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História

Na estrada desde cedo

História de: Fabrício Chutti Avanti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2014

Sinopse

Fabrício traz relatos de sua infãncia, da escola e da convivência familiar. Lembra com carinho quando viajava com o pai no caminhão, fazendo entregas e dormindo na estrada. O pai de Fabrício é caminhoneiro, mas ele tentou outras coisas até concluir que essa seria sua profissão.

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História completa

O meu nome é Fabrício Schulte Avante. Tenho 35 anos, nasci 14 de maio de 1979 em Cafelândia, São Paulo. O nome do meu pai é Aldo Avante, nasceu em Cafelândia também. O nome da minha mãe é Dirce Schulte Avante, nasceu em Cafelândia também. O meu pai, desde que eu me conheço por gente, ele sempre trabalhou com caminhão também. Caminhão pequeno, ele trabalhava vendendo e pronta entrega. E a minha mãe sempre foi dona de casa. Eu tenho dois irmãos. Tenho a minha irmã que é a mais velha, que ela chama Cibele Schulte Avante, e tenho o meu irmão que é o caçula, que é o Henrique Schulte Avante. Minha irmã hoje tem uma loja de cosméticos e o meu irmão era motorista igual comigo aqui na empresa também. Só que antes ele tinha uma profissão que era açougueiro, e ele gostou desse serviço. Mas estrada hoje sabe como é que é, né? Ficar longe da família não é pra qualquer um, tem que gostar. Ele tá trabalhando de açougueiro hoje.

Infância - Meu pai a gente via muito pouco, né? Era mais final de semana, ele chegava na quinta ou na sexta, aí na segunda-feira já seguia a sua viagem. A gente gostava muito quando o meu pai tava em casa, que era difícil ele estar, aí ele acordava cedinho, nós já acordávamos com o barulho dele na cozinha lá nas panelas lá. Ele fazia no coador de café, certinho o café ali, né? De manhã a gente acordava já tava prontinho lá, um pãozinho pra comer sempre teve, leite, fruta também sempre tivemos e é assim. De manhã a gente se não tivesse tarefa da escola ia brincar, soltar pipa, brincar de bolinha de gude, aí eu ia à escola no período da tarde, saía da escola já tudo com o time formado já pra ir jogar bola. Queria era jogar bola. Aí passava o resto da tarde jogando uma bolinha e vinha embora pra casa dormir. E era assim a minha vida. Nunca fui de sair, ficar até tarde na rua, meus pais também sempre pediam pra gente, né?

Primeira escola - É engraçado porque quando eu fui pra escola no pré, a gente falava prezinho, não sei hoje como é que fala, minha mãe me levava e tinha que ficar comigo lá, eu não saía de perto dela. Eu era muito apegado com a minha mãe, eu era uma pessoa muito tímida, sou até hoje, mas hoje já tô aprendendo a viver um pouco melhor. Ela saía pra ir embora, eu queria subir o alambrado, chorava. Foi difícil. Foi difícil no começo, mas depois fui acostumando e muito legal a infância, é muito bom lembrar. Às vezes eu to assim viajando na estrada assim, a gente lembra muitas coisas engraçadas que já aconteceram com a gente. Eu lembro mais dessa daí por causa da cena que a professora tava grávida, ela vinha me chamava, tinha a maior paciência comigo, me chamava pra dentro da sala, e eu chorava que não queria. Eu não sei também se era medo, o que era, dó de deixar minha mãe sozinha em casa, que la também tava grávida e ela passou muito mal da gravidez do meu irmão, vomitava muito e acho que eu ficava com dó dela, medo de largar ela sozinha, um pouco eu acho que foi isso, né? E eu sempre queria tá perto. A minha irmã ia pra escola, que ela era mais velha. Só que é lógico, eu também saía da escola e vinha pra casa, mas não sei porque eu tive isso.

Namorinho - Eu era uma criança muito apegada com a família, assim, com o meu pai e com a minha mãe. Eu comecei a sair tarde de casa sozinho, eu só saía com eles, final de semana ia comer lanche. Até meus 16 anos, 17 anos eu saía com eles. Ainda a minha mãe às vezes falava: “Vai com os seus amigos”. Depois fui fazendo amizade na escola, a gente começou a sair, tinha a praça lá onde os jovens se reuniam, paqueravam, né? Ia muita a boate, danceteria, dançava. Era música de dance, aquela época era dance, às vezes tocava um pagodinho. Ali a gente tinha turminha, cada um fazia sua rodinha e ficava dançando ali, um conversando com o outro, às vezes paquerava alguma menina. Na verdade foi pouco que eu namorei, né? Se eu namorei três moças só... Conheci a minha esposa que é hoje, aí deu certo da gente casar, a namorei com ela muito tempo, nós namoramos acho que dez anos pra casar. A gente se conheceu na classe, na escola. Eu era do exército, tava prestando exército militar, aí na sala fiz amizade, a gente foi conhecendo. Um dia saímos eu e um colega, encontramos ela e mais uma amiga numa lanchonete, elas nos chamaram pra sentar, ali começamos a conversar. Aí ficamos, começamos a ficar, ficar, virou um namoro e desse namoro estamos até hoje aí já. Já tenho uns 15 anos juntos com ela.

