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História

Na cidade em construção

História de: José Coriolano Fraga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2011

Sinopse

José Coriolano Fraga nasceu em 1934, em Sergipe. Seu depoimento traz a visão do filho de fazendeiros que muito novo se mudou para o Rio de Janeiro. Conta como ingressou no Exército e o que o levou a seguir a carreira militar no Distrito Federal quando buscava trabalho na área de contabilidade. Fala sobre sua ascensão na carreira e a formação da família, e a mudança de vida e hábitos dos moradores de Brasília, uma cidade em construção.

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História completa

P/1 – Bom, “seu” Fraga, eu vou começar pedindo para o senhor dizer o seu nome completo – eu sei que o senhor já falou lá dentro, mas é só para ficar registrado: seu nome completo, sua data de nascimento e o local onde o senhor nasceu.

 

R – Tá. Meu nome é José Coriolano Fraga. Nascido na cidade de Lagarto, em Sergipe, no dia 30 de abril de 1934.

 

P/1 – E seus pais, como eles se chamavam?

 

R – Deodato da Fraga Pimentel e Ana Vieira de Souza.

 

P/1 – E o que é que eles faziam lá...?

 

R – Eram fazendeiros.

 

P/1 – Eram fazendeiros?

 

R – Eram.

 

P/1 – E como eles eram? Como era seu pai, como era a sua mãe?

 

R – Maravilhosos!

 

P/1 – E que mais...? (risos).

 

R – Trabalhadores, não é? Minha mãe cuidava da gente e ele trabalhava na fazenda, direto.

 

P/1 – Era uma fazenda de quê?

 

R – De gado.

 

P/1 – E quantos irmãos o senhor tinha?

 

R – Foram vinte e cinco.

 

P/1 – Vinte e cinco? Sua mãe teve vinte e cinco filhos?

 

R – Vinte e cinco. Mas vivos foram só onze.

 

P/1 – Sim. E o senhor é que número?

 

R – Eu sou o quarto (...) mais novo.

 

P/1 – E como era a sua casa de infância?

 

R – Era uma casa na cidade de Lagarto, era uma casa boa...

 

P/1 – A sua casa era na cidade, o senhor não morava na fazenda?

 

R – Nós morávamos na cidade, minha mãe morava com a gente na cidade; meu pai ia para a fazenda e morava no sábado e domingo.

 

P/1 – Sim. E como é que era? Numa casa em que tinha tantos irmãos, e o senhor quando nasceu já tinha... do que é que vocês brincavam?

 

R – Porque a casa era na cidade, era na praça principal da cidade, a gente brincava no jardim da cidade. 

 

P/1 – E como que era essa cidade na época em que o senhor era pequeno?

 

R – Era a segunda cidade do estado, comemorada como segunda pelo tamanho, pelas habitações...

 

P/1 – … e quando é que o senhor foi para a escola?

 

R – Eu fui para a escola com oito anos, mais ou menos.

 

P/1 – E era perto da sua casa?

 

R – Era.

 

P/1 – O senhor ia a pé?

 

R – Ah, ia! Era só atravessar a rua e chegava na escola.

 

P/1 – Ah! E o que é que o senhor lembra da escola?

 

R – Ah, a professora, não é? E o que eu aprendi no início, não é? Eu gostava muito da Matemática. Naquele tempo era mais usado o nome de aritmética.

 

P/1 – Sim. E aí, depois, o senhor estudou todo o tempo nessa escola ou não?

 

R – O primário. Depois eu fui interno, fui para Salvador, Bahia, estudar; e fui interno.

 

P/1 – E como é que foi isso?

 

R – Ah, foram quatro anos interno para fazer o (…) Ginásio. E três anos eu já fiquei morando em pensão, na cidade de Salvador.

 

P/1 – Porque, o curso técnico, o senhor também fez em Salvador.

 

R – Fiz em Salvador, Técnico em Contabilidade.

 

P/1 – E como é que era essa rotina de estudar em outra cidade? O senhor foi para lá estudar...?

 

R – É, as férias eu ia passar com meus pais lá na cidade. Como a fazenda ficava mais perto da cidade de Estância, eles mudaram para Estância. Aí, fomos criados praticamente em Estância.

 

P/1 – Ah! Com quantos anos o senhor foi para Estância? 

 

R – Tinha dez para onze anos.

 

P/1 – O senhor já tinha terminado o primário?

 

R – Já.

 

P/1 – O senhor já estava em Salvador?

 

R – Já estava em Salvador fazendo o Ginásio.

 

P/1 – E como é que foi ficar longe da família, tão pequeno?

