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Na capacitação, a conscientização.

História de: Hilda Amasifuén Picota
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2007

Sinopse

Em seu depoimento, Hilda Amasifuén Picota, que é uma liderança indígena e nasceu na comunidade Nova Saposoa, no Equador, nos conta sobre o seu nascimento na comunidade indígena e os costumes do povo Shipibos, do qual faz parte, que são muito depreciativos para as mulheres. Relembra os primeiros anos de sua infância em que pôde estudar, mas que logo ao se apaixonar, larga tudo. No entanto, seu casamento é benéfico, pois o seu marido a apoia em suas suas lutas, que aparecem posteriormente, o quê raramente acontece entre os indígenas. As mulheres costumam ser maltratadas e a luta de Hilda sempre foi para educar os povos para que isso não ocorra mais.  Por fim, narra a sua participação no Encontro Continental de Lima quando passou a integrar a  REDELAC (Rede Latino-Americana e do Caribe de Mulheres Trabalhadoras Rurais) e começar a pensar nas questões sociais e políticas que afligem as mulheres além das fronteiras de sua comunidade.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Hilda, obrigada por nos receber no seu lar e compartilhar um pouco da sua história, da sua experiência e do seu trabalho, porque sabemos que você é uma liderança indígena.

 

R – Sim, obrigada pela visita também. Estou pronta para apoiar você, se há alguma pergunta para responder.

 

P/1 - Bem, Hilda, então vamos começar conhecendo seu nome completo, a sua idade e o local do seu nascimento.

 

R – O meu nome é Hilda Amasifuén Picota, minha comunidade é Nuevo Saposoa, tenho trinta e nove anos de idade.

 

P/1 - Bem, e o nome dos seus pais e dos seus avós, você pode nos dizer?

 

R - Meu pai se chamava Américo Amasifuén Román e minha mãe se chama Cemira Picota Huaya. Da parte do meu pai, seu pai se chamava Ramón Amasifuén. Então, minha vovó se chamava Quitéria Román Linares. Quando eu era criança, minha vovó faleceu e não sei as características da minha vovó. Mas, da parte da minha mãe, sim: minha vovó se chamava Izabel Huaya Canayo e meu vovô Juan Picota Romeina. 

 

P/1 - Hilda, o que você conhece da origem dos seus avós por parte da sua mãe? 

 

R – Bom, de meu pai, meu vovô era um agricultor. Também eles, primeiramente, moravam lá por Bajo Ucayali, pelo lado de Orellana, era o que me contavam, que eles moravam por Tambomayo e minha avó também morava lá. Seus pais entregaram minha avó para o meu vovô e fizeram eles juntar; eu acho que não se apaixonaram, senão que seus pais entregaram a minha avó para ele porque assim era nosso costume. Era assim antigamente, não se apaixonava, senão que os pais gostavam de um homem trabalhador, pescador, então já entregavam, mesmo que a garota não queria, mas assim entregavam. E minha vovó tinha 10 aninhos e meu avô tinha 17 anos. Quando a menina não se acostumava, os pais batiam na menina e as meninas sofriam demais. Recebiam maltrato por parte dos seus pais.

 

P/1 - Bem, e o que você conhece do nascimento e da infância da sua mãe?

 

R - Minha mãe nasceu lá em Tambomayo e cresceu. Quando tinha 7 anos matricularam ela na escola primária e ela estava estudante de terceiro ano e a entregaram ao homem que seus pais gostaram, e ela não gostava desse homem, diz que minha mãe dormia com sua vovó e sua vovó não gostava desse homem e sua vovó dizia “vem dormir comigo” e minha mãe dormia com sua vovó e assim se separou do homem, e daí já moraram aqui em Yarinacocha e minha mãe já não estudava, e daí já começou a trabalhar em artesanato e agricultura. Maiormente nós, como povos indígenas Shipibos, trabalhamos na agricultura e as mulheres trabalhavam em artesanato, mas apóiam seus esposos também na roça, na agricultura.

 

P/1 - Da parte do seu pai, a sua família também pertence à origem dos povos Shipibos?

 

R – Também são. Maiormente, nós conhecemos os que são do rio Pisque… Os que são do rio Pisque são mais Shipibos. Os que já estão no rio Ucayali são Konibos. Então, se misturavam com Shipibos e Konibos, por isso que agorinha nós como que já estamos misturados e já mencionamos as duas Shipibo Konibo.

