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História

Música e perseverança

História de: João Carlos Martins
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Sinopse

Cheia de ironias e reviravoltas, a vida do paulistano João Carlos Martins renderia um roteiro de filme – como já aconteceu, aliás. Ao contar sua história, ele resumiu alguns dos pontos altos desse enredo. Lembrou-se de seu pai, português de Braga, que o incentivou a se envolver com as artes e, sobretudo, com o piano. Recordou-se do primeiro concurso que ganhou, por já dominar o instrumento, aos oito anos de idade, e de sua carreira prodigiosa, pelo Brasil e pelos Estados Unidos. Falou dos acidentes que, por duas vezes, o tiraram dos palcos, exatamente por terem interferido na principal ferramenta de um pianista: as mãos. João Carlos, no entanto, nunca deixou que essas pausas em sua carreira fossem definitivas. Em um dos trechos mais emocionantes, ele revelou o sonho em que o célebre maestro Eleazar de Carvalho apareceu para lhe indicar um novo caminho na música. Foi aí que o pianista se tornou também regente, montou a Bachiana Filarmônica Sesi-SP e criou um projeto de formação de orquestras no interior do Brasil – um antigo desejo de Villa-Lobos que ele se dispôs a, enfim, realizar.

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História completa

João Carlos Martins, nasci em 25 de junho de 1940, em São Paulo. Meu pai, José da Silva Martins, nasceu em 1898, na cidade de Braga, no norte de Portugal, e faleceu aos 102. E a minha mãe Alay Gandra Martins, de Ribeirão Preto, nasceu em 1907, no dia 16 de julho. Meu pai foi filho de uma mãe solteira. Imagine isso em 1898 em Portugal. Ele já sustentava a mãe aos dez anos, trabalhando numa gráfica em Portugal. Quando ele passava a caminho da gráfica, ele via uma aula de piano. Olhava para a professora tocando, dando aula de piano, ele ficava parado diante da janela. Até que ela falou pra ele: “Se você quiser, eu lhe ensino a tocar piano”. E ele ficou eufórico. Três dias antes da primeira aula, ao colocar a mão na prensa, ele dormiu um pouco, e a prensa decepou essa parte da mão dele e ele nunca pôde realizar o sonho de ser pianista. O meu pai veio para o Brasil por uma história de amor. Ele, aos 20 e poucos anos, se apaixonou por uma moça em Portugal, que era da família mais rica de Braga. E o futuro sogro deu a entender que, porque ele era de uma família muito humilde, talvez estivesse se casando por interesse. Ele foi pra Lisboa, tomou o navio, pegou o navio e nunca mais voltou a Portugal. Quando ele conheceu a minha mãe, ele se apaixonou. E ele falou pra ela depois de um ano: “Eu quero ficar noivo de você”. E minha mãe era uma família de 16 irmãos, ou 15 irmãos, se não me falha a memória. E o pai dela era fazendeiro, mas perdeu tudo na geada, uma famosa geada dos anos 20 ou 30. E ele falou pra minha mãe: “A única coisa que eu peço é que você aprenda a tocar piano”. E ela começou a estudar piano. Mas, depois de uns dois, três anos, meu avô materno falou pra minha mãe: “Olha, todas as amigas estão falando que, pra casar, você tem que tocar piano”. Aí ela esperou que ele passasse por Ribeirão Preto novamente e ela falou: “Se você quiser se casar comigo, é por minha causa, não por causa do piano. O máximo que eu posso aprender é tocar um violãozinho e olhe lá”. E os dois acabaram se casando. Ele veio morar em São Paulo. Eu nunca acreditava que o meu pai pudesse chorar. Ele era um homem muito firme, fazia de tudo pra não demonstrar emoção. Mas procurava que os filhos fossem inteiramente dedicados, na infância, a tudo aquilo que fosse relativo às artes. Em outras palavras, eu com oito anos tinha que ler livros e fazer resumos, assim como meus outros três irmãos. Íamos ao museu, ao Masp [Museu de Arte de São Paulo], que ficava na Rua Sete de Abril, do Assis Chateaubriand, pra ver obras