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História

Música, futebol e... yoga!

História de: Evaldo Andrada Corrêa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/10/2012

Sinopse

Foi na infância que a mãe de Evaldo descobriu seu talento, entre chocalhos, batuques e brincadeiras, a mãe de Evaldo descobriu que tinha um filho músico. Na entrevista concedida ao Museu da Pessoa no dia 17 de julho de 2007, Evaldo Correa fala de sua infância na cidade de Rio Grande, interior gaúcho, e de como sua mãe descobriu cedo suas aptidões musicais. Ele conta também como deixou de lado o sonho de ser jogador de futebol e decidiu largar sua cidade natal para se aventurar como músico no Rio de Janeiro e em São Paulo. O tempo em que viveu na Europa também é abordado em detalhes na entrevista, e Evaldo relata, por exemplo, as partidas de futebol com os gringos e as apresentações musicais em cassinos chiques do litoral francês. No bate-papo também não ficaram de fora seus trabalhos sociais e sua ligação com o yoga.

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História completa

P/1 – Primeiro queria agradecer sua presença. É praxe aqui do Museu da Pessoa a gente começar todo depoimento com a identificação. Então a gente pede pra falar seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.


R – Eu sou Evaldo Andrada Corrêa, nasci na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, no dia 04 de Outubro de 1952.

P/1 – Evaldo, vamos agora falar um pouco dos seus pais, os seus avós, da sua origem. O que você lembra dos seus avós? O nome deles, a origem deles, se eles vieramdo exterior, enfim.

R – Sim. Por parte de pai o meu avô Francisco, a minha avó dona Tiles, que eram do Rio Grande do Sul, os gaúchos do campo, da campanha. Por parte materna, a minha avó nasceu em33 Orientales, no Uruguai, chamava Marta, entre nós chamávamos Martina e meu avô, o nome dele eu não sei, só sei que se chamava ele de Paissano. Ele era um sírio libanês que trabalhava com comércio, que ficava comercializando entre o Uruguai, Brasil e um pouco ali da Argentina.

P/1 – E os seus pais? Fala pra gente o nome dos seus pais e atividade profissional que eles desempenham, ou desempenhavam.

R – Meu pai era industriário, hoje já está aposentado, Francisco Assis Corrêa, trabalhou muito tempo junto ao Sindicato da Fiação e Tecelagem, lá em Rio Grande. A minha mãe é Estela Andrada Corrêa, que trabalhou bastante tempo na universidade, como recepcionista e hoje também já é aposentada.

P/1 – Você tem irmãos?

R – Eu tenho uma irmã, a Jussara Andrada Corra, que é dois anosmais jovem que eu. Hoje ela mora em Porto Alegre e édentista, já mora em Porto Alegre há muitos anos.

P/1 – Evaldo, e da sua infância? Vamos tentar recuperar algumas passagens da sua infância. Começando pelo ambiente, não sei se você passou grande parte da sua infância numa mesma casa, numa mesma região lá no Rio Grande do Sul. O que você lembra da coisa assim da rua, da casa?

R – Eu nasci numa casa que era próximo ao centro velho da cidade de Rio Grande, vamos dizer assim. Fiquei lá até cinco, seis anos, depois nós mudamos para a cidade nova, aonde foi, onde eu passei essa parte da infância, já e a minha adolescência, onde tem uma boa parte na vida, na cidade nova, vamos dizer, onde eu tenho a maior lembrança das coisas, da escola, doprimário, da época que se jogava muito futebol na rua. Tinha uma praça de esportes que era o ponto de maior frequência de molecada daquela época. Todo mundo depois da escola, ou antes da escola, íamos pra lá pra jogar futebol, contar histórias. Geralmente toda a gurizada, como se diz, ficava nessa praça, ou tava na escola ou tava na praça jogando bola e soltando pipa,que lá no Sul se chama pandorga e os outros brinquedos de criança, porque naquela época era tudo mais natural. Então tinham determinados períodos do ano que se brincava com algum brinquedo específico. Tinha época que se fazia carrinho com lata de leite em pó, por exemplo. Enchiam essas latas com areia, colocava arame, ia fazendo como se fosseuma carreta, cheia de latas emendadas com arames e tinha uma época que se brincava muito com aquilo. Outra época era bolinha de gude, outra época, quando é época do vento, se soltava muita pandorga, que aqui chama pipa, e o futebol que era direto. Eram mais ou menos essas as brincadeiras, assim. Tinha época também, muito interessante, na época de podarem as árvores, de um dia pro outro, por exemplo, a prefeitura cortava as árvores, deixavam aquelas ramagens para serem recolhidas no dia seguinte. Então nesse dia a gente fazia cabana de índio, montava-se uma aldeia. A gente brincava disso também, que era uma coisa muito legal. Fazia fogueira com todas essas sobras das arvores, vamos dizer assim. Uma lembrança muito legal também que a gente tem.

P/1 – Tem alguma pessoa especial dessa época, algum amigo, uma amiga, que talvez tenha te acompanhado aí mais pra frente, na sua vida? Alguma amizade especial?