 

P/1 - E como se diferencia um Shipibo de um Konibo? O que você nos explica?

 

R – No falar mesmo, no nosso idioma mesmo também. Por exemplo, os do Alto Ucayali falam de forma um pouco diferente, mas os do rio Pisque também são que como cantando se fala…O tom, mais do que tudo, e também as palavras e algumas coisas pode ser, alguma coisa também, o mesmo, mas a gente diz com outras palavras.

 

P/1 - Ou seja, uma palavra que eles dizem, para vocês significa outra coisa?

 

R – Sim. Então, agora já quase pouco a pouco já estamos nos entendendo. Porque antigamente, anteriormente, era um pouco a palavra que dizia. Eu mesma me confundia: meu pai é do rio Pisque e me dizia, quando eu era menina me dizia, “pára” com outra palavra; então, minha mãe me dizia para parar com outra palavra, então eu não entendia. Então, perguntava ao meu pai e me dizia isto assim e assim. Eu me sentia bem. Então, me informavam bem e aí eu já entendia as duas bem. Meu pai outra coisa, minha mãe outra coisa, mas era a mesma.

 

P/1 - Você poderia dizer que falavam como se fosse um dialeto?

 

R – Sim, sim, como um dialeto, mas era dizer a mesma coisa com outras palavras. 

 

P/1 - Hilda, você acabou de me dizer que não conhece quase nada da vida do seu avô por parte do seu pai, porque faleceu quando você era criança. Mas, com certeza, você conhece como foi a infância do seu pai, que ele tenha contado, talvez, antes de falecer.

 

R – Meu pai, sim, contava muitas coisas. Ele, primeiro, morava pelo rio Pisque, mas depois já veio morar pelo rio Aguaytia. Ele veio com seus pais. Primeiro fizeram suas roças e morou aí e chamou a comunidade de Santa Rosa de Aguaytia e aí cresceu o meu pai. O fundador de Santa Rosa de Aguaytia é meu vovô de parte do meu pai, o avô é fundador da comunidade e convidou seus familiares de outras comunidades para que venham morar. Agora já é comunidade grande. Meu pai trabalhou na agricultura e depois trabalhou no magistério. Tinha um professor, de ILV tinham chamado, o senhor Teobaldo Ochavano, e ele foi ensinar em Santa Rosa de Aguaytia. E aí, ele viu um menino que pode ser como um professor, então ele convidou para que venha estudar no Instituto Lingüístico de Verão e meu pai capacitou para que seja professor e saiu escolhido como professor.

 

P/1 - Sim, antigamente as pessoas que sabiam um pouco, sabiam ler e escrever, realizavam as funções de professor para a comunidade, verdade? 

 

R – E assim foi. Meu pai já tinha estudado na sua mesma comunidade e o professor também viu que ele tinha capacidade de ser professor, de estudar mais. Então, o professor mesmo trouxe ele para cá, para que estude mais, se capacite mais, e foi escolhido como professor da comunidade. Os estrangeiros de ILV disseram que vá trabalhar na sua mesma comunidade, como professor.

 

P/1 - Conte um pouquinho do que você sabe dos seus pais, como eles se conheceram?

 

R – Meu pai não conhecia a minha mãe antes, porque ele morava em outra comunidade e minha mãe morava na comunidade que é Nuevo Saposoa. Mas, meu avô, o pai da minha mãe, também era lingüista. ILV também trouxe ele para que capacite as comunidades e ele ia de avião para diferentes comunidades, para capacitar sobre o tema educação. Então, minha mãe veio para cá com meus vovôs. Meu pai também veio para cá estudar; então, primeiro meu pai se reuniu com minha tia. Meu pai já tinha sua primeira mulher, onde ela tinha 2 filhos. Mas quando veio aqui encontrou a minha tia, a irmã mais velha da minha mãe, e eles já se apaixonaram e se juntaram. Os estrangeiros de ILV não gostaram. Sua mulher veio sabendo que seu marido já tem outra mulher, então veio reclamar com os gringos. E os gringos, como já conheciam meu vovô, saíram a favor do meu avô e deixaram que eles se casem. E aí chamaram a atenção dos dois e perguntaram, fizeram escolher: “com quem você vai ficar? Vai ficar com o que você está agora? Você tem que atender os seus filhos”. Aí, meu pai escolheu a minha tia e os lingüistas dos Shipibo já fizeram seus documentos para que casem civil. Como meu pai vivia com minha tia, minha mãe também vivia junto. Aí, meu pai já olhava a minha mãe, ela é a mais nova da minha tia, e se apaixonou. Quando minha tia já tinha 2 filhos, quando nasceu Ramón, meu pai pediu a mão ao seu pai e seu pai entregou a minha mãe para ele, e mamãe também aceitou e viajaram juntos para a comunidade de Santa Rosa e aí ficou grávida de mim com meu pai, e minha tia ficou na casa dos seus pais. 

