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História

N: ponto-linha. R: ponto-linha-ponto

História de: José de Oliveira Borba
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

José de Oliveira Borba relembra que desde pequeno ajudava seu pai com os afazeres do sítio, como o de cortar a lenha e o de ir buscar água na cacimba. Como filho de agricultor, teve a oportunidade de estudar na escola rural, mas estudou, também, na escola da cidade e foi neste período que começou a frequentar a Estação de Tracunhaém como praticante de telegrafia para aprender e treinar o Código Morse. José Borba começou na Rede como telegrafista safrista, até ser promovido a sub-agente da Estação Central de Recife, um terminal de passageiros, com muitos funcionários e um movimento bastante intenso. Relembra sobre o período que se aposentou e entrou na Associação de Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN). Sua narrativa está permeada de frases em código Morse, mostrando que este alfabeto ainda vive na memória dos que foram ferroviários.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor José. Eu gostaria, para iniciar, que o senhor falasse o seu nome, local e data de nascimento.  

 

R – José de Oliveira Borba. A data que eu nasci?

 

P/1 – Isso.

 

R – Vinte de março de 1941.

 

P/1 – E a cidade que o senhor nasceu?

 

R – Nazaré da Mata.

 

P/1 – E onde fica Nazaré da Mata, senhor José?

 

R – Fica aqui ao Norte, entre Carpina e Timbaúba.

 

P/1 – Ah, é mais para o sertão mesmo do Nordeste, de Recife?

 

R – É aqui ao lado.

 

P/1 – Como é o nome dos seus pais?

 

R – João Pereira Borba e Maria de Oliveira Borba.

 

P/1 – E qual é que era a atividade deles?

 

R – Papai era agricultor e mamãe era doméstica.

 

P/1 – E o seu pai plantava o quê?

 

R – Roça: inhame, macaxeira, batata, banana e, também, uns pés de laranja.

 

P/1 – Então não era uma região de seca?

 

R – Não, não, não, porque não é sertão, não.

 

P/1 – E o senhor sabe onde eles nasceram?

 

R – Papai nasceu em Nazaré da Mata, agora mamãe eu não me lembro, não.

 

P/1 – Não tem problema, não. E o senhor chegou a conhecer os seus avôs?

 

R – Conheci.

 

P/1 – E como é que era o nome deles?

 

R – O meu avô por parte de pai era Joaquim Pereira Borba, só conheci o avô porque a avó já era falecida. E meu avô por parte materna era José de Oliveira Nô e Julia de Oliveira Nô.

 

P/1 – E eles faziam o quê, os seus avôs? O senhor sabe a atividade deles?

 

R – Trabalhavam nesse mesmo tipo de coisa, em agricultura. Meu avô foi administrador de engenho muito tempo.

 

P/1 – Ah, que interessante. O senhor chegou a ir com ele nos engenhos quando o senhor era pequeno?

 

R – É, quando eu era pequeno, a gente sempre passava dias na casa deles.

 

P/1 – E eles moravam perto da sua casa?

 

R – É, não era muito distante.

 

P/1 – E, senhor José, como é que era a convivência na sua casa quando o senhor era pequeno? Como é que era o cotidiano?

 

R – O meu, como criança, de manhã eu ia para a escola, à tarde, quando eu chegava sempre tinha aqueles serviçozinhos para fazer, ou seja, não existia gás, naquela época, era cortar lenha; carregar água, não existia água encanada; dar ração para animais, ou seja, vaca, cavalo.

 

P/1 – Então onde o senhor vivia era um sitiozinho?

 

R – É, um sítio que existia tudo isso.

 

P/1 – O senhor falou que ia para a escola e quando chegava, cada filho tinha uma obrigação para fazer?

 

R – Isso... Sempre existe o que fica mais encostado e aquele que sobra para ele.

 

P/1 – E sobrava para o senhor?

 

R – Sobrava sempre mais para mim, que era o mais velho.

 

P/1 – Em quantos irmãos vocês eram?

 

R – Eu tenho seis irmãos.

 

P/1 – Todos mais novos?

 

R – São. Eu sou o mais velho da família.

 

P/1 – E são homens, mulheres?

 

R – Três homens e três mulheres.

 

P/1 – E me diz uma coisa, como é que era, o senhor chegava da escola e a primeira coisa que o senhor tinha que fazer era cortar lenha?

 

R – Eu chegava da escola e sempre tinha o que fazer, cortar lenha, mamãe dizia: “Acabou a lenha”. Aí eu pegava uma foice ou um machado e cortava lenha. “Acabou a água”. Colocava a cangaia num burro para conduzir a água.

 

P/1 – Onde o senhor buscava água?

 

R – Como o matuto chama, em cacimba.

 

P/1 – Cacimba, o que é cacimba?

 

R – Cacimba é aquilo que normalmente não é revestida com tijolos, essas coisas, a água sai da própria terra e acumula.

 

P/1 – Ah, é tipo uma mina?

 

R – É.

 

P/1 – E para o senhor buscar lenha, tinha uma mata perto onde o senhor ia cortar...

 

R – Tinha, não, não. Os trabalhadores já colocavam ao lado e a gente cortava.

 

P/1 – Ah, então tinha umas pessoas que trabalhavam para o seu pai?

 

R – Tinha, tinha pessoas que trabalhavam para o papai.

 

P/1 – E que tipo de mata tinha nessa região, seu José?

 

R – Não era mata. Era o que se chama de capoeira, uma madeirinha fina, às vezes, não é madeira de qualidade.

 

P/1 – O senhor cuidava de que tipo de animais? Que tipo de comida que o senhor dava para eles?

 

R – Capim, para o gado, capim de um modo geral era para os cavalos e para o gado era capim, maniva, olho de cana.

 

P/1 – Maniva o que é, senhor José?

 

R – Maniva é aquela da parte... A mandioca fica interna e a maniva desenvolve.

 

P/1 – Ah, é aquela folhagem que sai da planta?

 

R – É, da macaxeira.

 

P/1 – E o senhor picava tudo e dava para o gado?

 

R – É, cortava tudo miudinho e eles comiam.

 

P/1 – E o senhor cortava como? Tinha uma picadeira ou era na mão?

 

R – Não, era com uma faquinha bem afiada.

 

P/1 – E como é que era essa casa? Era grande, pequena?

 

R – Era uma casa grande que tinha um, dois, três quartos, duas salas, uma cozinha, toda ela era cercada com... Deixa eu ver se eu me lembro do nome... Alpendre. Toda a lateral era no alpendre.

 

P/1 – Depois que o senhor chegava em casa e trabalhava, o senhor tinha tempo para estudar também?

 

R – Para isso, se fazia uns biquinhos, um pouquinho. Fazia sempre aquilo que tem necessidade. Depois eu comecei a praticar e parei de fazer determinadas coisas.

 

P/1 – E o senhor também brincava, senhor José?

 

R – Não, isso não existia, não. Batia uma bolinha, escondido de papai.

 

P/1 – Ah, por que ele não deixava?

 

R – Não gostava, não. Não gostava de futebol, não.

 

P/1 – E onde o senhor batia uma bola, em que lugar que o senhor ia?

 

R – Na maioria das vezes a gente jogava num engenho que era vizinho do terreno da gente. De bola de meia...

 

P/1 – Ah, vocês faziam uma bola de meia?

 

R – É.

 

P/1 – E quem brincava, quem jogava bola com o senhor?

 

R – Eram eu e meus dois irmãos, somente para passar o tempo.

 

P/1 – E quando o senhor ia para a casa dos seus avós, como é que era a rotina lá? O senhor falou que o senhor ia passar uma temporada lá..

 

R – Isso era normalmente dois, três dias somente. Meu avô vivia muito ocupado, quem administra engenho está sempre montado num cavalo, fiscalizando todo o serviço da propriedade.

 

P/1 – Como é que funciona o engenho? Como é que o senhor lembra dessa fase de criança visitando o engenho? Que lembranças que o senhor tem desse engenho? Para quem não conhece o que é um engenho, explica para gente.

 

R – Engenho hoje, não existe mais, é onde se coloca a cana, tem os tambores de colocar a cana, produz o caldo, faz o açúcar, não era o açúcar cristal, era o açúcar bruto. Você quando o coloca num determinado vasilhame, sai o melaço, o melaço serve de ração para os animais.

 

P/1 – E açúcar é o produto final?

 

R – É. Quando escorre todo o melaço, fica o açúcar bruto que é aquele escurinho, você pega ele, são aqueles pedaços assim, hoje é demerara, mas antigamente era açúcar bruto.

 

P/1 – O fato de ser demerara ou só bruto é por causa do processo que a máquina faz?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – E era uma quantidade muito grande de cana que entrava?

 

R – É, muita cana. Conduzida em carro de boi, em burro. No tempo do engenho era assim, não existiam essas carretas, essas máquinas apropriadas para fazer carregamento de caminhões, isso não existia.

 

P/1 – Ah, então a diferença é que hoje tem uma máquina que corta a cana e põe em cima do caminhão?

 

R – Corta, é, exatamente.

 

P/1 – E antigamente não, era tudo na mão?

 

R – Tudo na mão.

 

P/1 – E esse engenho era muito grande?

 

R – É, era grande. Os engenhos normalmente são grandes.

 

P/1 – E esse que o seu avô trabalhava era muito grande?

 

R – Era.

 

P/1 – E o senhor ficava no engenho, o que o senhor fazia lá?

 

R – Olha, lá no engenho, tomava caldo na esplanada do engenho. A esplanada é normalmente onde eles colocam o bagaço para secar.

 

P/1 – E eles põem o bagaço para secar para quê? Para poder cortar?

 

R – Fogo. O próprio engenho usa o bagaço para queimar.

 

P/1 – Ah, usa o próprio bagaço para poder gerar energia para poder funcionar a máquina?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor chegava a comer os torrões de açúcar, ou não?

 

R – Não, é... Açúcar bruto é bom.

 

P/1 – Ele é melhor do que açúcar refinado?