R – Tem um primo, um primo-irmão, o Verossi, que nós fomos criados praticamente como irmãos, que nós temos cinco dias só de diferença de nascimento. Nós temos a mesma idade. Ele nasceu cinco dias antes de mim, então nós fomos criados juntos como irmãos, porque como eu tenhosó uma irmã, né, a parte de brincadeiras de menino,essas coisas, eram tudo com ele. Então a gente foi crescendo juntos. Todas essas brincadeiras, as escolas do primário, do ginásio, do científico, tudo a gente praticamente estudou sempre juntos. Então ele é pessoa que é mais próxima a mim nessa parte de menino.

P/1 – E como que era o relacionamento com seus pais nessa época? Pelo que você tem falado, era uma vida muito gostosa assim, de brincar na rua, livre.

R – Muita liberdade, tudo isso.

P/1 – E como que era sua relação com seus pais? Como seus pais entravam no meio nessa história toda?

R – Ah, os meus pais foram muito liberais, vamos dizer, considerando aquela época né? A minha mãe ficava mais em casa conosco. O meu pai trabalhava na indústria e ela ficava, vamos dizer assim, estimulando as nossas potencialidades, vamos dizer. Inclusive essa tendência à música foi ela que descobriu. Ela conta bem essa história, porque eu tenho uma diferença de dois anos com relação à minha irmã. Então quando ela estava grávida da minha irmã, perto da minha irmã nascer, eu tinha um ano e pouco. Então é época que a criança faz muita bagunça. Fica puxando toalha, arrasta cadeira, faz todo tipo de bagunçadentro em casa. E ela precisava fazer o trabalho doméstico e eu azucrinando.E ela descobriu, acho que pela intuição materna, que eu ficava quieto me dando uma lata e um pedaço de pau, sentado noquintal, fala que eu ficava batendo. Ela fala que eu ficava batendo aquela lata, a tarde inteira, até a lata amassar totalmente. Quer dizer, o meu lado de percussionista e de baterista, foi ela que descobriu já a um ano e meio mais ou menos de idade, eu já tinha esse veio artístico, vamos dizer, esse veio de batuqueiro, vamos dizer (riso).
P/1 – Nós vamos caminhar por esse lado musical, mas antes disso, só pra registrar, a sua vida escolar nesse meio tempo. A sua escola, era uma escola grande?
R – Não, era uma escola média,uma escola estadual, que naquela época era o primário. 
P/1 – Você era estudioso?
R – Não, eu não era estudioso, eu gostava da escola, gostava muito da vida social da escola. Agora, de estudar eu não era muito não. Tanto é que as atividades extracurriculares eu fazia com o maior prazer, com a maior tranquilidade. Agora estudar mesmo, nunca fui muito de estudar. Depois, na faculdade, que aí sim, você já é maior, já fica mais concentrado, mas no primário eu era muito disperso. Não sei se por causa dessa tendência à criatividade,ea parte da música, tudo isso era bem trabalhado porque naquela época nós tínhamos aula de canto. Era na época que tinha aula de coral, que se chamava canto orfeônico. Então se cantavam cantigas tradicionais, regionais do Brasil inteiro, tudo isso, eu fazia com o maior prazer, bem concentrado nisso. A parte de esportes também, nem se fala, e toda essa atividade cultural, participava muito bem. Se tivesse nota pra isso, eu teria dez. Agora nas outras matérias mesmo, português, matemática, eu já não era muito. Matemática que era o meu ponto fraco, masportuguês, geografia, história, eu sempre saía bem. Onde tem mais essa parte lúdica de ficar criando, imaginando, contando histórias, isso é mais fácil. O pensamento lógico já que é mais difícil pra minha cabeça.
P/1 – E Evaldo, só pra gente imaginar melhor todas essas histórias que você tá contando, qual que era o tamanho de Rio Grande nessa época, da cidade, mais ou menos?
R – Rio Grande é pequeno. Hoje tem mais ou menos uns 250 mil, 300 mil habitantes, no máximo, porque a cidade cresceu muito em função do superporto, que muita gente de fora veiopra Rio Grande isso há 40 e tantos anos atrás, não, só moravam mesmo os habitantes. Na época Rio Grande tinha o que? Entre 15 e 20 mil habitantes, mais ou menos. Uma cidade pequena, porque ela também é limitada pelo mar. Rio Grande fica à direita, na margem direita quando a Lagos dos Patos se encontra com o Oceano Atlântico. A margem direita tem um banco, uma península, um braço de areia e ali que Rio Grande foi se desenvolvendo, por ser um ponto estratégico, que anteriormente os portugueses e os espanhóis, na época da dominação, eles disputavam esse ponto porque militarmente era umponto estratégico. Quem dominava esse ponto dominava toda a entrada da Lagoa dos Patos. Então a partir dessa disputa é que a cidade foi se desenvolvendo. Primeiro fizeram um forte, junto com o forte uma igreja, e a partir daí que Rio Grande foi crescendo.