 

P/1 - Que número você é dos irmãos?

 

R – Sou a última.

 

P/1 - O que conta sua mãe do seu nascimento?

 

R – Nasci em Nuevo Saposoa, mas o parto diz que foi muito difícil. Três dias com dor, ela estava. E, como antes as parteiras também quase não sabiam, mas tinha uma senhora que sabia como atender o parto, a senhora parteira. Mas ela não estava. Ela estava viajando durante três dias. Quando chegou, ela diz que atendeu e eu nasci sadia e quando nasci diz que gostaram todos, porque meu olho era de gata e gostavam muito de mim, isso conta minha mãe.

 

P/1 - Ela estava sozinha?

 

R – Sim, com a família, mas já não podia. Minha mãe já estava cansada e veio a senhora que estava viajando. E me diz que sofreu o parto e depois já foi bem.

 

P/1 - Mas valeu a pena o sofrimento, porque nasceu Hilda, uma representante da região Ucayali que teve a oportunidade de visitar vários lugares em nível nacional e internacional… Hilda, vamos voltar um pouquinho à sua infância, onde você viveu sua infância, como era o lugar no qual você morava?

 

R – Bom, eu morava na comunidade de Nuevo Saposoa. Nasci, também cresci e lá estudei e até terminei minha secundária na comunidade. E como antes não tinha colégio nas comunidades, então tinha que vir aqui em Yarinacocha para continuar estudando a secundária. Eu não queria deixar também, como meu pai era professor queria continuar estudando, continuar tranqüilamente, mas fiquei até o terceiro ano de secundária e me apaixonei e casei. E já não estudei. 

 

P/1 - Mas há oportunidade para que você possa, agora, terminar a sua secundária...

 

R – Agorinha estou estudando no colégio particular San Martín de Porres. Já estou no quarto ano – porque aí, em particular, está um ano por dois ciclos.

 

P/1 -  Que bom... e como era sua casa em Saposoa?

 

R – Minha casa era assim, de folha.

 

P/1 - E o chão?

 

R – Meu chão era pona, porque nós nunca temos tábua, senão que usamos pona, não está fechado, está livre. Essa é a característica das casas dos Shipibos.

 

P/1 - Quantos irmãos são vocês?

 

R – Da parte da minha mãe, sou a única e da parte do meu pai somos quatro.

 

P/1 - Como se chamam os seus irmãos?

 

R – Minha irmã mais velha, Velgencia Amasifuén; depois, Ramón Amasifuén e Edilberta Amasifuén, a última - a winsha, como a gente diz aqui.

 

P/1 - O que fazia sua família, a que se dedicava? 

 

R – Meu pai era professor, ensinava nas comunidades. Primeiro, trabalhou na comunidade de Santa Rosa, depois em Patria Nueva. Depois, trabalhou aqui em Santa Clara, em Yarinacocha. Mas, não sei quantos anos teria trabalhado nas comunidades, não me lembro.

 

P/1 - Como você descreveria seu pai?

 

R – Meu pai era boa pessoa, era responsável, se preocupava com nós, preocupava porque queria nos ver superando. Eu agradeço meu pai e agradeço pelo que saí adiante. Agradeço minha mãe. Morreu meu pai e minha mãe continua apoiando. Saiu adiante. E também o meu esposo. Eu, que viajo para diferentes lugares, graças a Deus que consegui esse tipo de pessoa, não vejo que meu esposo me trata mal quando eu viajo, ele me ajuda, me apóia, compreende; então, nos entendemos bem.

