que tem uma influência dos meus avós maternos embora não os tenha conhecido.

 

P1- E as atividades deles, eles contam, o que que eles faziam na região?

 

R- Sim. Tanto o paterno como o materno, eles eram agricultores, trabalhavam em sítios e produziam. Produziam pra família e vendiam a produção. Mas nunca sítios de posse deles, sempre de alguém ou arrendada a terra para fazer a produção. 

 

P1- Os colonos, né?

 

R- Isso. Então eles vêem da área agrícola, né?

 

P1- Certo. Tem irmãos Ana Cleide?

 

R- Tenho. Tenho quatro irmãos. Sendo que três são... duas mulheres e dois homens. 

 

P2- Os nomes?

 

R- Ana Cristina, Márcia, Márcio e Marcos. Minha mãe não teve muita criatividade [risos]. Ela fez uma seqüência, né, de Anas. Eu tenho um irmão também que trabalha na Organização há mais de 27 anos, ele trabalhou no Banco durante 26 anos, e há um ano ele está trabalhando na Fundação também. É diretor do Internato de Bodoquena.

 

P1- A sua infância, como era a casa onde você morava, Ana Cleide?

 

R- Olha, eu sou apaixonada pela minha infância, né. A minha infância foi curta porque eu comecei a trabalhar muito cedo e comecei a lutar muito cedo pela vida, mas assim, o pouco que eu tive da minha infância... Tanto que eu preservo a casa dos meus pais até hoje em Olímpia, porque ainda sinto o cheiro da minha infância naquela casa. Então a minha infância foi toda em Olímpia, brincando com os meus irmãos e os amigos da rua onde eu morava, brincadeiras de rua mesmo. Na época nós não tínhamos acesso nenhum como hoje o jovem, a criança tem. Então assim, nenhum tipo de brinquedo eletrônico, nada de informática. Era brincar de casinha, brincar de pega-pega, brincar de ser professor, né? Eu tenho muitas saudades da minha infância. Eu, assim, hoje com 40 anos, se eu pudesse eu teria tentado prolongar um pouquinho mais a minha infância até mais do que 12 anos, né? Porque ela foi dos 12, 13 anos já sendo interrompida para estudar a noite e para produzir e pra ajudar meus pais. 

 

P1- E como era o dia a dia da sua casa?

 

R- Na minha casa? Bom, na minha casa o dia a dia era assim: a minha mãe trabalhando muito para dar conta de todo o serviço, colocando os filhos também nessa rotina de que cada um teria que ter um compromisso dentro da casa. Na época eu olhava o meu irmão mais novo, que é o Márcio. Então assim, eu tinha uma tarefa dentro de casa, depois fazia a lição né, ou as obrigações da escola. E eu tive uma vida muito saudável, assim, de pai e mãe, embora no fim da vida eles não vivessem mais juntos. Mas eles preservaram essa questão da família. Então assim, a rotina era essa, aí eu dormia cedo, hoje é totalmente diferente. Eu faço até um paralelo muito com relação o que era a minha infância, o que foi a infância dos anos 1980, 1990, e a de hoje. Eu fui totalmente diferente, dormia bem cedo, acordava muito cedo, já pra começar a fazer essa rotina de casa. 

 

P1- Suas brincadeiras preferidas, quais eram?

 

R- Brincadeiras preferidas? Eu gostava de brincar de casinha, eu adoro boneca, até hoje, né, eu adoro boneca. Gostava de brincar de que eu era professora, ensinar os meus amigos que eram menores do que eu. Eu gostava muito de brincar de ser freira. Era uma coisa meio assim, até hoje todos falam: “nossa que estranho Ana Cleide!”, mas eu gostava porque a cidade de Olímpia é muito religiosa, ela tem uma cultura muito religiosa, né? Aliás, ela é a Capital do Folclore. E assim, na época tinha muitas freiras que vinham da Itália para desenvolver o trabalho de catequese e eu gostava de ficar junto com essas freiras quando era de sábado e domingo. Então, também era uma diversão pra mim. E eu brincava, eram as brincadeiras, assim, prediletas. 

 

P1- Como você brincava de ser freira?

R- Colocava os paramentos, né, como eles falam na religião, assim um tecido e abria a Bíblia, tentava ensinar pras crianças, né? [risos] Era tipo uma catequista mesmo. 

 

P1- Alguma lembrança marcante, mais marcante dessa época, Ana Cleide?

 

R- Mais marcante de brincadeiras?

 

P1- É do geral dessa sua infância, importante? 

 

R- Do geral? Eu acho que, assim, o que mais marcou foi meu pai e minha mãe ter que retirar essa infância que eu estava tendo, e que eu gostava muito, muito cedo. Porque em 1978... 1976 nós nos mudamos para Campinas porque em Olímpia não tinha nenhuma universidade eu já estava na 6° série terminando, indo pra 7° série, e meu irmão já terminando o ensino médio. Então eu fui retirada dos meus amigos, essa é uma lembrança triste, eu diria, né? Depois chegar em Campinas, conhecer novos amigos, isso foi difícil. Mas uma lembrança feliz, que eu acho que é bastante agradável, é que já naquela época eu tinha vontade de crescer, eu queria... Eu não ficava pensando só na brincadeira,né? Eu achava, assim, que eu queria trabalhar num escritório, queria fazer datilografia na época, e eu fiz já ainda pequena. Eu queria ser uma executiva. Então, isso é legal porque hoje eu me sinto uma pessoa realizada. 

 

P1- Como era a cidade que você morava, Olímpia?

 

R- É a cidade mais linda do Brasil.

 

P1- Onde você nasceu você lembra alguma coisa?

 

R- Pouco... Não. Eu acho que fui duas vezes lá depois de adulta. Então, assim, eu vou sempre em Olímpia. A cidade, ela cheira a terra.

 

P1- É?

 

P2- Como ela era naquela época, assim, na sua memória? As lembranças de sua infância vista de hoje.

 

R- Nossa! Olha... [risos]

 

P1- Bom. Nós gostaríamos que você continuasse a dizer como era Olímpia no tempo da sua infância.

 

R- Olha, Olímpia é apaixonante, ela é apaixonante. Olímpia na época da minha infância, ela tinha, assim, todas as ruas ainda eram de terra, não haviam prédios, era uma cidade, assim, também agrícola, a maioria das pessoas trabalhavam na terra, plantando, colhendo. É uma cidade, o forte é a laranja e cana de açúcar. Tem muitas usinas de cana de açúcar, de laranja. Então, ela, na minha opinião, assim mesmo como criança, eu sentia um cheiro de alimento da terra. É uma cidade que cheira a terra vermelha, sabe? Tem até assim, algumas escritoras que escrevem que lá é uma terra de formigueiro porque as pessoas que chegam, elas vão se agrupando e toda a família vai pra lá, que é uma cidade muito gostosa de morar. Ela era uma cidade pequena, hoje deve ter acho que 60 mil habitantes, na época tinha 30 mil habitantes. Já era uma cidade que tinha um trabalho muito forte na área de arte ou na área de educação artística. E trazia muitas apresentações do Brasil para a cidade de Olímpia, por isso ele se tornou a Capital do Folclore, né? A minha professora de educação artística ela é idealizadora do projeto da questão do folclore em Olímpia. Então assim, eu tive uma cultura muito boa nesse sentido, né, de conhecer a cultura do Brasil, as lendas, as danças, não só de conhecer pelo fato dessa minha professora desenvolver o conteúdo em sala de aula, mas também de ter contato com os grupos folclóricos, né? Então assim, eu sou apaixonada por Olímpia. 

 

P1- E a sua adolescência... 

 

R- A minha adolescência...

 

P1- ...foi com esse contato todo? Como foi?

 

R- A minha adolescência foi: eu cheguei em Campinas na sexta série, terminando a 6° e iniciando a 7° série. Fui morar perto de uma fazenda que era do Banco Bradesco e que tinha recentemente inaugurado uma escola, a escola da Fundação Bradesco de Campinas. Então, eu fui no balcão da escola sozinha e perguntei: “tem uma vaga na 7° série?”, a secretária disse: “tem!”. Eu fiquei, falei, “nossa! Vou estudar numa escola...”. Assim, já era uma escola diferente de todas as que eu já tinha estudado em Olímpia, escolas estaduais e municipais, e eu fiquei super... Aí eu entrei na escola na 7° série, e ali eu constituí meu primeiro grupo de amigos da adolescência que muitos hoje trabalham na Organização ainda, outros trabalham em outros lugares mas que ainda a gente tem algum contato. E a minha adolescência começou na verdade dentro da fazenda do Bradesco. Aí comecei a minha vida. A minha vida toda depois ela foi dentro da Organização, sempre tem o Bradesco junto, porque eu cresci, me formei na 8° série, na primeira turma de formandos da escola de Campinas. Fui fazer o ensino médio, o antigo segundo grau fora da escola, porque não tinha naquela época já trabalhando no Bradesco. Dia 10 de Março de 1979 depois de estar dois anos em Campinas eu fui escolhida para trabalhar no Banco Bradesco, porque fui uma aluna de destaque de 7° e 8° série. 

 

P1- Ana me diga uma coisa, você conhecia a Fundação ou não?

 

R- Não. Eu nunca...

 

P1- O que te levou a procurar lá naquela escola? O que te motivou?

 

R- Eu tenho uma família que eu chamo de “família bradescana”, tem muitas pessoas, meus tios, meus primos, muita gente, a minha família praticamente inteira trabalhou no Bradesco. Mas nós conhecemos o Banco Bradesco, eu nunca tinha, assim, ouvido falar que existia uma escola dentro da Organização.

 

P1- Mas do Banco sim?

 

R- Sim, do Banco Bradesco sim.

 

P1- Você já tinha essa informação?

 

R- Sim, porque em todos os lugares que a gente ia tinha um Banco Bradesco, né? Mas quando eu cheguei na cidade de Campinas eu fui morar justamente próximo ao Banco Bradesco para que nós tivéssemos condições de algum dia de trabalhar no Banco Bradesco, já era um projeto de vida. E a Fundação tava ali do lado. Mas assim, eu achei, eu falei, “puxa, vai ser difícil, acho que são só os filhos de funcionários.” Eu fui sozinha mesmo, né? Minha mãe inclusive, por ela não saber ler e escrever, às vezes ela tinha vergonha de ir nas escolas, e eu ia primeiro, né? Então eu conheci assim, eu nunca tinha ouvido falar na Fundação. 

 

P1- Com quantos anos, Ana Cleide?

 

R- Com 12 anos.

 

P2- Uma perguntinha: quando você foi morar lá e chegou o que é que as pessoas falavam da Fundação, da escola? O que é que você ouviu falar?