 

R – É, no início não foi muito fácil, viu? Mas a gente... naquele tempo as coisas eram bem diferentes de hoje, não é? A gente fazia amizades com os colegas, eles levavam nos finais de semana a gente para passear com eles lá em Salvador.

 

P/1 – E como era o cotidiano lá no Ginásio? O senhor ficava interno e no fim de semana o senhor podia passear?

 

R – É, nos finais de semana eles autorizavam a saída no domingo. Porque no sábado, naquele tempo, ainda tinha aula.

 

P/1 – E que passeios o senhor fazia?

 

R – Ia para a praia, não é?

 

P/1 – E nas férias, o senhor ia lá para Estância? E aí como é que era?

 

R – Ia para Estância e aí era uma maravilha, junto com meus pais, meus irmãos, amizade... (tosse).

 

P/1 – E depois, aí, na sequência, o senhor já fez o Ginásio...?

 

R – Em Salvador. E o Técnico de Contabilidade em Salvador também. Aí, quando terminei o curso de Técnico em Contabilidade, fui convocado para o serviço do Exército; como eu tinha o segundo grau, fiz o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva).

 

P/1 – Sei. E o senhor foi o único da sua família que foi estudar em Salvador, ou seus irmãos também?

 

R – Sim, eu fui o único.

 

P/1 – Os outros estudaram?

 

R – Não, os outros foram fazendeiros, trabalhavam com meu pai, não é?

 

P/1 – E por que é que foi só o senhor? O senhor gostava mais de estudar do que os outros?

 

R – É. (risos).

 

P/1 – E aí o senhor fez Técnico em Contabilidade? 

 

R – Foi.

 

P/1 – E daí o senhor já morava numa pensão? Aí o senhor já não estava interno.

 

R – Daí eu já morava numa pensão lá em Salvador, na Rua Barão de Cotegipe. 

 

P/1 – É? E aí com as outras pessoas, que eram de outros lugares?

 

R – É, eram sim.

 

P/1 – Entendi. E depois o senhor estava falando que foi direto para o CPOR. E daí, o senhor serviu aonde?

 

R – Eu servi no Rio de Janeiro. O CPOR terminou e eu fui trabalhar no DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), e surgiu uma chance de eu ir para o Rio de Janeiro – eu escolhi o Rio de Janeiro. Aí fui para o Rio e, quando estava no Rio, fui convocado para o serviço ativo do Exército, para Salvador. Mas eu me apresentei lá no Rio e eles aceitaram de eu ficar lá mesmo; aí, eu servi na Vila Militar do Rio de Janeiro.

 

P/1 – Que bairro que é?

 

R – É Magalhães Bastos.

 

P/1 – Sei. E aí o senhor morava já onde, lá no Rio de Janeiro?

 

R – Eu morava no Flamengo.

 

P/1 – Mesmo antes do senhor ficar... de o chamarem para o serviço ativo, o senhor morava no Flamengo?

 

R – Não, eu morava na casa de uma irmã, em Irajá. Mas quando eu fui para o serviço ativo do Exército, tinha um colega que morava no Flamengo, perto do Palácio do Catete, aí me levou para lá, para a gente ficar junto também.

 

P/1 – Que ano era, mais ou menos?

 

R – Foi de 1955 a 1957.

 

P/1 – E como era a cidade do Rio de Janeiro?

 

R – Ah, era uma maravilha!

 

P/1 – Ah, mas como era? Me conta. Quando o senhor chegou lá, qual foi a sua primeira impressão?

 

R – Ah, foi de uma cidade grande em relação à que eu morava, não é? (…) E era a Capital. Mas eu me acostumei e arrumei logo um emprego. Então, ocupei o tempo, saía da casa da minha irmã e ia para o trabalho, ia e voltava no mesmo dia, não é? Porque era no centro do Rio de Janeiro.

 

P/1 – O que é que o senhor foi fazer? O senhor arranjou emprego onde? Para fazer o quê?

 

R – Tinha no jornal a chamada, e eu fui lá e fiz o teste; fui aprovado e eles me contrataram.

 

P/1 – E era um emprego de...?

 

R – Era de escrevente.

 

P/1 – Porque o senhor tinha feito Contabilidade, não é?

 

R – É, tinha feito.

 

P/1 – E onde era? Era numa empresa, esse emprego que o senhor arranjou?

 

R – Era na Swift do Brasil.

 

P/1 – Ah, na Swift, sim, então aí o senhor ficou lá e depois chamaram o senhor...