P/1 – Bom, voltando lá na época de Rio Grande com 15 mil habitantes, vamos tempo passar da sua infância, chegar na sua adolescência, tendo como fio condutor dessa narrativa, a sua descoberta e sua aptidão pra música. Sua mãe, você tava dizendo, que ela descobriu, começou descobrir esse seu lado quando você tinha um ano e meio.
R – Um ano e meio, mais ou menos.
P/1 – Te dando a lata lá. Como é que foi seguindo esse seu contato com a música? O estímulo que a sua mãe dava pra esse seu dom? Conta pra gente como foi isso.
R – É, ela ficou me estimulando de várias formas. Primeiramente com a música daquela época, que se ouvia. Então em casa tinha uma vitrola que ficava tocando aqueles discos bem legais da época. Então se ouvia de tudo, desde Teixeirinha até Luiz Gonzaga, se ouvia de tudo. Passando por Elza Soares, Miltinho, Cauby Peixoto, Angêla Maria. Todos aqueles artistas daquela época. E a parte também da música experimental, que mais tarde eu, como músico profissional, acabei desenvolvendo. Que também foi ela que me estimulou, por exemplo, a fazer música numa caixinha depasta de dente. Foi ela que me mostrou que a partir daquele tubo de papel, podia se transformar em um instrumento. Fazia som, se soprava naquela caixa, e ali saía som. Quer dizer, isso também foi ela que me despertou essa parte mais alternativa da música, vamos dizer.
P/1 – Mas seus pais eles tinham, eles têm alguma ligação com a música, a não ser o prazer de ouvir? Eles são músicos?
R – Não, profissionalmente não.
P/1 – Mas eles tocam alguma coisa?
R – Não. Meu pai não, minha mãe também não, mas eles têm um ouvido muito legal.Os meus tios, tanto por parte de pai como parte de mãe, vários tocavam instrumentos. Nunca chegaram a ser profissional. Por parte de pai tinham dois tios que tocavam percussão. Por parte de mãe também tinham dois tios que tocavam banjo. Esse meu tio, meu tio João, tocava banjo e trombone e tinha o outro tio que tocava violão. Inclusive tem uma história muito importante, muito curiosa que o meu pai conta. Que eu tinha uns três ou quatro anos, e esses meus tios sempre ficavam lá em casa, que na casa do meu pai era onde que se reuniam, tanto o lado do meu pai quanto o lado da minha mãe. Os meus tios maternos e paternos se juntavam. Então como tinha esse lado musical dos dois lados, eles acabaramformando um grupo e ficavam tocando, em casa e iam pra rua. Porque lá em Rio Grande, na época, tinha muito essa questão de se formavam grupos regionais. E os caras saíram tocando pelo rua a acabaram num bar perto do porto. Isso era uma segunda-feira de Carnaval,terça-feira, uma coisa assim, e começaram a tocar. E foram indo, daqui a pouco chegaram uns gringos, começaram a conversar, oferecer bebida, aquela coisa toda, e convidaram eles pra ir tocar no navio. “Ah, vamos lá no navio tocar um pouquinho”, aquelas coisas assim. Os caras falam em castelhano, os caras foram. Só que o navio tava indo embora. E os caras subiram no navio pensando que iam lá tocar um pouquinho no navio, pra eles irem voltar. Quando eles perceberam, depois que o efeito do álcool passou, os caras estavam em alto mar, ou seja, eles foram a Montevidéu no navio e voltaram tocando(risos). Entraram de gaiato no navio, né? (riso). E todo mundo preocupado, “Pô, cadê? Onde eles foram? Se perderam?”, eles ficaram procurando, foram procurando nos hospitais, procuraram nas delegacias em tudo que é lugar e nada. Daí a um mês, mais ou menos, eles voltaram. Aí que o navio voltou de novo. 
P/1 – Um mês depois?
R – É, porque aquela época o navio saiu do porto de Rio Grande, foi pela costa, foi até Montevidéu. Carregou, descarregou, aquele tempo de espera, voltou pela costa de novo. Até voltar no porto de Rio Grande, foi praticamente um mês. Tava todo mundo desesperado já.
P/1 – Mas e aí? Aí você descobriu essa sua aptidão. Sua mãe sempre te estimulando, você com todas essas referências musicais que você ouvia na sua casa.
R – Na escola, a parte do coral, que também desenvolvi bastante essa parte de canto.
P/1 – E como é que você foi tomando conhecimento, vamos dizer assim, tomando consciência desse seu dom? Começando tocar algum instrumento? Como começou? Com que idade? Em que situação?
R – É, começou com sete, oito anos. Como eu disse, essa parte de ter um coral na escola te estimulava pra outras coisas. Então em determinada festa que não tinha só o coral, então ia ter outros instrumentos. Um outro menino que já sabia tocar violão também ia participar em determinada música, no final do ano, apresentação da escola, por exemplo. E eu entrava com percussão. Pegava um tambor ou uma cubana, que lá no Sul chama cubana, que aqui em São Paulo chama timba, lá no Sul chama cubana. É praticamente o mesmo instrumento, só troca de nome. Eu já participava junto com o grupo, tocando percussão, como eu já conhecia a música, cantando. Então eu já cantava com o coral e participava tocando a percussão junto.