 

R- Tá. Bom, quando eu cheguei em Campinas, meu pai ele arrendou um pedaço de terra na frente da Fazenda Sete Quedas pra cuidar de alguns gados e aí ele produzia, tirava leite e vendia pro pessoal da região. Então, eu ouvia dizer, “olha, ali tem uma escola, uma escola galpão”, que era chamada a escola, porque a Fundação, ela não fazia divulgação da escola, porque não... Hoje eu entendo o porquê, porque a divulgação, a propaganda sou eu, que sou ex-aluna da Fundação. Então eu entendi depois, mas assim, não tinha divulgação da escola. Então, eu ouvia o pessoal falar que a escola era muito boa, que tinha bons professores, que não tinha falta de professor, que dava, oferecia uniforme, merenda escolar, e que era tudo de graça. Era essa a fala das pessoas que já estudavam, né, dos pais, das mães que falavam da Fundação Bradesco, os meus primos já estudavam na Fundação Bradesco. Era isso que era falado, porque na época os pais deles eram funcionários, na época, quando me parece, levou a célula do Banco do Bradesco pra Fazenda Sete Quedas, a Fundação existia para atender os funcionários de dentro da Fazenda, e acabou atendendo aquela região ali da frente onde moravam crianças bastante carentes, inclusive de uma favela, chamava Jardim Icaraí, que depois se transformou em bairro influenciado pela transformação da escola mesmo. Então, era isso que eu ouvia. 

 

P2- Agora só um pouquinho, só voltar mais um pouco na adolescência, que eu achei que foi tão pouco [risos].

 

R- Foi.

 

P2- Assim, como é que foi para uma menina sair de todo um universo mais tranquilo daquele interiorzinho e ser jogada já numa cidade grande? E como é que foi formar, tentar formar um outro círculo de amizades numa idade em que é super importante ter amigos, né?

 

R- Olha, veja bem. Como nós fomos morar num local que ainda era chamado de... na verdade era ainda muito rural, que era ali próximo a Fazenda, dava Km 3,5 da Via Anhanguera, da Estrada Velha de Indaiatuba. Então, eu não morei no centro de Campinas. Eu fui ter contato com a cidade grande de Campinas depois que eu me formei na Fundação Bradesco na 8° série e que eu também fui, assim, não tinha como, eu tinha que sair e ir pro uma escola estadual, aí eu fui estudar na Escola Culto a Ciência no centro de Campinas, aí sim eu tive contato com uma cidade grande. Eu tive dificuldade de ver aquele monte... Era um monte de carro passando pra lá e pra cá. Então, assim, andar nas ruas, pegar transporte escolar ou transporte, no caso, ônibus, né, circular, para retornar pra casa. Mas eu tinha tido já um suporte dos meus amigos da 8° série que foram junto comigo também. Eles vinham, nós vínhamos, né, na verdade, da fazenda pro centro. E aí eu fui ter contato com o cinema, que não tinha ainda, com o teatro, porque Campinas, hoje tem mais de 1 milhão de habitantes, naquela época já era muito grande a cidade e oferecia... Já existia a Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], a PUC-Camp [Pontifícia Universidade Católica de Campinas], eram as duas universidades, hoje tem mais de 8 universidades dentro de Campinas. Então esse contato foi assim. Aí eu comecei a namorar muito cedo, né? Lógico porque era esse ambiente que eu tinha, né? Então, namorei já com 15 anos, com 19 anos me casei e já tive o meu primeiro filho com 20 anos. Então a minha infância foi muito curta, e a minha adolescência eu acho que foi muito curta também, né? Mas foi muito gostosa. Eu conheci tudo isso e foi muito rápido, né, muito rápido, mas muito gostoso. 

 

P2- Tem algum caso interessante, alguma memória, evento dessa época de adolescente com a turma? Coisas de jovem. [risos]

 

R- É. O que foi interessante? Quando nós chegamos da Fundação Bradesco na escola Culto a Ciência levamos um susto enorme, primeiro com o tamanho da escola, e também com o comportamento dos jovens que lá estavam. Então eles fumavam dentro da escola, e a gente até achava assim, “nossa!”, a gente, “que que é isso?”. A gente achava super estranho porque na Fundação nós éramos, era um oásis, ali a gente não via nada disso na nossa faixa etária. Então assim, foi esse choque e também o choque de logo depois, toda quinta e sexta feira a partir da terceira aula o pessoal saía e a gente ficava, né? [risos]. A gente ficava e era um mico, hoje, né? A gente pagava um mico, vamos dizer assim, porque o pessoal falava: “nossa quem são esses ET´s que chegaram?”, éramos nós, da Fundação Bradesco. Mas assim, o orgulho pra gente hoje é que todos nós fomos, fizemos a universidade. Então, tem pessoas no teatro, tem pessoas que são jornalistas, tem profissionais que foram para a área da administração, da economia, da contabilidade, do direito, da educação. Todos nós tivemos um... nós éramos diferentes mas na verdade eu acho que valeu a pena. Então era assim, foi esse choque, o choque de cultura de adolescência mesmo, né? Porque lá na Fundação os nossos professores diziam assim, “olha, lá na escola, no ensino médio, leia até o rodapé do livro”, e a gente chegou e se deparou com uma outra realidade, né? Iniciando os anos 1980 já com uma mudança do jovem que queria uma liberdade sem limite eu acho. 

 

P1- E voltando um pouquinho. Você iniciou os seus estudos como e quando, em Olímpia?

 

R- Sim. 

 

P1- Como foi? Você lembra da primeira escola?

 

R- Na época, a educação infantil hoje, ou a pré-escola, ou o acesso, na época, como era chamado, não era regulamentado, então era num galpão eu ia com 6 anos de idade para aprender a me comportar junto com as outras crianças, né? Ainda não tinha uma alfabetização, eu me lembro pouca coisa que era delicioso. Não tinha nenhum tipo de compromisso com tarefa de casa mas era muito gosto. Era um galpão de Olímpia e algumas pessoas faziam trabalho solidário de ficar com as crianças para que elas aprendessem a conviver com as outras. 

 

P1- Isso antes da primeira série?

 

R- Antes da primeira série. Aí na primeira série eu fui pra escola Santo Seno que era uma escola tradicional de Olímpia, na verdade tinha duas escolas, né? E eu tive uma professora excelente na primeira série, é a professora que eu tenho, assim, uma recordação enorme, ela se chamava Regina, foi a minha professora de primeira série. Aí ela me ensinou a ler, a escrever, a gostar de leitura, de livros. Nós sentávamos ainda em duplas, as carteiras eram duplas, né, aquelas carteiras bem... E depois segunda, terceira, quarta série, eu passei pra quinta série para uma outra escola vinculado ao Colégio Santo Seno também. 

 

P1- No Santo Seno como era o dia a dia da escola?

 

R- Ai! Era gostoso demais. Era uma escola, assim, que tinha bastante ordem, disciplina, eu sou bastante ligada nessas coisas, né? Então era ótimo, eu gostava muito. Os professores davam as aulas e a gente saía pra intervalo. Eu, nossa, essa parte eu curtia muito, saía e a gente brincava num tapete verde que tinha na escola. A gente pegava e fazia uns escorregadores com caixa de papelão e a gente brincava muito, era meia hora de intervalo. E assim, o que me marcou muito nessa época foi que, quando na época tinha formatura de quarta série, eu não conhecia a diretora porque a diretora ficava dentro de um gabinete e a gente nem sabia quem ela era. E no último dia de aula ela pediu que a minha mãe fosse, e eu fiquei “nossa, meu Deus o que aconteceu!”, né, “era algum problema!”. Só que aí foi... Nossa! Minha mãe chegou e ela quis que eu entrasse junto com a minha mãe, quando nós nos sentamos ela foi parabenizando a minha mãe pela a educação que ela tinha me dado, né, pela formação que ela tinha dado também. E que ela por saber quem, “mas quem é Ana Cleide?”, ela foi descobrir também que a minha mãe era leiga, e ela falou assim, “Poxa, mas como a senhora conseguiu transferir toda essa formação para tua filha? Sendo... não sabendo ler nem escrever”. E eu me lembro que a minha mãe falou, “olha, mas trabalhando nas casas das pessoas antes de me casar eu vi que era importante ter educação, saber se comportar e eu fui passando tudo isso pra Ana.” E eu fiquei toda orgulhosa da minha mãe, né? Muito mais orgulhosa da minha mãe do que de mim mesma. Então foi um momento muito marcante na minha vida de... até a quarta série. E minha mãe saiu muito orgulhosa, ela não soube ler o que tava no diploma que eu recebi, eu li pra ela e ela chorou bastante, ela falou, “nossa, uma diretora conversando comigo.” E depois eu vim a saber que ela conversou só com a minha mãe, porque ela queria conhecer e saber como uma mãe que não tinha leitura, tinha conseguido. Porque minha mãe não podia me ajudar nas lições, então eu ajudava a mim mesma, eu buscava as informações. Então isso foi marcante, isso foi muito interessante. 

 

P1- Sua mãe deve ter ficado muito feliz.

 

R- Muito feliz, minha mãe ficou muito feliz, né? Ela chegou a dizer assim, “poxa vida, eu...”. Minha mãe tem uma história, a primeira boneca dela chamava Ana Cleide, depois que minha mãe contou que eu quis saber a história do meu nome, e ela falou: “é, foi a minha primeira boneca.” Então a gente tem uma ligação muito grande, uma afinidade muito grande, eu e minha mãe, minha mãe com todos os filhos. Minha mãe é mãe mesmo. 

 

P1- E esse professor... Essa professora, foi a professora que lhe marcou...

 

R- Foi.

 

P1- Essa da primeira série.

 

R- Foi.

 

P1- Sua lembrança mais forte da escola, algum caso especial é esse da sua mãe com a diretora?

 

R- O mais especial é esse. E depois um professor de matemática da oitava série, já na Fundação, professor Mitsuro, um japonês, ele era bem, assim, rígido, ele era muito rígido e era muito eficiente. Eu tenho algumas dificuldades na área de exatas, eu sou muito mais a área de humanas, de comunicação e expressão. E ele me ensinava de uma maneira muito especial que às vezes eu tinha... Eu me lembro que uma vez que eu errei 2 e 1 eu coloquei 4. Aí ele falou, “não Ana Cleide, você não se preocupe porque depois de repente quando você tiver lá na universidade, se você for alguém da área de física ou de matemática, de repente você prova que 2 e 1 pode ser 4!” [risos]. Aí assim, então ele me dava muita força nisso porque eu era muito dedicada, as minhas notas eram razoáveis em matemática, não porque eu dominava mas porque eu sempre estudava. Então, ele também me marcou por ser uma pessoa assim dura e rígida e em alguns momentos me dá essa força, né? Me dizer assim, “olha, fica tranquila esse é um erro...” e eu depois ficava, “mas como, somei 2 e 1, 4, é uma absurdo! 2 mais 1, errei!”, né? Então ele também me marcou. Mas assim, depois dele, na universidade, no ensino médio, infelizmente eu não tive nenhuma marca grande. 

 

P1- Esse período de Fundação, de quando a quando você foi aluna da Fundação?