 

R – É, açúcar refinado tem muitos produtos químicos.

 

P/1 – E como é que é o gosto?

 

R – Rapaz, é bom! Qual é o gosto eu não posso lhe explicar porque o bruto é bem diferente do refinado.

 

P/1 – Ele não é amargo?

 

R – Não, não, ele é diferente do próprio demerara que já tem muita diferença para o cristal.

 

P/1 – E como era a escola que o senhor frequentava? O senhor se lembra dela? Era uma escola de roça ou era uma escola de cidade?

 

R – Não, era de roça. Era no próprio engenho vizinho à propriedade, isso normalmente viajava o quê? Acho que dava aproximadamente sete quilômetros para ir e sete para voltar.

 

P/1 – E o senhor ia a pé? Como é que o senhor ia?

 

R – A pé, todos os dias.

 

P/1 – E o senhor acordava muito cedo para ir?

 

R – Ah, acordava cedo, às cinco horas da manhã.

 

P/1 – E conseguia chegar na escola que horas? Quanto tempo o senhor levava para ir até a escola?

 

R – Isso dá, em média, quase cinquenta minutos. Menino anda devagar, cinquenta minutos, uma hora.

 

P/1 – O que tinha nesse caminho para a escola? Qual era a paisagem que tinha nesse entorno?

 

R – Carreiras de caju de um lado e de outro e a estrada no meio. O caju fazia ficar sombra.

 

P/1 – Que bonito.

 

R – Toda a estrada...

 

P/1 – E o caju dá em que época do ano?

 

R – Olha, o caju... De fevereiro, março tem caju.

 

P/1 – Quando o senhor ia para a escola, o senhor ia comendo caju, ia pegando caju para comer, ou não?

 

R – Não, não.

 

P/1 – E essa escola tinha muitos alunos?

 

R – Tinha, tinha muitos.

 

P/1 – Eram quantas crianças?

 

R – Ah, não me lembro, não.

 

P/1 – E o senhor lembra o nome da sua professora?

 

R – Eu sei que uma era Maria Rodrigues. A outra, a primeira, não me lembro do nome dela, não.

 

P/1 – O senhor gostava de ir a escola?

 

R – Gostava.

 

P/1 – Na escola como era? O senhor tinha aula, tinha recreio também, não tinha?

 

R – O recreio é coisa mínima, o espaço era pequeno.

 

P/1 – E vocês faziam o quê no recreio?

 

R – Aí se tomava um copo d’água, se fazia um lanche.

 

P/1 – Não tinha brincadeira entre as crianças?

 

R – Não, não porque o espaço era pequeno. De um modo geral, não tinha aquele problema de separar de hora ‘X’ a hora ‘X’, aula tal, de separar as aulas naqueles horários. Era uma professora só para todos.

 

P/1 – E o senhor voltava a pé de novo...

 

R – A pé, sempre a pé.

 

P/1 – E como é que era essa plantação de caju, era muito grande?

 

R – Era em toda a estrada... Essa quilometragem que eu lhe falei, é de um lado e de outro.

 

P/1 – Como é que a planta do caju? Conta para a gente.

 

R – É uma árvore grande que normalmente tem uma determinada idade quando produzia e as pessoas que gostam, passam e apanham o caju, e se não quer o caju, quer a castanha, porque a castanha normalmente eles assam e usam.

 

P/1 – E faz a castanha do caju, né?

 

R – É.

 

P/1 – E fala uma coisa, senhor José, o senhor ficou morando nessa propriedade com seus pais até que idade?

 

R – Até dezoito, dezenove anos, mais ou menos.

 

P/1 – E o senhor estudou nessa escola até que ano? Até que idade?

 

R – Por idade eu não me lembro, eu sei que eu estudei nessa escola, depois eu fui estudar em Nazaré.

 

P/1 – Ah, o senhor foi estudar em Nazaré, na cidade?

 

R – É, no Ginásio São José do Padre Mota.

 

P/1 – E como é que era esse colégio? Como é que foi estudar em uma escola de cidade? Era muito diferente?

 

R – Ai, muda muito.

 

P/1 – Por que, senhor José?

 

R – Mudaram os professores, um professor para cada matéria... Tinha horário, você tinha horário de chegar, tinha horário de sair.

 

P/1 – Como é que o senhor ia para Nazaré?

 

R – Andava uma parte a pé e outra parte de ônibus.

 

P/1 – Ah, o senhor pegava um ônibus para ir até Nazaré?

 

R – É.

 

P/1 – E como é que era essa cidade de Nazaré? Conta para a gente.

 

R – Nazaré era uma cidade grande. No meu tempo, não era tão desenvolvida, hoje está desenvolvida.

 

P/1 – E o que impressionava o senhor na cidade quando o senhor saia do sítio para ir para lá?

 

R – Ah, a coisa é diferente. No sítio só se vê o quê? Animais, árvore... Chega na cidade, muitas pessoas, transporte...

 

P/1 – E nessa escola que o senhor estudou o senhor fez muitos amigos, ou não?

 

R – Eu sempre gosto de fazer amigos, posso ter a cara feia ou ser aborrecido, mas eu gosto muito de amizade.

 

P/1 – Em relação a essas pessoas que o senhor conheceu nesse colégio, o senhor ainda tem contato com elas?

 

R – Não, não, aí faz um tempo enorme. Eu não me lembro mais, já não as vejo mais.

 

P/1 – E nessa escola qual era a diferença, além dos professores? Como que era o ambiente da escola, era uma escola maior? Conta um pouquinho para a gente.

 

R – O colégio é um colégio grande, existia internato para determinados alunos.

 

P/1 – E o senhor não ficava interno, o senhor ia e voltava todos os dias?

 

R – Não, ia e voltava todos os dias.

 

P/1 – Senhor José, na sua casa que tipo de comida o senhor costumava comer? Tinha uma comida típica de Pernambuco que sua mãe fazia?

 

R – Macaxeira, inhame, batata, feijão, arroz, às vezes, na época do milho verde, tinha canjica, pamonha, mungunzá.

 

P/1 – Que é que é mungunzá?

 

R – Mungunzá é o milho cozido com coco, é o que chamam de chá de burro.

 

P/1 – Por que, senhor José?

 

R – Não sei, chamam de chá de burro, mas é bem gostoso!

 

P/1 – Tinha algum tipo de carne? Vocês comiam carne de bode?

 

R – Não, carne de bode não, mas carne de boi a gente comia.

 

P/1 – Comia?

 

R – Carne de boi, carne de charque.

 

P/1 – E senhor José, tinha alguma festividade religiosa, por exemplo, Festa Junina, Festa da Conceição que ocorria na cidade?

 

R – Não, não. Existia isso, mas normalmente a gente não participava.

 

P/1 – Tinha algum tipo de costume que os seus pais faziam questão de preservar? Que eram importantes e que vocês tinham que respeitar?

 

R – Olha, eu não me lembro, não.

 

P/1 – Quando o senhor vai para a cidade, estudar no colégio, o senhor já estava maiorzinho, como é que era a sua atividade? O senhor ia para a escola e continuava fazendo o serviço em casa?

 

R – Continuava.

 

P/1 – E que tipo de serviço o senhor começou a fazer?

 

R – Aquela mesma coisa do início, água, lenha, ração para os animais, tudo isso eu fazia.

 

P/1 – O senhor não acrescentou nenhuma...

 

R – Tinha que aproveitar o tempo... O tempo é ouro, você tem que dividir e aproveitá-lo.

 

P/1 – Em termos de amizade, o senhor tinha alguma coisa que o senhor fazia nessa época de adolescente para diversão?

 

R – Não, não, não existia, não. A gente, praticamente, só saia de casa para o colégio ou ficava em casa fazendo alguma coisa.

 

P/1 – E quando o senhor saiu do ginásio, começou o colegial, o senhor mudou... O que aconteceu que o senhor teve que parar de estudar e...

 

R – Eu me alistei no exército, servi o exército.

 

P/1 – E o senhor serviu aonde?

 

R – Servi na Sétima Companhia de Comunicações em Caxangá.

 

P/1 – O senhor teve que vir à Recife?

 

R – Foi, passei nove meses e quinze dias.

 

P/1 – Como é que era a vida no Exército? Era muito difícil? Conta para a gente.

 

R – A vida no Exército, o recruta sofre as consequências, não sabe de nada, mas com o dia a dia, a gente se adapta.

 

P/1 – Mas o senhor tinha algumas obrigações para fazer no Exército?

 

R – Não, no Exército você tem aqueles exercícios ou então está escalado de sentinela.

 

P/1 – E tinha que fazer a sentinela do quartel?

 

R – É, trabalha duas e descansa quatro.

 

P/2 – Como é que foi a viagem de Nazaré até Recife?

 

R – Eu voltei para o sítio, depois desse espaço de tempo eu comecei a praticar telegrafia, saía de casa para Tracunhaém. Eu tive que servir o exército, parei de estudar numa determinada data. Vim servir o exército, fui licenciado, aí eu voltei para casa, comecei a praticar e, depois, comecei a trabalhar na Rede.

 

P/1 – A viagem... Como foi que o senhor veio para servir o Exército?

 

R – De ônibus.

 

P/1 – E o senhor foi licenciado por quê? O senhor saiu do exército porque já tinha cumprido o tempo...

 

R – Cumprido o tempo.

 

P/1 – Como é que o senhor se interessou por telegrafia? Como é que apareceu isso na sua vida?

 

R – É porque o meu segundo irmão começou a trabalhar primeiro que eu, normalmente, você quer arranjar alguma coisa para trabalhar. Aí eu comecei a praticar. Eu passei um ano e três meses, um ano e quatro meses, para aprender a telegrafia.

 

P/1 – E o senhor fazia o curso onde?

 

R – Não tem curso, não, é chegar na estação e praticar. O agente da estação me forneceu os códigos e a gente começa a praticar.

 

P/1 – Mas me fala uma coisa, seu irmão começou a trabalhar na Rede Ferroviária?

 

R – Foi.