P/2 – A sua mãe que te dava esses instrumentos?
R – A minha mãe que me dava essesinstrumentos, me estimulava. Arrumava com um, arrumava com outro, meu paitambém “Ah, deixa que eu vou lá buscar”, e nas festas já chamava o pessoal pra vir cantar em casa. O pessoaldo coral também vinha pra festa em casa, os vizinhos. E ficava aquela comunidade musical, vamos dizer. Aprendi uma música na escola, passava pros outros meninos, que estudava na outra escola. E paralelamente já ia se montando um repertório familiar. E aquilo ia crescendo, foi crescendo até que mais ou menos com 15 anos, se formou a primeira banda, vamos dizer, que eu toquei assim. Já era um argenesi, vamos dizer, um começo assim de uma banda de baile, que mais tarde a gente começou tocar em bailes, aí já partimos pro lado profissional. Que isso tudocomeçou em casa, como começam várias famílias de cantores, de músicos, de conjuntos, que primeiro começa familiarmente. Depois aquilo vai se externando, “Ah, você tocou no aniversário de fulano, vai lá e toca no meu um pouquinho”, “Ah, você tocou no do outro, já toca naquele”. E vai indo. Daqui a pouco quando você vê você já tá em cima de um palco, já cantando num baile mesmo. Aí já é uma responsabilidade, aí já dá tremedeira. Até então. 
P/1 – Mas como começou tudo isso? Vocêtocava na escola, enfim, masconta quem eram as pessoas que estavam envolvidas nessa primeira banda. Como é que foi a decisão de se formar a banda? Conta um pouco essa história com mais detalhes.
R – Essa banda se formou com os próprios moradores da quadra, vamos dizer, o pessoal que moravam no mesmo quarteirão. Um tinha uma tendência a tocar violão. Eu mais na bateria e cantava um pouco também. Mas nessa primeira formação eu comecei como cantor. Tinha outro menino que tocava bateria, eu fiquei como crooner e o outro da esquina arranhava um contrabaixo e a gente começou a montar essa banda. Começou a tocar na garagem da esquina, da casa do baixista, a gente se reunia lá pra ensaiar, tirar as músicas, tudo isso, na casa do menino da esquina que tocava o baixo.
P/1 – Isso com 15 anos, mais ou menos?
R – É, com 15 anos. Praticamente com 15 anos.
P/1 – E como foi o primeiro baile, o primeiro show?
R – O primeiro baile foi num dia da Natal, numa sociedade de origem polonesa. Na época chamava Águia Branca. Fizeram uma festa de Natal e nós fomos participar dessa festa voluntariamente, sem ganhar nada, só pra tero prazer de tocar e mostrar que é artista, aquela coisa toda. Foi num Natal. Natal de mais ou menos 67, por aí, 66/67.
P/1 – Depois disso a banda engrenou?
R – Depois disso a banda engrenou, começamos a tocar. Aí já tinha amplificador, já tinha bateria, tudo na forma bem original, mas era já um som elétrico. Porque até então a gente usava instrumentos emprestados. Tínhamos que ir lá na escola das freiras pegar uma bateria velha pra poder ensaiar. O outro guitarrista pegava um rádio, aqueles rádios com olho mágico, um rádio grande, aqueles Semp antigo, fazia uma gambiarra lá, não sei como é que era, e ligava a guitarra ali. Saía aquele som superrachado, mas não interessa, dava pra ensaiar. O baixo tinha uma caixa com um alto falante. Tocava e aquilo tudo vibrava. Pra definir a nota, um inferno, ninguém sabia que nota que era, mas tava bom, tava bom demais.
P/1 – E na medida em que a banda foi se profissionalizando, enfim, como seus pais foram acompanhando esse amadurecimento da sua carreira profissional? Eles que estavam sempre do seu lado, estimulando, enfim?
R – Ah, eles gostaram, lógico, porque de uma certa forma, os pais sempre projetam nos filhos os seus ideais, algumas coisas que eles não conseguiram ser. Ou por própria imposição da vida, ter que trabalhar, casaram jovens, tudo isso. Projetam nos filhos esse lado das suas realizações. Então é sempre: “Ah, que legal, você já tá cantando. Vai ter baile quando? Como é que é?”, “Ah pai, precisamos levar os instrumentos pra tal lugar”, “Ah não, deixa que eu levo. Pode pôr no meu carro”. Naquela época usava aqueles carrões antigos, aqueles Chevrolet, aqueles Ford Bigode. Colocava tudo lá dentro e “Deixa que eu levo”. Quer dizer, sempre me deram todo esse apoio pra essa parte musical.
P/1 – E você ficou em Rio Grande até que idade? Você montou a banda com mais ou menos 15 anos?
R – É, eu fiquei m Rio Grande até 22 anos, mais ou menos. 
P/1 – Sempre com essa banda, ou alguma outra? Essa banda durou esse sete anos?