 

R- Eu fui em 1978 e 1979 quando já me formei, né? Então, por esse histórico de vida mesmo, por ter vindo para Campinas, porque se eu conhecesse a Fundação eu acho que mesmo criança eu falaria pro meu pai e pra minha mãe “vamos!”, né, onde tem a Fundação. Então assim, estudei em 1978 e 1979, eu fiz a sétima e a oitava série, foi muito bom, tive excelente professores.

 

P1- Como foi pra você ter sido aluna da Fundação?

 

R- Bárbaro! Foi a minha vida mesmo. Porque assim, aí eu comecei a perceber que os meus sonhos eles podiam ser realidade, se transformar em realidade, porque assim, como que eu seria uma pessoa que teria uma mesa, naquela época ser escriturário ou ter uma mesa era muita coisa. Como eu seria sem a Fundação? Eu não conseguiria porque meus pais eles não podiam dar estudo pra mim. Tanto que quando eu entrei na universidade o meu pai chorou e disse assim, “olha Ana, eu não vou poder te dar um lápis”. Então assim, eu sabia que eu tinha que fazer toda a minha parte mesmo, ou seja, estudar, adquirir os livros de uma forma ou de outra. Então eu vi na Fundação a condição, porque lá eu tinha biblioteca, me davam o lápis, a borracha, a caneta, a régua, o caderno. O que eu precisava só fazer era ter vontade de estudar, e isso eu tinha muita vontade. Então assim, eu vi que alguém podia me proporcionar alguma coisa pra eu chegar lá, mas eu tinha que fazer a minha parte também, foi isso a Fundação. E aí era realmente uma escola pequena que tinha duas salas de aula, só. E assim, eu tinha vontade de trabalhar naquela escola, mas também nunca imaginei que um dia seria diretora dela. Então foi uma sequência de sonhos realizados que valeram muito a pena. 

 

P1- Você assinou a declaração de princípios?

 

R- Sim.

 

P1- De próprio punho? Como foi?

 

R- Escrevi a declaração...

 

P1- O que você achou? Como foi a sua impressão? 

 

R- Olha, eu achei de uma grandiosidade você declarar algumas coisas, né, de compromisso. Então, hoje ela não existe mais, né? Por mim ela existiria. Nós estamos vivendo uma outra geração onde alguns valores foram, não alterados, mas vistos de uma outra maneira. Mas assim, eu implantaria novamente, porque eu assinei com orgulho. Acho que regras, normas elas devem existir para que haja condição de se perpetuar aquilo que é bom, que eu acho que no caso é a Fundação. A minha escola, por exemplo, eu gostava de cuidar da minha carteira, do meu espaço porque eu sempre falei, “poxa, alguém vem, meu colega vem estudar.” Não podia nunca imaginar que meus filhos pudessem estudar na mesma carteira que eu estudei. Porque são as mesmas carteiras mesmo, nós preservamos essas carteiras. E aí isso é... Nossa, isso é tudo pra mim, né? Então a Declaração de Princípios tinha tudo isso e era um acordo, né? E acho que quando a gente faz um acordo com a criança, com o jovem, com o adolescente, com o adulto, se as partes tiveram de acordo, já que eu escolhi a Fundação, eu acho que tem tudo pra dar certo.

 

P1- Até que... Você estudou um curto tempo ali? Aí você saiu, como foi essa passagem?

 

R- Isso. Eu saí, porque nesta escola não tinha o segundo grau. Eu me formei na oitava série, aí divulgaram, “o Banco está contratando pessoas e vão dar prioridade para os ex-alunos da Fundação que tem boas notas”. Eu fui correndo e fiz a ficha, né? E fui selecionada e fui admitida. 

 

P1- E como funcionária do Banco Bradesco?

 

R- Como funcionária do Banco Bradesco. Eu fiz aniversário pra completar 14 anos em 17 de fevereiro e dia 10 de março eu já era funcionária do Banco. Nossa! Aí como funcionária e fui para o ensino médio, na época era segundo grau, ainda sem nenhum curso técnico, era propedêutico, né, ensino de segundo grau. Porque eu queria fazer a faculdade. Aí eu ficava pensando qual é a faculdade que eu devia fazer, o curso pra ter um progresso dentro da empresa, será que é economia, administração? Porque na verdade um primeiro sonho que era trabalhar na Fundação tinha sido, assim, desviado, porque o Banco, então estava dentro da área financeira. E eu pensava sim que eu queria ir para uma agência, eu queria chegar a gerência de uma agência. E não era pra ter poder nem pra ter condição financeira, não, era pra crescer e dar oportunidade pros outros também virem. Eu queria falar pros outros, “olha, dá certo,” né, “se programe, estuda, você vai conseguir por você mesmo.” 

E aí eu fui pro ensino de segundo grau. Tive, fiz três anos e já dentro da Organização eu fui convidada pra fazer uma breve substituição na escola e fiquei e estou até hoje na Fundação. 

 

P2- E a turma? Como que era a sua turma dos dois anos de Fundação?

 

R- Nossa, a minha turma era super unida, né? Nós tínhamos, assim, como eu disse, tem várias pessoas que a gente tem contato até hoje, né? Helena, Ana Rita, Valter, tinha o meu grupo, né, o meu grupo eram dois homens porque eu falo muito. [risos] Então, eles faziam a parte escrita, eu fazia o resumo porque eu sei resumir bem, e lógico que eu apresentava. Então era um grupo, era o Osmar e... Eu tô tentando lembrar o nome do outro meu amigo do grupo também. E assim, era uma turma muito unida a gente... Por quê? Porque nós fazíamos educação física fora do horário, então nós saiamos das nossas casas, eles da Fazenda e eu trans, né, vinha da outra, do outro local ali na frente. Então nós íamos juntos fazer educação física. Na época a Fazenda ela dava leite, cedia leite para os funcionários, então nós íamos no estábulo buscar leite, e aí a gente aprendia também a tirar leite. Era tudo dentro da Fazenda, então nós tínhamos algumas atividades diferenciadas do currículo das outras escolas, por exemplo, administração doméstica, as meninas aprendiam a cuidar da casa, porque naquela época nós éramos educadas para ter uma vida dentro de casa, né? Então assim costurar, pregar botão, fazer a barra, cozinhar. E os meninos iam pra artes industriais, então fazer pequenos consertos, fazer uma troca de tomada, consertar um ferro de passar. Depois já quase no finalzinho da oitava série o currículo alterou, nós nos unimos, meninos e as meninas. 

 

P1- Juntaram tudo.

 

R- Juntamos. Eles aprendiam o que nós aprendiamos com exclusividade e nós tínhamos acesso a essa parte elétrica também. Foi muito bom. Depois, tanto que hoje é uma outra história, né? A gente tem uma outra história nessa área. Mas era muito bom. Aí naquela época já dentro da Fazenda pensava-se em fazer alguma coisa com abelhas, apicultura. Nós não chegamos a ter esse acesso, mas os outros alunos depois que vieram eles tiveram. 

 

P1- Você começou no Banco com que função Ana Cleide?

 

R- Escriturária. Eu era escriturária, na verdade era o cargo e a função era ____. Primeiro eu separava documentos, nós estávamos montando o arquivo de documentação do Banco Bradesco. Então todos os documentos das agências ia pra lá, aí a gente separava ficha modelo 69, ficha... Aí separavamos e fazíamos uma cronologia desses documentos. Mas assim, logo em seguida, depois de dois ou três meses surgiu uma vaga no escritório. Meu sonho, tudo que eu queria, ter uma mesa e operar uma máquina eletrônica. E aí eu fui operar Telex, né? O que hoje é e-mail na época era aquela máquina enorme de operar Telex. E eu era a mais rápida, eu era também muito organizada, e eu fiquei muito tempo ali já assessorando, na época era o gerente departamental, eram quatro secretárias, eu uma delas... Aí já constituía o meu primeiro sonho. 

 

P1- E depois como surgiu a Fundação? Dali você voltou pra Fundação?

 

R- Sim, aí a secretária da escola ela ficou... Eu acompanhava a Fundação Bradesco através dos encontros que a gente fazia como aluno, ex-aluna, e eles sempre queriam saber como nós estávamos fazendo o segundo grau, se tava indo bem, qual era  a dificuldade que nós tínhamos, e tinha esse contato, até porque eu trabalhava dentro da Fazenda no Banco. E a secretária entrou em férias no final de 1982 e eu fui substituir a secretária. 

 

P1- Da Fundação?

 

R- Da Fundação Bradesco. A secretária que assinou toda a minha documentação como aluna, que era a Elisabeth. Aí eu substituí. Então, foi assim um desafio, porque eu não tinha, eu não sabia nem o que era uma transferência, compor um prontuário de aluno. E aí eu fiz o trabalho também com bastante sucesso. E no final da licença gestante dessa secretaria, a diretora, que era a Cleide de Lourdes Campaner, ela que foi a minha diretora, ela falou, “não, agora você vai ficar aqui na Fundação, nós vamos,” né, “você vai ficar como secretária.” Então em novembro de 1983 eu passei pra Fundação Bradesco como secretária. Fiquei até 1987 como secretária, participando, então, de toda a parte burocrática que faz âncora dentro da escola, documentação de aluno, admissão de professor, documentação de funcionário, comunicados, aquela parte burocrática de secretaria. Acesso a legislação de ensino, contato com a coordenadoria de ensino do interior, Ministério da Educação. Toda essa parte burocrática de legislação. Em 1987 a escola já estava com o ensino médio, já começava a atender o seguimento do técnico, do curso técnico, da educação de jovens e adultos. Então ela tava já ampliada e criaram mais um vice-diretor, né, nós chamamos de assistente de diretor. E aí eu fui convidada, já quase que concluindo o curso de pedagogia, pelo meu desempenho, ainda sem a conclusão. Fui convidada a ser a assistente de direção administrativo. Aí fiquei 1987, 1988, 1989, 1990, 1991 eu assumi a escola quando a professora Ana Luiza veio pra Fundação. E a professora Ana tem uma história, ela foi minha professora também na oitava série, ela me dava, ela ministrava o conteúdo de Orientação para o Trabalho, né? E aí depois ela foi minha professora, foi minha orientadora enquanto eu era secretária, depois era diretora enquanto eu fui vice, e depois quando ela saiu eu fiquei na direção da escola. 

 

P1- Orientação para o trabalho era uma matéria?

 

R- Era uma matéria. Era P.I.T., Programa de Informação para o Trabalho. Era na verdade...

 

P1- Era currículo do Bradesco. Essa matéria existia no currículo...

 

R- Na época...

 

P1- ...da Fundação?

 

R- Sim. Na época era uma área terciária, que você tinha como opção dentro da oitava série, ministrar um conteúdo. E o Banco Bradesco, a Fundação Bradesco, pelo que eu acompanho e pelo que eu sempre ouvi e, assim, li da história do Banco, é o estudo para o trabalho. Então, era a orientação para o trabalho, foi a opção da Fundação. Poderia ter sido outra, mas foi essa a opção. 