 

P/1 – E ele foi ser telegrafista também?

 

R – Foi.

 

P/1 – E o senhor se interessou e começou a treinar e, durante esse treinamento, o senhor não estava trabalhando na Rede, estava?

 

R – Não, não, não. Praticava sem ganhar nada.

 

P/2 – E em que estação que o senhor...

 

R – Tracunhaém.

 

P/2 – E como era essa estação?

 

R – Estação pequena, de pouco movimento.

 

P/1 – Mas era mais movimento de passageiro ou de carga?

 

R – Na realidade, existia trem de passageiro e os trens de carga, a maioria era passagem. Não faziam manobras.

 

P/1 – E esse treinamento que o senhor fazia era na própria estação?

 

R – É.

 

P/1 – E como é que o senhor acabou sendo contratado pela rede?

 

R – Fui contratado em 1962 como telegrafista de safra, depois terminou a safra, aí eu comecei a fazer substituição.

 

P/1 – E o que é que é telegrafista de safra?

 

R – É justamente a época em que existe o movimento de cana.

 

P/1 – Então essa região transportava muita cana por trem?

 

R – Açúcar.

 

P/1 – Açúcar? Como é que era? Por que era necessário ter um outro telegrafista?

 

R – Para aumentar o horário da estação.

 

P/1 – Ah, para aumentar a hora de estação?

 

R – É, porque, normalmente, com um só é um determinado horário. Se você coloca dois, acrescenta alguma coisa no horário que são oito horas de serviço.

 

P/1 – Ah, então a estação passava a funcionar por mais tempo?

 

R – Exato.

 

P/1 – Quais que eram os códigos? O que é que o senhor tinha que passar no código?

 

R – Normalmente o licenciamento de trens, você chama a estação pelo código. Ela tem um código, ela dá o código dela, depois você dá o de sua estação. Aí você pede ou a chegada do trem lá ou, então, a chegada do trem em sua estação, que viajou de lá para cá.

 

P/1 – A estação que o senhor estava qual era o nome?

 

R – Tracunhaém.

 

P/1 – Quais eram as estações que o senhor tinha que passar as mensagens?

 

R – Carpina para um lado e Nazaré da Mata para o outro.

 

P/1 – Como é esse aparelho de telégrafo? Conta para a gente, já que é uma coisa que a gente não vê mais, que acho que já...

 

R – Não tem, não. Não existe mais, não. Eu tentei comprar um quando me aposentei, quando eliminaram os aparelhos e não consegui. Venderam e acabaram com tudo.

 

P/1 – E como é que esse aparelho?

 

R – Ele é de bronze, um produto amarelo, metálico. Isso, normalmente, a gente usava uma chapinha com uma latinha para dar o som, para os sinais.

 

P/1 – E o senhor bate ali? O senhor vai batendo naquele aparelhinho?

 

R – Aí você chama pelos códigos.

 

P/1 – E ele tem letras, números?

 

R – Não tem nada, nada. A senhora vai e chama a estação tal, ela tem um determinada código, por exemplo, Nazaré da Mata era NR.

 

P/1 – E aí o senhor bate NR?

 

R – NR.

 

P/1 – E como é que o senhor bate? Como é que era o N?

 

R – N é ponto-linha. R é ponto-linha-ponto.

 

P/1 – Olha! E aí é pelo som que você sabe?

 

R – É. ( _ .   . _ .)

 

P/1 – Esse era o NR?

 

R – É, o NR.

 

P/1 – E, por exemplo, senhor estava falando que o trem... como é que o senhor falava que o trem está chegando? Como é que o senhor batia? Faz pra gente na mão.

 

R – O trem chegou na estação dele (---    - .-. . -- -.-. .... . --. --- ..- -. .-    . ... - .- -.-. .- --- -.. . .-.. .) a XP.

 

P/1 – Olha, que interessante! E esse código era o mesmo que foi usado na Segunda Guerra Mundial, na Primeira Guerra?

 

R – É, todo código da Rede Ferroviária Federal S/A (RRFSA) era esse. Não mudou, não.

 

P/1 – E o senhor foi contratado no começo da entressafra da cana...

 

R – Eu comecei como T81, depois passei a ser G5...

 

P/1 – O que é que é ser G5?

 

R – É daquele que recebe todo o mês, mas não está com a coisa oficializada ainda. É uma espécie de empregado avulso. Depois eu fui contratado, pediram meus documentos, eu passei a ser regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Depois houve a opção para Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), eu fiz a primeira opção em 1977. Eu entrei em 1962, mas o FGTS entrou em vigor, se não me falha a memória, em 1967. Eu deixei dez anos, aí perto de me aposentar eu fiz a re-opção para o Fundo de Garantia.

 

P/1 – E o senhor sempre ficou alocado nessa estação?

 

R – Não, não, eu rodei muito.

 

P/1 – Que outras estações o senhor trabalhou?

 

R – Eu trabalhei em Tracunhaém, Nazaré da Mata, Upatininga, Baraúna, Timbaúba, São Lourenço, Pureza, Estação de Recife, Terminal Açucareiro e Cinco Pontas.

 

P/1 – E todas essas que o senhor falou eram da Linha Tronco Norte ou tinha alguma...

 

R – É tudo Norte.

 

P/1 – Tudo Norte?

 

R – Tudo Tronco Norte.

 

P/1 – Como é que eram essas estações? Conta um pouco para a gente. Como é que era o entorno dessas estações, tinham estações que eram maiores, menores, como é que era?

 

R – Essas estações do interior normalmente são sempre pequenas, apesar de ter algum movimento as estações de usina. Ou seja, as estações de usina eram Aliança, Pureza, Timbaúba, Pau D’Alho, estações de usina.

 

P/1 – Que tinham as usinas de açúcar?

 

R – As de açúcar.

 

P/1 – O movimento era maior?

 

R – Era maior porque ela fazia todo transporte de açúcar demerara em vagões.

 

P/1 – Quando eles traziam o açúcar demerara, eles levavam alguma outra coisa?

 

R – Não, não.

 

P/1 – O trem voltava vazio?

 

R – A distribuição era de vagão e quando saíam carregados...

 

P/1 – Como é que eram os códigos? Tinha um movimento muito grande nessas estações? Tinham muitos trens que saíam, como é que era?

 

R – Nas estações intermediárias, normalmente, o movimento não era tão grande, às vezes, eles terminam trens ou voltam um trem de determinada estação, ou seja, uma estação maior para uma estação menor para pegar a carga quando a carga tem preferência.

 

P/1 – E o tempo, o senhor sempre trabalhava oito horas?

 

R – Eu trabalhei oito horas, trabalhei doze, mas nunca recebi hora extra da Rede, não.

 

P/1 – Essas oito horas, o senhor trabalhava durante o dia? De qual turno o senhor era?

 

R – Eu fui telegrafista sempre oito horas. Pegava de quatorze às 22 ou de 22 às seis.

 

P/1 – Ah, o senhor não tinha um horário fixo, o senhor tinha...

 

R – Não, é rodízio nesse cargo.

 

P/1 – E, senhor José, essas estações que o senhor trabalhava que transportava cana, como é que era a paisagem? Assim, as estações elas tinham hotéis perto, tinha comércio....

 

R – Não tem nada, não existe nada disso.

 

P/1 – Não? O que é que tinha nessas estações?

 

R – As duas linhas ali na frente você olhava e só via cana, cana de um lado e cana de outro.

 

P/1 – E onde as pessoas que trabalhavam nessa estação moravam?

 

R – Normalmente as pessoas moravam fora.

 

P/1 – Ah, mas no caso do senhor, por exemplo, trabalhar em Timbaúba, por exemplo, sei lá...

 

R – Em Timbaúba, eu passei pouco tempo, mas eu trabalhei oito anos em Pureza e eu fui morar em Pureza que eu passei a ser chefe de estação.

 

P/1 – Ah, o senhor virou chefe de estação lá?

 

R – Eu trabalhei em Pureza oito anos e alguma coisa e morava na estação. Em Upatininga eu passei também oito anos. Passei o maior tempo como auxiliar, ou seja, telegrafista e eu morava em Carpina, aí eu andava onze quilômetros a pé para trabalhar.

 

P/1 – Ah, o senhor não andava no trem não, o senhor ia a pé?

 

R – É.

 

P/1 – E não podia pegar carona no trem?

 

R – Mas se não tem trem naquele horário? E você está escalado para pegar às quatorze?

 

P/1 – Aí o senhor tinha que ir a pé?

 

R – A pé, em cima da brita.

 

P/1 – E o senhor ia caminhando pela linha do trem?

 

R – É, por exemplo, de Nazaré a Upatininga dá duas horas a pé, são onze quilômetros.

 

P/1 – E o senhor ia andando a pé pela...

 

R – É, a pé. E tem mais, meio dia em ponto você sai no sol e só resta vir no sol, é assim...

 

P/1 – E o senhor começou como auxiliar de telegrafista, depois telegrafista...

 

R – É, fui praticante, com o tempo passei a telegrafista, ou seja, auxiliar de estação, depois passei a ser agente de estação. Como telegrafista, eu passei somente doze anos e dezoito anos eu passei chefiando.

 

P/1 – Nesses doze anos, em que estações o senhor trabalhou como telegrafista?

 

R – Todas essas que eu lhe falei.

 

P/1 – Ah, o senhor passou em todas elas? E essas outras estações que não eram de usina de engenho, o que é que tinha de carga? O que é que era transportado?

 

R – Na realidade, das que eu trabalhei e que não tinha carga foi só a estação de Recife.

 

P/1 – Que era de transporte de pessoas?

 

R – Passageiros, exclusivamente passageiros.

 

P/1 – E em todas as outras o transporte único era açúcar?

 

R – É, açúcar.

 

P/1 – Não tinha outro tipo de transporte?

 

R – Não.

 

P/1 – E quando senhor vira chefe de estação, o senhor foi trabalhar em qual estação?