 

R – É... quando o Exército me convocou, eu recebi o aviso lá na minha casa. Fui ao Ministério do Exército, no Rio, me apresentei, contei que estava trabalhando no comércio lá. Naquele tempo, a situação financeira não era tão boa; então, para eu voltar ia me apertar. Aí, o major que me atendeu foi muito leal. Ele disse: “Não, eu vou lhe convocar, você serve aqui mesmo na Vila Militar”. Aí eu fui servir na Vila Militar no Rio, na Companhia Escola de Intendentes.

 

P/1 – Mas aí o senhor tinha as duas atividades?

 

R – Não, aí quando eu fui para o Exército, parei com o emprego. Porque no Exército era o dia todo.

 

P/1 – O que é que o senhor fazia lá?

 

R – Inicialmente, como aspirante, eu fui tomando aulas, aprendendo a trabalhar nas Forças Armadas. Aí, quando fui aprovado a segundo tenente, comecei a trabalhar dentro do Exército mesmo, como escritor, administrativamente.

 

P/1 – Sei, sei... e aí quanto tempo o senhor ficou lá?

 

R – Fiquei um ano e três meses no Exército. Aí fiquei mais três meses no Rio e, em 15 de dezembro de 1958, fui conhecer Brasília, que estava em formação. Aí, eu fui para Brasília, lá arrumei um emprego logo como técnico de contabilidade numa empresa… numa firma que tinha comércio lá, um mercado em Brasília. Aí fui trabalhar, porque naquele tempo era mais o Núcleo Bandeirante, não é?

 

P/1 – Por que é que o senhor resolveu conhecer Brasília?

 

R – Um amigo meu, que já trabalhava lá, me convidou para ir fazer um passeio e daí eu fui, e fiquei.

 

P/1 – E o senhor foi como?

 

R – Eu fui de avião.

 

P/1 – Aí o senhor foi lá e se instalou onde?

 

R – Num hotel.

 

P/1 – E daí o senhor ficou esse tempo trabalhando...?

 

R – Trabalhando. E essa empresa em que eu arrumei o emprego era em frente ao hotel; então ficou tudo mais fácil para mim, porque era tudo no Núcleo Bandeirante.

 

P/1 – E como era na época... assim, já tinha boa parte construída, ainda estava muito...?

 

R – Não. Ainda estava tudo em construção. Só mesmo os palácios é que estavam prontos. Mas residências... tinha algumas casas prontas na W3, mas as outras estavam todas em construção. Asa Sul e Norte, tudo em obra, não é? E a cidade mesmo em si: pistas, ruas, tudo estava em obras, assim como a construção de apartamentos para os funcionários que foram transferidos para lá...

 

P/1 – E como é era o cotidiano numa cidade que ainda não estava pronta? (…) Como era a vida das pessoas em uma cidade que ainda não estava pronta?

 

R – Ah, era trabalho mesmo e ficar em casa de noite...

 

P/1 – E o que é que vocês faziam para se divertir?

 

R – (risos) Ah, tomava uma cervejinha e matava o tempo até a hora de dormir...

 

P/1 – E nesse tempo todo o senhor chegou a voltar para casa, para visitar os seus pais?

 

R – Ah, fui, fui! Mas, numa noite, eu fui e conheci uma boate que tinha lá – eu tinha recebido o pagamento, então fui lá para conhecer a boate. E lá, por coincidência, encontrei um ex-comandante meu, do Rio de Janeiro, do Exército. Aí ficamos juntos, batemos um papo, ele aí me deu um cartão dele e mandou que, no outro dia, às quatro horas da tarde, eu fosse lá, porque ele era o chefe de gabinete do General Dutra – não é o Dutra que foi presidente não, é outro. 

 

P/1 – Esse Dutra chamava como, o senhor lembra?

 

R – Osmar Soares Dutra. Então ele mandou que eu fosse lá, eu fui, quatro horas, quando foi cinco horas eu já era segundo tenente da guarda especial de Brasília, que era a polícia de lá fardada, não é? Porque eu era R2 (patente de 2º Tenente da Reserva do Exército Brasileiro), ele disse: “Não, você vai trabalhar aqui com a gente!”. Aí me botou na polícia como tenente, porque eu era tenente do Exército.

 

P/1 – E o que é que era essa guarda? Eu não sei...

 

R – Era o policiamento de Brasília. Tinha a civil e tinha a GEB – a militar. Que era fardada.

 

P/1 – Quantos vocês eram na época, o senhor lembra?

 

R – Na época eram uns trezentos mais ou menos.

 

P/1 – E como eles foram... eles foram sendo convocados dos outros estados? Como é que foi formada essa guarda?

 

R – Não, essa guarda era o seguinte: o soldado tinha que ser reservista das Forças Armadas e ter pelo menos o curso primário pronto, não é?