de arte no campo de artes plásticas. Comprou um piano, três dos filhos começaram a estudar piano, mas, talvez, inicialmente, eu tenha demonstrado uma predisposição maior, apesar de o meu irmão José Eduardo ser um pianista sensacional – ele foi crescendo aos poucos, embora ele queira uma vida reclusa. E eu, logo de cara, ganhei um concurso com oito anos. Seis meses depois, eu ganhei um concurso nacional de piano tocando obras de Bach. E perguntaram pra mim se piano era difícil, eu falei: “Ou é fácil, ou é impossível”. E meu pai falou pra mim: “Nunca mais repita essa frase, meu filho. Quantas pessoas gostariam de tocar piano? Você recebeu o dom de Deus e nunca mais repita essa frase”. Eu nunca mais repeti. Hoje eu conto por ser uma frase importante dele pra mim. E no piano aconteceu uma coisa em que entra já a palavra sentimento. Eu botei a mão no piano e eu sofria bullying na escola porque eu tinha o meu pescoço aberto por causa de um tumor e vazava pus. E uma menina me protegia, falava: “Não se incomode”. Até que, quando eu estava no início dos estudos de piano, a mãe dela ligou o gás, se suicidou, e a filha também morreu.E eu lembro que eu estava chegando à casa dela, vi os dois caixões saindo. Deu uma rajada de vento, levantou o lençol, e eu vi o rosto da menina que me protegia. E eu lembro que eu subi correndo para o quarto e me afundei no piano durante anos. Isso fez com que eu, através da música, agradecesse àquela menina que me ajudou.O piano foi praticamente um refúgio da dor que eu senti naquela época. Era uma história totalmente ingênua, de duas crianças. Com 13 anos, eu comecei uma carreira fulminante no Brasil. Com 15 anos, ou 16, 15 anos, meu pai falou: “Eu gostaria que você tocasse...” – falou para o professor de piano – “Que ele tocasse O Cravo Bem Temperado, de Johann Sebastian Bach, inteirinho” – que, contando os dois volumes, são 96 peças de Bach. E acho que, antes de um ano, no Teatro Municipal, eu dei quatro concertos tocando O Cravo Bem Temperado de Bach inteirinho, de cor. Eu sempre digo que o dom de Deus são 2%, e 98% são disciplina. Sem os 98%, nada acontece. Sem os 2%, também nada acontece. Logo em seguida, o maior compositor argentino, que seria o Villa-Lobos do Brasil, chamado Ginastera, me convidou e eu fiz a minha estreia com orquestra. Primeiro eu fiz sozinho, com a Orquestra Sinfônica Nacional de Washington.A Eleanor Roosevelt até assistiu e falou: “Vou fazer a estreia dele no Carnegie Hall”. Então, aí é um golpe de sorte, que você não precisa passar por muitas fases pra iniciar uma carreira, ou ganhar outro concurso internacional, ou ter dinheiro, ou ter um empresário que se apaixonou pela forma como você toca. No momento que a Eleanor Roosevelt me convidou pra fazer a minha estreia no Carnegie Hall, aos 20 anos, já estava deflagrada a carreira. Apareceu um dos maiores empresários, foi a vida dos sonhos durante uns seis anos. Eu tive um acidente jogando futebol, uma pedra lesionou o meu nervo ulnar. Eu fui perdendo o movimento das mãos aos poucos. Aí fiz uma operação para a transposição do nervo ulnar, aos 25 anos, 24. Comecei a tocar com dedeiras de aço. Quantos concertos eu dei, tinha sangue nas teclas. Eu me entusiasmava demais, forçava a dedeira de aço. Até que eu toco em Nova York e tenho uma crítica ruim. Eu falo para o meu empresário: “Se o New York Times sempre me elogiou tanto, e criticou, ele está certo. Eu vou voltar para o Brasil e nunca mais vou olhar para um piano”. Foi uma decepção comigo mesmo. Eu falei: “Dediquei dos oito aos 30 anos de idade, 22 anos agarrado ao piano, e de repente eu não sou mais o pianista que eu queria ser”. Eu volto para o Brasil, vendo os meus pianos, vou morar na Alameda Lorena, aqui num apartamento, e viro diretor de uma agência de turismo de um banco. Aí fui patrocinador de boxe. Eu encontrei o Eder Jofre e falei: “Eder, você tem que