 

P1- Da Fundação?

 

R- Da Fundação. 

 

P2- Como é que foi pra você, assim, entrar para trabalhar na escola e ter como colegas de trabalho todas essas pessoas que você já tinha visto como aluna?

 

R- Olha, pra mim, é uma coisa assim, eu às vezes ainda eu penso que foi um sonho, e eu sei que é realidade. É, eu sempre resumo a minha vida como a minha vida dentro da Fundação Bradesco. Porque assim, é como você disse, como é que você se viu ali trabalhando na escola depois na secretaria com alguns colegas que sentaram com você na sala de aula. Depois os meus professores passaram, de uma maneira ou de outra, também a participar da minha equipe de trabalho, ou seja, eu ia lá e coordenava reuniões e olhava “nossa, mas ali foi o meu professor de educação física”. Era uma coisa muito... muita satisfação. Eu ficava muito orgulhosa e sempre dividia isso que eu só podia estar ali, primeiro porque a Fundação me proporcionou e depois porque eu tive também muitos amigos e uma equipe muito forte do meu lado, né, desde a sala de aula, depois até conquistando algum espaço dentro da própria Fundação Bradesco. Então, era uma coisa assim, que fugia até... Eu nem sei definir isso. É meio complicado até hoje, né? Hoje, por exemplo, quando eu sento às vezes numa mesa de reunião e eu vejo que eu posso dar a minha opinião e alterar alguma coisa ou mudar um percurso. Eu dizia pros meus alunos, quando eu ia pra sala de aula pra falar alguma coisa, que assim, o maior orgulho meu como diretora era poder fazer algumas coisas que eu sonhei na carteira. Às vezes como aluna eu sonhava que - nossa! - Eu poderia talvez falar para o professor que poderia ser assim, eu poderia falar pra ele que dá certo assim também. E eu pude fazer isso, né? A Fundação me deu uma formação continuada muito boa, e me deu também a liberdade de colocar em prática os meus sonhos, os meus ideais, os ideais que eu acho que são muito importantes dentro da educação. Então assim, foi muito bom. 

 

P1- Você teve um trajeto não muito linear. Você foi ao banco, houve interesse na área financeira já bem definido para ser (secretária?) nos escritórios, e depois isso acabou caindo na Fundação. Essa mudança de trajeto foi fácil, foi difícil? Como é que foi que você definiu a sua carreira, “vou fazer pedagogia?”

 

R- Não, não foi fácil não, foi difícil. Porque assim, também numa idade muito... Com 18 anos...

 

P1- Claro.

 

R- 17, 18 anos eu já tinha que...

 

P1- Definir.

 

R- Eu estava entre o Banco e a Fundação e já tinha que definir. Se eu fizesse pedagogia dentro do Banco, lógico eu poderia ser uma excelente caixa, talvez uma subgerente, mas eu teria que ter um conhecimento enorme na área financeira que eu não teria como pedagoga, eu teria que fazer economia, eu teria que fazer administração, gestão de negócios, alguma coisa voltada da área de administração, o que eu gosto muito até hoje e o que eu acho que me ajuda também até hoje na questão da educação. Mas quando eu cheguei na escola, e como eu disse, né, rever as pessoas, saber que depois de 12 anos eu poderia ver alguém que entrou na educação infantil, saindo com a certificação e depois retornando e dizendo: “Ana Cleide, deu certo! Eu estou na empresa.” Eu sabia que era com gente, com pessoas que eu ia trabalhar, que talvez fosse muito mais importante pra minha carreira profissional não transferir a fila do caixa que tá muito grande daqui pra um outro caixa, ou dividir, ou conquistar alguma coisa dentro da área financeira, mas assim, ver a formação das pessoas. Então isso daí foi fato, eu logo falei: “vou fazer pedagogia, vou investir na minha carreira, nesse curso, é nesta área que eu quero, eu quero trabalhar com gente, com pessoas, e trabalhar com elas, trabalhar para que elas cresçam, passar isso que eu tenho dentro de mim também pra elas”. 

 

P1- Aí você era funcionária da Fundação Bradesco...

 

R- Aí eu era funcionária.

 

P1- De aluna você era funcionária. O que era, o que você acha que representa no passado e atualmente ser funcionária da Fundação Bradesco?

 

R- No passado? Até, assim, até a minha carreira ainda enquanto assistente de direção era ainda assim, eu ficava bastante ansiosa por realizar todas as atividades, ter bons resultados na escola e achava assim, “bom, vou ser diretora dessa escola”. Pensava, lógico, porque eu penso que tem que ser assim, não que eu quisesse tomar o lugar de alguém, eu queria que as pessoas que fossem os meus gerentes, os meus líderes, eu queria que crescesse, eu queria ajudar, ser suporte pra eles. Não queria nunca que eles saíssem para um desligamento, nunca pensei assim. Eu queria que eu fosse um suporte para que eles crescessem e que tivesse, lógico, uma chance de estar. Então assim, a diferença daquela época pra hoje, agora, depois de ter passado 12 anos é a de ter realmente concluído um ciclo. É um ciclo, né, dentro da escola que você inicia com a criança na educação infantil e termina com ela no ensino médio, ou seja, a criança com seis anos e depois o adulto com 18, 19 anos se ele faz o curso técnico. É uma coisa assim, é uma realização. Às vezes eu penso assim, eu estou trabalhando... Eu estou trabalhando? É muito prazeroso o meu trabalho, né? E às vezes até incomoda algumas pessoas, eu dizia que trabalho muito mas que sou muito feliz, né? Eu realmente eu adoro fazer o que eu faço.

 

P2- E os desafios da trajetória? Tem algum desafio que assim, foi o grande desafio? Porque a gente percebe que a Fundação é um desafio atrás do outro, né, é uma sequência. Mas qual foi aquele desafio que você fala, olha, esse eu venci, eu fui...

 

R- O grande desafio? É que assim, quando você dirige uma escola, no caso, as pessoas acham que você tem que saber de tudo, né? O diretor tem que conhecer tudo sobre a matemática, a química, física, a língua portuguesa, porque ele vai estar ali. Então o grande desafio eu me lembro que em 1995, 1996, ainda no auge do curso técnico, eu trabalhava com pessoas extremamente técnicas, então eram professores que davam aula de eletrônica, eletricidade, desenho técnico, eletrônica aplicada, análise de circuitos. O grande desafio era entender toda essa diversidade e ainda estar lá muito jovem na direção falando com os doutores da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], a USP [Universidade Estadual de São Paulo], dando orientação, porque eles aguardavam de mim uma diretriz, lógico que não para a disciplina específica deles. E aí às vezes eu ficava pensando assim, “Meu Deus, e agora, como é que você se organiza, Ana Cleide, como é que você sai dessa?”, né? E aí assim, o grande desafio era chamar a equipe e falar: “Olha, eu ainda tenho dificuldade nisso”. Aprender com a equipe, estar junto com a equipe e fazendo com ela era o meu grande desafio e um medo enorme de decepcionar os mais de 100 funcionários que ficavam comigo em Campinas. Hoje eu tenho aqui comigo a equipe com 12 pessoas, mas eu tinha uma equipe com mais de 100 funcionários, e as pessoas, até hoje nós conversamos sobre isso. Elas cresceram comigo também e elas me ajudaram muito a crescer, porque elas também ficaram nesse mesmo, com essa mesma vontade de fazer e querer crescer. Então, esse eu acho que foi o grande desafio, assim, como diretora dominar todos os assuntos. E isso é muito difícil, até hoje é muito difícil. 

 

P1- O que mais mudou na Fundação Bradesco dentro dessa sua trajetória profissional, na sua opinião?

 

R- O que mais mudou foi que a Fundação Bradesco ela é, 50 anos eu penso que ela é jovem. Ela é uma instituição jovem. E ela tem hoje um número de alunos 107 mil alunos, mais do que 107 mil. São 40 unidades espalhadas pelo Brasil todo. Eu comecei quando a escola tinha duas ou três unidades escolares. Então o que é que ela mudou? Primeiro, eu acho que ela fez uma expansão no Brasil, ela não tem hoje uma responsabilidade social. Ela tem uma responsabilidade social e política, porque ela tá dentro do Brasil todo. Então ela distribui, na verdade ela, a mão de obra que trabalha no mercado do Brasil todo, muita gente vem da Fundação. Então assim, o que ela mudou, ela conseguiu nesses 50 anos acompanhar todos os códigos de modernidade da educação. Nós passamos por várias alterações de legislação 4.024, 7.044, depois outras a 5.692, são legislações. E depois veio essa última legislação, né, de 1986 que altera todo o currículo, que dá uma autonomia pra escola. E a Fundação Bradesco buscou essa modernidade, ela colocou em todas as suas escolas laboratórios de informática, dá muito suporte ao inglês, mesmo o inglês de sala de aula. Faz grandes projetos com linguagens diferenciadas dentro da escola, Global English. Faz a escola da Fundação ser aberta e ser solidária dentro das outras escolas, das escolas estaduais, traz os professores das escolas estaduais para dentro da escola. Ela mudou muito, ela acompanhou, na verdade, eu acho, que toda a modernidade necessária, buscou fora do país, muitas coisas para serem analisadas e não serem só implantadas, mas pensadas e modeladas pro que a Fundação precisava. Dentro da cidade de Osasco nós temos uma grande escola, e lá no Tocantins, em Conceição do Araguaia, no Norte, no Nordeste, no Sul, no Sudeste, Centro-Oeste, buscando as peculiaridades, isso é... A Fundação é muito, né?

 

P2- A gente percebe pela pesquisa que a Fundação é pioneira em muitas coisas, né?

 

R- Sim.

 

P2- Inclusão, cidadania. Você poderia mostrar algumas coisas em que ela se antecipou, algumas pérolas da Fundação, algumas coisas em que ela até serviu de modelo?

 

R- Olha, a Fundação Bradesco é realmente pioneira, eu acho que, em muitas coisas, eu vou resumir uma das coisas que eu tive muito orgulho em implantar em Campinas, foi atender os deficientes visuais na área de informática, né? Nós tínhamos já um trabalho no Brasil com Voz Vox, se eu não me engano, e depois a Fundação se parceirizou com a Micro Power e fez um sistema de inclusão de D.V.s [Deficientes Visuais], assim, maravilhoso através do Virtual Vision, né, que é um software bem avançado e que o som é muito bom, bem audível, proporciona uma condição de o D.V. voltar ao mercado de trabalho ou entrar no mercado de trabalho. E em Campinas, no caso, como nós tínhamos, nós temos uma comunidade de D.V.s bastante grande o trabalho da escola foi muito interessante. Muitos D.V.s que já estavam no mercado estavam, assim, praticamente lá na empresa na mesa parado porque a empresa não conseguia articular esse profissional e ele foi, ele teve o curso e ele teve acesso. Então a inclusão de D.V.s na área digital, isso eu achei assim um pioneirismo incrível. A questão da inclusão digital da maneira que ela é realizada hoje os CID's, Centro de Inclusão Digital, onde esses centros chegam, eu tenho certeza, é pioneiro também. Então nós temos centro dentro de favelas, dentro de tribos indígenas, existem outras trabalhos, mas como é o da Fundação Bradesco é realmente pioneiro. Nós somos pioneiros também quando o Brasil, dentro do Ministério da Educação, faz alguma alteração, nós buscamos implantar essa alteração, acreditar na alteração, naquilo que o Brasil tá acreditando que será melhor pra educação, nós somos pioneiros nisso também. Então muitas coisas das quais o próprio governo ainda não implantou nós já andamos, e já caminhamos, já implantamos e já tá dando muito certo dentro da sala de aula. 