 

R – Em Upatininga. Eu comecei chefiando a estação de Upatininga, se não me falha a memória, foram dois ou três meses, depois eu fui removido para a estação de Pureza, onde passei oito anos e alguma coisa. Depois fui removido para a estação de Recife, passei para sub-agente da estação de Recife, aí passei sete meses como sub-agente, aí me removeram para o Terminal Açucareiro que fica lá no porto, no cais do porto, passei três anos. Depois, removeram-me para Cinco Pontas, lá passei sete anos, seis anos e alguma coisa.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, nessa primeira que o senhor virou chefe de estação, como é que era a região? O que é que ela tinha?

 

R – Ela... Exclusivamente cana.

 

P/1 – E o senhor morava na vila da estação?

 

R – Não, não, não tem vila, não.

 

P/1 – Lá também não tinha vila?

 

R – Só existia a estação e a casa do feitor de linha.

 

P/1 – O feitor era o que toma conta da via?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – E o senhor tinha que ir a pé para lá e como que almoçava? Levava marmita, como é que era?

 

R – Olha, normalmente a gente carrega a bagagenzinha na bolsa.

 

P/1 – E essa outra estação que o senhor ficou oito anos e pouco, como é que era o nome dela mesmo?

 

R – Pureza.

 

P/1 – Pureza. Como é que era a estação de Pureza?

 

R – A estação de Pureza fica entre Aliança e Timbaúba, tem a Usina Cruangi. A Usina Cruangi produzia demerara, álcool, melaço, açúcar cristal, tudo isso é transportado pela RFFSA.

 

P/1 – E que tipo de vagão eles usavam para transportar essas coisas?

 

R – O melaço tem os tanques apropriados.

 

P/1 – Ah, é tanque mesmo?

 

R – É, o álcool também tem os tanques. E o açúcar demerara, a granel, tem um vagão apropriado.

 

P/1 – Como é que é esse vagão?

 

R – Ele tem três comportas para descarga de ar comprimido, abre pela parte superior, carrega, coloca-se as travas e sela. Nas laterais dele tem um selo onde ficam as alavancas para abrir as portas de descarga, tem um selinho também. Quando o açúcar é um açúcar bom, ou seja, é um açúcar enxuto, a descarga é muito rápida, a granel.

 

P/1 – Porque se ele está úmido ainda, ele não consegue se...

 

R – Aí segura um pouco, se bate com uma marreta, se raspa para tirar a parte do açúcar.

 

P/1 – Quando o senhor foi chefe de estação, o que é que o senhor tinha que fazer na estação, qual e era a obrigação do senhor?

 

R – Na minha época, eu dava licença de trem, eu fazia todo serviço burocrático, fiz escala de serviço... Tudo passava na minha mão.

 

P/1 – Por exemplo, essas estações, a liberação do trem quem dava era o senhor?

 

R – Quando eu estava no horário, porque também tem o agente da estação e tem o auxiliar, quando está no horário dele, isso aí fica a cargo dele, licenciamento de trem, atender telefone, fica a cargo dele.

 

P/1 – E como é que era feito o licenciamento de trem? Como é que o senhor dava a licença para um trem passar? Como é que o senhor sabia que estava na hora certa de fazer o trem passar?

 

R – É, aí que se usavam os códigos da estação, que se chama a estação.

 

P/1 – E o senhor sabe se o trem pode ser liberado ou não?

 

R – Aí se não tem nada viajando dentro da estação ou é estação B, você ou dá a chegada ou ele lhe fornece o trem que chegou na estação dele.

 

P/1 – Nessas estações, a limpeza de trem e a de estação eram responsabilidade do senhor também?

 

R – Não, somente a supervisão.

 

P/1 – Mas o senhor supervisionava, mas tinham pessoas que faziam a limpeza, essas coisas?

 

R – Tinha a pessoa apropriada para isso.

 

P/1 – Essas pessoas faziam o abastecimento do trem? Tinha abastecimento nessas estações?

 

R – Eu não trabalhei em estações que tinham abastecimento. Quando existe, tem uma pessoa responsável por essa área.

 

P/1 – Que era a pessoa responsável pelo abastecimento?

 

R – É.

 

P/1 – Quando o senhor se tornou chefe de estação, o senhor não sentiu falta de trabalhar com o código Morse?

 

R – Não, porque eu fazia a mesma coisa.

 

P/1 – Ah, o senhor continuava fazendo?

 

R – A mesma coisa. Quando eu era auxiliar de estação tinha insalubridade, passei a chefiar cortaram a insalubridade, todavia eu fiquei trabalhando com telefone e o aparelho Morse.

 

P/1 – O senhor tem alguma história para contar para a gente de algum erro que o senhor recebeu de alguém que fez o código Morse ou alguma coisa engraçada ou diferente que aconteceu?

 

R – Não tem, não. Se errar, o bicho pega. Se você errar, você joga um trem em cima do outro.

 

P/1 – Então nunca houve esse tipo de acidente?

 

R – Comigo não.

 

P/1 – Não, com o senhor não. Mas o senhor sabe de algum caso que aconteceu?

 

R – Não, não. Existe por aí, mas eu não sei, não me lembro, não. Normalmente a gente sabe o que se passa com a gente ou que a gente está vendo, o que comenta, fica...

 

P/1 – Com o senhor nunca houve problema com código Morse?

 

R – Comigo não, Graças a Deus.

 

P/1 – O que mais o senhor comunicava pelo código Morse?

 

R – A coisa que mais você faz é licenciamento de trens, autos, escoteiras.

 

P/1 – O que são escoteiras?

 

R – A máquina, exclusivamente a máquina, somente a máquina viajando.

 

P/1 – Ah, e como é que é isso quando o senhor avisa... Faz pra gente o código Morse, como é que o senhor avisa que está indo só a máquina?

 

R – Escoteira a gente dá E-S-C (. ... -.-.), E-S-C e aí dá o número dela.

 

P/1 – Ah, e vai o número também?

 

R – Porque cada uma tem um número.

 

P/1 – Olha, que interessante!

 

P/2 – O que era mais difícil? Emitir o som ou entender o que eles estavam falando?

 

R – Você receber.

 

P/1 – Porque cada estação tinha um telegrafista?

 

R – Cada uma tinha.

 

P/1 – E qual era a dificuldade, porque às vezes...

 

R – A grande dificuldade da telegrafia é que têm pessoas que transmitem uma transmissão segura e outros a transmissão é solta. Quem transmite devagar, ela sai segura e quem transmite com mais velocidade, ela fica mais solta.

 

P/1 – E corre o risco de ter erro, de entender errado?

 

R – Quando a gente não recebe, a gente segura o aparelho e pergunta o que foi.

 

P/1 – Ah, então se o senhor não entendia, o senhor perguntava de novo?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Como é que é o senhor perguntar: “Não entendi”? Como é que o senhor fazia?

 

R – A gente segura o manipulador e dá a última palavra que ele deu.

 

P/1 – Ah...

 

R – Aí ele continua.

 

P/1 – Entendi. O senhor ficou oito anos e meio nessa estação de Nazaré, depois o senhor foi para onde?

 

R – Depois que eu saí de Nazaré, fui para Upatininga.

 

P/1 – Upatininga onde é?

 

R – Depois de Nazaré. Depois de Upatiniga, eu fui à Baraúna.

 

P/1 – Baraúna também tem usina?

 

R – Tem não. É cana de um lado e cana de outro, mas lá, fazer um carregamento de cana, era na usina de Aliança, que fica perto da estação de Aliança.

 

P/1 – E o senhor veio para Recife depois disso?

 

R – Eu vim para Recife depois que saí de Pureza, já era o agente de Pureza e me trouxeram para a estação de Recife.

 

P/1 – E o senhor ficou como agente em Pureza mais ou menos oito anos e meio?

 

R – Uns oito anos, mais ou menos.

 

P/1 – E o senhor morava em Pureza mesmo?

 

R – Morava em Pureza mesmo.

 

P/1 – Aí era pertinho, o senhor não precisava caminhar?

 

R – Não, porque a residência é anexa ao prédio da estação.

 

P/1 – Era um vila que o senhor morava?

 

R – Não, não, é somente o prédio da estação.

 

P/1 – E tinha a cidadezinha e o senhor morava perto?

 

R – Tem cidade nada.

 

P/1 – Não?

 

R – Não. Tinha uma vilazinha, do outro lado, com umas seis ou oito casinhas, somente.

 

P/1 – E como é que o senhor comprava alimentos, essas coisas?

 

R – Ah, todo domingo ia para Aliança fazer feira.

 

P/2 – E como é que o senhor ia para Aliança fazer a feira?

 

R – Apanhava uma kombi, ida e volta.

 

P/1 – Ah, não ia de trem?

 

R – Não.

 

P/1 – Era difícil de vocês andarem no trem?

 

R – O horário que não era compatível com o deslocamento.

 

P/2 – E como é que foi para o senhor morar na estação, lá em Pureza?

 

R – Normalmente, para o chefe da estação, a RFFSA sempre dava uma residência. Quando eu cheguei a casa estava desocupada, somente a varri inteira, lavei, essas coisas.

 

P/1 – E tinha móveis, tudo, nessa casa?

 

R – Não, não. Tudo você tem que levar, tudo, lá só tem o prédio.

 

P/1 – E o senhor, nessa época, já estava casado?

 

R – Já, já tinha dois filhos.

 

P/1 – Como foi o deslocamento, sua mulher ia bem acompanhar o senhor?

 

R – Não, ela só ficava em casa. Não ia para canto nenhum, não, quem fazia tudo era eu.

 

P/1 – E quando o senhor era chefe de estação tinha algum equipamento de segurança?

 

R – Não.

 

P/1 – Na estação?

 

R – Na estação, não. A segurança que a gente tinha muito cuidado era com as AMVs, ou seja...

 

P/1 – O que é que é AMVs?

 

R – A AMV é o Aparelho de Mudança de Via, você muda de linha A para linha B.

 

P/1 – Ah, isso era responsabilidade sua também?

 

R – Não, do manobrador.

 

P/1 – Mas o senhor era responsável por ele, o senhor fazia a supervisão?