 

P/1 - Tem que felicitar também o seu esposo, que te dá a oportunidade de continuar trabalhando pelo seu povo e pela região Ucayali.

 

R – Sim, isso também é porque ele também foi dirigente e sabe muito bem como é quando a gente entra na dirigência. Às vezes, quando nas reuniões as mulheres conversamos, há mulheres que me dizem: “eu quero participar, mas meu esposo não quer; quando vou, meu esposo vai me bater, vai maltratar”. Então, em compensação, eu digo “eu, quando saio só comunico ele”. Fico na mesa de concertação, de trabalho, até meia noite, vinha e pensava que meu esposo vai ficar chateado e não foi assim. Isto também me dá ânimo de participar em todas as reuniões. 

 

P/1 - Que bom que seu esposo apóia o seu trabalho, porque sabemos que não há sábados, nem domingos, nem feriados, não é Hilda?

 

R – Sim, é assim. Eu nem quero ficar aí. Eu tenho que lutar pelo meu povo, porque vejo que as mulheres estão, às vezes, abandonadas, discriminadas, marginalizadas, maltratadas. Às vezes, pelos seus esposos. Por isso, vou para o rádio, porque temos um programa radial também, o espaço que eu tinha que dizer para as mulheres e os homens que pensem que o tempo todo não podemos estar maltratados. Temos a capacidade de superar, não é? E as mulheres temos que olhar para o futuro, queremos isso que podemos fazer daqui a quantos anos.

 

P/1 - Voltando à sua infância, o que você gostava de fazer quando era menina?

 

R – Eu gostava de fazer, mais do que tudo, esporte; até agora eu gosto.

 

P/1 - E quais eram os seus jogos favoritos? O futebol?

 

R – Sim, o futebol. Até agora continuo e vejo que meus filhos também são assim. Dois homens que estão na seleção, fico muito feliz! Às vezes, quando eles jogam, vou ver e me animo.

 

P/1 - E essa habilidade de fazer a cerâmica, os bordados, os tecidos, vocês têm como uma tradição, como parte dos seus costumes?

 

R – Sim, até agora mantemos, porque estou fazendo bordado. Na idade de oito anos, minha mãe me ensinou a fazer bordado, então me dediquei também a fazer colares, pulseiras. Quando temos interesse de aprender, aprendemos. E agora também estou ensinando minhas filhas. Apesar de que eles vão estudar, quando eles vêm, me ajudam a fazer artesanato.

 

P/1 - Você estudou a primária lá em Saposoa?

 

R – E a secundária aqui no colégio C. N. E., em Yarinacocha.

 

P/1 - Tem alguma história que você lembre ou que goste de lembrar da sua infância? 

 

R – Não, não me lembro.

 

P/1 - E da juventude? Onde você morava quando era jovem?

 

R – Aqui, em Yarinacocha.

 

P/1 - Quais são as suas diversões, o que você gosta de fazer? Você diz que o que mais pratica é futebol? 

 

R – Fora disso, gosto de fazer artesanato e também gosto de capacitar. É importante nos capacitarmos, nos atualizarmos e isso é o que eu gosto, onde tem capacitações, onde que tem oficinas, estou aí presente.

 

P/1 - Como eram as festas na sua comunidade?

 

R – Antes, as festas eram bonitas, porque faziam com bombos.

 

P/1 - Quais festas? Como se chamavam essas festas? 

 

R – Festas faziam quando cortavam franja. Uma menina cortava o cabelo para que já esteja diante da sociedade como uma mulher. Como vocês fazem 15 anos, nós também fazíamos com o corte de cabelo.

 

P/1 - E na infância, que roupa vocês usavam? 

 

R – E na juventude também, colocamos nossa vestimenta com enfeites, com sementes de plantas e árvores. Eu tenho até agora, eu ponho minha vestimenta e adornos, não posso deixar. Em alguns encontros, reuniões, vou com minha vestimenta. Para mim, é importante, porque assim nos reconhecemos como povo indígena.

 

P/1 - Como era a rotina de mocinha?