 

P1- A Fundação, você comentou que na sua época tinha duas, na sua época de aluna tinha duas salas de aula. Ela teve um crescimento grande num curto espaço de tempo. Quantos alunos, Campinas hoje, a Fundação tem?

 

R- Hoje, nós atendemos em Campinas mais de quatro mil alunos em todos os seguimentos, da educação infantil ao ensino médio, técnico, pós-médio, formação profissional inicial, né, formação inicial do profissional que são cursos de curta duração, educação de jovens e adultos. Campinas tem hoje um atendimento de mais de quatro mil alunos. Na época nós tínhamos 170 alunos, quando nós começamos, por isso chamado até de uma escola de galpão, né? E depois para conseguir fazer com que a escola aumentasse a gente até buscava os alunos, né? Até a própria professora Ana Luiza entregava folheto no terminal central de Campinas. Hoje a concorrência por uma vaga é uma verdadeira loucura, todos querem ter o seu filho estudando na Fundação de Campinas, porque todos conhecem a qualidade do ensino da escola. Então lá nós crescemos de duas salas para 14 salas, nós temos hoje laboratório de informática em dois níveis, para a comunidade e para o aluno com uma plataforma, assim, excelente, de acesso a internet. Laboratório de eletrônica, nós mantemos ainda em Campinas, uma biblioteca com mais de 35 mil acervos. Salas de aula totalmente equipadas para que o aluno tenha condição, para que o professor tenha condição de ministrar as suas aulas e que o aluno tenha o melhor aproveitamento. Lá o espaço é lindo porque era dentro de uma fazenda, e continua sendo, sendo ainda dentro de uma fazenda. Então, tem tudo que é importante para o crescimento das crianças, né? E nós temos agora inaugurado o Bradesco Instituto de Tecnologia, que é o BIT, que fica com células da Microsoft, da Sysco, que foi agora inaugurada com a maioria de ex-alunos que estão trabalhando como estagiários, ou estágio universitário, ou estágio mesmo, do curso técnico. Então houve um crescimento, assim, enorme em pouco tempo na cidade de Campinas. 

 

P2- Só uma coisa. Durante a sua fase, assim, aquela coisa, puxar a lenha para... mas assim, quais as realizações na sua época de diretora que você achava, "essa eu tenho orgulho de ter feito", "eu levei - eu não - eu e a minha equipe a gente conseguiu fazer isso". Dá pra você...

 

R- Em termos profissionais, né? 

 

P2- É.

 

R- Olha. É um grande orgulho fazer com que vários cursos fossem implantados. Alterar o ensino na época técnico de três anos para quatro anos. Ficava muito orgulhosa, porque o centro educacional aqui Osasco apoiava muito a escola e a equipe que hoje a gente chama de time de Campinas, e as outras unidades também, é que eu estou falando de Campinas, mas acreditar muito nessa equipe, porque os resultados eram muito bons. Então assim, o sucesso dos alunos era sempre muito, muito festejado pela nossa equipe, um aluno que entrava na Unicamp era como se nós entrássemos também na Unicamp. Então, quando saía a divulgação, nós ligamos na casa: “vem aqui!” E a gente falava: “Olha. Ele entrou na Unicamp!” Mesmo se fosse um aluno da turma, era mais, sempre era mais. Então o sucesso dos nossos alunos era muito o nosso sucesso, e às vezes as derrotas, que elas acontecem e nós também nos preocupávamos, aí íamos para dar força e tudo mais. Então assim, a escola é uma escola muito bonita nós temos muitas telas que foram pintadas pelos alunos nas aulas. Então, era muito bom participar de uma aula de arte ver uma reprodução, hoje já não reprodução, uma autoria própria. Alunos que saíram e foram para a área de música e que estão muito bem hoje na área de música, por exemplo, um orgulho de Campinas que eu senti esta semana: Na segunda-feira em recebi um convite de uma apresentação musical que foi dia 14 agora com os alunos da escola de Osasco, professor Rafael Tomás, meu ex-aluno da escola de Campinas, e lá nós temos, eu não sei hoje exatamente, mas nós já tivemos turmas de 280 alunos no violão e ele era um desses alunos, ele tem o dom lógico, mas dentro da escola ele descobriu. E aí ele foi pra escola de Tatuí que é uma escola muito renomada de música no Brasil e está dentro da Unicamp, estudando Música também. Então assim, quando eu estava lá, era muito gratificante. A gente buscava dentro das universidades os nossos talentos para ver como eles estavam. Antes deles irem nós íamos lá conhecer a universidade para que eles fossem conosco ver ela, nós trazíamos os empresários de Campinas para conhecer a nossa escola, e saber qual era o aluno que a gente estava formando. Então, num determinado momento a gente recebeu, em um dia, 280 empresários dos mais variados setores de Campinas para mostrar a escola pra eles. Então, isso era um orgulho pra mim, era o nosso trabalho, era o meu trabalho também, porque é lógico que algum momento eu idealizava isso, às vezes assistindo um programa de tv, eu via alguma coisa, e dava um insight e eu ia lá. Então, eu sonhei isso como aluno também, se um dia o empresário tivesse dentro da escola, ele ia buscar o talento dentro da escola. Então, eu fazia isso acontecer, a minha, a nossa escola de Campinas, ela sempre foi muito aberta a esse tipo de trabalho, e é claro que a nossa equipe, os nossos orientadores, os nossos professores, eles se motivavam muito, acredito essa motivação que eu tenho, eu tentava fazer com que eles se motivassem, e o meu cansaço era bem menor, porque eles estando motivados aí dividiam comigo a responsabilidade desses eventos. Então, hoje em Campinas, nós temos pessoas assim bem empregadas, muito bem formadas, que são ex-alunos, não é raro nós estarmos numa junta trabalhista, no ministério de qualquer segmento, e aí quem vai nos atender, né, “olha, puxa, sou ex-aluno me formei lá, né?”. Então, isso é muito gratificante.

 

P1- Na época haviam vagas, sempre sobravam vagas? Por que a professora Ana Luiza, por exemplo, fazia esta distribuição de, como era montado essa distribuição de folhetos no terminal que você citou?

 

R- Olha, veja bem, a escola implantada em Abril de 1975 é como eu disse, quando eu fui procurei a escola no final de 1976 para entrar na sétima série, as pessoas de Campinas, elas ainda não acreditavam muito, porque era uma escola iniciante de galpão mesmo, né, por quê galpão? Porque nós temos um pátio coberto grande, o que aparecia, o que era maior, o pátio com duas salas de aula. Então as pessoas não procuravam a escola e o núcleo de funcionários não atendia a todas as vagas que a escola disponha. Então, tinha que buscar fora. Na época, a professora Ana, eu não me recordo bem já como professora, mas logo orientadora tinha que fazer a divulgação e muita gente não queria, porque não acreditava no trabalho mesmo, porque a Fundação Bradesco, mas o Bradesco não é banco, né? Agora, hoje a Fundação Bradesco... O presidente da empresa quer que o filho estude na Fundação Bradesco, porque hoje realmente a Fundação é um ícone na educação.

 

P1- Alguma história de transformação de vida que lhe tenha marcado mais assim desse período?

 

R- Olha. Tem muitas histórias, mas a história que mais marca é a transformação da minha vida.

 

P1- Da sua própria vida...

 

R- Da minha vida, eu sou o que hoje, eu tenho o que eu tenho, tudo que eu tenho de material, mas principalmente da constituição da minha formação. Tudo isso ocorreu dentro da Fundação. Na Fundação eu fui criança, eu fui adolescente, eu fui adolescente adulta, eu me casei concebi meus filhos, estudei meus filhos na Fundação Bradesco, construí toda a minha vida na Fundação Bradesco. Então a Fundação mudou a história da minha vida, eu penso, eu sempre penso como seria, talvez, a Ana Cleide se ela não tivesse saído de Olímpia. Então, eu vejo assim, uma alteração total da minha vida. Agora dos meus ex-alunos, nossa, tem tanta mudança de vida, de pessoas que moravam dentro de locais assim, é totalmente desprovido de qualquer saneamento básico, de casa que não tinha porta, que eu visitei antes de ser atendido e que hoje tem a casa, tem um carro,  trabalha, pode ter passado pela Organização, já ter trabalhado, mas conseguiu também, porque hoje, por exemplo, você diz que trabalha no Bradesco, os empresários também querem um ex-funcionários do Bradesco, porque é diferente trabalhar no Bradesco. Eu acho que é uma coisa assim muito... Eu sou uma pessoa que falar do Bradesco e da Fundação é complicado, porque realmente eu gosto muito. Então assim, tem muitas transformações de vida. Eu me lembro de um caso de um pai que veio no balcão da escola assim chorando, e era um caso de um pai que tinha marcado a vida de Campinas, ele trabalhava na Fepasa [Ferrovia Paulista S/A] com manutenção de trens, e no acidente ele perdeu os dois braços, e eu me lembro assim que eu estava na secretaria e ele falando a história, já no momento de 1994 e 1995 que a gente não tinha muita vaga ou vagas disponíveis e o filho dele ia pra sétima série e ele estava desesperado no balcão contando e a menina ficou muito assim, a garota, a pessoa que estava atendendo falou: “Espera só um minutinho que eu vou ver se Ana Cleide pode atender o senhor.” Quando eu vi, ele veio e colocou a vida dele e o filho tava do lado, eu falei: “Olha, nós não temos a vaga, realmente nós não temos, mas vamos mapear até o início do ano letivo e quem sabe, surge essa vaga.” E depois esse garoto ele foi atendido, foi bem sucedido como aluno. Mas assim aquilo foi uma história de vida bastante, que até no dia da formatura o pai veio e falando: “Ana Cleide, vocês mudaram... O que é que eu posso dar pro meu filho, nada.” É então, a Fundação deu a condição dele entrar no mercado de trabalho  enfim muitas histórias.

 

P1- E qual era a ligação de Campinas como era com São Paulo, tem alguma lembrança do senhor Amador Aguiar, por exemplo?