 

P/1 – Mas ela foi formada... o senhor, por exemplo, aconteceu assim: o senhor encontrou esse superior e ele convidou o senhor. E os outros, como é que foi acontecendo?

 

R – Tinha os convocados, dois rapazes R2 também, do CPOR, que moravam no Rio, eram do Rio; tinha o famoso back da seleção brasileira, Augusto da Costa, que era policial no Rio de Janeiro; tinha o João Gonçalves; tinha o Washington, que era daqui de São Paulo, que era da polícia daqui e foi requisitado para lá, e lá ingressou na GEB (Guarda Especial de Brasília). Então, quando eu entrei na GEB, eu fui o quinto oficial – quinto não, sexto oficial da GEB.

 

P/1 – Tinha uma hierarquia também lá dentro?

 

R – Tinha! O comandante era o major do Exército.

 

P/1 – E aí, depois dos comandantes vinham...?

 

R – Nós, os tenentes.

 

P/1 – E aí depois vinha uma porção de soldados...

 

R – Aí depois vinham sargentos, cabos e soldados. Mas nós éramos fardados, porém não éramos militares.

 

P/1 - Como assim? Não entendi, desculpa.

 

R – Nós vestíamos a farda, mas não éramos militares diplomados, assim, aquela obrigação do regulamento dos militares.

 

P/1 – Ah, vocês estavam sob outro regulamento?

 

R – Exato.

 

P/1 – E aí o que é que vocês faziam lá?

 

R – O policiamento da cidade, do Núcleo Bandeirante.

 

P/1 – E como era feito isso, era uma ronda, o que é que era?

 

R – Era uma ronda, repassava o dia no quartel, botava as duplas nas ruas, no Núcleo Bandeirante, que era o que existia naquele tempo, e de noite tinha uma frequência na zona do baixo meretrício, que era onde a gente mais trabalhava, porque o povo de trabalho de Brasília se reunia à noite lá.

 

P/1 – E tinha muita ocorrência?

 

R – Tinha, tinha. A gente entregava tudo à delegacia, que nós éramos fardados e a delegacia civil é que tomava... até hoje é quem toma as providências policiais, não é? É quem...

 

P/1 – É a polícia civil, não é? E como que era... também eram pessoas migrantes de vários lugares e a maioria eram operários que estavam fazendo a cidade?

 

R – Exato.

 

P/1 – E o que mais que tinha, assim...?

 

R – É porque Brasília foi crescendo e foi aumentando o número de pessoas para trabalhar, não é? Para poder fazer o que é Brasília.

 

P/1 – E o senhor ficou quanto tempo?

 

R – O que, na polícia? 

 

P/1 – É.

 

R – Ah, fiquei o tempo todo, de lá até hoje...

 

P/1 – O senhor reformou na Guarda?

 

R – Não, não. Quando a Polícia Militar do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, foi transferida toda para Brasília, que teve que ir realmente, a nós, os oficiais R2, eles deram o direito de opção: quem quisesse ser tenente lá, entraria como tenente; e quem não quisesse, iria para a polícia civil; aí já era policial, não é? Aí então, eu entrei como tenente na Polícia Militar. Fiz um estágio de seis meses e aí prossegui, cheguei ao posto de coronel e reformei. Com trinta e dois anos de serviço.

 

P/1 – O senhor foi ser tenente desse...?

 

R – Eu era tenente da GEB, não é?

 

P/1 – … desse contingente todo que veio do Rio de Janeiro.

 

R – Exato. Eu entrei como tenente.

 

P/1 – E tem algum episódio que o senhor lembre que foi mais marcante nesse tempo todo...?

 

R – Ah, os episódios... os problemas que surgiam e que a gente tinha que tomar as decisões... porque os trabalhadores passavam a semana trabalhando, mas aos sábados e domingos era só farra para eles, não é? E era na zona do baixo meretrício, lá no Núcleo Bandeirante, da época, era onde eles mais paravam. Então criavam problemas e a gente tinha que...

 

P/1 – Mas que tipo assim, eram brigas...?

 

R – Ah, cachaçada deles, não é? As brigas eram mais entre os amigos mesmo... 

 

P/1 – E o senhor não lembra de mais nenhum episódio?

 

R – Ah, tinha os homens e mulheres, não é? Que eram brigas deles para conquistar e namorar a mesma mulher, não é?

 

P/1 – E depois aí o contigente do Rio de Janeiro chegou já com a cidade construída...?

 

R – Ah, já, já chegou em Brasília e a cidade já estava praticamente terminada; terminada não, mas ampliada, não é?