 

R – Eu era responsável por eles: “Fechou as agulhas? Está travada? Está com o cadeado?” Porque normalmente existia a chaveta e se coloca um cadeado.

 

P/1 – Quando você faz a mudança de linha, tem uma trava e ainda o senhor tem que por um cadeado para não correr o risco de alguém mexer?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Como é que os agentes da estação sabiam da chegada do trem que não tinha horário fixo? Como é que o senhor sabia disso?

 

R – Porque o trem estava licenciado.

 

P/1 – Ele era licenciado, se ele não tinha o trem fixo, ele sabia...

 

R – É porque quando você chama a estação, você dá a chegada ou a partida em sua estação. Se você vai pedir licença, você dá um determinado número, uma hora: “Franca linha, trem tal, máquina tal, de tal estação para tal estação”. Dá uma interrogação e ele vai e responde: “Número tal, linha franca, trem tal, máquina tal”.

 

P/1 – Mas se ele não tivesse uma previsão de horário, o senhor sabia que ele ia passar de tal hora a tal hora?

 

R – Não, não. Só viaja trem licenciado.

 

P/1 – Ah, não poderia viajar nenhum trem sem horário?

 

R – Trem voando, não.

 

P/1 – Quando o senhor trabalhou de chefe de estação tinha também trem de passageiro?

 

R – Nessas estações do interior que eu falei, todas tinham trem de passageiro de longo percurso. Na estação de Recife eram trens de subúrbio e de longo percurso.

 

P/1 – Mas tinha bilheteria também nessas estações para vender os bilhetes?

 

R – Tem.

 

P/1 – O bilheteiro também respondia para o senhor?

 

R – Nas estações de interior, eu podia vender bilhetes...

 

P/1 – Ah, o senhor vendia bilhete também?

 

R – É, já na estação de Recife não, para cada bilheteria, um bilheteiro, ou então para cada torniquete, um funcionário.

 

P/1 – No caso dessas estações que o senhor foi chefe de estação, no interior, o senhor é que era responsável pela venda do bilhete?

 

R – É, sim.

 

P/1 – Tinha muita reclamação de passageiro, eles reclamavam muito do trem?

 

R – Às vezes, reclamam quando o trem atrasava.

 

P1 – E tinha muito atraso de trem ou não?

 

R – Às vezes, acontecem imprevistos e é coisa que não depende da gente.  

 

P/1 – Como é que eram essas estações no interior, o espaço de embarque e desembarque?

 

R – Normalmente elas tinham uma plataforma que fica na altura conveniente com o carro de passageiros.

 

P/1 – Nessas estações que o senhor trabalhou, tinha embarque, desembarque e carregamento de mercadoria?

 

R – Bagagem, né? Os passageiros, os trens de passageiros e a bagagem.

 

P/1 – E, no caso dos vagões de carga, tinha também lugar para carregar ou não?

 

R – Tem, pequena expedição que se coloca em vagão fechado.

 

P/1 – E, por exemplo, nessas estações do interior tinha alguma carga específica para aquela região e que, às vezes, precisava desembarcar?

 

R – Normalmente o movimento determina que carga ‘X’ ou vagão ‘X’ tem preferência.

 

P/1 – E como que o senhor fazia a conferência dos passageiros? O senhor vendia os bilhetes e como é que o senhor fazia a conferência deles?

 

R – Se foi feita a vendagem... Nas estações do interior, você faz um mapa para cada trem, a quantia de passagem e o valor total dos bilhetes.

 

P/1 – E as pessoas entravam no embarque, na plataforma de embarque, e era só ali, eles tinham que passar por uma catraca, alguma coisa?

 

R – Não, porque eles levavam em mãos o bilhetinho, a passagenzinha.

 

P/1 – E quem recolhia esses bilhetes?

 

R – Os condutores dos trens.

 

P/1 – Ah, eles que recolhiam o bilhete? Então ele sabia que a pessoa tinha comprado o bilhete ou não?

 

R – É.

 

P/1 – E nessas estações que o senhor trabalhou tinha alguma venda, algum comércio de pamonha, alguma coisa?

 

R – Não, não, nessas que eu trabalhei, não.

 

P/1 – E não era permitido? Era permitido ou não?

 

R – Nas que eu trabalhei não existia isso. Todavia, eu ouvi comentários que na Linha Tronco Centro se fazia muito isso. Eu não conheço, não trabalhei na Linha Tronco Centro.

 

P/1 – E senhor José, o senhor fazia algum tipo de manutenção, em máquinas, vagões ou carros, nessas estações que o senhor trabalhou?

 

R – Não, essas manutenções eram feitas em Cinco Pontas. As locomotivas do setor Diesel eram em Werneck e os vagões tinham oficinas apropriadas: revisão, mangote, mancais, defeito nas travas de porta, vagões com a lanternagem ao lado, lataria furada...

 

P/1 – Então se acontecesse algum problema ia direto para essas estações?

 

R – É, e normalmente não se faz o carregamento quando o vagão tem algum tipo de...

 

P/1 – De problema.

 

R – De problema.

 

P/1 – Mas vamos supor que nessas estações aconteceu, por exemplo, de chegar um trem que deu um problema no meio do caminho e o senhor teve que resolver?

 

R – Tem, acontece descarrilamento, chega uma parte e não chega o resto. Você tem que guardar a parte do trem que chegou, você vai anotar o que chegou porque, às vezes, mandam terminar o trem. Você tem que pedir, providenciar, o socorro, levar ao conhecimento do mestre de linha, que é responsável pela via na área.

 

P/1 – Então quando havia descarrilamento, a locomotiva chegava com aquilo que estava acoplado ainda e o senhor tinha um pátio para deixar esses...

 

R – É, normalmente você tinha que se arranjar um espaço para guardar.

 

P/1 – E tinha algum armazém nessas estações que o senhor trabalhava ou não?

 

R – Não, toda estação tinha um armazém.

 

P/1 – Ah, tinham... Todas tinham?

 

R – Tem, todas têm um armazém.

 

P/1 – Que era para esse tipo de caso?

 

R – Normalmente, essas coisas assim não... Nas estações que eu trabalhei os armazéns estavam sempre praticamente vazios.

 

P/1 – E quando chegava esse descarrilamento, por exemplo, a locomotiva com aqueles vagões que estavam acoplados, o senhor arranjava um lugar para eles ficarem?

 

R – É.

 

P/1 – E como é que era feito o socorro do que tinha ficado lá atrás?

 

R – Se o mestre de linha diz que faria o recarrilamento, não precisava de socorro. Se ele pede socorro, se falava com o movimento de trens que ele determina se o trem prossegue, aí o mestre de linha vai tentar recarrilar. Mas normalmente, quando acontecia isso sempre tinha uma locomotiva para puxar.

 

P/1 – E como é que faz o recarrilamento?

 

R – O recarrilamento tem que ir com recarriladeira.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Recarriladeira são duas peças de ferro que se coloca junto à via, que o eixo dos truques quando ele pega a recarriladeira vem certinho para cima do trilho.

 

P/1 – Ah, é como se fosse um trilho auxiliar que o senhor põe?

 

R – É, sim.

 

P/1 – E aí ele entra...

 

R – Ele pega a recarriladeira e vem para cima do trilho.

 

P/1 – Ah, que interessante! Porque como é uma coisa pesada é difícil de fazer, né?

 

R – É, às vezes, o terreno abate, está fofo o terreno, a recarriladeira quer descer...

 

P/1 – E, por exemplo, quando os dormentes estavam soltos, o descarrilamento acontece por causa disso?

 

R – Acontece o que a gente chama de linha aberta. O trilho abre, aí o vagão cai no meio.

 

P/1 – E como é que faz...

 

R – Tem que fechar a linha, bitolar, trocar o dormente.

 

P/1 – Para poder pôr o trem no...

 

R – Para puxar, é.

 

P/1 – E como é que puxa o trem para cima do trilho de novo? É com essa recarriladeira?

 

R – A recarriladeira ou, às vezes, precisa de guindaste, quando o descarrilamento é grande, tem o guindaste apropriado para isso.

 

P/1 – Esse guindaste fica geralmente onde?

 

R – Cinco Pontas. Ficava em Cinco Pontas.

 

P/1 – Ele ia para lá como?

 

R – Tem um trem apropriado de socorro, aí ele viaja.

 

P/1 – E como é que é esse trem de socorro?

 

R – Esse trem de socorro tem o guindaste, os carros referentes a isso, um carro apropriado para as pessoas que trabalham para deitar, descansar, dormir.

 

P/1 – Ah, tem tipo um dormitório? Um carro dormitório?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor viu algum acidente grave próximo dessas estações que o senhor trabalhou?

 

R – Não, comigo nunca aconteceu, não.

 

P/1 – Mas nem com o maquinista?

 

R – Descarrilamento sempre acontece, mas descarrilamento pequeno. Não foi coisa de grande importância.

 

P/1 – E teve algum atropelamento próximo das estações em que o senhor esteve?

 

R – Teve um atropelamento, não. Houve uma morte.

 

P/1 – Onde? Em que cidade?

 

R – Estação de Baraúna.

 

P/1 – E o que é que aconteceu? Como é que foi o acidente, o senhor sabe?

 

R – Chegou o trem da distribuição em carroças vazias, foi invertida a locomotiva, se colocou uma parte da composição na frente da locomotiva, a locomotiva no meio e o resto na ré da locomotiva. Quando eu entreguei a licença para ele partir, estava licenciado, tudo direitinho, eu ouvi a zuada... O maquinista disse: “O trem pegou um”. Quando eu fui olhar, dentro da esplanada.

 

P/1 – Mas, por quê?

 

R – Ele foi pegar um bigu (carona) na carroça vazia. Em uma carroça para o transporte de cana. Ele errou o salto em vez de ir em cima, foi em baixo. Passou quatro carroças em cima e a metade da locomotiva. Ficou um pó, se juntou o corpo dele, foi colocado em uma estopa.