 

R – Eu me dedicava aos estudos, trabalhava na minha casa fazendo artesanato, mas depois, já quando na idade de 20, 21 anos, trabalhei em programa de assistência direta. Organizamos uma organização de mulheres shipibos no tempo de Alan García, graças à senhora Pilar Nores de García, que nos havia dito que cada comunidade ou povo indígena deveria se organizar para conseguir algum apoio: copos de leite, restaurantes populares. No ano 86, organizamos os clubes de mães em diferentes comunidades do rio Ucayali 

 

P/1 - Quantos anos você tinha aí?

 

R – Eu tinha vinte e um anos.

 

P/1 - Ou seja, desde muito jovem você está no movimento de mulheres...

 

R – Daí, nos organizamos em uma organização regional de desenvolvimento de mulheres indígenas. Também aí trabalhamos e me escolheram como secretária e saímos para nos organizar como mulheres, formamos o Clube de Mães Rabin Rama.

 

P/1 - Você já era casada? Como você conheceu o seu esposo?

 

R – Ele veio estudar aqui no colégio La Inmaculada. Havia uma organização de jovens indígenas aqui, na região Ucayali, que apoiava os bolsistas, havia um projeto para apoiar os indígenas estudantes aqui na secundária. Meu esposo foi bolsista do Alto Ucayali e veio estudar aqui na Inmaculada. E aí, quando íamos jogar na comunidade de San Francisco, conheci meu esposo.

 

P/1 - Ou seja que foi o esporte que aproximou vocês… O que você lembra do seu casamento?

 

R – A gente se apaixonou, eu também tinha um pouco de medo da minha mãe. Meu pai vivia com a minha tia. Ele me disse: “Vou me casar com você” e eu não acreditava. No final, nos reunimos aqui, neste lote.

 

P/1 - O fato de que ele pedisse você em casamento te alegrou muito, pelo que você me contou de que o seu temor maior era que sua mãe entregasse você?

 

R – Nos reunimos e minha mãe me disse: “eu não quero ver... de repente você vai engravidar, vão abandonar você e, no final, você vai ficar sozinha. “Você já tem que se reunir, antes que engravide” me disse minha mãe; e nos reunimos.

 

P/1 - Deus “benzeu” você com um homem responsável que se apaixonou por você, pediu você em casamento, casou e agora vocês têm quatro filhos.

 

R – Minha primeira filha se chama Jerly Rossy Ventura Amasifuén. A segunda Ruth Erika, o terceiro se chama Erick Laureano, seu nome é o do seu avô por parte do seu pai, e o último tem o nome do seu pai, Paolo Bernabé. Duas mulheres, dois homens.

 

P/1 - Como foi o nascimento da sua primeira filha?

 

R – Eu também sofri, mas me alegrou. Me alegrei porque vou ter minha filha. Era mulher e você sabe que quando nasce uma menina pensamos que ela vai me ajudar. Quando vai ser grande eu vou apoiar ela para que estude, ajudar para que seja profissional, isso é o que pensei. E agora, pois estão estudando. Terminou a secundária, porque não continuou. Teve sua filhinha. Eu digo a ela “vou te apoiar para que continue estudando”. E a outra está estudando na UNIA, está fazendo o terceiro ciclo, educação primária bilingüe.

 

P/1 - Como a maternidade tem mudado sua vida? O fato de ter, de repente, um ser com você, que você vai trazer o filho ao mundo…

 

R – Senti que minhas filhas vão nascer, vou ser mãe e tenho que lutar por elas. Tenho que trabalhar por elas, se não trabalho, elas não vão sair adiante. Agora, como já são jovens, eu me alegro bastante, porque estão estudando e trabalhando. Consideraram, também, como condutora de um programa radial e isso é que me alegro. Já não sou sozinha, elas me apóiam.

 

P/1 - Você está contente com elas, está orgulhosa delas estarem seguindo seus passos?

 

R – Isso é o que me dizem…

 

P/1 - Isto foi do seu apoio e, talvez, da sua mãe...

 

R – Às vezes, quando eu viajo pelo rio, então minha mãe me ajuda, eles ficam com minha mãe e ela também me apóia. 

 

P/1 - Vamos continuar conhecendo como inicia no Movimento de Mulheres. Quando e de que maneira você se envolveu nesse movimento de mulheres?