 

P/1 – Porque, inicialmente, foram essas pessoas que vinham de vários lugares e tinham essa formação, não é?

 

R – Exatamente. É.

 

P/1 – E depois o grosso mesmo chegou do Rio de Janeiro. E como é que foi lidar com essas pessoas? Porque eu imagino que ninguém... bom, foi uma escolha, mas a vida era muito diferente no Rio de Janeiro e lá em Brasília, não é? 

 

R – Ah, não tenha dúvida!

 

P/1 – E como é que foi isso?

 

R – Foi aquela luta, não é? Porque sair do Rio de Janeiro naquele tempo e ir para Brasília em construção... já viu a diferença de vida que a gente passou a ter, não é?

 

P/1 – E o senhor foi morar... o senhor primeiro morou nesse hotel, e depois?

 

R – Fui morar no quartel da GEB, que quer dizer: Guarda Especial de Brasília.

 

P/1 – E o quartel ficava localizado onde?

 

R – É na Novacap, que é onde começou a administração de Brasília.

 

P/1 – E ficou lá até...

 

R – É.

 

P/1 – Não removeram de lá?

 

R – Até que a cidade cresceu, aí levaram a gente para o Plano Piloto também, uma parte, e nas cidades satélites. 

 

P/1 – E o senhor foi morar onde?

 

R – Continuei no Núcleo Bandeirante. (pausa) No quartel que era no Núcleo Bandeirante, viu?

 

P/1 – E o senhor casou em Brasília?

 

R – Foi.

 

P/1 – E com quem o senhor casou? Com quem o senhor começou a namorar?

 

R – É... foi nos idos de 1988, 1987. Conheci um rapaz que trabalhou comigo – um soldado da GEB – ele foi embora para Goiânia e montou uma agência de carro; era Berílio o nome dele. Aí então, ele me convidava para ir passar o fim de semana em Goiânia, eu ia e conheci lá uma sobrinha dele, não é? Aí começamos o namoro, e terminou eu me casando, ela foi morar em Brasília. Arrumei emprego para ela.

 

P/1 – O que é que ela fazia?

 

R – É na Telebrasília. Ela tinha o segundo grau, não é? Então trabalhava administrativamente na Telebrasília.

 

P/1 – Que ano foi mais ou menos isso?

 

R – 1986, 1987. Em 1988 nós casamos.

 

P/1 – Em 1988?

 

R – É.

 

P/1 – E daí, quando é que nasceu seu primeiro filho?

 

R – Em 1989.

 

P/1 – Que é o…?

 

R – É o que está lá em Brasília, é o que tem o meu nome: José Coriolano Fraga Filho. O Marcos é o último filho. 

 

P/1 – Ah, é o último filho!

 

R – É o último. E tem mais uma moça, que se chama Ana Maria.

 

P/1 – O senhor tem três filhos, o que mora em Brasília... e essa moça mora onde?

 

R – Lá em Brasília também.

 

P/1 – Lá em Brasília também. Só Marcos que veio para cá?

 

R – Só o Marcos que fez o concurso e que daí veio para cá.

 

P/1 – E aí, depois, o senhor casou, daí o senhor foi morar …?

 

R – Ah, sim, daí eu recebi um apartamento da polícia, até menos funcional, não é? Porque depois de regulamentarem, venderam para a gente, e eu morava lá, na 315 Sul, lá em Brasília.

 

P/1 – Que é onde o senhor mora, não é?

 

R – Não.

 

P/1 – Não? Mas o senhor mora na Asa Sul? Mas em outro apartamento?

 

R – Em outro apartamento. Esse nós vendemos e compramos um de quatro quartos na 109 Sul, porque eram três filhos e nós, não é? Então um quarto para cada filho e o nosso, meu e dela.

 

P/1 – Entendi. E depois... o senhor sempre na... o senhor reformou em que ano?

 

R – Foi em 1991, 1992...

 

P/1 – Ah, não faz tanto tempo assim, não é? E daí depois...

 

R – Mas quando eu reformei, trabalhei ainda no Senado Federal.

 

P/1 – O que é que o senhor fazia lá?

 

R – Eu era segurança, fazia parte da segurança lá. Contratado, não é? Não era funcionário do Senado não, era contratado.

 

P/1 – Por quanto tempo que o senhor fez isso?

 

R – Uns dez anos mais ou menos... na gráfica do Senado.

 

P/1 – Faz uns dez anos mais ou menos que o senhor se aposentou?

 

R – É, que me aposentei da Polícia Militar; do Senado, eu não podia ter duas aposentadorias.