 

R- Do senhor Amador Aguiar? Bom. Eu tenho sim, porque ele foi algumas vezes na escola, né? Na época, como eu disse, eram poucas escolas, eu me lembro do senhor Amador no pátio da escola conversando com alguns alunos. Os alunos sempre tinham curiosidade de saber por que que ele havia perdido uns dos dedos, né, eu não sei de qual mão, mas é um dos dedos, e aí ele sempre falava, sempre brincava com algumas coisas, mas na verdade ele perdeu na gráfica, trabalhando. Eu me lembro disso e dele ser um homem iluminado. Quando nós recebemos na escola de Campinas a primeira ministra da Inglaterra Margareth Thatcher, eu me lembro que ela falou uma coisa muito marcante quando ela viu a escola, quando ela veio através de uma outra Organização pro Brasil e ela soube que ela ia conhecer uma escola. Porque a Fundação não procurou, a assessoria dela nos procurou pra conhecer, porque ia ficar muito próximo à fazenda do Bradesco. Ela disse que veio pra conhecer uma escola de fazenda, e ela viu ali uma escola, assim, comparada à escola do país dela, eu diria que era as melhores escolas comparada a Inglaterra. Ela disse assim: “Olha, essa pessoa que fez, que idealizou a Fundação Bradesco, deve ter sido um homem que sonhou muito alto, ele sonhou tão alto e ele conseguiu voar tão alto e criar isso, assim realmente um homem que sonhava e idealizava.” A história que eu sei dele é essa, que ele queria que se criasse uma escola onde as pessoas que não tinham oportunidade para ter uma chance na vida pudessem estudar e ser alguém, e eu, assim, se ele fosse vivo hoje eu diria pra ele: “senhor Amador, o senhor fez isso.” Eu sou um exemplo vivo disso, né, e muitos, mas muitos, ex-alunos da escola da qual eu dirigi e de hoje onde eu estou, que eu vejo no Brasil, realmente ele fez isso.              

 

[troca de fita]

 

P1- Ana Cleide, qual um caso pitoresco que você tenha para contar ao longo desses anos todos de trabalho, e como foi essa trajetória passada e agora atualmente como está a sua trajetória profissional? Você tem um caso engraçado desse tempo todo, pitoresco, assim?

 

R- Um caso engraçado? Pitoresco? Puxa, olha assim, eu não me lembro assim desse momento de alguma coisa que possa figurar um caso pitoresco. Normalmente as pessoas que chegavam na escola, quando elas, eu não sei se isso é engraçado ou não, eu me sentia assim, né. Às vezes o pessoal ia, “Eu quero falar com a diretora.", eu fui diretora muito jovem, né? Então, quando chegavam falavam assim: “Não é possível, mas você que é a diretora!”. Então assim... [risos].

 

P1- Com quantos anos?

 

R- Eu tinha, nasci em 1965 e assumi a escola em 1991. Então eu tinha 26 anos, né? Então, realmente eu era muito jovem, e aí eu ia mostrar a escola, aquele orgulho, a nossa escola tem isso, os nossos professores são mestrado disso. Então, a pessoa falava, “Nossa, mas eu...” 

 

 P1- Não é que era ela mesmo...

 

R- É ela mesmo. Então assim, isso foi. Um outro caso que eu acho interessante numa oportunidade uns diretores da Robert Bosch foram visitar nossa escola, e chegando na educação infantil nós tínhamos… Lógico, não que nós preparamos os nossos alunos para receber visita, mas nós nos organizamos, né? Foi interessante que nós tínhamos conversado com os alunos, as pessoas todas estarão com terno, até nisso eu achava que era currículo da escola, eu achava não, eu acho. Então, as crianças estavam todas esperando, só que naquele dia chegaram todos ternos de uma cor única e os alunos pequenos, um deles, o Lucas, eu me lembro bem o nome dele, ele veio correndo, há uns dois anos, há três anos atrás, na verdade, porque eu estava praticamente saindo pra vir pra Osasco, e ele veio correndo, quando eu vi o Lucas vindo, meu coração bateu e eu falei, “Meu deus, o que ele vai fazer” Ele chegou e falou: “Quero saber quem é o dono do Bradesco aqui.” [risos]. Aí estava os diretores, né, aí o diretor falou: “Só você falou, eu já sei, se tivesse falando em inglês não era, não era, não era.” O aluno de 6 anos. Então, foi muito engraçado, né? Esse foi um fato pitoresco. Aí depois de vir pra Fundação para o Centro Educacional, fui convidada pra fazer parte da supervisão das escolas, até pelo conhecimento que eu tenho como diretora, como assistente, como secretária, escriturária mesmo, pra fazer um trabalho de supervisão nas escolas. Na época eu já me sentia, assim, segura, por ter formado uma equipe para ficar dando continuidade ao trabalho meu, ao trabalho da Professora Ana Luiza, porque também era uma responsabilidade muito grande, já que eu dirigi uma escola da qual a minha diretora foi diretora. Então, eu tinha uma co-responsabilidade enorme, eu sempre tive um orgulho muito grande da minha melhor professora dentro da Instituição, dentro da Organização, Ana Luiza. Então, eu já sabia que poderia deixar e que a equipe, o time daria continuidade e com certeza mudaria, criaria, faria diferente, que tem que ser assim mesmo. Aí eu vim pro Centro Educacional como subgerente da área de supervisão, e assim, aí começou um novo olhar sobre a Fundação Bradesco que passei do micro olhar de Campinas, que eu nunca deixei micro, porque eu queria ver as outras escolas, eu articulava com os outros diretores da Fundação, não só da Fundação, mas das escolas particulares de Campinas, das instituições, eu meio que me infiltrava no meio dos professores das reuniões e participava das palestras, eu queria saber como estava lá pra fazer, alterar os percursos, dar idéias pra Fundação, aí chegar aqui e ver que tudo o que acontece em Campinas, acontece em outra dimensão em todos os pontos do Brasil, foi um crescimento nesses dois anos, eu tive um crescimento profissional enorme. Fiz minha pós-graduação em Gestão Escolar, né? Participei de vários cursos de Gestão Estratégica e aprendi sobre _____________, implantamos dentro das escolas os mapas. E assim, foi muito gratificante ir pro Sul, pro Norte, pro Nordeste, pro Centro Oeste, pro Mato Grosso do Sul, em Bodoquena, Canuanã no Tocantins, São Luís, Pinheiro no Maranhão, no Maceió, Natal, João Pessoa, Salvador, Irecê. As escolas que só tem núcleo técnico, Garanhuns que é vinculado a Jaboatão que são as escolas de Pernambuco, uma cidade, Jaboatão dos Guararapes, uma cidade muito pobre. Então assim, ver tudo isso acontecendo foi um crescimento muito grande no meu profissional e no pessoal também. E assim, quando está chegando nesses locais que às vezes eu demoro o dia inteiro viajando, depois de oito, às vezes dez horas, eu chego, e como eu identifico a escola, é muito interessante, isso é muito bom de se falar, quando você chega na rua e que você vai chegando perto ali da Fundação, é tudo muito organizado, muito arborizado, as escolas têm educação ambiental, a parte dos alunos estarem conservando a natureza. Então todas as escolas têm esta característica, é a bandeira, a bandeira do Brasil, a bandeira do estado, a bandeira da cidade, sempre aquela recepção todos. Então assim, eu também, lá em Campinas, eu pensava: “Será que tá acontecendo isso mesmo em tudo, em toda essa Organização.” E realmente isso acontece, é uma coisa muito mágica, é um trabalho do Centro Educacional, principalmente do Núcleo da Diretoria da Fundação Bradesco que é muito eficiente nesse sentido. Uma coisa interessante é que eu dizia pros meus professores de Campinas: “Trabalhar na Fundação é isso, é você acordar sete horas da manhã e saber que todos estão acordando, no Brasil todo, pra fazer um Brasil melhor.” Quando eu falava com os funcionários do Banco Bradesco sobre a Fundação, uma vez por ano nós tínhamos enquanto diretores uma reunião com a diretoria do Banco, onde todos os gerentes eram chamados, e eu, lógico, ficava na minha região, na cidade de Campinas, eram 500 gerentes do Banco Bradesco, o nosso presidente falava, agora senhor Márcio, antes senhor Brandão, e aí eles falavam dos seus objetivos. Eu sempre participava dessas reuniões em algum momento eu me levantava pra falar da Fundação, eu falava de números, eu falava do sucesso, mas no final eu dizia assim: “Olha, os funcionários do Banco Bradesco, a partir de hoje, tenham orgulho quando vocês acordarem para ir trabalhar no Banco, vocês não trabalham no Banco Bradesco só, vocês trabalham no Banco Bradesco que tem o maior braço social da América Latina e que faz acontecer educação de qualidade no Brasil, e é no Brasil inteiro.” 

 

P2- Só pra fechar sua fase em Campinas, como era a diretora organizando esses eventos, recebendo a Margareth Thatcher, esses eventos festivos, porque a gente sabe que é uma movimentação, né?

 

R- Eu formei uma equipe um time, bastante... eles se movimentavam muito bem em relação a isso. Então nós organizamos o evento, alguém pedia ou nós estávamos organizando sempre, encontro de ex-alunos da Fundação dos três últimos anos, dos dez últimos anos, encontro de pais, palestra para pais com o Doutor Içami Tiba, com o Doutor Ivan Capelatto, vamos fazer uma reunião com alguns educadores para falar com nossos professores, e receber Margareth Thatcher. Então, nós tínhamos uma equipe que chamava equipe de eventos, a gente se reunia num determinado momento fazia o check-list de tudo que tinha que acontecer, cada um saía com sua responsabilidade. Nos últimos três anos os nossos alunos também estavam incluídos nessa equipe, e esses nossos alunos, eles tinham inclusive uma equipe de foto, a equipe de reportagem, era bárbaro. Era um evento e a gente formava, e aí naquele dia, no determinado dia, estava todo mundo pronto pra receber, nós tínhamos a comissão de recepção, a comissão de apresentação dos espaços e os alunos nossos estavam sempre juntos nesse trabalho. Num momento nós recebemos a diretora de uma escola fora do país, não vou me lembrar também agora, não me lembro exatamente de que país, e ela veio sem a tradutora, o Rotary que trouxe, o Rotary de Campinas, e na hora, eu não falo ainda com fluência o inglês e não falava nada na época, eu tava começando a direção da escola, aí eu falei, eu chamei a secretaria, que a Juliana ________ que trabalha até hoje no Corpore de Campinas, e aí eu falei: “Juliana, eu tô com problema, localiza a professora de inglês.” E ela disse: “Não professora, não há necessidade, eu recebo a visita.” Então, foi assim, um orgulho, né, um orgulho ela ter recebido de forma super tranquila, e foi a tradutora, minha ex-aluna que hoje inclusive tá no Banco.

 

P1- Você é casada, Ana Cleide?

 

R- Sou.

 

P1- Qual o nome do seu marido, como você o conheceu?

 

R- É Alexandre Silveira de Castro. Eu o conheci no Ensino Médio. Quando eu estava fazendo o segundo grau, no primeiro ano que eu saí da Fundação, na sala de aula, e ele estudava comigo, eu o conheci, depois de quatro anos nós nos casamos.