 

R – Antes, nós não éramos organizados. No ano 86, graças a Pilar Nores de García, as mulheres devíamos nos organizar aqui na cidade, formar clubes de mães em cada comunidade. Então, formamos um clube de mães que se chama Clube de Mães Rabin Rama, para conseguir algumas doações do governo. Porque davam refeitórios populares quando eram organizados. Formamos, assim, um clube de mães para poder conseguir alguma coisa.

 

P/1 - No movimento, quais atividades marcaram mais? 

 

R – Bom, maiormente mulheres shipibos trabalhamos em artesanato, porque é a única fonte de renda econômica. Porque com isso também educamos os nossos filhos, vendendo os produtos artesanais na cidade. Quando a gente veio, já não trabalhamos na agricultura, não trabalhamos de pesca, mas os que vivem na comunidade continuam trabalhando com isso.

 

P/1 - Significa, então, que ao fazer parte do movimento de mulheres, participar diretamente nele, mudou a sua vida?

 

R – Eu me capacitei, porque tem uma instituição que está nos apoiando, que é CIPA. Nos capacitou no ano 90. Porque, anteriormente, somente os homens eram organizados. Não apoiavam as mulheres, financiavam os homens organizados. Mas veio uma mulher como diretora do CIPA e me chamou a mim; meu esposo – ele também era dirigente – me diz: “Senhorita quer conversar contigo”. Eu já tinha formado o clube de mães e fui conversar. E ela me diz: “sabe que vocês como mulheres indígenas têm que capacitar, têm que organizar, têm que ver o desenvolvimento dos seus povos”. E eu animei de organizar novamente e aí é o que capacitamos, trabalhamos organizadamente em artesanato e nos apoiou bastante. Até agora continuo capacitando a nível regional e internacional.

 

P/1 - O que você fazia antes, qual era sua rotina antes de chegar à organização, onde você trabalhava?

 

R – Antes, eu não trabalhava. Eu somente estava na minha casa, trabalhava em artesanato e não trabalhava nas organizações. Depois, já trabalhei em programa de assistência direta, como coordenadora das mulheres. Trabalhei no PAD - Programa de Assistência Direta.

 

P/1 - Hilda, a nível internacional você começou a participar da Rede das Mulheres Rurais. Quando foi a sua primeira participação?

 

R – Primeiro, nós tínhamos nos organizado no encontro regional em Tarapoto; depois, o encontro nacional foi em Lima. Foi aí que me escolheram e depois viajei para Fortaleza, Brasil, no ano de 1996.

 

P/1 - E como você chega à Rede?

 

R – Bom, nós éramos organizados pela Cipa. Havia uma diretora que convocou uma reunião. Como eu era a presidenta das mulheres aqui, residente em Yarinacocha, a senhorita me convidou para viajar para esse encontro. Então, viajamos duas pessoas – eu e minha irmã – e daí foi escolhida a minha pessoa e participei. Vi muitas mulheres que tinham experiência, eram profissionais participando. E eu, que tinha medo, mas tinha que falar pelo meu povo, dizer o que precisamos como mulheres aqui na região Ucayali.

 

P/1 - O que mais impressionou você, o que marcou mais você nesse primeiro encontro?

 

R – Eu me admirei de como as mulheres de outros países eram bem organizadas e nós, povos Shipibos e da região Ucayali, pouco menos faltava, eu ainda tenho que organizar. E assim foi. Vim e vejo as mulheres: nós temos a capacidade de fazer tudo o que fazem os homens. Eles nos dizem que não temos capacidade; vejo que as organizações indígenas são só homens, quase nos discriminam, nos marginalizam, as mulheres. Mesmo quando são dirigentes, as esposas dos dirigentes estão em casa, estão metidas, somente eles saem para os encontros. No final, não precisam ser machistas, mas eles o que fazem é isso.

 

P/1 - Há uma busca para erradicar o machismo e sensibilizar a população para atingir a eqüidade de gênero?

 

R – Sim, isto é o que temos visto. Tem que conscientizar os homens, porque havia muita violência familiar nos povos Shipibos, também como em qualquer parte. Muito machistas que eram. Agora, pouco a pouco... Conscientizar é muito difícil, ter a eqüidade de gênero, mas estamos continuando, fazendo, dizendo às mulheres: não queremos ser mais do que os homens, queremos estar igual. E isso é o que sempre digo, que tem que ser igual, não pensar que somos menos... às vezes, as mulheres pensam que dependem do esposo. Se você decide, tem que conversar com o esposo, tenho direito de conversar com o esposo, não tem que deixar ele de lado, a gente tem que compartilhar com ele ou com todos.