 

P/1 – Não, aí o senhor só parou de trabalhar e...

 

R – E pronto, aí voltei para casa.

 

P/1 – E nunca mais o senhor voltou para Sergipe?

 

R – Não, só passeando, todo ano! 

 

P/1 – E os seus irmãos, os onze irmãos, o senhor teve contato nesses anos todos?

 

R – É, eles vieram para o Paraná, moraram em Londrina, foram fazendeiros aí. E, infelizmente, os três homens já morreram.

 

P/1 – Que eram mais velhos que o senhor?

 

R – Mais velhos do que eu. Mas ainda tenho três irmãs que moram no Paraná: uma em Londrina, outra em Maringá e outra em Campo Mourão. Fazendeiras. Lá com os maridos, que eram de Sergipe mesmo, já morreram também, mas elas moram com os filhos, em Maringá, Londrina e Campo Mourão.

 

P/1 – E seus pais?

 

R – Meus pais morreram lá em Sergipe mesmo, mas eu ainda era jovem quando os vi umas duas vezes, indo ao Paraná com eles, meus pais, para ver os irmãos, não é? Para eles verem os filhos e eu ver os irmãos. Em Londrina. 

 

P/1 – Eles conheceram seus filhos? Seus pais conheceram seus filhos ou não?

 

R – Não.

 

P/1 – Porque o senhor era jovem ainda.

 

R – Era.

 

P/1 – E depois o senhor teve essa atividade, que o senhor trabalhou na segurança do Senado. E aí, depois que o senhor parou, o seu cotidiano como que é, hoje em dia?

 

R – É em casa, olhando os filhos, apanhando na escola e vivendo a vida, não é?

 

P/1 – E o senhor fez amigos?

 

R – Ah, sim, graças a Deus, o círculo de amizade meu é muito grande! Ainda mais naquele tempo em que a cidade era menor; então a gente tinha mais contato, não é?

 

P/1 – E o senhor encontrou outros conterrâneos quando o senhor chegou em Brasília? Tinha outras pessoas de Sergipe?

 

R – Muito pouco.

 

P/1 – Como era a configuração? De onde é que tinha mais gente, por exemplo, no Exército?

 

R – Era mais do Nordeste.

 

P/1 – Em geral era do Nordeste; a mão de obra, os operários em geral eram do Nordeste. E vindos de vários estados?

 

R – Sim.

 

P/1 – E como era feita essa... como é que eles chegavam até lá? Como era feita a formação dessa...?

 

R – Porque no início, antigamente, eles vinham mais para cá, para São Paulo e para o Rio de Janeiro tentar a vida, porque no Nordeste era muito resumido o emprego e ficava difícil para a pessoa, porque o seu ordenado e... daí eles vinham aventurar em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná...

 

P/1 – E depois aí... mas com a obra de Brasília, como era feita... não, porque eu fico imaginando: como é que as pessoas sabiam? Um ia chamando o outro? Como é que se deu? Porque o senhor que estava lá desde o início, como é que foi se formando esse grupo de trabalhadores?

 

R – Era assim: a empresa que pegava o contrato para fazer a obra contratava,  e eles iam trabalhar. 

 

P/1 – E eles iam chegando por terra?

 

R – É.

 

P/1 – E as estradas na época eram horríveis?

 

R – É, para Brasília já estava bem melhor, não é? O que não estava asfaltado, estava preparado para receber o asfalto.

 

P/1 – O senhor chegou a viajar por terra?

 

R – Viajei.

 

P/1 – Por exemplo: o senhor ia visitar seus pais?

 

R – Eu ia de avião. Porque naquele tempo não tinha estrada para ônibus e... ah, a não ser que o ônibus viesse para o Rio e do Rio pegasse outro ônibus. 

 

P/1 – Daí o senhor descia em Aracajú?

 

R – É, descia em Aracajú.

 

P/1 – Entendi. E hoje em dia o que é que o senhor faz lá na cidade? Como que é o seu cotidiano?

 

R – Ah, é a vida de reformado, não é? A gente se reúne lá, joga um dominó, a velha guarda como se diz. A gente se reúne, joga um dominó todo dia...

 

P/1 – A maior parte das pessoas do seu grupo de amigos veio do Exército?

 

R – É, da velha guarda. Muitos colegas da Polícia Militar, da Polícia Civil. Porque começou Brasília, era a Guarda Especial de Brasília, que a gente chamava também de “Garotos Enxutos de Brasília”.

 

P/1 – (risos) Porque vocês se achavam lindos! (risos)

 

R – Então a velha guarda até hoje, quando se encontra, é aquela festa! Naquele tempo eu bebia, não é? Ainda tomava minha cerveja, meu whisky, hoje, graças a Deus, já tem quinze anos que eu parei com o uso de bebida alcoólica.