R – Essa banda durou. Inclusive depois que eu saí de Rio Grande, essa banda continuou. E hoje, eventualmente, os caras ainda se reúnem uma vez por ano, quando tem um aniversário, algum evento assim, eles se encontram pra tocar de novo. Quer dizer, pararam de tocar profissionalmente, hoje já são pais, avós, todos têm o seu trabalho, muitos já estão aposentados, e voltaram a ter a música como hobby, como era na adolescência. Quer dizer, a vida deu aquele ciclo todo, voltou ao ponto de partida.
P/2 – Desses 15 ao 22 anos,a banda era sua ocupação principal? O que mais você fazia? Lá na época que você tinha a sua banda, o que mais você fazia de legal?
R – Ah, eu fazia o esporte, eu jogava futebol. Porque inclusive, antes de começar na música, eu jogava futebol na escola, também. E cheguei a jogar no juvenil de um time profissional, no Riograndense, lá em Rio Grande. Porque lá em Rio Grande, na época, tinha três times. Tem o Rio Grande, que é considerado o time mais velho do Brasil, o Sport Club Rio Grande. Tem o Riograndense, que eu jogava no juvenil e tem o Sport Club São Paulo. Tem esses três times lá, que na época eram os três times profissionais, que disputavam o campeonato do Rio Grande do Sul profissionalmente. E eu jogava no Riograndense. Então jogava futebol no juvenil e estudava, e gostava de música. Ficava meio que fazendo aquela musiquinha com o pessoal da esquina, mas ainda não era nada definido. Aí com 13 pra 14 anos eu machuquei esse joelho aqui, aí sim, aí futebol ficou de lado porque aí não tinha mais como..., né, eu queria ser profissional e tudo. Aí comecei a ter problema com essa joelho, tive dificuldade de voltar a me movimentar. Depois da cirurgia teve um grande período de fisioterapia, fiquei com medo, tudo aquilo. Enquanto isso,a parte musical já tinha avançado. Quando o médico falou: “Agora vocêjá pode jogar futebol”, digo: “Ô doutor, agora já tô na banda lá da esquina. Eu já tô tocando no Long Rivers. Sábado tem baile, vamos lá?”. Quer dizer, aí futebol ficou meio de lado. Quer dizer, voltei a jogar futebol aí só no time da faculdade, aquelas coisas todas. Depois quando eu fui pra fora do Brasil, que aí nos voltamos a jogar futebol, não profissionalmente, mas só pra fazer aquele network, né, pra chamar tudo pra focar na música.
P/1 – E nesses sete anos, no Rio Grande, com a banda, tem alguma história especialmente marcante envolvendo a banda? Algum show, algum ensaio, algum episodio que te marcou assim, ou pro lado positivo ou negativo, por ser feliz ou triste.
R – Tem, teve uma época muito legal que eu não sei se seguindo a rota daquela história que aconteceu com meus tios, uma época havia um navio que saía de Porto Alegre, vinha por dentro da lagoa, um navio que fazia turismo. Passava pelo Porto de Rio Grande e ia pela costa e ia até Montevidéu e voltava. E uma época nós fizemos essa viagem também, tocando nesse navio, que era o Navio 33 Orientales. Saía do Porto de Porto Alegre, vinha por dentro da lagoa, passava em Rio Grande e voltava. E acompanhamos vários cantores porque … Marcio Greyck, naquela época, Vanderlei Cardoso, Vanderlea, Jerry Adriani. Vários cantores iam fazer show em Rio Grande, e eles não levavam conjunto, não levavam banda porque era muito caro, então pegavam a banda da cidade pra acompanhar. Então a gente, muitas vezes fizemos várias turnês pelo Rio Grande do Sul, algumas coisas no Uruguai e na Argentina, acompanhando esses cantores que saíam daqui do grande centro de Rio-São Paulo e iam fazer show lá pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina e a gente acompanhava esses cantores. Foi uma época bem legal, assim, que a gente traçou bastante contatos entre esses cantores. Tivemos alguns convites até pra virmos pra cá, pra Rio-São Paulo fazer show, pra vir pra cá. Mas como, se os caras da banda também tinham outra ocupação? Como lá não se conseguia viver só disso, o cara tocava guitarra, mas trabalhava no cartório. O outro tocava bateria, trabalhava na refinaria de petróleo. O outro tocava baixo e tinha outra ocupação também. Todo mundo na época, quando recebemos esse convite, todo mundo já tinha uma certa estabilidade. Outro já era noivo, outro já tinha casado, então o pessoal: “Poxa, não vou sair daqui agora. Eu já tenho toda essa estrutura”. Então por isso a banda foi ficando mais lá, com sede em Rio Grande, fazendo algumas coisas nos espaços que dava pra ir. Como Uruguai e Argentina ali é perto, dava pra fazer. Dava pra sair quinta-feira à noite, voltar no domingo à noite, dava pra fazer show nesse espaço de tempo.
P/1 – E nesse período, teve algum relacionamento amoroso seu, alguma coisa que te marcou nessa adolescência, começo da juventude?