 

P/1 – Gente, que loucura!

 

R – Chamei a Aliança, o policiamento veio, fizeram... Como se diz?

 

P/1 – Perícia.

 

R – Aquela perícia, como foi, se ele não estava na linha, aí eu fui explicar: “O trem chegou por essa linha, parou aqui, saiu para cá, fez assim, rodeou por ali, pegou aquele ali, atrelou nesse que ficou aqui, entreguei a licença para o maquinista e o trem partiu e se ele tentou pegar, como eu não sei, porque eu não vi, eu estava aqui dentro, no telégrafo”. “E cadê o maquinista?” “O maquinista foi embora, já desapareceu”. O maquinista vai esperar para quê? Para ser pego em flagrante?

 

P/1 – Ah, porque era orientação da Rede para que o maquinista fosse embora?

 

R – Às vezes, o cara dá uma de bobo, ele está aqui e diz: “Eu não sou o maquinista, não, sou isso, sou aquilo...” Ele está aí, somente comprando, somente ouvindo.

 

P/1 – E essa coisa da máquina ficar no meio dos vagões, como é que ela dirige, ela vai para frente e vai para trás, dá puxão dos dois lados?

 

R – É.

 

P/1 – Um ela empurra e o outro ela puxa?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – E por que desse jeito?

 

R – Porque, por exemplo, depende da posição do desvio. A principal, essa é a principal, se o desvio, ela vai colocar a carroça... Ela está viajando para cá, as carroças têm que vir na frente dela.

 

P/1 – Ah, têm que ir na frente dela?

 

R – Na frente dela, é.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Para colocar nesse desvio porque ela coloca no desvio, recua e parte novamente.

 

P/1 – Ah, depois ela puxa para poder ir para frente?

 

R – É.

 

P/1 – Isso era um passo de manobra?

 

R – É, manobra.

 

P/1 – Ah, entendi. Então, no caso, foi o que aconteceu, eles fizeram a manobra para poder...

 

R – A manobra ficou pronta para essas carroças serem colocadas no desvio. Aconteceu o acidente, descarrilou uma, duas, descarrilaram duas carroças. O mestre de linha veio, fez o recarrilamento e, depois, o trem foi embora. Depois que a polícia liberou, o trem saiu.

 

P/1 – A polícia libera. E, geralmente, depois tem um processo, é feito uma...

 

R – É, acontece, tem isso.

 

P/1 – Como é que a RFFSA, por exemplo, fazia com o maquinista, porque ele ia responder processo?

 

R – Normalmente eles respondem. Agora, nessa área, eu não sei por que na minha mão nunca passou esse tipo de coisa.

 

P/1 – Como é que era feita a manutenção das vias próximas às estações que o senhor foi chefe?

 

R – Olha, na realidade, eu tinha muito cuidado somente com as esplanadas que é justamente a área em que fica a estação. A partir da saída da agulha até a outra estação, ficava a cargo do mestre de linha. Tem um que a gente chamava de corredor de linha. Todo dia ele sai naquele trecho, observando se tem dormente estragado, se a bitola está aberta, se a linha está choca. Linha choca é quando o trem passa e o trilho baixa, é o que a gente chama de linha choca.

 

P/1 – O senhor, quando saiu dessa cidade, veio para estação de Recife, quanto tempo o senhor ficou na estação de Recife?

 

R – Sete meses.

 

P/1 – E o que o senhor fazia lá?

 

R – Eu era o sub-agente.

 

P/1 – Ah, era sub-agente? E qual é que era a função do sub-agente?

 

R – Olhe, na realidade, observar aquela parte de vendagem de bilhete, passar em bilheteria, torniquete.

 

P/1 – Torniquete, o que era?

 

R – É onde passa os passageiros para pegar o subúrbio.

 

P/1 – Ah, o senhor tinha que fazer essa manutenção da...?

 

R – Não, porque em cada torniquete existia um funcionário para cada horário.

 

P/1 – E o senhor era quem supervisionava isso?

 

R – Ficava observando.

 

P/1 – E o senhor tinha muito problema com essa coisa de passageiro querer passar sem pagar?

 

R – Normalmente têm aqueles que gostam de complicar, mas a gente sempre procura resolver e procura definir.

 

P/1 – E em Recife era basicamente transporte de passageiro?

 

R – A estação de Recife é exclusivamente de passageiro.

 

P/1 – Era de linha longa distância?

 

R – Subúrbio e longo percurso.

 

P/1 – E o movimento era muito grande, senhor José?

 

R – Era.

 

P/2 – E como é que foi para o senhor essa mudança do interior para Recife?

 

R – É diferente, tem uma diferença tremenda. Primeiro porque, no interior, você trabalha com duas, três pessoas, chega em uma estação grande tem o quê? Trinta, 32, 33, 34. Aí você começa a sentir...

 

P/1 – E qual foi a grande dificuldade para o senhor?

 

R – Para começar, a gente não conhece as pessoas. Não sabe quem é A, B e C, não sabe o nome de cada. Com o tempo, no dia a dia é que você vai lidando com essas pessoas e conseguindo identificar.

 

P/1 – E o senhor veio morar onde? Quando o senhor veio para Recife, o senhor veio com a sua família, o senhor foi morar onde?

 

R – Eu morei na Rua do São João.

 

P/1 – Em que bairro que era?

 

R – Acho que é Santo Antônio, onde hoje é a estação do metrô.

 

P/1 – E o senhor já tinha vindo a Recife?

 

R – Vinha pouco, mas vinha. Só quando vinha resolver problema do trabalho, vinha para o escritório da Rede.  

 

P/1 – O senhor lembra quando é que foi a primeira vez que o senhor veio a Recife?

 

R – Ixi, eu não me lembro, não.

 

P/1 – O senhor se lembra da impressão que o senhor teve da cidade?

 

R – A gente chega a ficar voando. A coisa é muito grande, é bem diferente do que a gente pensa.

 

P/1 – E depois de Recife, o senhor foi para Cinco Pontas, é isso?

 

R – Da estação de Recife, eu fui para o Terminal Açucareiro.

 

P/1 – E onde é esse Terminal Açucareiro?

 

R – No Cais do Porto.

 

P/1 – E o que é que era? Lá era basicamente carga?

 

R – Exclusivamente açúcar demerara.

 

P/1 – E o senhor era chefe de estação lá?

 

R – Era.

 

P/1 – E o movimento era muito grande?

 

R – Era em média uma descarga de oitenta a noventa vagões, em dezesseis horas de trabalho.

 

P/1 – Como é que era o processo de descarga lá no Terminal? Ia para o porto, ia para os navios também?

 

R – É, isso era feito. Chega o trem, se inverte a locomotiva, ela vai puxando, a gente a coloca para empurrar a composição. Pesa o primeiro, pesa o segundo, pesou o terceiro; o primeiro que entrou já está na posição de descarga. À medida que vai descarregando, a máquina vai empurrando através do rádio e vai se efetuando a descarga. Cada composição com quinze vagões.

 

P/1 – E como é que era feita a pesagem dos vagões?

 

R – Tinha uma balança apropriada.

 

P/1 – Ah, tem uma balança no chão apropriada?

 

R – Tem.

 

P/1 – O senhor, eu vou simular aqui, empurrou o primeiro vagão próximo do navio ou é em um deck?

 

R – Não, esse açúcar, depois que é efetuada a descarga, sai numa esteira rolante que puxa para os armazéns.

 

P/1 – Ah, então o vagão encosta nessa esteira, abre as comportas e aí despeja...

 

R – É, exatamente, tem um lugar apropriado para a descarga.

 

P/1 – E como é que é era tirada a carga de açúcar do vagão? Alguém ajuda a empurrar?

 

R – É feito assim: chegou o vagão na posição, ele praticamente já foi feito uma revista com as torneirinhas para o ar comprimido e para os balões da descarga. Para a descarga, são três chavezinhas para abrir os vagões. Quando o açúcar é bom desce rápido, quando o açúcar é mais úmido leva mais tempo, aí se usa a marreta, bate no vagão com a marreta.

 

P/1 – Ah, é no vagão, não é no açúcar?

 

R – Não, é no vagão para o açúcar sair do vagão.

 

P/1 – Então ninguém entra em contato com a carga?

 

R – Não, não, só se for mesmo necessário fazer uma raspagem que, às vezes, ficava muito açúcar, aí ia dar diferença do peso real para a descarga.

 

P/1 – Ah, porque depois que pesou pegou o vagão, lá na frente a carga ia pesada de novo?

 

R – Fez a descarga todinha, quando ela está puxando, vai tirando a tara de cada uma.

 

P/1 – Ah, está certo e depois ela é carregada nos navios se fosse o caso?

 

R – É, aí passa a ser o próprio porto, é que...

 

P/1 – Que faz esse controle.

 

R – É.

 

P/1 – E basicamente, era açúcar demerara que chegava nesse porto e o senhor trabalhava quanto tempo, eram oito horas, o senhor tinha horário fixo?

 

R – Não, horário fixo eu não tinha. Mas eu normalmente fazia um horário pela manhã, dava em média dez, doze horas todos os dias. Às vezes, dobrava, ou seja, passava a noite acordado, quando passava a noite acordado tinha 120, 130 vagões para descarga.

 

P/1 – E essa era em uma época em que tinha um maior movimento. O senhor lembra que época era essa?

 

R – Por exemplo, em 1983, eu fiz uma descarga, essa é recorde, 151 graneleiros.

 

P/1 – Quanto tempo o senhor precisou para fazer essa descarga?

 

R – 24 horas.

 

P/1 – E o senhor convocava todos, os funcionários ficavam?

 

R – Não, tinha pouca gente lá.

 

P/1 – Era pouca gente?

 

R – Era.

 

P/1 – Quantas pessoas eram?

 

R – Eu, mais uma pessoa para o escritório e quatro pessoas para descarga.

 

P/1 – Mas os maquinistas que traziam os vagões ficavam também?