 

P/1 – E ao longo... porque o senhor viveu a história de Brasília inteira, não é? Desde o começo, o começo mesmo, não é? Quais são os episódios mais marcantes de que o senhor se lembra?

 

R – Era a obra de Brasília. Que era uma luta, era dia e noite! Porque o Juscelino tinha pressa de concluir para poder inaugurar em 1960, a Capital.

 

P/1 – Durante o mandato dele ainda, não é? E a pressão era grande em cima dos trabalhadores?

 

R – Era.

 

P/1 – É, eu ouvi dizer que teve uma revolta por conta de alimentação, ou acho que mesmo por condições de trabalho no início. O senhor lembra disso?

 

R – Não. Do trabalho, sim.

 

P/1 – Os trabalhadores se rebelaram, o senhor lembra disso? Foi bem no começo...

 

R – Porque iam fazendo as obras e iam cancelando o número de trabalhadores, não é? Então, eles iam ficando desempregados, fazendo o quê? Não tinha o que fazer, porque Brasília era uma cidade em construção. Aí, o Governo fazia tudo para empregar, ia botando o serviço público também...

 

P/1 – Mas isso quando já estava estruturado, não é? Mas antes disso, o que é que acontecia? Assim: acabou, a pessoa voltava para casa, continuava lá...?

 

R – Não, a maior parte já permanecia lá, porque já tinha pegado amizade, às vezes já tinha casado com o pessoal de lá mesmo...

 

P/1 – Acontecia muito de... porque imagino que, assim, só iam homens, não é? E com quem essas pessoas casavam? Com moças de Goiânia?

 

R – O pessoal da terra deles, as namoradas que eles deixaram...

 

P/1 – Ah, porque aí mandava chamar?

 

R – Ou então ia lá e casava.

 

P/1 – Ou então com moças de Goiás, como foi o seu caso, não é?

 

R – É, também.

 

P/1 – O senhor casou só essa vez?

 

R – Foi.

 

P/1 – Uma única vez. É, e depois, assim, o senhor lembra do dia da inauguração?

 

R – De Brasília? Trabalhei o dia todo!

 

P/1 – Conta para a gente como foi?

 

R – Ah, foi uma maravilha!

 

P/1 – Então, mas conta um pouco!

 

R – Se eu soubesse que ia ter entrevista tinha até trazido umas fotografias do dia...

 

P/1 – Ah, mas depois seu filho vai trazer as fotografias. Mas, então, conta desse dia, como foi?

 

R – Ah, foi trabalho bravo mesmo, viu? Foi a inauguração de Brasília, dos palácios...

 

P/1 – Como aconteceu? Eles abriram todos os prédios públicos? Estavam prontos?

 

R – É, os Ministérios já estavam prontos, o Palácio do Planalto...

 

P/1 – Estava tudo aberto para as pessoas visitarem?

 

R – Estava.

 

P/1 – Inclusive os funcionários?

 

R – É. Nesse dia todo mundo podia passear a vontade. E a gente da GEB trabalhar, tomar conta deles...

 

P/1 – Mas teve muito episódio ou não?

 

R – Não, não...

 

P/1 – E qual era a reação das pessoas quando viam...?

 

R – Era de alegria, não é? De estar vendo uma cidade nova... que saiu de uma Capital como era o Rio de Janeiro, daí ir para Brasília em formação, a diferença era enorme, não é? Porque Brasília era o Núcleo Bandeirante, naquele tempo... depois veio Taguatinga, que hoje é uma senhora cidade! E eu comandei Taguatinga por doze anos.

 

P/1 – Qual foi a sua trajetória lá? Primeiro o Núcleo Bandeirante, depois o senhor foi para Taguatinga, e depois?

 

R – Aí depois, eu fui para o serviço militar sul, que era onde a PM tinha os quartéis.

 

P/1 – Daí o senhor voltou para Brasília mesmo, para o DF, não é?

 

R – Mas é perto!

 

P/1 – É como se fosse um bairro, não é?

 

R – É, como se fosse um bairro, exatamente. É o que nós chamamos de cidade satélite, não é?

 

P/1 – A-ham. A mais antiga é?

 

R – O Núcleo Bandeirante. Mas a mais antiga é a Planaltina, que era de Goiás e entrou no Distrito Federal, e ficou como... 

 

P/1 – Que já era cidade constituída e aí acabou virando uma cidade...

 

R – ...satélite do Distrito Federal.