R – É, mais ou menos, porque como você fica sempre envolvido com música, com vai pra lá, vem pra cá, você não tem uma namorada fixa assim, ainda mais como cantor. Na época era crooner, ficava na frente do palco. É muita namorada, não dá pra você se fixar. É uma namorada aqui, é uma namorada ali, uma hoje, uma amanhã. Tinha a namorada num baile, a namorada no outro clube. É, puxa, essa parte musical te dá muito isso, te dá até demais. Muitas vezes se você não tem uma certa disciplina, até pra seguir depois na vida profissional como músico, se você não souber administrar bem essa parte de relacionamento com namoradas, a gente até se perde. Tem vários casos, os caras tão legal aí, o cara tem uma mulher aqui, uma mulher lá, já tem um filho com essa, um filho com a outra, aí você tá cantando, chega umas duas. Aí daqui a pouco chega outra que você já teve um tititi, quer dizer, ou seja, se você não souber administrar bem isso, acaba até prejudicando seu lado profissional, porque é demais, demais mesmo. Não pelo dinheiro, mas é mais pelo glamour. Pra elas: “Pô, namoro o cantor da banda tal, outra: Ah, é você?”, já fica aquele monte de namorada querendo aquele cara. Às vezes nem é por nada, só porque você tá lá no palco. Se às vezes acontecer dela te encontrar na rua, não vai acontecer nada, mas você, estando no palco, já é um outro referencial.
P/1 – E 22 anos, você sai de Rio Grande com 22 anos. Em quais circunstâncias você saiu de lá? 
R – Eu saí porque nós acabamos, tínhamos recebido um convite legal. A banda tinha recebido um convite legal pra fazermos uma turnê no Rio de Janeiro. Tínhamos um lugar fixo, ela sai de Rio Grande nós íamos ficar tocando numa churrascaria no Rio de Janeiro. Um convite de um cara que tinha uns contatos lá, ele era meio empresário, ele tinha uma empresa de materiais plásticos, mas também agenciava, levava cantores, essas coisas todas. Ele fez o convite e esse amigo, que era dono da churrascaria que tava precisando de uma banda pra ficar lá. E ele fez o convite: “Pô, a banda é legal, vocês tocam legal. Tem um trabalho fixo, tem alojamento, tem tudo isso. Vocês podem ir e fazer uma temporada lá de dois, três meses. Se vocês gostarem vocês ficam, se não, vocês voltam”. E ninguém topou, por causa dos seus trabalhos fixos lá e depois você vai ter que deixar tudo que tinha lá. E eu tinha aspirações de trabalhar com música profissionalmente, e pra isso, precisa sair do interior e vir pra uma grande cidade, ou Rio ou São Paulo. Então esse convite primeiro saiu pra nós irmos pro Rio de Janeiro. Os caras “Não, não vou”, e eu: “Puxa cara, e agora? O que que eu vou fazer? Eu não vou ficar aqui”. Sempre tive isso na minha cabeça, de sair. O meu pai também me incentivava: “Ó meu filho, um dia você vai ter que sair”, e tudo. Inclusive um dia aconteceu um fato interessante. Tem o Maestro Portinho, é um maestro bem conceituado. Na época ele regia a orquestra da TV da Cidade do México. Ele é um cara lá da minha cidade, Riograndino que ele precisou, tava precisando de um baterista pra substituir um baterista que tinha saído da orquestra dele e ele mandou um pedido lá pra rádio de Rio Grande. E os caras da rádio direto foram pra minha casa, porque na época a nossa banda, aLong Rivers era a banda que tava mais assim conhecida na cidade. Os caras, a primeira coisa que lembraram, foi da nossa banda e foram na minha casa, me convidar pra ir pro México, pra integrar a orquestra da banda doCoronel Portinho. Aí meu pai falou “Pô”, né época eu tinha 17 pra 18 anos, falou: “Pô guri, eu acho que você ainda não tá preparado pra isso, você não conhece nem o Brasil direito ainda, você não tem uma formaçãomusical. Como eu não tinha mesmo, e tava coberto de razão. “Eu acho que é melhor você primeiro se preparar, acabar seus estudos, você ainda nem entrou na faculdade, você não é um musico profissional, você não sabe ler partituras, né? “Ele falou isso pra mim, me lembro bem essas palavras: “Você não sabe ler partituras ainda”. Lá você vai precisar ter uma cultura musical. Você toca bem e tudo, mas é música POP. Éoutra concepção. Você precisa primeiro estudar, se preparar bem aqui no Brasil, depois essas chances de você ir pro Exterior, isso naturalmente vai acontecer. Então ele falou: “Olha, pensa bem, mas eu acho que você ainda não tá preparado pra sair daqui e ir direto pro Exterior. Acho que você precisa pegar uma boa bagagem nacional, conhecer bem o mercado brasileiro, pra depois você ter condições de ir pro Exterior, com estrutura, com uma boa base. Tanto musical quanto de maturidade, de saber a vida”. Ele tá coberto de razão. Porque hoje a gente vê que vários artistas em vários ramos, não só na música, como na parte de teatro, na parte de manequins. Às vezes as meninas, eu falo isso porque eu tenho filha que é modelo, então você vê muito isso no meio das meninas. Às vezes não estão preparadas para ir pro Exterior, pra sentir saudade de mãe, de pai, de cachorro, da boneca, do quarto, não sei que. Você tem que teruma certa maturidade pra sua carreira profissional poder deslanchar.