Na estrada desde cedo - Às vezes ele levava a gente com ele na estrada, mais nas férias da gente. Às vezes quando eu ia com ele, já viajei muito com ele só, eu e ele nas férias, e a gente via os caminhões, sabe? Eu via essas carretas grandes, a gente ficava falando: “Nossa, deve ser gostoso dirigir”. Tinha curiosidade de entrar, às vezes o meu pai pedia pro motorista me deixar ver, de tanto que eu ficava azucrinando ele, era criança, né? Os motoristas deixavam, a gente entrava, olhava, aí eu ficava todo empolgado. Pode ser isso aí que me incentivou hoje a ser um motorista. Meu pai, ele nunca foi de enfeitar caminhão, não. Ele tinha a santinha dele só, isso ele sempre teve. Era um “iminha” de Nossa Senhora que ele colava no painel do caminhão. Ali ele vendia e entregava o seu café ali. As viagens dele, ele dormia dentro do baú pra economizar, que a firma pagava hotel, só que ele fazia isso pra economizar, pra trazer pra casa. Colchão, cobertor, travesseiro, as roupas nossas ficavam tudo ali no baú. Na hora que chegava no posto pra dormir, nós íamos no posto, tomávamos o banho, aí jantava no restaurante e depois ia pro caminhão dormir. Quando eu ia com ele também gostava muito disso, a gente dormia junto ali dentro do caminhão, com muito cheiro de café ali, mas era gostoso, era bom. Eu tenho também meu tercinho lá pendurado, tenho algumas fotos guardadas ali que sempre ficam guardadas, né? Às vezes a gente dá saudade na estrada. Tem do meu filho, da minha esposa, preciso arrumar uma do meu pai e da minha mãe. É bom, né? Às vezes a gente tá na estrada, assim, às vezes fica num lugar parado esperando pra descarregar, às vezes dá saudade, você vê a foto ali dá um... É muito bom.

Trabalhos e profissão - Meu primeiro emprego, eu devia ter os meus 14 anos. Não era bem um emprego, mas eu recebia. Eram algumas horas só. Tinha uma uma escolinha de futebol que eu gostava de ir, a minha mãe e o meu pai pagavam, só que a nossa situação não era tão boa. Aí o dono precisava de uma pessoa pra arear a areia, que era um campinho de areia, caía muita folha de árvore, então era para limpar, cuidar daquele campinho lá. E ele falou se alguém tava interessado na época, eu me interessei porque ele falou que aí não precisava pagar, eu podia fazer academia ali, ficava por conta daquilo, ele me dava uma ajudinha por fora. Eu fiquei um tempo, mas era coisa de hora só. Ia lá, limpava, acabava o serviço já podia ir embora. Aí depois o meu outro emprego mesmo foi de office boy num escritório. Ali que eu considero que foi um emprego que eu arrumei. Trabalhei cinco anos naquele escritório de office boy, aprendi muitas coisas boas. Dali eu fui pro exército. Eu quis ir, na minha época já não era mais obrigado. É lógico que se não tivesse o pessoal todo que eles queriam, aí eles convocavam as pessoas, eles escolhiam, selecionavam, mas eles perguntavam se você queria ou não, eu falei que eu queria. Achei muito bom, fiquei dois anos, consegui me engajar, fiz curso pra cabo, mas no segundo ano eu vi que o exército não é o que a gente imagina, sabe? É muita ordem, é muita coisinha boba e aquilo ali me desanimou um pouco de querer seguir a carreira. Quando eu saí do exército eu fui trabalhar em uma fábrica de costura. O dono da empresa me ensinou a ser encarregado, mas eu não me adaptei, não. Pedi a conta pra ele e saí da empresa. Fui trabalhar num posto de gasolina de lavador, depois entrei como frentista, aí também não me adaptei, saí. Fui trabalhar numa fábrica de shampoo de cachorro, sabonete, que tem lá na cidade. Muito bom o emprego lá, fiquei muito tempo. Foi o meu último emprego antes de entrar de motorista. Estrada hoje não é fácil. É complicado. Eu não tava acostumado a ficar longe da família, né? A mulher ficava sozinha, ligava às vezes chorando, sentindo a falta da gente, né? E foi indo. Falei pra ela: “Tem que se acostumar”. Um pouco também pra ganhar um salariozinho mais digno, pra ter uma vidinha mais estabilizada também. Aí fomos aguentando. Depois veio o filho. Veio o casamento. Eu penso, assim, eu quis isso aí pra mim? Então eu tenho que aguentar. Sente falta, fica solidão. Eu lembro uma cena muito forte: eu casei, estava de férias, depois voltei a trabalhar. Aí me mandaram pra Natal, pro Rio Grande do Norte. Eu casei em novembro, isso já foi em dezembro. Na hora que me agendaram pra esse lugar, eu já sabia que eu ia passar Natal e Ano Novo fora de casa. Ia ser o primeiro Natal e o primeiro Ano Novo de casado, né? Mas fazer o que? Nós estamos aí pra isso, né? Depois nós estávamos querendo ter um filho, falamos: “Vamos fazer um filho” “Vamos”. Eu tava tentando. Eu brinco até hoje com os meus colegas, é lógico que não tem nada a ver, mas eu brinco que eu tava tentando e não conseguia e aí eu precisei pegar férias pra fazer o filho, que aí foi todo dia ali tentando. Eu brinco até hoje com os meus colegas, os colegas zoam no serviço que é o menino que pegou férias pra fazer o filho. Mas é lógico que tem sentido isso. O moleque nasceu!

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