 

R – Normalmente ele cumpre uma escala, né? Por exemplo, dá 22 horas quando ele vai para Cinco Pontas, aí trocava de equipe, chegava uma equipe nova no terminal.

 

P/1 – Ah, chegava uma equipe nova para fazer o descarregamento?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Para poder inclusive empurrar essas cargas?

 

R – É, exato.

 

P/1 – O senhor ficou quanto tempo em Cinco Pontas?

 

R – Aproximadamente sete anos.

 

P/1 – Depois de lá, o senhor foi para onde?

 

R – Eu me aposentei.

 

P/1 – Ah, o senhor se aposentou em Cinco Pontas?

 

R – Foi.

 

P/1 – O senhor se aposentou em que ano?

 

R – Em 1991, vinte de novembro de 1991.

 

P/1 – E o senhor se aposentou por quê?

 

R – Completou o tempo. Começou mudando a chefia, eu tinha tempo, aí eu saí. Eu me aposentei na especial.

 

P/1 – Ah, o senhor se aposentou na especial?

 

R – É, mas como eu recebi insalubridade, completou o tempo, né?

 

P/1 – O senhor ficou trabalhando quanto tempo? Trinta anos?

 

R – Trinta anos.

 

P/1 – O senhor falou que o senhor manteve a opção, o senhor fez só a opção pelo Fundo de Garantia em 1977...

 

R – Foi, depois eu fiz a re-opção.

 

P/1 – A re-opção, porque era vantajoso?

 

R – Exato.

 

P/1 – E aquele tempo que o senhor não contribuiu, que não teve o Fundo de Garantia, o senhor recebeu alguma indenização?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Não?

 

R – Só daquele tempo de trabalho, ou seja, a partir de 1967.

 

P/1 – Ah, o senhor quis se aposentar porque o senhor já tinha completado o tempo e também porque houve a mudança de chefia. O que aconteceu na mudança de chefia?

 

R – A mudança de chefia... O supervisor era o meu irmão. Depois mudou de supervisor. Começou a mudar a diretoria da Rede, aí eu tinha tempo, mandei ver o meu tempo: “Dá para se aposentar”. Então eu entreguei os documentos e ele providenciou.

 

P/1 – E o senhor trabalhou com o seu irmão só aqui em Cinco Pontas ou o senhor trabalhou com ele em outros lugares?

 

R – Não, eu trabalhei com ele como agente substituto muito tempo, ele concedia férias nas estações e teve estação que eu fui auxiliá-lo.

 

P/1 – Ah, porque teve estações que ele era chefe de estação...

 

R – Era o agente e eu era telegrafista ainda.

 

P/1 – E aqui ele era supervisor da estação?

 

R – Das estações.

 

P/1 – De todas as estações?

 

R – De todas.

 

P/1 – Ah, tinha um supervisor das estações todas?

 

R – É, ele era de Recife a Rosa e Silva.

 

P/1 – Que era a Linha Tronco Norte?

 

R – Linha Tronco Norte.

 

P/1 – Então, além dos chefes de estações tinha um supervisor da linha?

 

R – Tem, que fica no escritório em Recife. Ou seja, para Linha Tronco Sul também era a mesma coisa.

 

P/1 – Tinha um supervisor aqui?

 

R – Um supervisor também.

 

P/1 – E o senhor chegou a viajar para as outras linhas ou não?

 

R – Não, não.

 

P/1 – O senhor conhece bem a Linha Tronco Norte.

 

R – A Linha Tronco Norte só, exclusivamente a Linha Tronco Norte.

 

P/1 – E qual é a paisagem que a gente consegue ver nessa Linha Tronco Norte? Têm mudanças de plantações, tem uma mudança da paisagem nessa linha ou não, senhor José?

 

R – Hoje, na realidade, mudou porque não existe mais transporte ferroviário.

 

P/1 – Mas e naquela época, tinha?

 

R – Naquela época tinha... Toda época de safra o transporte era grande, era muita coisa. Mas existe o transporte do açúcar, cimento, sal, alumínio, tudo isso era feito.

 

P/1 – Então nas estações que o senhor trabalhava também passava esse tipo de carga?

 

R – Passava.

 

P/1 – E o cimento vinha basicamente da onde?

 

R – Normalmente era feito um carregamento aqui em Cinco Pontas para o Ceará.

 

P/1 – Então se levava o cimento de Cinco Pontas até o Ceará. E no caso, por exemplo, tinha a cana, o cimento...

 

R – Sal era Mossoró à Cinco Pontas.

 

P/1 – Ah, é via Rio Grande do Norte. E como é que era o vagão que transportava o sal?

 

R – Vagão fechado.

 

P/1 – E o senhor falou que andou muito pela linha do trem quando o senhor passava, quais eram as plantações que tinham do lado?

 

R – Cana.

 

P/1 – Só cana?

 

R – É.

 

P/2 – Teve alguma vez nesses caminhos que o senhor foi de noite?

 

R – Não, nunca viajei de noite, não. Normalmente pela manhã quando largava de seis horas ou então saindo de Nazaré de doze horas para pegar de quatorze horas.

 

P/1 – E o senhor sabe falar alguma coisa para a gente, por exemplo, dessa coisa da capinação, de capinar a linha, a via? Como é que era essa coisa de capinar, porque era feito à mão?  

 

R – Era feito à mão.

 

P/1 – E eram contratadas pessoas avulsas para fazer isso?

 

R – Não, não, tem um quadro de pessoal apropriado para isso da própria RFFSA, o que se chama de turma da conservação. Ela capina, troca dormente, substitui trilhos, nivela...

 

P/1 – E por que é importante fazer a capinação, o senhor sabe?

 

R – Para que a via fique limpa, né?

 

P/1 – E nessas estações do interior que o senhor trabalhou, as crianças brincavam muito na linha, tinha muita criança brincando na linha?

 

R – Não, nas estações onde eu trabalhei não tinha isso, não, porque eram estações do interior. Só quando a estação fica dentro da própria cidade, mas dificilmente isso acontece. Nas estações em que eu trabalhei não tinha, não. Pureza não tem cidade, Tracunhaém não tem cidade, Baraúna não tem cidade.

 

P/1 – Só nas outras em que o senhor trabalhou, mas aí também não tinha um acesso à linha?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Me fala uma coisa, o senhor casou quando?

 

R – Eu me casei em 1964.

 

P/1 – Logo depois que o senhor começou a trabalhar na Rede?

 

R – Foi.

 

P/1 – E sua mulher ia numa boa com o senhor nessas transferências?

 

R – Exatamente. Para onde eu ia, eu a levava. Se tem lugar para gente ir, a gente vai para ficar.

 

P/1 – E ela faz o quê, a esposa do senhor?

 

R – Doméstica.

 

P/1 – E como é que é o nome dela?

 

R – Cleuza Maria da Silva Borba.

 

P/1 – E o senhor teve quantos filhos?

 

R – Eu tenho três.

 

P/1 – Como é que são o nome deles?

 

R – Soraia, Clodoaldo e Andréa.

 

P/1 – E algum deles trabalha na Rede ou não?

 

R – Não.

 

P/1 – Eles fazem o quê?

 

R – A Soraia é psicóloga, trabalha no Metrô de Recife. Tenho Clodoaldo, esse é médico veterinário, trabalha para a Prefeitura de Abreu e Lima e Camaragibe. E tenho a terceira, a ponta de rama, é engenheira civil, trabalha na Pernambuco Construtora.

 

P/1 – E como é que o senhor conheceu sua esposa?

 

R – No tempo em que eu ia praticar na estação. Ela morava em frente à estação.

 

P/1 – Ah, ela morava perto da estação?

 

R – Era.

 

P/1 – E o senhor tinha folga? Como é que era a folga do senhor na estação?

 

R – Essa folga normalmente, você trabalha seis dias conforme a escala... Quando eu trabalhava, era uma semana de manhã, uma semana de tarde, uma semana de noite, mas depois que eu passei a chefiar, eu fiz uma escala à minha maneira, ou seja, você trabalhava dois dias pela manhã, dois à tarde, dois à noite, descanso e folga.

 

P/1 – Ah, o senhor trabalhava uma semana e quando o senhor virou chefe o senhor mudou essa escala para o senhor e para todo mundo?

 

R – Não, quando eu comecei a trabalhar eu fiz a escala dessa forma.

 

P/1 – Que era mais...

 

R – É mais prático, né? Você tem um problema de manhã, se você está escalado de tarde, você resolve de manhã. Se você trabalha de manhã, você resolve à tarde. Aí uma semana toda pela manhã, uma semana toda à tarde e uma semana toda à noite, a escala é rodízio, todo mundo é beneficiado.

 

P/1 – E como é que eram as férias?  O senhor tirava férias todo ano ou não?

 

R – Tem as férias que quem programava era a própria inspetoria, inspetoria de tráfego.

 

P/1 – E o que o senhor fazia nas suas férias?

 

R – Primeiro, segundo, terceiro dia é uma beleza... Mas quando você passa já oito dias, já está achando ruim porque não tem o que fazer.

 

P/1 – Mas o senhor não costumava viajar nem nada?

 

R – Você não viaja... Ferroviário médio que não tem determinada coisa não pode viajar, não.

 

P/1 – E como é que foi estudar para os seus filhos nessa várias mudanças que o senhor fez?

 

R – Olhe, graças a Deus, eu como ferroviário, eu posso até me orgulhar disso. Quando eu trabalhava em Pureza, dois estudavam em Timbaúba, pegavam a condução da usina e iam para Timbaúba, todos os dias. Depois nasceu a terceira, depois fui removido para Recife, aí os dois maiores começaram a estudar no Colégio 2001, depois foram para o Porto Carreiro, a minha filha foi para a faculdade, depois Clodoaldo foi para a Federal, tenho Andréa que estudou no Colégio Porto Carreiro e depois foi para o Colégio Salesiano Sagrado Coração, concluiu na Universidade do Estado de Pernambuco, UPE.

 

P/1 – E hoje eles são casados?

 

R – Eu tenho dois casados.

 

P/1 – E o senhor tem netos?