P/1 – Aí você ficou, continuou lá em Rio Grande.
R – Fiquei em Rio Grande. Aí no verão seguinte eu fui pro Rio de Janeiro pra ver como é que era o mercado lá, a convite do Cidinho Teixeira, que é um pianista também lá de Rio Grande, agora ele já mora em Nova York já há muitos anos. Na época ele tocava com a Eliana Pittman, tocava com o Gilberto Gil, tocava com o Tom eDito. com esses três artIstas, ele acompanhava basicamente esses artistas. Ele falou: “Vem aqui no período de férias, que era entre Janeiro e Fevereiro, vê como que é o mercado, vê se você se encaixa, se você gosta”. E eu fui, fiquei esses dois meses na casa dele, fiz vários contatos. Ele falou: “Se você quiser, a minha casa está à disposição, você vem pra cá. Eu também tenho outros contatos”. Ele conhecia muitos músicos, ele também tinha um trabalhomuito forte de estúdio, que você acaba gravando commuita gente, vai conhecendo. Aí o cara grava os discos no estúdio e vai precisar de músicos pra fazer turnês, essas coisas todas. Aí eu achei legal, aí fui pra Rio Grande, falei: “Ó rapaziada, vou ficar mais um mês aqui, vocês arrumem outro baterista pra ficar na banda que eu tô indo pro Rio de Janeiro, vou continuar minha carreira profissional lá, já que ninguém vaiseguir, eu não vou ficar aqui mesmo”. Aí fui pro Rio de Janeiro.
P/1 – E o senhor não tinha nem entrado na faculdade? Lá no Sul?
R – Não, eu já tinha, entre esse espaço aí, eu já tinha entrado na faculdade.
P/1 – Que era o curso de …
R – Eu entrei no curso de filosofia. Fiz filosofia, aí quando eu estavano terceiro pro quarto ano, que eu falei “Agora eu vou”, por isso que a minha faculdade ficou pela metade. Aí cheguei no Rio de Janeiro, já comecei a tocar. Caína noite, toquei em bandas de baile, tudo isso, não voltei mais pra concluir meu curso, ficoutrancado minha faculdade lá, que acabou caducando. No caso agora tem que voltar a fazer tudo de novo.
P/2 – Mas como você conheceu esse pianista?
R – Porque ele era da minha cidade.
P/2 – Ah, ele era da cidade de Rio Grande.
R – Ele era, exatamente, ele era de Rio Grande, que na época ele morava no Rio de Janeiro. Aí ficamos bastante tempo fazendo vários contatos no Rio de Janeiro. Depois eu fiquei no Rio, aí ele já foi pros Estados Unidos e ficou lá até agora.
P/1 – E como é que foi essa sua chegada no Rio de Janeiro? Chegar na metrópole, cheio de expectativas e... Quais são as suas primeiras lembranças?
R – É, foi bastante chocante porque pra o que eu tocava, pro meu conhecimento musical, pra cidade onde eu morava no interior do Rio Grande do Sul, o que eu sabia de música, tava tudo certo. O Cidinho falava: “Vai lá ver tal show”. Na época tinha muito o projeto Seis e Meia da Sala Funarte, no Rio de Janeiro, eu ia muito no Seis e Meia, ia nos projetos do MAM, e saía nos bares da noite, em Ipanema, no Leblon, em Copacabana. Quando eu comecei a ver os bateristas tocando eu falei: “Eu não sei nada, gente”, que eu achava que eu tocava muito, que eu não tinha concepção, não tinha noção dos outros bateristas que existiam no Brasil. Aí que começou a cair a ficha do que o meu pai tinha falado. “Poxa, tenho que estudar muito”. Aí que eu comecei a estudar música, aí entrei no Conservatório Graça Aranha, pra aprender a ler, estudar música, tocar bateria por partitura, tudo isso. Comecei lá, demorei dois anos pra entrar na Escola Villa Lobos, que aí continuei estudando na Escola Villa Lobos. Depois que eu consegui entrar na Escolinha da Orquestra Sinfônica Brasileira, que eu estudei um pouquinho de percussão clássica, pra poder fazer essa formação, que a minha formação era tudo de ouvido, ouvia a música, tocava igual, pra poder tocar no baile. Que a minha formação é de baile, como muitos músicos têm essa formação, que vem do baile. Depois é que você é obrigado quase que por imposição mesmo do mercado, você tem que, de um dia pro outro, já tá tocando partitura. Porque, por exemplo, quando eu cheguei no Rio de Janeiro, como eu não sabia ler, eu cheguei a perder vários trabalhos porque eu não sabia ler música. Por exemplo, tinha trabalho de jingles, coisa de 30 segundos, mas tá tudo escrito. Você tem que tocar ali o que tá escrito pra poder dar certo. Como eu não tinha essa habilidade, muitos trabalhos eu perdi. Aí entrei na escola pra poder aprender a parte de teoria da música, né? 