 

P/1 - O que aconteceu ao participar de uma segunda oportunidade na Rede de Mulheres?

 

R – Participei em 2004 no encontro continental em Lima. Depois, me perdi. Não sei como não tinha nada de informação, por isso não participei da última vez...

 

P/1 - Certamente Betty vai estar entrando em contato com você, porque ela está muito interessada em conhecer o que tem sido da sua vida, da sua participação, o que você está fazendo pela organização de mulheres.

 

R – Agorinha, estou trabalhando, capacitando. Estou trabalhando não só com mulheres, senão com os homens, capacitando no orçamento participativo. Também, que conheçam sobre o processo de descentralização, porque cada governo que entra faz o seu plano e temos que dar a conhecer para que eles também sejam informados e façam sua contribuição. Também, diante das suas autoridades e esse trabalho é o que estou fazendo. Mas não sabia, perdi contato com a Rede. Participei no ano 2004. Em 2005, em Tarapoto, também fui expor a minha experiência com as outras irmãs indígenas e, depois, já me perdi, não me comuniquei, não sei. Podem ter comunicado em Cipa, mas não sei, não devem ter me comunicado, isso não sei.

 

P/1 - Qual é a sua opinião com respeito à Rede? Que sonhos você tem com respeito à Rede?

 

R – Penso em continuar a trabalhar com mulheres. Porque nós, como mulheres, temos que continuar aprendendo muitas coisas e o que aprendemos temos que compartilhar com os demais. Isso é o que eu penso: que posso, se há contatos comigo, compartilhar com elas o que estou fazendo, que trabalho estou fazendo aqui na região Ucayali com as mulheres.

 

P/1 - Você me comentou que atualmente você é a coordenadora da mesa de concertação. Que experiências a favor das mulheres tem dado a você esse trabalho como coordenadora da mesa de concertação?

 

R – Este também me deram a oportunidade. Me escolheram da coordenadora dos povos indígenas a nível da região Ucayali – são quatorze povos indígenas que existem aqui. Eu tenho que trabalhar, não só com as mulheres, senão pelos quatorze povos indígenas. Que problemas temos aqui, que propostas podemos entregar ao Estado para que nos reconheçam, que facilidades podem nos dar como povo indígena. E esse trabalho eu fiz. Amanhã é a reunião que estou convocando, para sair, porque também há pessoas que podem ocupar esse cargo. E isso é o que estou fazendo. Amanhã, se me elegem novamente, posso ocupar, vou dizer que eu já tenho experiência nisso, outros também que aprendam.

 

P/1 - Significa que outros vão assumir a responsabilidade na mesa de concertação?

 

R – Claro, isso seria bom, porque a gente não entra sabendo todo o tempo, tem que aprender muitas coisas. E isso é o que vou fazer, não vou deixar totalmente, senão que vou contribuir, vou lutar pelas mulheres e pelos povos indígenas.

 

P/1 - Bem, obrigada por compartilhar conosco uma parte da sua história, da sua vida, das ações positivas que você vem fazendo para melhorar a qualidade de vida da comunidade, dos povos indígenas da região Ucayali.

 

R – Obrigada, agradeço a você esta visita e temos que continuar. Vou continuar lutando. Mais do que tudo, temos o sonho. Obrigada.

 

P/1 - Você pode enviar uma saudação no seu idioma e traduzir?

 

R – Sim, vou mandar uma saudação para Betty, que sempre mantivemos o contato, mas perdi agora novamente. Abraços e felicitações para ela também, que está trabalhando em Tarapoto pelas mulheres e os povos indígenas e isso é bom, quando quem está aí tem que lutar pelas mulheres e pelos demais.

 

Enra mato irake akai maton ainbobokopi maton tee akaitian ichabires irake. 

 

P/1 - O que você disse a ela?

 

R – Felicitei ela porque está trabalhando pelas mulheres e que continue lutando pelas mulheres. Obrigada.

 

P/1 - Obrigada, Hilda.

 






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