 

R – Só tenho uma netinha.

 

P/1 – Como é que é o nome dela?

 

R – Mariana.

 

P/1 – E ela tem quanto tempo?

 

R – Sete anos.

 

P/1 – Depois que o senhor se aposentou, como é que o senhor entrou para a Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN)?

 

R – Isso foi uma coisa até me beneficiou porque têm pessoas que têm emprego e outras que têm trabalho. Você, quando tem trabalho, sente falta quando aquilo você não consegue. Aquele que tem emprego é o folgado, chega e bota o paletó no bureau, cafézinho pequeno, lê jornal, cigarrinho, fim do mês bota o dinheiro no bolso, e quem tem trabalho ou você tem trabalho ou aquilo lhe faz falta ou vai lhe prejudicar. A prova de tudo isso é que já vai completar dez anos que eu estou na Associação.

 

P/1 – E o senhor quando se aposentou, o senhor achou importante e necessário fazer alguma coisa?

 

R – É, só que, às vezes, a gente quer conseguir emprego ou alguma coisa, aí a idade... Você, às vezes, tem conhecimento, você deixa de fazer alguma coisa como uma pessoa que cumpre aquilo que lhe é determinado, mas a idade vai pesar, né?

 

P/1 – O senhor se aposentou com quantos anos?

 

R – Com cinquenta anos.

 

P/1 – Aposentou-se novo. E o senhor entrou na Associação dos Ferroviários Aposentados, o senhor já era associado ?

 

R – Eu era associado, depois Eldo Souza da Costa Almeida me convidou, eu não respondi a ele no mesmo dia, digo: “Amanhã ou depois eu passo aqui e te dou a resposta”.

 

P/1 – Ele convidou o senhor para trabalhar e fazer o quê?

 

R – Para ser o segundo tesoureiro. Depois eu conversei em casa. É só meio expediente, pelo menos passa o tempo... Já vai completar dez anos.

 

P/1 – Qual é a função da Associação? O que é que a Associação faz em benefício dos ferroviários?

 

R – Na realidade, é somente para aqueles que têm complementação.

 

P/1 – Para aqueles que?

 

R – Têm complementação, ou seja, aqueles que o salário é igual ao da ativa. Mas não se tem um médico, não se tem um advogado, primeiro porque o número de sócios é reduzido e têm pessoas que não querem participar. Se viaja para o Rio, Brasília, para tentar resolver determinadas coisas, o que se pode dar é isso.

 

P/1 – Na verdade, a função da Associação seria equiparar o salário dos aposentados ao de quem está na ativa, é isso?

 

R – Não... É... Inclusive, essa foi a primeira turma, já houve uma outra que não tinha direito, mas já tem uma lei já que dá os mesmos direitos para a gente.

 

P/1 – E o senhor se aposentou com o mesmo salário que o senhor tinha na ativa?

 

R – Foi e permanece.

 

P/1 – E como é que é feito? O reajuste é feito como hoje?

 

R – O reajuste, por incrível que pareça, nós pertencemos a um órgão extinto do Ministério, é complicado.

 

P/1 – Ah, então o reajuste não é frequente? Não existe?

 

R – Se corre atrás, né? Ainda existem alguns na ativa e existe um sindicato, ele é que mexe com esse tipo de coisa, é o que se chama de dissídio, dissídio coletivo, aí ele tem direito e a gente recebe.

 

P/1 – Então, de certa forma, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Nordeste (SINDFER-NE) faz com que você também tenha direito ao dissídio?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – O senhor já estava aposentado quando houve a privatização da Rede, né?

 

R – Já, já.

 

P/1 – Houve mudanças na sua profissão que o senhor acha que foram significativas?

 

R – Olhe, na realidade houve, porque eu quando passei de auxiliar de estação para agente de estação já é alguma coisa a mais, todavia financeiramente não, mas quando eu fui removido para a estação de Recife, eu tive direito ao cargo de confiança e me aposentei com ele, graças a Deus.

 

P/1 – Outra coisa que eu acho que é importante a gente abordar, teve uma época em que o senhor usava muito o código Morse, quando é que houve a extinção do código Morse?

 

R – Olhe, a data exata eu não sei. Quando eu cheguei em Cinco Pontas não existia mais o Morse. Na época em que eu trabalhei na estação de Recife ainda tinha.

 

P/1 – Ele foi substituído pelo quê? Como é que começou a se comunicar?

 

R – Telefone, né?

 

P/1 – Ah, já começou por telefone?

 

R – É.

 

P/1 – Na época em que o senhor trabalhava com o Código Morse, por exemplo, o maquinista conversava, se comunicava com as estações como?

 

R – Não tinha como, os aparelhos eram só nas estações.

 

P/1 – E se acontecia algum problema entre uma estação e outra, como é que o maquinista fazia?

 

R – Ele tem um documento na mão: “Trem tal, máquina tal, destino tal estação”. Até aquela estação ele chega. Ele só tem o direito de chegar até aquela estação que está determinada.

 

P/1 – Mas e se acontecesse algum problema e não chegasse, como é que ele ia? Ele ia a pé até a estação?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Quando começou a ter telefone, eles começaram a usar o telefone também?

 

R – Hoje é que a coisa mudou, tem celular, eles usam isso, eu presumo. Todavia, na minha época, não tinha isso, não.

 

P/1 – E chegou a ter Telex também entre as estações?

 

R – Não, no meu tempo também não.

 

P/1 – Era só telefone?

 

R – Somente telefone e telégrafo.

 

P/1 – O que é que o senhor aprendeu no seu trabalho, se o senhor falasse: “Olha, esse tempo todo em que eu trabalhei na Rede, eu aprendi isso...” O que foi que o senhor mais aprendeu?

 

R – Olhe, eu aprendi o Código Morse, eu aprendi a despachar, eu aprendi a fazer todo o serviço burocrático de estação, mapa de bilhete, mapa de carga, despacho de bagagem, despacho de carga, tudo isso eu sei.

 

P/1 – E o que é que significou para o senhor trabalhar na Rede Ferroviária?

 

R – Rapaz, eu não sei nem como lhe explicar. Toda a minha vida foi ligada à Rede. Toda a minha vida...

 

P/1 – Então vou fazer outra pergunta para ver se o senhor consegue passar para a gente isso. Se o senhor fosse criar uma imagem de um desenho ou de um objeto ou de alguma coisa do que foi trabalhar para o senhor na Rede, o que seria?

 

R – Não posso nem falar, eu estou enchendo os olhos d’água... Repita, por favor.

 

P/1 – Para ajudar o senhor a mostrar isso que o senhor está sentindo, se o senhor fosse fazer uma imagem do que foi trabalhar na Rede para o senhor, que imagem seria essa?

 

R – Para mim foi bom demais, todavia eu cheguei ao máximo que... Eu comecei em uma estaçãozinha pequena e chegar na maior estação de carga da Superintendência Regional 1 (SR1), eu acho que foi tudo.

 

P/1 – O que o senhor acha que precisaria ser feito para retomar a Rede Ferroviária?

 

R – Olha, isso aí é tão difícil... A Rede acabou, isso é mérito do seu Fernando Henrique, eu presumo, para dar vez às transportadoras porque é um monte de transportadoras e acabou com a Rede Ferroviária e seu Lula vai liquidar.

 

P/1 – Por que é que o Lula vai liquidar a Rede?

 

R – Ah, liquidou, fechou, acabou.

 

P/1 – E se o senhor pudesse fazer alguma coisa para fazer com que a Rede Ferroviária voltasse a funcionar, o que é que o senhor acha que teria que ser feito?

 

R – Olha, a gente vê julgar determinada coisa, mas, às vezes, isso é falta de administração. Se você administra as coisas corretamente, você tem. Você deixou de administrar, vai água abaixo.

 

P/1 – O senhor tem algum caso, alguma história relacionada a trem ou a estação engraçada ou triste que seria interessante o senhor contar pra nós?

 

R – Tem não, senhora.

 

P/1 – Não tem nada engraçado para contar para a gente?

 

R – Tenho não.

 

P/1 – E tem alguma coisa que o senhor gostaria de comentar que eu não perguntei para o senhor e que o senhor gostaria de falar?

 

R – Eu acho que tudo o que eu sabia, tudo eu lhe respondi.

 

P/1 – O que o senhor acha de um trabalho como o que a gente está fazendo aqui, de registrar a história e a memória da Rede Ferroviária de Pernambuco?

 

R – Isso é muito bom, é uma lembrança, né? Oportunamente, a gente pode pegar e ver que existe algo em torno disso.

 

P/1 – E o que é que o senhor achou de ter dado essa entrevista?

 

R – É bom sempre de participar e dizer alguma coisa que se sabe, que se conhece.

 

P/1 – E o senhor se sentiu à vontade?

 

R – Eu me senti tão à vontade que estou com olhos cheios d’água até aqui.

 

P/1 – Senhor José, se o senhor tivesse que mandar uma mensagem para os seus companheiros no Código Morse, qual seria essa mensagem? Faz para a gente. Para todos os seus companheiros que trabalharam com o senhor e que ajudaram a construir essa rede, qual seria a mensagem que o senhor mandaria para eles?

 

R – Existem tantos bons empregados, tantas pessoas boas, em compensação também existem aqueles que não gostam e não querem nada com o trabalho e com o serviço, isso a gente tem que aprender a lidar com esse tipo de pessoa. Aqueles que trabalharam comigo... Tem funcionário, uma maravilha.

 

P/1 – Mas o que o senhor desejaria para eles?

 

R – Eu desejo tudo o que eu quero de bom pra mim, eu desejo pra eles.

 

P/1 – E como é que o senhor faz isso no Código Morse? Faz para a gente.

 

R – (- ..- -.. ---) Tudo (-.. .) de (-... --- --) bom (.--. .- .-. .-) para (. .-.. . ...) eles!

 

P/1 – Muito obrigada, eu queria agradecer muito a sua participação. O senhor ajudou bastante a construir essa memória. Muito obrigada.

 

R – Por nada.

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