P/1 – Pra poder completar sua formação, né?
R – Pra completar minha formação, deixar só de orelhômetro pra chegar na parte profissional mesmo.
P/1 – Evaldo, só pra gente dar uma contextualizada, nós estamos falando de que ano, essa sua chegada ao Rio de Janeiro?
R – Aí já é 73, por aí, 72 pra 73.
P/1 – Você chegou e ficou hospedado na casa desse seu conterrâneo, ou não?
R – Não, ele já tinha contactado outros músicos, porque ele já era casado, tudo, com filhos, com tudo,já programou a minha chegada, pra ir morar com outros músicos, lá em Copacabana.
P/1 – E como era essa vida nessa república de músicos aí em Copacabana?
R – Ah, era muito interessante. Era de manhã praia, à tarde praia e à noite música. Claro, nesses meio de praia e praia, tinha uma parte que você era obrigado a ficar em casa pra estudar, porque era na paralela que eu tava fazendo os cursos. Tanto do Graça Aranha quanto lá do Villa Lobos, e depois da OSB. Então tinha dias que você tinha que estudar, porque à tarde tinha que prestar conta daquela lição, porque o mestre tinha passado. E a turma queeu caí, o pessoal já tinha uma boa concepção. Então eu cheguei pra correr atrás, então eu tinha que estudar mesmo. Então tem um fato interessante, que tinha dias que eu tinha que fechar a casa pra não ver que tá sol. Porque você chegava na janela, via que tava aquela mulherada passando de biquíni, com prancha debaixo do braço, indo pra praia e eu tinha que estudar porque tinha que chegar lá com a lição pronta, com tudo bem certinho. Porque na escola você não podia ficar pra trás, porque é escola do governo, você tem que acompanhar. Se você falta muito ou se você não acompanha, a sua vaga já passa pra outro. Então eu tinha que estudar bastante. E muitas vezes eu fiz isso, fechava tudo, acendia a luz, faz de conta que tá chovendo, que não tem praia, pra poder ficar estudando.
P/1 – E essas pessoas, esses colegas de apartamento te acompanharam algum tempo? Se tornaram amigos?
R – Muitos se tornaram amigos, ficaram, ás vezes chegamos até a tocar juntos com um dois, nós tocamos uma época na noite, num bar. A gente tocou muito tempo num bar que chamava Meia Meia. Era um bar em Botafogo, na Rua das Palmeiras, meia meia. Era época em que as gravadoras programaram fazer lançamentos mais de mulheres. Então foi na época que as gravadoras começaram a lançar Fátima Guedes, Sandra Sá, a Fernanda, lançaram a Fafi, um monte de cantoras. E essas cantoras todas nós conhecemos nesse bar. Porque o pessoal ia lá, fazer, dar canja. Desse bar também às vezes saíamos pra fazer pequenos shows em faculdades. Fazia show na GV, fazia show na própria Funarte, fazíamos shows num bar muito legal. Na época, o Vinícius de Moraes, a Tereza Tinoco, uma outra cantora também que eu acompanhei bastante tempo no Rio de Janeiro. Nós fizemos uma temporada no bar do Vinícius de Moraes. Nessa época o Vinícius de Moraes já tava com a saúde bem abalada. Nós tocamos no bar dele, que o bar do Vinícius, em Ipanema, chamava Cirrose. O Vinícius já tava no bico do corvo, como a gente fala na gíria, e o bar se chama Cirrose. Ficamos em cartaz muito tempo, nesse bar.
P/1 – E tem alguma história em que o Vinícius tá presente?
R – Não, nessa época o Vinícius já tava mal. Ele, nesse show, ele nunca foi no bar. Nunca foi lá porque ele já tava no hospital. Ficava entre o hospital e casa, porque ele não queria ficar. Tem uma história que conta que o Vinícius foi no médico, o médico falou: “Vinícius, você tá mal. Você tem que parar de beber, você tem que parar de fumar”, ele falou: “E aí doutor, eu morro quando?”.
P/2 – Como você sobrevivia? Tudo de cachê?
R – Tudo de cachê.
P/2 – Vocêse bancava completamente com música? Dividia os custos com o pessoal que morava com você?
R – Exatamente. Porque eu dei sorte. Eu cheguei no Rio de Janeiro numa quarta-feira, mais ou menos no outro sábado, na outra sexta-feira, já rolou um trabalho pra fazer num barzinho, uma coisa assim. Eu fiquei um mês, mais ou menos, fazendo esses trabalhos de barzinho. Depois eu consegui um trabalho de crooner numa banda de baile, lá na Zona Norte do Rio de Janeiro, por indicação do Cidinho Teixeira também. Aí entrei de crooner numa banda de baile, aí essa banda de baile tinha uma boa agenda. Nós tocávamos de quinta a domingo, cada dia num lugar, que aí acabei conhecendo o Rio de Janeiro bem. Bem Zona Norte, todos os bairros, tudo. Conheci tudo através dessa banda de baile. Cada dia você toca num lugar. “É um baile tal, amanhã nós vamos tocar em Cascadura. Amanhã, depois de amanhã, vamos tocar em Vila Isabel, no outro dia vamos pra Niterói.

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