 

P/1 – Mas vocês não gostam desse nome cidade satélite, não é? Como é chamado lá?

 

R – Ainda é cidade satélite. Só que, atualmente, tendo em vista o desenvolvimento, chama pelo nome: é Taguatinga, uma cidade que, nossa senhora, como cresceu, não é?! Todas elas: Taguatinga, Gama, Núcleo Bandeirante... porque o Núcleo Bandeirante, o Jânio, quando foi presidente, quis terminar, queria acabar com o Núcleo Bandeirante. Aí começou a transferir o pessoal de lá para as outras cidades satélites: Gama, Sobradinho, Taguatinga... mas aí foi quando veio aquela renúncia e voltou tudo para o Núcleo Bandeirante. 

 

P/1 – Eu não sabia disso. Por que é que ele queria terminar com o Núcleo Bandeirante?

 

R – A gente não sabe, (riso) ele é que sabe por que é que ele queria.

 

P/1 – Aí as pessoas voltaram para o mesmo lugar e depois conseguiram...?

 

R – É, quem saiu, alguns ficaram lá para onde foram, mas quem não saiu, aí que não saiu mesmo. E hoje o Núcleo Bandeirante está uma senhora cidade também! 

 

P/1 – Espere só um pouquinho.

 

INTERRUPÇÃO

 

P/2 – Ok. 

 

P/1 – Senhor Fraga, uma das coisas muito importantes que o senhor viveu na história da cidade foi a inauguração. E depois, que outras?

 

R – É, aí veio continuando as construções, não é?

 

P/1 – O que mais que o senhor lembra...?

 

R – E o trabalho da gente que aumentou, não é? Por causa do número de pessoas que foram morar em Brasília. Porque quando inaugurou Brasília, o pessoal que era do serviço federal era transferido para lá para continuar o trabalho que era da antiga Capital, que era no Rio de Janeiro. 

 

P/1 – Não, mas então: que outros momentos o senhor destacaria? Por exemplo: a inauguração é uma coisa de que o senhor lembra, até falou: “Ah, se eu soubesse eu teria trazido uma foto e não sei o quê”. Mas, o que mais o senhor assistiu?

 

R – O desenvolvimento da cidade, não é? E o número de habitantes, que aumentou bastante. Então, já tinha os prédios de apartamentos construídos, o pessoal já vinha com o apartamento para morar - o funcionário transferido. 

 

P/1 – Sim, entendi. E os seus filhos nasceram em Brasília – os três – e estudaram lá?

 

R – É.

 

P/1 – E aí eles fizeram faculdade, o que é que eles fizeram?

 

R – Fizeram.

 

P/1 – É o que é que eles fizeram? Seu filho mais novo...?

 

R – É, o Marcos fez Jornalismo. A Ana Maria, que é a filha, a moça, fez curso de professor, ela é professora hoje em dia. E o mais velho, o Fraga, que é o Fraguinha, que tem o meu nome, esse esteve na Inglaterra estudando, agora está em Brasília de volta, está lá, fazendo curso de Jornalismo também, tipo Jornalismo. Está terminando para começar a vida também.

 

P/1 – Sei, entendi. E o senhor já é avô? Não, eles são solteiros?

 

R – Não. Ah, sim, sou, o Fraguinha tem um filho.

 

P/1 – Ah, e como é que ele chama?

 

R – Ele teve um caso lá com uma moça e tem um filho, com quatro anos, é o único neto que eu tenho até agora.

 

P/1 – E, “seu” Fraga, quais são seus sonhos hoje? (…) o que o senhor deseja para sua vida hoje?

 

R – É continuar vivendo mais alguns anos, com saúde, paz, tranquilidade... é isso que eu espero, que Deus me dê mais essa graça na minha vida!

 

P/1 – O senhor não tem nenhum sonho específico, assim, nenhum desejo específico para realizar, o senhor acha que a sua vida tomou um rumo que o senhor gostaria que ela tomasse?

 

R – Exatamente. Tudo o que poderia me acontecer de bom e de ruim já aconteceu. Agora é manutenção. Dos bons, não é? Dos ruins não. (riso).

 

P/1 – É, isso! Tá certo. E, “seu” Fraga, como é que foi contar a sua história aqui hoje? O senhor gostou de contar a sua história não gostou...? 

 

R – Claro! Quem é que não gosta de contar o passado, não é? Foi ótimo, a entrevista de vocês foi fabulosa, viu? Muito obrigado pelas perguntas, pela luminosidade que me deram...

 

P/1 – Tá bom, obrigado ao senhor por ter vindo aqui dar o depoimento, viu?

 

R – Tá bom.

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