 

P1- E o casamento foi em Campinas? Como foi o casamento, você era jovem?

 

R- Precisa falar?

 

P1- Não, não precisa. Você tem filhos, quantos?

 

R- Tenho, eu tenho, eu prefiro falar esta parte até porque eu tô, eu não...

 

P1- Quer uma água...

 

R- Não, não, não, tá tudo tranquilo, tá.

 

P1- Não? Fique a vontade.

 

R- Bom. Tenho dois filhos, resultado de um casamento feliz, tá. É o melhor resultado da minha vida pessoal, são dois meninos maravilhosos. O Mateus tem 20 anos, ele está hoje já na área que ele optou, dentro do Banco Bradesco na (Escopos?), ele faz manutenção de micros, ele é um orgulho, ele é meu orgulho. Os dois o Mateus e o Gustavo. Mas o Mateus já está no terceiro ano de análise de sistemas na PUC [Pontifícia Universidade Católica], é muito parecido comigo, né, assim no sentido de "eu quero ser, eu quero ser e tenho certeza que vou pela minha garra pela minha energia", é estudioso, não é um aluno nota dez em notas, nenhum dos dois, eles sempre falavam pra mim: “Mãe, eu sei que vou te decepcionar porque você é diretora da escola e eu não vou tirar dez.” Mas assim, eles são felizes, são alunos medianos, mas são ótimos filhos. O Gustavo é uma benção também, eles são bem grandes, eles têm dois metros cada um [risos].

 

P1- O Gustavo é mais velho?

 

R- Não, o Mateus tem 20 anos e o Gustavo tem 15 anos. O Gustavo está no segundo ano do ensino médio da escola de Campinas e não está trabalhando ainda porque ele não fez 16 anos, mas ele também tá como eu e o Mateus, logo, logo, ele já falou: “mãe, quando eu fizer 16 anos vou buscar estágio e depois já me vincular, eu quero trabalhar.” Então, assim, nossa são dois, duas perólas da minha vida.

 

P1- Alunos da Fundação?

 

R- Os dois. O Mateus ex-aluno fez desde da Educação Infantil até o Ensino Médio, pós-médio, técnico, são 13 anos dentro da Fundação, né? E depois entrou direto na PUC-Campi [Pontifícia Universidade Católica de Campinas] em Análise de Sistemas. O Gustavo também desde a Educação Infantil e agora tá no segundo ano do ensino médio. Nesta semana, dia 13, foi a formatura, a festa de encerramento do pré, aí eu até me emocionei quando eu fui falar com os pais, porque eu vou todos os anos, falo com os pais junto com a Diretora, porque também eu vi meus filhos lá, né, encerrando a educação infantil.

 

P1- Como foi ter, você foi aluna teve toda uma história e os filhos alunos?

 

R- Olha, é como eu disse...

 

P1- O que significou pra você?

 

R- Significou tudo. É porque assim também como, quando eu fui aluna, como eu disse, né, fui muito feliz, tive toda aquela passagem e depois como mãe dos meus filhos e diretora da escola que eles estudavam e que eles estudam até hoje, também tem uma co-responsabilidade muito grande na seriedade de decisões, né? Não só por isso, eu considerava sempre todos os alunos, não, lógico, eu não podia ser mãe de todos e não era, mas, assim, a responsabilidade de uma parte da formação estava sob o meu trabalho. Então, foi assim, muito, muito bom, em alguns momentos a gente tinha alguns conflitos, né? Porque eles, às vezes eles se organizavam na bagunça com alguns alunos, porque isto faz parte da escola, o aluno sai pro intervalo, eles jogam bola, eles brincam entre eles, eles brigam entre eles, tudo isso ocorre na escola, e eu lógico não queria que meus filhos, mas eles eram alunos. Então o Gustavo sempre falou isso pra mim: “Mãe, mas calma eu sou aluno.” Isso também era interessante, importante, porque também abria os meus olhos pra que o aluno que está lá, ele também é criança, ele tem a faixa etária dele e as ansiedades deles, e assim o diretor e os nossos professores também tem que tá atento pra isso. Então, foi muito bom, ter esse feedback do aluno, meu filho, né?

 

P1- E como era aí o relacionamento teu de mãe de aluno com a escola, ficava meu...

 

R- Mãe de aluno com a escola?

 

P1- E você conseguia administrar isso...

 

R- Eu...

 

P2- Mãe com a diretora

 

P1- É, a mãe com a diretora, você administrava isso...

 

R- É, eu vou falar pra você uma coisa interessante, nós temos durante todo o ano quatro reuniões que marcam a avaliação das escolas, da sala de aula em reunião com todos os professores. Então, enquanto eu estava olhando a nota de todos, preparando a pauta, o que é que nós vamos falar, o que é que nós vamos discutir com os professores, até aí eu era a diretora, eu até me esquecia às vezes que o meu filho estava naquela determinada série. Quando eu pegava a pasta e ia pra sala, “Meu Deus, o que eles vão falar do Mateus, o que vai ser dito do Gustavo.” É claro que eu participei, porque eu perguntava: “Filho, como é que foi?” Eu tinha que saber ouvir meu filho com relação aos professores que eram meus funcionários, né? E assim, eu fui sempre muito ética nisso, e eles foram éticos comigo também. Eles sabem até hoje, às vezes quando eles querem falar alguma coisa, no caso o Gustavo que ainda é aluno, ele tem cuidado, porque ele tem a visão dele quanto aluno, o professor está ali dando aula, quer dizer, o professor não pode ter receio, "o que é que ele vai dizer pra Ana Cleide", de jeito nenhum. Então, a gente foi muito transparente nisso, aí no corredor eu me lembrava e falava: “Meu Deus!” Eu sempre deixava os professores: “Vocês querem que até saia e depois vão falar comigo como mãe?” Não, e falavam sim: “olha, o Mateus tá disperso... Ana Cleide, ele não trouxe o livro.” Tá falando pra mim, eu tô dizendo que todos deverão trazer o livro, eu tô dizendo que todos deverão que prestar atenção, meu filho não trouxe, mas ele era também aluno e filho de uma mãe que também trabalhava, né? É muito. Então, também tem essas contradições, mas tudo valeu a pena. Na condução de alguns casos com outras famílias, né, de alunos que começam na adolescência e vem pedir socorro, porque de uma maneira ou de outra eles não estão indo bem ou escolheram alguma coisa que não era legal pra saúde. Então assim, este lado mãe e conhecer também o lado aluno como mãe, mas também como diretora, valeu pra gente tá conduzindo muitos casos, os pais acreditavam muito na nossa fala, porque sabiam que a gente vivia o mesmo papel, né?

 

P1- O que você gosta mais de fazer nessa hora de lazer, Ana Cleide?

 

R- Na hora de Lazer?

 

P2- Se tem, né? [risos].

P1- Na hora que você consegue, se é que consegue [risos].

 

R- Se Olímpia fosse aqui perto eu iria todo final de semana pra Olímpia. Eu adoro, tem um clube maravilhoso lá, né? Que é Thermas. Então, assim, eu adoro ficar na piscina, assim na água sem fazer nada, eu não nado, mas é sem fazer nada...

 

P1- Em Olímpia?

 

R- Em Olímpia. É assim, reconfortante.

 

P1- E como pai de aluno, como você vê esse papel da Fundação de geração para geração, formando gerações em gerações?

 

R- Eu acho que aí também existe uma coisa pioneira e uma formação de pai, filho, neto, assim. Eu sempre disse na escola, que a escola é escola, ela não é uma escola de pais, mas a nossa escola, por essa situação gradual, no meu caso, por exemplo, eu espero ver meus netos estudando na Fundação e eu tenho muitos avôs que estudaram na Fundação de Campinas, foram para alfabetização ou fizeram telecurso que a escola nossa tem há 30 anos lá, a Fundação tem 50, dentro da Fundação, em Conceição do Araguaia aqui em Osasco mesmo nós temos muito avós, né, que agora tem os seus netos estudando. Então, acaba por ter uma educação familiar, por exemplo, os nossos alunos quando entram, eles aprendem algumas coisas, e o que é mais importante é que a escola faça isso tão bem que ele leve isso pra casa, por isso que a família é importante na formação familiar que ele tem, que também da casa levar pra escola, isso é base dentro de uma formação integral que é o nosso trabalho. Então, é assim, essas gerações são incríveis. Agora a Fundação se preocupa em trazer o pai que já foi ex-aluno, que foi aluno ou mesmo que nunca foi pra estar fazendo esses cursos de curta duração, educação de jovens e adultos, ou então pais que ainda não se formaram, porque aí o pai está numa sala tendo aula e o filho está na outra, é lindo. Quando nós inauguramos nossa primeira turma de alfabetização de jovens e adultos em Campinas nós tivemos, assim, quatro filhos que estavam se formando no ensino médio que foram entregar o primeiro caderno pro pai que não sabia ler nem escrever. Então, foi assim um momento marcante. E então, assim as gerações vão se formando.

 

P1- É um trabalho que vai se consolidando.

 

P2- E aí você veio pra cá, como foi esse novo desafio?

 

R- Esse novo desafio foi uma… Eu até disse alguma coisa assim nesse sentido já, mas foi assim, saí de uma visão de Campinas para olhar a Fundação acontecendo no Brasil todo. Chegar aqui, liderar hoje, são 12 pessoas que trabalham comigo, fazendo o trabalho de supervisão, que seria no caso, uma supervisão, uma auditoria, para que as escolas e os departamentos interajam da melhor maneira possível, para que o aluno consiga ter qualidade rapidamente de todas as mudanças, alterações. Então assim, um crescimento enorme, aí voltei a estudar, fiz o curso de pós-graduação, estou fazendo o inglês, e assim, tenho proposta, quero fazer gestão de pessoas que é uma área que eu gosto muito. Leio todos os livros que saem sobre a questão da educação e inovações o currículo,não é porque hoje eu estou fora da escola que posso estar fora dos assuntos da escola. Então, foi um crescimento muito grande, revi muitas coisas na minha vida.

 

P2- A rotina foi outra...

 

R- A rotina foi outra. Tenho outra maneira de trabalhar hoje e foi muito bom ver que o que acontecia em Campinas acontece em todos os pontos, né? E trazer isso e multiplicar isso pros diretores, né, também tenho esse papel.

 

P2- E desses lugares assim, dessas viagens de oito horas, não sei, conta algumas pra gente assim, aquelas "meu deus eu não chego", sabe? Clodoir contou umas ótimas [risos].