recuperar o título mundial para o Brasil”. Ele falou: “Já tô velho.” Um ano e meio depois, ele recuperou o título mundial para o Brasil, e um ex-pianista era o patrocinador dessa luta. Quando eu vejo o juiz levantar o braço dele, eu falo: “Se o Eder recuperou o título mundial para o Brasil, eu também posso voltar ao piano”. Eu finalmente gravei a segunda parte da obra de Bach. Mas, na Bulgária, eu sofro um assalto, uma lesão cerebral, que atacou o hemisfério da fala.E eu, com uma carreira fortíssima novamente, os médicos falaram: “Pra você ter qualidade de vida, nós vamos ter que cortar o nervo da sua mão direita, mas você vai perder a mão para o piano”. Durante dois anos eu resisti, mas a dor era tão forte, que eu pego e falo para o meu empresário: “Eu quero dar meu último concerto em Londres, e no dia seguinte eu vou fazer a operação e perder a mão direita para o piano”. Faço o concerto em Londres, uma loucura, o público todo de pé gritando, eu beijo o piano, me despeço do piano, tomo o avião no dia seguinte, vou para os Estados Unidos, faço a operação, corto o nervo. Perco a mão direita, não tem músculo mais, nada. Aos 64 anos, quando tudo parecia perdido, eu tive um sonho com o Eleazar de Carvalho, que falou: “João, vá estudar regência”. No dia seguinte, às sete horas da manhã, tomei a primeira aula de regência, com o Júlio Medaglia. Resolvi formar uma orquestra, trouxe 18 músicos aqui pra casa, ensaiávamos. Mas manter uma orquestra sem governo, aqui no Brasil, é praticamente impossível. Pra manter a orquestra, com um ou outro patrocínio, era muito difícil. Então, o meu irmão Ives falou pra que eu procurasse os presidentes das federações, pra que cada um adotasse um. E o primeiro que eu procurei foi a Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], o Skaf, e eu falei: “Dá pra adotar um músico?”. Ele falou que tinha que pensar. Eu saí de lá deprimido. Mas no dia seguinte ele me telefona e fala: “Olha, tenho uma má notícia: não dá pra adotar um músico da orquestra. Mas tenho uma boa notícia: dá pra adotar a orquestra inteirinha”. E aí surgiu a Bachiana Filarmônica Sesi-SP, que já deu mais de 1,5 mil concertos.Contando a orquestra, contando apresentações no Brasil desde criança, na minha vida são cerca de seis mil apresentações.Faz-me falar “missão cumprida”. Com 26 anos, eu pensei em me suicidar, cheguei a entrar numa banheira com uma gilete. Aí tocou o telefone, era o meu professor, falou: “João, você teve esse acidente, mas fique firme”. Foi a única vez que esse sentimento passou. Hoje, eu digo o seguinte, o meu caso é só de um pianista que perdeu as mãos para o piano. É um problema muito menor do que uma pessoa que ficou tetraplégica, ou perdeu a visão. Comecei em janeiro o trabalho da minha vida, esse vai ser o legado que eu vou deixar no Brasil. A minha luta é fazer os maestros das cidades pequenas serem tão importantes como os prefeitos. E, depois que a orquestra ganha o selo de qualidade, passa a se chamar Orquestra Bachiana. Orquestra Bachiana de Cordeirópolis, Orquestra Bachiana de Goitacazes, Orquestra de Cataguases, Orquestra Bachiana de Belmiro Braga, Orquestra Bachiana de Taiuva, e assim por diante. E, daqui a cinco anos, eu darei um sorriso Colgate falando: “Temos mil orquestras no Brasil, de qualidade”. Escreva que esse é o projeto da minha vida. Já corri seis regiões, já me reuni com 40 maestros, depois vou estender. O projeto chama Orquestrando São Paulo, que vai se transformar em Orquestrando Brasil. E Villa-Lobos tinha uma frase: “Não é um público inculto que vai julgar as artes, são as artes que mostram a cultura de um povo.” Então, o sonho de Villa-Lobos era fechar o Brasil em forma de coração através da música. Quem sou eu perto dele? Mas ele não tinha nem internet, nem TV. Eu digo pra você: eu vou realizar o sonho de Villa-Lobos.

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