 

R- Olha. Quando eu fui pra Pinheiro em São Luís do Maranhão, eu falei: “Meu Deus, onde fica isso.” Porque era, assim, uma coisa que não chegava, sabe? Eram umas horas de vôo, depois cheguei em São Luís, aí "vamos pegar um Ferry Boat", eu falei: “Nossa o que é isso.” Aí eu nem sabia, né, o que era um Ferry Boat. Aí chegamos lá, eu tinha já perguntado para as pessoas como é que é, e estava com uma colega de trabalho, aí nós chegamos e andamos muito no Ferry Boat, foi assim uma coisa linda, eu nunca tinha passado pela experiência de ficar, assim, no meio daquele mar enorme, né? E foi lindo, foi lindo, e aí quando eu cheguei era uma cidade muito pobre, é uma cidade carente mesmo, carente de tudo, parece que foi quase esquecida, Pinheiro, e a escola, né, também tem calango andando, é um negócio, uma coisa que falta estrutura na cidade de Pinheiro, mas a escola é muito linda, e aí você chega e você fala: “Nossa, o que você vai encontrar aqui, é o fim do mundo, ou ninguém chegou.” Mas aí a escola está lá, com uniforme, são os mesmos livros, tem a biblioteca e os alunos sorridentes querem saber, vem conversar perguntar como é São Paulo: “Ah, eu tinha certeza que você era de São Paulo. Por quê? Porque você usa salto alto.” Então é assim...

 

P1- Você tem sapato [risos].

 

R- É essas coisas que é. E no Tocantins foi muito emocionante, porque eu andei muito, né, chegamos primeiro em, no Tocantins nós chegamos em...

 

P2- ________... 

 

R- Gurupi. Mas eu vou por Campo Grande é, aí nós chegamos e aí é uma viagem enorme, são quatro horas de uma estrada bem difícil, aí um pouco mais pra chegar na fazenda de Canuanã de terra, quando eu cheguei eu falei: “Meu Deus, o que é isso.” Sabe, uma fazenda, as crianças e os índios, as crianças são muito pobres, mas são muito pobres, são crianças de ocupações que a escola atende, que a Fundação atende...

 

P1- De assentamentos...

 

R- De assentamentos, as crianças são carentes, sabe? De tudo, de família, e sendo um internato elas, não que elas fiquem mais carentes ainda, na verdade elas são dóceis, elas chegam pra você e elas te pedem benção, meu Deus, sabe? São crianças maravilhosas, eu fiquei apaixonada pelo lugar, aquele rio Javaés, ali do lado da nossa escola de educação infantil, a quarta série, as crianças vêem os, ali tem jacaré, ali tem de tudo. Eles transitam, as crianças, transitam por meio desses bichos assim de uma maneira muito natural, a gente sai, né? Eles não, eles já conhecem a região, eles são ótimos, e lá também tem um fato, eu andava com meu saltinho pra baixo e pra cima no meio das vacas e os alunos achavam um barato, né, e ficou marcado pelo saltinho: “é onde você comprou este sapatinho.” Só que eles não usam, né? As crianças são muito demais, e tem, a gente faz o acompanhamento da saúde das crianças é da dentição delas, da saúde bucal, de tudo, né? Então, é muito gratificante os internatos, e demora pra chegar. Mas hoje, por exemplo, quando eu olho na minha agenda e sei que eu vou pra Canuanã, nossa, eu fico com o sorriso aqui, eu quero ir pra Canuanã, eu quero andar muito, pra Pinheiro também, eu quero ir pra Pinheiro, né, se for pra Caucaia. Lá pra Boa Vista, meu Deus como é longe, Roraima que é a 39° escola, nossa, é muito longe. Macapá, o meio do mundo, você já pensou colocar uma escola no meio do mundo? A nossa Fundação tem. É então assim, Macapá é exatamente a linha que divide o mundo, né?

 

P1- Quantos alunos em Canuanã por exemplo?

 

R- Em Canuanã são 1.200, eu estou falando alguns dados que podem estar alterados, porque eu não tenho esse dado exato, mas é uma escola de 1.200 alunos, né, somando todos os atendimentos.

 

P1- Sempre grandes números, né?

 

R- Sempre. Sempre mais de mil alunos, né, nós temos sempre escolas com módulo dois, ou seja, é duas séries de cada classe, duas unidades de cada classe, aí dá 980, 1800 alunos somando o telecurso, esses cursos para pais que nós temos.

 

P1- Você gostaria de falar alguma coisa sobre os fundadores, ou administradores da Fundação Bradesco?

 

R- Eu queria dizer que é nessa minha vida de 40 anos praticamente 27, 28, 29 eu passei dentro da Fundação Bradesco. Eu quero dizer pros diretores, pros presidentes, que esta é uma empresa saudável, porque ela me fez vida, ela me fez profissão, ela me fez tudo. Então é uma empresa que deve durar pra vida inteira, 50 anos, ela é muito jovem. Ela tem que durar 500, 5 mil anos se possível. Eu faço, durante as oito horas que eu fico diariamente na empresa, eu faço pra que ela se constitua assim, porque ela precisa, ela precisa realmente continuar e fazer o que fez comigo e com tantos alunos que eu conheço com tantas famílias, para muito mais, pros meus netos, filhos dos meus netos e as gerações que seguirão. Então, eu tenho que dizer assim, obrigada.

 

P2- Já que você tocou nesse assunto e o futuro da Fundação? Você já ______ um pouco, mas e o futuro? Projetos, onde ela vai mirar, tem alguma já...

 

R- O futuro da Fundação? Eu falo que a Fundação sempre foi futurista, porque antes de qualquer empresa colocar na sua pauta questão social, há 50 anos ninguém falava nessa situação, o Bradesco já falava. Então, eu acho assim que a Fundação é muito futurista, então é modernidade na sala de aula, ampliar, ter mais do que 107 mil alunos, eu não sei se ampliar ou aí investir na educação, no ensino a distância, né? Ampliando o acesso de muitas outras pessoas através hoje da tecnologia que é o que se fala em tudo, em todos os setores da economia, em todos os setores da sociedade. Então, eu penso que ela pode tá ampliando assim. E eu acredito que não tem volta, quando você chega numa qualidade, no caso de ensino, é mais falando especificamente, você tem que ficar melhor, você tem que fazer melhor. Então, eu acho que ela, o futuro para ela é isso, fazer melhor. Talvez, não sei, o sonho, eu tenho um sonho que ela tivesse uma universidade, né? Então, assim e muitos ex-alunos sonham com essa Universidade, todos falam: “Puxa, a Fundação Bradesco já tem porte, já tem tudo pra ser uma Universidade.” E uma Universidade só de ex-alunos dando aula, seria o sonho, o meu sonho, e talvez, de repente, a empresa, a Fundação pudesse tá pensando nisso.

 

P1- E qual a importância da Fundação Bradesco na educação brasileira, na sua opinião?

 

R- Na educação brasileira? Ela é, eu acho que ela poderia servir como exemplo. Ela tem... a importância é o exemplo, sabe? Onde deu certo e fazer uma escola de qualidade com professores com formação, com um salário razoável dentro do mercado na região onde a Fundação se encontra, conservando a escola, fazendo os alunos participarem da escola, da construção dela, da manutenção dela, criando projetos interdisciplinares entre as áreas, falando de solidariedade dentro da escola, sem falar de nenhuma religião mas transferindo para eles a questão de valores, trabalhando a questão da ética. Então assim, eu acho que hoje as escolas da Fundação deveriam sim ser exemplos, no caso, da educação no Brasil. E ela em alguns estados onde a gente consegue articular bem com o estado e com a prefeitura, ela já começa ser assim vista. Então, eu acho que ela é essencial hoje no Brasil, não tem mais que parar, não tem mais como voltar, nem que alguém queira, eu acho que não vai conseguir, né?

 

P2- Juntando essa pergunta assim. Então, é assim ela fez a diferença pra sua vida e você acha que a Fundação nos lugares onde ela vai, ela faz a diferença?

 

R- Nossa. Ela fez a diferença pra minha vida, mas ela faz a diferença para 107 mil vidas hoje. Ela faz diferença pra todos os estados do Brasil, onde ela está ela sempre faz a diferença, sempre...

 

P2- Modifica as pessoas...

 

R- Modifica as pessoas e o entorno dela. Mesmo quando a família do entorno não tem o seu filho ali porque não teve vaga ou por uma razão ou por outra, ela muda o bairro. Onde nós começamos em Campinas nós tínhamos favelas e hoje são bairros constituídos, né? Com infraestrutura, de ex-alunos, né, já com pessoas que têm cargos na política e que levaram este projeto de mudar, né, o entorno da escola. Por exemplo, tem muita escola que busca parceria conosco, porque a maioria, todas as escolas têm o viveiro de flores, tem uma horta escolar que reverte para merenda escolar e as escolas não conseguem fazer isso, mas isso é muito simples. Então, eles vão aprender na escola, e o que é mais interessante é que o nosso aluno que ensina como faz, e nessas escolas, assim, muito pobres, e onde a Fundação está, eles ensinam também a você ter uma horta caseira, tem muitos projetos na Fundação, muitos projetos. Então, muda sim, faz a diferença.

 

P1- Pra você Ana Cleide, qual a importância desse projeto Memória 50 anos da Fundação Bradesco em parceria com o Museu da Pessoa?

 

R- Olha, é um marco, né? 50 anos marca uma história de muitas realizações, de muito sucesso, de muito trabalho, de muito crescimento, de muita empregabilidade, tem muitas pessoas empregadas, né, são mais de dois mil e 400 funcionários hoje na Fundação Bradesco, entre o centro educacional e as 40 unidades escolares. Então, esse trabalho, essa parceria do Museu da Pessoa e...

 

P1- Da Fundação...

 

R- E da Fundação vai marcar, eu acho que registra a página de 50 anos da Fundação Bradesco, dentro do livro da Organização marca, eu acho que a página de 50 anos, eu vejo assim muito importante.

 

P1- E o que você achou de você participar dessa entrevista para o projeto de História Oral da Fundação Bradesco?

 

R- Olha, eu assim, eu fiquei surpresa, deixa eu te dizer por quê? Eu achei que teriam tantas outras pessoas e que eu falei: “Puxa, tem outras pessoas!”. Eu pensei que eu não fosse participar, realmente eu falei: “Eu acho que eles são outras pessoas.” Aí quando alguém...

 

P1- Outras quem, por exemplo?

 

R- Outras quem? Nossa...

 

P1- Além das que estão passando pelo projeto...

 

R- Eu pensei que fossem ex alunos, mas que não são jovens né, eu não me sinto velha em nenhum momento, mas assim, é que agora estão no mercado é eu pensei, assim, o Bradesco já conhece, sabe que em todo o lugar que eu vou eu gosto de falar que sou ex aluna. Então assim, serão outras, não pensei que fosse chamada, e aí quando ligaram eu fiquei muito feliz, logo quando eu desliguei: “Gente, olha... Yes, eu vou participar desse projeto...”

 

P1- [risos].

 

R- Eu fiquei super feliz. Então assim, nesse sentido eu queria estar no meio, participar, mas eu achei que tivessem outras, talvez até mais importantes do que eu pra falar e falar da Fundação. Então, por isso.

 

P1- Então, em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa a gente agradece muito a sua entrevista.

 

R- Obrigada.

 

P1-Seu tempo, obrigada.

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